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"O coração que se ganha é o que se dá em troca"Marcelino Freire



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

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Em virtude do ritmo acelerado dos últimos dias, optei por fazer postagens mais recentes do blog direto no Facebook (veja aqui). Em breve, elas chegarão também por aqui. A prioridade do blog, porém, segue na série da Bienal 2017, que logo mais terá seu quarto post.

domingo, 24 de setembro de 2017

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 3 (16/04/2017, Marcelino Freire e Valter Hugo Mãe)


Foto capa: Google 
Fotos postagem: Denis Akel

Dando continuidade à série de minhas vivências e sensações da Bienal Internacional do Livro do Ceará 2017, segue a terceira postagem, referente ao domingo, dia 16 de abril. Primeiramente, trago o que escrevi sobre aquele dia, logo após chegar em casa, e sobre o qual o post de agora irá expandir:

"Terceiro dia de Bienal do Livro. Estive na belíssima mesa que reuniu o querido amigo Marcelino Freire e Valter Hugo Mãe. Um encontro que celebrou, sobretudo, a amizade. Momento sublime, de riso fácil, de histórias e memórias. Eram quase dois meninos, ali no palco, contando traquinagens, mas repletos de generosidade.
Grande satisfação rever Marcelino, este guerreiro das palavras, eterno teimoso. E enfim conhecer pessoalmente, ainda que num sopro, Valter Hugo Mãe, escritor de sentimentos, de alma, que abraçou a todos com um carinho que faz jus a seu nome: Mãe.
Excelente a mediação de Socorro Acioli; encontrou uma harmonia tão singela entre os dois autores, transformando uma simples mesa numa conversa de velhos amigos, valorizando o encontro, o ontem, o hoje, o tempo. Eles estavam se divertindo como nunca, investigando passados, desdobrando futuros. Celebrando, igualmente, a vida.
Em breve, no blog, post completo sobre o encontro. E vamos nessa que logo tem mais Bienal."

Escrito e publicado originalmente no Facebook em 16/04/2017 

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INTRODUÇÃO

Este foi um dia bastante peculiar e, talvez por isso, me arrisco a dizer, um dos melhores da bienal. Aqui, o evento mostraria a cara que tão bem marcaria essa edição. Deixei para ir apenas no horário da tarde, quis estar mais descansado para a mesa que para mim era uma das mais aguardadas, o encontro de Marcelino Freire com Valter Hugo Mãe. Não exatamente pelo escritor português, que já tinha visto no dia anterior, mas por Marcelino, ou melhor, pelos dois juntos. 

Em fevereiro de 2017 tive a grande alegria de fazer uma das oficinas literárias que Marcelino ministra, as chamadas Tocas Literárias. Foi em Recife, durou três dias de puro encanto e renovação, e posso dizer que ter feito essa oficina me mudou imensamente, como escritor mas sobretudo como pessoa. Poderia falar bem mais sobre, mas ainda planejo um post futuro direcionado a ela aqui pelo blog.

Após esse contato com o escritor pernambucano, voltei a Fortaleza muito animado e disposto a criar ou produzir algum tipo de evento literário (ops, este é também assunto para um post futuro). O fato é que adorei quando soube que Marcelino seria um dos autores convidados da Bienal 2017, o que acho que até me ajudou a me empolgar mais com o evento, pois, como comentei nos dois posts anteriores desta série, o início da bienal foi bastante morno e repetitivo. Já pressentia que sua mesa traria algum diferencial, após a breve convivência que tivemos nos dias de oficina, onde pude conhecer mais de seu estilo latente, agora praticamente como professor.

O INÍCIO DO TERCEIRO DIA DE BIENAL 

Intitulada Romances do pai, escritas da mãe, a mesa seria um dos destaques da tarde no Centro de Eventos, tanto que não me preocupei muito em marcar ou me interessar por outros, quis dedicar tudo a este. Neste dia, fui acompanhado de minha mãe e uma amiga nossa. Marcada para as 16h, saímos um pouco em cima da hora, por conta de imprevistos, atropelos e, por que não dizer, preguiça de domingo.   

Enquanto parávamos o carro, já havia, inconscientemente, um clima literário no ar, que me chegou do lugar mais inusitado, ali mesmo no estacionamento: uma moto, ou melhor dizendo, a placa da tal moto, que trazia as letras "POE". Me senti quase como que recebido por Edgar Allan Poe, pelo menos simbolicamente.

Havia bastante movimento pelo pavilhão neste primeiro fim de semana do evento, mas procurei não me demorar em nada que me desviasse do foco; a sala da palestra, para onde seguimos tão logo chegamos. Já à expectativa de muita gente, como no dia anterior, me preparei para uma tremenda fila, e, após os dois lances de escadas rolantes, nos deparamos exatamente com isso: uma fila que cansava só de olhar, à medida que serpenteava as paredes do lugar, deixando claro duas coisas: esperaríamos muito e seria difícil achar lugar no auditório. A sala, como descobri depois, tinha mudado de lugar, sendo aquela já uma maior, visando abarcar a super fila que ali se estendia. 




Até nos posicionarmos no fim desta monstruosidade, passamos pelo corredor, no qual vimos um burburinho em torno de uma mesinha posta ali. Lá estava Valter Hugo Mãe, no que parecia ser uma pré-sessão de autógrafos, recebendo pessoas e distribuindo sorrisos, além das assinaturas. Tomamos nosso lugar, enquanto mais e mais pessoas iam chegando. Felizmente não foi preciso esperar muito em pé, logo o acesso ao auditório foi liberado. A fila seguiu, num andar lento e moderado, encostada à parede, como uma estranha gincana escolar. Era interessante observar os perfis das pessoas, as faixas etárias, o que traziam às mãos, a aparente empolgação, o contraste dessa cena com a linda tarde de sol que os janelões laterais deixavam filtrar. Tudo isso ajudava a arrastar os minutos de desconforto até passar toda essa parte.  










Logo atravessamos a entrada da sala, cumprimentando os receptivos. Tivemos já uma primeira dimensão da lotação e buscamos lugares. Como era de se esperar, boa parte das cadeiras mais à frente já estavam tomadas, além das obviamente reservadas. Andávamos pelo mar de gente, buscando lacunas, frestas, mas todo o espaço transbordava. Encontramos enfim alguns lugares perdidos numa fileira já em processo de ocupação. Nos acomodamos, restando esperar, enquanto a sala não parava de encher, para onde se olhasse via-se alguém, uma explosão de movimentos, cores, formas e detalhes, na figura do que cada um adicionava a esse caos, como uma grande salada de vida. 





Já passando um pouquinho do horário previsto, o debate finalmente teve início, mas não sem antes as palavras iniciais de praxe de agradecimentos e patrocinadores. Quando o trio de participantes finalmente tomou seus lugares no centro do palco, uma sonora salva de palmas se faz ouvir. Saquei minha caderneta, o lugar inspirava.  

MESA (16h) - Romances do pai, escritas da mãe (Marcelino Freire / Valter Hugo Mãe) Mediação: Socorro Acioli 




Socorro Acioli, escritora cearense, foi a responsável por mediar este encontro. Era visível o quanto estava emocionada, por detrás de seu sorriso de menina, quando iniciou uma breve apresentação de ambos os autores, que enquanto isso olhavam o público, sem direcionar a ninguém diretamente, mas procurando abraçar e se acostumar às centenas de pessoas que lhes devolviam o olhar, curiosas.

O tema da mesa fazia alusão aos maneios literários de cada autor, de suas relações com família e sobretudo viria a focar a grande amizade que há entre eles. Marcelino reforçou a alegria de estar ali, em Fortaleza, ao lado de Valter, que havia recentemente estado com ele no festival literário de Madeira, em Portugal. 

"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Socorro iniciou ditando este trecho de poema de Marcelino, para abordar justamente esta amizade. Reforçou também o quanto adora a escrita do escritor pernambucano.

Ela seguiu dizendo que tinha preparado um pequeno mapa de orientação para a mesa, composto de oito palavras, que de alguma forma se relacionam aos universos de Marcelino e Valter. Foi uma iniciativa diferente, incomum até, e bem interessante, por lançar de maneira prática e direta sub-temas que começaram a direcionar a conversa.

