Frases


"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



terça-feira, 30 de maio de 2017

Flicaixa 2017 (2/3) – Mary Del Priore




Dando continuidade ao post anterior, dedicado à Festa Literária da Caixa, a Flicaixa, e de tudo – ou quase – o que vi e ouvi e percebi por lá, a segunda das três mesas que assisti naquele dia, 05 de maio, sexta-feira. Este post acabou longo demais, por isso tive de fazer a série em três partes. Infelizmente, não disponho de tantas fotos como gostaria da palestra em si, mas suficiente para ajudar a compor a atmosfera. Vamos lá. 

MESA - HISTÓRIAS DA GENTE BRASILEIRA (MARY DEL PRIORE)



A historiadora Mary del Priore, tal como Socorro Acioli (do post anterior), foi outra que também esteve em destaque na programação da recente Bienal do Livro deste ano, aqui em Fortaleza. E agora voltaria para uma nova fala neste festival da Caixa. A conversa seria mediada pela socióloga Glória Diógenes, e teria, como indicava o tema (título de um dos livros de Mary), um andamento bastante livre. Pelo que lembro de já ter ouvido dela, sobretudo a recente fala na Bienal, era a certeza de vir por aí mais uma ótima 'aula' disfarçada de conversa rica e inspiradora.  

Desta vez não atrasei, nem poderia, estava de olho na hora. Esta próxima mesa começaria às 16:30. Entrei com certa antecedência, podendo escolher lugares com tranquilidade. Novamente um número médio de pessoas, similar ao da palestra anterior. Logo, as duas mulheres surgiram no palco, onde já se achavam as poltronas e mesinhas com água. Foram aplaudidas, sorridentes, e a fala teve início. 

Conheço um pouco do trabalho de ambas e sei que há uma grande amizade entre elas, uma cumplicidade notável na troca de elogios múltiplos, como novamente se fez notar já nos primeiros minutos. Glória iniciou agradecendo a iniciativa da Caixa com o evento e de como estava feliz em estar ali, citando ainda uma frase de Voltaire: "É preciso ter alegria no conhecimento". 

Ela seguiu com uma introdução bem completa de Mary, enaltecendo sua obra, sua visão de historiadora, pesquisadora, que percorre e situa cidades, épocas, personagens da realidade, dando um panorama geral do que estaria por vir. A historiadora agradeceu, lembrou sua participação na Bienal do Livro, no fim de abril, e disse o quanto estava adorando a cidade de Fortaleza, realmente fascinada, com o apreço que a cidade tem pela cultura, com centros culturais, museus e mesmo pela cor da água da cidade. Citou em especial o espaço Edson Queiroz, onde viu uma pinacoteca com um acervo gradiosíssimo, que não chega ao sul, e pontuou a necessidade de se fazer esses bens cada vez mais públicos. 

"Não devemos esquecer o nosso passado. O passado é questão de amor" – Mary

A DESIGUALDADE CULTURAL

Um dos primeiros temas abordados pela historiadora foi a educação e suas desigualdades. Para tanto, citou o sociólogo francês Pierre Bourdieu, célebre por suas ideias, como o capital cultural, que, em linhas gerais, revela um desnível entre o aprendizado nas escolas, pois considera que cada estudante traz, de berço, uma pré formação de seus pais e do meio em que vivem, o que interfere na forma como aprendem os conteúdos. Assim, portanto, as escolas, que prezam sempre um discurso de igualdade, acabariam por priorizar os estudantes mais "ricos", e aqueles com baixo capital cultural demorariam a entender os códigos culturais valorizados por elas. Seria como transformar a cultura em uma espécie de moeda, usada pelas classes dominantes para acentuar as diferenças. Isso explicaria também o fato de escolas sempre preferirem matérias como matemática e física a desenho ou esportes, ou seja, os interesses das classes dominantes, e nada de igualdade. Mary se mostrou incomodada pelo rumo que segue o país, que pouco valoriza a cultura, sobretudo a popular: 

"Não há movimentos no Brasil contra a corrupção e a sociedade brasileira faz pouco esforço pela educação. Gosto da ideia de conversar com pessoas simples, que têm menos condições que nós, mas muitas vezes têm mais sabedoria" – Mary 

UM POUCO DE HISTÓRIA

A historiadora falou um pouco de sua tetralogia, que começa com Histórias da gente brasileira, volume 1: Colônia, obra que esmiuça a vida antes do período do Império, que revela hábitos, costumes e histórias esquecidas ou ignoradas. "Quis mostrar como o brasileiro é inventivo, como tira sua sobrevivência da criatividade. Uso a comunicação dos jovens pesquisadores, que lidam com documentos históricos, é a melhor fonte de pesquisa."

Alguns fatos curiosos ditos por ela:

"Antigamente, não existiam pintores no Brasil, quem pintasse era artesão"

"O beijo só se popularizou após a 2ª guerra mundial. A boca é o lugar mais sujo do corpo. Os europeus criticavam os brasileiros, diziam ser sujos, mal educados. Os restaurantes por kilo de hoje são meio que 'netos' desses hábitos."

"Amor, no século XVII, só de Deus, só no século XIX que amplia seu sentido"

Nesse ponto, Mary trouxe à evidência a palavra mulato, dizendo que é preciso, antes de tudo, conhecer a origem da palavra para melhor entendê-la. Para tanto, citou Yeda Pessoa, que disse ser uma das maiores linguistas do país, especialista em estudos afro-brasileiros e línguas africanas. Acreditava-se que a palavra mulato designaria filho de mula, mas segundo estudos da professora Yeda, o termo é de origem árabe, significando de fato o filho do muçulmano com um não muçulmano . 

