Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca"Marcelino Freire



segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Rumo à Fliporto 2015!



Vem aí a Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco! Um dos principais eventos literários do país chega à sua 11ª edição, que este ano homenageará o poeta português Fernando Pessoa. Após minhas incríveis experiências recentes na FLIP, resolvi também acompanhar, pela primeira vez de perto, mais esta festa da literatura, que também sempre ouvi falar muito bem. Com programação ampla, de congressos literários, feira de livros, ao melhor da gastronomia portuguesa, a Fliporto acontece de 12 a 15 de novembro no colégio São Bento, em Olinda, PE. Um dos maiores destaques é a presença da escritora Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa.

Programação completa no site oficial do evento.

Por conta desta viagem, darei uma pequena pausa nos posts da série da Flip. O próximo já está quase pronto e deve ser publicado até o fim de novembro, sobrando dois para concluir a série, em dezembro.

Vamos lá, rumo ao mundo de heterônimos de Fernando Pessoa, rumo à Fliporto!

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

FLIP 2015 (II – As mesas que assistimos, parte 2/3)


Fotos: Denis Akel

Seguindo com esta série de posts da viagem que fiz com meu irmão à Festa Literária Internacional de Paraty, em julho deste ano, vamos à segunda parte do post anterior, dedicado a algumas das mesas e palestras que pudemos assistir. Novamente, continuando exatamente do ponto deixado no post anterior, o fim da mesa Zé Kleber.

A PRÓXIMA MESA: DE MICRÓBIOS E SOLDADOS

Saímos de toda a movimentação da mesa Zé Kleber por volta das 13:30, e tivemos apenas uma pequena brecha para o almoço, antes desta próxima mesa, marcada para as 15:00. Escolhi esta mesa, De micróbios e soldados, pelo contexto que ela parecia trazer. Diego Vecchio e Sasa Stanisic, de acordo com o folheto da programação, eram dois destaques da ficção contemporânea. Em resumo, Diego transformou sua mania de doenças num livro, Micróbios. Já Sasa tinha a experiência da guerra da Bósnia recorrente em seus romances. Na Flip, ele lançaria Antes da festa, sobre um vilarejo na Alemanha que luta contra o desaparecimento e a extinção de sua memória. Parecia sem dúvida um interessante entrechoque, dois universos bem distintos, que colidiriam naquela tarde. Além de tudo, o encontro teria a mediação de Joca Reiners Teron, escritor que já conhecia de vista de outros eventos, sempre muito perspicaz em suas colocações.

Esta seria a segunda mesa que assistiria de dentro da tenda. Como disse no post anterior, comprara ingressos apenas para duas mesas, esta e a última, Livro de Cabeceira. A mesa Zé Kleber foi gratuita, e apesar de todas as mesas serem também gratuitamente transmitidas no telão na parte externa da tenda, era uma sensação única estar lá dentro, ver de perto toda aquela ação, sentir aquela pulsação, aquele frenesi. E além da mesa em si, seria possível ver e viver todo um mundo de pequenos acontecimentos; inesperados, surpreendentes, curiosos, que direi ao longo deste texto.

A FILA DOS PATRONOS

Após o almoço, e já de posse do ingresso, eu estava sossegado, mas tentei não demorar muito para garantir um bom lugar no auditório. Quando tornamos à tenda dos autores, porém, vi um movimento colossal em volta da entrada, e logo nos achegamos, ficando atrás de onde a fila parecia começar. Nesse momento vimos o que parecia ser uma outra entrada, na outra extremidade, onde também havia uma fila, menor, porém que já permitia a entrada. Descobriríamos depois que esta fila era um acesso preferencial, destinado a jornalistas e também aos chamados "patronos", que eram pessoas que tinham de alguma maneira contribuído para o evento, seja através de doações de dinheiro ou livros, e portanto tinham, entre outros benefícios, um crachá especial, direito a entrar primeiro, e por essa entrada preferencial. Havia até bastantes patronos, e sempre que víamos alguma pessoa munida daquele curioso crachá verde, ficávamos pensando o que ele significaria.




Meu irmão, Diego, desta vez decidiu não assistir na tenda, iria dar um passeio pelas imediações, respirar um pouco outros ares, e além de tudo economizaríamos um pouco de dinheiro. Depois soube que ele acabou parando no telão e assistindo um pouco, o que foi bem interessante, pois assim pudemos trocar experiências de ambos os pontos de vista. Diego ficaria ainda comigo na fila, conversando, enquanto aguardávamos a liberação de entrada. Eu estava novamente bastante ansioso, à expectativa de mais aquela mesa. Os minutos passavam, vagarosos, enquanto ali estávamos, e mais e mais pessoas foram chegando. Logo nos vimos imersos numa multidão gigantesca, um mar de gente, de vozes, de expressões, e tudo nunca pareceu tão bom, estar no coração daquele caos.

Movimentação antes da mesa. Ao fundo, a fila dos patronos e Paulo Werneck, curador da Flip, em uma entrevista





Até que finalmente escutei um barulhinho eletrônico constante, como de uma máquina registradora de supermercado, e olhei para a frente da fila, vendo algum movimento de entrada. Era tão somente o ruído da maquininha leitora de ingressos, que anunciava que a entrada fora liberada. Me despedi de Diego e segui o fluxo, à medida que consegui, entrando na portinha e subindo os degraus iluminados. Estava prestes a viver novamente um fantástico jogo de sensações.

E NA TENDA DOS AUTORES, OS FONES DE TRADUÇÃO SIMULTÂNEA

Estar no interior da tenda pela segunda vez foi uma sensação diferente. Eu não me sentia mais um estranho, como da primeira vez. Tudo parecia mais nítido, mais crível, apesar de ainda gerar intenso deslumbramento, sobretudo por agora estar sozinho, e ter de guardar minhas observações para mim mesmo. As primeiras fileiras já estavam tomadas pelos patronos. Não hesitei em procurar um lugar mais ou menos no meio do auditório, perto do palco, e o fiz rápido, pois todos pareciam querer fazer o mesmo. Uma vez sentado, armei-me de meu diário de anotações, para já começar a transformar um pouco daquelas sensações em palavras.

E lá estava eu, imerso no meio de toda aquela gente, sozinho, mas ao mesmo tempo preenchido, completo. Chamou-me de cara a atenção o fone de ouvido atrelado à cadeira, que naquela mesa teria papel fundamental. Na mesa Zé Kleber, embora não tenho sido usado, já o tinha percebido, mas não com a devida atenção. Agora, ele seria um dos astros do show, possibilitaria a tradução simultânea. Dediquei um tempo analisando o aparelhinho, conferindo o estado do fone, caso fosse preciso trocar, mas tudo parecia direito. O auditório foi enchendo, e logo a fileira na qual estava foi quase que totalmente preenchida. Mais alguns minutos depois, as luzes baixaram e o telão exibiu o vídeo em homenagem a Mário de Andrade, em seguida os anúncios tradicionais dos patrocinadores, bem como a introdução da Associação Casa Azul, órgão que é responsável pela Flip, que além de apresentar como operar o aparelhinho de tradução, sempre reforçava que não se permitia fotografar ou filmar a palestra. Desta vez, o que me chamou mais a atenção foi a parte dos controles do aparelhinho, para saber de antemão onde aumentar o volume ou quais canais correspondiam a qual idioma, uma vez que isso não ficava claro só se olhando para o dispositivo.



As luzes tornaram a acender, revelando um auditório agora quase cheio, mas ao olhar em volta, vi ainda vários lugares vazios, principalmente nos flancos da estrutura. Apesar do grande movimento do evento, ouvi comentários que esse ano não estava como nos anos anteriores, por conta da tal crise, mas falarei disso mais adiante. E lá estava de novo o curador Paulo Werneck, no centro do palco, e com um sorriso de satisfação deu boa tarde a todos e abriu mais aquela mesa, a terceira daquele dia. Paulo introduziu brevemente os convidados, Diego Vecchio e Sasa Stanisic, bem como o mediador da conversa, Joca Reiners Teron. Enquanto ele falava, peguei meu fone, para já tentar me acostumar a seu uso, foi então que aconteceu o inesperado: o fone de minha cadeira quebrou, um dos acolchoados dos ouvidos soltou-se da haste. Tentei recolocar a todo momento, sem êxito. E agora? O que fazer? A quem recorrer? Nesse momento Joca já tinha assumido a palavra e apresentava a dupla de autores, falando um pouco de suas obras e histórias de vida. Eu começava a me desesperar, imaginando já que não conseguiria ouvir nada da mesa, quando percebi o fone da cadeira ao meu lado, que estava vazia. Foi a salvação. Troquei os conectores e coloquei na cabeça. Pronto, deu certo, ouvia claramente a voz de Joca, aliás, a voz da tradutora, que o traduzia aos escritores estrangeiros.




É engraçado que sempre quando assistia a essas mesas de casa, nos anos anteriores, na tela do computador, ficava alternando entre os idiomas, sempre achando incrível o trabalho dos tradutores que em tempo real transmitiam as falas dos convidados internacionais para o português. Agora, eu podia ver a pequena guarita um pouco ao fundo da plateia, onde ficavam os tradutores, que tinham de estar sempre prontos, sempre atentos. É um lado da Flip que sempre admirei muito.



QUE VENHAM OS MICRÓBIOS E SOLDADOS

Como era costante nessas mesas, os escritores começavam lendo trechos de seus livros mais recentes, para aclimatar o público, demonstrando um pouco de suas narrativas. Era sempre um bom momento para se deixar levar por suas palavras, tentar perceber naqueles fragmentos um pouco de suas vidas, de suas identidades, um momento bastante precioso. Diego Vecchio começou a ler, e o fez diretamente de um tablet. Foi a primeira vez que vi isso na Flip, e achei uma cena bem engraçada, que mostrava a clara evolução de tudo. Já o bósnio Sasa quis ler em alemão, e o fez, direto de um manuscrito, com determinação, a mão em riste ditava o ritmo da narrativa. Ele disse que era um trecho de seu livro novo, que se passa numa aldeiazinha no norte da Alemanha, de como é incrível trazer essa história a Paraty, ao Brasil.

Vi, de onde estava, que Paulo Werneck, que não usou o fone quando Sasa começou a falar em inglês, teve de recorrer a ele, quando se falou em alemão. O curador ficava sempre ali, em cadeiras especias, quase ao lado da mesa, abaixo de um dos telões, certamente para ter uma visão geral do andamento das mesas, e para ficar a postos caso algum imprevisto surgisse. Ao lado dele, um outro rapaz que parecia seu assistente. E foi neste momento que percebi que não conseguiria focar a atenção somente na mesa, mas também no que acontecia no entorno dela. Os bastidores, a movimentação da produção, os detalhes da estrutura da tenda, a iluminação, as demais pessoas ao meu lado, tão características, tão diferentes. Gosto desses detalhes. Tudo era muito interessante de observar. O fato de eu estar sozinho favorecia essas apropriações, essa consciência, como se eu conseguisse captar uma realidade que de alguma maneira não estava visível na ocasião da mesa Zé Kleber. Com meu caderno em mãos, segui escrevendo tudo o que me inundava os sentidos, mas também tentando pegar algo da mesa em si.

Sentado, minha atenção girava entre o debate que se iniciava, ali a poucos metros, e as pessoas à volta. Novamente, como tenho observado desde cheguei a Paraty, o público da Flip é muito interessado. Muitos senhores, senhoras, mais ou menos na faixa dos 40-70 anos (que parecia ser maioria do público), ouviam, com os fones de ouvido bem presos, acompanhando a tradução com afinco, se alimentando daquilo, realmente apaixonados por literatura.



"SAÍMOS DO PAÍS ATRAVÉS DE UMA PIADA" 

Após as leituras iniciais, Joca disse ser difícil achar similaridades entre os dois autores, e brincou citando algumas bem óbvias, como o fato de serem homens, brancos, escritores. Diego Vecchio, argentino, mora na França há mais de vinte anos; Sasa, bósnio, vive na Alemanha desde os doze anos. Podia não parecer, mas havia pontos em comum, e muitos, que seriam descobertos ao longo da conversa. Um dos mais recorrentes era o fato de serem imigrantes, de terem saído de suas terras, e esse tema viria a permear todo o debate.

Inicialmente foi levantada a questão da guerra, que ambos de alguma maneira sentiram, pois eram muito novos quando eclodiram guerras significativas em seus países. Sasa contou que ao saírem da Bósnia, da fronteira com a sérvia, militares lhes pararam o carro e perguntaram se tinham armas. Isso rendeu um desfecho surpreendente

"Meu pai disse ao soldado: Sim, temos gasolina e isqueiro. O soldado riu. Foi a piada mais besta, mas fez com que ele não pedisse nossa identificação. Se tivesse pedido, veria que minha mãe tem nome árabe e a mandaria de volta para a Bósnia, onde ela não estava mais segura. Saímos do país através de uma piada tola do meu pai" – Sasa

Entre as muitas pessoas que estavam ali, algumas, como eu, faziam anotações. Achei muito legal ver essas cenas. Na fileira atrás de mim, um senhor estava debruçado sobre um caderno desses universitários e tomava notas com grande afinco, alternando o olhar entre o papel e a mesa, para não perder um detalhe. Mais ao lado, outras pessoas repetiam o ritual em bloquinhos, e era tão incrível observar essa manifestação silenciosa, a maneira como cada um buscava se apropriar daquela conversa, guardar um pouco daquilo.

OBSERVAÇÕES PARALELAS (I)

Notei, assim num golpe de vista perdido, que Sasa trajava meias azuis escuras, que davam um curioso contraste com suas demais roupas, como que destacando-o. Teria isso alguma representação? Talvez uma mania, um acaso? Ou apenas coisa da minha cabeça? Contudo, o próprio Sasa chamou atenção, não para as meias mas para seus sapatos, que segundo ele eram iguais aos de Diego, e disse entre risos que este seria mais um ponto em comum entre eles.

