Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

FLIP 2015 (II – As mesas que assistimos, parte 3/3)



Fotos: Denis Akel

Finalmente retomando as postagens deste blog! Muita coisa aconteceu desde a última vez que publiquei aqui; de viagens de trabalho a perdas na família, um verdadeiro turbilhão de fatos, de modo que tudo arrastou bem mais do que eu imaginava a continuação desta série sobre a FLIP. Mas é preciso seguir em frente, continuar, o blog não pode parar. Então vamos lá.

Para esta terceira e última parte do post dedicado às mesas que assistimos, durante nossa passada pela FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, destaco mais algumas mesas relevantes, com autores que estava esperando, e também algumas surpresas não planejadas. Como de costume, algumas das muitas fotos que fiz permeiam o texto, para dar uma melhor dimensão de tudo. Sigo ainda mantendo a continuidade, ou seja, todos os fatos que narro aqui, aconteceram logo depois dos do post anterior da série.

MESA: DO ANGU AO KAOS

Ao deixarmos as zonas das tendas, após a mesa De micróbios e Soldados, fomos caminhar pela orla de uma praia que havia pertinho dali, a praia do Pontal, a poucos passos além do local onde estava concentrada a Flip. Era interessante também, além de aproveitar a festa literária, conhecer um pouco a cidade e suas imediações, pelo menos aquelas mais perto de nós, uma vez que o tempo era apertado. De lá, voltamos à pousada, nos preparar para voltar à tenda logo mais à noite. Nesse meio tempo, outras mesas aconteceram por lá, mas como eu bem disse ao longo dos posts anteriores, era praticamente impossível acompanhar tudo. Assim, tornamos a tempo de assistir à mesa Do Angu ao Kaos, que trouxe Marcelino Freire e Jorge Mautner.

Um dos autores que eu mais conhecia do quadro de convidados desta edição, o pernambucano Marcelino Freire seria um dos destaques desta última mesa do dia, que segundo Paulo Werneck, curador da Flip, ocupava a faixa boêmia da programação, proibida para menores, no horário das 21:30. Chegamos às proximidades do telão por volta desse horário, já encontrando boa parte das cadeiras ocupadas. Como em todas as noites, fazia um friozinho considerável, que nos motivava sempre a usar agasalhos. Conseguimos alguns lugares muito atrás do telão, quase no limite das cadeiras de plástico. Era mais uma vez incrível ver tanto movimento, tantas pessoas tão características, parecia quase que estávamos em outro país.

Marcelino Freire lê seu conto "Da paz"


Marcelino falou, entre tantos assuntos, de seu livro Angu de Sangue, que completou 15 anos em 2015, de suas origens como escritor e inspirações para escrever. Sempre com sua oratória forte, densa, contracenou com Jorge Mautner uma mesa de temas distintos e característicos, como a crise no país, política, neurociência e até de Roberto Saviano, escritor italiano apresentado como o maior destaque desta edição da Flip, que cancelou de última hora a vinda ao Brasil."[Roberto] Saviano disse que não veio porque o Brasil é um país arriscado. As pessoas aqui queriam abraçá-lo e beijá-lo. Não veio, problema dele!", disse o escritor pernambucano.

Eu escrevo para me vingar – Marcelino Freire

Dita novamente na mesa, gosto muito do impacto da frase acima, uma das mais tradicionais de Marcelino, que demonstra que a escrita pode e deve ser usada como ferramenta de indignação, como forma de protesto, um protesto que começa silencioso, mas que ecoa alto. Um ideal poderoso, firme, uma não conformidade, um desvio. Sim, acho que já se pode ter uma ideia do que seria esse tipo de vingança. Um dos momentos mais significativos, para mim, foi a leitura de seu conto "Da paz". Ainda não o tinha lido ou escutado, e ouvir antes de tudo a história de sua concepção da boca do próprio autor foi muito especial.

O vídeo abaixo, de uma entrevista de 2014, transmite um pouco o que digo.



O áudio na íntegra da mesa Do Angu ao Kaos pode ser ouvido aqui.

ROBERTO BRESSANE NA CASA SESC

Sábado, 04 de julho, penúltimo dia da Flip. O dia mais "temido", por todos dizerem ser o dia de maior movimento, e de fato, a quantidade de pessoas na cidade, no centro histórico, praticamente triplicara em relação aos primeiros dias. Centenas e mais centenas cruzavam as ruelas, aventuram-se pelas pedras traiçoeiras e se encantavam com toda aquela atmosfera criada pelo evento. Acordamos cedo, para aproveitar bem o dia, que prometia ser bastante longo. Tomamos um generoso café da manhã, e nas mesas vizinhas o clima era só literatura. Os demais hóspedes falavam de Herman Hesse, Sidarta Gautama, o Buda e da obra o Lobo da Estepe. Eram assuntos comuns ali, como o capítulo da novela ou o resultado do futebol.