Glória Diógenes, buscando ampliar a conversa, questiona se havia distinção entre a nudez nos diferentes períodos históricos. "Nos séculos XVI, XVII e XVIII, não havia. A nudez não era erótica naquela época. Ela tinha de ser descoberta. Os escravos tinham cuidado com seus corpos, com seus cabelos". A historiadora falou ainda de sodomia, do fato de masturbação ser proibida pela igreja (por haver desperdício de sêmen)  e de um livrinho português da época, o Manual do Confessor. "É extremamente poético, poetiza as partes do corpo, se tornam belos". 

Segundo Mary, os processos de divórcio só começariam a partir do século XIX. Nesta época, já não era o padre quem dizia o que podia ou não. Os médicos começavam a estudar a sexualidade humana. "O marido anotava as relações que tinha com a mulher. Naquela época, as relações eram somente para procriação"

Falando sobre prostituição, a historiadora fez um breve passeio por panoramas recentes, partindo das cocottes, as prostitutas francesas. "Vivemos uma esquizofrenia na nossa realidade de hoje. Prostituição sempre existiu no Brasil, desde o século XVI. As cocottes, naquela época, ajudaram os brasileiros a ter melhores hábitos higiênicos, a combater a sífilis."

Um outro detalhe interessante foi quando comentou que espelhos, símbolos de vaidade e luxúria, eram proibidos em casa, nos quartos. Só podia haver na sala. "Era uma contenção nesse período de aburguesamento. Isso só foi melhorar depois, com influência de estrangeiros."

Mary del Priore acredita que muito do que se sabe ou conhece hoje de detalhes ou particularidades destes temas, se deve ao trabalho de jornalistas e memorialistas e citou alguns relativamente contemporâneos: "Adalgisa Nery tem um excelente trabalho como memorialista; Pedro Nava escreveu um conto sobre a descoberta da homosexualidade; Tonia Carrero já descreveu beijo que deu em uma amiga. Nossa vida diária é um conto de deslumbramento. Hoje, por exemplo, eu vi como é linda a cor das águas daqui". 

A conversa então foi desviada para a atualidade, focando agora nas crises, as muitas turbulências pelas quais vem passando o país, de conflitos a greves. 

"A violência é um componente da nossa história, mas não estamos sozinhos, é assim em todo lugar do mundo. A democracia tem que atender a demandas muito diversas. A demanda de um é diferente da do outro. Como atender a todos? Não se trata de maioria, mas de grupos muito distintos, tribos. Como a democracia vai lidar com isso? Acho que os jovens terão que tratar disso aqui a alguns anos." 




HISTÓRIA E LITERATURA, UM CASAMENTO IDEAL? 

Glória diz que há forte ligação dos livros de Mary com literatura, que ela faz muitas referências literárias, e questiona a importância de se aproximar história e literatura e literatura e ciência. 

"A história como ciência é uma invenção do século XIX. Quando ela tem uma missão, ela passa a ter teorias, e isso a transforma. Mais uma vez o trabalho de escritores e memorialistas, de textos de Leonardo Mota ou as notas de rodapé de Gilberto Freire ou Sérgio Buarque. A literatura brasileira dá um universo ao historiador, e ao meu ver é uma literatura que não tem recebido a atenção devida. Meu sonho é que as duas fossem ensinadas juntas. Isso seria bem mais divertido" – Mary

Ela também apontou, inúmeras vezes em sua fala, o desinteresse dos alunos de história, de como se afastam e os professores não conseguem se renovar para trazer esse interesse, fato que mostra também a desigualdade na educação. 

"Temos um problema aqui no Brasil: o vestibular. O professor precisa ensinar o óbvio e isso afasta o aluno da história, da narrativa, isso tira o interesse. A literatura oferece universos maravilhosos" – Mary

Concluindo a questão história x literatura, Glória comentou que sua tese de doutorado foi criticada por ser literatura, não científica, e isso enaltece a diferença e preconceito que há no fazer literário. 

CONVERSAR COM OS MORTOS, A IMPORTÂNCIA DO ESPIRITISMO 

O espiritismo foi um outro tema que surgiu já pertinho do final da mesa. Os assuntos eram tão variados e ao mesmo tempo tão conexos que o tempo não parecia passar. Havia quase como um tempo suspenso, no qual todo o auditório se encontrava preso às palavras, às histórias contadas por Mary. Eu buscava um suspiro ou outro para dar conta de anotar esse ou aquele trecho, enquanto os refletia mentalmente. E lá foi Mary falar de espiritismo:

"Tive vontade de escrever sobre espiritismo. Fazer história é conversar com os mortos (deu um risinho controlado). No século XIX, o espiritismo chegou ao Brasil como moda. É assim que a obra de Kardec vai sendo importada" – Mary 

Ela falou um pouco do período, da vida de Alan Kardec, de como começou seus estudos e desenvolveu sua doutrina. Mencionou ainda o conde d'Eu, Gaston d'Orleans, que ao ouvir um gramofone teria dito: são os mortos cantando. "Kardec dizia que os mortos tinham muito a nos ensinar" – Mary 

"Os primeiros espíritas são baianos. O eco do além túmulo é a 1ª publicação dedicada aos espíritas"

"Achei uma carta de um professor de D. Pedro II. Falava, em 1846, que estava em uma mesa volante que recebeu a visita de um espírito que disse que caso ele não abolisse a escravidão, perderia o império." – Mary 

"As pequenas coisas também contam histórias. O espiritismo é uma caixa de histórias, mas eles não deixam ter acesso a isso quem não for espírita. O Brasil é uma coisa fantástica, uma sinergia de culturas" – Mary 





A POUCO CONHECIDA CULTURA AFRICANA 

E para terminar, voltaram novamente aos temas africanos, tão ricos e ainda pouco conhecidos, segundo a historiadora, que focou agora diretamente nos escravos, da simplicidade como se se vestiam, sendo às vezes dificil diferi-los de seus donos de terra.  Aqui ela citou um diário que reflete bem esse período, o memórias fantásticas de uma filha de cortador de cana. 