A 1ª palavra lida, de uma folha que Socorro trazia à mão: encontro. "Como vocês se conheceram?"

Valter falou de como conheceu Marcelino, lembrando a 1ª viagem que fez, que foi para o Brasil, e de que o contato com o escritor pernambucano se deu pelo gosto em como com a poesia, tudo isso por volta dos anos 2000.

"Foi um grupo que começou a se encontrar na livraria da vila, em SP" – completou Marcelino, citando um grupo do antigo mensageiro ICQ, onde teve o primeiro contato com Valter.

Ambos relembraram histórias, vivências, de pessoas em comum, de fatos marcantes. Valter falou algo de uma mulher, que não lembro exatamente quem era, ou se apenas um sonho dele, mas esta frase de algum modo ficou em mim:

"Ela sorriu e a cabeça dela começou a tocar uma música" - Valter Hugo Mãe

Havia um clima descontraído entre os dois, com muito humor e amizade, notável de já existir mesmo há anos. Vi um Valter Hugo Mãe bem diferente do que vi no dia anterior, mais humano, mais risonho, talvez por estar dividindo o palco, pudesse se mostrar mais relaxado, um pouco mais, digamos, vulnerável.

Marcelino contou que, em seus primeiros contatos, estabeleceram trocas de conteúdos culturais, como livros, CDs, etc, entre culturas, Brasil via Portugal. "Valter depois me recebeu em sua casa 'sem esconder os talheres'". A expressão arrancou algumas risadas, o escritor quis dizer que já havia uma confiança entre ambos, que o recebeu com toda a naturalidade.

O foco mudou um pouco quando Socorro comentou a respeito dos gêneros literários praticados por eles. Marcelino é geralmente atribuído a contos e poemas, narrativas curtas, e Valter a romances. Marcelino disse que lançou há pouco tempo seu primeiro romance, Nossos Ossos, comentando um pouco da dificuldade de escrevê-lo, pelo ritmo imposto por um romance, livro este que inclusive teve a edição portuguesa prefaciada coincidentemente por Valter. Já o português diz que contos não costumam ter muito espaço entre os leitores portugueses.



A segunda palavra veio imediatamente na sequência, generosidade.

"Qual espaço da generosidade na vida de vocês? De pessoas que estão querendo escrever?"

"Não tenho sensação de ser generoso. Tenho vontade de ser muito mais. A vida tem sido muito generosa comigo, por isso tenho essa generosidade com todos".Valter

"Minha generosidade é dividir o que não tem, vem da minha mãe. O pouco que tenho, partilho". – Marcelino Freire 

"Realizo desde 2006 a "Balada Literária", em São Paulo, evento que reúne várias programações literárias, saraus, lançamentos em bares e livrarias da cidade. Acabo ganhando 'parceiros do crime' no evento e nos lugares por onde ando, para lutar contra a mediocridade dominante. Acho poucos eventos literários no país. Para cada show de Luan Santana, dez bienais. Temos que celebrar a palavra. Precisamos de reservatórios de dignidade". – Marcelino

A próxima palavra do rol de Socorro, mote para dar sequência à conversa, veio praticamente atrelada às anteriores: amigos

Valter diz que há pessoas pelas quais sente conforto de estarem juntas dele, que passaram a acompanhá-lo e das quais ele celebra a companhia. Citou uma fã que costuma estar sempre presente em suas palestras, chamou seu nome e lá estava ela. Achei a situação no mínimo curiosa.
Ele falou ainda de contato que fez numa fila de autógrafos, de uma pessoa frágil, com ares suicidas, que acabou por tornar-se um grande amigo. "A maioria de meus leitores são desconhecidos meus, mas são fundamentais na minha vida" - Valter

Marcelino focou a questão de maneira prática: "quem vai ler meu livro?". Diz que família não lê e narra, de maneira lúdica, o ritmo de lançamento, onde há festa, comida e todos vão, mas ninguém de fato lê o livro.

"O escritor se revela mais é na mesa do bar"Marcelino

"O escritor, na criação, não tem família, não tem parentes. Uso tudo, mas é tudo ficção. O que estiver na frente, é vida. Quem escreveu meus contos foi minha mãe"Marcelino

Esta é uma ideia bem interessante, e até a reconheço um pouco da época em que fiz a oficina literária com ele. Marcelino sugere que não se deve ficar preso a nenhum tipo de preconceito quando se escreve. Não se deve ter vergonha de pôr isso, medo de pôr aquilo, achando que se entregará mais do que se deve entregar. 

"Meus contos vêm do grito, da ladainha da minha mãe. Meu romance vem do silêncio do meu pai. Sou eu? Não. É tudo mentira. É tudo ficção". – Marcelino

"Tenho um primeiro leitor, um amigo meu, Mário, que sempre lê primeiro meus romances. É uma pessoa muito antipática mas estranharia se fosse amigo e gostasse do que escrevo"Valter

Tanto nessa, como em inúmeras outras palestras que vi de Marcelino, a figura de sua mãe é muito, muito forte em suas palavras, como se ela fosse uma voz orientadora, que estivesse permanentemente nele, manifestando-se ora de mansinho, ora de atropelo. Uma senhora inspiração!



À medida que a conversa se estendia, notei que havia uma diferença impactante dos diálogos, enquanto Marcelino falava num grito, Valter era mais brando, mais calmo, mais silêncio. Esse curioso contraponto funcionou muito bem, criando dois extremos que se combinavam, como se uma fala descansasse para depois provocar a outra.

Infelizmente, por estar sentado muito atrás, não consegui fazer um bom registro de fotos; via com dificuldade Marcelino e Socorro e o pobre Valter quase sumia no emaranhado de cabeças e cabelos. Minha atenção ainda se deixava levar, de quando em quando, entre as pessoas, que traziam às mãos livros do português, blocos de anotações, além dos múltiplos celulares ocasionalmente erguidos. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.  

Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, outros convidados de destaque desta bienal,  chegaram à sala por volta das 17h. Andaram com discrição, sorrindo para quem lhes sorria, até chegarem a alguns dos lugares reservados. Foi ótimo vê-los ali. Acompanho um pouco de seus trabalhos, já tendo visto palestras de Marina em eventos anteriores, inclusive já postado aqui. O casal teria algumas participações na bienal este ano e eu esperava poder estar em alguma delas, mas ainda estava por perceber, depois desse dia, a pluralidade de eventos vindouros, boa parte deles no mesmo horário.

"O que te dói quando se pensa no Brasil?",  Socorro pergunta a Valter.

"Não consigo encarar o Brasil como país estrangeiro. A cultura brasileira é muito minha. Tenho essa marca, uma cicatriz que ninguém pode tirar de mim. Se há um lugar onde podemos crer que algo melhor irá acontecer, esse lugar é o Brasil. Se a felicidade tiver uma nação convicta para acontecer, tenho a convicção de que essa nação é o Brasil".Valter

Ainda seguindo o formato das palavras-tema, a próxima pegava carona nas nações: Portugal

"Me tornei escritor pela minha tremenda paixão pela língua portuguesa. Tenho paixão imediata pelas escrituras portuguesas, Fernando Pessoa, Florbela Espanca . Fico babando pela metáfora, pelo passeios de tanta beleza que fazem. O corpo da língua portuguesa está no Brasil. A alma está em Portugal."Marcelino 

Valter explica que é português, mas na verdade nasceu em Angola, e seguiu contando, emocionado, este trecho de sua vida, com certeza pouco conhecido do público:

"Por que não nasci negro? Se todos em minha terra são negros? Eu perguntava à minha mãe. Angola deixou em mim uma história, um discurso de meus pais, uma história contada. Prefiro viver uma mentira amorosa do que uma realidade odiosa."Valter  




Pai e Mãe foram as palavras seguintes, e sem dúvida as que despertaram mais dos dois escritores, como se fossem fundo em suas almas, os fizesse refletir a vida, a carreira, os sonhos. Cada um, à sua maneira, tentou expressar o que essas duas palavrinhas lhes significava:

"Minha mãe era uma tragicômica. Se ela cantava, eu sabia que ela estava bem. Quando escrevo, meus contos compactuam com a fala de minha mãe. Uma frase de minha mãe que nunca usei mas é puro teatro: 'amanhã não amanheço viva!'" – Marcelino 

"Meus textos nascem de um improviso. Eles vêm de um primeiro mote, de uma frasezinha que vou descosturando"Marcelino

Aproveitando essa deixa, o escritor falou um pouco de um de seus contos mais conhecidos, Da paz, que nasceu exatamente desse seu processo do improviso, da articulação a partir de um fragmento:

"Começou com uma frase simples, 'eu sou da paz', mas essa ideia me incomodava, preferia pensar: 'eu não sou da paz', e a partir daqui vou construindo a coisa, tentando descobrir o que essa voz quer dizer. É um improviso, que decoro pelo exercício musical e repetido que faço." – Marcelino, que 'leu' alguns trechos do conto.

