Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca"Marcelino Freire



domingo, 8 de abril de 2018

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 7: Ricardo Aleixo, Talles Azigon, Jorge Pieiro (20/04/2017)



Fotos capa: montagem de imagens via Google
Outras fotos e vídeo: Denis Akel
E agora diante do sétimo dia das saudosas vivências da Bienal do Livro do Ceará 2017. Voltemos a 20 de abril de 2017. Este foi um dia difícil, por conta de toda a problemática envolvendo os muitos casos de ônibus incendiados na cidade. Acabei por assistir apenas a uma palestra, salteando em uma ou outra programação paralela, saindo cedo, quase escoltado. A cidade vivia momentos de tensão. Antes de aprofundar o teor da mesa em questão, republico o texto original, escrito naquele dia:

"Ontem, meu sétimo dia de Bienal do Livro. O destaque não esteve exatamente nas mesas ou programação, mas em um centro de eventos bem mais vazio do que tenho visto ultimamente. Isso se deve, bem possível, à caótica situação que se instalou na cidade nos últimos dias, ônibus queimados, tensão, medo. Tudo agora é risco. Mesmo ler, ir à Bienal, é perigoso. Ainda assim, a literatura é teimosa, resiste.

Assisti a uma das mesas da tarde, intitulada "os deslimites da poesia em um mundo prosaico", um debate muito necessário quanto à questão do valor da poesia no mundo de hoje. Uma palestra que transbordou sensações, com menções a Manuel de Barros, Drummond e incontáveis outros poetas.

Dava gosto estar ali, ouvir aquelas colocações tão precisas, desvelando um mundo poético dentro do mundo mundano. O trio no palco, Talles Azigon, Jorge Pieiro e Ricardo Aleixo passaram quase duas horas enaltecendo o prazer do dizer poético, do quanto se tem medo de se "viver poeticamente". A educação não é poética, ela despoetiza nosso olhar, disse Talles. Já Aleixo completou: "A poesia sempre habita o pouco, ela não precisa de mais do que o pouco. O mundo não é hostil a ela, só é indiferente". Leram poemas, contaram histórias, expuseram polêmicas. Fluiu bem demais, cada pequena fala dava margem a nova posição do outro, num jogo lúdico de ideias que brincava com a mãe poesia.

Excelente mediação de Jorge Pieiro, que impôs um ritmo agradável e crescente, pulso de quem conduz barcos assim há tempos, alimentando o interesse dos poucos que ali assistiam. É verdade, havia bem poucas pessoas nessa bela mesa. Não sei se a culpa é do caos da cidade, dos ônibus queimados ou somente com a indiferença à poesia...

De lá, não me demorei muito no evento. Dei uma rápida passada pelo café literário, onde acontecia conversa do querido Ricardo Kelmer com Lira Neto. O espaço reduzido e informal não coportava muitos. Ouvi uma ou outra palavra, risada, e saí. Iria embora mais cedo. Antes de sair, passo por acaso num estande e encontro um livro de poemas da Adélia Prado, da qual tenho visto muita coisas esses dias mas ainda nada tinha. Parecia um sinal mais do que claro da boa vibração vinda da palestra do prosaico. Agarrei-a de imediato. E vamos lá que já já tem mais Bienal!"

Escrito e publicado originalmente no Facebook em 20/04/2017

Neste dia, uma quinta-feira, véspera do feriado de Tiradentes, inúmeras programações me atraíam à Bienal, já estava decidido a seguir a peregrinação diária ao Centro de Eventos, filtrar ao máximo o que pudesse. Como fazia, marcava tudo no folheto, tentando criar uma agenda, ou guia, mesmo sabendo que dificilmente conseguiria ir a todas. Haveria mais Lira Neto, Ricardo Kelmer e algumas novidades, como Conceição Evaristo, que ansiava conhecer mais.

Pelo já crescente desgaste acumulado dos dias anteriores, acabei me permitindo chegar apenas no meio da tarde, pouco depois das 15h. O carro dessa vez me deixou no estacionamento interno do prédio. Gigantesco, difícil era achar o acesso correto à ala correspondente aos mezaninos usados pelo evento. Não havia sinalização, mal havia alguém a dar informação. Silêncio quebrado apenas nas luzes que davam um tom surreal àquele lugar, como um cenário futurista d'algum filme de ficção científica. Bem poderia ser uma pista de corrida, uma prisão, qualquer coisa assim, levei esses devaneios enquanto subia a escada rolante, finalmente localizada. Não olhei muita coisa da feira ou dos pavilhões, não agora. Algo que as bienais anteriores e talvez certo amadurecimento tenham ensinado: não queria acumular livros, o foco dessa vez era outro.



Segui direto ao mezanino 2, sala 1, a mesma sala de boa parte das palestras dos dias anteriores. O local tão velho conhecido que rever aquelas cadeiras esverdeadas era quase como voltar para casa. Começaria dentro de instantes a palestra que traria Talles Azigon e Ricardo Aleixo para falarem do tema deslimites da poesia no mundo prosaico, com mediação do professor e escritor Jorge Pieiro. Ainda praticamente desconhecia o trio, o que configurava momento mais do que propício para esse reconhecimento, além do tema já ser instigante por si só.

Estando com relativa antecedência no auditório, pude escolher lugar com toda a tranquilidade, ficando entre finalizar algumas anotações no caderno e fazer novos cartões de divulgação de meus blogs, à época feitos parcialmente à mão. Por ali já algumas pessoas, embora o público aqui permanecesse pouco até o final. E logo chegaram os convidados, tomaram seus lugares ao palco, seguiram proclames e foi aberta a discussão.

MESA (16h): DESLIMITES DA POESIA NO MUNDO PROSAICO – Ricardo Aleixo, Talles Azigon – Mediação: Jorge Pieiro


Jorge Pieiro é o mediador. Abre a mesa dizendo que escreve todo dia, logo quando acorda, um pensamento para aquele dia.

"O que é prosaico? O que é poesia?", Jorge busca explicar definições, levantando caminhos para percorrer nos próximos minutos.

"Poesia nao é para entender, mas para incorporar. Parede é para entender, é preciso ser uma árvore"Jorge cita Manoel de Barros.

"Tenho mania de deixar tudo pela metade" – Talles Azigon, antes de começar a ler texto seu, sobre um eventual crime mais organizado.

"O poeta é um escondedor, esconde muitas coisas dentro das palavras. É difícil ser poético nesse cotidiano onde a vida cotidiana não é nada poética mas o poeta segue na sua arte, na tentativa libertadora. Se se consegue ou não, não cabe ao poeta mas a quem o lê." – Talles

Desta vez não vi Lira Neto, um dos coordenadores da bienal, no público (ele era uma presença onipresente) mas vi a professora Cleudene Aragão.

