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"Posso resumir em três palavras o que aprendi sobre a vida: a vida continua"Robert Frost



sábado, 29 de dezembro de 2012

Bienal do Livro do Ceará 2012 (I - O evento)


Fotos: Denis Akel

Mais uma Bienal do Livro... É incrível como dois anos passam depressa. Lembro-me ainda da edição de 2010, das palestras de Ziraldo, Pedro Bandeira, Maurício de Sousa... (veja aqui) das filas enormes que tive de pegar (inclusive sob o sol), para assistir a esses breves momentos, além, é claro, dos estandes e dos muitos livros que comprei por lá (muitos dos quais ainda sequer abri). Lembro também de que, no final da Bienal daquele ano, a promessa já era ter a próxima Bienal no novo Centro de Convenções, que na época já estava sendo construído. Desde aquele momento, fiquei imaginando como seria o evento nessas futuras instalações, uma vez que já era nítido que o centro antigo não atendia mais a demanda dos visitantes, e o resultado era sempre visto nos dias de maior movimento, na enorme dificuldade de se locomover nos corredores entre os estandes.

O novo Centro de Convenções, agora intitulado Centro de Eventos, enfim foi inaugurado em agosto desse ano. Sempre que passava de carro perto dele, percebia já a imponência do prédio, com suas paredes de altura imensurável, o porte diferenciado, uma vastidão que parecia ser perfeita não só para a Bienal, mas para qualquer evento. Inclusive, devido exatamente à sua obra em andamento, a Bienal não foi realizada no mês que geralmente costuma ser, abril. E em que mês seria agora? Nada foi divulgado, e à medida que os meses foram passando, comecei a me questionar se haveria mesmo a Bienal esse ano. Até que, já no meio do ano, enfim foi divulgado que o evento ocorreria em novembro, de 8 a 18. Nos meses seguintes, contudo, nenhuma divulgação nova foi feita, não se sabia ainda o tema do evento ou qualquer coisa relacionada à programação.

Contudo, eu ainda não estava muito empolgado, talvez pela escassez de notícias. Apenas cerca de um mês antes do evento é que foi enfim lançado seu site oficial. Comecei então a me interar de como seria essa edição da Bienal, mas meio que já decepcionado por não ver ainda nenhuma informação sobre os autores convidados. Tudo que havia era o tema que seria abordado, uma homenagem à Padaria Espiritual, agremiação literária cearense que completa 120 anos em 2012.

Assim, não havia mesmo como demonstrar muita empolgação, sem saber o que estava por vir, o que me deixava de certa forma apreensivo – a Bienal esse ano seria mesmo boa? Cerca de duas semanas antes do início, finalmente começaram a divulgar a programação, e só aí que comecei a perceber a cara do evento esse ano, repleto de shows e palestras, com uma série de atividades que eram quase impossíveis de se assimilar em uma primeira olhada. Inicialmente, me chamaram a atenção as presenças confirmadas do escritor Ignácio de Loyola Brandão e da filósofa Márcia Tiburi, e desde já estava certo de que iria assisti-las.

A abertura da X Bienal Internacional do Livro do Ceará se deu no dia 8 de novembro. O grande trunfo desse primeiro dia seria o show com Gal Costa. A área de estandes e adjacências foi aberta ao público a partir das 18h. Fiz questão de ir logo nesse primeiro momento, para ir me familiarizando às instalações, uma vez que ainda não conhecia esse novo centro de convenções.

Lá estava ele, da janela do táxi, lustroso, imponente. Contudo, o que mais me chamou a atenção foi a quase ausência de movimento no estacionamento. Durante a manobra do carro, vi um burburinho em outra extremidade. Deve ser o local onde acontecerá o show, pensei. Exatamente na frente do prédio não vi movimento nenhum, estava bem deserto. Mais ao fundo, próximo ao que parecia ser a entrada principal, vi um enorme banner: "Bem-vindos". Imaginei ser ali. Mas onde estavam as pessoas? Provavelmente todos deviam estar na área onde ocorreria o show. Mas seria possível não haver público para o restante da feira? Com esses pensamentos em mente, fui caminhando em direção à entrada (o taxista, por não conhecer as diretrizes do trânsito ali, não facilitou, me deixando quase na calçada da rua).

À medida que me aproximava do letreiro, via cada vez menos indícios daquilo ser algo relacionado à Bienal. Ausência de informativos, de receptivos próprios a receber os visitantes, nada. Já há poucos metros do banner, vi o que de fato era aquilo: um evento de medicina. Aparentemente, acontecia simultaneamente com a Bienal, e de uma maneira ou de outra, não parecia chamar muita atenção. Confuso, sem saber agora por onde seguir, e sem ninguém a quem pudesse perguntar, comecei a caminhar pelo calçamento lateral do prédio, circundando-o, à procura de alguma sinalização ou de alguém que pudesse informar. Andei por vários minutos, contemplando a complexidade da construção, reconhecendo aquilo, era mesmo um prédio gigante. Há certos detalhes que só percebemos mesmo quando andamos a pé. Eu, porém, não tinha ido ali para caminhar fora do prédio, afinal, e após uns cinco minutos comecei a ficar chateado. Aquele trajeto parecia não ter fim, e não havia qualquer indicação nas imediações. Foi aí que escuto alguém atrás de mim perguntar: "Você sabe onde fica a entrada da Bienal do Livro?". Era um outro rapaz, também em busca da entrada da feira. Falei que não sabia, que estava rodando ali há minutos e nada. Ele me disse que alguém lhe dissera que era mesmo seguindo por ali, e ao que tudo indicava a entrada ficava exatamente no extremo oposto onde desci, na parte detrás do Centro de Eventos. O sujeito era bem descolado, e mesmo tendo que caminhar tanto, não perdia o bom humor, ao comparar o prédio com um presídio e fazer alguma piadinha com o governador Cid Gomes. Ele caminhava rápido, e tive de apertar o passo para conseguir acompanhá-lo. Cerca de mais alguns minutos depois, achamos algumas pessoas no caminho, que confirmaram: a entrada da feira era mesmo naquela direção. Segui caminhando, contornando a construção.

As imensuráveis paredes do Centro foram minhas companheiras por um longo tempo

Ao todo, foram cerca de 20 minutos, desde que desci do táxi, para enfim avistar o que realmente era a entrada da Bienal (o local onde pensei que era o show), graças à total ausência de avisos e sinalizações no caminho. Já começava a desconfiar que o evento não começara bem. Diante da entrada oficial da feira, onde havia vários banners com o tema da padaria espiritual, vi um estacionamento lotado, um público que já fazia bastante alvoroço. Entrei no prédio.