Durante a Flip, o jornal O Globo publicou alguns pequenos cadernos diários sobre o evento, e felizmente nossa pousada sempre dispunha de um desses logo cedinho. Foi assim que durante este mesmo café da manhã, nos deparamos com uma matéria, sobre palestra do escritor Roberto Bressane. Ainda não tinha ideia de quem era Bressane, mas à medida que fui lendo, me interessei de imediato. Segundo a matéria, o escritor, que tinha passado por um período de três meses morando em Paraty (fruto de um prêmio de residência literária do SESC), explorou um outro lado da cidade, saindo do glamour do centro histórico e vivendo a realidade dos bairros mais humildes e desfavorecidos.

Era sem dúvida muito relevante ter consciência deste outro lado da Flip, de uma realidade sempre presente na cidade, mas oculta pelos holofotes da festa literária. Assim, fiquei muito curioso para ouvir o que Bressane diria, uma vez que ele tinha se inspirado nas pequenas histórias do dia-a-dia, na observação da cidade, para concluir seu livro. Seria um prato cheio para mim, que também tenho buscado muito este tipo de observação, quando escrevo. Assim, deixamos a pousada já com a garantia de que o dia começaria bem agitado.





Passamos rapidamente pela tenda dos autores, dando uma paradinha no telão, onde naquele momento acontecia a mesa Turistas Aprendizes, que até parecia boa, mas resolvemos priorizar a fala de Bressane, e tornamos na direção da Casa Sesc. Foi um pouco difícil nos orientarmos, pois ainda tínhamos ido pouco ali, mas nada que uma olhadela no mapa não resolvesse. Chegando diante do lugar, fomos surpreendidos por algumas pessoas do lado de fora, e ao tentar entrar, nos informaram que o local já estava com lotação máxima, restando esperar naquela fila para caso alguém saísse. A fala parecia já ter começado, pois ouvi uma voz ecoando no interior da casa, e vi de relance dezenas de pessoas lá dentro. Funcionários do SESC explicaram que aquele local era mesmo pequeno, com capacidade para poucas pessoas, e que uma nova sede estava em construção, lá mesmo no centro histórico. Ficamos de mãos atadas, e não tivemos escolha a não ser aguardar na fila. Eles nos deram ainda alguns brindes, e tornamos então a ela.

Fiquei um pouco chateado por não conseguir entrar. Aquela palestra era um dos diferencias do ato de se estar na Flip, em comparação a apenas acompanhá-la pela internet. Provavelmente não a teria disponível online depois, era uma coisa de momento, daquele momento tão somente. Mas como eu bem sabia desde quando vi a extensa programação pela primeira vez, seria mesmo muito difícil conseguir assistir a tudo o que gostasse. Ainda ficamos uns minutos na fila, na esperança de que haveria ainda oportunidade, tal como aconteceu na palestra de Luiz Ruffato e João Carrascozza, na qual entramos quase no último instante. Mas dessa vez, havia já várias pessoas na nossa frente. O desejo de ouvir Roberto Bressane foi então se diluindo. Entreouvimos as pessoas comentando que era a primeira vez que acontecia aquilo, de lotar o espaço, e percebemos que todos estavam indignados. "Todo mundo tem um argumento plausível para querer entrar", disse uma moça na fila, dando a entender que ninguém deveria ter mais prioridade que ninguém, demonstrando estar talvez até insatisfeita com a fila em si. Após uns minutos, nos quais não vimos nenhuma das pessoas ali fora ser chamada, decidimos ir embora.

A matéria completa publicada no jornal pode ser lida aqui.

Foi no caminho de volta, na mesma reta, a poucos metros dali, que acabamos por descobrir, porém, uma outra programação, que estava longe de estar planejada, mas que surgiu como excelente surpresa, para preencher aquele vazio momentâneo.