A sala contou com pouco público, mas mais uma vez reforço o lado positivo, sendo possível penetrar mais na conversa, concentrar-se mais sem tantas distrações quando se tem muita gente.

Ricardo Aleixo tinha um timbre de voz muito peculiar, com boas pausas. Parecia escolher bem as palavras antes de dizê-las:

"Poesia não é afastamento do mundo, não se pode pensar em poesia como meta para o mundo, mas em um caminho"Ricardo Aleixo

"Disposição para algo que não se sabe bem o que é. O poético é sempre algo que escapa de uma definição rígida. Por isso, desde sempre a poesia é vista com desconfiança, quando comparada à filosofia"Aleixo.

"Pessoas que não costumam ler poesia, ao lerem, não falam de ganho, mas de perda, de algo que lhes é tirado. É como a paixão, de tirar o chão, roubar raízes." – Aleixo




"Um poema só será bom se conseguir estranhar as palavras do dia a dia" – Aleixo

"Só se pode aproximar da poesia, tornando-se poeta, conhecendo algo que já está em você"Aleixo

Aleixo cita frequentemente a linguagem de sinais que é feita ao vivo na hora, o que chama de corpografia e compara sua utilização um pouco a como se manifesta a poesia, ressaltando a importância de sentir a palavra:

"Precisa-se dizer poema de forma lenta para melhor apreciá-lo"Aleixo

O mediador aproveitou para comentar:

"Não olhar pras coisas e ver exatamente o que são, mas procurar ver o invisível. É preciso que as pessoas transformem esse invisível em palavras. As metáforas, assim, passarão a ser normalidade" – Jorge

"Imaginar precisa ser primeiro exercício. Mas parece que nos retraímos, temos medo de agir dessa forma, de pensar outro lado para a mesma moeda." – Jorge

Um trechinho da conversa em vídeo:


Talles falou bastante de Manoel de Barros, de suas imagens e símbolos, do mudar o sentido das coisas.

"O poeta precisa encontrar o coração onde não há, como num copo de plástico que é tão problemático. Mas o problema estará no copo ou em nós que o criamos?"Talles

"O humano só se pode se definir como 'o sendo', nunca 'o é'" – Aleixo

É citado o poema de João Cabral, A Educação pela Pedra

"A educação precisa ser pela pedra, pelo poético, mas não é. Ela "despoetisa" nosso olhar. Quanto mais ponto da escola, mais longe da poesia." - Talles

Fiquei um tempo refletindo essa colocação de Talles, o quanto somos "despoetisados", durante a época escolar, o quanto a luta pela nota, pela aprovação, desvia do simples, do pequeno, o ínfimo do cotidiano. Deixamos passar as frestas da poesia, engessados pelo dever, a obrigação da média. Não há muito espaço para "errar", ou mesmo ver por outra óptica as coisas do mundo. E nesse processo, vai-se muito do pensar poético. É uma realidade cruel.

"Poeta é o que está mais envolvido na vida, ele tem sim capacidade para ir além, o que muitas vezes ninguém acredita.", diz Jorge, que comenta já ter sido bancário e engenheiro.

"Sabe o que acontece comigo quando leio bula de remédio? Começo a adoecer"Jorge

Ele leu Mulher ao Volante, texto seu. Leitura precisa, pausas, entonação, timbre, prendeu atenção.

"Estamos tão presos ao politicamente correto que não podemos falar mais nada com medo que alguém interfira"Jorge

Aleixo fala de um de seus poemas, explica que é um poema muito pensado, muito trabalhado, como costuma fazer em seu processo.

"Se definir como um escritor negro é um automatismo verbal. Sou escritor e sou negro. Escritor negro não"Aleixo

Aleixo falou também do conto Festa, de Wander Piroli (leia aqui).




"O modo como ele se refere ao personagem, 'O Preto' me causa desconforto. O escritor humaniza o preto, é da esfera da obra de arte causar desconforto" - Aleixo

Quanto à questão da publicação, e a posição do poeta no processo:

"É muito natural que o poeta seja seu próprio editor, pois talvez seja o único artista da palavra capaz de atuar à frente de todas as etapas de sua obra." – Aleixo

"O poeta é o designer da linguagem", Aleixo, citando alguém que não me recordo.

"Sempre habito o pouco. A poesia não precisa de mais do que o pouco. O mundo não é hostil à poesia, só é indiferente". – Aleixo

A professora Cleudene Aragão, uma das coordenadoras da bienal, agora entre o público, citou o escritor uruguaio Eduardo Galeano como mestre da prosa poética:

"Nosso mundo é propício e ao mesmo tempo superficial à poesia" - Cleudene

Talles retoma seus temas e fala um pouco de seus trabalhos, com micro poemas:

"Estou terminando o curso de letras eternamente, mas já dou aulas de literatura." Talles

"Poema precisa de tempo. Tempo para ser escrito e tempo para ser lido. A capacidade de não entender os poemas é simplesmente por não termos tempo. Inventamos coisas como celular, redes sociais, para chegarmos rápido e acabamos não chegando, pois na verdade nunca saímos."Talles

Ele lê seu poema Curió, de tijolos, vigas, telhas...

Jorge Pieiro resolve também ler algo, um poema de sua autoria, e com velocidade pelo avançar da hora, pede desculpa a Tyson, o intérprete de libras. "Será que conseguirá me acompanhar?"

Fiquei me perguntando onde foi parar a história da leitura lenta? De sentir cada palavra? A hora vinha nos cobrar urgência. A hora agia quase como a escola, despoetisava. Eram agora 17:44.

"É preciso organizar a recepção da obra de arte"Aleixo cita o poeta russo Maiakovski, muito criterioso neste sentido.

"Grafitei poemas visuais nos muros das escolas lá em BH. Precisamos estar mais disponíveis a tudo. Um garoto veio me falar, disse que me viu na TV: "Ah, você é poeta, né?"Aleixo

Sob aplausos do pouco mas concentrado público, encerrou-se a mesa. Acabei não falando com o trio, deixei passar, senti que haveria outros momentos. Fiquei bastante chacoalhado com toda aquela efervescência, as colocações, referências. Abriam-se diante de mim portas que ainda sequer sabia a existência. Começava a enxergar melhor quinas e esquinas, como se o teor inteiro da palestra realçasse minha visão. E era bem assim que costumava sair, após a maioria das falas e palestras dessa bienal. Talvez pela imersão à qual me propunha, fosse tão intenso o retorno.






Já além das 18h quando, descendo de volta aos pavilhões centrais, decidi comer qualquer coisa. Num dos quiosques de alimentação, um pai e filho também lanchavam, e tinham conversa bem curiosa, o pai: "Nós já estamos jantados". "Quem inventou a carne de sol?" – pergunta o menino. O pai de pronto: "Alguém que percebeu que não tinha".