O Centro de Eventos realmente se destaca pela sua estrutura magistral. É um ambiente acolhedor e agradável, dentro de seus inúmeros andares e saguões, e fazer esse primeiro reconhecimento foi algo bem divertido. Os corredores lembravam quase os de universidades ou colégios, o forte ar condicionado sequer me fazia mais lembrar do calor intenso que era facilmente sentido no centro antigo. Logo em um balcão, um pouco além da entrada, peguei um folheto com a programação, que já comecei a ler, ávido para conhecer mais do que aconteceria ao longo destes dez dias de evento, mas me decepcionei. A programação completa estava toda espremida no espaço equivalente a duas folhas de papel A4. Os turnos, manhã, tarde e noite, completamente misturados. A letrinha, muito miúda, exigia uma calma e atenção específica. Tudo isso para caberem ali todos os dias. Acho que teria sido melhor adotar o estilo guia, com páginas e mais praticidade, como foi feito em 2010. A má diagramação era ainda coroada pela péssima orientação das salas e locais onde aconteciam as atividades. Ainda tentei consultar essa "programação" mas não tive muito êxito. Identificar o que se queria assistir era só o primeiro dos desafios, depois era preciso saber onde ficava o local. Havia uma distinção, os chamados mezaninos, mas também não era facilitado descobrir em qual deles se estava. A ausência de um mapa com o nome e localização de tudo fez falta. O máximo que havia era uma planta do prédio, embora igualmente medíocre, que mal se fazia compreender.

Programação de todos os dias foi espremida em pouco espaço, complicando a localização de palestras e debates

Esse panfletinho também era entregue aos visitantes, mas dava pouco destaque à literatura, enaltecendo mais os shows musicais

Talvez fosse preciso conhecer de antemão o centro, para conseguir se orientar bem por ali. Do contrário, se preparar para andar bastante. Como imagino que a maioria do público aproveitou a Bienal para conhecer o lugar pela primeira vez, foi um gigantesco fluxo de pessoas, em boa parte das dependências deste. Mas tudo bem, afinal, era um espaço enorme, certo? Não teríamos mais aquelas aglomerações comuns no centro anterior. Eu achava que não, mas este acabou sendo outro ponto onde me decepcionei, como direi mais a seguir.

Além da escada rolante da entrada, que me conduziu ao primeiro andar, havia um extenso saguão, onde vi vários portões alinhados, as entradas para o pavilhão onde estavam os estandes. Ainda havia, próximo a uma dessas entradas, um espaço destinado aos cordéis, um palco que homenageava o centenário de Luiz Gonzaga, onde cordelistas liam seus versos.


Literatura de cordel, presença sempre forte na Bienal do Livro

Não demorei a entrar nas dependências dos estandes, estava curioso para ver como tudo tinha sido armado, se realmente haveria uma diferença ante como tinha sido na última bienal, em 2010. Caminhei sem dificuldade  – havia ainda bem poucos visitantes. Explorei e conheci o local, os estandes, editoras presentes, os preços, mas tentei ainda não me deter muito em um, queria primeiro ter uma visão geral. No antigo centro de convenções, a área dos estandes ocupava dois ou três pavilhões. Agora, tudo estava em apenas um só ambiente, de enormes proporções, que abrigou os quase cem estandes e expositores.



Pouca movimentação na área dos estandes nos primeiros dias de Bienal do Livro

Este ano, decidi logo de cara que compraria poucos livros. Em 2010, impulsionado pelo gosto literário que aflorava em mim, além dos bons preços e oportunidades, cheguei a comprar mais de cinquenta. Grande parte desse material, porém, pouco folheei ou sequer abri. Isso me fez repensar a real necessidade desse ou daquele livro, e adotar uma nova postura este ano. Claro, a falta de espaço nas estantes também ajudou nessa decisão!

Pessoas reconheciam os livros e expositores nas primeiras horas do evento

Por ser o primeiro dia, os corredores e estandes estavam ainda bastante vazios, o que me deu boa liberdade para reconhecer toda a amplitude do ambiente. Fui de um extremo ao outro, identifiquei um café a uma canto, sobre um piso de madeira, no que depois descobri ser uma espécie de réplica da Praça do Ferreira. Muitos estandes me chamaram a atenção por oferecerem livros por R$10,00, um preço bem mais convidativo do que muitos que lembro ter visto dois anos atrás. Comprei alguns já nesse primeiro momento, já pondo em prática, porém, a nova conduta na escolha dos livros, focando em biografias ou ensaios, gêneros que tenho lido bastante ultimamente, e ainda assim com um pé atrás, para não comprar mais do que precisaria. Dada a dimensão do lugar, não queria me demorar demais em uma editora, queria conhecer o máximo que pudesse. Após andar pela feira por cerca de uma ou duas horas, comecei a sentir já um certo cansaço mental, por conta de tantos livros que de uma maneira ou de outra tinham interagido comigo, seja pegando para folhear, lendo a orelha ou apenas o título. Virando a cabeça nos mais variados ângulos, para ler os volumes nas prateleiras mais inacessíveis, enfim, tudo isso acumulado gera um bom cansaço mental. Percebi que mal vira metade dos expositores, e que seria mesmo impossível ver assim tudo de uma só vez, e que mesmo ao longo dos dez dias de Bienal, me parecia difícil poder afirmar que vi tudo. Ouvi muitos comentários similares de pessoas que passavam por mim, tais como: "vamos ver também os outros estandes, se ficarmos muito em um, não veremos mais nenhum" ou "por hoje já chega, amanhã viremos de novo". Partilhando de ambos os pontos de vista, decidi sair do centro de eventos, já pertinho das 22h, horário em que a Bienal se encerrava diariamente.



Revistas também eram destaque de muitos expositores, a preços bem acessíveis, apesar de De Niro parecer discordar disso

Nessa hora, ainda cheguei a dar uma olhadinha no show da Gal Costa, uma vez que as portas que levavam a ele estavam abertas. Durante toda a Bienal ouvi dizer que a distribuição de ingressos, que foi gratuita, foi bagunçada e mal feita, mas neste que foi o primeiro show, não percebi assim tanta euforia. Gal Costa parecia já estar prestes a finalizar o show, e bem perto do palco havia um grande público, mas a maioria das cadeiras do enorme saguão estavam vazias. Até agora me pergunto se tudo aquilo lotara quando o show tinha começado, ou se a confusão com os ingressos foi mesmo a partir dos shows seguintes.