MESA - DUPLA AUTORIA: ESCREVER E ILUSTRAR O LIVRO INFANTIL (CASA ROCCO)

Na mesma rua do Sesc, encontramos este espaço que até então não tínhamos visitado ainda, a Casa Rocco. Nos aproximamos, curiosos, e vimos logo à entrada um cavalete que destacava a programação que haveria ali, quase como um cardápio de restaurante. Olhamos então a variedade dos "pratos" oferecidos. Ali haveria, ainda, uma outra palestra que me interessava, com Frei Betto, escritor e frade dominicano brasileiro, reconhecido por suas obras com enfoco no ativismo social, além de inúmeras obras literárias. A palestra seria nesse dia, sábado, mas não me recordava bem a hora. Por alguma razão, acho que uma confusão nos horários, acreditei ser naquela hora, 11 da manhã, e entramos. Pensei "perdi uma mas pelo menos encontrei outra igualmente boa".



O local era uma estrutura similar ao da Casa Folha, ou seja, um amplo casarão do centro histórico, com seus janelões e decoração tradicional, que abrigaria as palestras dos autores da Rocco, bem como a venda de seus livros. O salão principal estava disposto de dezenas de bancos, cadeiras e almofadas, onde logo todos que chegavam começaram a se sentar. Ficamos observando o ambiente, à expectativa do início da conversa. Apesar de ter alguns livros de Frei Betto, eu ainda nunca o tinha visto, de modo que não sabia se ele já estava ali ou se ainda era esperado. Acabamos por ficar em pé mesmo, nestes momentos iniciais. O lugar encheu rapidamente e logo não havia mais onde sentar. E nem sinal de Frei Betto.

Surgiram então duas pessoas, um rapaz e uma moça, bem sorridentes, e logo tomaram os lugares centrais, em frente a uma mesinha onde havia uma pilha de livros. Naquele momento tive a certeza de que não seria a palestra de Frei Betto. Estavam ali Paula Browne e Alexandre Rampazo, dois autores, dois ilustradores. O frade dominicano, como informaram na hora, teria sua palestra somente às 17h. Aquela portanto seria a mesa Dupla Autoria: escrever e ilustrar o livro infantil. Como já estávamos ali, e percebendo o aparente potencial do vindouro debate, decidimos ficar.

Paula e Alexandre conversaram, mediados pela também escritora Manon Bourgeade. Falaram sobre suas experiências como autores e ilustradores de livros infantis, trazendo à tona referências, vivências, memórias e diretrizes sobre seus processos criativos. Uma conversa agradável, em tom informal, com um público atento e interessado. Debrucei-me sobre meu celular para tomar notas do que conseguisse. Seguem algumas dessas colocações:




O texto e a imagem são o mote da história. Tudo vem muito do diálogo, da criança, do adulto, todos têm tiradas ótimas. Mas muito também vem da imagem. – Paula

A zebra tem um forte mote visual – Paula

O infantil é menos rígido, te permite liberdades, como pôr asas de borboleta numa camisa sem que a criança se sinta boba, pois tudo é lúdico para ela – Paula

Antes de começar a trabalhar, varro a casa e lavo a louça. Uma professora das belas artes dizia: fique atento aos ruídos. A louça diz muita coisa. Fiz um pinóquio por acaso com uma xícara e caneta. A imagem te alimenta muito, na autoria. Um exercício criativo: pegue objetos inusitados, como um pegador e uma chave de fenda e crie uma história onde eles se relacionem – Alexandre

Não lembro o primeiro livro que li, lembro de imagens, de uma página colorida, de três cores – Paula

Ao falarem sobre referências e primeiras leituras, Alexandre citou o livro Cadeiras Proibidas, do escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão (um de meus autores favoritos, aliás), como um livro que o surpreendeu, por sua ampla densidade imaginativa. Achei muito legal eles mencionarem livros que os marcaram, é sempre bom conhecer referências, o que despertaram, despertam e despertarão. Ainda não li o livro citado mas desde este momento me interessei por ele.
Imagem: Google

Quando terminei de ler Cadeiras Proibidas pensei: dá pra escrever desse jeito. Uma literatura que me pegou muito pelo seu caráter absurdo. Daqui conheci mais esse mundo fantástico, na minha infância. O repertório que te alimenta logo mais vai fazer parte da sua obra. – Alexandre

O brincar de boneca te permite um exercício do imaginário. São as primeiras histórias que criamos, sem nos darmos conta. É isso que se faz quando se cria uma história. – Paula

Deve-se fazer uma pergunta a quem quer ilustrar: o que você quer ilustrar? Por quê? Qualquer um pode ilustrar, não há limitação. É preciso, além de tudo, aprender a desaprender – Paula

