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"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Teatro e dança: As Três Irmãs


OBS: Fotos de divulgação do espetáculo, retiradas do Google (exceto as duas referidas).


Já estava previsto fazer esse post há pelo menos uns três meses, época em que ele 'aconteceu', mas somente agora pude enfim terminá-lo. Não sei se o espetáculo ainda está sendo apresentado...

Desde que assisti à peça A Galinha Degolada, ganhei grande interesse por teatro, por várias razões, entre elas a tênue linha que há entre ele e a literatura, como mencionei na postagem sobre a peça, bem aqui.

Alguns dias passados dali, voltei ao SESC Iracema, aqui em Fortaleza, e deparei-me com um anúncio de outra peça: As Três Irmãs. A apresentação seria na semana seguinte. A princípio, imaginei ser uma adaptação da obra homônima, um clássico do escritor e dramaturgo russo Anton Tchékov, o qual muito admiro. Pensei, de cara, que seria algo parecido com o que vi na adaptação do conto de Horácio Quiroga, naquele outro dia. Fiquei bastante entusiasmado, até perceber, pelo cartaz, que não se trataria de uma encenação tradicional, mas de um espetáculo de dança, realizado pela Paralelo Cia de Dança. Contudo, ainda não muito familiarizado às estruturas teatrais, imaginei que haveria alguma narrativa, talvez contando uma parte da história ou algo parecido. Pelo sim, pelo não, resolvi procurar a peça para ler antes de assistir à apresentação.



Graças ao Google, não foi nada difícil achá-la, e naquele mesmo dia comecei a ler. Não era um texto rápido, como eu já desconfiava. A peça era composta por quatro atos, que juntos totalizavam 54 páginas. Ávido para ter logo uma visão geral da história, antes de assistir à adaptação teatral, dediquei um bom tempo dos dias seguintes a essas páginas.

Já no primeiro ato, percebi a força dessa obra. Personagens densos, ambientação precisa, grande carga filosófica e psicológica. Tudo se mesclava em diálogos intensos, formando uma atmosfera que prendia facilmente.
A trama desta que é uma das mais célebres peças de Tchékhov gira em torno de três irmãs, como diz o título. São elas Irina, Olga e Macha. As três vivem há anos em uma província russa, mas, desacreditadas da vida (exceto Irina, a mais nova), levam uma rotina monótona, e acreditam que voltar a Moscou, cidade onde passaram a infância, seja sua única esperança. Entre os demais personagens, estão ainda Andrei, irmão das três, vários militares e outros de apoio. Mas depois voltarei a falar da obra original.

Bem que me esforcei, mas não consegui ler tudo antes do dia da encenação. Li três atos, suficientes para já ter uma boa noção da trama. Imaginei ser mais do que o suficiente, uma vez que sequer tinha a certeza de que seria mesmo uma adaptação, o que, portanto, tornaria essa leitura não tão importante. Quando voltei ao SESC, no dia marcado, vi várias fotos de divulgação da peça, próximo à bilheteria. Por elas, pude ver, agora claramente, que se tratava mesmo de um espetáculo exclusivamente de dança. Três moças em poses de bailarinas. Não parecia haver mais nenhum personagem em cena e, pelas fotos, o cenário se resumia a um sofá.




Confesso que a princípio fiquei um pouco receoso, e até ligeiramente desanimado ao perceber que seria mesmo algo bem diferente do que eu tinha imaginado. Porém, pensei por alguns instantes. Seria uma oportunidade de ver algo novo, ainda desconhecido para mim. Um espetáculo que priorizaria o movimento e sua fluidez de uma maneira única. A Paralelo Cia de Dança ia apresentar um espetáculo inspirado na obra de Tchékhov, que não necessariamente buscava estabelecer um elo entre a literatura e a dança. Foi com estes pensamentos que comprei o ingresso e tomei um lugar à plateia.

No centro do palco havia um sofá, sobre o qual jazia um ursinho de pelúcia. Próximo do móvel, pendendo do teto, preso a algo que parecia um cabo, estava um buquê de rosas. Todos eles, sofá, ursinho e buquê, seriam peças importantes no desenrolar do espetáculo. Eis que surgem então as três atrizes. As três irmãs. Irina, Olga e Macha, e começam a executar suas coreografias.