Show de Gal Costa fechou o primeiro dia, mas as cadeiras vazias pareciam chamar mais atenção

Nos dias seguintes, procurei ir à Bienal sempre que possível. Passei um tempo desvendando a programação, tentando encontrar algo interessante, mas ela não facilitava. Felizmente, sabia de antemão das palestras que com certeza gostaria de assistir, de Ignácio de Loyola Brandão e Márcia Tiburi. Uma grata surpresa dessa edição da Bienal foi que meu irmão, Diego Akel, participaria do encontro de ilustradores, que também traria a presença da ilustradora Rosana Urbes, amiga de Diego, que viria de São Paulo, como convidada. Eu já conhecia Rosana como animadora, de minhas idas ao Anima Mundi, mas ainda não como ilustradora, e esta foi uma boa oportunidade. Sua obra é encantadora. Li um livrinho ilustrado por ela durante a palestra e fiquei maravilhado com seu traço, livre, solto, mas forte e preciso. Podia-se sentir facilmente que os personagens estavam vivos.

Ilustrações de Rosana Urbes, vida que salta do papel


Quanto às editoras presentes, havia até algumas novidades, além das que estão tradicionalmente na Bienal daqui; Premius, Paulinas, Livro Técnico, Editora Escala, entre outras. Me decepcionei, contudo, com a ausência de um expositor da L&PM Editores. Uma de minhas editoras favoritas, de Porto Alegre, ela esteve presente recentemente na III Feira do Livro Infantil aqui de Fortaleza. Ainda estou para entender a razão pela qual não esteve na Bienal – fez falta.






Um dos pontos mais agradáveis de se transitar durante a Bienal do Livro, foi uma passarela que havia exatamente acima da área dos expositores, e conectava um mezanino a outro. De lá de cima, era possível ter uma bela visão panorâmica de toda a extensão do lugar, que adquiria, daquela perspectiva, um ar altivo e nobre, com todas aquelas luzes e cores. Era também excelente para se tirar fotografias, um perfeito retrato que representava muito bem a Bienal. Desde o início, porém, notei que ela oscilava quando passava pelo meio. Estranhei, mas deixei para lá. Ao longo dos dias seguintes, passei por ela várias vezes, em trânsito ou apenas para contemplar a visão, porém em um dos últimos dias da feira, tive uma surpresa. Um segurança veio falar comigo, em um momento que estava tirando algumas fotos para postar aqui. Ele disse que ali era apenas para ida e vinda. A princípio não entendi, achei que fosse apenas um comentário solto, mas depois percebi a que ele se referia: não era para ficar parado na passarela. O segurança confirmou quando lhe perguntei. Achei isso um absurdo, por várias razões; não havia nenhum tipo de aviso para não ficar parado no meio da passarela e, convenhamos, era justamente de lá que se obtinha a melhor visão da feira (de onde tirei as duas fotos acima). Era algo até muito natural, que caso quisessem mesmo evitar teriam feito a passarela fechada, ou melhor, reforçado sua estrutura. Comecei então a pensar que haveria o risco de ela ceder, caso muitas pessoas se reunissem ali por muito tempo. E foi bem isso que disse ao segurança, dizendo ainda que ali é um local que já chama a atenção por si só e que é praticamente impossível evitar parar nela por algum tempo. É curioso ainda lembrar que a própria organização da Bienal fez fotos lá de cima para a divulgação oficial, e para isso com certeza tiveram de parar por lá uns minutos. O segurança ficou meio atrapalhado, sem saber o que dizer. De fato, esses detalhes não competem a ele, e sim a quem projetou a tal passarela. O máximo que ele pôde dizer era que levaria o que eu disse aos responsáveis. Depois desse ocorrido, fiquei imaginando que ele ainda teria muito trabalho, alertando as demais pessoas que com certeza ainda parariam lá para fotografar ou contemplar. Enquanto caminhava pela feira, olhei algumas vezes, lá debaixo, para essas pessoas, me perguntando: será que o segurança vai entrar em ação de novo?

A passarela era um bom destaque do local, apesar de ser 'apenas de ida e vinda'

Já algo bastante desagradável, que aconteceu várias vezes até, foi perceber alguns expositores parcialmente fechados, meio que lacrados, em dias de grande movimento. Apurei um pouco com as pessoas próximas e descobri a causa daquilo: roubos. A entrada nesses estandes passou a ser controlada, de pessoa em pessoa, sob os olhos atentos dos atendentes, que lutavam para administrar todo aquele entra-e-sai.

Os shows de música foram por si só um destaque a parte. Com ampla divulgação (bem mais que as programações literárias), nomes como Zeca Baleiro, Humberto Gessinger e a dupla Palavra Cantada levaram multidões à Bienal, pessoas que chegavam horas antes, muitas vezes até acampavam nas proximidades para garantir os ingressos – que eram distribuídos gratuitamente. Pelo Facebook, onde era feita boa parte dessa divulgação, percebi um grande número de reclamações no que diz respeito a esse ingresso gratuito. Pelo que entendi, cada pessoa tinha direito de até 2 ingressos, e muitos reclamavam só estar recebendo um. Como não fui a nenhum deles, não sei o que procede ou não nesses casos, mas o fato é que, tirando o show inicial de Gal Costa, todos os demais tiveram públicos massivos, a julgar pelas filas descomunais.

Minutos antes do show do Palavra Cantada, que reuniu um dos maiores públicos do evento

Ao longo de todos os dias que fui à Bienal, percebi certas peculiaridades no ambiente que demonstravam que talvez o local, o centro de eventos, ainda não estivesse preparado para receber um evento desse porte. Era comum as escadas rolantes pararem de funcionar, assim sobrecarregando os elevadores, e quando as escadas voltavam, ainda por cima presenciei vezes nas quais ambas estavam para a mesma direção. Quem estava em baixo só subia, quem estava em cima, não tinha como descer. Engraçado que ninguém parecia notar essa confusão.

E passada a empolgação inicial dos primeiros dias com o ambiente novo, notei também o quão estreitas e apertadas eram os corredores entre os expositores, praticamente do mesmo jeito que eram no antigo centro de convenções. Com isso, nos últimos dias de Bienal, o fluxo intenso de pessoas preencheu rapidamente toda a área transitável, tornando a experiência da feira cansativa e desgastante, uma vez que era preciso cavar um caminho para andar entre tanta gente.