Dali segui direto para o espaço do Café Literário, onde acontecia parte das programações e eventos da Bienal. O espaço não era muito grande, as poucas mesas lotavam rapidamente, sendo difícil acompanhar muita coisa para quem chegava após o início, o que acabou sendo o meu caso. Marcada para as 18h, estava em curso um diálogo intitulado Profissionalismo literário, com Lira Neto e Ricardo Kelmer.

Fiquei por lá pela brevidade de alguns minutos. Lira falava de modo envolvente, sobre sua vida, trabalhos, processos que o levariam à literatura e ao jornalismo.

"Passei um tempo sem fazer nada, ou talvez aliás estivesse fazendo tudo. Fritei hambúrguer na rua, fui vendedor de loja, fiz artesanatos e nessa fui tentar ser professor"Lira Neto 

Diz que conseguiu vaga de revisor, e percebeu que queria ser jornalista. Passou em 1º lugar na UFC.

"Passei um bom tempo como editor de cultura do Vida e Arte" - Lira

Já Kelmer, muito à vontade em sua poltrona, comenta também de seu início na vida artística, influências, leituras, caminhos:

"Decidi aos 10 anos que queria escrever"Kelmer




Não demorei ali mais do que dez ou quinze minutos. Me despedi bem mais cedo do agito da bienal, a cidade ainda respirava o caos dos ônibus queimados, muitos tendo sido incediados neste dia. Ainda tinha várias outras coisas que gostaria de ver mas abri mão, o que não foi de todo ruim, precisava descansar um pouco de toda essa maratona. Revi alguns amigos no entorno do Café (haveria um lançamento da Fernanda Meireles) e saí de lá no início da noite, antes, porém, uma passado de acaso num estande e encontro este livro de Adélia Prado, poetíssima que há muito conhecia mas ainda nunca tinha lido de fato. Um fim de dia que já prenunciava bons ventos! 



Continua no dia 8, com Braúlio Tavares, Stelio Torquato, Fanka Santos, Ignácio de Loyola Brandão e muito mais. Falta pouco para fechar, sigamos!

quinta-feira, 15 de março de 2018

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 6 - Ricardo Kelmer, Cleudene Aragão, Socorro Acioli e Frei Betto (19/04/2017)


Foto capa: Denis Akel, montagem de imagens via Google
Fotos postagem: Denis Akel

Chegando agora, enfim, à sexta postagem desta série sobre a Bienal do Livro do Ceará 2017. 
Aqui, farei as coisas um pouco diferentes. Como o texto original, escrito no dia 19 de abril de 2017 já sintetiza bem os fatos, irei apenas ampliar um pouco o foco das mesas e palestras deste dia, de grandes descobertas. Antes de começar, republico o texto original: 

"Sexto dia de Bienal. Dia de pluralidades. Do alto da intimidadora e ao mesmo tempo fascinante passarela da Washington Soares, vejo dezenas de ônibus ocupando o estacionamento do centro de eventos. Visitações escolares. Uns parecem vir de bem longe, unificados pelo elo da leitura.

Antes de entrar, vejo ainda a disputa dos ambulantes na venda da água mais barata. Colocam a garrafa na mão em riste, como a espada de um guerreiro, pronto a vencer a sede. Levam muito a sério o ofício, que de alguma maneira parece ajudado pelo terrível sol do horário, início de tarde.

Neste dia, pelo menos no início, não tive qualquer pressa de mesa ou palestra. Me permiti andar um pouco pelos estandes, com calma, coisa que nao faço desde o primeiro dia.  Um livrinho aqui, outro ali. Já estava de olho em um Leminski desde a abertura.

Parei um tempo no belo espaço do Cordel, e me deliciei ouvindo algumas declamações. É um lado da Bienal que costumo explorar pouco, que é sempre muito pertinente, verdadeiro. O ato de simplesmente sentar e ouvir, ou no caso sentir, sem necessariamente fazer uma pergunta ou prestar total atenção é libertador. Os cordelistas e poetas populares declamam com paixão, dão o melhor que têm, fazem incrível trabalho de voz e expressão, e tão poucos os valorizam. Basta parar um pouco ali, naqueles convidativos banquinhos da Praça do cordel, para entrar nesta sintonia. 

Centenas e centenas de crianças, jovens, alunos, podiam ser vistos em todos os corredores e esquinas. Era engraçado pensar em tantas vidas, tantos mundos diferentes que havia ali, na figura de cada um deles. Riam, olhavam curiosos, emanavam o brilho de uma esperança. Onde estariam daqui a uns 20 anos? Pensei, enquanto subia por uma escada rolante.

Continuei minha peregrinação livre por espaços que ainda desconhecia, salas que sempre via abertas e chamativas mas nunca podia entrar por já ter alguma outra "mais importante" em vista. Assim conheci o espaço do circo, da ciência, entre outros. Cada portinha é como um pequeno universo que grita silencioso.

A primeira mesa que me interessou foi a que focava Belchior, mas nao exatamente por causa dele. A conversa seria entre Ricardo Kelmer e Cleudene Aragão. Já os conhecia de vista da Bienal 2014, onde juntamente a Xico Sá, fizeram a mesa final daquele ano. Escrevi na época um post em meu blog, Kelmer comentou. Agora era ótimo momento de reencontrá-lo, relembrar essa história. E de quebra ainda conheceria mais de Belchior.

A conversa foi excepcional. Clima descontraído, relembrando histórias, músicas de Belchior. Falou-se de seu lado erudito, leitor assíduo, de clássicos literários, e de como era sobretudo um poeta, na densidade e atemporalidade de suas letras. Kelmer mostrou-se intenso conhecedor, e a professora Cleudene manteve afiado o ritmo da conversa, que contou até com músicas numa projeção, fazendo todo entrarem no clima, trazendo claramente boas lembranças à tona, uma vez que várias pessoas as cantarolavam, inclusive um Lira Neto inspirado.

O livro em questão é uma antologia de textos de autores cearenses, convidados por Kelmer a escrever com base nas músicas de Belchior. Uma homenagem bem interessante, num projeto independente que nasce de uma vontade de propagar o cantor, que Kelmer diz não ser difícil considerá-lo o Bob Dylan brasileiro.

Meu momento seguinte se fez no espaço do circo, onde dei uma rápida olhada numa mesa de duas amigas ilustradoras, Fernanda Meireles e Luci  Sacoleira. Um momento bastante intimista no qual as duas artistas falaram de seus processos, inícios e percalços. Gostei do tom mais informal, à meia luz, sem as dezenas de luzes brancas do teto a cegar-nos.