Era verdadeiramente impressionante sua capacidade de declamar seus textos de cor, de um fôlego só, com vibração característica, um timbre recheado de presença, enchendo o salão, chamando a todos para viverem com ele a experiência do texto, da palavra. Marcelino, que também tem forte verve teatral, nessas horas se transformava. Valter, a seu lado, parecia um dos mais impressionados com o fato, quando comentou, em tom brincalhão:

"Acho incrível como você consegue decorar seus textos, eu mal sei os títulos dos meus livros!"

Reforçando o fato de sua literatura se ancorar muito na família e no que ouvia, Marcelino citou sua tia Totonha, que não sabia ler, mas mais do que isso, ela simplesmente não queria aprender, e de como isso o inspirou a escrever o conto Totonha. A maneira como ele contava, imitando a voz da tia, aumentando a tensão das frases, criava de imediato a atmosfera perfeita, quase como se ouvíssemos não ele, mas sua tia.

Apesar da sala estar cheia, algo que me incomodou um pouco durante a mesa não foi exatamente a infinidade de pessoas mas a iluminação ambiente. Fiquei um tempo a olhar o teto, buscando descansar um pouco do excesso de detalhes lá debaixo, e só assim me dei conta de todas aquelas luzes, brancas, impiedosamente acessas, irradiando sua inevitável brancura. Essa percepção me deu uma estranheza, tudo pareceu claro demais, nítido demais. Talvez se algumas fossem apagadas, criaria-se um clima mais ameno, menos austero. Do jeito que estava parecia quase uma sala de aula, uma universidade ou algo assim. Era uma constatação que se reforçava a cada uma das mesas que vi nos dias seguintes, salvo umas poucas onde, não sei por que, optaram por reduzir as luzes mais próximas ao palco. Não sei qual o critério usado, mas o exagero de luzes certamente deixava o auditório muito artificial.

Falando sobre o tema mãeValter diz que a mulher é mais preocupada com a vida, tem sempre um sentido, uma necessidade de sobreviver: "O discurso das mulheres é muito mais literatura, bem mais que os homens. Os homens só são assim quando decidem e acham que em poucos minutos podem, por exemplo, mudar a vida dos filhos. Essa diferença marcou muito a minha vida. Tenho relação muito forte pela minha mãe. A minha mãe é a minha filha, é uma sorte para mim cuidar dela. Toda a vida dela ela fez isso por mim."Valter

A essa altura o debate já havia rendido muito, crescido, enveredado por caminhos próprios, de modo que as palavras da lista de Socorro ou não me chegaram ou não foram mais relevantes, o jogo já havia conduzido a um enfrentamento de ideias, que vivia independente, trazendo a cada novo comentário um leque de ampliações.

"Qual palavra para vocês simboliza o amor?" – pergunta final de Socorro, lembro da palavra 'amor' ainda pertencer à sua lista.

"Como me vingo de um amor que não deu certo? Fazendo um poema. Me vingo escrevendo amores possíveis."Marcelino 

Marcelino encerrou focando novamente em sua tia Totonha, entrando agora em discussão do que chamou de ditadura do saber:"É possível ter relevância se não se sabe ler ou escrever?" E declamou o conto inteiro, prendendo o público com sua narrativa ágil e precisa, literalmente uma pancada.

Para ajudar a ilustrar esse momento, recorro a este vídeo, que data de 2007, mas apesar de antigo, ainda retrata bem o que quis dizer, o impacto do texto lido pela pulsão do próprio autor:



Entre risos e sorrisos, foi enormemente aplaudido, bem como Valter, que encerrou agradecendo o carinho de todos. Socorro Acioli também agradeceu, aos dois ao seu lado e também ao mar de pessoas à sua frente. O público começou a se deslocar, meio desordenado, para autógrafos, o momento talvez mais esperado, celebrado. Acompanhei o alvoroço, enquanto a maioria apenas saía da sala e outras tantas formavam a emblemática filinha no corredor, os livros na mão, prontos a serem assinados.



O maior destaque, mais uma vez acabaria ficando para Valter, que praticamente sumiu no meio da multidão, à medida que esta o cercava. Alguns seguranças estavam por perto, olhando cada um com desconfiança, como se o livro pudesse de alguma forma ser uma arma disfarçada. Valter recebia as pessoas lá mesmo do conforto de sua poltrona. Marcelino preferiu ficar de pé, e ali mesmo conversou e autografou para várias pessoas que o abordaram, além, é claro, de posar para incontáveis fotos, requisito obrigatório. Era uma energia boa, estar ali, acompanhar tudo aquilo, todo aquele interesse literário.



Aproveitei umas brechas entre esses momentos para conseguir conversar com ele, relembrar momentos da oficina literária e apresentar minha mãe. Parecia quase que o tempo não tinha passado, de fevereiro para abril foi bem pouco tempo mesmo, era quase como se estivéssemos ainda no intervalo da Toca Literária, prestes a voltar para mais. E era uma pena que Marcelino não poderia ficar muito tempo; iria embora já no dia seguinte, mal podendo respirar direito dos ares cearenses. Ele teria sido fantástico numa das programações do evento paralelo Bienal fora da Bienal, do qual falo a partir da próxima postagem.



Já Valter, sobravam flashes e poses em cima do escritor português, quase como se fosse uma espécie de outro mundo. Todos queriam alguns minutos com ele. Com o tempo, observei que passou a receber pessoas com um afeto que lhes permitia sentirem-se bem ao seu lado. Lembrava um pouco o Natal e a figura do Papai Noel, todos esperando para sentar ao lado de Valter Hugo Mãe. Mais do que isso, após um revezamento entre o público, foi a vez do pessoal da produção, os receptivos, se achegarem para abraços, autógrafos e um minutinho da atenção do ícone da literatura portuguesa. As cenas seguintes foram o que talvez se poderia esperar, mas talvez até um pouco além, exageradamente calorosas, gente chorando, abraçadas a Valter, que agora parecia quase que santificado. Uma despedida? Agradecimento? Milagre? Fiquei pensando comigo mesmo, buscando entender a causa de tanta comoção.









Como todas as vezes que o vi nessa Bienal, Valter foi de uma dignidade soberana, cumprimentando a todos, dedicando o máximo de sua atenção no retorno a seu público. Durante cada pessoa que recebia, ou mesmo de presentes que esta lhe trazia, seu olhar era todo daquela pessoa, como se quisesse entendê-la o melhor possível, captar sua essência. A coisa do sentar ao lado dele devia ser para que ficassem à mesma altura visual, favorecendo essa troca cósmica que acontecia silenciosamente no olho do furacão.






Haveria, logo após essa mesa, às 18h, uma outra com Marina Colasanti e Affonso Romano, mas optei por deixar passar, quis ficar aqui e acompanhar o desfecho, o ato final. E após mais alguns minutos e com a sala já bem mais esvaziada, pensei em cumprimentar Valter. Não tinha nenhum de seus livros à mão, aliás ainda não li nenhum deles, mas conheço um pouco de sua linha literária, de acompanhar entrevistas e falas em outros eventos. Seria um bom momento para agradecer aquela fala, e comentar um pouco disto. Na companhia de Marcelino, me lancei à sua poltrona. 