Percebi que apesar do aviso para desligar celular, muitos não o fizeram, e vi algumas telinhas iluminadas, alguns rostos abaixados, em meio àquelas dezenas de pessoas. Temendo alguma represália, preferi não usar, razão pela qual esse trecho está com poucas fotos, uma vez que só as tirei ao final da mesa. Percebi ainda inúmeros receptivos da Flip, de vermelho, que ficaram o tempo todo de pé, a um canto, mais atentos ao que se passava no público do que no palco. Imaginei que fosse algum suporte ao público, caso necessário. Não pude deixar de imaginar também se eles por acaso assistiam a alguma coisa da mesa.

LITERATURA X HIPOCONDRIA 

Um dos momentos mais bacanas da mesa foi toda a questão da hipocondria que revestia Diego Vecchio e seu livro Micróbios. Ele explicou de maneira geral que a hipocondria é como uma guerra do corpo contra os micróbios. Falou ainda de como se deu seu processo de criação da obra, que teve de "se tornar" um escritor hipocondríaco, fazer uma mímica com suas ideias. Durante o ato de escrita, desenvolveu sua sensibilidade com relação a doenças, projetando, aumentando sintomas, coisas assim.

O hipocondríaco é uma pessoa hipersensível às menores alterações do corpo. Doí a cabeça e já acha que tem um tumor cerebral. – Diego

Ele acredita que o hipocondríaco põe sua imaginação a serviço do corpo, do que poderia ou não acontecer nele, similar ao que fazem os escritores, que escrevem livros de maneira parecida, buscando distorcer a aparente verdade que há por exemplo no trabalho de historiadores e jornalistas.

Há um ponto em comum entre o hipocondríaco e o escritor: a imaginaçãoDiego

A imaginação pode ser como um vírus para um escritor. Quando se inventa historias. As histórias, os personagens, nos possuem enquanto escrevemos, e só saem quando concluímos a obra. É como literalmente adoecer.Diego

O escritor citou ainda um desenho animado que costumava assistir muito quando era criança. Era um desenho que explicava como o corpo funcionava, no qual micróbios, vírus, células e etc eram personagens, viviam no corpo e faziam coisas. Diego disse que ficou fascinado quando o viu pela primeira vez, a ponto de cortar um pouco o dedo para ver com uma lupa o que acontecia, numa inocente curiosidade infantil.

O nome do desenho é Era uma vez a vida. Não me lembro de tê-lo visto antes, mas foi uma grande felicidade poder conhecê-lo. Uma produção França/Japão, com animação bem caprichada, personagens expressivos e sobretudo um enredo curioso e atrativo, como não se vê nas produções de hoje. Vale muito a pena assistir. No Youtube há alguns episódios, como esse abaixo:




Sempre acreditei que houvesse um mundo dentro de nós, com suas próprias leis, seus sistemas, sua maneira de lidar com as doenças e com o organismo. É como escrever, ter suas regras, seu estilo, seu mundoDiego

Depois de ter toda essa percepção, aprendi também que o lugar com mais bactérias num hotel não é no vaso sanitário, mas no controle remoto da televisão. O vaso é limpo todos os dias, o controle não. Nunca mais vi televisão num hotel. – Diego

O SOM QUE VEIO DO SONO

Certa hora, percebi assim de repente, a duas cadeiras ao meu lado, uma moça que mais cochilava do que assistia. Pensei muita coisa: como entrar aqui, pagar o ingresso caro, e dormir? Mas podia também estar muito cansada, quem sabe o que já terá feito naquele dia? Será que era estrangeira? Seria de lá mesmo de Paraty? Qual seria sua afinidade com a Flip? Qual sua história, para que ela estivesse ali naquele momento, e dormindo? Jamais saberei nenhuma dessas respostas, mas não consegui deixar de criar essas perguntas. Subitamente ela despertou, pegou meu antigo fone quebrado e mexeu algo nele. Mas que estranho.

E por falar nos fones, eu fiquei meio atrapalhado com eles. No início foi divertido, brincar entre os idiomas, regular os canais, mas depois encontrei uma intensa interferência. De novo, o que fazer? A quem chamar? Mexi no fio, no conector, alternei infinitas vezes entre os canais, mas sem resultado. A voz do tradutor ficava cada vez mais longe. Fiquei um pouco receoso. Será que devia tentar chamar uma das moças de vermelho para me ajudar? Nenhuma delas olhava na minha direção. Que situação. Foi quando olhei para o lado e vi meu antigo fone, e o peguei, e qual não foi minha supresa ao ver que estava consertado! A moça sonolenta o tinha consertado, foi minha salvação! A transmissão agora estava perfeita. Infelizmente, acabei não pudendo lhe agradecer pois ela logo voltou a cochilar...

OBSERVAÇÕES PARALELAS (II)

Ainda me encantava muito admirar o painel de Mário de Andrade, ao fundo, visto ali de tão perto, belíssimo, atemporal. Olhando-se só por ele talvez não se poderia dizer em que época a Flip se passava. Era 2015, mas poderia ser 2005, 1995, 1975... Ri comigo mesmo nestes pensamentos. As poltronas que acomodavam os autores também chamavam a atenção, cada uma de uma cor, vermelha, amarela e azul, numa curiosa sintonia com o painel de fundo, uma simbiose de cores tão agradáveis ao olhar.



E falando em cores, uma moça de verde, à direita do palco, no extremo oposto de onde estava Paulo Werneck, abaixo do outro telão, estava sentada com um macbook no colo. Imaginei ser a responsável pelo Twitter, ou demais redes sociais da Flip, de interagir com o público que via pela internet, de transmitir as perguntas enviadas aos palestrantes, como me lembro dos anos anteriores. Talvez tenha sido ela a responder meus tweets nesses anos anteriores, algumas sugestões que dei, como mostrar a plateia em outros momentos que não fossem os de aplausos.

Perdi o olhar durante algum tempo também observando as luzes, os inúmeros refletores espalhados pelo teto da tenda, que durante a palestra em si, iluminavam à meia luz, mas sempre a cada salva de palmas clareavam intensamente, revelando o esplendor da plateia cheia, como um sol a brilhar, mas não apenas uma luz artificial, havia mais ali, um sol de calor humano.

DO LIXO PARA O LIVRO 

Em certo momento da mesa, quando se falava das possíveis referências dos livros de ambos, Joca enxergou influências de uma literatura tradicional, do tratado científico, do conto oralizado. Estaria o futuro da literatura no passado? Questionou o mediador. Sasa explanou mais um pouco de sua obra, da pesquisa que fez, coletando histórias antigas da aldeia.

A literatura acontece quando você pega uma história do passado, uma história não concluída, e você, como escritor, tem habilidades para conclui-la.Sasa

Diego falou de A saúde dos homens de letras, um importante tratado do francês Samuel Tissot, que tem uma epígrafe em seu livro Micróbios. Na obra, Tissot dizia que os homens que escrevem padecem de males terríveis, como cegueira e epilepsia. Diego no fim das contas achou tudo bem divertido, uma vez que toda essa teoria é falsa. São histórias que a ciência joga fora, inutiliza.

Histórias que a ciência joga no lixo, a literatura vai lá, as pega e as recicla. A partir de histórias e teorias errôneas, cria-se ficção, de um material descartado pelo ciência ou pela históriaDiego

O ENCANTO DAS PEQUENAS CIDADES

Falando sobre o livro Antes da festa, de Sasa, Joca evocou a cidadezinha retratada no romance do bósnio, e comentou que para ele (Joca) cidades pequenas têm um ritmo muito próprio, meio letárgico, como um pesadelo. O mediador disse ainda que no livro, tem-se a sensação de que a cidade está à espera de se impor de vez na vida dos personagens, deixando o leitor meio que em sustentação. Terminou mencionando que a ideia veio de uma visita que Sasa fez à sua cidade natal, Visegrad, na Bósnia, e pediu-lhe para que contasse um pouco disso e porque ambientar a trama numa cidade pequena.

Venho de uma cidade muito pequena, mas a cidade de meu avô e bisavô era ainda menor, um vilarejo nas montanhas, que hoje em dia tem apenas 13 habitantes. – Sasa

O bósnio contou que a visitou para poder escrever o livro, e achou tudo muito interessante, por haver tanta história ali, mais do que isso, a sua história. Como só tinha 13 habitantes e sua família morara lá, ele era parente de todos. Ficou maravilhado por descobrir suas origens, seus antepassados, e também assombrado ao perceber que o vilarejo pode desaparecer nos próximos anos, uma vez que só há idosos, os jovens saíram, não nasce mais ninguém.

Sempre achei cidades pequenas lugares mágicosSasa

Nossas origens como pessoa têm muita importânciaAs histórias daquelas pessoas eram minhas histórias – Sasa

Quis preservar as histórias, as lendas, as biografias, os mitos daquele lugar. Conversei com todos e comecei a escrever. Todas aquelas histórias tinham a ver com minha família, eram minhas histórias, as carregava dentro de mim. – Sasa

O fenômeno dos lugares que desaparecem é comum no mundo inteiro, jovens saem do campo e vão para a cidade. Eu estava muito interessado não nos que saíram, mas nos que ficaram. Saber o que eles querem fazer com a vida, o que querem vivenciar – Sasa

Me apaixonei por pessoas que lutam contra seu próprio desaparecimentoSasa

Diego partilhou deste interessante ponto de vista e aproveitando a relação entre escrita e desaparecimento, do viver em um lugar estando em outro, perguntou a Sasa como foi a sensação de seu voltar a seu povoado, mas vendo-o de fora, estar ali mas ao mesmo tempo não viver ali.

Sair de minha terra quando era criança me permitiu sempre sentir que todos os lugares podem se tornar meus, onde quer que eu esteja. Sempre penso com seria minha vida se morasse neles. Tento levar isso a meus personagens. – Sasa

O papel dos escritores modernos é recolher, coletar vidas, e colocá-las em ambientes, ambientes em desaparecimento, assim impedindo que desapareçam. Enquanto escritores escreverem sobre eles, eles não desaparecerão. Viverão num território literário geográfico, na cabeça de nossos leitoresSasa

ESCREVER EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Um outro ponto destacável surgiu perto do fim. Joca partiu do fato de que ambos eram imigrantes, e tinham uma maneira bem própria de escrever no país onde viviam. Sasa não escrevia em bósnio, somente em alemão, e Diego, mesmo após mais de vinte anos morando na França, escrevia em espanhol. Era sem dúvida um tema interessante e me recostei na cadeira para melhor ouvir o que diriam, mas sem tirar a caneta do alcance do caderno.

Não consegui escrever na minha língua materna. Não consegui escrever a história da guerra na língua da guerra. Escrevo em alemão porque como escritor é necessário se sentir seguro na língua que escrevemos, conseguir brincar com a linguagem, e sinto isso no alemão, mas não no bósnio. Apesar de falar bem, não consigo contar uma história em bósnio. – Sasa

A língua escolhe a gente, não a gente a língua. Tem que ser a língua que nos sentimos mais à vontade. Eu poderia escrever em francês, mas não me sentiria tão protegido como no espanhol. Curioso que falo francês todo dia, o espanhol virou quase uma língua estrangeira para mim, uma língua secreta, que utilizo para escrever. É uma língua ligada à minha infância e adolescência, usá-la é como voltar à Argentina. – Diego

AS PERGUNTAS JAMAIS RESPONDIDAS

Uma das primeiras coisas que reparei antes de sentar foi que havia uma tirinha retangular de papel sobre cada uma das cadeiras. Nela tão somente linhas vazias. Claro, era o espaço para o público fazer suas perguntas. Lembrei dos anos anteriores, quando assistia de casa, o curador dizer "...já podem fazer suas perguntas nesses papeizinhos que nós vamos recolher...", e logo Paulo Werneck disse quase as mesmas palavras ali há poucos metros de mim.

As moças de vermelho, da produção, coletavam os papeizinhos do público e os encaminhavam ao local onde estava Werneck, sem sequer lê-los. Junto ao curador, estava um outro sujeito, de barba e óculos, que parecia assessorá-lo. Ele recebia as perguntas, as lia e assim parecia aprová-las ou não, colocando logo em seguida ao alcance de Werneck. Entendi, como já imaginava, que havia um controle, ainda que mínimo, sobre o que seria perguntado. Fiquei imaginando, porém, que haveria pouco tempo para o bloco de perguntas. As mesas tinham duração média de 1h10, as perguntas do público, nesta, foram abertas faltando uns 20min para o final, de modo que seria muito improvável conseguirem fazer mais do que duas ou três perguntas, a maioria ficaria mesmo sem resposta. E o público "virtual" teria alguma prioridade ante o público "real"? Fiquei pensando em tudo isso, enquanto observava o papelzinho, o andar do relógio e o andamento da mesa. Não quis entrar na pequena loteria que seria tentar fazer uma pergunta, preferi guardar meu papelzinho como recordação do momento.

OBSERVAÇÕES PARALELAS (III)

Com mais ou menos uma hora passada, algumas pessoas começavam a deixar a tenda. Achei curioso, gastar tanto no ingresso, ficar na fila e sair tão perto do fim. Teriam tido algum problema? Ou o tema já não as interessava? Claro, a maioria se mantinha inerte em suas cadeiras, os fones firmes nas cabeças.