A ideia do livro infantil pode gerar reflexão tanto para a criança como para o adulto, criar um canal entre os dois públicos. – Paula

Não tenho interesse de escrever para adulto. Gosto de todo o jogo que o livro infantil permite. É legal pensar que o público infantil passa pelo público adulto e que esse público também precisa imensamente desse gênero. – Paula




A sensação de ficar perdido numa livraria, em meio a tantas lombadas de livros: uma sensação de estar perdido, já há tanta coisa feita. Livros de criança ou adolescente para mim são simplesmente livros, temos que fugir dessas limitações. Não há medidas de certo e errado, é pra criança ou não, pra mim o que funciona é a história. Uma história que te encante, pode ser Ulisses ou Harry Potter. – Alexandre

Não existe preconceito. Não se deve pegar um lindo livro ilustrado e limitá-lo às crianças. – Alexandre

Público em peso lotou as dependências da Casa Rocco


O não saber ilustrar é relativo. O livro já está ilustrado na sua cabeça – Alexandre

Um ilustrador é um co-autor, ele não vai somente ilustrar. A leitura do ilustrador é de co-autor, ele vai dar sua visão para o texto, que pode diferir totalmente do texto. – Alexandre

Na hora de ilustrar, muita coisa muda, o texto muda a imagem, a imagem muda o texto. Quando se é autor e ilustrador ao mesmo tempo, tudo é variável. – Paula

Como autor, é preciso entender o perfil do seu texto para ver qual editora melhor o aceitará – Alexandre


Alexandre citou o artista francês Moebius como uma de suas principais referências visuais

Se preocupe em escrever uma boa história, a sua melhor história, independente de quem for ler. – Alexandre

Acredite na sua verdade, faça o melhor mas não se desconecte do mundo, do mercado, de como isso se conectará às pessoas. – Paula

Os livros europeus trazem o nome do autor e do ilustrador. Nos brasileiros, isso dificilmente se vê, apenas o autor do texto. Está errado, o ilustrador é co-autor da história. – Alexandre



Após pouco mais de uma hora, o bate-papo chegou ao fim, sob aplausos sorridentes. Uma conversa muita rica, múltipla, na qual descobrimos esses dois talentosos artistas, cujas obras refletem suas inventividades criativas. Conseguimos ainda trocar umas palavras com Paula, que nos foi muito simpática e acessível. Elogiamos seu trabalho e ganhamos alguns adesivos de seus personagens. Demos uma breve olhada nos livros de ambos e então deixamos o lugar, satisfeitos. E pensar que esse momento estava longe de ser planejado, surgiu assim de um acaso, da troca dos horários da palestra de Frei Betto, para se tornar um dos momentos mais agradáveis do dia! É como disse ao longo dos textos anteriores, devemos estar abertos ao inesperado, ao que surge sem programar, às surpresas que a vida nos reserva, sempre.

ALGUMAS OUTRAS MESAS DESSE DIA

À tarde, fomos acompanhar um pouco das mesas no telão do lado de fora da Tenda dos Autores. A movimentação de pessoas era assombrosa. Era um sábado de muito frio, chegando até a chover um pouco, o que em nada atrapalhou o andamento da festa – pelo contrário, lhe deu um ar ainda mais agradável. Vimos um bom pedaço da mesa De balões e blasfêmias, focada em HQs, que trazia os cartunistas franceses Riad Sattouf, Plantu e o brasileiro Rafa Campos. Diego, meu irmão, estava curioso para conferir o trabalho do brasileiro, e de quebra conhecer um pouco dos franceses, assim, assistimos de lá de fora, sem os fones de ouvido mesmo (era possível usá-los ali, mas não quisemos), de modo que aproveitei para treinar meu francês.


Guarda-chuvas desabrocharam na plateia do lado de fora da tenda


Jean Plantureux, o Plantu, foi sem duvida um dos destaques da mesa. O artista falou sobretudo de maneiras para que a arte possa contornar a intolerância, focando os incidentes do Charlie Hebdo. Citou a Cartooning for Peace, grupo que ajudou a fundar para dar proteção a cartunistas, bem como visar um melhor entendimento entre diferentes culturas e credos. Plantu ainda arranjou tempo para fazer caricaturas de seus colegas de mesa enquanto conversava, o que deu um tom bem próprio à discussão.