Comentou que os europeus chamavam os brasileiros de mazombos e ainda que havia colégios para escravos e que foram os estrangeiros a primeiro mudarem a vida das classes menos favorecidas. A rua do ouvidor, no Rio, é reflexo de uma famosa rua de Paris. 

Nesta reta final, surgiu uma questão que viria a sintetizar meio que um pouco de tudo o que Mary falou ao longo de toda a palestra. Glória indagou: o que acha da base do ensino e da reforma? 

"Isso tem sido feito em vários países. Acho que alteramos isso em virtude do esquecimento de alguns conceitos. Mas não é o suficiente." Mary cita então o historiador e memorialista Alberto da Costa e Silva, como grande conhecedor e difusor da cultura africana, uma cultura ainda muito desconhecida, mesmo pelos próprios professores."É preciso conhecer outras línguas, a arte, a cultura, a literatura. A história da cultura africana só está acessível integralmente em língua estrangeira (holandês, francês, inglês). Para o professor, isso é difícil. A história da escravidão é simples mas a história da África é complicado. Enquanto não tivermos obras sobre a África, literatura africana, fica bem inacessível sobretudo para os professores. É coisa para 10 ou 20 anos". 

QUANTO VALE UM LIVRO DIDÁTICO?

Mary levou adiante a problemática da educação, do desinteresse, da facilidade maior em criticar, em repreender ao invés de incentivar, gerando os comentários abaixo, os melhores de toda a fala, na minha opinião: 

"Prefiro um aluno interessado do que dez desinteressados. Criticar, dizer que não vale a pena, é a coisa mais fácil que há. Os jovens professores de hoje não conseguem se comunicar com seus alunos. Precisamos nos reinventar, mudar a presença do professor de história junto aos alunos. Temos que usar as redes para mudar isso. Eu amo história e faço história para que as pessoas amem história. Livro didático é algo criminoso, é um veneno. Temos que recusá-lo, como a novela da Globo. Temos que convidar as pessoas a verem as coisas fora da sala de aula. Temos que fazer nossos alunos gostarem das coisas que gostamos, senão não darão conta. Temos que olhar nossa brasilidade e nos reinventar, esquecer as influências de fora. Inventar uma nova maneira de estuda história". – Mary

Glória e Mary trocavam sorrisos constantes, demonstrando grande amizade, uma elogiando as falas da outra, e de fato era uma conversa muito amável. Assim, Glória encerrou, com um última pergunta, mais direcionada à Mary pessoa do que à Mary historiadora: "como consegue ser essa pessoa tão leve? tão animada? Com quase 50 livros, filhos, netos..."

"Não tenho medo de nada. Tenham coragem, façam o que gostam de fazer, sigam seus sonhos. Não fiquem em casa fechados e... criem galinhas!" – Mary


E com esse desfecho no mínimo inesperado, Mary del Priore chegou ao fim de sua colocação. Uma enorme salva de palmas foi a resposta do público. Mary e Glória posaram para a foto oficial, que acontecia ali mesmo, de pé no palco e depois a historiadora saiu, rumo à mesinha onde autografaria seus livros. 





POSFÁCIO 

Depois que concluí as anotações em meu caderno, fiquei pelas imediações, observando essa movimentação: sua chegada, da enorme fila que já a aguardava, do falatório a seu respeito, dos muitos livros para lá e para cá, de todo o burburinho gerado por sua fala. Corri os olhos entre os livros que lá estavam. Conhecia vários de nome, e até fiquei tentado a me juntar aos muitos que pegavam para que ela assinasse, mas estavam muito caros. O país precisa valorizar a educação, abolir o livro didático, mas também de livros mais baratos. Me contentei em observar o fluxo de pessoas, cada vez maior. Cumprimentei ainda Glória Diógenes, não a via há uns cinco anos, desde um outro evento, o ETC, Encontro de Tuiteiros Culturais (fiz um post dele na época). 





O café da Caixa estava aberto e a todo o vapor, mas bastante cheio e o lanche que fiz no intervalo anterior ainda me mantinha. Sem fome, minha cabeça fervilhava ante tudo o que havia ouvido, e busquei digerir melhor aquelas ideias antes que a próxima mesa bagunçasse suas integridades. Foi praticamente uma aula, que me pareceu querer abrir os olhos para uma realidade que está aí, que grita, que pulsa, e parece que ninguém realmente se importa. Mergulhar pela história do país, descobrir tanta riqueza que temos, nos mais singelos e muitas vezes pouco conhecidos detalhes parece nos tornar de alguma forma mais brasileiros, mais humanos, e ao mesmo tempo, acredito, nos força a diminuir um pouco esse ritmo frenético e doentio da vida de hoje, exageradamente conectada. Fiquei divagando, considerando que a história estará sempre lá, ela não tem pressa, podemos estudá-la com calma, revelar, conhecer seus silêncios. É um estudo que pede interesse, e sobretudo calma e paciência. É mais ou menos como estudar à moda antiga, nos livros, nas bibliotecas, nas visitações dos lugares. Tudo é muito mais espontâneo, mais natural, e talvez esteja por aqui a sensação do criar galinhas, dito por Mary no final de sua fala, como uma maneira de desacelerar a vida. 

