Frases


"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fabrício Carpinejar na Unifor



O escritor Fabrício Carpinejar esteve recentemente em Fortaleza. Participou da Flicaixa, evento da Caixa Cultural, na última sexta (05). Antes disso, o poeta gaúcho deu o ar da graça na Unifor. Estive lá, na noite desta quinta, 04 de maio e conto um pouco neste post.

A CAMINHO DA UNIFOR

Não estava decidido a ir, se já iria vê-lo no dia seguinte na Caixa, mas pensei que tudo era oportunidade, tudo poderia ser aproveitado. Chamei pessoas para ir, uns não puderam, outros não quiseram. Fui só, muitas vezes acabamos sendo nossa melhor companhia. Saí um pouco tarde e até sem lanchar, comeria algo lá. Imaginei que o auditório do Celina Queiroz lotaria facilmente, e isso de fato aconteceria, mas não de imediato. Fui recebido por uma fila de umas 40 pessoas. Vi ainda um balcão com vários livros de Carpinejar à venda. Faltava ainda meia hora (começaria às 19h). Não tinha como ficar sem lugar, pensei, mas tinha como ficar sem comer, então corri ao quiosque de lanches mais próximo. Na volta a fila havia sumido, deduzi que já tinham entrado. 

Fila inicial, a certeza de que lotaria

NO CELINA QUEIROZ, O SHOW 

O auditório estava parcialmente cheio, com várias cadeiras vazias salpicadas aqui e ali. Tomei uma. E mais e mais pessoas iam entrando e era grande o vozerio e notei pelo menos quatro grandes câmeras posicionadas. Era um evento que parecia requerer muito registro. O público geral parecia mais composto de jovens, que imagino ser o maior público do poeta, mas havia também outras faixas etárias, em menor número. 

Qual o tema da fala? como ser feliz criativamente. Além disso, ele ainda falaria qualquer coisa de um projeto envolvendo poesia em guardanapos. Carpinejar foi anunciado, após longas palavras do apresentador, muita publicidade da Unifor. O poeta surgiu da cortina atrás do palco e logo já se mostrou muito à vontade. Lia um texto que batia de encontro aos ideais de muitos ali, focando em TCCs e suas complicações. Ali começou a conquistar o público, que aliás ja estava conquistado desde antes; muitos já tinham seus livros nas mãos. O riso fácil e lúdico enchia o auditório a cada sentença, a cada pausa, a cada identificação. Carpinejar parecia ter acabado de entregar um TCC.



A sala inteira já estava bastante cheia. Na fileira onde eu estava, uma cadeira restava vazia. Uma moça ao meu lado pediu para que a guardasse, pois esperava uma amiga, que logo chegaria. Avisei a todos que foram chegando, o lugar estava ocupado. Com todas as cadeiras praticamente ocupadas, nada da tal amiga aparecer. A primeira então disse que a outra estava lá fora, mas não a deixavam entrar por já estar cheio. E assim seguimos a palestra inteira com essa única cadeira vazia, e uma outra pessoa que estava sentada no carpete não viu e ali continuou até quase o final. 

O palco do auditório contava com duas poltronas, mas elas não foram usadas. O poeta gaúcho não se sentou. Ficou para lá e para cá, entre o público, o microfone afiado, emendando histórias para versar sobre o tema da felicidade. E conseguiu isso de maneira muito própria, usando a si mesmo como exemplo, contando muito de sua vida, de seus medos, receios, que segundo ele, transforma em virtudes. E ele sabia conduzir o diálogo. Prendia a atenção, algo próprio de quem conta histórias. Aumentava o que precisava ser aumentado, dava pausas precisas, intervalos, deixava o silêncio agir. Gritava sem pudor para ter todos com ele. Uma fala muito humana, que de quando em quando brincava com uma ou outra pessoa, numa leve descontração. 

Público atento comentava colocações do poeta

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

Carpinejar tecia uma teia poderosa, incentivava a verdade, o dizer o que se pensa, o não esconder, mesmo sabendo que não se consegue ser assim. Muito focado em relacionamentos, temas bastante comuns em seus textos, mas que pareciam sempre se desvelar em algo novo, nunca dito ou nunca escrito. Falou bastante de família, destacando seus pais, de como lhe foram e são importantes. Do prumo inicial dado por sua mãe, quando foi diagnosticado com problemas mentais na infância, ao fascínio pela figura do pai, também poeta, que o inspirou diretamente ao ofício. Eram palavras que podiam já ter sido repetidas inúmeras vezes por ele, seja em livros ou em palestras ou mesmo no programa da Fátima Bernardes, mas que nunca tinha ouvido daquela maneira, daquela forma de aparente vulnerabilidade. 

Um trecho que achei bastante significativo foi quando o escritor falou do urgência da velocidade dos tempos de hoje, em contrapartida a antigamente, onde se era preciso esperar mais por tudo. Usou exemplos, como esperar o leite ferver ou degelar geladeiras, consertar coisas defeituosas. "Hoje não se conserta, se troca por outro. Fazemos isso também hoje com pessoas, as trocamos, porque não temos tempo. A gente sofre por querer controlar a vida". 