Movimento intenso nos últimos dias de Bienal fazia lembrar do antigo Centro de Convenções. 

Em meio a toda a imensidão do centro de eventos, com toda a vasta programação da Bienal, era preciso, claro, haver local para lanches e refeições. Para isso, havia uma área próxima à entrada dos expositores, todo um outro saguão, onde fora montados restaurantes e lanchonetes. Ali era possível se refazer tranquilamente, em um ambiente aprazível e confortável. Já entre os estandes, era comum achar lanches rápidos, como pipocas, churros e chocolates. Havia ainda um café especial montado especialmente para a Bienal, em meio a uma decoração que lembrava a Praça do Ferreira, até com uma réplica do relógio. Tinha tudo para ser um dos melhores espaços da feira, inclusive acontencendo ali algumas das atrações previstas, mas pelo que vi o local não foi bem aproveitado.




Constava na programação que algumas entrevistas e conversas aconteceriam em um certo Café Java. Fiquei, desde então, me perguntando onde seria o tal café, uma vez que não havia sinalização ou indicação na programação impressa. Foi apenas na altura já da metade da feira que, sentando nesse café que citei no parágrafo anterior, olhei para cima, avistando os alicerces do teto do café, onde li: "Café Java". Ora, afinal ali era o bendito Café Java! Mas que mistério! A letra, além de pequenina, era quase tão escura quanto a madeira que a sustentava, como se a ideia fosse mesmo dificultar sua localização. Bem ao lado das mesas, ficava o balcão para se fazer os pedidos, e ao lado deste um banco que de cara percebi um certo destaque, como se ali fosse acontecer algo grandioso. Um ou dois tripés com microfones podiam ser vistos na frente do banco. Não foi difícil depois perceber que esse era o local reservado para as entrevistas e conversas. Imaginei logo: "Puxa, mas tão em cima do caixa, e tão apertado nesse cantinho, mal vai se fazer perceber em dias de grande movimento".

Em 2010, um dos melhores espaços da Bienal, ainda no centro de convenções antigo, foi justamente o Café, intitulado naquele ano "Galo de Ouro", em homenagem à Raquel de Queiroz. O espaço, fechado dos expositores, trazia uma atmosfera única, reservada e acolhedora, também para as palestras e lançamentos de livros que lá ocorriam. Lembro até hoje das ótimas palavras de Emir Sader, que lançou um livro lá e que tive o prazer de acompanhar, por acaso, quando estava por lá lanchando (veja aqui). Agora em 2012, era notável que esse novo espaço do café perdera nitidamente um pouco do brilho. O clima de praça era bom, mas aberto demais, muito suscetível ao enorme vozerio comum ao resto do ambiente, assim não consegui imaginar como seria possível assimilar bem qualquer tipo de atividade que acontecesse lá. No decorrer da Bienal, vi algumas vezes o banquinho ocupado, com uma ou duas pessoas, que falavam sobre temas literários. Os microfones cumpriam bem seus papéis, e as vozes iam longe, embora entrecortadas demais, e mesmo perto do Café, já não pude entender bem o que era dito. Até mesmo o grande escritor e pesquisador cearense Sânzio Azevedo teve uma participação naquele espaço, que lotou completamente. Olhando de longe, porém, não consegui dizer se todo aquele movimento era mesmo para sua fala ou apenas para o caixa do Café. Enfim, o Café Java foi um espaço agradável, mas um pouco aquém para oferecer o que tentou oferecer. Um lado bastante positivo, de qualquer maneira, é que ele conseguiu tornar tudo mais informal, mais ligado às pessoas, as aproximando e atraindo do mundo literário.



Um outro detalhe bem chato foi a dificuldade de localização dos expositores. Era comum passar por um, gostar e pensar "depois volto aqui" e acabar jamais o encontrando novamente. Certo dia passei horas rodando em busca do estande da Escala. Teria ajudado muito um mapa localizador, ou na entrada do saguão, ou mesmo impresso no folheto com a programação. O máximo que havia eram placas que nomeavam cada 'rua' com um nome de um dos homenageados da padaria espiritual. E mesmo tais placas não chamavam muita a atenção, podendo até talvez nem ser notada pelos mais desligados.

Com ampla variedade, os expositores eram bem frequentados, embora alguns fossem difíceis de se localizar

O tema da homenagem também acho que passou um pouco aquém do que poderia ter sido. Relembrar e homenagear a Padaria Espiritual, agremiação literária criada há 120 anos, foi interessante, principalmente àqueles que ainda não conhecia a história de tão importante manifestação em prol da literatura (como eu) mas acho que faltou mais incentivo a conhecer o movimento. Tudo bem, havia painéis com informações sobre Antônio Sales, Lopes Filho, Tiburcio de Freitas e os demais que compunham o grupo, mas faltava chamar mais a atenção, realmente atrair as pessoas para conhecerem a história da Padaria e do periódico O pão. Em 2010, a homenagem à escritora Rachel de Queiroz conseguiu, mesmo sem tanto alarde, agregar bem mais interesse e repercussão ante o evento. A máxima central da Padaria, que dizia que a literatura era o melhor alimento para a alma, acabou não sendo bem aproveitada.

Além da Padaria Espiritual, Luiz Gonzaga e Jorge Amado também eram lembrados em painéis espalhados pelos corredores

Mas talvez o maior de todos os problemas da X Bienal Internacional do Livro tenha acontecido justamente fora do centro de eventos, no estacionamento, se é que posso chamá-lo assim. Desde o primeiro dia, quando o taxista que me deixou, por preguiça, praticamente na calçada, ainda na rua, dando a desculpa que não sabia como entrar, percebi que algo estava errado. O estacionamento, que ficava logo à entrada do centro de eventos, não tinha qualquer sinalização, tampouco segurança; não havia guardas para acompanhar o entra e sai de carros, conduzir toda essa movimentação. O resultado era uma total bagunça no fluxo de entrada e saída. Nos dias de grande movimento, era muito comum motoristas estacionarem fechando outros carros, ou mesmo acessos importantes da via. Nestes momentos, era quase cada um por si, uma vez que ninguém parecia muito preocupado com os outros, apenas com uma vaga para por e tirar seu carro.