Na próxima postagem, a última desta série, a mesa final da Flicaixa, que trouxe o poeta Fabrício Carpinejar e o cronista Xico Sá, debatendo o tema narração de afetos, até lá. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Flicaixa 2017 (1/3) – Socorro Acioli e Ângela Gutiérrez



Nos últimos dias 5 e 6 de maio, aconteceu aqui em Fortaleza a Flicaixa, festa literária realizada pela Caixa Cultural. O evento, como descobri depois, veio diretamente de Salvador, com boa parte da programação que apresentou por lá. Havia inúmeros autores convidados, grande oportunidade de ótimos debates em vista. E ainda no clima da recente Bienal do Livro, decidi abraçar mais essa tão bem-vinda chance.

O primeiro dia, uma sexta-feira, seria onde se concentraria a maior parte da ação. Todas as principais e, digamos, mais badaladas mesas, aconteceriam nesse dia. Entre os convidados, nomes como Fabrício Carpinejar (que esteve no dia anterior na Unifor), o jornalista e cronista Xico Sá, a historiadora Mary Del Priore, dentre outros. 

As atividades se iniciavam às 10h da manhã, com uma mesa sobre booktubers ou algo assim. O tema até poderia ter algo de interessante, mas resolvi abrir mão em virtude do resto do dia; seria exaustivo demais ficar das 10h às 22h direto ali. Centrei portanto nas três mesas seguintes, começando pela das 14:30, que trouxe Angela Gutiérrez e Socorro Acioli, mediadas por Marina Solon. O tema foi “As múltiplas linguagens da sensibilidade feminina”. Com empecilhos de trânsito e talvez por ter saído um pouco tarde de casa, cheguei um pouco depois do início, mas conseguiria ainda desfrutar muito bem do que foi este belo debate. 





MESA - AS MÚLTIPLAS LINGUAGENS DA SENSIBILIDADE FEMININA (SOCORRO ACIOLI / ÂNGELA GUTIÉRREZ)



De cara, chamou-me a atenção o local, o palco, onde ficavam as convidadas. Estava tudo bem diferente do que me lembrava de outros eventos ocorridos ali, graças a todo um cuidado dos organizadores: havia um enorme painel no fundo, meio em profundidade, formado de vários quadrados agrupados em alto relevo, criando um efeito de papel amassado, no qual estava a identidade do festival. Uma iluminação amarelada deixava um tom suave e acolhedor, propício para se passar horas ali. Todas essas percepções me chegavam aos poucos, logo que me dirigi a uma das muitas cadeiras vazias. 

Havia um público razoável, mas bastante interessado. Sentei, já procurando me familiarizar ao tema debatido, o que não foi nem um pouco difícil, uma vez que o ato da escrita feminina já estava em ebulição na fala de ambas. A questão foi amplamente divagada, a partir do que seria, supostamente, permitido às mulheres escreverem, até tempos atuais, nos quais se vê um aumento cada vez mais significativo da presença feminina na literatura. Socorro e Angela exploraram inúmeras nuances e exemplificaram suas próprias rotinas como forças motrizes desta mudança. 

O QUE ESCREVEM AS MULHERES? 

Para as autoras, o ato da escrita feminina deve ser visto além do que aparentemente representa, além de ser apenas "a escrita feminina, é algo muito maior. Comentaram que havia um tempo no qual a mulher era conhecida na literatura apenas através do olhar masculino. As mulheres não escreviam sobre si, seus sonhos ou receios ou desejos. Os homens as retratavam. Logo veio à tona a personagem Capitu, de Dom Casmurro, como a típica representação da mulher, uma personagem cheia de dúvidas, de incertezas, restrita apenas à visibilidade masculina. 

“A mulher assumiu seu lugar de autoria no mundo, disso não há dúvida, vejo muita atenção nisso hoje em dia, em haver um equilíbrio. Isso só acontece porque alguém teve atenção de perceber que era uma minoria. Agora é as mulheres continuarem a manter o equilíbrio dessa balança." – Socorro Acioli 

Foi bastante comentada a questão da literatura erótica, dentre o que se situaria como o que a mulher deve ou não escrever. Neste ponto, Socorro disse ainda que vê cada vez mais mulheres nas oficinas de escrita que ministra, nas quais trabalha, além de contos e estruturas de romances, temas eróticos e todos são lidos e bem recebidos pelos demais alunos.

Para Ângela, a literatura deve ser aproximação da realidade, do que se sente, do que se vive. Citou Machado de Assis, ao dizer que literatura é verosimilhança. “Não refaço a escrita mas a fragmentação do texto. Costumo escrever tudo de uma vez, exceto de vez em quando, quando os temas me incomodam e interfero no fluxo da criação, tenho de negociar com a criação literária”. Quanto ao feminismo. a autora define como uma luta pelos direitos da mulher, que a coloque em igualdade em todos os tipos de direito. 

"É preciso que cada vez mais mulheres escrevam, seus sonhos, suas verdades" – a mediadora, Marina Solon, completa o diálogo. 

As autoras citaram a obra Hibisco Roxo (2003), da escritora africana Chimamanda Adice, como exemplo de obra que reflete uma visão amplamente feminina, na qual a autora não tem receio ou medo de dizer e retratar aquilo que sente. 