Foi daqueles momentos de reconforto, dentro de aparente desconforto. É engraçado, pois essa cena, de ir falar cara a cara com algum escritor, não me era nada comum antes desse dia. Nas bienais anteriores daqui, 2014, 2012 e 2010 (as que passei a acompanhar e escrever sobre), sempre assistia, anotava, escrevia mas dificilmente ia falar com algum dos autores, talvez por insegurança, receio, não me sentia preparado. A Toca Literária que fiz com Marcelino me ajudou muito também nesse sentido, ter de falar, por mim e por meus textos, expor minhas ideias, ser o primeiro a acreditar em mim mesmo. O que começou ainda timidamente lá em Recife foi se propagando aqui, à medida que me senti mais seguro, apto a deixar transparecer um pouco de minhas ideias além do que costumava fazer apenas escrevendo. E quando percebi estava ali, conversando com Valter, falando da Flip 2011 (quando ouvi falar dele pela primeira vez), do contato com Marcelino, do ofício literário e até lhe convidei a ler meus blogs. Um momentinho rápido, quase ínfimo comparado à duração daquela tarde, mas que teve um valor muito significativo. Fiquei pensando depois como cada uma das pessoas que falou com ele antes de mim tiveram igualmente seus momentos, e saíram daquela sala também de alguma forma transformadas.   



Foto: Carol Vieira

Este dia representou uma enorme guinada em relação à minha relação com a Bienal, e também comigo mesmo. Nesta mesa, tanto Marcelino como Valter falaram um pouco de suas vidas, de suas literaturas, língua portuguesa, Brasil e Portugal, mas falaram muito mais sobre amizade, uma mesa que foi pura alegria, do início ao fim, permeada por piadas, risadas, boas histórias, memórias. Socorro Acioli fez um excelente trabalho de mediação, com a utilização de suas palavras-tema, criando já de cara elos comuns entre eles, e eram tantos! 

Agora, observando essas fotos, ao postá-las aqui, percebo mais calmamente todas essas realidades. Talvez já não tenha exatamente o gatilho de memória daquele dia, mas a sensação ainda é forte, ficou no ar, sensorial. É possível ver detalhes, expressões, sensações, que não se via lá na hora, e isso aflora até outras coisas, comparado a como me sinto hoje. Momentos eternizados, não só pelas fotos ou mesmo por este registro escrito, mas simplesmente por revisitar o passado mentalmente e prepará-lo nesta representação, quase como recriá-lo. É mais ou menos essa a natureza de boa parte de meus textos nesse blog. Recriar passados é revivê-los. E vamos embora que vem muito mais por aí, a partir deste dia essa Bienal, para mim, ficou conhecida como a Bienal da Amizade.

Continua no dia 4, com a visita de Valter Hugo Mãe à tribo dos índios Anassés na Bienal fora da Bienal

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 2 (15/04/2017 - Renovação, mesas literárias e comoção por Válter Hugo mãe)


Fotos: Denis Akel 

Nota do autor: Este é o segundo post da série que abrange algumas de minhas vivências e sensações durante a Bienal Internacional do Livro do Ceará 2017, ocorrida de 14 a 23 de abril. Boa parte dos textos dessa série já foram publicados no FB, e chegam enfim ao blog, acrescidos e diagramados especialmente para cá. 

O segundo dia de Bienal, sexta-feira, chegou movimentando a aparente calmaria do dia anterior, já meio que ditando o ritmo que se seguiria também nos dias seguintes. Uma olhada rápida na programação me chamou a atenção para uma série de três palestras, que aconteceriam ao longo do dia, na mesma sala, lá no Mezanino 2, às 16h, 18h e 20h. Entre os autores, nomes como Pedro Salgueiro, Luiz Ruffato e Valter Hugo Mãe, que faria sua primeira participação no evento.

Saí de casa já no meio da tarde, enfrentando um sol tenebroso na rua até a parada de ônibus. Estava tão quente que não tive como não lembrar de um dos títulos de um dos livros do próprio Ruffato, o Inferno Provisório, talvez numa comparação errônea, mas sabendo que aquela quentura cessaria tão logo chegasse ao centro de eventos e fosse abraçado pelos poderosos ares condicionados.

Havia já um movimento considerável pelos corredores do pavilhão. Aproveitei para conhecer um pouco de uma das áreas mais animadas da Bienal, a Praça do Cordel, onde além das tradicionais banquinhas cheias de livretos, havia também um palco no qual se revezavam os artistas dos folhetos, entre cantorias e declamações.



Almocei por lá mesmo. As opções não eram muitas. Lembro de o Centro de Eventos dispor de uma área com restaurantes, uma completa praça de alimentação, que parecia quase a de um aeroporto, mas isso no distante ano de 2012. Por alguma razão, este espaço jamais foi reaberto e tudo o que se tem desde então são as lanchonetes, espalhadas nas bordas do pavilhão da feira de livros, que oferecem não muito além de salgados, bolos, sanduíches, sucos e afins. Há até boas opções de almoço, como esse interessante Ratatouille, que encontrei em um deles. O preço não foi muito amigável, mas também não muito exagerado, e estava delicioso. Senti uma certa paz em estar ali, ao lado daquele movimento, daquela circulação pelos estantes.

O OLHAR DA INFÂNCIA

Na mesa ao meu lado, dois garotinhos, mas nenhum prato ou comida na mesa, apenas livros, provavelmente récem-comprados, como indicavam as sacolas. Os pais deviam estar comprando o lanche enquanto a dupla, possivelmente irmãos, folheava curiosos, brotando o sorriso da descoberta, das cores que saltavam, dos traços de cada página. Fiquei um tempo refletindo aquela cena. Para eles, não fazia diferença o homenageado, a estrutura do lugar, as palestras, tampouco Valter Hugo Mãe. Queriam apenas viver o livro, o instante, e o faziam tão naturalmente que dava gosto ver, como se eu de alguma forma desejasse o mesmo, sem a eventual pressão que acompanhar todas essas coisas acaba trazendo. Os meninos tinham muito a ensinar, naqueles olhos que mal descobriam a vida, nas mãos que deslizavam, realmente sentindo aquele papel, nas gargalhadas espontâneas. Podiam até se desinteressar pelo livro nos próximos minutos, mas naquele espacinho de tempo onde almocei, estavam entregues a ele, e eu entregue a eles.



Essa reflexão me fez passar ali mais tempo do que deveria. Peguei cadernos, anotei ideias, pensei. Mas as horas seguem, implacáveis, e é preciso se reencaixar no sistema. Quando me dei conta, já passava um pouquinho das 16h. Segui procurando o acesso, que se dava através das escadas rolantes. Seria um caminho que eu me acostumaria bastante a fazer nos próximos dias, que se tornaria igualmente repetitivo, mas necessário.



MESA (16h): A HERANÇA BENDITA E A FORTALEZA MALDITA DE ADOLFO CAMINHA (Lira Neto e Tércia Montenegro) 




Esta foi uma mesa curiosa. O que me atraiu a ela, a princípio, foi ver que contaria com a participação do escritor cearense Pedro Salgueiro, que já ouço falar há muito tempo mas nunca vi aparecer em nenhum evento. Escrevi várias vezes aqui, na época da bienal de 2014, sobre ele e seu contato com Moreira Campos. Teria sido ótimo finalmente vê-lo, mas eis que ao entrar me deparo com Lira Neto ao lado de Tércia. Como perdi os minutos iniciais da fala, não entendi o que aconteceu com Pedro, que aparentemente teve de ser substituído. Lira, aliás, foi um dos quatro coordenadores da Bienal, então seria uma presença muito comum em boa parte das mesas.

Tomei uma das muitas cadeiras – o auditório estava parcialmente cheio – e tentei entrar no foco da conversa. Saquei já um de meus caderninhos, fiéis companheiros, que usaria ao longo desses dias de bienal, para tomar eventuais notas. É graças a eles, aliás, que estes posts são possíveis.

Foi uma conversa centrada no ato da criação literária, da composição de personagens, o labor criativo. Ambos trocaram experiências, dentro de suas vivências diante do ato da escrita. Era um bom aquecimento, ouvir tudo aquilo, que ia aos poucos me motivando.