Uma outra história bem curiosa se deu quando falou sobre um cofre que seu pai tinha em casa, na infância, de como sempre viu o cofre, juntamente a seus irmãos, com grande curiosidade de saber o que havia nele. Em suas imaginações de criança, era quase como a caixa-forte do tio Patinhas, cheio de moedas, de ouro, riqueza. O pai nunca os deixava ver. Um dia, a casa foi assaltada, reviraram tudo e, claro, abriram o cofre. Carpinejar contou que para ele e seus irmãos foi quase o dia mais feliz da vida: finalmente iam olhar o inteiro do cofre. Quando se aproximaram, não entenderam, havia nele somente um monte de pastas e papéis. Onde estavam as moedas? O pai depois os explicaria: guardava no cofre suas poesias, seus textos, seus originais, suas ideias. O pequeno Carpinejar ficou decepcionado, mas depois entenderia que aquele era o verdadeiro tesouro do pai. Os ladrões, é claro, não levaram nada. 

E ainda sobre o pai, o poeta Carlos Nejar, Fabrício falou de como sentiu quando ele se divorciou da mãe, quando tinha uns 7 anos. A ausência paterna muito cedo, a saudade, o levava a ir ao guarda-roupa, pegar as roupas do pai e espalhá-las na cama, de modo a meio que remontar seu 'pai', um pai de roupas, um pai vazio, mas o mais próximo que poderia tê-lo. 

Essas histórias, contadas diretamente por ele, prendiam a atenção, graças ao intenso ar poético que conseguia lhes atribuir, transformando uma talvez simples realidade em singular oralidade. Quando perguntado a respeito de como levar a poesia ao cotidiano, Carpinejar foi bem direto: "O mais difícil na vida não é se reinventar mas sim assumir o que se é. Levo poesia através de histórias, do contar histórias, é o que estou fazendo aqui hoje"



O QUE LEVAR DE CARPINEJAR? 

Eu costumava acompanhar muito o Carpinejar uns anos atrás mas fazia tempo que não o ouvia, muitos anos. Lia vez ou outra uma de suas crônicas, poemas ou frases nas redes, ou ainda as entrevistas de seu programa A Máquina, na Rede Gazeta, mas nada é como estar presente, sentindo a energia da pessoa, que fluía livremente pela sala. Ele parecia mais fortalecido, ainda mais seguro de si.

As câmeras, não só as oficiais, mas dos incontáveis celulares, estavam todas focadas naquele careca, e eu via inúmeras representações suas em cada telinha, mesmo na minha, para esses registros. Sempre é algo estranho, essa avidez de fotografar, registrar tudo, mas tão comum que quase não percebemos. O poeta respondeu ainda mais perguntas, com humor e típica sagacidade. Uma das últimas questões levantadas foi quanto a seu processo de escrita e qual sua relação com a máquina de escrever (que usa para poemas). "Acredito na urgência do que precisa ser escrito. Praticamente todos meus textos escrevo direto no celular, exceto os poemas. E quanto à maquina, é um artesanato, e eu adoro esse artesanato, errar, fazer de novo, fazer de novo...". Agradeceu e foi aplaudido de pé. Só achei que ele poderia ter falado mais do projeto dos tais guardanapos poéticos, não se soube muito deles. 

Mais algumas sentenças que coletei:

"Se meu ritmo se alterou após aparecer mais na Globo? Por causa da crise, todos estão trabalhando 3x mais. Eu não tenho emprego, tenho trabalho. Se perder todas essas aparições, continuarei sendo escritor."

"Meu pior pesadelo? uma casa de quindim. Eu adorava quindim. O inferno é aquilo que tu gosta em excesso" 

"Quando tive coragem de assumir meus defeitos, eles viraram virtudes"

"A cozinha é o lugar mais precioso da casa. A sala é para os que não se confia. Na cozinha você recebe quem realmente confia"

"A gente se sente ótimo criando atenção. Gostamos que perguntem, de devoção"

"Perder tempo é dar tempo e dar tempo é ternura"

"Adolescência: desafiar os pais para aprender a desafiar o mundo"

"A paternidade não tem nada a ver com o casamento. O homem esquece de que pode não ser bom marido, mas poder ser um bom pai."

"Num relacionamento, sempre haverá duas pessoas, uma prática e uma poética."

"Por que ter razão, se podemos ter amor?"

"Ser melhor do que o outro nunca é como ser melhor para o outro"

"Eu como nasci feio, sempre me reinvento. Quem se acostuma com quem é, não muda"

"O grande problema da felicidade é acreditar que o outro pode ser melhor do que ele realmente é"

"Curiosidade é saúde. Quem deixa de perguntar, já morreu"

"Todas as grandes decisões de nossa vida acontecem na banalidade"

"A gente não tem medo de morrer. Temos medo de ficar sozinhos"

"Tenho um lado visceral, de expor minha vida, as coisas que vivo, mas a gente se entrega com muita facilidade. Os nomes que colocamos nos animais já nos denunciam"