Curioso ainda foi ver os próprios taxistas que faziam ponto no local reclamarem da péssima organização no estacionamento do centro de eventos. Sem orientação, os carros fechavam passagens e dificultavam a entrada e saída dos veículos, gerando uma confusão sem qualquer medida preventiva, como guardas ou sinalização. Um dos taxistas ainda provocou, ao dizer que os policiais ficam só lá dentro, passeando, alheios ao trânsito no estacionamento. A causa para a falta de orientação e sinalização seria que o local ainda estava esperando licitação, mais uma razão para supor que o centro de eventos ainda não está preparado, efetivamente, para eventos deste porte.

As vagas também eram um problema, principalmente para quem chegava à noite, não encontrando lugar para estacionar, sendo forçado a rodar até encontrar. O engraçado é que há um estacionamento especial, que dá direto dentro do centro de eventos, mas cujo acesso (que fica no túnel que dá acesso ao centro) está fechado desde que este foi inaugurado. Também pelo que ouvi dos taxistas, este estacionamento extra teria três mil vagas, e seria um conforto para todos os visitantes, uma vez que já desenboca nos domínios do centro, além de deixar o fluxo mais livre no outro estacionameno. Mas aí vem a pergunta: por que a entrada no túnel continua fechada? Talvez também estejam esperando mais uma licitação...

Durante e após a Bienal, li algumas reportagens nos jornais locais, nas quais as pessoas reclamavam dos preços dos livros. Discordo. Boa parte das editoras oferecia livros em conta, acessíveis, porém era preciso mesmo se dedicar na busca de achar algo bom. Nesse ponto, conheço pessoas que preferem comprar o livro pelo preço de livraria a se sujeitar a revirar livros bagunçados por horas.

Livros promocionais, constantes em muitos expositores, mas sujeitos à disposição em querer revirá-los

Tirando esses pequenos contratempos, que acho que são, de uma maneira ou de outra inevitáveis a qualquer evento, a Bienal para mim foi excelente. Só de poder contar com um evento como esse, dedicado à literatura – e de morar perto – já foi uma grande satisfação. A Bienal terminou se destacando por misturar teatro, música e literatura, de uma maneira envolvente e dinâmica. Muitos dos expositores se dedicaram à literatura infantil, o que trouxe um número incrível de crianças para a feira, e mesmo bagunçada e mal orientada, a pluralidade de atrações também foi um ponto a ser lembrado. Ainda, pelo que vi, era notável o número de pessoas com sacolas, às vezes em ambas as mãos, o que demonstrava que as vendas iam muito bem.

Quanto à enorme caminhada que tive de fazer na primeira vez, depois fiquei sabendo que todos que estavam indo de ônibus tinham que fazer o mesmo percurso. Pensando nisso, imagino que seria muito mais viável ter a entrada da Bienal na parte frontal do Centro de Eventos. Talvez eu não tenha desfrutado tanto da programação, como em 2010, mas as palestras de Ignácio de Loyola Brandão e Márcia Tiburi foram reveladoras. Inclusive, elas serão tema de postagens futuras, que estarão por aqui em breve.

Bom, deixo por aqui esse texto, já começando a imaginar como será a próxima Bienal, em 2014. Muito obrigado a todos que leram até aqui!


segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Balada do Guarda-Roupa


Fotos: Diego Akel e Denis Akel

Nossa, fazia já um longo tempo que não me envolvia tão diretamente na produção de uma animação, ao ponto de que já quase não me lembrava do quão intensa é essa experiência! A última vez ainda tinha sido em 2009, quando fiz, ao lado de meu irmão, Diego Akel, o curta Golpe Postal. De lá para cá, tive várias ideias para futuros projetos, como Polígonos e outros, mas me vi mais tragado ao mundo literário, e segui na medida do possível, colaborando com ideias e sugestões nos trabalhos que Diego fez depois do Golpe.

Planejamento demais, muitas vezes, leva à estagnação. Talvez seja bem por isso que alguns de nossos projetos ainda não caminharam tanto quanto gostaríamos. A Balada do Guarda-roupa, porém, contraria completamente essa maré. O filme, inicialmente, surgiu quase sem nenhum planejamento, assim de um lampejo, tão intenso que praticamente só nos demos conta do que tínhamos feito quando o finalizamos. E querem saber? Talvez, afinal, essa seja a melhor maneira de trabalhar. Fazer as coisas sem se dar conta de que as estamos fazendo.

Balada do Guarda-Roupa tem sua origem direta na música que embala todo o filme, "Bm Klezmer", da banda americana The Underscore Orkestra. Diego me disse que sempre quis fazer um trabalho tendo já uma trilha sonora como guia, e que há tempos estava de olho nas músicas desta banda. Até que certo dia, em uma de nossas muitas madrugadas insones, ele descobre esta bela composição. Pronto, estava dado o primeiro passo. Diego desde já teve a certeza: faria um filme com aquela música. Ele entrou em contato com o pessoal da banda, uma vez que já tinha visto no site do grupo que as músicas estariam disponíveis sob licença Creative Commons, e uma vez plenamente autorizado, deu início então à produção do filme.

Inicialmente, a ideia era usar brinquedos, animando-os em stop motion de acordo com a trilha sonora. Seria uma interpretação livre da música. Os brinquedos seriam dispostos como uma bandinha, cada um com um instrumento musical, representados por canetas, tampas, objetos que juntos lembrassem violinos, sanfonas etc. Nós guardamos aqui ainda muitos brinquedos, remanescentes de uma infância que até hoje lembramos com grande apego, seria uma boa utilização para eles, afinal.

Com o passar dos dias e evolução do projeto, Diego, que me pôs a par dessa ideia, decidiu que não usaria mais os brinquedos, pois isso demandaria mais tempo, para recolhê-los, prepará-los, e aí então animá-los. O que o ajudou a tomar essa decisão foi quando ele, por acaso, se deparou com um cinto e um pente, e percebeu nesses objetos mais do que eles aparentemente representam. Diego viu ali, de alguma maneira, a imagem de um violino. O filme começava a tomar uma guinada diferente. Eufórico, Diego correu para os guarda-roupas aqui de casa, e pegou o que pôde. A ideia do violino foi aprimorada quando ele viu alguns cabides, e sua imaginação foi tratando do resto. Saiam de cena definitivamente os brinquedos, para dar espaço àqueles objetos tão comuns, tão do dia-a-da, que acabariam tendo bem mais o que dizer. Ao perceber a grandeza e unidade de um cinto, visto sob a perspectiva não de acessório, mas como objeto a ser animado, Diego tem então a visão nítida do que usar para fazer seu filme. Cintos, roupas, sapatos, cabides, e assim os objetos foram, naturalmente, se juntando ao elenco da produção. Foi ainda nesse momento de redescoberta que ele teve a ideia do título do filme, Balada do Guarda-Roupa, um nome que até então ainda era provisório, mas que à medida que víamos o desenrolar das cenas, se encaixava muito bem na proposta, bem como na música.