Notei ainda que havia ali uma postura de mesa totalmente diferente do que vi na mesa Zé Kleber, um caráter mais sério, comportado. Todos vestidos socialmente, davam uma cara diferente ao evento, o que foi uma excelente constatação, como se a Flip se reinventa-se a cada mesa, assumindo a cara, a identidade dos palestrantes. Cada debate era mesmo único, próprio. Pode parecer uma constatação óbvia, mas sentir essa energia ali de perto é algo surreal.

ESCREVER FORA DE SEU PAÍS

O momento final da mesa veio quando ambos os escritores foram questionados da origem das ideias de narrar suas histórias em lugares diferentes de onde habitam, principalmente no caso de Diego, uma vez que cada conto do livro Micróbios se passa num país diferente:

Escrever não vivendo no lugar dá uma certa descentralização. A imaginação precisa estar descentralizada, perder-se. Assim, faço um livro em espanhol diferente de como o teria feito se estivesse na Argentina.Diego

Acho que nem a literatura nem qualquer outra arte deve ter esses limites, de ter de escrever só sobre local onde vive, onde está, que conhece. Se fosse assim não teríamos Nabokov, Mann ou Conrad, todos eles contrariaram isso. Escritores precisam enriquecer seu mundo geográfico com o mundo dos outros, precisam viajar. Mesmo quem não for escritor, um dia pode querer contar uma história de vida; pois escrevam, isso enriquecerá a todos nós. – Sasa

ENCERRAM-SE OS MICRÓBIOS E SOLDADOS

Joca Reiners Teron fez a mediação com grande propriedade, participando, prendendo a atenção do público, explorando os temas, e ficando surpreso ao ver que os dois, ao contrário do que se parecia no início, tinham muito mais em comum do que se pensava. Joca contou ainda um conto de Diego sobre vampiros, fazendo todos rirem ao narrar com intensidade o curioso andamento dos personagens.

E assim esse fantástico debate chegou ao fim. Nossa, eu estava muito extasiado. A mente, impactada, depois de ser fustigada por tantas percepções, por tantos micróbios, por tantos soldados. Tinha sido pouco mais de uma hora, mas parecia muito mais, parecia que tinha passado um dia ali, e ao mesmo tempo pareceu também muito curto, quase um sopro. A vida tem esse poder, transforma o pouco em muito e o muito em pouco à todo momento, basta saber enxergar.  Me sentia sobretudo realizado, inundado, transbordado.

Uma generosa salva de palmas irrompeu da plateia, e logo todos começaram a se levantar. Os telões se desativaram. Pensei que aquele seria o momento de, se estivesse em casa, parar a gravação do vídeo. Ficava sempre imaginando nesses momentos, como estaria a movimentação na tenda, como era essa dispersão, e quando pisquei o olho, vi que de fato estava ali. Sorri, enquanto olhava em volta e finalmente saquei o celular e registrei algumas imagens só mesmo para marcar aquele instante.





APÓS A MESA, OS AUTÓGRAFOS

Terminada a mesa, segui o fluxo de saída e logo estava no exterior da tenda. Passava um pouco das 16h, uma bela tarde de quinta-feira, e ao sair encontrei Diego, meu irmão, no espaço do telão. Ele acabou ficando por ali mesmo, de onde assistiu boa parte do debate. Reparamos então uma intensa movimentação que parecia migrar para a área do café, e percebi que boa parte era do público desta mesa. Curiosos, seguimos aquele fluxo repentino.



Não era necessariamente o café, mas a tenda atrás dele, o foco de toda aquela concentração. Desde nosso primeiro passeio de reconhecimento, no dia anterior, tínhamos visto uma ala anexa à tenda da livraria, onde havia algumas exposições e um grande balcão de madeira, na frente do qual estavam dispostos vários organizadores de fila, e percebemos que ali provavelmente seria um espaço destinado a autógrafos. Eu bem me lembrava que após as mesas era comum os autores irem para algum lugar para autografarem. E esse lugar era mesmo ali, onde todos, inclusive nós, agora estavam.



Dezenas e dezenas de pessoas se aglomeravam, comprimidas, boa parte com os livros dos autores nas mãos. Sasa já estava lá, sentado ao longo do balcão, recebendo a todos educadamente. Diego viria logo, como indicava uma garrafinha d'água ao lado do bósnio. Vários seguranças e receptivos espalhados no vão entre o balcão e a fila, para conter alguma eventual desordem. Aquela cena seria uma constante após praticamente todas as mesas da tenda dos autores. Muitas vezes, ainda, como aconteceu na mesa de Arnaldo Antunes, vimos esta fila começar a se formar ainda faltando meia hora para o final da mesa. Seria engraçado, ficar ali, ser o primeiro da fila de autógrafos, mas sem ter sequer assistido a mesa em questão...

Não fazíamos questão dos autógrafos, mas muito me interessava aquela ebulição, aquele fervor de pessoas, seus trejeitos, suas expressões, suas diferenças. Novamente, fiquei pensando em suas histórias, de onde cada uma teria vindo, suas motivações, o que tinham achado da mesa, se já conheciam os autores, se os tinham descoberto agora, como nós, ou mesmo se estavam ali apenas por estar. E após um debate de tão arrebatadora grandeza, minha percepção parecia mais aguçada, mais precisa. Observei que diziam coisas aos autores, que lhes sorriam, tiravam fotos, viviam, celebravam.

Nunca consegui gostar muito disso de "sessão de autógrafos", de chegar assim de repente na cara do autor e lhe pedir seu nome no livro, ou uma foto ou sei lá mais o quê. Não sei explicar, mas isso me parece meio superficial, sem muito sentido, comum. Gostaria bem mais de uma conversa informal, mesmo que de momento, mas que realmente marcasse, que realmente me fizesse perceber que tive um contato com ele, que houvesse uma troca bem maior do que apenas deixá-lo assinar o livro, de maneira morna. Ainda assim, gostava de ver aquele tumulto controlado, por perceber a força que a literatura, de uma maneira ou de outra, consegue exercer. Era também um ótimo celeiro de ideias.






Passamos uns minutos ainda por ali e logo saímos. A próxima mesa na tenda dos autores começaria dentro de instantes, mas não a veria, nem mesmo no telão. Queria ter um momento de reflexão, de pensar no que ouvi e vi, e de comentar tudo com meu irmão. Era preciso momentos assim, eu bem sabia. Voltaríamos, contudo, para as mesas da noite. Falarei de algumas delas e de outras tantas na próxima postagem.

Me senti realizado, inundado, transbordado, lá naquele dia, e mais agora, ao revisitar o tema para completar o que já tinha escrito. Esta mesa foi uma grata descoberta, que sem dúvida marcou bastante minha primeira vez na Flip. Incrível conhecer um pouco da vida e obra destes autores tão singulares... a relação de Diego Vecchio com seu idioma, a questão dos micróbios, a inspiração para escrever... a descoberta dos antepassados de Sasa, seu apreço em querer preservar memórias, suas vivências da guerra... tudo contagia, incentiva, alimenta. E foi justamente buscando marcar esta memória em mim, que resolvi escrever este post, bem como toda esta série sobre a Flip.

O áudio na íntegra da mesa de Micróbios e Soldados pode ser ouvido neste link

terça-feira, 27 de outubro de 2015

FLIP 2015 (II – As mesas que assistimos, parte 1/3)



Fotos: Denis Akel

Dando continuidade às postagens sobre a FLIP, agora é hora de falar um pouco sobre algumas das mesas que pudemos assistir, seja direta ou indiretamente. Algumas muito aguardadas, outras que se mostraram incríveis surpresas, e até mesmo algumas que não conseguimos ir, que abriram espaço para outras programações. Este post será dividido em partes, para espaçar melhor os momentos. Vamos lá, seguindo quase que exatamente de onde parei o post anterior, no fim do dia da abertura do festival.

Quinta-feira, 2 de julho de 2015. O segundo dia de Flip começou cedo. Não havia tempo a perder. Seriam seis mesas na tenda dos autores, mais toda a programação paralela, e estávamos para nos deparar justamente com esse pequeno "contratempo", ter de fazer escolhas, entre essa ou aquela mesa, escolhas muitas vezes difíceis, injustas, mas necessárias. E essas escolhas foram moldando a maneira como víamos toda a festa, a cada instante, a cada aparente decisão.

A INTENSIDADE DA PROGRAMAÇÃO

Como disse anteriormente no post I, eu sabia que além da programação principal, na tenda dos autores, havia inúmeras outras atividades paralelas, mas não imaginava que fossem tantas. E foi lendo o enorme material gratuito, panfletos, guias, jornais e revistas que recebemos que tive a dimensão do que de fato estava por vir. Eram dezenas de outras palestras, outras mesas, acontecendo simultaneamente em todos os espaços que abrigavam ou não a Flip; a cidade fervilhava nesse período, e todas as livrarias ou espaços culturais buscavam se valer disso para de alguma forma atrair a atenção daquelas tantas pessoas que por ali estariam. Uma coisa era certa, seria impossível ver tudo.

FlipZona, Casa Rocco, Casa Folha, SESC, Off Flip... Parte da programação paralela da festa

Meu foco não estaria exatamente na tenda central, mas justamente nestas outras programações. Claro que iria fazer questão sim de adentrar a tenda, de respirar aquela efervescência, de presenciar de perto a ebulição máxima da Flip, mas não faria disso o ápice do evento. Sabia que as mesas da tenda dos autores eram importantes, mas sabia também que a Flip era muito mais que isso.

Para este segundo dia, a ideia era acompanhar o máximo de programações possível, então nos preparamos para correr de uma para outra, para perder uma em prol de uma outra ou mesmo para não ver o que planejamos, caso estivesse lotado ou surgisse outro eventual problema. E essa passou a ser nossa conduta também nos dias seguintes. A partir de agora, compartilho algumas das mesas e encontros que pudemos assistir, algumas das quais tivemos um mínimo planejamento para conseguir ir, outras que vieram ao acaso, se revelando ótimas surpresas:

FLIPZONA - ENCONTRO COM OS AUTORES, AS ORIGENS DAS HISTÓRIAS (LUIZ RUFFATO E JOÃO CARRASCOZA) 

A FlipZona, uma das programações paralelas atreladas à Flip, trazia uma agenda bem diversificada, com alguns nomes que eu bem conhecia já de outros palcos literários. Era quase como outro evento que se descortinava ali. E assim descobri essa interessante mesa, cujo tema muito me atraía, e ainda por trazer Luiz Ruffato, que vira recentemente na Bienal do Livro de Fortaleza ano passado e a chance de ouvir Carrascoza, do qual já ouvira falar algumas vezes. A mesa aconteceria às 8:30 da manhã do segundo dia, no espaço da Casa de Cultura. Tivemos de acordar cedo, mas eu acreditei de alguma maneira que não lotaria. Quem iria a uma mesa dessa, fora da tenda central, tão cedo? Mas eu estaria bem enganado.

Chegamos já perto das 9h às dependências da Casa de Cultura, lá mesmo no centro histórico, um ambiente muito agradável, um completo centro cultural, com múltiplas salas, corredores, exposições, mas demoramos um pouco a achar a sala da palestra. Estava tudo tão vazio que achei que não tinha começado, que atrasaria. Ledo engano. Logo descobrimos o acesso ao auditório, mas não pudemos entrar. Estava lotado, foi o que disse o sisudo segurança que barrava a porta, e foi confirmado por uma das moças da organização que passava por ali, que disse que tinham recebido uma turma de 40 alunos. Ficamos decepcionados, lamentando por não termos conseguido chegar mais cedo. Outras pessoas foram chegando, descobrindo a má notícia, e saindo em seguida, também chateados. Nós, contudo, permanecemos ali, algo me dizia que ainda poderia haver uma chance. Ficamos olhando os entornos do lugar, quadros de avisos nas paredes, o verde de algumas plantas e o esbranquiçado céu nublado. E eis que de repente, a sala se abre e saem outras pessoas da produção, e nos dizem que poderíamos entrar, sob a condição de ficar em pé. Aceitamos, claro, parecia uma troca bem justa, e entramos, juntamente a outras poucas pessoas que ainda chegavam àquela hora.