Após a tempestade, a calmaria no auditório

OS AUTÓGRAFOS, UM SHOW À PARTE

Lá fora, a multidão se direcionou para pegar autógrafos, comprar livros. Fiquei um tempo observando o lugar, as pessoas, as sensações. Não comprei, não iria encarar aquela fila, não agora. Mas gostei de vê-la. Todo aquele furor ensandecido era inspirador para escrever, alguma crônica quem sabe. Carpinejar assinou os livros de pé mesmo, parecia ter aversão a cadeiras, e tirou fotos com todos. No local transitavam alguns gatos, assustados com toda aquela agitação. O que será que os felinos pensavam do poeta gaúcho? E todos que pegavam o autógrafo tinham ainda um último périplo pela frente: desviar de uma ponta de tapete levantada bem na saída, porque o tapete era grande demais, sua ponta se projetou para cima, uma armadilha inesperada. Vi umas três pessoas quase caírem, no ímpeto do tropeço. Será que Carpinejar também saiu por aquele lado?








Com toda a certeza, não concordo com tudo o que disse ou pensa o poeta, mas foi uma noite bem marcante, muitas sensações, considerações. E no dia seguinte, sexta, haveria muito mais. Carpinejar dividiu mesa com Xico Sá na Flicaixa. Estive lá e conto mais num post futuro. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Noite dentro da noite




No dia 24 de abril, ainda no clima da Bienal do Livro (um dia após seu término), estive na Livraria Cultura aqui de Fortaleza para o lançamento do mais recente romance de Joca Reiners Terron, Noite dentro da Noite. Nunca tinha ido a um lançamento de livro antes, e me foi um grande prazer ter este início com o Joca, um cara que admiro bastante, pela já longa trajetória que vem construindo. Ouço falar dele há muito tempo, desde que comecei a escrever, e conheci programas como o Entrelinhas da TV Cultura. 

Ainda não li seus livros, mas sempre vejo entrevistas, conversas, histórias, percebendo também seu forte lado como pesquisador literário, e figura sempre presente em eventos. Estive inclusive numa mesa que ele mediou na Flip, em 2015, entre os escritores Diego Vecchio e Sasa Stanisic. Uma conversa marcada pelas diferenças, de todos os lados. 

Havia bastante movimento na livraria naquela noite. Nas imediações do auditório, várias pessoas, um público diferente, maduro. Marcado para as 19h, um breve bate-papo entre o escritor e o jornalista Jáder Santana. E de cara, entre as prateleiras, encontrei Joca, bem acessível, à espera de seu momento. Aproveitei para já lhe cumprimentar. Era ótimo estar ali, sentir a energia que parece pulsar de cada pequeno detalhe daquela cena, a cena de um lançamento de livro. 







No pequeno auditório, em poucos minutos quase todos os assentos se ocuparam. No palco, sob uma luz indireta bastante direta, Jáder apresentou Joca e iniciou uma rápida conversa sobre o livro, desde seu processo de criação, das inspirações na família, da autoficção, até expandir para o ato da escrita em si e suas múltiplas nuances. Apesar de uma ruidosa interferência no microfone (que demorou a ser sanada) foi possível entrar mais no mundo de Joca, saber mais de sua vida, enxergá-lo a fundo. O livro viria como o mergulho definitivo, após esse breve nado geral. 



Algumas falas interessantes que consegui captar:

"Quando se decide escrever, ninguém sabe exatamente o que vai escrever"

"A história é contada com certo grau de dificuldade. Gosto do desafio. Hoje em dia as pessoas têm medo de abordar coisas complexas, talvez pela facilidade de celulares e afins"

"Nossa vida é uma sucessão de dias onde quase não há nada extraordinário, e é bom que seja assim. Mas o extraordinário, a meu ver, deve estar nos livros. Os personagens dos livros devem ter isso"








Fiquei um bom tempo perambulando pela livraria, fui um dos últimos a ter o livro assinado. Isso porque quis absorver um pouco mais daquela atmosfera, daquelas pessoas, tão próprias, tão distintas, que se reuniram ali naquela hora, naquela noite. Com exceção de alguns bem óbvios, ficava pensando quem era todo aquele pessoal, como tinham ouvido falar dele, e daquele lançamento em plena segunda-feita. Era tudo muito curioso de se pensar. A fila andava, cada um com o livro na mão, como um troféu. E o livro era de fato bem bonito, lembrava um estilo mais noir, anos 80 talvez. Fiquei muito curioso para lê-lo, os personagens alemães, os conflitos, a trama amarrada... Não consegui comentar muitas dessas coisas com Joca, quando enfim chegou minha vez, mas lhe disse tantas outras. São momentos rápidos, mas muito valorosos. E provavelmente logo mais nos reveremos em algum outro evento, em alguma outra noite dentro da noite. 




segunda-feira, 1 de maio de 2017

Uma noite búlgara no Ceará



Fotos: Denis Akel / Diego Akel

No domingo, 12 de fevereiro, tive uma surpresa bastante agradável, ao descobrir, meio por acaso, uma programação cultural aqui em Fortaleza. Tinha quase que acabado de chegar de Recife, onde fui fazer uma oficina literária (da qual falarei numa postagem futura), e ainda respirava o forte clima cultural que sempre paira na capital pernambucana, quando soube desse evento, o Panoramas Internacionais de Cultura, que reuniria exposições, mostra de filmes e apresentações musicais. Como destaque da programação, dois artistas convidados, a pianista Borislava Tavena e o escritor Ilko Minev.

