Frases


"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



quinta-feira, 26 de maio de 2011

Peça/Conto - A Galinha Degolada


OBS.: Imagens de divulgação da peça colhidas no Google

Há cerca de um mês, fui ao teatro. Pode soar engraçado, mas ainda não tinha tido a oportunidade de ir a um grande espetáculo, de certa forma devido a esse comodismo que tantas vezes nos priva, sem qualquer explicação, de fazermos coisas que tanto queremos. Mas, não é à toa que tudo tem sua hora certa de acontecer. Assim, tive uma grata surpresa ao ir ao Centro Cultural Dragão do Mar, aqui em Fortaleza, exatamente no dia em que seria encenada a peça A Galinha Degolada, baseada no conto homônimo de Horácio Quiroga.

Lembro de que tinha ido apenas para ver algumas exposições, mas assim que me deparei com anúncio da peça, no SESC Iracema, meus olhos faiscaram. Não tinha lido ainda este conto de Quiroga (só sabia que se tratava de algo dramático), mas já lera alguma coisa sobre o escritor, e parecia uma oportunidade perfeita de unir o útil ao agradrável. Comprei meu ingresso sem qualquer receio, e fui então ver as exposições antes do início da peça.

Ao voltar, deparei-me com uma enorme fila, com cerca de trinta pessoas, que foi outra surpresa. Não esperava todo esse movimento, e pensei que este talvez fosse um espetáculo em única apresentação. Após entrar, vi o palco e as arquibancandas, iluminados por uma fraca luz ambiente. Já quase não havia lugar livre, e tive que sentar bem na frente, diante do palco, onde já se vislumbrava um vulto de uma das atrizes, totalmente inerte, que se confundia com outros, que lembravam bonecos, aglomerados junto a ela. Pensava comigo mesmo, "seriam todos os atores já ali, enquanto o público se acomodava?"

Quando todos já estavam sentados (o que demorou bastante a acontecer, pois lotou o auditório), o espetáculo enfim começou. Era de fato uma das atrizes já no palco, e ela se ergueu assim que a iluminação local mudou de maneira natural, dando o ar de abertura à encenação. Junto a ela, quatro bonecos de aspecto sombrio e inquietante repousavam. Eu ainda não sabia, mas eles eram parte fundamental da peça.

E assim a encenação transcorreu. A história foi apresentada, outros atores entraram em cena, começaram a expor os conflitos, e eu pude aos poucos perceber toda essa atmosfera teatral, ainda inédita para mim e já tão fascinante, tão diferente de outras, como cinema e televisão.



Através dessa peça, um contundente e sufocante drama, percebi a intensidade da linguagem cênica. Diferente dos filmes, a ação está acontecendo ali, bem na nossa frente. Por mais que os atores tenham ensaiado exaustivamente, sempre parecerá a primeira vez, sempre terá que ter o mesmo peso. Outra coisa interessante é que não estamos limitados aos enquadramentos cinematográficos; podemos olhar para onde quisermos, buscar nosso melhor ângulo da peça a todo instante. Percebi isso mais claramente por estar sentado quase em cima do palco, e muitas vezes com os atores a poucos metros, no clímax de seus personagens.




A rotatividade deles, entrando e saindo de cena, os diálogos, as reviravoltas, os objetos em cena, a maquiagem e figurino, enfim, detalhes comuns a todos ligados ao teatro, mas bastante curiosos e interessantes para alguém que interaje com este mundo pela primeira vez. Inclusive, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o trabalho de iluminação. As luzes revezavam-se, para intensificar cenas dramáticas, e davam uma atmosfera bem realista. Alia-se a isso uma bela trilha sonora em momentos-chave e tínhamos no espetáculo um momento sublime, mágico.



Durante cerca de uma hora, todos esses elementos, somados ao talento dos atores e equipe de produção, levaram a história de um dos contos mais célebres do escritor uruguaio Horácio Quiroga a todos que assistiam. Triste, forte e de certa forma perturbador, o enredo de A Galinha Degolada tem uma força bem específica, e consegue marcar com grande facilidade. Lembro de que fiquei com a peça viva na cabeça dias após este. Tanto que uma das primeiras coisas que fiz após assistir a esse espetáculo, foi pegar o livro Contos de Amor, de Loucura e de Morte, de Horácio Quiroga, e ler A Galinha Degolada. E é ao conto, agora, que dedico as próximas linhas.

O primeiro parágrafo do conto já solta a bomba em nossa mão, vejam:  "O dia todo, sentados num banco no quintal, estavam os quatro filhos idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e viravam a cabeça com a boca toda aberta." Quatro filhos idiotas? Como seria isso? Por qual razão? (na peça, os filhos idiotas são representados por bonecos, seres desprovidos de vida, que vão de encontro à descrição de Quiroga).