Movimentação geral na Casa de Cultura

Dentro do auditório, percebi que a maior parte da lotação era de crianças e adolescentes, o que achei ótimo, e melhor ainda pois todos estavam muito atentos às palavras dos palestrantes, um interesse que não lembro de ter visto ainda numa palestra sobre literatura. No palco, o debate já tivera início. Estavam sob os holofotes Luiz Ruffato e João Carrascoza, mediados pelo também escritor Claudio Fragata. Ambos os escritores falaram sobre seus processos, suas referências, como começaram na literatura e, demonstrando serem amigos de longo tempo, não pouparam elogios um ao outro. Ficamos um tempo em pé, o que não me impediu de tomar notas do que era falado, graças ao recém adquirido hábito de escrever no celular. Após alguns minutos, conseguimos sentar, o que favoreceu ainda mais este meu registro. Abaixo destaco algumas interessantes colocações feitas pelos dois autores:

Publicidade é vender produtos através de narrativas – Carrascoza

A maior parte da minha obra é de contos. O exercício de contar histórias na publicidade me fez entender melhor como funciona a narrativa curta – Carrascoza

Gosto muito de ler, não só livros, mas pessoas e lugares, tentar ver realidades mascaradas – Carrascoza

A maior parte de minha obra, escrevi quando estava na publicidade. Escrevia de manhã, antes de ir para a agência de publicidade – Carrascoza

Quando você lê, você também escreve a história do outro – Carrascoza

As histórias que meu pai contava, quando as procurei depois, não encontrei. Meu pai já era escritor, de histórias contadas. Procurei na família as histórias, não achei, ele as tinha criado. Depois transformei isto em um livro. – Carrascoza

Todo mundo tem uma história que de alguma maneira entra em contato com a história do outro – Carrascoza

A partir dos 13, 14 anos, comecei a querer ler. A cidade não tinha biblioteca, então recolhia livros do chão, sujos, e levava para casa. – Ruffato

Estudei muito por conta própria, inclusive literatura – Ruffato





Resolvi um dia escrever sobre gente que trabalha, percebendo que não havia nada assim na literatura brasileira. Estudei muito para saber como escrever isto – Ruffato

Os escritores repetem um pouco o ritual de quando éramos pré-históricos. Lá os homens saiam para caçar enquanto as mulheres ficavam em casa. À noite, se juntavam em torno da fogueira, e conversavam sobre os fatos do dia, e depois o homem ia na caverna e desenhava, de alguma maneira se apropriando dessa memória objetiva, para que não se perdesse. Os escritores hoje em dia fazem mais ou menos a mesma coisa. O trabalho de Carrascoza, de acompanhar o pai, e juntar essas histórias, é uma sequência do que foi feito na pré-história. A obra é dele, mas ao mesmo tempo não, é de todos. Esse livro só faz sentido se for lido, é o leitor que dá vida ao livro – Ruffato

Não quero ser denominado escritor de classe média baixa. Sou um escritor que escreve sobre o tema, que faz uma literatura com L maiúsculo – Ruffato

Escrever é partilhar sonhos – Carrascoza

Minha literatura nem sempre tem muita ação, a história nem sempre tem explicação, como a própria vida, a história muitas vezes não tem um final claro, vai se diluindo – Carrascoza

Muito da minha literatura é do diálogo de pessoas próximas, familiares – Carrascoza

Certa hora, Carrascoza falou de um projeto que adapta seu livro de micro contos Linha Única, e mostrou alguns vídeos que sintetizam bem esta ideia. Fiquei fascinado por esse conteúdo, pela maneira tão singular com a qual imagem e texto se misturam, se contaminam um no outro. O desafio em se dizer muito com tão poucas palavras, que é justamente algo o que venho tentando fazer recentemente em meus contos. Felizmente os vídeos estão disponíveis no YouTube:





O conto curto sempre me desafia. Quis fazer contos que não passassem de uma linha. Uma prosa que fosse quase um hai-kai. Escrevi 600 microcontos, que virarão um livro. Fiz esses pequenos filmes para demonstrar outras formas de se apreciar literatura. O processo é difícil, pois há limitações do curto espaço, mas muito divertido de se fazer – Carrascoza

Carrascoza é um escritor singular, não parece com nenhum outro. Os micro contos aqui apresentados dão apenas uma micro ideia do que é a sua literatura – Ruffato

Em outro momento, Luiz Ruffato falou sobre a polêmica de seu discurso em Frankfurt, que não entendeu por que deu tanta repercussão negativa. Disse que não quis mascarar uma imagem perfeita do país, mas mostrar o que realmente somos para entendermos como podemos melhorar. Carrascoza disse que nesse dia, lá na feira de Frankfurt, aplaudiu com a plateia de europeus o texto lido por Ruffato, por mais de 15 minutos. Ele acredita que há um abismo entre o texto lido por Ruffato e qualquer um do ex-presidente, quem de fato está buscando um caminho melhor para o país?

Esse discurso, na minha opinião, para o bem ou para o mal, atrai atenção para toda a problemática existente no país, que é bem demonstrada nas palavras do escritor. Talvez não fosse bem o que se esperasse de um discurso de abertura em uma feira que homenagearia o Brasil, mas pelo menos tratou essa honraria com o devido respeito, expondo a situação tal como ela é, sem criar uma imagem ilusória do país, mas deixando claro que acredita que a literatura pode mudar a sociedade, que vejo como a ideia central de sua fala.

Voltando à palestra da FlipZona, fiquei um bom tempo observando o auditório lotado, todos muito concentrados, focados, em particular a turma de 40 alunos, sentados bem à frente. Era admirável todo aquele interesse. Estava ali uma cena que não lembro de ter visto na Bienal do Livro de Fortaleza, tanto interesse por literatura vindo de jovens adolescentes. Era algo muito intenso de se ver. Havia pelo menos duas câmeras filmando a palestra, e próximo de onde ficamos no início vimos todo um aparato de edição de imagens, o que me fez pensar que havia grande chance daquela palestra (bem como as demais da FlipZona) ser disponibilizada futuramente. Contudo, até a data dessa postagem não consegui localizar essa mesa em particular.





E então, já no bloco de perguntas, alguém perguntou sobre disciplina e inspiração, ao que gerou os seguintes comentários:

Não me considero exemplo. Sou disciplinado, não gosto de beber. Quando viajava menos, todo dia às 7h da manhã eu escrevia. Acordava cedo, lia os jornais e começava. Disciplina é fundamental para qualquer escritor. Agora viajando muito, minha nova disciplina é escrever em qualquer lugar, onde estiver. Minha inspiração são minhas contas a pagar – Ruffato

Sempre achei um absurdo que se pense ser um absurdo um escritor ganhar dinheiro com literatura – Ruffato

Escrever é um trabalho tão importante quanto o de um gari ou um médico – Ruffato

Fiquei a maior parte do tempo na publicidade. Mas tenho meus horários para fazer, depois volto e refaço o texto várias vezes. A inspiração tem seus mistérios mas advém do seu trabalho e você precisa estar aberto ao acaso. Li o texto de um jornalista que me inspirou sobre a questão da ausência, uma inspiração que veio do trabalho de leitura – Carrascoza

Não tenho dúvida de que se tivéssemos mais educação, diminuiria a violência – Ruffato




A literatura, de todas as artes, é a mais exclusivista. Tanto o produtor como o receptor precisam de uma educação de qualidade. É também a arte mais transformadora, pois é a única em que você está sozinho consigo mesmo, tem que se colocar no lugar do outro, e assim se repensa muitos valores – Ruffato

Os partidos não se interessam que as pessoas tenham educação de qualidade, a ignorância faz bem aos partidos, tanto de esquerda como de direita. – Ruffato

As pessoas deveriam ir pras ruas e pedir educação de qualidade – Ruffato

Não podemos nos contentar com pouco. Se estamos na vida, temos que pensar alto. Deseje sempre ser o melhor, o mais alto, mesmo sem saber se vai conseguir, mas ter esse desejo, não rebaixar nossos desejos – Ruffato

Não gosto de falar sem conhecer profundamente o que não conheço. Se mesmo conhecendo, já erramos muito – Ruffato

Somos um país latino americano que não conhece nada dos entornos, dos países vizinhos – Ruffato

A literatura é um espaço de silêncio. Este festival, a Flip, é silencioso – Carrascoza

O contagio é primordial na literatura, mas deve ser direcionado, uns textos vão tocar mais uns, outros vão tocar outros – Carrascoza

Leia o livro sem ler orelha, capa e etc, deixe-se contagiar pelo interior da obra – Carrascoza

Quero escrever um livro onde cada pessoa tenha uma interpretação diferente, contagie de forma diferente, onde a história contada se misture à história de quem a lê. Cito as obras de Carrascoza nesse gênero. Essa é a diferença entre literatura e entretenimento – Ruffato



E assim a palestra chegou ao fim. Foi uma mesa muito enriquecedora, um entrechoque de ideias fervilhante, cativante, do qual consegui extrair muito. Luis Ruffato até parecia mais à vontade do que lembro quando esteve na Bienal do Livro aqui do Ceará, ano passado. Pode até ter sido impressão minha, mas ele parecia mais animado, mais vibrante, talvez por dividir a mesa com o amigo escritor. Os dois estavam em ótima sintonia, e para mim foi uma excelente maneira de se começar esse segundo dia de Flip. Fiquei com vontade de conhecer mais o trabalho de Carrascoza, e iria aproveitar aqueles dias para procurar algum de seus livros.

Saindo do auditório, vimos já uma gigantesca fila formada para a mesa que provavelmente se seguiria ali. Contudo, deixamos a Casa de Cultura com relativa pressa, pois tentaríamos agora assistir a fala de Carlos Heitor Cony, às 10:30, na Casa Folha. Corremos para lá.

CARLOS HEITOR CONY NA CASA FOLHA



Soubemos deste debate na noite do dia anterior, enquanto líamos os quase infinitos panfletos e folderes que recebemos. Parecia uma grande oportunidade para conhecer um pouco mais sobre Cony. A Casa Folha, promovida pela Folha, é um dos espaços oficiais da Flip, que abriga no local uma série de debates e vendas e lançamentos de livros editados pela Folha. Para os debates, colunistas do jornal e escritores.

O espaço da Casa Folha era bem agradável, contudo, não muito espaçoso, e não seria difícil imaginar que os debates lotariam rapidamente ante todo aquele movimento que se instalara na cidade. E foi bem isso que aconteceu. Chegamos pouco depois das 10:30, o debate já tinha começado, mas não conseguimos nos aproximar, tamanho o aglomerado de pessoas em frente ao local. Tentamos, com dificuldade, mas a entrada estava obstruída por mais gente, não havia mesmo como entrar.



Algumas caixas de som tinham sido montadas na rua, todo um sistema acústico, e escutamos uma voz, aparentemente de Cony, divagando sobre algum tema. Todos o escutavam com grande atenção. Esforcei-me para ao menos ver o escritor, e se não o consegui com os olhos, coloquei o celular em riste e fiz a foto abaixo, totalmente às cegas, sem saber o que viria. E eis aí Carlos Heitor Cony, de vermelho, sobre esta bem pronunciada cabeça. Sua voz cheia, profunda, comprimia as apertadas dependências da Casa Folha e desembocava nas ruas, ampliada pelos potentes alto falantes, o que atraia cada vez mais e mais pessoas, que pareciam não se incomodar de ficar ali, sentadas na calçada.




O tema da conversa seria "a arte do romance", e vindo de um autor com a magnitude de Cony, certamente seria um espetáculo à parte. Contudo, naquelas condições, não nos inspiramos muito a ficar, a assistir, ou melhor, a apenas ouvir suas palavras, e com dificuldade pois os sons da rua interferiam ocasionalmente em suas colocações. Além de tudo, havia já uma mesa nos esperando a seguir, desta vez na tenda principal, a famigerada mesa Zé Kleber, que entre outras coisas, nos daria a oportunidade de adentrar a tenda pela primeira vez, além de desdobrar vários fatos paralelos muito especiais, que direi mais a seguir. Assim, pegamos a edição do dia da Folha, que distribuída de cortesia durante a Flip, e seguimos para a tenda dos autores.

A CAMINHO DA MESA ZÉ KLEBER

A mesa Zé Kleber é uma mesa tradicional na Flip desde 2005, como homenagem ao poeta, ator, ativista e agitador cultural paratiense José Kleber (1932-1989). Nela são geralmente enfocados temas relacionados à educação, preservação cultural, combate à violência, cidades criativas e afins, partilhando da obra e visão do ativista. Tudo isso eu já vinha sabendo de Fortaleza, mas tão logo tive a programação em mãos, descobri algo que ainda não sabia: a mesa seria gratuita. Não estava decididamente entre uma das que pensaria em assistir, a princípio, mas seria uma ótima oportunidade para aproveitar o início do evento, bem como me aclimatar ao ambiente da tenda.

Este ano com o tema Falando Alemão, e marcada para o meio-dia deste dia, 2 de julho, o folheto de programação dizia apenas para que se chegasse com uma hora de antecedência, para a retirada dos ingressos. Com tanta gente já circulando pelas ruas de Paraty (o público total estimado era cerca de vinte mil pessoas!), imaginei que seria preciso até mais antecedência, e se lotasse? Sendo gratuito? Então fomos direto para lá, assim que percebemos que Carlos Heitor Cony seria inviável.

As imediações da tenda dos autores fervilhavam, e era notável que o movimento se intensificaria ainda mais, naquele ritmo. Um contigente enorme estava em frente à bilheteria. Eram perto das 11h quando chegamos ali, achando que tudo aquilo já era expectativa da mesa Zé Kleber, mas não era! Eram apenas as demais mesas, pessoas récem-chegadas, que lutavam para garantir algum ingresso.



Na bilheteria, perguntamos onde retirar os ingressos. A produção parecia meio confusa, como se algo estivesse fora do previsto, e disseram que agora seria meia hora antes, pois àquele momento ainda estava terminando a mesa das 10h. Estranhamos, mas tudo bem, e usamos esse tempo extra para caminhar mais um pouco por aquela área tão agradável que era os entornos da tenda dos autores. A área do telão estava bem cheia, um verdadeiro desfile de tipos. Foi interessante, como eram todas as vezess, observar os traços tão peculiares daquelas pessoas. Fazia sol, mas oculto em nuvens cinzas, ásperas, que davam uma atmosfera incrível àquele lugar. Aproveitei para fazer algumas fotos, experimentando algumas lentes que Diego levara.









Faltando meia hora, voltamos à bilheteria. Ainda não tínhamos comprado para nenhuma das mesas, e comecei a temer que logo esgotassem de vez, então antes de tudo decidi comprar logo. Já sabia mais ou menos para qual compraria. Uma mesa que sempre quis assistir, desde que conheci o evento, é a Livro de Cabeceira, por ela trazer uma pequena síntese dos autores presentes, bem como a presença de Liz Calder, idealizadora da Flip. Além desta, foi difícil escolher, mas fiquei com De micróbios e Soldados. Deixarei para falar delas mais a seguir, mas neste momento, com estes ingressos comprados eu me senti mais tranquilo, mais seguro. De antemão, como já disse ao longo deste texto e do anterior, sabia que não assistiria a tudo de dentro da tenda, seria talvez ostentação demais, mas claro que queria provar essa experiência.