BORISLAVA TANEVA?

Quando soube da programação e tive o desejo inicial de ir, comecei a pesquisar alguma coisa sobre a pianista, mas logo me detive. Nesse mundo de hoje, é um impulso essa coisa de querer sempre saber tudo, ou de querer se antever muito ao que vai acontecer. Chega, preferi não ler mais nada, não descobrir mais nada, mas me deixar envolver pelo momento que estava por vir. O máximo que cheguei a ver foi a foto de Borislava, que parecia muito simpática e receptiva. Já estava ótimo.

Haveria, ainda, antes do recital da pianista, uma apresentação do escritor búlgaro, radicado brasileiro, Ilko Minev. Eu ainda desconhecia Ilko, e seria uma ótima oportunidade também de conhecer sua obra, o que me deixou ainda mais animado para não perder essa noite, mais ainda por ter chegado há poucos dias de uma oficina literária e ver nessa oportunidade quase como algum tipo de prolongamento da boa sensação que trouxe de lá.

O horário que vi, da apresentação, à princípio foi às 18:30, mas quando chegamos ao teatro (fui com meu irmão Diego e uma amiga querida nossa, Carol), mais ou menos perto desse horário, esperando encontrar um habitual atraso como em qualquer evento do gênero, me deparei com o escritor búlgaro já no centro do palco.



EMBALADO POR CLÁSSICOS BÚLGAROS 

À entrada, tinha recebido um folheto informativo que constava o verdadeiro horário: 17:30. Precisei de alguns minutos para entender que a apresentação não só já tinha começado como o escritor já ia bem além da metade de sua fala. Fazer o quê... procurei um lugar para sentar, enquanto o público, à meia luz, ouvia as palavras de Ilko. O áudio estava péssimo, tentei captar ainda um pouco do que ele dizia, mas já sabendo que tinha perdido bastante do contexto geral.

Sentado, observei um pouco o teatro e as pessoas que ali estavam,  pensando como tinham sabido daquele vento, uma vez que foi bem pouco divulgado. Havia um público até bem respeitável, em sua maioria de senhores e senhoras. Não demorou mais do que alguns minutos, Ilko Minev agradeceu, foi aplaudido e deixou o palco. No instante seguinte, a apresentadora chamou o outro destaque da noite, a pianista Borislava Taneva. No folheto, havia um pequeno texto de introdução da própria Borislava. Achei as palavras tão sinceras, transmitindo muito bem o tom desta noite tão singular, que as reproduzo a seguir:
Nesse recital apresentarei uma espécie de "caminhada" no tempo, abrangendo obras desde a criação da escola búlgara de compositores profissionais (início do século 20) até os tempos atuais.
Interpretarei peças para piano de compositores clássicos, como o nosso grande Pancho Vladigerov (cujo Concerto no. 1 para piano figurou no concerto de diplomação de Hebert von Karajan - um fato pouco conhecido!) - e de seus colegas mais jovens Alexander Tanev, Georgui Minchev, Julia Tsenova. Apresentarei também os contemporâneos Georgui Arnaudov e Christo Yotzov.

Além de buscar representar as diversas gerações, ampliei tanto quanto possível a palheta de gêneros, de modo a incluir o estilo folclórico, música aleatória, jazz, colagem e muito mais.

Este meu projeto autoral foi implementado em Atenas, Genebra, Paris, Berlim, Luxemburgo, Munique, Moscou e em outros lugares, tendo sido recebido muito calorosamente, com grande interesse e curiosidade indisfarçável por parte do público.

A apresentação das peças será acompanhada por breves comentários, sendo uma honra para mim, como pianista, poder representar pela primeira vez este gênero específico da música búlgara aqui no Brasil, estreando na cidade de Fortaleza.

Borislava Taneva 




A pianista surgiu com elegância, trajando um longo vestido preto, sobre o qual um majestoso lenço enrolado ao pescoço. Tinha feições tão ternas que passava a sensação de já conhecer o teatro, o público, a cidade. Da mesma forma, senti um bem-estar só de vê-la, como se sua figura transmitisse paz, tranquilidade. No centro do palco do teatro, um enorme piano aguardava em silêncio, prestes a ser acordado.

O recital teve início, e tal como Borislava disse que faria, antes de cada música, ela falou algumas breves palavras sobre o compositor e curiosidades que a envolviam, enquanto uma projeção no fundo do palco mostrava uma foto do autor. A pianista falava diretamente em búlgaro, cabendo à apresentadora da noite, Nara, a função também de tradutora. Foi muito interessante observar aquele choque cultural, dois idiomas tão diferentes convergindo em algum tipo de entendimento, bem como as histórias que envolviam cada uma das melodias.