Também foi destacado o livro Quarto de Despejo,  de Carolina de Jesus, que vem gerando polêmicas entre críticos por ser ou não literatura. Tudo por ela ser de origem simples e o livro narrar fatos dessa vida, da sua vida, tal como ela é. Quanta besteira, a obra (de 1960) é incrivelmente sincera e necessária, pelo que li a respeito. 

Num outro momento da mesa, os assuntos bailaram por hábitos da escrita em meio aos hábitos do dia-a-dia. Como conciliar a família, filhos, com a criação literária? Ambas foram enfáticas observando que apesar do trabalho, sempre cabe às mulheres todas essas atividades (como se sua rotina fosse menor), mas que era algo muito comum, inato da força feminina, após um dia cansativo de trabalho, chegar em casa e ainda ter força para cuidar dos filhos. Elas acreditam, contudo, que os espaços conquistados pelas mulheres já meio que as isentam dessa responsabilidade integral, que já saíram deste lugar-comum, desse pensamento que ainda as vê como únicas responsáveis pela ordem nos lares. 

LEITURAS E MAIS RECOMENDAÇÕES





A mediadora quis saber o que as duas andavam lendo.

“Clarice Lispector tem uns contos que são cruéis com delicadeza. Cecília Meireles, leio sempre que quero me sentir encantada. Aliás, recebo textos horrorosos atribuídas a elas! Devemos ter cuidado com a correspondência virtual. Não faça essa crueldade, elas já não podem se defender.” – Angela

"Orides Fontela, Adriana Lisboa, Juliana Diniz (escreve com muita elegância, sendo tão novinha), ah, e um da Ângela! O mundo de flora!” – Socorro Acioli 

Ângela também falou da sensação de ter um de seus livros selecionados para o vestibular (O mundo de Flora), de como ficou honrada ao ver a obra comentada e discutida com tanto interesse e ver todos os novos olhares e interpretações que faziam dela. 

A Casa, livro da escritora cearense Natércia Campos, foi bastante citado. Angela teceu inúmeros elogios a ele. “Deveria ser um livro muito mais conhecido no estado”. Juntou a ele ainda Dom Casmurro e Iracema, que considera obras fundamentais da literatura cearense.  

A mediadora, valendo-se desse tema, quis saber onde o estado falha na divulgação de nossas escritoras? “O governo poderia escolher com mais competência, bom escritor ou escritora, ter consciência de que o livro possa gerar debates evitar livros medíocres. Todos têm o direito de ser medíocres, mas o estado não deve levar esses livros às bibliotecas” – Angela

AGENTES LITERÁRIOS E POESIA

Um momento bastante interessante de toda a fala veio com a figura dos agentes literários e sua importância aos escritores. Socorro Acioli falou que são como pontes, algo similar ao que um empresário é para os jogadores de futebol. "Ajudam a cuidar da obra, das verbas do contato com a editora, mas não faz nada pelo autor, não transforma um autor ruim em um autor bom, só faz profissionalizar a obra."

Perto do fim, surgiu uma pergunta da relação de ambas com poesia. 

“Nasci praticamente numa biblioteca. Meu pai estava sempre lendo. Me colocou desde cedo em contato. Ele colocava discos para todos ouvirem ou cantava com o violão. Meu amor pela poesia começou da mão de meu pai. Apesar de só ter um livro publicado, tenho grande amor pela poesia” – Angela 

“Para gostar de ler poesia, precisa ler poesia todo dia” – Lembraram esta frase de Affonso Romano de Sant’Anna. 

O ESCRITOR REGIONAL 

Uma última pergunta trouxe a questão da mulher cearense e a representatividade da região para o escritor:

“Os rótulos às vezes ajudam, às vezes atrapalham. Ser herdeira dos escritores de nossa região é um orgulho, claro. Morte e vida severina, só sei ouvir cantada. Temos um legado sim e temos obrigação de mantê-lo. Graciliano Ramos narra com perfeição a sua realidade, a nossa realidade. Não temos um rio na nossa história, e escritores regionais contavam rios com muita beleza” – Angela 

“Não vejo problemas com rótulos. O sertão hoje não é o sertão de Graciliano. Essas outras realidades precisam ser contadas. Cada escritor precisa respeitar o seu projeto literário. Que todos, homens e mulheres, escrevam e falem o que seu coração quer falar.” – Socorro




Durante boa parte dessa mesa, assumi uma postura que se repetiria ao longo das demais: me debrucei  sobre um caderninho que tinha levado e anotei referências e passagens e observações do que eu via e ouvia. Parte de tudo isso ajudou a dar a forma para essas postagens – aliás, essas anotações foram o primeiro incentivo para que eu viesse a postar sobre a Flicaixa, no intuito também de semear o evento a quem dele não soube ou não pode ir.

Chegamos ao fim da mesa. Eu, como acredito que boa parte dos demais, estava fascinado por aquela conversa tão instigante. Não vi do começo, é verdade, mas o suficiente para ver transbordar um lirismo de doçura em falas tão sinceras. A valorização da escrita, da mulher, do criar em oposição ao ritmo do cotidiano em uma sociedade tão marcada pela presença masculina, tudo se combinou de maneira espontânea e muito natural. Já conheço Socorro Acioli de vista de vários eventos, inclusive da recente Bienal do Livro, na qual ela teve inúmeras aparições mas ainda não conhecia nada de Ângela Gutiérrez. Foi uma maravilhosa oportunidade conhecer uma escritora de tanta personalidade, tão amável e de fala tão singular, evocando muitas vezes um tempo tão próprio, tão dela, já um convite à sua literatura. 