"O ato de escrita é teatral, é preciso se colocar no personagem. É um exercício de projeção, de empatia com seu personagem. Como é olhar o mundo naquele corpo?" – Tércia Montenegro 

"Para escrever sobre alguém que está perdendo a visão, tive de fazer um pequeno laboratório, para o livro 'Turismo para cegos'" – Tércia

"A escrita independe da publicação, ela não pode não haver, não acontecer. É resgatar aprendizados quando o tédio aparece. Minha vida como escritora é ter escrito, é escrever sempre" – Tércia

Após algum tempo, uma pessoa do fundo tomou o microfone para uma pergunta. É um jovem senhor que disse estar passando por acaso por ali quando viu o evento, e agradeceu por isso. Ele formulou sua pergunta com grande propriedade, como que muito acostumado ao microfone, e fez inúmeras citações, de Adolfo Caminha ao livro Fortaleza Belle Époque. Perguntou por fim como se dava a publicação de livros naquela época mas floreou tanto a pergunta, que me perdi entre o final dela e o começo das respostas.

Lira e Tércia se revezaram para explicar os processos de publicação, bem diferentes dos de hoje, que muitas vezes naquele tempo sequer acontecia com o autor em vida. O tema expandiu e abraçou também o conceito da adaptação de uma obra. Tércia falou muito sobre a questão do livro ser como um filho, que tem sua vida própria, que já não tem mais a ver com ela.

"Quando se escreve um livro, esteja certo de que ele já não o pertence. Se for adaptado, entenda que já será o produto de outras visões, de quem o for adaptar" – Lira Neto




Seguem mais alguns trechos que consegui registrar da conversa:

"Todo mundo pode ser escritor? Talvez, mas talvez nem todo mundo queira ser escritor" – Tercia

"Não há sensibilidade falsa ou errada na vida, é apenas saber que não podemos fazer ou sentir todas as sensações" – Tércia

"Abandonei a faculdade de letras porque não havia um eixo de criação que me seduzisse, apenas a formalidade acadêmica. A linguagem dos cursos acadêmicos é tão engessada que brincamos que há 'aprender a desescrever 1', 'aprender a desescrever 2', 'aprender a desescrever 3'... estou fazendo doutorado em semiótica na PUC-SP, que dá à palavra uma liberdade excepcional" – Lira

"Jornalismo é bem diferente de literatura. Jornalismo é efemeridade, é ter pouco tempo" – Lira



Lira Neto finalizou a conversa contando uma história de um general que lhe ligou certa vez. Lira é jornalista e biógrafo, tendo já vários livros publicados, um deles a biografia de Castelo Branco. O tal general tinha justamente lido o livro. Lira disse que é comum receber ligações de pessoas que detestam a maneira como ele conduz um ou outro detalhe de seus biografados, e já se preparava para essa ligação ser mais uma nesse sentido. Quando atendeu, ouviu logo a voz gutural do general e se deu mais ou menos o seguinte diálogo:

– É o Lira Neto quem está falando?
– Sim, sou eu, pois não?
– Você escreveu a biografia do Castelo Branco?
– Sim, sim, fui eu... – respondeu ele, já se preparando para os impropérios.
Mas, para sua surpresa, o general se derreteu em elogios, que o livro era muito bom, a cara do Castelo Branco! Lira desligou rindo.

"Cada um lê o livro que quer ler, com base em suas crenças e verdades. Não tenho pretensão de fazer leitores pensar isso ou aquilo" – Lira




Encerrada a mesa, fiquei mais um tempo por ali, observando a dispersão, as pessoas prontas a trocar uma ou duas palavras com os autores, os fotógrafos a disparando seus flashes, buscando os melhores ângulos. Foi uma boa conversa, apesar de não ter visto do início. Lá fora, à entrada do auditório, havia livros dos autores, como seria uma constante em todas as palestras, mas não me inclinei a comprar nenhum.



Caminhei mais um pouco pela feira, me recompor antes da próxima mesa. Dei uma breve olhada em alguns estandes, mas estavam tão cheios e bagunçados que desanimava. Não pensava em comprar nada ainda, haveria muitos dias pela frente, era preciso, mais do que nunca, ser seletivo ante o que de fato valeria a aquisição. Após um breve lanche em meio a muitas vozes e gritos, tornei o caminho do Mezanino 2.

MESA (18h30): EM QUE MEDIDA O REAL INCITA A GERAR NOVOS MUNDOS? (Luiz Ruffato e Socorro Acioli / Mediação: Marco Severo)




O debate agora seria entre os escritores Luiz Ruffato e Socorro Acioli. Conheço-os de visto de longos tempos, de outras falas em programas e eventos literários. Vê-los e ouvi-los aqui não era exatamente nenhuma novidade, mas o tema em questão, essa coisa do real incitar novos mundos, me fez chegar novamente ao auditório, já praticamente lotado.

Ruffato falou de sua carreira, de sua infância, primeiros trabalhos, como torneiro mecânico, de como chegou à literatura e do tipo de literatura que busca fazer. Dentro dessa temática, abordou a memória como ferramenta motivadora, criativa, no sentido de procurar saber nossas origens, para melhor nos entendermos. Para ele o brasileiro não tem memória, não busca seus antepassados. O escritor falou também de leituras, das escolhas do que ler ou não, de como todo texto pode ajudar, engrandecer o escritor:

"Quanto mais eu leio mais eu quero ler. Quero ser influenciado pela grande literatura. Tudo acrescenta. Até livros ruins ajudam" – Luiz Ruffato

Aproveitando o tema memória, o mediador perguntou a Socorro qual a memória inerente em suas obras... comecei, então, a perceber, a partir dessa pergunta, como tudo me pareceu tão repetitivo e sem graça, dessas perguntas típicas que sempre se vê em todas as palestras literárias... do autor ter que dizer o sentido de sua obra, ter que defini-la em palavras... mais do que nunca, isso me pareceu tão vazio naquele momento. No entanto, continuei lá, tentando captar algo de novo. Dediquei um tempo observando as muitas pessoas que compunham o púlico, percebendo pela fala de algumas que boa parte eram professores ou estudantes de letras, o que tornava, de um jeito ou de outro, a conversa meio previsível.

A questão de criação de personagens também foi bastante presente no debate:

"Planejo o que vai acontecer a um personagem, mas às vezes mudo no meio" – Socorro

"Pensava em começar a escrever apenas quando conhecesse meu personagem, mas depois penso que não conhecemos ninguém de verdade Os personagens são muito maiores, muito complexos e tomam o rumo que querem tomar" – Ruffato

Um pouco enfadado com o ritmo da conversa, decidi sair antes do fim, respirar outros ares lá fora. Pouco antes, ainda escutei a seguinte pergunta feita pelo mediador:

Por que a escola forma poucos leitores e escritores?

"Porque temos uma educação de péssima qualidade" – Ruffato

"Porque os professores são mal formados, não incitam, não geram interesse nos alunos a ler ou escrever"– Socorro

A dita grande sensação deste segundo dia de bienal estava cada vez mais próxima, com o escritor português Válter Hugo Mãe. Eu estranhava, contudo, que a palestra estava marcada para acontecer às 20h, exatamente ali, onde Acioli e Ruffato pareciam não ter intenção de sair. Atrasaria? Lá fora, nenhum sinal de fila. Segui pelo extenso corredor do mezanino, olhando um pouco dos múltiplos outros espaços que havia na Bienal, áreas infantis, infanto-juvenis, sem me demorar em nenhuma.

UM ESCRITOR GUINEENSE NO CEARÁ

Nessa caminhada, encontrei por acaso uma outra palestra bem interessante, com Stelio Torquato Neto e Manoel Casqueiro. Conhecia o primeiro de nome, tinha sido professor de uns amigos. Além disso, era também pesquisador de cordel e cordelista, que vinha ganhando cada vez mais destaque com suas obras, releituras de clássicos da literatura em formato cordel. Já Manuel Casqueiro, não consegui entender muito a princípio, mas simpatizei de cara com a maneira como narrava suas histórias de vida, o mergulho em suas memórias, de como isso o levou à literatura, me fluiu bem mais interessante do que Ruffato ou Acioli.