As músicas foram interpretadas maestralmente, de uma pianista segura e concentrada. É difícil definir exatamente o que senti ao escutá-las, mas é certamente algo de mágico, transcendental, algo que corre no ar, invisível, mas ao mesmo tempo palpável, amável. O prazer de se escutar um piano, se deixar perder na intensidade das notas, que ordenavam diálogos ora caóticos ora suaves. A cada nova peça, novas sensações, transformações. Observei também como o restante do público reagia a tudo aquilo, o que será que cada um pensava de Borislava? das composições? De que forma cada uma daquelas músicas lhes tocava?



Terminado o recital, Borislava foi aplaudida de pé. Sorridente e realizada, a pianista agradeceu a todos pela presença e por receberem tão bem aquelas composições que chegavam, em forma de recital, pela primeira à Fortaleza. Ela recebeu ainda um buquê de rosas e o carinho de todos com prolongadas palmas.




MOMENTO ILKO MINEV 

Informaram em seguida que haveria um sorteio dos livros de Ilko. A maneira como esse sorteio se deu foi no mínimo inusitada: nada de números ou papéis distribuídos, a apresentadora disse que ganhariam os livros os aniversariantes do mês de fevereiro, e à medida que as pessoas foram se agrupando, ela finalizou dizendo que os do mês de maio e março também seriam vencedores. O público reagiu com certa estranheza, mas foi se adaptando à novidade.

No saguão central do teatro, foi disposta uma mesinha, onde o autor sentou-se. À sua volta, as pessoas tinham que estar com a identidade em mãos, para provar que eram dos respectivos meses. Todos se agruparam, sem saber ao certo onde ficar, até serem organizados de acordo com os meses que representavam. Como representante do mês de março, juntei-me a meus irmãos de mês. Parecia quase uma gincana escolar, com uma curiosa vibração no ar, de alegria, festa. A iniciativa de sortear aquele monte de livros (acho que foram mais de 30) era algo bem incomum de se ver. Ilko queria realmente espalhar sua literatura, e o fazia com uma leveza e simplicidade que davam gostos de ver. As duas obras, A filha dos rios e Onde estão as flores iam sendo distribuídas à medida que as filas andavam. No fim, fiquei um pouco ansioso por quase não ver mais livros sobre a mesinha. Mas ainda havia sobrado um, como que a conta certa para aquele momento. Recebi o livro das mãos do autor, que estava ao lado de sua esposa. Conversamos brevemente e soube que ele teria, no dia seguinte, uma fala na Academia Cearense de Letras. Seria um ótimo momento para compensar o que eu tinha perdido no início da noite. E lá fomos nós.



UM DIA NA AMAZÔNIA

Tão logo tive a honra de ganhar o livro "A Filha dos Rios", de Minev, me pus a lê-lo. Tenho adotado cada vez mais a ideia de fazer logo coisas que pensamos "faço depois, leio depois". E esse depois nunca chega. Gosto de assumir uma postura mais livre e solta, tentando ler sem que me dê conta de que realmente estou lendo, e assim deixando a leitura fluir com espontaneidade. Encontrei uma leitura acessível, bem articulada, bastante própria de imagens e sentidos, numa linguagem direta e bem dosada, que me fez sentir quase na Amazônia, à medida que se desenrola. E assim sigo a leitura, em uma brecha ou outra, sempre que possível, sem me dar conta de que realmente o estou lendo.

E NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS

No dia seguinte, Ilko fez de fato a fala especial na ACL, na qual falaria com mais tempo, abordando sua história desde Sófia (capital da Búlgaria) , passando por São Paulo até chegar a Manaus. Na bancada junto a ele, acadêmicos e professores de universidades. Praticamente não havia público. Fui novamente com Diego e Carol e acho que éramos quase o único público extra oficial ali presente, e isso foi relativamente bom, pois favoreceu um debate mais silencioso. Contudo, o espaço da Academia é ótimo e deveria ser mais utilizado para falas de escritores e também mais divulgado.



A acústica do microfone também não era das melhores, mas já superava a do teatro. O escritor e acadêmico Dimas Macedo fez a mediação, debatendo com Ilko sua trajetória, desde a fuga da Bulgária por questões políticas, do longo período como empresário (começou vendendo calculadoras), da vida em Manaus e de como entrou na literatura. Foi uma conversa breve, mas bastante profunda. Era possível ver em Ilko alguém que abraçou a cultura brasileira com um apego muito próprio, a vida na Amazônia, que ele conhece tão bem desde sua juventude, uma história que se misturou tanto a ele a ponto de querer contá-la, como tem feito desde que começou a escrever.

A seguir alguns trechos do que consegui pegar da conversa:

Sempre fui leitor compulsivo, leio de tudo, até bula de remédios, isso me fez querer escrever e quis escrever para ser fácil de ler, escrevi em português simples – Ilko

Todas as histórias têm o seu lado positivo e negativo. Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, mesmo que não para publicar, escreva-as para a família – Ilko





No final da palestra, Ilko distribuiu mais livros, e dessa vez sem necessidade de sorteios. "Não pretendo voltar com todos esses livros não!", disse em tom de brincadeira. Mas ele voltaria, havia bem mais livros do que pessoas. Fez-se uma fila, e fui na esperança de conseguir o segundo livro, que na verdade era o primeiro em ordem de publicacão, Onde estão as flores. Tive mais uma conversa rápida com ele, na qual agradeci e parabenizei pelo conjunto da obra, e comentei que já tinha começado a ler o outro e estava gostando muito da maneira bem peculiar com a qual ele trabalhava a narrativa, nos situando realmente na Amazônia, e contava a história numa linguagem tão simples quanto cativante. Minev sorriu, disse que tinha um filho com o meu nome.