Para encerrar, a aguardada mesa de Frei Betto e Socorro Acioli. Que espetáculo de conversa! Permeada por uma energia, um espírito forte de amizade... ampla carga emotiva de ambos os lados. Apesar de já conhecer Socorro Acioli de nome, não conhecia sua história e é incrível como ela se mistura à de Frei Betto. Falaram de livros, do ato da escrita, de política, amizade, espiritualidade... o Frei parecia apto a falar sobre praticamente qualquer coisa, e mesmo assim demonstrou grande humildade. Foi uma daquelas palestras que não podemos deixar de rir, aquele riso sincero, não apenas por ser engraçado, mas por tocar lá dentro da alma, aquela chacoalhada básica. Coisas que têm sido bem comuns, aliás, nesta que considero a Bienal da Amizade, de encontros e reencontros."

Escrito e publicado originalmente no Facebook em 19/04/2017

------------------

Saí de casa além das 13:30, mais uma vez sozinho. Costumava levar, em todos os dias anteriores, bolsas à tiracolo, mas percebi não serem nada práticas a um dia inteiro, atrapalhavam mobilidade. Usei uma mochila compacta especialmente para esses últimos dias da Bienal. Leve e pequena, foi literalmente uma mão na roda, de tão reduzida, mal parecia estar carregando qualquer coisa. 

Do alto da passarela que separava as vias, além da infinitude do céu, vi de cara dezenas de ônibus escolares, alinhados no estacionamento. Uma visão reconfortante para iniciar esse dia, saber que o lugar estava cheio de crianças, de alguma forma vivendo o encontro e a magia do livro. 







Além da entrada, chegando ao espaço do cordel, encontrei a amiga cantora Glaucia Lobo, um encontro não planejado, que transbordou uma já inicial carga de ânimo. Muito feliz e empolgada como sempre, ela me apresentou a um dos cordelistas, que estava prestes a se apresentar no palco. Disse ainda que tinha vindo com duas amigas mas elas – e apontou com uma mão oscilante na direção dos estandes. "É, é muito fácil se perder aí dentro" – brinquei. "Ou se encontrar, querido!", completou ela. Rimos. Era bem isso mesmo.

Neste dia, vi em destaque, no saguão principal de informações, a camiseta da Bienal. Era uma das primeiras bienais que lembro de trazer produtos tematizados (teria sido bom ver também bloquinhos e/ou canetas). Com o tema estampado "Cada pessoa: um livro; o mundo: a biblioteca", estavam expostas em três modelos. O preço, 25 reais, não era lá muito convidativo. Até pensei em levar uma, como lembrança, mas não foi nesse dia, e quando fui atrás, no penúltimo, já havia acabado. Talvez tenha sido melhor assim. Já tinha, seguramente, lembranças o suficiente.   



Segue um pequeno tour de imagens destes momentos iniciais do dia: 




























E após almoço, passeio pelos estandes, alegria de ver tantas crianças pelo prédio, primeiras compras de livros eventuais (quis comprar o mínimo possível) e exploração de áreas ainda não exploradas, segui para a primeira das mesas que veria naquela dia, focada em Belchior (vale lembrar que tudo isso se deu antes da notícia do falecimento do cantor). Como mencionei no breve texto introdutório, à essa época eu praticamente desconhecia Belchior, sabia apenas que ele era um cantor que havia sumido, mas tudo isso estaria prestes a mudar. A mesa seria comandada por Ricardo Kelmer e Cleudene Aragão, que conheci de vista da última edição da Bienal, em 2014. Seria ótima oportunidade de revê-los, além de tudo. Marcada para as 16h, hora em que cheguei à sala e tratei de escolher um bom lugar. 

MESA (16h): BELCHIOR E O SEU ETERNO CANTO FEITO FACA (Ricardo Kelmer / Cleudene Aragão)



Havia pouco público, nesta tarde de quarta-feira. Revendo agora o material para preparar esse texto, percebi que a mesa seria composta também por Joan Ederson e Ricardo Guilherme. Como não estavam lá e a essa altura não lembro o que foi dito, provavelmente tiveram contratempos. Kelmer chamava atenção por estar com uma camiseta destacando seu livro "Para Belchior, com amor", que teria amplo destaque na fala vindoura. Ele e a professora Cleudene assumiram as cadeiras no palco, enquanto as sempre tradicionais introduções e agradecimentos eram feitas pelos chefes de cerimônia, tudo devidamente transliterado para a linguagem de sinais, uma constante em todas as mesas desta Bienal. 

Cumprimentei Kelmer, que disse lembrar-se de mim; chegou a ver a postagem que fiz sobre ele e Xico Sá na Bienal daqui de 2014. Foi interessante já de alguma forma estabelecer esta ponte, senti uma energia boa naquela figura, naquele retorno tão sincero.

Foi por volta de 16:20 que começaram os trabalhos em torno do tema. Estava disposto a absorver o máximo possível daquilo, de finalmente saber um pouco mais sobre Belchior e mal desconfiava que esse era apenas o início de uma extensa caminhada nesse sentido, a partir desta porta que foi aqui aberta. 

"Esta Bienal é por vocês e para vocês!" – Cleudene Aragão começou explicando como surgiu a ideia da criação do livro Para Belchior, com amor, uma obra conjunta. 

Tratava-se de uma antologia, reunindo textos inspirados nas canções de Belchior, de autores conterrâneos, de nomes como Xico Sá, Ricardo Guilherme, Gero Camilo, os próprios Kelmer e Cleudene, totalizando 14 autores. Os textos eram crônicas, contos, vivências, poemas, o que fosse, desde que respirasse de uma das músicas do cantor. Tal premissa foi ideia lançado por Kelmer, e bem abraçado pelo grupo que compunha o trabalho, todos fãs do músico de Sobral. 

"Considero Belchior um dos grandes poetas brasileiros. É um literato. Como ele mesmo falou, é um poeta que encontrou na música uma maneira de levar adiante a sua poesia" - Ricardo Kelmer





"Leia as letras de Belchior sem ouvir a música, tente desapegar da melodia, você perceberá a poesia, e poesia de ótima qualidade. Tive, portanto, a ideia de homenageá-lo com poesia. Cada um dos autores escolhidos escolheu uma música e ficou livre para interpretá-la em literatura." - Kelmer 

As palavras de Kelmer me despertavam para essa prática tão aparentemente incomum, ler letras de música sem a melodia, buscar a poesia que há nelas. Não me era algo de todo estranho, já fazia isso para estudar algumas músicas francesas, mas agora, aplicadas a Belchior, seria uma interessante rota para descobrir sua vertente poética.