O fato de haver bem poucas pessoas no auditório muito ajudava, tornava a experiência mais intimista. A porta, mantida aberta, como que para tentar chamar atenção de quem passava, não parecia funcionar muito, o que achei até bom. Fiquei uns poucos minutos, mas suficientes para já me encantar pela fala daquele simpático senhor de blusa contrastante, que relembrava com intensidade fatos de sua infância e de sua cultura. Infelizmente não pude ficar muito, queria ver o oba-oba em cima do astro da bienal, o Válter.

"Os gregos mamaram um bocado na mitologia africana" – Manuel Casqueiro





Depois, descobri em uma rápida pesquisa que Manuel Casqueiro é um escritor guineense radicado aqui no Ceará. Seus pais eram europeus e tiveram de se exilar de Portugal por conta da ditadura de Salazar. Por conta disso, Casqueiro teve uma infância difícil em Guiné-Bissau. A busca por uma identidade e os muitos preconceitos e discriminações que sofreu o levaram a usar suas memórias como principal ferramenta de sua literatura. Mais sobre ele nesse link e também no documentário Negro lá, Negro cá, que pode ser assistido aqui.

Saí do auditório, tornando ao espaço onde supostamente seria a palestra de Válter. Ruffato e Acioli ainda estavam por lá. Me informei com os receptivos. Tinham mudado de sala, para uma maior. Imaginei logo que aquele auditório, apesar de grande, não seria suficiente para conter a legião que viria ouvir o português.

MESA (20h) - SOMOS TODOS FILHOS DE MIL PESSOAS E DE MIL LIVROS (Valter Hugo Mãe / Mediação: Cleudene Aragão) 





Aqui começou talvez a maior sensação da bienal. Alardeado nos jornais como o grande destaque internacional, Valter Hugo Mãe teria ampla participação no evento: mesa individual, mesa compartilhada e até faria parte do evento paralelo Bienal fora da Bienal, do qual falarei mais a seguir. Começando suas falas neste dia, fiquei a princípio mais curioso pela comoção que geraria, ao teor da conversa em si.

COMO ERA POSSÍVEL? 

Quando cheguei de fato à entrada do devido auditório, me vi diante de uma fila relativamente curta. Só essas pessoas? Pensei. Algo parecia errado. Aproximei-me da porta, entreolhando o interior da sala e vi a real dimensão da coisa: já praticamente lotado! Quem aguardava fora, aparentemente, esperava uma desistência ou talvez que se descobrisse algum lugar vazio no meio daquelas dezenas de pessoas (vi pessoas da produção trazendo mais cadeiras). Fiquei receoso, não parecia nada favorável, suportar aquela loucura de gente. Mas como era possível? Demorei muito a chegar? Perdi tempo com Manuel Casqueiro? Como toda aquela gente soube da mudança da sala e conseguiu lotá-la tão rápido? São perguntas que me acompanharam até tomar meu lugar, no fim da fila, e que provavelmente nunca terão respostas. Qual não foi minha surpresa ao ver que, entre as pessoas da fila estava o ator, cantor, escritor Gero Camilo, uma das atrações da Bienal. Gero certamente tinha acesso garantido a um dos lugares reservados ao alto panteão, nas primeiras fileiras, mas por alguma razão quis estar ali, junto aos que lutavam por um último suspiro de visão do palco.

A fila andava a passos vagarosos. Liberavam a entrada de quando em quando, uma pessoa de cada vez, como se estivéssemos entrando quase num evento privativo. Me sentia estranho, viajando em meus pensamentos, como um subproduto, sujeito a ser acomodado onde houvesse espaço, independente de haver um mínimo de conforto.




A marcha tímida seguiu, até que enfim me vi diante da porta, controlada por toda uma equipe de receptivos. Pensei em desistir, abrir mão mesmo, tentar em uma das outras vezes, mas já tinha ido tão longe, abracei o caos, esperei ser direcionado. Lá dentro, uma centena de pessoas; a sala era gigantesca, quase três vezes maior que a anterior. Um grupo de cadeiras extras tinha sido agrupada atrás das regulares e atrás de tudo isso havia ainda uma espécie de arquibancada de metal, de três níveis de altura, que mesmo assim já se mostrava quase cheia. Além do acesso controlado, tinha ainda a questão da pessoa estar sozinha ou acompanhada ou em grupo; haveria como acomodar todos bonitinhos uns ao lado dos outros? Não sei como fizeram mas felizmente nessa hora eu estava sozinho, o que me garantiu um cantinho apertado bem no canto do primeiro degrau da arquibancada.




Dali tive apenas um rasgo de visão do palco, onde não havia nada ainda senão uma cortina preta. Com um oceano de cabeças à minha frente, vozes entrecortadas e súbita sensação de calor, ponderei novamente o que diabos estava fazendo ali. Valeria todo o esforço? Sentar mal sentado? Isso só descobriria depois, mas lá continuei. Cada lugar agora era precioso, deveria ser segurado com a vida. E ainda mais pessoas entrando, seguindo sabe-se lá para onde, não parecia haver lugares livres.

Ainda não comentei aqui, mas não seria meu primeiro 'contato' com Válter. Desde que comecei a me aventurar no mundo literário ouço falar em seu nome, sobretudo após a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) 2011, que meio que o projetou no Brasil, na emblemática carta que leu ao final de sua mesa, onde derramou sobre o público uma sinceridade e inocência que imagino estar bem presente em seus livros. Ainda não li nenhum mas lembro muito bem da carta, da "ambulância que parecia transportar doentes felizes". De lá para cá, vi várias entrevistas dele e acompanho os lançamentos dos livros, cujos títulos acho incrivelmente ousados.

O clima me era tão desconfortável que não consegui ficar bem, a inquietação me inclinava a escrever algo, a tomar nota do que via e sentia. Mesmo antes de começar a fala de Válter, fui anotando um bolo de pensamentos no caderninho, para através deles buscar algum refúgio daquela loucura. O tempo pareceu passar de alguma forma mais rápido; quando menos esperei surgiram lá de trás os protagonistas dessa mesa: o escritor português Válter Hugo Mãe, para a explosão geral de gritos e urros, e a professora Cleudene Aragão.

Centrada na vida e obra do autor, de modo geral, a conversa teve início tímido, com Válter falando sobre a cidade e a alegria de estar ali. Parecia um pouco nervoso, era meio difícil ouvi-lo e quase impossível vê-lo, de onde eu estava. Aos poucos, entrando no tema dos livros, da vida, da presença divina, o escritor ficou mais à vontade, falando agora em tom calmo e lento, demonstrando a sinceridade que lhe é tão peculiar.

"Quis vir à Bienal mais cedo para comprar livros. E comprei. Imaginei que teria de vir de sapatos para cá" – Válter Hugo Mãe, brincando ao apontar seus calçados e descontraindo o peso das palavras que se seguiriam.

"Quando nos definimos como alguém, estamos a eliminar os outros, estamos a ficar sozinhos" – Mãe

"Não consigo ver espaços vazios na minha casa, sinto como extensão da minha solidão, por isso a encho de coisas, de livros, sobretudo. As paredes não deviam ser brancas, o branco traz ideia de incompletude" – Mãe

"O escritor tem desejo de criar mundos?" – Cleudene 

"Comprei no mercado central o índio mais lindo do mundo. Levar um desses objetos para casa é como levar as vozes de Deus. Não quero matar Deus, quero fazer Deus nascer" – Mãe

Me sentia ainda um pouco mal neste ambiente, como um turista, a tentar chegar ao 'animal mais raro do zoológico', uma metáfora que tenho construído sem querer, ao observar tanto essa configuração de "super palestra", no qual tudo conspira para o espetáculo, o show. O ídolo, lá na frente, encanta a todos, mas exige entrada separada, distância do público etc. Deixo claro que desta vez não foi exatamente assim, mas algo ali me reforçou um pouco algumas dessas ideias.