Durante toda a apresentação, que durou cerca de 50 minutos, observei com grande fascínio todas aquelas evoluções. A coreografia tinha muita suavidade e leveza, sendo conduzida por uma música envolvente, com altos e baixos, em um ritmo e sintonia extaseantes. As três atrizes ora interagiam juntas, ora se afastavam, independentes, ficando quase isoladas uma da outra, usando toda a extensão do palco. Era como se cada uma estivesse em seu próprio mundo, vivendo as angústias e aflições de suas personagens. Na plateia, nesses momentos, tínhamos que alterar olhares entre as três, e mesmo assim, em certas horas, quase não conseguíamos acompanhá-las.

Uma coisa que também me chamou muito a atenção, assim como em A Galinha Degolada, foi a iluminação. O intenso jogo de luzes que se alternava de instante em instante, dando a cada movimento uma atmosfera única, uma emoção mais condizente, crível. Não foi à toa que vários fotógrafos circulavam em volta do palco, em busca dos melhores ângulos para suas fotos.





As arquibancadas que formavam a plateia estavam bem movimentadas, talvez não lotadas, mas pude perceber um público bastante interessado. Para mim, ainda pouco habituado a esse ambiente teatral, como já disse, tudo era novidade. Não pude deixar de notar como um espetáculo como aquele tinha seu toque peculiar e atrativo. Era surpreendente ver o que se podia obter com o fato de não haver qualquer diálogo, de toda a comunicação ser feita, expressada, somente através daqueles movimentos tão precisos, tão cuidadosamente coreografados e ensaiados. Inclusive, a atriz Joyce Barbosa, que interpreta Macha, é responsável também pela coreografia, figurino e direção artística. Ótimo trabalho!

Falando um pouco de simbolismos, de maneira bem livre e pessoal, o sofá, a meu ver, representava a estagnação, a prostração à qual as três se submeteram, a incapacidade de reverter a situação, que no texto da peça é retratado pela desesperança, que habita amargamente o coração delas. O ursinho talvez representasse um mínimo de alegria encontrado por elas naquela vida tão melancólica e sem sentido. O buquê, que começa pendendo do alto, de certa forma inatingível, seria o símbolo da esperança, tão almejada e perseguida pelas três. Em certos momentos, elas o jogam ao chão, como que incertas de suas decisões.



Quando as luzes se acenderam, toda a plateia prorrompeu em aplausos. Comecei a refletir algumas dessas sensações, enquanto olhava as três atrizes no palco, que agradeciam a ovação. Elas avisaram que fariam ainda um breve momento de conversa com o público, onde explicariam em termos como foi o processo de criação do espetáculo. Porém, boa parte dos presentes se levantou quase incontinente, deixando as dependências da sala. Os que permaneceram, puderam ouvir detalhes dos bastidores da produção, da concepção da ideia à montagem do espetáculo. Se não me engano, a produtora também subiu ao palco, onde foram feitos também comentários sobre a obra original, de Tchékhov, e os pontos e singularidades escolhidos para servir como base da coreografia por elas criadas.

A plateia, ou o que sobrou dela, fez ainda algumas perguntas, que exploraram mais alguns pontos interessantes deste belo espetáculo. Aproveitei esses instantes finais para registrar, na medida do possível, o momento, através da câmera de meu celular. Seguem as duas imagens abaixo:








Nos dias seguintes, após a apresentação, terminei a leitura da peça, com grande entusiasmo. Como falei no início desse texto, esta obra de Tchékhov é impregnada de questionamentos filosóficos. As três irmãs, atormentadas pelas desventuras de sua rotinas, perguntam-se a todo o instante qual seria o sentido da vida, se é que há um. Repensam atos, ações, sentimentos. Discutem esses assuntos com os demais personagens, que também demonstram um viés filosófico. Por que vivemos? Por que sofremos? Será que tudo isso é em vão? Sendo assim, tanto faz o que fizermos da vida? Tais pensamentos, levantados em extensos e complexos diálogos, nos faz repensar conceitos e até mesmo nossa própria vida, de uma maneira arrebatadoramente profunda. Cheguei a fazer breves pausas entre um diálogo e outro para refletir melhor aquilo, e até marquei as passagens mais marcantes (assunto para um outro post, talvez?) Para mim, As Três Irmãs é, sobretudo, uma história de esperança, de uma busca por dentro de sim mesmo, uma vez que mostra os personagens exatamente como eles são. Não há grandes desenlaces ou conflitos dramáticos, propositalmente. Tchékhov, como é comum em suas obras, prefere retardar essa ação em prol do desenvolvimento psicológico de seus personagens. Isso é significativamente notado na rotina das três irmãs, com suas desesperanças e ideologias tão convincentes e intensas.