"Mandei fazer 1500 exemplares. Custeei todos, arrisquei mesmo. Ainda bem que deu certo. Fizemos até agora 22 lançamentos, todos com música e teatro" - Kelmer

E por falar em teatro, o escritor citou a peça "De olhos abertos lhe direi", de autoria de Ricardo Guilherme, que também atua em cena. A obra é baseada em versos de Belchior e pode ser assistida aqui

"O livro não está em livrarias, isso requer uma logística. Somos apenas um grupo de amigos que resolveu homenagear Belchior." - Kelmer 

Indo de encontro ao tema e completando bem a discussão, uma pessoa da plateia pediu licença para ler trecho de livro que tinha lançado, texto que também homenageava Belchior. Foi bem aplaudido, só não consegui pegar o nome do livro. 

Cleudene diz que está morando em Belo Horizonte por um ano, que lá há um bloco de carnaval, o "Volta Belchior", ressaltando que seu sumiço criou meio que um fetiche.

"Vou criar aqui o bloco "Não volta, me leva Belchior" – brincou ela

"Ele não desapareceu, ele só se isolou, só tem contato com quem ele quer. Ele não tem dúvida do valor que sua obra tem, mas no lugar onde está, acho que pra ele já deu"Cleudene

Ao lado dos autores, uma tela projetora havia sido montada, e ali aproveitaram para exibir um vídeo com a letra e música 'Coração Selvagem'. "Prestem atenção na letra", reforçou Kelmer.

A música entoou. O ritmo encheu o auditório. Aquela melodia me era ainda totalmente nova, mas senti o quão forte reverberava em boa parte, senão todos. As pessoas se deixavam levar, embaladas, abanando cabeças. Até cantarolavam, à sua maneira, Lira Neto – um dos curadores da Bienal e presença constante em quase todas as mesas – um dos mais aplicados.




O pouco público presente ajudava a criar um ambiente de algum modo mais reservado, sem distrações, tornando possível um melhor mergulho na música, no ritmo, na letra. Ainda na hora da música, a intérprete de libras ficou inerte, de braços cruzados, sem emitir qualquer movimento, como se em qualquer movimento ela dissesse muito mais do que deveria, uma cena curiosa. 

Belchior também é artista plástico, ele pinta, desenha, é calígrafoCleudene e Kelmer

Estas múltiplas facetas foram desdobradas, me deixando perceber que ele era muito mais do que um compositor, e já instalando uma curiosidade que viria a ser saciada à medida que melhor conhecia suas outras atuações, não tão divulgadas como a vida musical.

Falando sobre sua obra literária, na figura das letras musicais, foram citados clássicos do cantor, que marcaram época e continuam ainda a mexer com quem neles lembra glórias da vida. 

"As obras que falam sobre o ser humano não envelhecem, persistem, é assim também com Belchior"Cleudene

A música Galos, Noites e Quintais é citada com grande ênfase, com os palestrantes e público refletindo o impacto de suas imagens.

"Quando você canta, você não percebe. Só se percebe a sutileza da letra, quando se lê, por isso é poesia. Suas letras estão cheias disso. É uma riqueza maravilhosa. Posso dizer que está muito próximo de ser um Bob Dylan brasileiro"Kelmer

E retomando a questão de seu sumiço, que volta e meia sempre retornava, concluiu:

"Esse movimento, o volta Belchior me incomoda. Pra quê? Deixa ele, não quer mais, por que insistir?"Kelmer

Lira Neto se manifesta, dizendo que Belchior não volta não por questão de dinheiro, mas porque realmente não quer: "Certa vez, ele disse a um amigo quando perguntaram-lhe isso: você não tá entendendo nada! Não é dinheiro, não quero mais isso!"

"Tenho que entregar um texto a um jornal e o título será 'me leva Belchior'Lira disse, agradecendo a Cleudene pela ideia do título.

Cleudene diz que há uma mitologia a respeito de Belchior ter deixado pistas de que ia sumir nas letras de suas músicas: 

"O artista dá todas as dicas do que faz" – emendou um rapaz da plateia, de voz rouca e arquétipo semelhatne ao próprio Kelmer, que disse já ter feito muitos trabalhos com ele.




Kelmer lê textos do livro, o conto inspirado em Galos, noites e quintais, de Joan Edesson de Oliveira. Dedicou ainda boa parte do tempo a falar do clássico A Divina Comédia, segundo ele uma das grandes referências de Belchior e, não por acaso, a música que escolheu para "literar" foi A Divina Comédia Humana: 

"Belchior era um voraz leitor dos clássicos literários, teve formação humanista, filosófica. Era grande admirador de Dante Aleghieri, de 'A Divina Comédia', que quando foi escrito intitulava-se apenas 'comédia', em oposição à tragédia. Mas era tão grandioso que lhe exigiu 20 anos para concluir, tanto que os editores e leitores incluiram o adjetivo 'divino'. Belchior fez homenagem à Divina Comédia, aos três atos, céu, purgatório e inferno, em suas composições"Kelmer

Kelmer faz nova leitura dramática, boa presença de palco, pausas e tensões, revelando o que vejo que só se revela mais na leitura em voz alta, a alma do texto, que prende o público no fio do novelo, na cena concebida, melodia silenciosa. 

Vários 'Fora Temer' se fizeram ouvir nas falas de Kelmer, uma constante também em diversas outras mesas de todo o evento. 

Lira Neto, confortavelmente de seu lugar na plateia, completava eventuais lacunas, expandindo ainda mais o leque propulsor do cantor:

"Antes de qualquer pessoa falar de hipertexto, Belchior já estava fazendo isso lá nos anos 70, 80"Lira Neto 

O poeta Reginaldo Figueiredo, do templo da poesia, surge de repente, entoando já um poema pronto, que segundo ele lhe veio após a clarificação da conversa, referente a Belchior. Foi dito de um só fôlego. 




A mesa abriu para perguntas e comentários, ao que pessoas falaram de seus contatos com Belchior, relembrando shows, de como o contato com sua música lhes modificou, transformou. Cleudene contou de experiências de tê-lo visto no palco, a força que ele tinha, que arrebatava vidas. Havia saudade transbordando de seus olhos. 

"Belchior tem uma fortaleza de citar a universalidade da literatura nas suas composições, mas prefere falar do homem comum, dos sentimentos do dia a dia. Ele tem direito de desaparecer, todo mundo um dia vai chegar a um lugar diferente." – disse o homem da voz rouca, parecido com Kelmer. É muito aplaudido. 

Kelmer fala do nome de Belchior, explicando as muitas variantes de sua sonoridade, de como o músico preferia ser chamado. "Seu nome verdadeiro é Antônio Carlos Belchior"

Eram 17:30 quando a mesa chegou ao fim. Kelmer e Cleudene agradeceram, enquanto Coração Selvagem voltava a ecoar, ditando agora o ritmo final, ecoando também um turbilhão de sentidos em mim, de tudo aquilo que ouvi naquela breve hora. A professora Cleudene ainda enfatizou: "Ouçam Belchior, leiam Belchior e não peçam pra ele voltar! 