UMA AMIZADE INESPERADA

Perguntamos novamente dos ingressos da mesa Zé Kleber. Disseram que logo seriam distribuídos, e apontaram um canto da bilheteria, onde deveríamos aguardar, e logo uma fila foi formada, à medida que foram chegando outras pessoas, mas a um fluxo bastante tímido. Estranhamos não haver muita gente ainda, uma vez que a mesa era gratuita. Ficamos conversando, observando o vai-e-vem em volta. Trocamos algumas palavras rápidas com outras pessoas, também desorientadas de onde pegar os ingressos. A fila acabou rearrumada várias vezes pelo pessoal da produção, para lá, para cá, todos seguiam, como peças de um jogo, mas todos levaram na esportiva, sorrindo, esses típicos imprevistos que sempre surgem de última hora. Nós já estávamos ali, naquele clima tão bom, não valia a pena se incomodar por nada.

Foi mais ou menos nesse momento que conhecemos uma pessoa que viria a se tornar muito especial, a simpática Gertrudes, uma grande entusiasta da Flip, que começou a conversar conosco com tanta naturalidade que parecia que nos conhecíamos há tempos! Foi um momento tão belo, tão raro e ao mesmo tempo tão rápido. Ela nos contou curiosas histórias, uma vez que acompanhava o evento já há vários anos. Falava com uma empolgação, uma energia, e transmitia um certo conforto que não sei explicar. Havia aqui sem dúvida uma amizade verdadeira, dessas que não se encontra facilmente, e desde esse momento percebi o quão importante tinha sido decidir assistir àquela mesa. Gertrudes não escaparia, contudo, da dança da fila, e logo fomos direcionados a um último ponto, de onde finalmente recebemos os ingressos.

Que sensação especial também receber um daqueles ingressos na mão pela primeira vez, saber que eles de fato existiam, bem diferente quando, nos anos anteriores, lia as notícias "ingressos para as mesas já estão à venda" ou "ingressos para a cerimônia de abertura estão esgotados", e ficava com uma curiosidade... mas agora eu estava ali, com um em minhas mãos. Para muitos podia ser só mais um ingresso, ainda mais gratuito, mas para mim significava muito, sobretudo por toda essa onda de boas energias que a mesa trouxe, mesmo antes de começar propriamente.


Ingresso incorporado a meu diário gráfico

A SENHORA DE AZUL

E então saimos de uma fila para já entrar em outra, a fila efetivamente para o interior da tenda. Mas onde ela começava? Havia uma fila de um lado, outra do outro, cada uma dupla, uma grande confusão. Um rapaz da produção nos orientou, "fiquem ali, atrás daquela senhora de azul", e ficamos. Logo conversamos com ela, também muito simpática. Era natural de Paraty e disse acompanhar a Flip desde a primeira edição! Achei incrível conhecer pessoas tão simpáticas e acessíveis na fila, e ela nos falou muito do evento, detalhes e curiosidades que eu desconhecia, do primeiro ano, 2003, das mudanças deste ano de 2015, da singularidade das pessoas que via todo ano pela cidade, os estrangeiros, citou um casal de franceses muito elegantes que tinham vindo ano passado. Era mágico ouvir tudo isso de uma pessoa natural da cidade, que sabia muito bem do que falava.

Gertrudes voltou até nós, acompanhada de uma amiga, e ficamos todos envolvidos numa conversa pluralizada por tantas sensações novas e diferentes. Eram tantas coisas que podia dizer que me era difícil pensar, mas fomos falando, trocando vivências. Tudo era euforia, alegria, surpresa, medo, um misto de sensações que tive de lidar assim, e foi uma experiência fantástica receber tudo isso antes mesmo da palestra. Em meio a tantos assuntos e pessoas, porém, acabamos nos desvencilhando da senhora de azul, que sumiu na fila à nossa frente. Ainda a procurei rapidamente depois, mas não a encontramos mais. Contudo, a imagem daquela memorável conversa de fila fica como um desses momentos tão agradáveis que surgem assim, de repente, na vida. Infelizmente não conseguimos sequer perguntar seu nome, mas pensar nela como a Senhora de Azul me parece uma maneira simbólica de tornar tudo isso ainda mais significativo.

ENFIM, NA TENDA DOS AUTORES

Faltando pouco menos de dez minutos para o meio-dia, nos quais foram chegando cada vez mais e mais pessoas, se juntando à fila, finalmente o acesso foi liberado. Finalmente adentramos a tenda, subindo os degraus bem iluminados além da entrada, que conduziam efetivamente ao interior. Que sensação incrível entrar na tenda, uma sensação de poder, de força, vivacidade. Eu agora fazia parte de tudo aquilo, de alguma maneira estava marcando uma nova história. Ver a imensidão de cadeiras, a monumental estrutura, as poltronas dos palestrantes, o painel pintado dedicado a Mário de Andrade, tudo era surreal demais para acreditar. E com todas estas sensações despontando, buscamos lugares mais ou menos no meio da tenda, que favorecessem o momento vindouro. Nos separamos de Gertrudes, mas ainda viríamos a nos esbarrar de novo outras vezes antes do fim da Flip.



Mais ou menos nessa hora, testemunhamos algo não muito agradável, uma senhora tropeçou entre as cadeiras, causando uma pequena comoção entre as pessoas em volta, que tentaram logo auxilia-la. Eu estava mais ou menos perto e tentei afastar um pouco as cadeiras, para abrir espaço. Felizmente a produção veio rápido prestar socorro e pelo que vimos ela estava bem, foi apenas um susto. Mas isso já evidenciou uma coisa que eu perceberia melhor depois de algum tempo ali na tenda, as cadeiras do público eram muito juntas, quase presas umas às outras, e mesmo o vão entre as fileiras não permitia muita mobilidade. Não seria difícil mesmo um tropeço ou outro, afinal.



Fiquei conversando com Diego, comentando impressões da tenda, de como era estar ali depois de ter visto aquele cenário por anos numa tela de computador. E logo ambos os telões ao lado do palco piscaram, e começaram a exibir um vídeo dedicado a Mário de Andrade, autor homenageado da Flip. Esses pequenos vídeos seriam mostrados antes de todas as mesas, numa constante referência ao escritor modernista. Curtos e precisos, entregavam um interessante panorama da ressonância de sua obra, criando uma boa identificação com o público, além de apresentar melhor o homenageado a quem não o conhecesse. Seguiram-se propagandas de patrocinadores, que tinham o mesmo destaque do homenageado, em ambos os telões, bem como avisos intimidadores para não se fotografar ou filmar ali dentro. A seguir, subiu ao palco Paulo Werneck, o curador de mais esta edição, que também abria todas as mesas na tenda dos autores.

Werneck agradeceu a presença de todos, explicou brevemente o conceito da mesa Zé Kleber, que era focada em leitura, políticas públicas de leitura, reunindo três poetas que participaram de oficinas de poesia que os transformaram, em três favelas do Rio de Janeiro, daí o título da mesa, Falando Alemão, em referência à favela do Alemão. Geovani Martins, Deocleciano Moura Faião e Katjusch Hoe então foram chamados ao palco, sob aplausos de uma plateia já entusiasmada. O poeta Carlito Azevedo ficaria responsável pela mediação. Com todos em seus lugares, o debate teve início.

A MESA ZÉ KLEBER

Carlito, que era coordenador e professor da oficina de poesia do laboratório cultural Setor X, explicou em breves palavras o que consistia este projeto, que o encantou pela possibilidade de dar voz aos que tem muito o que dizer, os moradores de zonas periféricas, do enorme potencial existente nestes setores. Carlito disse ainda que conheceu o trio em Manguinhos, Rocinha e Alemão, e que cada um mostrou, em seu contexto, muito mais do que ele esperava, pois em vez de encontrar autores focados apenas em crítica social, encontrou autores de literatura. Ele se sentia tão à vontade, durante as aulas, que não tinha muito esforço, a energia, a vontade de construir daqueles três ajudava, ditava o caminho, e isso também transformou Carlito como poeta.

Para esta minha primeira vez na tenda, não me preocupei muito em tomar tantas notas, mas mais de simplesmente apreciar o momento, a fala daqueles três. Era difícil, sobretudo, ter a concentração necessária para tal, por conta de toda a tensão natural de estar pela primeira vez ali, de ver tão de perto aquele desdobramento, conhecer aquelas histórias tão únicas e características. Penso que nesse primeiro momento não consegui assimilar exatamente tudo o que disseram, por conta de todas essas sensações paralelas que me invadiam, mas depois, com o tempo, e agora, para escrever aqui, consigo perceber a essência daquele momento, que era sobretudo libertador, ouvir e sentir aquelas vozes tão livres e expressivas.



O trio falou de como começou seu interesse pela literatura, de leituras, da vontade de escrever, criar, das dificuldades encontradas, das vivências das oficinas do Setor X, de maneira sincera e bem humorada, em especial Deocleciano, que de cara demonstrava um jeito muito peculiar de ser.

Setor X é chegar e falar o que tem vontade. Não deixar a grande mídia legitimar você e seu discurso. É você chegar e dizer: meu discurso é esse, não é o que vocês querem! – Deocleciano 

Geovani começou lendo seu texto O Rojão, que achei muito interessante, bastante visual, sensível. Disse ainda que foi alfabetizado em casa, e da grande importância de sua avó nesse processo.

Reuni alguns poemas meus e enviei pra uma galera, pra ver o que eles acham. Estou bem ansioso. Acho que fiquei mais ansioso pelo fato de saber que meus poemas estavam nas mãos dessas pessoas sem eu poder estar lá para defende-los (risos!) – Geovani

Já Katjusch, ou simplesmente Kátia, brincou começando sua fala em alemão, fazendo alusão ao título da mesa. Ela era natural da Alemanha, mas há dois anos morava no Rio, num morro do Chapéu Mangueira. Contou que começou no teatro, depois escreveu algumas coisas, experimentando a linguagem, antes ainda de vir morar no Brasil, onde seus projetos de escrita foram crescendo. Disse gostar muito da sonoridade das palavras no português, aliás, achamos incrível o fato de ela falar tão bem o idioma em apenas dois anos. Katjusch ressaltou como a experiência no Setor X abraçou seus ideais.

Gostei muito do Setor X por ter essa coisa mais integral, por envolver edição, fotografia e texto, que era justamente o que eu procurava, uma simbiose. Além de escrever, também fotografo e quis aprender a editar – Katjusch

Katjusch leu ainda seu texto O Rio é, que segundo Carlito, surgiu de quando ela começou a escrever captando frases que ouvia, que radiografava seu aprendizado na língua portuguesa. Um texto bastante sensorial, vivo, de tudo o que ela viu e sentiu no Rio de Janeiro.

Os dois telões exibiam um close de quem falava, a mesma imagem que provavelmente estava sendo transmitida online, a mesma imagem que eu provavelmente estaria vendo, se estivesse em casa. Eu meio que ria comigo mesmo com essas simples constatações. Agora, sentando ali entre aquelas dezenas de pessoas, via não apenas um, mas três de cada palestrante.

Um outro momento memorável deste debate foi quando Carlito leu um texto de Maria Graciete, uma aluna de 12 anos da oficina de Manguinhos. Um conto que era quase um desabafo desta jovem, escrito de maneira crua, sem pontos ou vírgulas,  que exigiu uma leitura de um só fôlego, e arrebatou a todos pela intensidade tão diferenciada, um verdadeiro atropelo de sensações, de uma menina que, nas palavras de Carlito, nunca leu a vanguarda russa, Gertrude Stein ou James Joyce.



A mesa Zé Kleber então chegou ao fim. Estávamos satisfeitos, realizados, com aquela primeira inclusão na tenda, com a oportunidade de conhecer aquele projeto, e daquele debate tão incrível, onde ficou evidente a forte personalidade de cada palestrante, todo o impulso, ímpeto criativo, necessidade cada vez maior de se expressar. Foi engraçado que nunca, nesse meu ainda curto tempo de Flip, tinha visto um convidado como Deocleciano. Ele me chamou atenção de cara por sua maneira tão autêntica de se expressar. Sua entonação, seu jeito malandro, rebelde, cativava naturalmente. O auge veio quando mostrou um pedaço de ferro que achou num lixão, que estava "chamando" por ele, e quando o confrontou com uma luminária e uma frase de um livro que lia (Sabemos o que somos, mas não sabemos o que poderíamos ser), na hora teve um estouro, uma percepção, um lampejo. Entendeu prontamente uma ligação entre tudo isso, e ficou tão maravilhado que lhe faltaram palavras, mas todos compreenderam, ou aparentaram compreender. Essa visão poética, de encontrar sentido no aparente inútil, de se sentir completo numa simples observação, de "ouvir" coisas e objetos, é realmente algo incrível, algo até difícil de se transmitir em palavras. Deocleciano e sua luminária imaginária sem dúvida tornaram aquela mesa Zé Kleber uma das mais sinceras e convidativas que eu lembro de ter visto.