Esse estilo narrativo, que já entrega a ideia geral do texto, sem qualquer rodeio, de maneira seca e direta, quase como um golpe em nossa mente, me lembrou bastante Franz Kafka, escritor tcheco, célebre por obras como A Metamorfose e O Castelo. Kafka costuma, em seus textos, ser direto e ágil, já expondo os fatos, sem se preocupar muito em explicá-los. Essa é uma linha muito interessante, sem dúvida, pois já nos coloca no meio do furacão.

Voltando a Quiroga, todas as quase onze páginas de A Galinha Degolada conseguem mexer com nossos sentimentos com grande propriedade, quase como um banho de inquietação. Os filhos idiotas são portadores de uma doença mental incurável, mas a maior doença que assola os quatro meninos é a falta de amor dos pais, retratada na maneira como tratam as crianças e a si mesmos. Quando o casal resolve ter um quinto filho, nasce uma menina, perfeitamente sadia, mas que desvela toda a conturbada relação de falta de amor e atenção que reina na família.

Ler esse texto após ter assistido ao drama foi uma experiência bacana. As cenas vinham à minha cabeça e completam as passagens do conto. Algumas, idênticas às encenadas, davam uma autenticidade ainda maior a toda essa mistura de sensações. Li ainda alguns outros contos de Horácio Quiroga, onde se percebe essa mesma carga, esse mesmo arrebatamento, que nos marca de alguma maneira, que pulsa e continua pulsando momentos após a leitura. Nas palavras do próprio Quiroga, no seu esclarecedor Decálogo do contista: "Não comece a escrever sem saber aonde ir. Em um bom conto, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância que as três últimas."

Fiquei com muita vontade, após ler o conto, de assistir novamente à peça, que acho que ainda está sendo apresentanda pelo Brasil. O espetáculo, na programação do projeto Palco Giratório, é produzido pela Persona Cia. de Teatro em parceria com a Teatro em Trâmite, com direção de Jefferson Bittencourt. Quem viu, sabe o quão marcante é, e aproveito novamente para parabenizar toda a equipe pelo ótimo trabalho realizada na adaptação da obra.



Todos estes acontecimentos recentes ainda desenvolveram em mim o gosto pelo teatro, esta arte tão antiga e tão representativa, tanto que estou buscando me aprofundar mais no assunto, visando quem sabe escrever ou até mesmo atuar!

Para finalizar, deixo vocês com um clipe do drama A Galinha Degolada:




Ah, claro! Não posso deixar de recomendar a leitura  do conto, bem aqui!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Manoel de Barros - Poesia animada



Estava pensando em fazer outras postagens antes dessa, mas como tudo na vida é suscetível a mudanças, resolvi postar e compartilhar logo essa animação, que tanto admiro. Além, é claro, de ser um tema que mistura as áreas principais aqui do blog: literatura e animação.

Antes de mais nada, descobri Manoel de Barros, poeta reconhecido por sua simplicidade – com as palavras e com a vida – em meados do ano passado, na ótima série de documentários "Paixão pela Palavra", exibida pelo Canal Futura. Na ocasião, cheguei a gravar quase todos os episódios e me surpreendi com cada minuto assistido. Coincidentemente, isso se deu na época em que comecei a me interessar mais por poesia.

Manoel de Barros nos mostra o quão simples é esta arte, e o quanto precisamos dela para melhor entender o mundo em que vivemos, para simplificar o que muitas vezes nós mesmos complicamos. Após assistir a esses programas, comecei a pesquisar mais sobre o poeta e acabei chegando ao twitter que o homenageia, que passei a seguir de imediato, e de onde, além das citações do mestre, se vê conteúdo referente a ele, como documentários, entrevistas e até animações, como esta que destaco aqui. Trata-se de um curta da exposição "Arte para Crianças". Sem mais, vamos assistir:



Não canso de ver! É um trabalho belíssimo, tocante, em todos os aspectos. A simplicidade dos traços, a narração precisa e contundente, a trilha sonora no ritmo certo. Tudo casa maravilhosamente bem com a pureza e inocência da poesia de Manoel de Barros, que transborda metáforas e sensações, que nos faz enxergar a complexidade da simplicidade. Brincar com palavras, de maneira inventiva, criativa, livre. Isso é o que toda criança devia ser ensinada a fazer, pois assim se pode fazer de tudo.

Como diz Manoel de Barros, poesia é voar fora de casa.