Do lado de fora, como era comum à maioria das palestras com autores, havia a mesinha de livros à venda. Conheci a simpática Shirlene, que cuidava das vendas e comprei um livrinho. Chamou-me a atenção o formato de bolso e o fato de ter sido custeado pelo autor, eram ideias interessantes que eu pensava em explorar para quando fosse enfim publicar algo. Cumprimentei Kelmer, parabenizando, agradecendo e celebrando o momento. Muita gente quis fazer o mesmo, com os livrinhos na mão, e mesmo o político Inácio Arruda estava presente, o qual me cumprimentou com a graça quase de quem encontra um ente querido. Kelmer ainda me disse de um outro momento que teria ainda nesta bienal, no café, um papo com Lira Neto (Lira estava realmente em todas!). Falei que se desse, iria. 




Levei em mim toda aquela boa energia, a descoberta de Belchior, a vontade de ouvir suas músicas, tão logo chegasse em casa, ler as melodia-poesias, mergulhar neste novo mundo e, claro, ler o livrinho, a reunião do trabalho daqueles amigos, admiradores da vida e obra do músico. Era um caminho fascinante, e eu tinha pressa em vivê-lo, como passei a ter ainda mais por todo o evento, tanto que não pude, nesse primeiro momento, perceber tudo isso, logo mais haveria a presença de Frei Betto, uma das mais aguardadas, aliás. Sabia que lotaria, sem dúvida, talvez não tanto quanto Válter Hugo Mãe, mas o suficiente para manter a sala-alvo em vigilância, a fim de não perder um bom lugar. 

Passei em frente ao local onde Frei Betto falaria. Ele, inclusive, estava ali fora, sentado ao lado de uma mesa repleta de seus livros, já assinando e posando para fotos. Naquelas imediações, encontrei a professora Cleudene e a cumprimentei pela mesa de Belchior, ela super simpática. 






Fiz um breve lanche, nos poucos mas valorosos minutos que teria de intervalo. Esse meio tempo também utilizado para passear mais um pouco pela feira, momento em que fiz as primeiras compras de livros. Não era minha prioridade nessa bienal comprar livros, mas abri algumas exceções a uns que não poderia ficar sem levar.




Uma simples ida ao banheiro e descubro que a cidade está sem ônibus, pela boca de um dos funcionários, que não poupou críticas: "Fortaleza bela... Fortaleza bela... sem ônibus...". Isso referia-se aos ataques a vários ônibus da cidade, incendiados por criminosos numa ação que fez com que os coletivos parecessem de circular, notícia amplamente divulgada na época. Preso na bienal, jamais teria como saber isso, não fosse aquele funcionário. Não por acaso, o movimento nos pavilhões pareceu diminuir drasticamente após o ocorrido, mas acho que não interferiu tanto na frequência do Frei Betto vindouro. 

Enquanto aguardava as 20h, monitorando o público para a grande mesa da noite, lembrei de que haveria, quase nesse mesmo horário, uma outra mesa com duas amigas: Fernanda Meireles e Luci Sacoleira. Como a sala calhou de ser próxima, fui até lá enquanto esperava o posicionamento do Frei. 

MESA (19h30) com Fernanda Meireles e Luci Sacoleira (A ILUSTRAÇÃO COMO REDE DE AFETO)




Entrei às 19:30. A sala, diferente das demais, estava decorada com temáticas circenses, e iluminada parcialmente, o que achei ótimo; a luz dura e constante torna tudo sério e rígido demais, quase como se estivéssemos numa sala de aula. Indireta como agora, deixava um ar mais acolhedor. 

Havia bem pouco público aqui, pelo que lembro, não constava na programação oficial, fora divulgado por elas e pelos amigos. Somava-se umas vinte pessoas quando deram início à fala. Cada uma começou contando suas histórias como artistas; conheço ambas de trabalhos que realizaram em parceria com meu irmão, Diego Akel, os filmes para o projeto Animascópio. Luci falou de sua trajetória, o início com seus bonecos, até como se estabeleceu como Sacoleira. Era uma história curiosa que eu ainda não conhecia ou não lembrava sob aquele prisma. Ela falou ainda como se voltou ao desenho e à ilustração.
"Gosto muito de ver balé, para me inspirar, ver os movimentos para fazer os desenhos"Luci Sacoleira

Fernanda Meireles, bastante conhecida por seu trabalho de pesquisa e produção de zines, falou da oficina que ministraria logo mais na Bienal, ideia que partiu de um zine seu, Sobre hoje: "É simples, escreve sobre o que você está vivendo hoje, uma oficina diferente"




As duas aproveitaram para exibir os filmes que fizeram para o Animascópio, que lhes deu a oportunidade de levar seu trabalho ao mundo da animação, através de técnicas mistas e assim descobrirem nuances também neste suporte. O Animascópio foi um projeto que reuniu artistas cearenses com a proposta de fazê-los produzir curtas em animação. Os filmes podem ser vistos aqui

A conversa estava muito boa, mas faltando cerca de dez para as oito, cumprimentei-as de longe e saí da sala, direto para a de Frei Betto, quase ao lado. Ele, nesse momento, ainda sentado à mesinha, do lado de fora, a autografar livros. 


MESA (20h): RECRIAR O MUNDO: TRAZER A ESPERANÇA ATRAVÉS DAS PALAVRAS (SOCORRO ACIOLI / FREI BETTO)  





Era a sala-espetáculo, a mesma que engaiolou Valter Hugo Mãe. Entrei esperando um super movimento, mas vi pouquíssimas cadeiras ocupadas. Provavelmente, a situação dos ônibus de alguma forma interferiu, limitando o acesso a muitos que ainda viriam ou que tiveram de sair mais cedo para evitar trânsito. 

Sobre certas cadeiras, rigorosamente dispostos, havia um folheto, lista de livros do Frei, com preços e tudo, divulgação simples e até de certa forma invasiva. Achei mesmo uma maneira meio desnecessária; com tantos livros e uma obra tão vasta, ele ainda precisava disso? 



Percebi pessoas entrando, a sala foi se enchendo. Muitas tinham dúvida de onde se sentar, a maioria preferia os locais mais na frente. Optei por uma cadeira relativamente no meio, desde que no corredor,  a fim de favorecer os registros que visava fazer, bem como ter facilidade para sair e voltar, caso preciso. 

Grande público de senhores e senhoras, muito dignos e distintos, cada um tinha mais cara de palestrante que o outro e alguns se pareciam até com o próprio Frei Betto. Eram agora 20:13, hora em que ele e Socorro Acioli já se achavam à frente, no palco. A mediação ficaria por conta da jornalista Marina Solon. Com a sala já mais cheia mas ainda livre demais considerando a imagem do Frei, alguns minutos passados, e finalmente foi dada a largada nesta última palestra da noite. 