TROCANDO REFERÊNCIAS

Ao final, os palestrantes distribuíram alguns exemplares da revista Setor X, que fora foco de boa parte da discussão. Queríamos muito receber algum deles, mas como permanecemos ainda uns minutos na tenda, fotografando e observando a movimentação, acabamos por não conseguir as revistas. Lamentei. Lá fora, ainda naqueles minutos de dispersão, vimos os palestrantes bem acessíveis, conversando com algumas pessoas. Diego então sugeriu: "vamos lá falar com eles?". "O que vamos dizer?", hesitei. "Qualquer coisa, vamos, eles vão gostar". E fomos. Encontramos de cara Katjusch, e fomos bem recebidos por ela, que nos sorriu. Parabenizamos pela mesa, pelo trabalho, e comentamos que infelizmente não tínhamos conseguido a revista, que acabara. Ela se compadeceu, e nos entregou um exemplar que trazia nas mãos naquela hora. "Fiquem com este, é o último!". Agradecemos muito, Diego disse que trabalhava com cinema, e lhe entregou um de seus postais, com imagens de seus filmes. Kat recebeu bem, olhando curiosa o papel. Elogiamos ainda seu domínio do português, para quem morava há apenas 2 anos no Brasil. Comentei então com ela que eu também escrevia, que tinha vindo pela primeira vez à Flip, e que estava adorando a energia daquela festa. Ainda, que estava criando um projeto literário a partir de recortes de textos aparentemente não líricos. Kat achou incrível, agradeceu, ouviu tudo entusiasmada, também muito animada. Acrescentei ao postal de Diego o link para meus blogs antes de entregá-lo em definitivo a ela. Ela também nos entregou um postal seu, com link para seu Tumblr, "tem inclusive uma imagem bem legal que postei hoje, como referência!", e nos mostrou ainda um curioso caleidoscópio feito por ela, no qual viajamos em breves segundos na companhia da multiplicidade de formas e cores. Nunca tinha visto um daqueles de perto.

Abaixo, um pouco da revista Setor X:








Foi um momento de grande conforto, onde nos sentimos muito integrados, onde novamente percebi que o evento só estava começando, e já trouxera tantas energias boas. E bem ao nosso lado, uma senhora estava, nas palavras dela, "fascinada" com o Deocleciano, e tentava se aproximar dele a todo momento. Deo, que parecia realmente bem dentro de seu mundo, acendera um cigarro e estava sentado numa calçada. A senhora não se intimidou e se abaixou perto dele, dizendo alguma coisa. Fiquei pensando. O que teria lhe dito? Geovani também era muito solicitado ali fora, e recebia a todos com um largo sorriso. Então agradecemos mais uma vez e nos despedimos de Kat. Cumprimentamos ainda Carlito, o mediador da mesa e Anna, idealizadora do Setor X, a responsável por trazer aquele trio à Flip. Saímos radiantes desses momentos pós debate, não apenas por ter conseguido a revista, mas por esta oportunidade, esta troca tão especial, esta coisa de momento, de piscar de olhos, que poderia nunca ter acontecido, se não tivéssemos nos aproximado deles. São esses momentos, esses contatos, sobretudo, que fazem tudo isso valer a pena. Tudo acontece realmente da maneira que tem de acontecer.



Na próxima postagem, mais algumas mesas que pudemos assistir na FLIP 2015!

O áudio na íntegra da mesa Falando Alemão pode ser ouvido neste link

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

FLIP 2015 (I - Paraty e seus encantos)


Fotos: Denis Akel

Bom, vamos lá, finalmente às postagens sobre minha ida à FLIP 2015 (ocorrida em julho), que demoraram um pouco devido a alguns problemas pessoais pelos quais venho passando ultimamente, mas é preciso seguir em frente. Para essas postagens, procurei dividir os temas por capítulos, algo que nunca tinha feito, a fim de que as ideias fiquem melhor espaçadas e independentes.

Me é até difícil escolher as palavras para começar este texto, depois de ler o post anterior, no qual falava ainda antes da viagem, e agora, depois, tudo me parece incrível demais para ser transmitido em palavras, mas vou tentar. Da data que sento agora para elaborar este post, já faz alguns meses que cheguei desta incrível viagem. Não pouparei palavras ou esforços para tentar recriar ao menos um pouco do que senti, antes, durante e depois de minhas vivências em terras paratienses, então dividirei este tema em uma série de postagens. Nesta primeira, uma breve introdução e o primeiro dia do evento.

COMO TUDO COMEÇOU

Desde que abracei fortemente o gosto pela escrita e literatura, ouço falar da FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, um evento que sempre me pareceu grande, gigante, e como tal (erroneamente), inacessível. A primeira edição se deu em 2003. Entre 2007 e 2010, passei a ler sempre notícias da participação de autores que aprecio, como Moacyr Scliar, Millôr Fernandes, e ainda vídeos, trechos das mesas, que só reforçavam a grandiosidade de tudo.

Foi apenas em 2011, contudo, que minha relação com a Flip ficou mais intensa, foi nesse ano que a organização passou a transmitir online as mesas literárias, na íntegra! O homenageado àquele ano foi Oswald de Andrade, com toda a questão da antropofagia. Foi um deleite incondicional, um verdadeiro banquete literário, o qual tentei devorar da melhor maneira possível, gravando os conteúdos com programas que gravam a tela do computador. E passava os dias assim, maravilhado com as mesas, as discussões, os autores que ainda desconhecia. Mesas excelentes com João Ubaldo Ribeiro, Ignácio de Loyola Brandão, e os internacionais Héctor Abad, James Ellroy, e ainda o português valter hugo mae, que emocionou a todos na leitura de um texto, tornando-se quase uma sensação daquela edição. A experiência de viver, mesmo que da tela do computador, esses debates, esse primeiro contato mais de perto com a FLIP, me transformou, e passei a esperar sempre com ansiedade o mês de julho, quando ocorre a festa. Na época, fiz até uma postagem aqui sobre ela: FLIP 2011 - Breves considerações.

Nos anos seguintes, 2012, 2013 e 2014, acompanhei intensamente toda a programação que foi transmitida online, e novamente mesmo que "apenas" através do computador, foi de enorme aproveitamento. O banho de relevâncias a que somos submetidos nas mesas é sempre inspirador, gratificante, verdadeiras aulas. O evento durava sempre cinco dias e, nesse período, eu não saía de casa. O horário das mesas era bastante intenso, chegando a dias nos quais aconteciam até 6 palestras transmitidas! Não havia tempo para fazer nada que não fosse assisti-las, e eu adorava isso, uma imersão quase total. Assistia mesmo a todas, independente dos temas, e continuava gravando tudo, já criando um considerável arquivo. Era, afinal, uma oportunidade única, além de poder sentir com grande intensidade um pouquinho da atmosfera que pairava em Paraty. Inclusive, tinha até iniciado um post sobre a edição de 2012, no qual falaria brevemente sobre as mesas que mais me impressionaram, escrevendo sobre as emoções e sensações que senti, que chegaram até mim através do monitor do computador, de maneira solta, sem grandes compromissos formais. Infelizmente por vários reveses, esse post nunca foi concluído.

Mas claro que minha grande ambição, ou sonho, sempre foi conhecer aquilo tudo de perto, viver aquela realidade. E era mesmo um sonho. Todos os anos, pensava, "dessa vez eu vou", "agora sim vai dar certo" mas os estranhos mecanismos da vida não favoreciam, e logo lá estava eu novamente, debruçado diante do computador, cheio de vídeos gravados, e já a espera do próximo terminar de ser renderizado. Por mais que eu gostasse de escrever, aquele sonho parecia irrealizável. Até que um dia, meio assim sem qualquer planejamento, vi a esperança chegar e sacudir essa aparente certeza.

A DECISÃO DE IR

Até o início do ano, não tinha nada confirmado de que iria a FLIP, de que faria essa viagem, nada mesmo. Mais uma vez, provavelmente, eu esperava pensar "esse ano eu vou", com um ou dois meses para o evento, para novamente não ir e repetir mais uma vez esse ciclo. Um fator crucial para favorecer essa mudança de ventos foi meu querido irmão, Diego Akel, que neste ano, 2015, me incentivou como nunca para finalmente abraçar esse desejo. Diego, que recentemente fez várias viagens, em festivais de cinema de animação, inclusive pela Europa, estava mais empolgado e inspirado do que nunca, com as possibilidades, as portas que viagens assim podem abrir, e tudo isso, de uma maneira ou de outra, passaria para mim. Fizemos uma viagem breve a Limoeiro do Norte, aqui mesmo no interior do Ceará. Foram apenas dois dias, mas considero um primeiro passo, pois mesmo sendo perto, desvelou já inúmeras possibilidades para nós, e me fez considerar a ida a Paraty agora com mais fervor do que nunca.

A FLIP 2015 aconteceria entre os dias 1 e 5 de julho, em Paraty, RJ. Um outro grande fator favorável, que parecia clamar para nossa viagem, veio exatamente nessa questão das datas, pois havia também o Anima Mundi, o tradicional festival de animação, que Diego participa assiduamente desde 2010 (tive também o privilégio de ir com ele algumas vezes). Agora em 2015, ele teria alguns trabalhos em exibição, sua ida já era certa. E o Anima Mundi seria de 10 a 15 de julho. Ou seja, as datas coincidiam perfeitamente para irmos à Paraty e de lá voltarmos pelo Anima Mundi, que esse ano seria na Barra da Tijuca. E assim, ele me acompanharia na FLIP, e eu a ele no Anima Mundi.

Mesmo assim, contudo, a viagem só se confirmaria quase em cima da hora. Várias vezes consideramos ir, outras tantas não. Diego tinha muitos trabalhos pendentes aqui em Fortaleza, mas a oportunidade era boa, talvez única, todos reconhecíamos. Tínhamos acabado de sair de uma pequena maratona, que foi o Cine Ceará e uma viagem seria uma ótima maneira de manter a mente ativa que o festival de cinema proporcionara, ainda mais uma viagem como aquela, que unisse a FLIP, que eu sempre quis ir, e o já tradicional Anima Mundi. Era mesmo o momento perfeito para, finalmente, conhecer Paraty. Diego fez alguns malabarismos para controlar seus trabalhos, contornamos ainda eventuais dificuldades e logo estávamos diante do simpático funcionário da agência de turismo, para comprar a passagem. Os preços não foram muito atraentes, mas percebo agora, mais do que nunca, que foi antes de tudo um investimento, e que valeu cada centavo. Tudo o que vimos, sentimos e vivemos não tem preço. E tão logo me dei conta, estava com a passagem na mão, restando agora cuidar de malas e afazeres de casa, a viagem seria daqui a dois dias, 30 de junho.

A EXPECTATIVA

Não era a primeira vez que viajaria. De certa forma, já estava até bem acostumado à rotina de preparar malas, mas desta vez foi diferente. Um misto de medo e excitação me assolou por alguns instantes. A viagem foi ganhando corpo, mas ao mesmo tempo fiquei meio hesitante, talvez por ser algo novo, nunca experimentado. Já fui ao Rio de Janeiro duas vezes, para o Anima Mundi mesmo, mas à medida que conhecia um pouco a FLIP, ela me era totalmente desconhecida. Sempre tinha acompanhando a Festa Literária na diminuta telinha do computador. Agora, eu estava prestes a finalmente realizar o sonho de estar lá, de literalmente mergulhar nas águas de Paraty. Procurei lidar com essa sensação com tranquilidade, sem pensar muito, seguindo o fluxo que estava diante de mim. Mas não foi fácil, arrumar as malas, pensando que dali a poucas horas estaria vivendo um mundo inteiramente novo, um mundo que parecia inatingível. O que fiz foi justamente me valer dessas sensações, e aqui comecei a escrever um pequeno diário de viagem, no qual as inseri, numa preparação para já escrever as vivências que teria. Escrever relatos de viagem é um hábito que de uma maneira ou de outra sempre tive, mas que esse ano também sofreria algumas alterações bem interessantes, como direi mais a seguir.

E veio então uma pequena novela: conseguir pousada. Não tínhamos referência de nenhuma, e ainda com a proximidade do evento, sabia de antemão que não seria fácil achar vagas; a maioria devia estar lotada. Algo muito bem-vindo foi o site da própria Flip oferecer uma lista com várias pousadas credenciadas, assim tivemos uma base, e já começamos a ligar para quase todas. E lá se vão créditos e mais créditos de ligações interurbanas. E como pensei, a maioria estava mesmo sem vagas, ou havia a preços absurdos. Pousadas que só pelo nome, como a Pousada do Ouro, já intimidavam nesse aspecto. E também ao contrário, vi uma certa Pousada Pardieiro, mas que só tinha o pardieiro no nome, pois o local era belíssimo. Após várias ligações, finalmente encontramos uma acessível, a reserva foi feita. Pronto, um problema crucial resolvido. Corri a escrever isto em meu diário, enquanto preparava tudo o que levaria.

Malas prontas. Saímos na madrugada do dia 30. Um voo intranquilo, nunca consegui dormir em aviões, mas ao mesmo tempo único, a expectativa aumentava gradativamente, a cada etapa avançada.

RUMO A PARATY

Do aeroporto Galeão, no Rio, tomamos um ônibus direto para a rodoviária. Eram por volta de 9 da manhã, estávamos cansados, viajar de madrugada é sempre exaustivo, mas a ideia era, uma vez lá, pegarmos o próximo ônibus para Paraty. Já sabíamos de antemão a companhia responsável pelo trajeto, a Costa Verde.

Mesmo já conhecendo o Rio, não canso de me assustar com a grandiosidade da cidade, esse ar de megalópole, intenso, frenético. Olhava pela janelinha do ônibus e via todo aquele caos urbano, viadutos, pontes, elevações, guindastes, tratores, aquele monte de máquinas, tudo contrastando com um céu límpido e pacífico. Saindo de Fortaleza, era sempre um choque.







E finalmente a bordo do ônibus para Paraty, essa paisagem mudou radicalmente. Foi sem dúvida uma das melhores viagens que já fiz até hoje. O ônibus era bem confortável, convidativo a um cochilo, mas não pude deixar de acompanhar boa parte do trajeto pela janela. A rota era praticamente toda pela encosta, pertinho do mar, com incontáveis montanhas, ilhas, árvores, verde. Visões que me faziam sorrir abobalhadamente, uma felicidade espontânea, e procurei escrever essas sensações em meus registros. Passamos por inúmeras cidades, dentre as quais Angra dos Reis, que era a última antes de Paraty. Angra me pareceu incrível, mesmo que vista apenas da janelinha. Rodeada de várias ilhotas, com toda aquela vegetação integrada, aquele clima, a cidade me pareceu bem acolhedora, e até meio perigosa (havia uma usina nuclear!). Como foi uma viagem meio longa, 4 horas e meia, vindo de uma noite intranquila, me entreguei a uma ótima soneca na poltrona, imaginando que daqui a pouco tempo finalmente estaria onde sempre quis ter estado, desde que descobri esse evento espetacular.