Válter falou um pouco sobre seus processos de escrita, de como as ideias lhe surgem, de sua rotina, sua casa, sua solidão, tudo com um viés poético, uma fala branda, serena:

"Quando aprendemos e dominamos outra língua, aprendemos outra identidade. Um ficcionista precisa aprender a mentalidade de uma outra pessoa" – Mãe

"Não consigo não escrever. Sempre escrevo frases e as vou guardando. Quando terminava um romance, eu já estava com outro, é uma coisa meio promíscua" – Mãe

"Na poesia é muito difícil encontrar estranhezas, diferente da prosa." – Mãe

"A solidão não pode ser nosso objetivo. Somos coletivos. Dependemos dos outros. Só encontramos nossa justificativa através dos outros. É sempre uma relação de que o outro existe e o outro precisa de nós (nem que para isso tenha que encher minhas casa de livros, de coisas)." – Mãe

Havia muito calor na sala, pudera, centenas de pessoas. O Centro de Eventos, em condições, digamos, normais, é super frio, razão pela qual eu estava com uma camiseta extra, mas diante daquela legião de pessoas, o sistema de ar condicionado parecia inútil. O calor, o suor escorrendo pela testa, contribuíam para minha contínua inquietação.



"A felicidade é também o que inventamos. Prefiro inventar a felicidade a ficar me lamuriando com as coisas más" – Mãe

Algumas falas de Válter me faziam sorrir, como se me despertassem para simplicidades esquecidas, verdades aparentes que o ritmo da vida às vezes leva ou oculta sem que percebamos. Mesmo com as dificuldades de visão e de acústica, era possível ainda ter um encanto por aquele momento, era possível, por que não, inventar a felicidade.

Após longo tempo de diálogo entre o escritor e a mediadora, foi aberta a participação do público. Aí estava uma coisa delicada, pensei, pois provavelmente haveria bem mais perguntas do que tempo para respondê-las. Era já por volta das 21h quando muitas mãos foram disparadas para o teto, tentando chamar a atenção do microfone, que passeava com dificuldade entre as cadeiras, embora a escolha de quem falaria coubesse aos receptivos, nas margens do auditório exatamente para este suporte.

Não apenas Válter, as pessoas também pareciam nervosas, ansiosas por estarem ali, e alguns dos que falaram chegaram até a pedir desculpas por isso. Gaguejavam, procurando as palavras para agradecer o momento e formular suas perguntas. Algumas delas abaixo:

Por que grafar Deus minúsculo? – (pergunta público)

"Não me refiro ao deus de uma respectiva fé, mas à entidade de maneira geral. Ou então se o faço para ver se ele vai ou não falar comigo. É uma provocação, pelo silêncio de alguém que é o responsável por tudo." – Mãe

Invariavelmente, as perguntas acabavam muito longas. As pessoas não pareciam perceber que outras também queriam ter essa chance, e se demoravam e se demoravam, contextualizando às vezes exageradamente o foco do que tentavam dizer, não sei se para de alguma forma chamar mais a atenção do escritor ou simplesmente por não saberem mesmo se controlar. Como resultado, a questão se diluía num mar de conjeturas, sendo preciso de quando em quando um "qual foi mesmo sua pergunta?". Essa realidade acabou se repetindo em várias outras mesas. Sempre que isso acontece, não tenho como não lembrar de uma fala da Márcia Tiburi, quando na Bienal daqui, em 2012, comentou, em tom cômico, que as perguntas deveriam ser como no Twitter: terem limite de 140 caracteres. 



A palestra tinha seus picos de humor, com piadas de nível e risadas do público em resposta. Era estranho estar sozinho, perdido no meio daquela massa de pessoas, ouvindo a voz de Válter, que ali, para todas aquelas pessoas, parecia quase a voz de Deus. Como eu mal o via, às vezes parecia sim uma voz que emanava de alguma dimensão paralela. Ri comigo mesmo desses devaneios.

Cleudene Aragão, que mediava a mesa, era uma das coordenadoras da Bienal, e seria, tal como Lira Neto, presença constante em boa parte dos debates. Lembro dela das edições anteriores do evento. Aqui, ela me pareceu bem mais preparada, mais segura de sua postura, mais presa à conversa, apesar da nítida ansiedade em estar ali conversando com Válter diante de centenas de pessoas. Cleudene trouxe à tona justamente a questão do papel de Deus na obra do autor, no início do debate e o tema se estendeu por quase toda a mesa.

"Se seus livros curassem doenças, quais seriam?" – Cleudene

"Espero que todas elas, ou pelo menos a velhice, e nos tornasse eternos" – Mãe 

Uma questão muito interessante foi quando o escritor explicou um pouco da gênese dos nomes de seus romances:

"A literatura é um espaço de risco, não há espaço para conforto. É preciso ter coragem para avançar, sobretudo para frear. Dizem que arranjo títulos horrorosos, quem vai comprar livros como 'A desumanização?', 'Homens imprudentemente poéticos?' Três palavrões! Eu respondo a essas pessoas: eu também não vou à sua casa dar nomes aos seus filhos" – Mãe

Por que a morte é tão presente? (pergunta público)

"Nosso dia é sempre a tentativa de melhorar o amanhã, de melhorar. Eu queria muito curar a morte. Preciso acreditar que é possível morrer como uma completude, como uma consumação, lógica. A morte precisa nos atribuir essa justiça, não tem a ver com o tempo, o sentido da vida tem de ser diferente" – Mãe

"A humanidade é um projeto, ainda não existe, somos um ensaio. O grande dilema do nosso tempo é termos informação e conhecimento mas a sociedade não corresponder a isso. Idiotas no poder, e a humanidade incapacitada de avançar. Acho que vamos melhorar, mas daqui a muito tempo. A humanidade ainda vai começar" – Mãe

Como fazer o Brasil ler mais? (pergunta público)

"Primeiro, descer o preço dos livros. O livro aqui é muito caro. As pessoas não têm como adquirir os livros. Os livros precisam estar presente, estar em casa, com as crianças, é um direito delas. É preciso haver uma desmistificação do livro, quanto ao cotidiano" – Mãe

Válter falou de seu cão, Crisóstomo, como um ser humano legítimo, e questionou valores, em um mundo tão digital como o de hoje:

"Um dos grandes desafios da nossa sociedade é não nos precipitarmos. Opinar é um direito, uma liberdade, mas nem por isso deve ser leviano. As redes sociais estão a nos crucificar, não nos damos conta, somos agentes desse mal. Temos consciência de acharmos que estamos fazendo o bem mas permanecemos agentes do mal." – Mãe

"Eu queria que as pessoas fossem livros, livros mesmo, sejam reconhecidas. A humanidade deveria ser atribuída só a quem age comprovadamente como uma pessoa" – Mãe

Já próximo das 22h, a conversa chegou ao fim, para uma intensa e demorada salva de palmas, de pé, do auditório lotado. Não era preciso ver Válter de perto para saber que ele estava emocionado, ante tanta manifestação. Baixado o ritmo dos aplausos, uma boa parte do público deixou a sala, mas uma fatia ainda considerável se colocou em fila indiana entre as cadeiras. Nas mãos, livros de Válter Hugo Mãe. Chegou a hora do autógrafo.




Gosto de observar esses momentos de autógrafos, de relativa tranquilidade, de silêncios que tanto falam. Não há microfones, mas conversas informais, sem pompa, sem espetáculo. Cada uma daquelas pessoas está ali por uma razão específica: pode ser a realização de um sonho, conhecer Válter, pode ser o primeiro contato com o autor, pode ser um agradecimento, uma crítica ou mesmo apenas ostentação de seu autógrafo. Todas essas realidades conviveram na harmonia desses poucos mas tão ricos minutos. De longe, enquanto fiz estas fotos, observei as expressões das pessoas, os olhares, as bocas se abrindo sem som, os sorrisos, a cabeça de Válter balançando, sua caneta no ar, os óculos refletindo as muitas luzes do teto. A euforia também dos receptivos em estarem perto do escritor.




Livros do autor eram vendidos numa banquinha fora da sala, cheguei a averiguar o preço de alguns mas estavam muito caros para meu orçamento na hora (evitei gastar no começo da Bienal). Válter tem toda a razão quando diz que no Brasil o livro é muito caro. 

Deixei o Centro de Eventos satisfeito, não exatamente maravilhado, mas renovado, após a estranheza que foi o primeiro dia. Àquela hora tudo já estava fechando, as salas, o acesso aos expositores de livros, tudo. O espaço dos cordéis, encerrado, mostrava uma curiosa disposição de como as cadeiras dormiam à noite, espalhadas sobre as banquinhas que durante o dia exibem os livretos. Foi uma cena engraçada, aquele monte de pernas entrelaçadas.