Marina enfoca o tema da bienal, Cada pessoa, um livro; o mundo, a biblioteca, que diz ser amplo, que cada pessoa é realmente um livro, traz suas próprias histórias, vivências, e de como essa bienal é de fato para todos. Faz a seguir a apresentação dos palestrantes daquela noite, lendo palavras de um papel. Para esta conversa, optei por não fazer muitas fotos, mas breves vídeos de trechos, além do registro presencial. 



Como acho que já comentei em um dos textos anteriores dessa série, conhecia Socorro Acioli de longe de outros eventos, o primeiro conhecimento dela me veio em 2010, quando na bienal daquele ano, aqui em Fortaleza, mediou Marina Colasanti. Era ótimo vê-la agora ao lado de Frei Betto, e descobrir que as histórias de ambos se cruzavam de formas bem peculiares. Conheço o trabalho de Frei Betto ainda de forma precoce, através de seus livros de contos, e tive também o privilégio de ver, embora de longe, uma fala dele durante a FLIP 2015, em evento que lotou a Casa Rocco. Aqui o frei estava muito bem trajado, num paletó ornamentado de curiosos emblemas. Fiquei me perguntando o que significavam. 

Pelo texto introdutório lido por Marina, descobri que Frei Betto é mineiro, e foi por ele que começou de fato a conversa: "Como começou o Frei Betto escritor?", perguntou a mediadora.
"Boa noite, fora Temer, são todos bem-vindos"Frei Betto, que conseguiu fartos aplausos a essa primeira colocação. 

Betto disse de pronto também que é padrinho do filho mais velho de Socorro Acioli, o que já lhe dá um parentesco com a escritora.

"Mozart era filho de um músico. Picasso era filho de pintor. Eu era filho de um cronista habilidoso de Minas. Minha mãe escreveu o livro Fogão de lenha, 300 anos da culinária mineira." – Frei Betto

Partindo desta introdução, ele continuou, focando em seu início na literatura: 

"Cresci em uma casa onde só havia livros. Desde muito cedo me encantei pelas palavras. Derci Bastos, a professora que me alfabetizou. Naquela época, redação era composição. A palavra 'texto' vem de tecido, tecer"Frei Betto 
E do ofício do escritor:

"Achava que ser escritor era algo tão fantástico, tão inatingível, pois eram chamados de imortais! Como todos morrem e eles ficam? Escritores tem muitos, mas autores tem poucos" – Frei Betto

Socorro Acioli assume a palavra, e elogia primeiramente os incentivos e alicerces da Bienal. A escritora falou também de como foi seu início: 
"Minha leitura de infância foi o Monteiro Lobato, comprava de um vendedor que passava de porta em porta. Inclusive, a Narizinho, do sítio, está aquiSocorro Acioli 

Nesse momento, não entendi se ela se referia a uma das atrizes que interpretaram a personagem na série dos anos 70 ou alguém caracterizado para o evento. Minha posição na plateia não ajudou a me inclinar para ver onde estaria a suposta Narizinho, apontada por Socorro. 

A autora retornou até os tempos de escola, de quando fazia redações:
"O diretor da escola viu minhas redações e me incentivou a escrever."
Ela contou que quando tinha 8 anos recebeu uma carta de Frei Betto, fazendo alusão a seu livro "O Pipoqueiro João", publicado de maneira independente. A história foi buscar no passado os alicerces para o futuro, e com o clímax nas mãos, Socorro mostra a carta (para a surpresa de todos), e a lê. Silêncio. Atenção. Datado de 2 de fevereiro de 1984, o papel amarelado é agora o principal destaque da mesa. Socorro lê, claramente emocionada. Palavras sinceras, de elogio, incentivando-a a continuar escrevendo. 

"Você tem um dom e deve cultivá-lo" – Diz um dos trechos finais. Muita comoção traduzida em cada rosto do público que viajou na brevidade das décadas contidas naquelas linhas.   

"Fiz vestibular para jornalismo. Em seguida reencontrei Frei Betto e quis fazer textos sobre Frei Tito. Quando entendi que a profissão de escritor existia, fiz mestrado em letras e desde então vivo de literatura." – Socorro
"Sobrevive", corrigiu Betto, arrancando risos do público. 
Frei Betto me ensinou, a gente recebe para dar, por isso quis fazer oficinas de escrita criativaTive um novo entendimento da fé, não centrado nos rituais, mas mais focada em olhar o outro, mais preocupada com o outro, aprendi isso com ele."  – Socorro

"Socorro fala de seu livro 'A Cabeça do Santo': "A população mais simples e humilde aparenta estar mais próxima de Deus." 

É a terceira vez que venho à Bienal de Fortaleza. Meu sonho é escrever como o Lira Neto – diz entre risos. – Meu pai tinha duas manias: padaria e livraria. Ele comprava mais livros do que conseguia ler. - Betto 

Frei Betto comentou que política era um tema muito efervescente durante sua infância, em sua vida familiar:

"Em 1954, o rádio lá de casa fervia. Os jornais demoravam. Meu pai queria ver Getúlio cair. Ele idealizou de fazer meu aniversário no dia da queda de Vargas. Fiquei feliz, mas Vargas morreu, suicidou-se. Foi um trauma." - Betto 

Quanto ao atual estado do país, o autor é indagado se tem esperança em alguma mudança:

"Guardemos o pessimismo para dias melhores. Tenho certeza de que não vou participar da colheita mas faço questão de morrer semente." - Betto 

"Quando se escuta na rádio ou TV uma coisa que não seja de esquerda? Para o outro lado, felizmente existe as redes sociais. Famílias da favela têm tudo mas não tem bens sociais, têm somente bens consumistas." - Betto 

"Por que escrever ficção?", foi a pergunta lançada a seguir pela mediadora.

"Escrevo para crianças o que acho que precisa ser dito, o que acho que não deve ser esquecido." – Socorro

A autora cita ainda o estado lastimável da casa em que Rachel de Queiroz morou e escreveu "O quinze", partindo da ideia da preservação de bens históricos e suas significância: 

"Escrevi Cabeça do Santo a partir de uma matéria de jornal. A estátua de um santo, que estava com uma cabeça de um lado e a situação era um problema. Toda vivência da história passa pela minha vivência da fé de Juazeiro do Norte." – Socorro 

"Em 2006, larguei o trabalho como editora." – Socorro

Falando do livro "Como contar um conto", de Gabriel Garcia Marquez, resultado de uma oficina ministrada por ele há 20 anos, Socorro enfocou a dificuldade que era fazer este curso, e do quanto tentou, durante 1 ano, mas era somente para convidados: 

"Estava com 9 de 10 vagas preenchidas. Era preciso mandar seu currículo e escrever uma sinopse de um parágrafo de uma história que você quer desenvolver. Guardo recortes de jornal. A cabeça do santo era um deles, e me ajudou muito, acho que por sua espiritualidade. Escrevi então a sinopse." Socorro
Contou de como Gabo perguntou a ela sobre a questão da espiritualidade, de Santo Antônio e as mulheres do Brasil, e assim eventualmente conseguiu a vaga.
Respondendo à pergunta quanto ao porquê fazer ficção, Frei Betto é bem direto: "O que mais me dá prazer é fazer ficção. Pra fazer ficção, é preciso cortar as amarras, estar muito solto. Os personagens, os enredos, nos conduzem por caminhos muito próprios".  