A Paralelo Cia de Dança conseguiu transmitir muito bem essa sensação de melancolia, apresentando poucos elementos em cena, priorizando ação e gestos automáticos, quase motores, refletindo a angústia de cada personagem, a inquietação de suas mentes, incapazes de reagir, de se erguer. Seu único ideal de esperança é a volta a Moscou. Será mesmo que esse é o único caminho?

E pensar que eu quase desisti de assistir! Foi uma das experiências mais bacanas que passei ultimamente, pois me despertou para muitas coisas as quais ainda não conhecia, como a dança e essa incrível peça de Anton Tchékhov!

Parabéns às três atrizes e a toda a equipe que participou desse espetáculo!

Ah, mas agora não posso esconder o desejo de assistir também a uma encenação tradicional da peça, que é uma das mais representadas no mundo cênico!

Bom, vou parando por aqui! Para finalizar, vejam mais detalhes sobre a Paralelo Cia de Dança no site oficial do grupo. E, claro, leiam a obra As Três Irmãs aqui!


domingo, 18 de setembro de 2011

Pizza de Liquidificador


Fotos: Diego e Denis Akel

Cozinhar sempre foi uma arte que me chamou muito a atenção, embora ainda nunca tivesse me aventurado propriamente por ela. Quando pequeno, gostava de acompanhar minha mãe na cozinha. Não entendia bem algumas coisas, mas adorava ver como pratos tão saborosos brotavam de ingredientes aparentemente tão simples e comuns.

Com o passar do tempo, e surgimento de outros interesses, nós acabamos desviados muitas vezes na vida, ou simplesmente adiando tal coisa para um futuro incerto. Bom, prefiro acreditar que tudo tem o seu tempo certo para acontecer, como já disse aqui em textos anteriores.

Minha sede de cozinhar e começar a explorar o mundo culinário começou recentemente, quando vi numa livraria esse simpático livrinho que estampa esta postagem, da ótima L&PM Editores, uma editora que muito admiro. Além da capa, que de cara já achei interessante, comecei a folheá-lo por curiosidade, e fui percebendo sua abordagem rápida, direta e funcional, principalmente por se referir a receitas feitas usando-se o liquidificador como base. Naquele mesmo instante, decidi que seria uma ótima oportunidade de iniciar esse caminho.

As receitas do livrinho assinado pelo Anonymus Gourmet, além de tudo, são bastante variadas, indo de lanches rápidos a receitas completas para almoço e jantar, e até sobremesas. De imediato, uma das receitas que mais chamou minha atenção foi a pizza de liquidificador, e foi justamente por ela que resolvi começar. Poucos dias depois, comprei os ingredientes. Numa noite de domingo, comecei o procedimento.




À medida que fui trabalhando os ingredientes, com a supervisão de minha mãe (caso algo desse errado!), fui percebendo como é mesmo um ritual quase mágico o de se preparar algo na cozinha, a transformação pela qual os alimentos vão passando, de pouco em pouco, até se chegar ao resultado esperado. A massa da pizza, por exemplo, precisa de leite, ovos, óleo, sal, açúcar, farinha de trigo e fermento, tudo em porções controladas, que em qualquer variação de quantidade alteram significativamente as características da massa. Ou seja, é preciso que tudo esteja em harmonia para um resultado positivo.

Munido do livrinho, fui desenrolando a receita, ainda bastante na inocência do passo a passo. Pensei em fazer algumas modificações e colocar outras coisas, mas como ainda era a primeira vez, acreditei ser melhor seguir o roteiro. Numa próxima vez eu poderia experimentar mais à vontade.