Senti que as coisas melhoravam, uma injeção de ânimo repentino, do evento, do que ainda estava por vir. E o dia seguinte seria o grande diferencial dessa mudança, quando comecei a perceber que o tema da Bienal, Cada Pessoa, um Livro; o Mundo, a Biblioteca, fazia sim sentido, mas já começaria a se desenhar algo maior, essa seria sobretudo a bienal da amizade. 

Continua no dia 3.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 1 (14/04/2017, desânimo e programação complicada)



Fotos: Denis Akel

Começando agora, antes tarde do que nunca, a trazer ao blog as postagens relativas às minhas vivências e sensações da Bienal Internacional do Livro do Ceará 2017, ocorrida esse ano no período de 14 a 23 de abril. Parte destes textos já foram previamente publicados no Facebook e agora chegam aqui com leves alterações e acréscimos. Resolvi priorizá-los, ante os novos posts que devo colocar a seguir (Fresta Literária, FLIP 2017 etc).

EM MEIO AO DESÂNIMO 

Como nos anos anteriores de Bienal, eu novamente não estava muito animado para o evento, para o ritmo diário, o corre-corre atrás de livros, palestras, coisas assim, que a cada edição parece se tornar meio repetitivo, igual. Essa Bienal demorou muito a chegar, deveria ter acontecido ano passado (a última foi em 2014), e demorou mais ainda a ser divulgada e assim, de repente, já começaria no dia seguinte.

O desânimo, em parte, vem justamente daí: do certo descaso que sinto na Bienal do Livro daqui de Fortaleza. Há sempre uma demora anormal no anúncio de datas, programações e convidados, quase como se sempre pairasse uma incerteza de o evento acontecer ou não. Diferente de Bienais do Livro de outros estados, onde há bem mais informações divulgadas com meses, até anos de antecedência. Como as pessoas do interior de Fortaleza podem pensar em se programar para o evento se tudo é divulgado quase às vésperas?

Quando foi divulgada a programação, um mês antes, nas redes sociais, não vi um homenageado aparente (em 2014 foi Moreira Campos) apenas o que parecia ser o tema "Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca". Fiquei intrigado. Como fazer uma bienal sem um homenageado? Onde estava o direcionamento? O foco das discussões? O apreço por nossa literatura, tendo tantos nomes aptos a tal posição? Apesar dessa estranheza, a lista de autores convidados e palestras era bem extensa, e vi de cara nomes interessantes, como Cristóvão Tezza, Bráulio Tavares, Joca Reiners Terron, Ignácio de Loyola Brandão, Frei Betto, Marcelino Freire...

No dia da abertura, 14 de abril, estava particularmente indisposto. Não me sentia no clima, fiquei em dúvida se iria ou não. Não haveria nenhuma palestra ainda, nenhuma fala, mas de alguma maneira senti que deveria ir ao menos para já reconhecer o espaço, como se acreditasse que poderia ser diferente. Pelo menos, para já me colocar em movimento, sentindo desde o início a atmosfera desta nova edição.

CENTRO DE EVENTOS, MAIS DO MESMO

Acabei decidindo ir à Bienal nesse primeiro dia. Diego, meu irmão, foi comigo. Não estava muito animado mas à medida que nos aproximávamos, no trânsito, tentei me empolgar. Era um evento de literatura, tinha de ser valorizado, abraçado. Ver a fachada do prédio, o imponente Centro de Eventos, foi quase como voltar no tempo, direto a 2014, com aquele monte de banners de divulgação luminosos, toda aquela aura, aquele estacionamento propenso a lotar, e parte dessas memórias não foi assim tão boa, mas era impossível evitá-las.

O carro nos deixou diretamente na parte interna do lugar, adentrando o estacionamento coberto, e pela primeira vez soube como era chegar ali por aquele lado. Gigantesco e um pouco sombrio, o estacionamento mais parecia um labirinto, fácil de se desorientar. Seguindo um aparente fluxo, passamos por uma das entradas. No saguão principal, onde outrora, em 2014, ficavam enormes expositores de Moreira Campos (veja aqui), falando de sua vida e obra, ou mesmo em 2012 abraçando a relevância da Padaria Espiritual (veja aqui), agora apenas espaço vazio. A ausência da força de um homenageado fazia falta. Tive certeza de que não havia um, e isso pareceu, naquele momento, perder um pouco a identidade do evento.






Corredores, estrutura, tudo muito igual. Lá do alto, as infinitas luzinhas diretas me sorriam, ofuscantes. Eu, que já não estava muito bem, me senti ainda pior. Estava cansado daquele movimento, que quase sequer havia começado. Mesmo assim, andamos pelos estandes, reconhecendo o ambiente. Alguns extremamente cheios, com pessoas procurando e comprando livros. Desde que chegamos, aliás, vi gente saindo com livros. Mas já? Fiquei meio sem vontade de me imaginar ali revirando livros e mais livros... talvez por não estar motivado, mesmo aos sempre convidativos estandes de "qualquer livro por 10 reais". Andamos pelos extensos corredores, cujos carpetes, ainda limpinhos, já viam um movimento considerável. Não me detive a princípio em nenhum estande ou programação, era somente reconhecer. E foi mais rápido do que pensei. A imponente passarela, que se estendia por sobre os pavilhões, e da qual se tinha uma bela vista do evento, estava mais uma vez fechada (só a vi aberta em 2012).






Haveria um show para celebrar a abertura oficial da Bienal no palco principal, este na foto acima. Ficamos por lá até antes disso. Fazer um lanche, olhar o movimento, nesse primeiro momento, já foi o suficiente. O que estaria para acontecer, o que eu estaria por viver, nos dias seguintes, mal poderia imaginar.

Mas neste dia, tive uma percepção bem diferente do ambiente, me senti confinado, preso, mal cuidado. A mesma estrutura, o mesmo tudo. Talvez por conta de, de 2014 para cá, eu tenha feito algumas viagens, experimentado outras realidades, em eventos como a FLIP, Fliporto, agora não via muita graça em uma Bienal que começava tão sem graça.



PROGRAMAÇÃO EM DIA, MAS CONFUSA

Uma das primeiras coisas que fiz, ao adentrar as dependências do Centro de Eventos, foi ir atrás do folheto com a programação da Bienal. Lembrava muito bem de que, em 2014, ele não saiu no dia do lançamento, apenas um ou dois dias depois. Será que esse ano seria diferente? Atravessamos os longos corredores e pavilhões, até o saguão principal. Sobre um balcão frio de granito, estava uma pilha enorme de folhetos, a programação. Sentamos a folheá-la, para visualizar melhor o evento, o panorama das atividades.



Estava tudo lá, sim, não havia dúvida: as palestras, os espaços, os autores, os dias e horários. O problema foi como se deu a disposição dessas informações, impressas secamente no folheto de quase 50 páginas. Não havia nenhum tipo de destaque, imagem de algum autor ou qualquer coisa que descansasse a mente, de modo que folheá-lo se tornava desgastante, confuso de se achar o que se queria. Quis traçar logo um mapa geral a seguir, como geralmente faço, mas de tão maçante e repetitivo, me limitei a fazer isso a cada dia. Várias outras pessoas também comentaram a dificuldade de se ler essa programação, de se localizar as palestras ou interesses. Faltou um trabalho gráfico um pouco mais claro, harmonioso, para tornar esse material atrativo à consulta.




ESPERANÇA NOS DIAS SEGUINTES

Deixamos o Centro de Eventos quase tão desanimados quanto chegamos. A Bienal para mim começou silenciosa, tímida. Nesse primeiro dia, somente mais do mesmo, do espaço, dos livros baratos e provavelmente desnecessários, da sensação de confinamento. Fiquei esperançoso pelos dias seguintes, havia muita coisa boa vindo por aí, prometendo quebrar essa modorra, esse vazio. Já no sábado, 15 de abril, haveria algumas boas palestras, entre elas uma das mais aguardadas, com o escritor português Valter Hugo Mãe.

Continua no dia 2.