O MUNDO DOS AUTÓGRAFOS 



Movimentação ao término da mesa, livros e mais livros nos espaços da Caixa



No fim, as duas autografaram num espaço arranjado ali mesmo na Caixa Cultural. Aliás, a Caixa surpreendeu por favorecer imensamente este evento, tornando o ambiente (geralmente fraco e sem graça) em algo agradável, ativando espaços quase mortos do lugar, como um café e uma livraria, tornando tudo mais integrado. Assim, era possível olhar, folhear, comprar os livros dos autores convidados da Flicaixa e levá-los para autógrafo ali mesmo, ou ainda apenas tomar um lanche com um capuccino. Optei inicialmente por essa segunda opção, mas logo mudaria de ideia. 





Havia realmente muitos livros de Ângela Gutiérrez. Dei uma breve olhada em vários, à medida que a fila de autógrafos amainava. Encontrei um de poesia bem interessante, Canção da Menina. A autora já assinava quase o último quando cheguei para cumprimentá-la. Ela me sorriu com o olhar. Aproveitei para conversar um pouco, lembrando de perguntar se ela não tinha ido à Bienal do Livro. Ângela me disse que esteve com problemas pessoais e acabou por ter de cancelar suas programações na Bienal (ela mediaria o escritor Cristovão Tezza). Agora que fazia seu retorno, sua volta, na Flicaixa. Pelo menos em grande estilo, observei. Terminei por agradecê-la, parabenizei pela ótima mesa, pela grandeza da fala e gentileza do tempo e segui, já me deixando levar pela doce canção da menina. 





Como as fotos ajudam a mostrar, o movimento nos saguões do centro cultural era notável. Muitas pessoas, fluxo enorme de livros, de vozes, de vida. Dava gosto estar ali, era uma atmosfera que me encantava, só de perceber, de sentir, mas logo tive de retornar ao auditório, estava prestes a começar a próxima mesa, com a historiadora Mary Del Priore, que será tema da próxima postagem desta série. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Fabrício Carpinejar na Unifor



O escritor Fabrício Carpinejar esteve recentemente em Fortaleza. Participou da Flicaixa, evento da Caixa Cultural, na última sexta (05). Antes disso, o poeta gaúcho deu o ar da graça na Unifor. Estive lá, na noite desta quinta, 04 de maio e conto um pouco neste post.

A CAMINHO DA UNIFOR

Não estava decidido a ir, se já iria vê-lo no dia seguinte na Caixa, mas pensei que tudo era oportunidade, tudo poderia ser aproveitado. Chamei pessoas para ir, uns não puderam, outros não quiseram. Fui só, muitas vezes acabamos sendo nossa melhor companhia. Saí um pouco tarde e até sem lanchar, comeria algo lá. Imaginei que o auditório do Celina Queiroz lotaria facilmente, e isso de fato aconteceria, mas não de imediato. Fui recebido por uma fila de umas 40 pessoas. Vi ainda um balcão com vários livros de Carpinejar à venda. Faltava ainda meia hora (começaria às 19h). Não tinha como ficar sem lugar, pensei, mas tinha como ficar sem comer, então corri ao quiosque de lanches mais próximo. Na volta a fila havia sumido, deduzi que já tinham entrado. 

Fila inicial, a certeza de que lotaria

NO CELINA QUEIROZ, O SHOW 

O auditório estava parcialmente cheio, com várias cadeiras vazias salpicadas aqui e ali. Tomei uma. E mais e mais pessoas iam entrando e era grande o vozerio e notei pelo menos quatro grandes câmeras posicionadas. Era um evento que parecia requerer muito registro. O público geral parecia mais composto de jovens, que imagino ser o maior público do poeta, mas havia também outras faixas etárias, em menor número. 

Qual o tema da fala? como ser feliz criativamente. Além disso, ele ainda falaria qualquer coisa de um projeto envolvendo poesia em guardanapos. Carpinejar foi anunciado, após longas palavras do apresentador, muita publicidade da Unifor. O poeta surgiu da cortina atrás do palco e logo já se mostrou muito à vontade. Lia um texto que batia de encontro aos ideais de muitos ali, focando em TCCs e suas complicações. Ali começou a conquistar o público, que aliás ja estava conquistado desde antes; muitos já tinham seus livros nas mãos. O riso fácil e lúdico enchia o auditório a cada sentença, a cada pausa, a cada identificação. Carpinejar parecia ter acabado de entregar um TCC.



A sala inteira já estava bastante cheia. Na fileira onde eu estava, uma cadeira restava vazia. Uma moça ao meu lado pediu para que a guardasse, pois esperava uma amiga, que logo chegaria. Avisei a todos que foram chegando, o lugar estava ocupado. Com todas as cadeiras praticamente ocupadas, nada da tal amiga aparecer. A primeira então disse que a outra estava lá fora, mas não a deixavam entrar por já estar cheio. E assim seguimos a palestra inteira com essa única cadeira vazia, e uma outra pessoa que estava sentada no carpete não viu e ali continuou até quase o final. 

O palco do auditório contava com duas poltronas, mas elas não foram usadas. O poeta gaúcho não se sentou. Ficou para lá e para cá, entre o público, o microfone afiado, emendando histórias para versar sobre o tema da felicidade. E conseguiu isso de maneira muito própria, usando a si mesmo como exemplo, contando muito de sua vida, de seus medos, receios, que segundo ele, transforma em virtudes. E ele sabia conduzir o diálogo. Prendia a atenção, algo próprio de quem conta histórias. Aumentava o que precisava ser aumentado, dava pausas precisas, intervalos, deixava o silêncio agir. Gritava sem pudor para ter todos com ele. Uma fala muito humana, que de quando em quando brincava com uma ou outra pessoa, numa leve descontração. 