O ônibus veio até bastante cheio, imaginei que a maioria ali iria para a Paraty, para a FLIP, o que não seria de se estranhar, pois o público do evento é sempre muito grande, mas não foi bem assim. Grande parte desceu mesmo em Angra, e um diminuto grupo seguiu. Pelo menos agora sim, aquelas que restaram provavelmente iriam ao evento literário.

PARATY, PARA NÓS

Como foi boa aquela sensação, de descer ali, naquela rodoviária típica de cidade do interior. Tudo a minha volta era novidade. E melhor ainda saber que nossa pousada ficava tão perto que poderíamos ir andando! A melhor forma de se descobrir, explorar cidades, é andar, sentindo a cidade pulsar. Percebi também que havia ônibus e táxis à vontade, mas durante toda nossa estadia ali, não precisamos recorrer a nenhum.

Escolhemos chegar exatamente um dia antes da abertura da FLIP, justamente para termos algum tempo para conhecer um pouco da cidade, da movimentação, e já ganhar familiaridade. Após nos instalarmos na pousada e almoçarmos, pensamos em dormir, vindos ainda dessa noite de sonhos intranquilos, era algo tentador a se fazer. Mas quem conseguiria dormir tendo a cidade inteira à disposição? O sono poderia esperar mais um pouco, principalmente graças aos cochilos que demos ainda no ônibus.

Devia ser já final de tarde quando iniciamos esta primeira andança. Além de tudo, eu ansiava para ver logo de perto os locais das tendas, toda a estrutura, sentir que de fato estava ali, que de fato iria acompanhar tudo. As tendas do evento ficavam no coração do centro histórico de Paraty, e o acesso até ele se dava pela Avenida Roberto Silveira. Esta rua, inclusive, também era um destaque à parte, repleta de restaurantes, lojas, luzes, pousadas, além do fluxo sempre constante de pessoas. Achei incrível vários destes lugares terem cartazes da FLIP em suas fachadas, demonstrando a força que o evento tinha. Até farmácias estampavam o banner. Foi uma experiência muito intensa, estar ali, de repente, respirando tudo aquilo. Podia-se dizer que ali era o centro da cidade, e como era passagem obrigatória, de ida e volta, tornou-se, com os dias, uma travessia cada vez mais agradável.

Avenida Roberto Silveira, principal acesso ao centro histórico


Ficou bem evidente que Paraty era uma cidade muito turística, e estávamos justo em seu período de maior movimento, o mês de julho. Comecei a ver as pousadas que tanto vimos quando buscávamos uma, e vi muitas outras, muitas mesmo. E quando atravessamos a avenida, nos deparamos com uma pracinha, e depois dela a arquitetura mudou radicalmente. Surgiam os vistosos casarões, o chão pedregoso, aquele ar colonial, banhado pelo belo sol que naquela hora preparava para se por. Estávamos diante do centro histórico.




Andamos atônitos por aquelas ruelas, atentos a todos os detalhes, e o primeiro deles bastante necessário: as pedras. O chão era todo salpicado de pedras, sendo a disposição destas meio irregular, com os mais variados tamanhos e formas, espaçadas meio aleatoriamente. Passamos muitos dias para nos acostumarmos a isso, e por mais que quiséssemos olhar tudo em volta, tínhamos sempre que baixar a cabeça para ver onde iria nosso próximo passo, sob o risco de um escorregão ou mesmo uma queda, que felizmente não aconteceu.

Neste primeiro passeio, andamos ainda sem qualquer orientação clara, apenas conhecendo os arredores. E rodamos muito, encontrando já vários locais do evento, que me lembrava de ter ouvido falar de anos anteriores, como a tenda da Flipinha, a Casa Folha, a praça da Matriz (que conhecia por ter sempre suas árvores adornadas por livros no período da FLIP), o SESC, o Instituto Moreira Sales. Tudo estava mesmo ali, pertinho, a nosso alcance, eu não cansava de pensar isso, era uma sensação fascinante. Além disso, vimos também a igreja da Matriz, bem como infindáveis escunas, muito comuns por ali, e toda a vastidão do mar e das ilhas no horizonte. Era uma visão tão pacífica, tão gloriosa, que mesmo que só pudesse ver aquilo, a viagem já teria valido a pena.





Havia incontáveis restaurantes no centro histórico, todos muito distintos e chamativos, com cardápios que iam de pizzas a lagostas, e cujos preços intimidavam. Ainda, sorveterias, padarias, lojas de artesanato, galerias de arte, ateliês, museus, igrejas e claro, mais pousadas. Em um dos momentos dessas andanças, vimos uma reportagem do canal Arte 1 sendo gravada, bem ali, próxima à igreja da matriz, aproveitando-se provavelmente deste belo plano de fundo. Com tantas coisas a observar, sentia-me em movimento, feliz, completo, por estar ali. E o evento ainda sequer começara.

E aliás, ainda nem sinal das tendas principais, a tenda dos autores, a livraria da Travessa, o café... e tornamos a andar, nesta busca. E após mais algumas passadas, encontramos uma ponte, e de longe vimos já várias bandeiras da FLIP a adorná-la. Era um bom sinal, devia ser naquela direção. Na ponte, tive outra bela visão, a imensidão do rio Perequê-Açu, que passava ali por baixo, cheio de brilhos e reflexos já da noite que agora chegava. Além da ponte, finalmente vi a imponência das estruturas, do que sabia ser a tenda dos autores e demais espaços. E fomos até lá, em passos lentos e desbravadores. Estávamos agora em frente ao que seria o coração da FLIP. A tenda principal tinha uma estrutura monumental: teto em abobada, ambiente todo climatizado, com acesso através de portas laterais. Caminhamos em volta, assimilado tudo aquilo, havia já placas e identidades visuais da festa, espalhados pela área. Seguimos pela passarela, à borda do rio, apreciando além da estrutura, o ótimo friozinho que fazia àquela hora. Lá no fim, a livraria da Travessa, na figura de outra tenda, esta meio ao ar livre. O espaço era a livraria oficial da FLIP, que venderia também os livros dos autores convidados. Além de nós, havia outras pessoas curiosas, também andando por ali. Todos os segmentos, desde a tenda dos autores, estavam interditados com faixas amarelas, de modo que nos limitamos apenas mesmo a olhar e nos aproximar até onde estas faixas permitiam. Foi ótimo estar ali, naquele primeiro momento, ainda no dia de nossa chegada. As tendas ainda dormiam, aguardando o momento de serem abertas, e fiquei pensando como estaria todo aquele cenário àquela hora, no dia seguinte, quando afinal a FLIP teria início.









A PROGRAMAÇÃO

A FLIP costuma sempre fazer uma homenagem a um escritor brasileiro. Este ano, a honraria ficaria com Mário de Andrade, que seria tema de boa parte das discussões e mesas da tenda dos autores, o palco principal da festa. Esta programação central é composta por cerca de 20 mesas, que é justamente o material que é exibido online, e que até ano passado eu tanto me empenhei em assistir e gravar.

Era comum também que, uma vez divulgada a lista de convidados, eu a esmiuçasse completamente, lendo algo sobre cada um deles, para conhecer um pouco antes dos debates, e assim usufruir melhor daquela experiência. Agora, contudo, não disporia de todo esse tempo. Inclusive, uma das primeiras questões que me colocou em xeque quando considerei afinal ir à Paraty foi bem isso: como fazer para gravar a transmissão das mesas? Uma vez lá, não teria como. Mas não me incomodei muito com isso, procurei pensar que o simples fato de estar lá, de viver aquela atmosfera, já superaria qualquer registro feito de casa, e ficaria muito mais em mim do que qualquer vídeo. E ainda, há pouco tempo a FLIP passou a também disponibilizar o áudio na íntegra de todas as mesas no YouTube, então eu ainda teria como ter acesso a esse material.

Quanto à programação de 2015, com a certeza da viagem em mãos, e pendências de última hora a resolver, não pude olhar com muita atenção quem seriam os autores deste ano, de modo que a única coisa que sabia era que o homenageado seria Mário de Andrade, e que uma das mesas teria o escritor Marcelino Freire, do qual conheço um pouco da obra. Ir assim, meio no escuro, me pareceu estranho a princípio, mas logo se revelaria uma experiência bem construtiva, pois não ficaria muito preso, por não estar direcionado a nada, a princípio. Além dessa programação principal, dessas 20 mesas, havia outras programações, paralelas, que não eram transmitidas, e elas muito me interessavam, mas de uma maneira ou de outra eu acabaria por me focar mais nos bastidores, no que acontecia por trás do evento, ao invés das mesas em si, como direi mais a seguir.

O DIA DA ABERTURA 

A abertura da FLIP seria só às 19:00, mas o dia 1º de julho começou cedo para nós. Todos os momentos eram preciosos, desde o café da manhã da pousada, que deveria ser apreciado não só nas iguarias como na percepção dos demais hóspedes, e lá escutamos as mais variadas conversas, sobre a FLIP mesmo inclusive, e vi já uma empolgação acentuada nos rostos de todos. Os proprietários do lugar falavam com muita satisfação do evento, que enchia a cidade, e orgulhavam-se de que naquele período já estavam negociando a parceria para Flip do ano que vem. Nós ouvíamos maravilhados, mais curiosos do que nunca para a noite deste dia, para a abertura.

Como agora sabíamos nos localizar melhor, rumamos direto para o centro histórico, encontrando já um aumento significativo no número de passantes, também pela Praça da Matriz, enquanto agora íamos a caminho das tendas, para pegar logo um folheto com a programação, que sempre quis ter o prazer de ter nas mãos. A ponte que dava acesso a essa área, pela qual até o dia anterior ainda havia trafego de carros, agora estava restrita apenas a pedestres. Aos poucos, tudo se preparava para o início do evento.



Na tenda dos autores, as barreiras e faixas de interdição haviam sido removidas, e já iniciava-se um fluxo moderado por ali. Vi o balcão da bilheteria, ainda em preparação, seguranças já em volta, e não conseguia parar de olhar para todos os lados, observando cada detalhe, cada cor, cada vibração da sensação que era estar ali. E foi num balcão ao lado da bilheteria que pegamos a programação, que me surpreendeu antes de tudo pelo capricho: um pequeno kit embrulhado num envelopinho, que apesar da vastidão de informação que reunia, cabia num bolso. Em cada um dos livretos, programações distintas, e ainda um mapa detalhado das mesas, bem como da localização na cidade dos locais que teriam atividades. Simplesmente incrível o acabamento daquele material, e tentei dar logo uma pequena olhada, agora pela primeira vez tomando melhor conhecimento a respeito das mesas, dos autores convidados etc.




Mapa de orientação no centro histórico, que mantivemos à mão quase o tempo inteiro


A ideia era ainda tentar conseguir ingressos para a abertura, e nos aproximamos da bilheteria. Para a abertura já estavam esgotados, e não apenas ela. Uma das moças pegou o nosso mapa das mesas e começou a marcar com uma caneta as que ainda tinham ingressos disponíveis. Eram bem poucas. Fiquei assustado, na hora, com já tanta procura, mas depois percebi que os ingressos estavam à venda já há alguns dias, pela internet, e que com o público massivo do evento, era de se esperar que acabassem rápido. Mais tarde eu viria ainda a saber que esse ano inclusive foi a primeira vez que os ingressos todos não esgotaram antes da abertura, ao que foi atribuído à crise que assola o país. E ficamos lá, diante da moça, que esperava, sorridente. Mas como resolver assim em cima da hora para qual mesa comprar? Mal sabia ao certo quem era quem, os temas discutidos, não... não poderia decidir assim, ainda mais que o valor do ingresso era 50,00 reais a inteira. Precisávamos considerar bem para qual iríamos. Sabíamos que os poucos restantes poderiam acabar, mas correríamos o risco de nos precipitar. Claro que também havia a possibilidade de comprar mesmo no escuro, e ter uma ótima surpresa. De um jeito ou de outro, tudo seria lucro, era verdade, mas nesse primeiro momento, preferi manter os pés no chão e pensar um pouco mais antes de resolver.

Parte das programações. Com as marcações de caneta ainda presentes, esse folheto traz boas memórias. 

E continuamos a andar, com os livretos da programação nas mãos, explorando os outros espaços. A tenda dos autores tinha ainda um anexo à direita, próxima a área das portas de saída, no qual foi montado um telão, de onde seriam exibidas todas as mesas, gratuitamente, tudo o que ocorresse dentro da tenda. Logo à frente dele, dezenas de cadeiras compunham aquele belo auditório ao ar livre, sobre milhares de minúsculas pedrinhas espalhadas por todo aquele terreno. Seria um espaço onde passaríamos bastante tempo.




E com a luz do dia, tudo ficou mais claro, mais amplo, com outro sabor, com aquele movimento de pessoas, aquele fluxo, aquela preparação para logo mais. Andamos novamente pelos mesmos trechos da noite anterior, quase redescobrindo, ou descobrindo mesmo. O café já estava aberto, bem como a livraria, e aproveitamos para conhecê-la logo, aproveitando o ainda pouco movimento. Pelas imediações também vimos já o escritor Marcelino Freire, andando por lá com a desenvoltura própria de conhecer tudo aquilo. Na livraria, chamava a atenção de cara uma pilha de livros, dos autores daquela edição, e me demorei um pouco ali, buscando um breve panorama. Autores franceses, irlandeses e até queniano, bem como vários brasileiros. Dei uma breve olhada nos preços, mas não pensava em comprar nada agora. Passeamos um pouco pela livraria, que de resto era meio que uma livraria comum, exceto pela atmosfera do evento que já reinava absoluta. Tivemos ainda o prazer de ver a ilustre Liz Calder, a inglesa que idealizou a Flip, andando por ali, provavelmente checando se tudo estava como deveria.