Toda essa concepção inicial do filme surgiu, ainda por cima, sob a ideia louca de finalizá-lo a tempo de enviar para o Anima Mundi (para a categoria Anima Multi, competição de animações online) desse ano, cujo prazo terminaria em cerca de uma semana a partir do ponto que começamos, ou seja, teríamos apenas sete dias para concluir o filme! Era algo tão absurdo de imaginar, que preferíamos evitar pensar nisso, e ir começando a produzi-lo.

O filme inteiro foi animado no NUCA, Núcleo de Cinema de Animação Casa Amarela Eusélio Oliveira. Diego tinha feito por lá, recentemente, uma vinheta para o festival de animação MUMIA (veja aqui), usando o equipamento local, que consiste em uma truca profissional de animação, um aparato muito eficiente no meio, que permite afixar câmera, níveis de altura, entre outras coisas. É ótima pela praticidade com que torna o trabalho do animador. Já com alguns trabalhos feitos nessa truca, Diego teve a ideia de fazer o Balada nela, onde teria boa liberdade para mover os objetos, boa iluminação, além, é claro, da assistência do também grande animador Josimário Façanha, que trabalha na instituição.



Em meu primeiro dia no filme (um dia após o início oficial da produção), reunimos todo o material interessante que encontramos. Trouxemos de nossa casa cintos, pentes, colares, anéis, fivelas, muitas roupas, e ainda pedimos outras tantas emprestadas aos colaboradores, além de cabides e o que mais pudessem trazer. Colocamos tudo isso numa mesa, bem ao lado da truca. O ambiente reservado é ótimo para trabalhar. Foi colocada uma base de madeira sobre a superfície da truca, ajustadas as duas luzes laterais, que cuidariam da boa iluminação do filme, posicionada a câmera, preparado o notebook que faria a captação das imagens (usamos o software Dragon Frame) e pronto. O resto agora cabia aos objetos, ao que nós faríamos deles.

Caos ordenado; algumas das roupas e acessórios que usamos no filme

Diego já tinha feito uma cena no dia anterior, animando dois cintos, a primeira cena do filme, e agora teríamos que continuar a partir dela. Um dos maiores desafios era a questão da duração da música, que tinha cerca de 5 minutos. O filme teria que ter praticamente a mesma duração, então tínhamos que ter cuidado com cada cena, com cada ritmo e batida, com o efeito que queríamos passar com os objetos, que de certa forma deveriam representar aquela melodia. Diego, até o final das quase duas semanas que levamos para terminar o curta, ouviu exaustivamente a música, tendo-a praticamente decodificado. Ele sabia com rigoroso controle onde começava e terminava cada trecho, e isso lhe moldou para que fosse aos poucos montando todas as cenas.

Ao longo de todos esses dias, do fim de maio ao começo de junho, nossa rotina na Casa Amarela foi bastante intensa. Quando chegávamos em casa, já à noitinha, Diego ia tratar as inúmeras fotos que tínhamos (eram cerca de 300, 400 por dia) e começar a montar o filme. Com o tratamento de cores, era visível a vida que as imagens ganhavam, e agrupadas junto à música, já era possível ter uma prévia de como estava ficando o trabalho. Assistíamos várias vezes, tanto em casa, como sempre logo que chegávamos à Casa Amarela, nas manhãs seguintes. Era uma maneira de reorgarnizar nossas ideias, e nos preparar para as cenas que faríamos naquele dia. Isso foi algo tão marcante para mim que sempre que vejo os primeiros 20 ou 30 segundos do filme, lembro vivamente de quando os via, ainda na salinha da truca, em um destes momentos de que falei. 

Inicialmente, as cenas eram relativamente calmas, ainda estávamos desenvolvendo um ritmo, enquanto aprendíamos como trabalhar com aqueles objetos. Animar anéis, pente e cintos era divertido. A liberdade era enorme; criávamos padrões e movimentos próprios, como o efeito do cinto saindo pelo braço da camisa ou entrando pelo bolso da calça, de maneira a sempre buscar uma interação entre os elementos que tínhamos.







Os momentos onde a música crescia, se intensificava, foram propícios para cenas rápidas e totalmente livres. Poucos frames, que criavam um pequeno caos, um delírio que confundia ao mesmo tempo que encantava, tal como a música. Nos divertimos muitos nessas cenas, que eram feitas rapidamente, justamente por não haver muito planejamento nelas. 

As roupas foram, por si só, quase um capítulo à parte. Possibilitaram uma extensa variedade de texturas e cores, que renovavam e transformavam o filme em muitas das transições. Era engraçado ver calças, camisas, gravatas, e manipulá-las daquela forma. Animar é, sobretudo, dar vida, e só quando estamos lá, interagindo com tudo, que percebemos o poder que temos nas mãos.







Criar pequenas sequências com os objetos também foi uma constante. Às vezes, estabelecíamos mais ou menos movimentos para eles, quase como criando uma pequena narrativa muda, e animávamos. Claro, acontecia sempre pequenos imprevistos e a animação caminhava para um lado não pensando, mas não menos interessante. Os objetos, de certa forma, nos diziam como queriam ser animados.




Durante boa parte das cenas, usamos uma folha de madeira como plano central, que possibilitou que girássemos o plano livremente, tornando possível uma nova variedade de transições e interações entre os objetos. Com as funcionalidades da truca, podíamos ainda aproximar ou afastar a altura da câmera, fechando ou abrindo o plano, tornando todo o conjunto de cenas ainda mais pulsante e feroz.

Nos revezávamos constantemente; enquanto um animava, o outro ficava a cargo de captar as imagens, usando um pequeno controle que acionava a câmera. Desse modo, o animador da cena teria sua atenção inteiramente voltada para ela, sem ter de precisar se deslocar para acionar o botão a cada foto tirada. 