POST SCRIPTUM (01/05/2017)

Este post já estava praticamente pronto há meses, faltando apenas selecionar as fotos e fechar um ou outro tópico, mas me ocupei em outros eventos, como a Bienal do Livro e somente agora pude finalizá-lo. Este dia, a noite búlgara, continua ainda bastante aceso em mim. De quando em quando escuto algum dos compositores búlgaros e sigo ainda na leitura de A filha dos rios, que percebo cada vez mais ser um romance que homenageia Manaus, um retrato histórico muito particular, a visão de um europeu que se sentiu abraçado pelo Brasil, que mostra uma realidade pouco conhecida na literatura, de igarapés, seringais, pelas de borracha, de uma Manaus antiga que clama para ser revisitada.

Para mais informações sobre Ilko Minev, há largo conteúdo sobre ele no YouTube, e o autor tem ainda seu site oficial.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Na Bienal do Livro do Ceará 2017




Começou na última sexta, 14, a Bienal do Livro do Ceará 2017. Novamente no Centro de Eventos, a Bienal esse ano não traz homenagem a nenhum escritor, o que achei no mínimo curioso. Com o tema, Cada pessoa: um livro; o mundo: a biblioteca, a Bienal busca uma identidade que abrace tudo e todos, e seguirá assim até o dia 23 de abril. O evento, contudo, continua o mais forte dedicado à literatura do estado. A lista de convidados é bem vasta, apesar de bem mal divulgada, exceto pelos autores mais badalados, como o português Valter Hugo Mãe.

Tenho ido com frequência à Bienal, ao contrário do que pensei que faria. Até agora, para mim, tem sido, sobretudo, uma Bienal de encontros e reencontros. Há muitas falhas bobas, que prejudicam a estrutura, a divulgação. E muita repetição. Como novidade, cito de cara a Bienal fora da Bienal – programação que há tempos não se via na Bienal – que consiste em levar alguns autores a visitar locais estratégicos da cidade, a fim de propiciar um debate diferente, focados em causas do povo, realidades verdadeiramente táteis.

Este ano, estou postando pequenos comentários durante o evento, no Facebook/Instagram (@deniakel). Em breve, farei aqui os tradicionais posts mais completos, mas um pouco diferentes de como os fiz nas últimas bienais. Ah, também estou fazendo textos breves sobre uma realidade bem particular que vejo na bienal, que compõe a série Crônicas da Bienal, publicada nas redes acima e também em meu outro blog, O provável do Improvável.

Um dos momentos mais memoráveis até agora foi o reencontro com o querido amigo Marcelino Freire, na mesa que dividiu com Valter Hugo Mãe. Mais detalhes nas postagens! Grande abraço e aproveitemos a Bienal!

Aproveito para trazer à tona as postagens referentes às edições anteriores da bienal, desde que comecei a fazer este tipo de registro:

2010 -

Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (I- Introdução)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (II- Emir Sader/Cordel)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (III- Ziraldo)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (IV- Moacir C. Lopes)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (V- Pedro Bandeira)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (VI- Maurício de Sousa)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (VII- Marina Colasanti)
Bienal do Livro do Ceará 2010: minhas impressões (VIII- Conclusão)

2012 -

Bienal do Livro do Ceará 2012 (I - O evento)
Bienal do Livro do Ceará 2012 (II - Ignácio de Loyola Brandão)
Bienal do Livro do Ceará 2012 (III - Márcia Tiburi)

2014 -

Bienal do Livro do Ceará 2014 (I - O evento)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (II - Mesa: Infância e Memórias)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (III - Mesa: Biografar brasileiros)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (IV - Mesa: Milton Hatoum no cinema) 
Bienal do Livro do Ceará 2014 (V - Mesa: Luiz Ruffato)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (VI - Mesa: Literatura e loucura)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (VII - A influência estética de Moreira Campos)
Bienal do Livro do Ceará 2014 (FINAL - Mesa: O conto nosso de cada dia)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Livro: O escaravelho do diabo



Fotos: 
Capa do post e páginas do livro: Denis Akel 
Outras fotos: Google 

E foi-se 2016! Planejei esta postagem para ontem, mas surgiram reveses e só pude publicá-la hoje, o que pelo menos a torna já a primeira postagem deste novo ano. Bom, já faz algum tempo que não falo de livros por aqui, com opiniões e comentários de algumas de minhas leituras, sendo assim resolvi trazer um pouco sobre este livro e o que ele representa para mim. Boa leitura, e bom ano novo a todos!

RETORNANDO AO PASSADO

Há alguns meses, estava buscando uma nova leitura, para intercalar com outras, algo mais leve, mas ao mesmo tempo agradável. E o melhor momento para se encontrar tais leituras é bem quando estamos arrumando as estantes de livros. Passamos por tantos, de recentes a mais antigos, que quase sequer lembrávamos que tínhamos, e desta inocente arrumação, chegamos a ótimas descobertas, ou por que não dizer, redescobertas.