Retornamos então, e apesar do sol, fazia uma temperatura agradável, uma brisa friazinha, que foi um grande aconchego. Como era mágico andar por aquelas dependências, ver aquele panorama, eu não cansava de pensar, de me encantar. Havia várias placas de madeira no decorrer do trajeto, com detalhes das mesas e informações adicionais. Em uma delas, uma nota avisava que o escritor Roberto Saviano não viria à FLIP. Não me detive muito, a essa altura, como disse, ainda não sabia direito quem era quem, mas nos dias seguintes isso chegaria mais bem explicado, inclusive como chave de ouro na última mesa do evento.

Voltamos para almoçar no centro histórico, desfrutando daquele belo cenário paradisíaco, que parecia a cada minuto se tornar mais belo. Avistamos o livreiro Pedro Herz, apresentador do programa Arte 1 Com Texto, e sempre me enchia de satisfação só em perceber essas pessoas do meio, essa pulsação, esse vigor que parecia atingir Paraty como nunca durante aquele período. Passamos a tarde conhecendo todos os espaços da FLIP, a Casa Folha, o IMS, a FlipMais, a Flipinha, Praça da Matriz, todos incríveis, e neles fomos fustigados por toneladas de informações, que vinham na forma de panfletos, revistas, jornais, tudo distribuído gratuitamente. Vimos ainda uma ótima exposição dedicada ao artista paratiense Zé Kléber, na Casa da Cultura de Paraty. Há uma mesa tradicional da Flip que leva seu nome, e eu sempre ficava me perguntando quem era Zé Kléber. Essa exposição veio como uma ótima supresa, para mergulhar de vez no clima do festival, e vimos inúmeros registros de sua vida e obra: filmes, poemas, livros e músicas. Grande oportunidade de conhecê-lo melhor.

Ainda, a movimentação de pessoas pelo centro histórico intensificava-se, e já podia imaginar como seria na hora da abertura. Fiz fotos de tudo o que consegui, enquanto paralelamente seguia escrevendo minhas impressões.

Casa Folha, espaço que além de livraria, recebia também conversas com autores



Tenda da Flipinha, onde além de programações, aconteceu também o show de abertura

Mural pertencente à exposição dedicada ao artista paratiense Zé Kléber





E COMEÇA A FLIP

Após uma breve pausa na pousada, para deixar parte do material que nos pesava as mãos, bem como fazer algum lanche, tornamos a sair. A abertura seria às 19h. E como fazia frio à noite! Havia até uma nevoazinha, que foi um bálsamo para nós, saídos do sempre constante calor de Fortaleza. Eu me sentia muito bem, realizado, prestes a testemunhar aquele momento que me era tão aguardo, a desmistificar a impossibilidade daquele sonho. Mesmo que ainda não de dentro da tenda principal, iria acompanhar de perto a abertura do evento.

No centro histórico, o fluxo já era respeitável, com todos convergindo para a tenda. Como estávamos meio atrasados, apertamos o passo, à medida que as traiçoeiras pedras do chão permitiam, e logo cruzávamos a ponte sobre o rio, encontrando um grande contingente nas imediações das tendas, da bilheteria, daquele trecho que era o coração do evento. Consideramos tentar comprar um ingresso, de repente de alguma desistência, mas mesmo de última hora, ainda teríamos de gastar 50 reais... e preferi guardar para analisar melhor as mesas vindouras. Em pouco tempo, vi que o acesso à tenda tinha sido liberado, as pessoas passavam a portinha e subiam os degraus, para uma realidade que eu ainda desconhecia, a parte interna da tenda, mas ainda teria tempo para isso. E seguimos, direto para a área do telão.






Não sei se havia ainda lugares livres na tenda, mas ali fora me espantou ver praticamente todas as cadeiras ocupadas, sem qualquer lugar sobrando. E agora? O telão exibia já propagandas de patrocinadores, ficaríamos em pé? A primeira vez na FLIP para assistir à abertura em pé? Por sorte havia o espaço do café, mais ao lado, onde havia também toda uma aparelhagem acústica, de modo a ser possível sentar-se a uma das mesas, tomar um café, sem deixar de acompanhar nada. Parecia perfeito para o momento, principalmente porque apesar do movimento, havia ainda várias mesas vazias. Corremos a elas, passando pelo mar de pedrinhas.




SESSÃO DE ABERTURA, AS MARGENS DE MÁRIO

Ah, a abertura da Flip! Quando sentei à mesa, me lembrei de imediato dos anos anteriores, em 2014, quando Millôr Fernandes foi homenageado, nas palavras do crítico Agnaldo Farias, ou 2013, quando o escritor Milton Hatoum abriu a FLIP dedicada a Graciliano Ramos. Naqueles anos, eu estava a quilômetros de distância, atrás de um computador. Agora eu estava ali, a poucos metros da ação. Uma sensação de plenitude me tomava, no momento em que o telão exibiu um breve vídeo de homenagem a Mário de Andrade (assim seria em todas as mesas) e logo depois o interior da tenda, toda aquela vastidão, e subiu ao palco Paulo Werneck, curador de mais esta edição. Ele fez os tradicionais agradecimentos, deu boas-vindas a todos, mencionou ainda que esse ano três livros da Flip têm a palavra amor no título e apresentou os palestrantes daquela primeira mesa: Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo jardim. O trio era especialista na obra do escritor modernista, e logo iniciou-se um profundo debate sobre sua vida e obra.

Era uma sensação muito boa estar ali, respirando aquele ar. Podia quase me ver em casa, como fizera nos anos anteriores, diante da tela do computador, gravando, assistindo, acompanhando. Dessa vez, estava ali, se não dentro da tenda, de outro ponto de vista, vendo a festa talvez até com mais informalidade, de onde podia tomar um café, observar as pessoas, a noite, e ali percebi que acontecia uma outra Flip, uma Flip que eu jamais veria das paredes de meu escritório, lá em casa, e talvez sequer de dentro da tenda.



Não conhecia nenhum daqueles que agora falavam, com toda aquela propriedade, sobre a obra de Mário de Andrade, uma variedade de temas, de sua vida pessoal ao ritmo de trabalho, e tudo parecia sim muito interessante, mas minha atenção não estava exatamente no telão, na mesa em si, mas em volta, no que acontecia à minha volta. Acabou sendo uma constante para mim, durante quase todo o evento, ficar mais impressionado com o ambiente do que o teor dos debates em si. Sempre me interessaram detalhes e nuances. Como tudo era novidade, e na ânsia de filtrar antes de tudo a vida que havia ali, perdia tranquilamente o olhar nas pequenas coisas que aconteciam, tentando observar um pouco daquelas pessoas, seus hábitos, expressões, gestos, tudo me era fascinante de perceber, e ia registrando estas observações em anotações ali mesmo, um ambiente que favorecia completamente este exercício.



Para algumas crianças que estavam por ali, o destaque também estava longe de ser o telão. Elas brincavam com as pedrinhas do chão, correndo alegremente, sentando, pegando e jogando-as ao ar, vivendo o seu próprio mundo, com toda a inocência a que tinham direito, nem um pouco interessadas em Mário de Andrade ou sua obra. Foi uma interessante divergência: enquanto todos ouviam, em silêncio, as crianças corriam, gritavam sem qualquer pudor. Olhei aquela cena, tão simples, tão pura, uma felicidade breve, uma celebração da infância, sucumbida em meio à abertura do mega evento literário.



Nas mesas em volta da nossa, agora já lotadas, todos acompanhavam o telão. Observei que pareciam muito atentos, muito focados, como que absorvendo cada palavra, e até mal se moviam. Comentei algo com Diego, a meia voz, mas já suficiente para fazer uma senhora numa mesa ao lado virar para mim e pedir silêncio, educadamente, com o indicador junto à boca. Aquelas pessoas realmente abraçavam a Flip. Ver aquelas pessoas ali fora me fez perceber ainda um curioso entrechoque cultural. Uma verdadeira passarela de tipos únicos, notáveis, um público diferente, o mesmo que lembrava ver nos anos anteriores, na tenda dos autores, quando a transmissão online revelava, a seu bel-prazer, o público que lá estava.






Ver a abertura, daquela perspectiva, me fez refletir muita coisa. Tantas pessoas ali, interessadas, concentradas, vivendo e celebrando a literatura, sem brigas, sem confusão, faz perceber a força que tem essa festa. E tornei o olhar ao telão. Enquanto os palestrantes falavam, por tantos minutos a fio, pensei como seria difícil manter uma oratória por tanto tempo, uma pequena aula, na qual não havia pausas ou tropeços. Claro que era algo comum, num ambiente como aquele, e não se esperaria menos do que isso, mas eu gostava de ficar pensando nesses aspecto, do quanto eles se prepararam para aquele momento. Não se confundiam, as palavras fluíam e se completavam, com profunda noção de conteúdo, como se tivessem conhecido Mário de Andrade, e contagiando a todos com essas sensações.

Ademais, fazia um friozinho muito agradável, roupas de frio e agasalhos eram uma constante. Eu que escrevia em meu caderno nesse momento, sentia quase uma carícia ao tocar a mão no papel frio e acalentá-lo com os dedos, num afago realizado. Com mais de uma hora passada, o fluxo de pessoas permanecia praticamente o mesmo. Na área do telão, bem como na do café, onde estávamos, ninguém se levantou, os olhares vidrados, alimentados pela trajetória e relevância do escritor modernista.

Um momento muito peculiar surgiu já perto do final da mesa, quando houve uma inesperada invasão no palco. Nada que prejudicasse a fala, muito pelo contrário: era o ator Pascoal da Conceição que, caracterizado de Mário de Andrade, resolveu fazer uma intervenção surpresa na abertura da Flip, e entrou declamando um poema, com um buquê de flores na mão e largo sorriso no rosto. O ator, que interpretou Mário numa minissérie da Globo, disse não poder ficar de fora daquela festa, e que não tendo retorno da produção, resolveu agir por conta própria, inclusive bancando todo o figurino. Eduardo Jardim, o biógrafo de Mário que falava na hora da invasão de Pascoal, disse depois: "Adorei, levei o maior susto! Eu já conhecia o ator, por vídeo. Ele é mais baixo que o Mário, que era um cara muito alto, mas tem uma energia!".
Foi um dos momentos mais divertidos e talvez o mais inusitado que eu já tenha visto na Flip. Apesar de ser visível o quão o curador Paulo Werneck ficou desconcertado, a cena foi de uma beleza extraordinária e se não foi mesmo planejada, serviu como um excelente desfecho à ótima mesa de abertura, quase como se o próprio Mário de Andrade surgisse para receber aquele prestígio.

E seguiu-se afinal o término da mesa, sob largos aplausos, de ambos os públicos, da parte interna e externa. Era quase possível sentir o calor que cada palma emanava, um agradecimento, uma satisfação. Então, as portas da tenda se abriram e começou a dispersão, dezenas e dezenas de pessoas foram saindo, como formigas de um formigueiro, juntando-se ao outro público, que também deixava o local. Nos aproximamos, apenas para ver um pouco da parte interior da tenda, ter ao menos um pouco desse gostinho, ali na noite da abetura. Vi a disposição das cadeiras, as extensas e reluzentes arquibancadas, e vi também que todos que saiam recebiam um curioso pacote, que logo percebi ser algum presente em ocasião da abertura. Ficamos por perto, até que Diego se adiantou, perguntando se poderíamos ter um daquele. O homem que distribuia os embrulhos não questionou, e nos entregou logo um pacote, que recebemos com um grande sorriso e fartos agradecimentos. O pacote trazia o livro "Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cincoenta", um marca página e um breve catálogo de obras do escritor, tudo embalado de maneira bem rústica, que deu um charme bem especial ao presente:



E assim deixamos as imediações da tenda, junto com um mar de pessoas, um fluxo de vozes, de impressões, de sensações. Ouvia comentários sobre a palestra o tempo todo, uns entrecortando outros,  enquanto cruzávamos a ponte de volta ao centro histórico. Nesta noite aconteceria ainda um show para marcar a abertura do evento. No centro do palco da Flipinha, o músico paratiense Luís Perequê agitou a noite. Aliás, esse show, como eu viria a descobrir depois, gerou um pequeno falatório na mídia, por dizerem não ser um show "grande", como foi o de Gal Costa no ano passado. Luís Perequê, segundo as manchetes, tinha sido chamado por conta do baixo orçamento que a organização dispunha esse ano, quase como um "quebra galho". Achei esses comentários desnecessários e inconvenientes. Qual o problema de se dar a oportunidade a um artista local, conhecedor verdadeiro da cultura paratiense? Os jornais não perdem mesmo uma boa chance de levantar polêmicas. Luís Perequê cantou e iluminou a noite desse primeiro dia, na companhia de várias crianças que também se sentiam muito à vontade naquele palco tão colorido.



Regressamos à pousada, exaustos. Não compramos nada nesse primeiro dia, mas recebemos muita coisa, além de toda a carga de emoções e sensações: os folhetos, impressos, jornais e brindes distribuídos em praticamente todas as áreas da Flip, que já foi suficiente para encher a imagem abaixo. E muito mais ainda estaria por vir:



A partir da próxima postagem, algumas das mesas que conseguimos assistir. Ainda tenho muita coisa da Flip para mostrar!