Público atento comentava colocações do poeta

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS

Carpinejar tecia uma teia poderosa, incentivava a verdade, o dizer o que se pensa, o não esconder, mesmo sabendo que não se consegue ser assim. Muito focado em relacionamentos, temas bastante comuns em seus textos, mas que pareciam sempre se desvelar em algo novo, nunca dito ou nunca escrito. Falou bastante de família, destacando seus pais, de como lhe foram e são importantes. Do prumo inicial dado por sua mãe, quando foi diagnosticado com problemas mentais na infância, ao fascínio pela figura do pai, também poeta, que o inspirou diretamente ao ofício. Eram palavras que podiam já ter sido repetidas inúmeras vezes por ele, seja em livros ou em palestras ou mesmo no programa da Fátima Bernardes, mas que nunca tinha ouvido daquela maneira, daquela forma de aparente vulnerabilidade. 

Um trecho que achei bastante significativo foi quando o escritor falou do urgência da velocidade dos tempos de hoje, em contrapartida a antigamente, onde se era preciso esperar mais por tudo. Usou exemplos, como esperar o leite ferver ou degelar geladeiras, consertar coisas defeituosas. "Hoje não se conserta, se troca por outro. Fazemos isso também hoje com pessoas, as trocamos, porque não temos tempo. A gente sofre por querer controlar a vida". 

Uma outra história bem curiosa se deu quando falou sobre um cofre que seu pai tinha em casa, na infância, de como sempre viu o cofre, juntamente a seus irmãos, com grande curiosidade de saber o que havia nele. Em suas imaginações de criança, era quase como a caixa-forte do tio Patinhas, cheio de moedas, de ouro, riqueza. O pai nunca os deixava ver. Um dia, a casa foi assaltada, reviraram tudo e, claro, abriram o cofre. Carpinejar contou que para ele e seus irmãos foi quase o dia mais feliz da vida: finalmente iam olhar o inteiro do cofre. Quando se aproximaram, não entenderam, havia nele somente um monte de pastas e papéis. Onde estavam as moedas? O pai depois os explicaria: guardava no cofre suas poesias, seus textos, seus originais, suas ideias. O pequeno Carpinejar ficou decepcionado, mas depois entenderia que aquele era o verdadeiro tesouro do pai. Os ladrões, é claro, não levaram nada. 

E ainda sobre o pai, o poeta Carlos Nejar, Fabrício falou de como sentiu quando ele se divorciou da mãe, quando tinha uns 7 anos. A ausência paterna muito cedo, a saudade, o levava a ir ao guarda-roupa, pegar as roupas do pai e espalhá-las na cama, de modo a meio que remontar seu 'pai', um pai de roupas, um pai vazio, mas o mais próximo que poderia tê-lo. 

Essas histórias, contadas diretamente por ele, prendiam a atenção, graças ao intenso ar poético que conseguia lhes atribuir, transformando uma talvez simples realidade em singular oralidade. Quando perguntado a respeito de como levar a poesia ao cotidiano, Carpinejar foi bem direto: "O mais difícil na vida não é se reinventar mas sim assumir o que se é. Levo poesia através de histórias, do contar histórias, é o que estou fazendo aqui hoje"



O QUE LEVAR DE CARPINEJAR? 

Eu costumava acompanhar muito o Carpinejar uns anos atrás mas fazia tempo que não o ouvia, muitos anos. Lia vez ou outra uma de suas crônicas, poemas ou frases nas redes, ou ainda as entrevistas de seu programa A Máquina, na Rede Gazeta, mas nada é como estar presente, sentindo a energia da pessoa, que fluía livremente pela sala. Ele parecia mais fortalecido, ainda mais seguro de si.

As câmeras, não só as oficiais, mas dos incontáveis celulares, estavam todas focadas naquele careca, e eu via inúmeras representações suas em cada telinha, mesmo na minha, para esses registros. Sempre é algo estranho, essa avidez de fotografar, registrar tudo, mas tão comum que quase não percebemos. O poeta respondeu ainda mais perguntas, com humor e típica sagacidade. Uma das últimas questões levantadas foi quanto a seu processo de escrita e qual sua relação com a máquina de escrever (que usa para poemas). "Acredito na urgência do que precisa ser escrito. Praticamente todos meus textos escrevo direto no celular, exceto os poemas. E quanto à maquina, é um artesanato, e eu adoro esse artesanato, errar, fazer de novo, fazer de novo...". Agradeceu e foi aplaudido de pé. Só achei que ele poderia ter falado mais do projeto dos tais guardanapos poéticos, não se soube muito deles. 

Mais algumas sentenças que coletei:

"Se meu ritmo se alterou após aparecer mais na Globo? Por causa da crise, todos estão trabalhando 3x mais. Eu não tenho emprego, tenho trabalho. Se perder todas essas aparições, continuarei sendo escritor."

"Meu pior pesadelo? uma casa de quindim. Eu adorava quindim. O inferno é aquilo que tu gosta em excesso" 

"Quando tive coragem de assumir meus defeitos, eles viraram virtudes"

"A cozinha é o lugar mais precioso da casa. A sala é para os que não se confia. Na cozinha você recebe quem realmente confia"

"A gente se sente ótimo criando atenção. Gostamos que perguntem, de devoção"

"Perder tempo é dar tempo e dar tempo é ternura"

"Adolescência: desafiar os pais para aprender a desafiar o mundo"

"A paternidade não tem nada a ver com o casamento. O homem esquece de que pode não ser bom marido, mas poder ser um bom pai."