Quanto à animação em si, aconteceram algumas coisas engraçadas. Inicialmente, eu iria apenas dar um suporte a Diego, mas à medida que fui me aprofundando e entendendo o que o filme parecia pretender, me soltei a ponto de pensar em algumas ideias e planejamentos de cenas. Comentava-as com Diego, que aprovava com a cabeça e no segundo seguinte eu já estava diante da truca, animando o que pensara. Nossa visões, apesar de parecidas, se diferem bastante em muitos aspectos, como se pode observar ao longo do filme. Enquanto Diego prima pelo caos e inquietação em suas cenas, característica forte em seus trabalhos, eu me sinto mais à vontade animando padrões geométricos, ou de alguma maneira simétrica, criando oposições de cores ou formas. Ambas essas estéticas se completaram muito bem, de acordo com os momentos do filme, da música. 




A visão própria de cada animador engrandeceu o filme, gerando um harmonioso choque de pontos de vista

A técnica do stop motion consiste em se tirar foto após foto, movendo um pouco os objetos entre uma e outra imagem. Agrupadas, as imagens criam a ideia do movimento, e nasce a animação. É uma técnica fascinante, mas requer grande paciência e capacidade de improvisação. Paciência porque muitas vezes passamos horas e mais horas para produzir meros segundos animados. Improvisação para momentos onde não conseguimos fazer algo do jeito que imaginamos. Neste trabalho, cada objeto tinha sua peculiaridade, tínhamos que aprender como poderíamos animá-los, entendê-los. E mesmo assim, algumas cenas não ficavam bem como pensávamos. Felizmente, desses "erros" saiam também valorosas surpresas.













Um detalhe curioso, que surgiu sem muita preparação, foi o incrível efeito que obtivemos com as sombras dos objetos, acentuadas pelas luzes amareladas. Tivemos o cuidado apenas de equilibrar a iluminação, para que as sombras ficassem mais ou menos com o mesmo volume. Como resultado, toda a fotografia do filme se beneficiou deste aspecto.

Sombras e iluminação, detalhes que acabaram fazendo toda a diferença

A sanfona é também um outro trecho bastante interessante do filme, e da música. Diego já tinha pensando em como conduzi-la ainda desde quando pensava em usar os brinquedos, com lápis de cor e afins. Com a mudança no material usado, no momento que ele pegava algumas roupas para o filme, percebeu o curioso efeito que se fazia ao esticar o tecido. Nascia ali a sanfona! Foi uma sequência de certa dificuldade de execução, onde Diego teve que literalmente meter as mãos na massa, mas cujo resultado criou aquela que muitos consideraram a melhor cena do filme. O movimento cadenciado, quase uma dança, mostra toda a vivacidade que queríamos passar.




Para cobrir a duração da música, e também poupar algumas horas de trabalho, alguns planos foram repetidos, em momentos precisos, como um complemento adicional. O pouco tempo que tínhamos limitou um pouco a elaboração de novas sequências, e como tudo flui muito rápido, essas breves repetições acabam por criar alguma unidade. Ainda, muitas cenas tiveram de ser cortadas da versão final, por não se encaixarem devidamente no ritmo. É um processo difícil, porém necessário, esses pequenos cortes, muitas vezes de cenas que pareciam tão promissoras.



Como já disse, uma coisa muito bacana do Balada foi a liberdade que tivemos para animar, justamente por não haver um roteiro pré-estabelecido. Claro, tínhamos um pequeno planejamento das cenas, mas só com base nos frames que cada uma teria. O que aconteceria em cada uma era pensado na hora. Ouvir novamente a música era sempre um ótimo impulso criativo, para clarear as ideias. Além de mim, Diego e Josimário, contamos ainda com a participação de outros dois animadores: Clayton Bochecha e Maurício Nunes. Na verdade, Clayton inicialmente faria mais registros de bastidores, mas foi rapidamente contigiado pelo espírito do filme. Maurício veio à cidade para o Cine Cieará. Bastou uma breve passada na Casa Amarela, para Diego, convidativo, lhe dizer: "Não quer animar um pouquinho?" Ele riu, dizendo que já temia essa pergunta e no segundo seguinte já estava debruçado sobre a truca. 

Eu e Josimário Façanha, em uma das muitas sequências onde roupas e objetos se misturam

Clayton Bochecha e Diego Akel, em esforço mútuo para convencer os cintos a ficarem na posição adequada

Após uma semana intensa, produzindo e animando diariamente o filme, percebemos a loucura onde havíamos nos metido. O prazo limite do Anima Mundi já quase batia à nossa porta. Tínhamos feito muita coisa, claro, cerca de dois ou três minutos, mas ainda faltava uma fatia considerável. Mesmo que ficássemos os próximos dias direto animando, não daria tempo, uma vez que ainda teríamos pela frente todo o processo de edição do filme. Diego então recorre a perguntar se por acaso o festival vai adiar um pouco o prazo de inscrições, dizendo que algo em torno de uma semana seria ideal. E qual não foi nossa surpresa com a resposta: o prazo foi adiado em uma semana! Continuamos então, em ritmo acelerado, agora já perto da etapa final.




Nos últimas dias de produção na Casa Amarela, porém, já sentíamos o cansaço, que invariavelmente se acumulava dos dias anteriores. Já olhávamos para os objetos com certa repulsa, a criatividade parecia ter se esgotado, não sabíamos mais como conduzir as cenas. Os olhos, já pesavam, o corpo, de tanto ficar em pé, refletia em dores musculares o esforço empreendido. Bem exatamente no último dia, tudo isso se intensificou, a ponto de passarmos da hora na Casa Amarela (geralmente saíamos de lá às 17h). Dessa vez, tínhamos que ficar lá até terminar aquela parte do filme, a captação de imagens, pois no dia seguinte, já o último do prazo, seria dedicado à edição. 

Os planos finais do Balada trouxeram os sapatos como elemento novo. Foi muito divertido lidar com eles, e integrá-los ao que já tínhamos. Mas após alguns planos, não era fácil manter o fôlego. Diego sentou-se e me disse que estava difícil. Disse a ele que já estávamos quase lá, que já tínhamos feito muito, agora bastava um último esforço, e fui com passos decididos para a truca, onde comecei a tentar bolar outra cena. Diego, motivado, retomou em seguida, para fazer a cena final, que envolvia praticamente todos os objetos que usamos no filme, em uma salada de cores e formas, uma cena caótica que somente ele poderia fazer.






A cena final, que mostra o suposto guarda-roupa se fechando, e meio que engolindo tudo, foi pensada e feita um dia antes. Na realidade, usamos um pequeno baú, colocado de lado, para criar o efeito de guarda-roupa. Os detalhes na fechadura e entalhes na madeira ajudaram a criar uma composição, dando tanta força para a cena que a consideramos a melhor para fechar o filme, apesar de ser rápida e brusca, quase como se a ordem afinal se fizesse após o caos.