Foi assim que me senti, quando remexia um velho organizador com livros muito antigos, alguns paradidáticos e clássicos de outros tempos. Ali estavam vários que li na época escolar, bem como outros que nunca lera ainda, mas que tinham sido guardados na esperança de que um dia ganhassem algum brilho sobre suas capas e páginas já amareladas. Lá estavam ainda vários títulos da série Vaga-Lume, uma célebre coleção dos anos 70 (e mantida até hoje), responsável por alimentar toda uma geração de leitores, criando e saciando muito bem esse hábito, numa época em que não tínhamos tantas distrações, tantas telas como se tem hoje, onde o ato de ler tinha outro sentido, mais puro, mais arrebatador.

Quem conhece a série, sabe do que estou falando, de livros como SpharionO rapto do garoto de ouroO Mistério do Cinco Estrelas, entre dezenas de outros. Já até, inclusive, falei de um outro livro desta coleção em um outro post (veja aqui). Desta vez, arrumando e limpando os livros, me deparei com um dos maiores clássicos da Vaga-Lume, O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida. Peguei-o nas mãos e numa rápida folheada comecei a relembrar aquela história que tanto me fascinou. Decidi que seria um ótimo momento para revisitar este livro, também porque recentemente foi lançado um filme baseado nele, e gostaria de ter a vivência do livro antes de assistir ao filme, que, aliás, parecia meio duvidoso.

O LIVRO  



A experiência de retornar a uma leitura deste tipo, depois de muito tempo, e agora com uma maior maturidade literária, se revelou muito mais intensa do que jamais poderia imaginar. A partir da primeira página, das primeiras descrições e diálogos, me vi inundado pelo estilo tão característico que permeia boa parte das obras da coleção Vaga-Lume, uma atmosfera de mistério que prende, envolve, já de cara, como se a história conseguisse se reinventar, se transmutar em algo novo, diferente.




O que acredito que pouca gente sabe, como eu também não sabia, é que apesar da publicação do livro pela Vaga-Lume ter sido nos anos 70, a história foi originalmente publicada já nos anos 50, como folhetim da famigerada revista O Cruzeiro. Não consegui encontrar nenhuma foto deste material mas é muito interessante saber desde fato; a trama já carrega mais de meio século e ainda se mostra forte e contundente, característica comum aos clássicos.

A ESTÉTICA DA VAGA-LUME




A série Vaga-Lume se tornou bastante célebre também pelo peculiar cuidado que tinha com as capas e ilustrações de suas obras. As primeiras edições dos livros, por pertenceram às décadas de 70 e 80, traziam aquela cara tão característica destas épocas, com desenhos intensos e cores vibrantes. Além das capas, os livros são permeados também por ilustrações complementares à trama, que ajudam a lhes dar uma cara ainda mais característica e marcante. Até hoje, lembro bem das ilustrações de Spharion, que se equilibravam perfeitamente à história. Com o Escaravelho, não foi diferente. A obra foi ilustrada pelo artista e designer Mario Cafieiro, que traz um refinamento único, um estilo meio fotorealístico, bem próprio da época. Ao longo dos anos, a série mudou as capas de seus livros, talvez para se encaixarem nos "padrões" de cada época. Cheguei a ter primeira edição da obra, na minha opinião a melhor de todas, mas a minha atual (da capa do post) é a de 1998, e essa última é a mais recente, lançada na ocasião do filme baseado no livro:


Primeira edição, de 1974

Edição dos anos 80,90

Edição especial com referência ao filme, lançada em 2016

NA COMPANHIA DOS ESCARAVELHOS

O enredo, em linhas gerais, fala de uma série de misteriosos assassinatos, cometidos apenas contra pessoas ruivas, em uma cidade do interior de São Paulo. Em todos os casos, há algo em comum: um escaravelho é sempre enviado às vítimas. Qual motivo? Qual explicação? Este é o mote lançado logo nas primeiras páginas, o primeiro fio do novelo tecido por Lúcia Machado de Almeida. O título sugere ainda alguma interferência sobrenatural, aumentando ainda mais o mistério. Uma trama forte, intensa, que provavelmente levantaria polêmica se fosse publicada pela primeira vez nos dias de hoje, onde há tanto conservadorismo e censura no que se vê nos livros. Entre os anos 50 e 80, época em que foi escrito e consagrado, certamente exerceu uma forte disposição no imaginário dos muitos leitores que abraçaram o livro até o final.



