Frases


"Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua"Robert Frost



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arroz à Parmegiana



Antes de mais nada, preciso falar como conheci essa receita. Ultimamente, peguei o hábito de assistir a programas de culinária, desde que comecei a me interessar pela área. Vejo-os com outros olhos, reparando detalhes e sequências que com certeza não notaria antes. Entre estes programas, destaco notoriamente o do Anonymus Gourmet (José Antônio Pinheiro Machado) – autor do livrinho que de certa forma foi responsável por me propagar no terreno gastronômico, ao me incentivar a fazer a pizza de liquidificador, como falei nesse outro post. Descobri a existência desse programa quase por acaso, enquanto rodava pelos canais à procura de algo bom, e o vi "perdido" entre a programação do Canal Rural (o programa é original da RBS TV). De lá para cá, sempre que posso assisto. É um programa de culinária bastante singular, por diversos fatores, mas primeiramente pela abordagem diferenciada; tem um ritmo e andamento próprios, e mescla culinária com música, cinema e até literatura, de uma maneira agradável e cativante. É gostoso de se assistir, não só pelo apetite que se abre com a receita do dia, mas por vermos o respeito que tem com o telespectador.

Em um desses dias, em meados de novembro, topei com o prato que dá título a esse post, o arroz à parmegiana, e confesso que fiquei fascinado por ele, pela composição dos ingredientes e – principalmente – ao ver que ele se valia de nada mais nada menos que arroz cru em seu preparo. Como isso é possível? foi a primeira coisa que me perguntei na hora, e continuei assistando às etapas de preparo, enquanto conhecia também o filme Secretariat, e me deleitava com a trilha sonora de Ella Fitzgerald e os talentosos Jorge e Pedro Serafim, que compunham a seleção musical do dia.

Impulsionado pela singularidade da receita, e também pela recém-descoberta do programa, resolvi me aventurar no preparo do arroz. Não seria tarefa fácil, para quem só tinha feito aquela pizza e uns poucos complementos em outros pratos mais simples, mas segui em frente; o máximo que poderia acontecer seria a receita não dar certo. Assim, fui direto em busca dos ingredientes. Aproveitando, vamos a eles:

- 500g de carne moída;
- 1 xícara (cafezinho) de molho de soja;
- 1 colher (sopa) de farinha de trigo;
- 1 cebola média;
- 2 tomates grandes, ou 4 pequeninos;
- 3 colheres (sopa) de massa de tomate;
- 1 copo de caldo de carne;
- 2 copos de água fervente;
- 1 copo de suco de laranja;
- 1 colher (sopa) de açúcar;
- 300g de queijo ralado ou picado;
- 2 copos de arroz cru.

Já de posse de todos os ingredientes, e tendo-os devidamente posicionados na cozinha, comecei, ainda com a supervisão de minha mãe, o preparo da receita, seguindo uma versão que consegui imprimir da internet. (OBS.: Recentemente, 19/02, fiz novamente esse prato, e aproveitei para fotografar as etapas de preparo. Irei listá-las a seguir, de acordo com o processo).

Inicialmente, coloquei a carne moída numa panela, que já estava aquecida e com um filete de azeite, em uma das bocas do fogão. Fui então trabalhando-a com uma colher, fazendo um refogado, parte primordial do arroz à parmegiana.



Depois, dosei a xicarazinha de molho de soja. Ela ajudaria no colorido do refogado e ao mesmo tempo também fortaleceria o tempero, dispensando ainda o uso do sal. A seguir, foi a vez da colher de farinha de trigo. O Anonymus recomenda polvilhá-la sobre o refogado, com uma peneira, assim afinando a farinha e eliminando eventuais grumos que possam vir a surgir, além de acelerar a incorporação à carne. Misturei bem, até obter um refogado bem sólido e consistente, já com tudo devidamente incorporado. A aparência dele aqui deve parecer um pouco seca; sinal que estamos no caminho certo. O refogado agora, porém, deve ser reservado, pois precisa-se preparar o molho, a segunda etapa da receita.

Carne moída após cozinhar e com molho de soja adicionado. Aproveitei para adicionar um pouquinho d`água e daqui tirei o caldo de carne que entra na próxima parte da receita


Aqui entra em cena o liquidificador, e nele vão a cebola, cortada grosseiramente ao meio; os tomates cortados; a massa de tomate, fundamental para o tom avermelhado do molho; o caldo de carne e o suco de laranja. Achei engraçado a receita levar suco de laranja, e me diverti ao despejar o copo liquidificador abaixo. Ficava imaginando que diferença ele faria, que sutileza e sabor acrescentaria. Antes de fechar o aparelho, ainda faltava uma última coisa: a colher de açúcar! Ele, embora não apareça, é fundamental para arredondar e reduzir o grau de acidez, elevado por causo dos tomates e suco de laranja. A visão do liquidificador cheio, com todos aqueles ingredientes era muito interessante; o que resultaria daquela mistura? É incrível como um cozinheiro iniciante pode se impressionar com esses detalhes, mas não pude deixar de pensar nisso.





Após tudo devidamente liquidificado, vi um molho bem espesso, levemente alaranjado, surgir no interior do aparelho. Tinha uma ótima consistência. Lembram do refogado lá do início? É hora de ele voltar ao palco, uma vez que estava à espera do molho. Despejei todo o molho na panela, incorporando-o à carne. É um momento mágico; o sabor, o aroma da carne vai para o molho e vice-versa. Desse processo, nasce um único molho, vermelho, característico, que é o clássico molho parmegiana. Que cheiro!



Na etapa seguinte finalmente entra em cena o arroz cru. Detalhe fundamental do prato: é um arroz de forno, mas vai ao forno cru, em vez de cozido. Coloquei água para ferver, e peguei um refratário retangular, untando-o com óleo ou azeite. O Anonymus recomenda para isso um pincel culinário, mas me virei muito bem com folhas de papel toalha, para espalhar o azeite em todo o refratário. Então chegou a hora do arroz. Despejei o primeiro copo, devagar, espalhando de maneira uniforme. Era engraçado usar aquele arroz cru ali, soava quase estranho, mas eu tinha que ver se daria mesmo certo. A ideia após o primeiro copo de arroz é já colocar o refogado por cima, criando uma camada sobre o arroz. É preciso espalhá-lo bem. Logo após, vem o segundo e último copo de arroz cru, espalhado por cima do refogado. Lancei as mãos sobre o queijo, ralado grosso, e fui salpicando todo o refratário, até quase cobrir todo o conteúdo. A cada camada, a aparência do prato ficava mais e mais iterressante, e eu não conseguia conter a surpresa ao ver aqueles ingredientes tão incomuns (arroz cru) se misturando.














Estando quase pronto para ir ao forno, ainda faltava coroar o refogado, dar o toque final na receita, adicionando dois copos de água fervente. Espalhei um por um, com cuidado, uniformemente pela extensão do refratário. É incrível, mas nessa hora temos a certeza de que estamos colocando tudo a perder, estragando a receita! Pela aparência que a mistura assume, parece mesmo que alguma coisa desandou, mas segui em frente, acreditando na receita.





Após a água fervente, o refratário vai direto ao forno, que já deve estar pré-aquecido. Esperei então cerca de 40, 50 minutos, com o forno fazendo seu trabalho a uma temperatura de 180º para menos.



Passado esse tempo, retirei o prato, e que bela visão! A água fervente havia secado completamente, o queijo, parcialmente derretido e misturado ao molho, parecia um lençol alaranjado, cobrindo o enorme "colchão" abaixo dele. Inclusive, ali podia-se notar as camadas do arroz, agora já cozido, que aumentaram um pouco a altura do prato. O aroma, maravilhoso e convidativo, começava a se alastrar pela casa. Arrumei a mesa, tirei o refratário do forno e então cheguei à hora do sacrifício, como diz o Anonymus Gourmet, referindo-se à hora de se deliciar com o resultado.




O arroz à parmegiana é, antes de tudo, um arroz de forno, e, olhando por esse prisma, pode parecer fácil no preparo, mas ele consegue ser bem mais complexo que isso. Não que a receita seja complicada, ela é até bem simples, com ingredientes acessíveis, de bom manuseio, mas requer atenção nas etapas de preparo.

Claro que na primeira vez que fiz esta receita não estava tão seguro quanto aparento estar nesse texto; em vários momentos, mesmo tendo assistido ao programa, me senti meio atrapalhado e receoso (principalmente na hora de colocar a água fervente) mas, como falei no texto da pizza, observar os ingredientes se misturando, tomando novas formas e cheiros, superou qualquer temor, e me levou a seguir em frente, animado, surpreendido a cada etapa, até finalmente levar à boca uma genorosa garfada, e me deliciar com a incrível junção de sabores que é esse prato.

Nesta segunda vez quis, antes de tudo, registrar o processo, algo que a inocência e ansiedade da primeira vez não me permitiram lembrar de fazer. Aliás, não foi fácil fazer algumas dessa fotos, manipulando a câmera com as mãos meio meladas dos ingredientes, entre um passo e outro da receita, sem descuidá-la. Ao fim, vejo que valeu a pena o esforço, não só para ajudar a compor esta postagem, como também para ficar o registro da receita, que é tão prazerosa de se fazer.

A primeira garfada foi sensacional. A suavidade do arroz, que estava no ponto, bem soltinho; a carne, macia e saborosa; a crosta de queijo semi-derretido, e tudo isso já incorporado e transformado pelo molho. Ainda consegui sentir, bem lá no fundo, o toque da cebola e principalmente do suco de laranja, que deu um ar refinado à receita. O único problema era ter que esperar esfriar um pouco para saborear!








O que mais eu posso dizer? O prato, literalmente, já diz tudo: bom apetite!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (II)


Fotos: Denis Akel

Dando continuidade ao primeiro post sobre a presença do escritor e autor Walcyr Carrasco, que fechou a programação da II Feira do Livro Infantil, em setembro passado aqui em Fortaleza, comentarei agora sobre um dos momentos mais esperados por todos: a sessão de autógrafos.

Ao final de sua palestra, que durou cerca de uma hora, Walcyr foi ovacionado fervorosamente. Chegara o momento dos autógrafos. O narrador do evento, de posse do microfone, começou então a orientar como seria o procedimento. A multidão de pessoas se levantou das cadeiras, ainda sem saber muito bem para onde deveria se dirigir. Lembro de que bem no início da aprensentação, foi dito que Walcyr, devido à grande demanda do público, não falaria com cada um individualmente. Informaram que quem tivesse algo para dar a ele, teria de dar à produção, e esta a encaminharia ao escritor. É engraçado que mesmo assim uma pessoa do público conseguiu lhe dar um livro, sem toda essa formalidade, como falei no primeiro post. Entendi então que talvez ele não desse uma sessão de autógrafos aberta, e lembrei-me de imediato de como Maurício de Sousa tinha feito, na Bienal do Livro de 2010 (dando autógrafos em uma salinha separada, veja mais aqui).

Contudo, desta vez não chegaria a esse ponto. A produção aparentemente voltou atrás. É certo que não havia mais de mil pessoas, como lá no dia do Maurício, logo não haveria necessidade de tanto. Assim, os autógrafos seriam mesmo dados ali na tenda. Walcyr se dirigiu para uma mesinha que foi arrumada em uma das extremidades desta. Todos o seguiram quase de imediato e uma fila começou logo a se formar. Sem hesitar, fui logo em direção a ela; o livro, O caçador de palavras, firme nas mãos. Quando consegui tomar a fila, já estava com umas cinquenta pessoas à frente. E mais e mais iam chegando, extendendo-a até quase fora da tenda. Mentalmente, enquanto não chegava a minha vez, ocupei-me em meio que ensaiar o que iria dizer ao Walcyr. Com o passar dos minutos, uma certa apreensão crescia em mim. Pensei em desistir, sair da fila. Por alguma razão me sentia subitamente quase incapacitado. É sempre uma situação de certo nervosismo quando temos a oportunidade de falar com alguém cujo trabalho exerce tanta influência em nós, ficamos sempre meio abobalhados, ainda mais quando vemos que não teremos mais do que alguns breves minutos, ou até segundos.

De onde estava, alternei olhares entre onde Walcyr deveria estar, no começo da fila, imerso em uma grande massa de pessoas, a fila atrás de mim e para as pessoas que iam saindo com seus autógrafos. Enquanto observava, refletia. Ora, todos estavam ali com um objetivo: ter um contato, por menor que fosse, com o autor. Embora eu ainda desconfiasse que talvez a maioria estava ali mesmo era pela badalação. Olhei então para meu livrinho, amarelado pelo tempo, não mais editado, quase esquecido, que não era um dos livros novos e recentes do autor, que enchiam o estande da Editora Moderna, e pensei que provavelmente seria único ali. Não que eu esteja menosprezando os outros, mas eu julgava estar naquela fila por bem mais que um simples e mero autógrafo. Aquele livrinho significava muito para mim. Praticamente me inclinou à literatura, juntamente com outros três (que mencionarei aqui em outro momento). Ter a oportunidade de estar diante do autor, que a princípio não faz ideia de nada disso, é um momento indescritível. Gostaria de poder conversar com ele mais livremente, saber de onde veio a ideia para aquela história, como foi escrevê-la, comentar que estou seguindo um caminho similar e por aí vai, mas eu bem imaginava que ali, naquele momento, talvez nada disso fosse possível.

O trechinho abaixo mostra um pouco da movimentação da fila:



A fila caminhava, e eu notava que todos passavam realmente pouquíssimos minutos, senão segundos na vez. Claro que seria impossível dedicar muita atenção a todos, imaginei. Walcyr recebia as pessoas com um sorriso e já esperava o livro, ou o que quer que fosse, para assinar (teve gente que quis que ele autografasse a camisa que vestiam!). Depois, elas saiam pela lateral, e a próxima avançava, mecanicamente, como um automóvel que espera o semáforo abrir. Olhando para aquela cena, pensei comigo: Walcyr está aqui quase como um semi-deus, adorado e idolatrado por todos, com pompa de héroi, mas não se pode esquecer que antes de tudo ele é uma pessoa comum, que soube aproveitar as oportunidades que lhe surgiram na vida, e que teve seu talento reconhecido. Como ele mesmo disse, chegou aonde chegou com muito trabalho. Todos temos esse potencial. Então, não havia a necessidade de se criar muros entre mim e ele, e certamente havia mais alguém naquela fila com ideais semelhantes aos meus. Mesmo tendo essa consciência, ainda não consegui me sentir inteiramente à vontade, embora já estivesse mais focado.

Faltando mais ou menos dez pessoas à minha frente, percebi que não poderia mais voltar atrás, não poderia (nem deveria) desistir. Iria em frente agora de qualquer jeito. Walcyr enfim se tornara visível a meus olhos, quando a aglomeração em volta dele começou a se dissipar. Podia vê-lo dando as assinaturas. Continuei organizando mentalmente o que queria dizer para ele: "Walcyr, é um prazer conhecê-lo...", "Esse livrinho é um dos meus favoritos...", "Eu também escrevo...", "Seu livro me influenciou muito...". Frases como essa pipocavam a todo instante em minha mente. Sabia que não seria possível dizer tudo o que gostaria, mas era preciso tentar. Não estava querendo falar nada referente às novelas, por já ser um assunto tão comum e de certa forma desgastado naquele momento. Com apenas duas pessoas à minha frente, eu já me sentia quase diante dele.Vi os dois seguranças, de expressões impassíveis, próximos à mesa. E então, enfim chegou a minha vez.

Cumprimentei Walcyr com um olhar, e disse que era um prazer conhecê-lo. Walcyr balançou a cabeça, em um gesto semi-automático. Em seguida, soltei o livrinho na mesa diante dele. Foi tudo muito rápido, e mesmo mais calmo senti as frases que tanto ensaiara antes me fugirem. Walcyr então esboçou uma exclamação de surpresa: "Ah, esse livro...", como que se ele próprio não o visse há muito tempo. Me pareceu que ainda diria mais algo, continuando sua colocação, mas acabei cortando-o, jogando as coisas que queria lhe dizer, começando a aproveitar o pouco tempo que teria. Se ele tinha ou não mais algo a dizer sobre o livro, jamais saberei. Depois que eu falei uma ou duas frases, para um Walcyr agora sorridente, ele perguntou meu nome, já com a caneta em riste no punho e o livro com a primeira página virada. Claro que o objetivo daquela fila era mesmo o autógrafo, e não ficar conversando com o autor, mas não pude evitar de sentir naquela pergunta uma maneira de me encerrar logo, como que para apressar a fila, e dar passagem ao próximo "automóvel" – ou talvez fosse só impressão minha. Dito meu nome, a mão de Walcyr começou a fazer seu trabalho, assinando friamente o livrinho. Aproveitei esse ínterim para dizer o quanto aquele livro era significativo para mim, sem antes dizer, é claro, que eu também escrevia. A trama do livro, que envolve etimologia, me fascinara de imediato na primeira vez que li, anos atrás, e desde então passara a gostar e me interessar pela área. Walcyr concordava com a cabeça, enquanto terminava de assinar. Depois virou o rosto para mim, entregando o livrinho. Eu disse ainda que admirava muito seu trabalho, que gostara da palestra e que sempre acompanhava seu blog. Agora vejo que talvez pudesse ter falado algo menos clichê, mas na hora foi apenas o que me ocorreu. Walcyr concordou novamente com a cabeça, dessa vez olhando para mim. Senti que de certa forma meu tempo se esgotara.

O livrinho, em minhas mãos, já estava autografado e eu teoricamente já deveria ter deixado os "holofotes", já devia abrir espaço à pessoa de trás. Walcyr olhava para mim como se esperasse que eu fosse dizer mais algo. Naquele momento, porém, temi não conseguir articular mais nada a dizer, sem cair em repetição. Após falar do blog, agradeci a ele, e acabei saindo pela lateral. Enquanto andava, notei que Walcyr ainda continuou me olhando, por breves segundos. Era como se ele ainda quisesse me dizer algo, ou como se sentisse que eu tinha mais a dizer, mas de certa maneira estava tão incapacitado quanto eu. A enorme fila que estava às minhas costas esperava, pacientemente, para ser atendida. Talvez Walcyr esperasse que eu quisesse fazer uma foto com ele, como muitos ali desejavam, mas esse não era bem meu objetivo. Sim, minha vez acabou sendo muito rápida, muito abrupta. Segundos depois que saí da tenda, Walcyr, após me acompanhar momentaneamente com o olhar, tornou a virar o rosto para o próximo, que já lhe estendia o livro a ser autografado.

Enquanto caminhava, saindo dos arredores da Praça do Ferreira, olhei novamente a assinatura que Walcyr me deixara. Tinha esperado cerca de trinta minutos para apenas trinta segundos. Mas era isso mesmo. Ao menos eu tinha conseguido lhe dizer algo. Fui numa lanchonete próxima, onde tomei um suco e fiquei repensando toda esta situação. Recordava o que havia dito, em um hábito típico de pensar se tinha agido bem. Comecei a crer que talvez tivesse falado tudo muito rápido. Talvez Walcyr não tenha entendido quase nada do que falei. Mas procurei não me preocupar, pois sabia que alguma coisa ele tinha entendido sim. Sua exclamação de surpresa ao ver o livrinho não deixava dúvida. Eu me senti bem, de certa forma realizado, apesar do momento ter sido tão breve e direto. Quando terminei o suco e retornei à praça, a fim de olhar alguns livros nos estandes, vi que ainda havia um enorme burburinho na tenda principal, e perguntei a mim mesmo se seria possível Walcyr ainda estar ali. Já se passara uns quarenta minutos desde que eu saíra da fila. Apurei a vista, à medida que me aproximava, até que o vi emergir do contigente de pessoas que lá estava. Sorridente, Walcyr começou a deixar a tenda, ladeado por seus seguranças. Algumas pessoas ainda tentavam segui-lo. Ele seguiu alguns metros, na direção de onde havia sido montado um palco para shows e desapareceu por entre uma portinha lateral que se camuflava a uma parede. Tudo foi muito rápido.

Ainda retornei à praça, onde desfrutei mais um pouco dos últimos momentos da feira, passeando pelos estandes. Nesse dia, no caminho de volta para casa fiquei olhando a assinatura. Ela inegavelmente exercia em mim um certo ar de conquista. Por várias razões, imagino, mas primeiramente por ser o primeiro autógrafo ao vivo que consigo, e por ele ter sido dado em um livro que tanto me estima. No dia seguinte, Walcyr deixaria Fortaleza e retornaria à sua rotina de trabalho no eixo Rio/SP. As pessoas que estiveram na Praça do Ferreira, durante sua palestra, àquele 17 de setembro, com certeza foram marcadas por suas palavras, umas mais, outras menos, é fato, mas o autor se fez ouvir de maneira geral, expondo um pouco de sua carreira, do início à fase atual. É sempre interessante saber como escritores e autores dão seus primeiros passos, principalmente aqui no Brasil, onde não há muito suporte ou incentivo nessa área. Gostei da palestra, das palavras de Walcyr, apesar de achar que talvez houvesse mais variedade de assuntos e perguntas se ele não estivesse com uma novela no ar na época. Não que eu esteja excluindo as telenovelas de sua obra, mas a maioria das perguntas acabou centrada nelas e como ele estava em uma feira literária, seria mais interessante se o foco principal estivesse mesmo nos livros e na literatura. Contudo, quem faz uma boa palestra, além do palestrante, é o público, e é evidente, porém, que se não fosse a novela em questão, provavelmente uma boa parte das pessoas não teria comparecido!