Estando a massa pronta, levei-a ao forno, onde assaria por alguns minutos. É muito bacana também acompanhar o andamento da massa pelo vidro do fogão. Durante esse tempo, de livrinho na mão, fui fazer a cobertura da pizza, que leva cebola e sardinha, banhadas por molho de tomate, tudo em uma frigideira. Foi mais uma etapa interessante, observar a fusão desses ingredientes, o crepitar da chama, e o espesso molho que começou a se formar quando misturei tudo. Era engraçado como o refogado se parecia muito com um molho bolonhesa (o que deixou a pizza com uma certa cara de lasanha!). Ao final, acrescentei esta mistura à massa, despejando de maneira uniforme.




Que sensação boa aquela, ao ver o prato pronto, ali na minha frente. E melhor, sem ser pedido de nenhum restaurante. Cozinhar em casa tem essa gigantesca vantagem. É como se nos afeiçoássemos ao prato durante seu preparo, cuidando dele com toda a atenção, o que eleva significativamente sua importância – o oposto dos pratos que pedimos ou compramos prontos, cujo único trabalho que nos comete é comer. Minha pizza talvez não tivesse exatamente cara de pizza, por ter sido feita num refratário retangular (era o que dizia a receita!), mas o sabor estava ótimo! Bastante suave, massa consistente, com a cebola acrescentando um toque sutil, mas que fazia o diferencial. Então foi só me deliciar, juntamente com o pessoal aqui de casa, com essa ótima e prática receita, que além do sabor que sentíamos no paladar, tinha um sabor de conquista pessoal, se é que me entendem!

Claro que eu não poderia finalizar sem passar a receita completa, não é mesmo? Lá vai ela, tal qual no livro:




PIZZA DE LIQUIDIFICADOR - Anonymus GOURMET

Ingredientes:

½ xícaras de leite;
2 ovos;
½ xícara de óleo;
1 pitada de sal;
1 pitada de açúcar;
3 xícaras de farinha de trigo;
1 colher (sopa) de fermento químico;
1 copo de molho de tomate;
2 latas pequenas de sardinha em óleo;
1 cebola;
100g de queijo ralado.

Obs:. Quando fiz esta receita, usei queijo mussarela, cortando pedaços de fatias com as mãos. Foi mais ou menos 100g, mas muita gente acha essa quantidade pouca, então fica ao gosto de cada um!

Preparo:

1 – NO LIQUIDIFICADOR: comece pela massa. Bata o leite, os ovos, o óleo, o sal, açúcar, farinha de trigo e o fermento.

2 – Unte com óleo (pode ser o da sardinha mesmo) uma forma retangular pequena e arrume a massa ali dentro. Espalhe bem e leve ao forno preaquecido por, em média, 25 minutos. A massa ficará assada.

3 – Numa frigideira com óleo (também pode ser o da sardinha), frite a cebola e junte a sardinha, sem o óleo, previamente esmagada com a ajuda de um garfo. Mexa e acrescente, aos poucos, o molho de tomate. Misture e arrume o refogado em cima da massa assada. Finalize com o queijo ralado e leve ao forno novamente para derretê-lo.


Ah, o manjericão foi um extra por nossa conta!

Bom, vou continuar com minhas experimentações na cozinha, testando mais receitas e fazendo novas descobertas. Cozinhar é, além de tudo, uma ótima terapia, que nos distrai e nos motiva, além de ser extremamente prazerosa. Acho que um bom comparativo, falando livremente, seria comparar um prato vazio a uma tela por pintar, ou a páginas em branco, que estão à espera do artista, que irá transformá-las, com seu toque pessoal, em algo único. É como dizem, vivendo e aprendendo!




P.S (07.03.2012): Uma bela novidade: este post foi escolhido para figurar no site oficial do Anonymus Gourmet, vejam como ficou clicando aqui!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

II Feira do Livro Infantil de Fortaleza



E começou hoje, aqui em Fortaleza, a II Feira do Livro Infantil, evento que traz uma vasta programação cultural, inteiramente gratuita! Entre os destaques da feira, está o cantor, compositor e escritor Vitor Ramil, que faz o show de abertura, hoje às 18 horas.

Destaque também para a presença do prestigiado escritor e autor de novelas Walcyr Carrasco, no sábado, dia 17. Walcyr conversará com o público e terá ainda sessão de autógrafos. Outros destaques são os contadores de histórias Ilan Brenman e Rosana Mont'alverne e a escritora gaúcha Marô Barbieri. Também engrandecem o eventos autores cearenses, como Izaura Franco e Ignácio Loiola. 

Além da tenda principal, há também vários estandes de grandes editoras, como a Paulinas e a Editora Moderna, com novidades e lançamentos, em um espaço compacto e atrativo.

A Feira do Livro Infantil é uma ótima iniciativa, que valoriza o papel do contador de histórias, figura tão importante, que tanto pode fazer pelas crianças, e, porque não, por todos nós. Afinal, quem não gosta de ouvir histórias, não é? Elas nos fazem sonhar, nos libertam.

Bom, o evento vai de hoje, 14, até sábado, 17, na Praça do Ferreira! 
Mais detalhes e programação completa no site oficial do evento.

domingo, 11 de setembro de 2011

Referência: 8-bit trip



Para mim, e acredito que também para muitos, Lego é muito mais que um simples brinquedo. Desde pequeno, quando tive o primeiro contato com ele, percebi o incrível potencial dessa ferramenta. Além dos modelos padrões que se podiam montar, era sempre possível soltar a imaginação e criar praticamente tudo usando as peças certas. Lembro de eu e meu irmão ficarmos horas e horas montando as mais loucas e malucas concepções que podíamos, sempre variando e explorando as peças que tínhamos, depois de já montadas exaustivamente as estruturas padrão do Lego Polícia e Lego Bombeiro, destaques da época. Era mais que um brinquedo, sem dúvida. Creio que o Lego, de alguma maneira, nos ajudou bastante a desenvolver a criatividade.

Hoje em dia, o Lego, mesmo dividindo espaço com essa enxurrada de jogos eletrônicos, continua forte, com inúmeras novas versões, centenas de novas peças (quase nem reconheço algumas variações) mas dá para notar que a essência está mantida. Além de tudo, Lego também virou matéria-prima para arte, e é até bem comum vermos modelos impressionantes de coisas do cotiadiano feitas com os bloquinhos. Dentro da área de animação, é comum também vermos trabalhos em stop-motion usando Lego. Os resultados são bem interessantes, dado o efeito simples mas impactante que os tijolinhos animados podem representar.

Nesse prisma, o curta que mostro nessa postagem é sem dúvida dos melhores e mais surpreendentes a usar o Lego como base. Vejam (em HD de preferência!):




O trabalho é de autoria dos suecos Tomas Redigh e Daniel Larsson, que executaram uma obra de incríveis proporções, combinando o Lego à tradicional e clássica atmosfera de jogos 8-bit, como Pacman e Pong. Para esta grandiosa homenagem, eles usaram vários truques de câmera, mesa, iluminação e muitos, muitos blocos de Lego. A trilha sonora também merece destaque, criando facilmente o ritmo perfeito, que tem tudo a ver com a concepção e andamento das cenas.

Algumas cenas são realmente surpreendentes, como o cubo girando no "load" ou a partida de Pong. A técnica da rotoscopia, que consiste na utilização de imagens reais, sobre as quais são orientados os frames a serem animados, a fim de ser obter uma animação fluida e suave, é usada nos trechos onde podemos ver as silhuetas de ambos os autores colocando cartuchos ou jogando. É um efeito realmente muito interessante.

Palmas aos dois, por fazer esta belíssima combinação de material e de talento!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Livro: De Gênio e Louco todo mundo tem um pouco


Fotos: Diego Akel

Já ouço falar no nome de Augusto Cury há tempos, embora nunca tivesse lido nenhuma de suas obras. Até então, tudo o que sabia, a grosso modo, é que era um autor de livros de grande sucesso, com não sei quantos milhões de vendas. Livros que pareciam ter um certo estilo de auto-ajuda. Foi ainda com algumas dessas ideias que ganhei o livro que ilustra essa postagem de uma amiga.

Claro que também já conhecia o difundido O Vendedor de Sonhos, título que sempre me intrigava bastante (como é possível alguém vender sonhos?), mas apenas por ouvir falar, nunca chegara a folheá-lo propriamente. Quando me vi diante de De Gênio e Louco todo mundo tem um pouco, percebi que a saga era mais vasta do que podia imaginar, composta de vários livros. Bom, eu já estava praticamente decidido a embarcar em outro livro (O exército de um homem só, de Moacyr Scliar), quando o livro de Cury chegou às minhas mãos, como um convite a um território desconhecido. Assim, e também para me integrar logo ao presente recebido, resolvi então me aventurar logo por suas páginas.