Citou seu "Hotel Brasil", livro policial que desafia o leitor a descobrir quem é o assassino. 

"A ficção não é datável, não tem prazo de validade, isso fascina muito, mas é muito difícil." - Betto 

Citou ainda outro livro seu, "Aldeia do silêncio". 

"Sou muito pressionado pelas emendas editoriais, sou uma pessoa compulsiva pela escrita. Não posso passar 48 horas sem escrever que me sinto mal. É uma compulsão e isso é bom" - Betto 

Pergunta da mediadora: o que pensam do livro digital? 

"Sou adepta pela praticidade, pelo conforto, mas compreendo quem não se acostuma, é prática. Não há necessidade de guerra entre os dois. O livro não vai acabar, estão surgindo cada vez mais novos autores, as editoras estão publicando." - Socorro 

"Prefiro papel, tenho dificuldade de lidar com novas tecnologias. As coisas não acabam. Elas se somam, não desaparecem. Mas me assusta como no Brasil não se faz educação literária. Há farmácias e academias em todas as esquinas, mas não há bibliotecas. Que país é esse onde se habitua somente a exercitar o corpo e nada a alma?"Betto 

Tal colocação era de se fazer refletir. Uma questão de formação, de criação de um interesse que ainda há muito pouco, mas quem investiria nisso? Quem tentaria equilibrar a procura de uma biblioteca com a de uma farmácia ou livraria? Quem investiria tanto em livros do que na promessa do 'corpo em forma'? É uma questão tão ampla que ancoraria facilmente outro debate. 

"Me preocupo também com a linguagem dos jovens", e citou um diálogo que ouviu certa vez, entre uma menina e o namorado, que quase não entendeu. Nessa linha, contou ainda história de um inglês que não falava nada de português e quis aprender, mas na rotina do trabalho, seus colegas não facilitavam, e na hora do café, brincavam: 

"Ele queria aprender, mas eles só diziam: pó po pó? Pó, po, pô!" – Betto 

Lira Neto, mais uma vez presente, fez sugestão para fechamento da mesa, que cada um sugerisse um livro. Além de Lira, também estava na plateia a escritora Ana Miranda.

Socorro Acioli sugeriu a biografia de Frei Betto, o que viria a levantar o tema biografia. Sugeriu ainda o livro 'Batismo de Sangue', de autoria também do frei. 

E a respeito da biografia:

"Me dizem: você tá vivo, e já tem biografia?" – Não, esse é apenas o primeiro volume, mas melhor ter uma biografia do que um obituário. Foi convite do CPDOC - Registrar a memória brasileira, fazem entrevistas exaustivas, fizeram minha biografia. Minha vida é muito variada, são muitas vidas em uma vida. Com frequência, escuto notícias falsas sobre mim. Conheci Frei Betto no exílio ou em Paris. Não, nunca, talvez tenha conhecido outro Frei." – Betto
Quando perguntado o que o título de Frei lhe limitava:

"Sou como uma freira, tudo o que uma freira pode eu posso, o que não pode, não posso." 

E quanto às sugestões dos livros:

"Leio dois tipos de livro que me fazem bem à alma: espiritualidade e poesia. Leiam poesia, não temos no país a cultura da leitura poética. Sugiro 'Inventário e Segredos', da Socorro." – Betto 

Frei Betto ainda foi longe na valorização da poesia:
"Em Nicarágua, a poesia é na cultura local o que o futebol é aqui. Não somos formados para ler poesia. Não devemos lê-la como lemos ficção, devemos não ler, mas senti-la. É linguagem dos anjos, tenho muita inveja dos poetas"

E a mesa se desfez em aplausos, fluxo de saída, reencontros, dispersão. Faltava pouco para as 22h. Frei Betto reassumiu a mesa agora lá fora, pronto a atender à dezena de pessoas que se alinhava para compra e autógrafos de seus livros. Não lembro de ver Socorro Acioli, acho que o Frei ficou como destaque da noite. Apenas passeei um pouco em volta, registrando. Até tinha um livro dele em casa, mas optei por deixar passar, quem sabe noutro momento. 







A fila seguiu seu próprio fluxo. Muita gente já mergulhada nas páginas do próprio livro que levaria, um modo muito digno, diga-se de passagem. Algumas crianças e o constante vozerio que parecia soar muito mais importante do que de fato era.

Alguns vídeos de trechos da mesa de Frei Betto e Socorro Acioli: 







De volta aos pavilhões da feira, dei uma olhadela pelos estande mais concorridos, a essa hora quase que desertos. Havia um enorme, no qual todos os livros estavam por 10 reais, mas nunca conseguia me aproximar direito. Dessa vez pude. Quase me assustei ao ver tantos livros, na bagunça deixada por mãos vorazes muitas vezes mais por desarrumar do que propriamente peneirar algo significativo.






Neste dia fiz as seguintes compras, as primeiras desta Bienal:




Deixei o prédio pouco além das 22h, passando pelos espaços vazios, a praça do cordel suspensa nas cadeiras de ponta-cabeça, adormecidas. Silêncio quebrado apenas pelos passos e vozes a caminho das saídas. Na rua, ainda ausência dos ônibus, algo que eu já tinha quase esquecido. Tive de pedir um carro, e só então procurar ver o que estava acontecendo na cidade.




Cada vez mais os dias nesta Bienal do Livro me transformavam. Minhas experiências se abriam, múltiplas. Neste dia, revi Ricardo Kelmer, o cumprimentei, conversei, comecei a mergulhar no universo de Belchior. Me surpreendia comigo mesmo, em atitudes dantes impensadas. Ainda a fala de Socorro e Frei Betto, discorrendo temas de e sobre a escrita, tudo me chegava de modo incrivelmente táctil. Não havia muito tempo de parar e pensar, mas de seguir em frente, nesse mergulho tão profundo quanto enriquecedor. Colecionava a destreza desses dias, cada um incentivando e influenciando o dia seguinte. Talvez por isso ainda siga escrevendo essa série, agora quase um ano depois. 

Continua no dia 7, com Ricardo Aleixo, Talles Azigon, Jorge Pieiro e muito mais.
Post finalizado e publicado em 15/03/2018