"Num relacionamento, sempre haverá duas pessoas, uma prática e uma poética."

"Por que ter razão, se podemos ter amor?"

"Ser melhor do que o outro nunca é como ser melhor para o outro"

"Eu como nasci feio, sempre me reinvento. Quem se acostuma com quem é, não muda"

"O grande problema da felicidade é acreditar que o outro pode ser melhor do que ele realmente é"

"Curiosidade é saúde. Quem deixa de perguntar, já morreu"

"Todas as grandes decisões de nossa vida acontecem na banalidade"

"A gente não tem medo de morrer. Temos medo de ficar sozinhos"

"Tenho um lado visceral, de expor minha vida, as coisas que vivo, mas a gente se entrega com muita facilidade. Os nomes que colocamos nos animais já nos denunciam"


Após a tempestade, a calmaria no auditório

OS AUTÓGRAFOS, UM SHOW À PARTE

Lá fora, a multidão se direcionou para pegar autógrafos, comprar livros. Fiquei um tempo observando o lugar, as pessoas, as sensações. Não comprei, não iria encarar aquela fila, não agora. Mas gostei de vê-la. Todo aquele furor ensandecido era inspirador para escrever, alguma crônica quem sabe. Carpinejar assinou os livros de pé mesmo, parecia ter aversão a cadeiras, e tirou fotos com todos. No local transitavam alguns gatos, assustados com toda aquela agitação. O que será que os felinos pensavam do poeta gaúcho? E todos que pegavam o autógrafo tinham ainda um último périplo pela frente: desviar de uma ponta de tapete levantada bem na saída, porque o tapete era grande demais, sua ponta se projetou para cima, uma armadilha inesperada. Vi umas três pessoas quase caírem, no ímpeto do tropeço. Será que Carpinejar também saiu por aquele lado?








Com toda a certeza, não concordo com tudo o que disse ou pensa o poeta, mas foi uma noite bem marcante, muitas sensações, considerações. E no dia seguinte, sexta, haveria muito mais. Carpinejar dividiu mesa com Xico Sá na Flicaixa. Estive lá e conto mais num post futuro. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Noite dentro da noite




No dia 24 de abril, ainda no clima da Bienal do Livro (um dia após seu término), estive na Livraria Cultura aqui de Fortaleza para o lançamento do mais recente romance de Joca Reiners Terron, Noite dentro da Noite. Nunca tinha ido a um lançamento de livro antes, e me foi um grande prazer ter este início com o Joca, um cara que admiro bastante, pela já longa trajetória que vem construindo. Ouço falar dele há muito tempo, desde que comecei a escrever, e conheci programas como o Entrelinhas da TV Cultura. 

Ainda não li seus livros, mas sempre vejo entrevistas, conversas, histórias, percebendo também seu forte lado como pesquisador literário, e figura sempre presente em eventos. Estive inclusive numa mesa que ele mediou na Flip, em 2015, entre os escritores Diego Vecchio e Sasa Stanisic. Uma conversa marcada pelas diferenças, de todos os lados. 

Havia bastante movimento na livraria naquela noite. Nas imediações do auditório, várias pessoas, um público diferente, maduro. Marcado para as 19h, um breve bate-papo entre o escritor e o jornalista Jáder Santana. E de cara, entre as prateleiras, encontrei Joca, bem acessível, à espera de seu momento. Aproveitei para já lhe cumprimentar. Era ótimo estar ali, sentir a energia que parece pulsar de cada pequeno detalhe daquela cena, a cena de um lançamento de livro. 







No pequeno auditório, em poucos minutos quase todos os assentos se ocuparam. No palco, sob uma luz indireta bastante direta, Jáder apresentou Joca e iniciou uma rápida conversa sobre o livro, desde seu processo de criação, das inspirações na família, da autoficção, até expandir para o ato da escrita em si e suas múltiplas nuances. Apesar de uma ruidosa interferência no microfone (que demorou a ser sanada) foi possível entrar mais no mundo de Joca, saber mais de sua vida, enxergá-lo a fundo. O livro viria como o mergulho definitivo, após esse breve nado geral. 



Algumas falas interessantes que consegui captar:

"Quando se decide escrever, ninguém sabe exatamente o que vai escrever"

"A história é contada com certo grau de dificuldade. Gosto do desafio. Hoje em dia as pessoas têm medo de abordar coisas complexas, talvez pela facilidade de celulares e afins"

"Nossa vida é uma sucessão de dias onde quase não há nada extraordinário, e é bom que seja assim. Mas o extraordinário, a meu ver, deve estar nos livros. Os personagens dos livros devem ter isso"








Fiquei um bom tempo perambulando pela livraria, fui um dos últimos a ter o livro assinado. Isso porque quis absorver um pouco mais daquela atmosfera, daquelas pessoas, tão próprias, tão distintas, que se reuniram ali naquela hora, naquela noite. Com exceção de alguns bem óbvios, ficava pensando quem era todo aquele pessoal, como tinham ouvido falar dele, e daquele lançamento em plena segunda-feita. Era tudo muito curioso de se pensar. A fila andava, cada um com o livro na mão, como um troféu. E o livro era de fato bem bonito, lembrava um estilo mais noir, anos 80 talvez. Fiquei muito curioso para lê-lo, os personagens alemães, os conflitos, a trama amarrada... Não consegui comentar muitas dessas coisas com Joca, quando enfim chegou minha vez, mas lhe disse tantas outras. São momentos rápidos, mas muito valorosos. E provavelmente logo mais nos reveremos em algum outro evento, em alguma outra noite dentro da noite.