Contudo, há um respeito, e por que não dizer inocência, na história, em relação a hoje em dia. Por ter sido escrita nos anos 50, tudo carrega uma certa dignidade, um ar mais respeitoso, que se faz presente em todas as suas cenas e diálogos, e chega a ser quase engraçado às vezes. O livro usa expressões e modismos praticamente impossíveis atualmente, é uma curiosa viagem a um tempo onde tudo parecia mais inocente, mais simples. A história segue um fluxo agradável, instigante, à medida que se compreende aos poucos os seus desenrolares e desfechos. Disfarçado em um livro aparentemente voltado apenas ao público infanto-juvenil, está um muito bem elaborado romance policial, com personagens que rapidamente se permitem envolver pela trama a ponto de engrandecê-la a cada página. O núcleo da pensão de Cora, onde se passa boa parte da ação, e se conecta a todos os demais núcleos, agrega humor e mistério, ingredientes que se combinam e conduzem muito bem a tensão constante que gira em torno da obra.

Quando li este livro nas primeiras vezes, ainda criança, lembro de que a história era tão estranha e surreal que não entendi muita coisa. Não entendia (ainda não entendo até hoje) essa bizarra capa de 74. Com o passar do tempo e novas releituras, comecei a enxergar o brilho por trás do escaravelho. Quando descobri o gosto pela escrita, comecei a perceber ainda mais nuances nas páginas desta história tão conhecida do público juvenil, como direi mais a seguir.



A trama tem os escaravelhos como peça importante de todo seu novelo, mas a participação dos insetos vai muito além disso. Conforme pude perceber durante esta leitura mais recente, a autora se empenhou intensamente nesta parte, recorrendo a toda uma variedade de espécies, nomes científicos e obras e tratados relativos a eles, tudo baseado em material existente e catalogado, um trabalho de pesquisa que deve ter dado esforço considerável, ainda mais se considerarmos que naquele tempo não havia nenhuma das facilidades que se tem hoje. Era preciso folhear livros e mais livros, conversar com especialistas... quase como fazem os personagens de seu próprio livro. A maneira como ela utilizou os insetos para associar aos crimes cometidos é muito criativa, e chega a lembrar histórias de Sherlock Holmes. A cada novo caso, aumenta-se a curiosidade, a incerteza, o que virá a seguir?

Uma das obras de referência usada pela autora e citada no livro 


Há ainda inúmeras outras referências de obras literárias, filosóficas, de óperas, músicas, tudo de maneira sutil e discreta, mas suficiente para fazer a diferença. Aliás, uma das coisas que tenho achado mais fascinante, quando retorno a livros já lidos, é perceber esses detalhes, nuances talvez não percebidas nas leituras anteriores, e assim desbravar novas percepções sobre a história, sobre a época em que foi escrito, sobre o autor... é quase como uma pequena investigação que se desenrola em paralelo à trama principal.



Curioso, durante esta leitura, foi quando me vi surpreendido por não lembrar mais como era o final do livro (o que foi ótimo), e me deliciei em pouco a pouco ir descobrindo as respostas do grande quebra-cabeças proposto pela autora. A maneira como ela finaliza a obra é inacreditável, quase chocante, um desfecho inesperado que arrebata pela ousadia.

A AUTORA



Lúcia Machado de Almeida é a mente por trás do Escaravelho do Diabo. Natural de Minas Gerais, nasceu em 1910, tendo passado parte da infância na fazenda Nova Granja, de seu pai, no município de Santa Luzia. A autora mais tarde diria da importância que isso teve em sua vida, em sua formação, em sua visão do mundo. Estudou literatura, história da arte, línguas, piano, entre outras áreas, o que lhe deu ampla gama de recursos para engrandecer suas histórias. Além disso, era irmã dos também escritores Aníbal Machado, Paulo Machado e Carolina Machado, tia dos escritores Maria Clara Machado e Ângelo Machado e cunhada do poeta Guilherme de Almeida, o que evidencia que a literatura sempre esteve muito presente em sua vida. Publicou pela primeira vez aos 14 anos, o poema Desencanto, no jornal Estado de Minas. O primeiro livro, No fundo do mar, viria alguns anos depois. Lúcia também atuou como jornalista, escrevendo para inúmeros jornais e revistas da época. Além do Escaravelho do Diabo, outras de suas obras conhecidas são: Spharion, Aventuras de Xisto e O caso da borboleta Atíria, também publicados na Vaga-Lume. A autora faleceu em 2005.

Enquanto pesquisava mais sobre o livro para escrever este post, encontrei o vídeo abaixo, uma bela e rara entrevista com Lúcia, na qual ela fala um pouco de sua vida, do ofício de escritora, sua relação com a escrita, tudo com um jeitinho tão próprio, tão terno, autêntico, que transmite uma paz atemporal. Um grande exemplo a todos que escrevem ou admiram a arte literária, a arte de contar histórias.




Que o Escaravelho continue incentivando e fascinando mais e mais gerações vindouras, bem como as demais obras da autora. É ótimo perceber como tivemos (e ainda temos) excelentes autores no Brasil. Chego ao final deste texto já empolgado para reler os outros livros de Lúcia e também ler pela primeira vez os que nunca li. Penso que descobrir é bom mas redescobrir é ainda melhor; redefinir imagens, certezas, é o que nos torna humanos. Incrível como nesse mundo louco de hoje, de tantas distrações, efemeridades e futilidades, o simples gesto de abrir um livro pode ser uma salvação, um voltar-se para dentro de si mesmo. Acredito que possa nos tornar pessoas melhores. E talvez nunca se precisou tanto fazer isso.