Com essa primeira parte terminada, Diego assumiu, literalmente sozinho, as etapas finais, de edição e finalização. Tratar as imagens, montá-las para compor as cenas, criar a relação com a música. Um processo que foi até divertido, uma vez que a partir dele víamos o filme realmente ganhar forma e corpo. Já a finalização, que englobava exportar o filme pronto, foi um parte complicada. Por ter grande variação de cores e texturas, o arquivo final ficava muito pesado, comprometendo o computador. O resultado disso foi que a qualidade de imagem sempre ficava um pouco abaixo do esperado. Diego lutou como pôde para criar uma versão com qualidade aceitável, que foi a que seria disponibilizada para o Anima Mundi (postada no Vimeo) e seria a versão usada para participar do Anima Multi, categoria do festival com filmes de internet.

Para deixar esse post ainda mais completo, pedi a Diego que escrevesse algumas breves linhas sobre o filme:

O Balada do Guarda-Roupa foi um filme que, ao mesmo tempo que saiu num estalar de dedos, teve um processo instintivo, solto mas ao mesmo tempo intenso e complexo. O filme é, acima de tudo, a prova viva pra mim de que temos que agir direto do nosso instinto, fazer as coisas do jeito que achamos que deve ser, e adaptar todo o nosso entorno a isso. Acreditar mesmo no que achamos certo.

Trabalhar com outras pessoas sempre é fantástico, e tenho aprendido mais a cada trabalho como os colaboradores podem agregar tanto a algo que inicialmente só existia na sua cabeça. Trabalhar com o Denis sempre é algo que flui naturalmente e nos diverte muito. Apesar de nos parecermos muito, nossa abordagem animando é bem diferente, e isso se complementa muito bem no filme, tanto que fizemos os dois a direção de animação, combinando realmente como os planos iriam fluir. Josimário e sua abordagem tranquila mas concentrada sempre é uma presença que traz muita segurança na hora da animação, com o seu apoio, atenção aos detalhes e facilidade de se adaptar instantaneamente ao processo, seja ele qual for. Tive ainda as presenças rápidas mas precisas de Clayton Bochecha e Maurício Nunes, que deram sua participação ao filme.

O filme, no fim das contas, fluiu de uma forma bem natural e foi feito em um espírito livre. Da melhor forma que muitas coisas podem ser feitas, como sempre conversamos Denis e eu: terminar antes de se dar conta que se começou. E penso ainda que não dá para teorizar nem fazer muito juízo sobre o filme antes ou durante o processo; melhor fazer primeiro e deixar isso pra depois, se é que nós vamos fazer algum julgamento. Talvez seja melhor deixar essa tarefa para os outros.


Tampamos parcialmente as luzes, para fazer o plano final do filme, criando a ilusão de que tudo realmente estava sendo guardado no 'guarda-roupa'.  



Em julho desse ano, Diego foi para o Rio, para acompanhar a vigésima edição do festival. O Anima Mundi celebrava vinte anos de existência. Diego, além de acompanhar a programação do evento, e rever os amigos, participaria ainda com o curta Maria da Glória (na categoria Galeria), além do Balada. Em casa, fiquei me interando dos demais filmes que concorriam no Anima Multi. Essa categoria consistia em filmes feitos para a internet. Uma vez selecionados, os filmes ficariam disponíveis para o público assistir e votar em seu favorito. Assisti a todos os outros, e vi muitos muito bem realizados, dignos de talvez ganharem a votação. Igualmente, havia também algumas produções meio limitadas e de certa forma mal finalizadas. Em todo caso, já era um prazer figurar entre os vinte selecionados, dentre todos os que foram enviados. Votei, comentei com amigos, divulguei nosso filme como podia, nesse grande emaranhado que são as redes socias, e a expectativa, à medida que o dia do resultado se aproximava, era grande, embora não quisesse alimentar grandes esperanças prematuras. Vejam os filmes que participaram do Anima Multi aqui.

Houve ainda a feliz supresa de eu também ir ao festival, no fimzinho de julho. Pude acompanhar os últimos dias do Anima Mundi 2012, além da cerimônia de premiação. Só que, no último dia, sem muita explicação, a divulgação dos ganhadores deste segmento do festival foi adiada. Como acontece todo ano, o Anima Mundi tem edições no Rio e em São Paulo. O resultado que esperávamos só seria divulgado no último dia de lá. Ficamos desapontados, mas não havia o que fazer. Diego, porém, decidiu esticar sua viagem, e foi para SP, em parte, somente para acompanhar o desfecho dessa situação. Voltei para casa, onde fiquei acompanhando o que acontecia por lá, e já começava a esboçar essa postagem. 

Balada do Guarda-Roupa acabou não ganhando prêmios. Claro, ficamos um pouco inconformados no início, mas depois percebemos que o filme já ganhara muita coisa, e que nós, sobretudo, fomos 'premiados' simplesmente por tê-lo feito em tão curto tempo. Desde a concepção da ideia, da produção em si, todas as etapas tiveram seus desafios. E ainda, sempre nossa maior motivação foi terminá-lo a tempo de enviar para o evento, ser ou não ser premiado seria apenas consequência. 

Todo o tempo que investimos nesse filme nos ensinou que é possível, sim, fazer coisas acontecerem sem muito planejamento, sem muito preparativo, quando se tem um ideal e determinação. Quantas não são as ideias e projetos que são interrompidos, por extensos e muitas vezes desnecessários planos? Como eu disse no início desse texto, procuramos fazer o filme sem pensar muito, agindo de maneira solta e livre, apesar, claro, de depois, na parte da edição, ser necessário um controle maior e mais rígido para melhor lapidar a versão final. 

A sensação de ver um filme finalizado é sempre gratificante. E se tratando de animação, talvez seja ainda mais. Ver cada cena que fizemos, com tanto esmero, reunidas, é algo indescritível. Ainda que tudo passe incrivelmente rápido, e muitos detalhes sequer sejam vistos ou assimilados, sentimos cada cena, em cada transição, em cada  frame, ao lembrar de como foi fazê-lo para que ficasse daquele jeito. Com igual força, também vem à cabeça coisas como "Nossa, conseguimos mesmo!" ou "Puxa, fizemos mesmo isso!". Isso tudo talvez nos faça pensar que muitas vezes nós mesmos não acreditamos no que podemos fazer, e é justamente aí que talvez esteja nossa maior limitação.

E para finalizar, o filme concluído: