Frases


"Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua"Robert Frost



quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Livro: Doze horas de terror



A série Vaga-Lume foi (e talvez ainda seja) uma das grandes responsáveis por incitar o hábito da leitura em muita gente, em especial a faixa jovem, a partir da década de 1970. Uma porta inicial de acesso ao fascinante mundo da leitura, à descoberta desse caminho tão mágico, que acontece de maneira tão peculiar e própria para cada pessoa. As obras sempre apresentavam enredos instigantes, muito bem desenvolvidos por grandes nomes de nossa literatura. Um dos livros, inclusive, que considero grande incentivador por me motivar a gostar e querer escrever é da própria Vaga-Lume, Spharion, mas deixarei para falar dele em outra oportunidade. O livro em questão neste post é Doze Horas de Terror, de Marcos Rey.

Encontrei-o ao acaso, em um sebo, por dois reais. Já havia lido clássicos de Rey como O Rapto do Garoto de Ouro e O Mistério do Cinco Estrelas, então não pude deixar de agarrar mais essa oportunidade, apesar do estado lastimável em que o livro se encontrava. Assim, foi direto para o local da estante onde costumo guardar livros mais antigos, lá ficando indefinidamente.

Resolvi então, esses dias, fazer uma leitura mais livre, mais solta, e esse livrinho de Marcos Rey foi exatamente o primeiro que me veio em mente, à medida que me lembrei dos demais livros da Vaga-Lume e do que havia comprado recentemente. Sem delongas, resolvi lê-lo.

Imagino que para muita gente, a primeira impressão que se tem, ao olhar para um livro da série Vaga-Lume, é rotulá-lo apenas como um mero livro infanto-juvenil, um livro menor, ou sem muito valor, ou ainda, limitado. Acho tudo isso uma grande bobagem, a começar por esses rótulos, infanto juvenil é um termo que por si só já limita o alcance de qualquer obra, cega e impossibilita de se enxergar ali mais do que se imagina encontrar. Claro que não dá também para fugir deles, uma vez que nossa sociedade é quase que totalmente baseada em rótulos, mas acredito que livros vão bem mais além disso.

Disposto a me deixar levar pela boa história que certamente ali se achava, comecei a ler o livrinho. A trama gira em torno de Júlio, um rapaz que chega a São Paulo para trabalhar, vindo do interior, divide um apartamento com o irmão, Miguel, e tenta se acostumar ao ritmo acelerado e denso da cidade grande. Os dois quase não se encontram, uma vez que trabalham em horários diferentes. Os dias se passaram normalmente, até que certa vez, ao voltar para casa, Júlio se depara com o apartamento totalmente revirado. Logo em seguida, é surpreendido por um telefonema. Uma voz feminina, que ele nunca ouviu antes. Daí inicia-se o fio condutor da trama, com a entrada de Ruth, uma moça que põe Júlio a par dos negócios excusos em que seu irmão andou se envolvendo. Juntos, ele e Ruth descobrirão que não será fácil se livrar de uma perigosa quadrilha de traficantes. 

Até esse ponto, o enredo talvez não chame muito a atenção, mas é a maneira como a história se desenrola que achei o grande destaque do livro. Cada capítulo é nomeado por uma hora, de modo que acompanhamos ininterruptamente os passos dos protagonistas. Toda a trama, da primeira à última de suas 128 páginas, acontece em apenas um dia, mais precisamente nas dozes horas que lhe servem de título. Isso dá um fôlego incrível às sequências, pois a passagem de tempo tem papel crucial na narrativa, ora limitando, ora favorecendo sua evolução.



O texto de Marcos Rey é simples, rápido e preciso, com uma ótima descrição e narração, criando cenários e cenas maestralmente, cativando o leitor. O trecho da briga entre o "jacaré" e o "louva-a-deus" é genial. Há ainda sutis toques de humor e boas doses de suspense permeados em quase todas as páginas, fazendo a leitura se renovar constantemente, a cada novo detalhe, a cada 'hora' passada.



Talvez não tenha o mesmo brilho de outros livros do autor, como O Mistério do Cinco Estrelas, mas é com certeza uma história digna de seu nome, que traz ainda um certo ar nostálgico, por ser uma das últimas obras escritas por Marcos Rey, antes de seu falecimento em 1999. Nela, como em quase a totalidade de seus textos, temos ainda a força da cidade de São Paulo como personagem maior, como via condutora de todos os fatos, como palco ou set de filmagem, no qual o escritor exprime livremente sua visão, alimentada pela cidade onde passou a maior parte de sua vida.




Um outro elemento característico da série Vaga-Lume, que também está presente neste livro, é o estilo clássico de suas capas, bem como as ilustrações. As primeiras edições, como esta mostrada aqui, são verdadeiros retratos de sua época, e apenas o folhear de uma dessas edições históricas já é por si só uma bela volta ao passado, um passado onde parecia havia uma certa inocência, uma maior valorização da imagem, que casou perfeitamente na unidade do texto.



Por fim, retomando a questão do livro infanto-juvenil não ter muita voz ou alcance, reforço minha opinião mencionando o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que comentou na IX Bienal do Livro aqui de Fortaleza que suas primeiras referências literárias são obras de Andersen, como O Patinho Feio, obras não tão agraciadas e sinônimos de intelectualismo, como Joyce ou Proust. Ou seja, tudo pode ser referência, tudo pode inspirar, despertar, basta apenas a pessoa saber olhar. Esse 'preconceito' em desmerecer esse ou outro livro apenas pelo público ao qual ele é inicialmente dirigido é que é o problema. A escritora Marina Colasanti é outra que partilha esse ponto de vista, ao comentar certa vez que escreve do mesmo jeito, tanto para adultos como crianças.

As obras da coleção Vaga-Lume têm a missão de ser quase como "degraus" de uma escada, os primeiros passos para o conhecimento posterior de outros livros e autores, mas isso não quer dizer que elas não sejam ricas e profundas. Muito pelo contrário, pois se – na maioria dos casos – são as primeiras leituras de alguém, maior é a chance de se tornarem eternas, fortes, sempre nas lembranças de saudosas leituras, de bons momentos vividos. Doze Horas de Terror é certamente um livro capaz de reunir tudo isso e muito mais. 


Outras obras de Marcos Rey que também se destacaram na coleção Vaga-Lume.

Só lembrando que hoje em dia os livros de Marcos Rey estão fora da Vaga-Lume, então é procurar em sebos pelas edições clássicas, ou recorrer à editora Global, que o edita atualmente, em edições, digamos, bem mais sem sal (por parte das ilustrações de capa e miolo).