Devo ter passado quase 4 meses e meio a bordo desta obra (sim, costumo ler sem muita pressa, assimilando bem e marcando as passagens interessantes do texto, isso, aliás, é um bom tema para uma postagem futura), e ao final fiquei bastante surpreso com sua essência.

A trama-chave do livro fala sobre desigualdade social, expressada vivamente na vida dos personagens centrais. Fiquei bastante curioso à medida que acompanhava o desenlace dos capítulos, que iam aos poucos moldando e explicando o caráter de cada um. Os protagonistas da obra, Bartolomeu e Barnabé, apelidados convenientemente de Boquinha e Prefeito, têm histórias distintas, mas que quase se entrelaçam pelas semelhanças. É tocante e de certa forma angustiante ver os inúmeros percalços e infortúnios pelos quais esses dois passaram na vida, desde a infância. Mas mesmo com tantas provoções, ambos seguiram levando sua vida com um sorriso no rosto. Eram constantemente forçados a reiventar suas realidades.

É divertido acompanhar o desempenho de Boquinha, que se acha um grande filósofo, com uma desmedida compulsão por falar, mas se mete nas confusões mais improváveis, por conta de sua língua afiada. Já o Prefeito foi assim apelidado por sua mania de se achar político. Volta e meia, faz discursos, pede votos, seja qual for a situação. Tanto Boquinha como o Prefeito são gênios e loucos, literalmente. Altamente criativos e visionários, mas completamente desmedidos e desorientados. Parecem viver em outro mundo. A vida de ambos muda drasticamente quando se vêem diante do Vendedor de Sonhos, uma figura misteriosa que os convoca a tentar mudar uma realidade da qual eles próprios foram vítimas.

Uma ideia bacana do livro é a de que todos se esforçam para serem normais, mas não seria a dita normalidade uma grande loucura? Então, os loucos é que seriam os normais? Por isso a barreira entre a genialidade e a loucura se mostra tão tênue, podendo serem aplicadas a qualquer um. Recheado ainda com várias referências a grandes pensadores e cientistas, como Einstein, que é considerado, nas palavras do livro, o modelo ideal de intelectual, meio músico, meio palhaço, meio "louco".

Tal como é a reviravolta na vida dos personagens, é o clima do livro, ora mergulhado em grande tristeza e depressão, ora abraçado por alegria e espontaneidade. Bem dosados, estes ingredientes moldaram um romance bastante sólido que equilibra muito bem filosofia, sociologia e psicologia. E sendo Cury também psiquiatra e psicoterapeuta, em alguns momentos parece quase que estamos recebendo uma consulta instantânea.

Um detalhe de que gostei bastante foi o uso de uma linguagem fácil e acessível, que prefere períodos curtos e simples, mas efetivamente incisivos. A narrativa toda é bastante direta, sem floreios. Há também bem pouca descrição, o que nos faz buscar uma imagem mais geral dos fatos, e de certa forma aproxima o livro da realidade – essa realidade tão desigual que ele repudia e tenta nos incitar a fazer o mesmo.

Após ler este livro, além do fecundo ideal por ele transmitido, fiquei com grande vontade de conhecer os demais exemplares da saga O Vendedor de Sonhos; uma saga que consegue cativar facilmente, que mostra um caminho o qual talvez não conseguíssemos ver, mas que está ficando cada vez mais nítido. Quem ainda nada conhece da obra de Cury, pode ficar certo de que vale muito a pena passar um tempinho viajando nesse divertido e contundente romance que é De Gênio e Louco todo mundo tem um pouco.

Ah, antes de finalizar, quero transcrever aqui talvez o trecho mais marcante de todo livro, que reflete praticamente toda a sua essência. Trata-se de uma musiquinha, o lema de Boquinha e Prefeito, que eles cantavam sempre que podiam e que fascinava tantos e incomodava muitos:

Você acorda, levanta, reclama e faz tudo igual
Luta para ser aceito, notado e sair no jornal
Corre atrás do vento como uma máquina imortal
Morre sem curtir a vida e jura ser uma pessoa normal

Olha para mim e me diz com ironia social
Eis aí um maluco, um sujeito anormal
Sim, mas não vivo como você, em liberdade condicional
Sou o que sou, uma mente livre, um louco genial



Se um dia tiverem a chance, leiam!