Frases


"Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua"Robert Frost



quarta-feira, 15 de junho de 2011

Fábulas de Esopo - A Raposa e o Bode



Após um tempo longe das fábulas, voltei esses dias a este universo tão rico e agradável. Escolhi mais uma das pérolas atribuídas a Esopo para abordar nesta postagem. Vamos a ela!


A Raposa e o Bode

     Uma raposa caíra num poço. Não havia como sair. Foi quando apareceu um bode sedento. Ao ver a raposa, perguntou-lhe se a água era boa. Diante de tanta sorte, a raposa começou a elogiar a água: não havia mais saborosa. E convidou o bode a descer também. Sem pensar duas vezes e só pensando em saciar sua sede, o bode desceu. Depois de beber à vontade, era hora de voltar à superfície: "como fazer?", perguntou à raposa. 
     – Eu sei – disse ela –, de uma boa saída, desde que tenhas vontade de nos tirar desse aperto: põe os teus pés da frente contra a parede e ergue os teus chifres; aí eu dou um pulo e saio. Uma vez lá fora, eu te puxo.
     O bode fez o que ela disse. Com a ajuda das pernas, das costas e dos chifres do bode, ela conseguiu, dando alguns pulos, voltar à boca do poço e, assim que se viu salva, foi embora. Como o bode a repreendesse por não ter cumprido o acordo, a raposa lhe disse:
     – Ah, meu caro, se tivesses tanta presença de espírito quanto pêlos no queixo, não terias descido sem saber como irias voltar.
     É preciso antever o final em tudo o que se faz.


Neste belo texto, vemos um bode, cego pela sede, se deixar levar pelas palavras da raposa, que se aproveita de sua necessidade, para se dar bem. Ela mais uma vez aparece sendo usada como símbolo de astúcia, persuasão, e também individualismo. O pobre bode, enganado, aqui representa justamente aqueles que se aventuram em determinado caminho, geralmente induzidos por alguém/algo sem plena certeza de onde estão indo.

A fábula traz uma moral interessante, sim, mas acho que em vários momentos não estamos aptos a sempre antever como tal situação terminará. Claro que podemos ser comedidos, controlados, mas dificilmente evitaremos todas as consequências. Na história, que alerta para este ponto, o bode não cogitou como sairia do poço porque havia uma preocupação maior: matar sua sede.

Podemos passar por situações parecidas, em momentos de certo desespero, e ignorar o que aparenta ser tão óbvio, não é mesmo? Não acho que isso seja particularmente ruim, pois o que não se faz na vida sem correr riscos? Muitas vezes se atirar em algo pode ter lá suas vantagens. É bom conhecer os caminhos por onde se trilha, mas o desconhecido por vezes pode revelar boas surpresas. O conhecido traz segurança, conforto, o desconhecido impera o medo, a ansiedade, mas muitas vezes acaba sendo rotulado erroneamente.

É preciso ser comedido, mas nem tanto, pois pensar demais muitas vezes só alimenta nossos medos!
Nos permitindo a olhar a fábula por outra ótica, se o bode tivesse percebido a arapuca em que se meteria, não teria descido ao poço, mas também não teria matado sua sede! De certa forma, ele pagou um preço alto pela água, mas conseguiu bebê-la. Como sair do poço passaria a ser um outro problema, agora que a sede deixara de ser sua preocupação, ele estaria apto a melhor pensar como resolvê-lo.

Evidente que a moral desta história não nos impõe uma ideia, mas nos expõe uma visão e nos faz refletir sobre diferentes pontos de vista, que se confrontam entre si, e cabe a nós percebê-los e relacioná-los, a fim de tentar compreender toda esta extensão.

Parem e reflitam por uns instantes!