Conhecemos ainda um pouco da obra O Árabe do Futuro, de Riad Sauttof, que falou também das origens e referências deste trabalho, que é além de tudo uma obra autobiográfica. Com um traço simples e leve e uso de cores chapadas e contrastantes ao longo dos capítulos, Riad conta sua história de vida, de sua infância, de quando viajou com os pais da França à Líbia, de uma maneira profunda e ao mesmo tempo bem humorada.

O Árabe do Futuro/ Imagem: Google


Quanto a Rafa Campos, este ficou um pouco apagado, achamos sua participação um pouco aquém, com pouca presença, e uma obra que parecia não ter uma identidade. O cartunista falou pouco, comentando a respeito de religiões e ideologias, que foi invariavelmente o tema central da mesa.

O aúdio na íntegra da mesa De balões e blasfêmias pode ser ouvido aqui.

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Já no período da noite, acompanhamos a mesa Desperdiçando Verso, com Arnaldo Antunes e Karina Buhr, um debate que incendiou leituras vigorosas no palco. A mesa focou temas como o feminismo com muito bom humor, graças às risadas de Karina. Arnaldo leu trechos de seu livro Agora Aqui Ninguém Precisa De Si, sendo muito aplaudido. Karina também declamou poesias. No fim, Arnaldo convocou a plateia para todos cantarem versos de seu novo livro.

Acho que a poesia é um veículo de resistência à estagnação da sensibilidade – Arnaldo Antunes

Foi uma mesa bem interessante, mas um pouco espalhafatosa demais. Extremamente lotada, ficamos o tempo todo de pé. Além de poetas e autores, estavam ali sobretudo dois astros da música, razão pela qual deve ter havido tanta lotação. Mesmo faltando meia hora para o final, já havia gente formando a fila dos autógrafos! Isso me fez pensar: teria "vantagem" quem estava ali fora, com relação a quem estava dentro da tenda, podendo assim ficar melhor colocado na fila?

O aúdio na íntegra da mesa Desperdiçando Verso pode ser ouvido aqui.


Lotação máxima na última mesa do dia. Arnaldo Antunes e Karina Buhr foram os destaques


CASA SESC – A IMAGEM QUE CONTA – ROGER MELLO, LOURENÇO MUTARELLI 




E nasceu o sol do último dia da Flip 2015, 5 de julho, um domingo. Foi incrível como tudo passou tão rápido, e ao mesmo tempo pareceu durar tanto. Para esse último dia de festa, programamos poucas coisas, para que pudéssemos usufruir mais livremente da cidade e seus encantos, ainda dentro do clima do evento. Uma coisa muito importante também era dormir, e nos permitimos algumas horas a mais, uma vez que a primeira palestra seria apenas às 11h.

Nosso interesse maior na palestra vindoura era a presença do escritor e ilustrador Lourenço Mutarelli, o qual admiramos bastante, por conseguir passear por várias áreas artísticas, num desdobramento gracioso, mantendo ideais e estilos, ante as ferramentas que cada linguagem lhe fornece. Seja nos desenhos, nos livros e até como ator, Mutarelli parece extrair muito bem do meio onde está, dedicando-se integralmente a ele. Eu não tinha ideia de que ele estaria na Flip, foi mais uma das boas surpresas que descobrimos, ainda nos primeiros dias, enquanto folheávamos e marcávamos os muitos folhetos que tinhamos recebido. Era um encontro que certamente queríamos acompanhar.

Havia, claro, o risco de não conseguirmos entrar de novo, de o local já estar cheio, ainda mais com tanta gente na cidade, mas arriscamos, quem sabe o que mais não poderia acontecer. No trajeto até o SESC, pudemos ver uma movimentação já bem acentuada nas ruelas do centro histórico, bem mais do que qualquer outro dia naquele horário. O último dia da Flip traria o auge de público, milhares de pessoas, espalhadas em todas as programações da festa. Chegamos com alguns minutos de antecedência, e dessa vez conseguimos adentrar o casarão, mas dezenas de outras pessoas já tinham feito isso antes de nós, e vimos já praticamente todas as cadeiras e espaços dedicados ao público ocupados, pelos menos os que ficavam próximo ao pequeno palco destinado ao debate.

O local era claramente improvisado. Disseram novamente, como nos falaram na entrada da mesa de Roberto Bressane, no dia anterior, que um novo SESC estava sendo construído, que ali estava sendo mesmo algo adaptado, uma vez que a pequena infra estrutura não fazia frente às muitas pessoas que certamente apareceriam.





Umas quinze ou vinte cadeiras estavam dispostas à frente do palco, todas ocupadas. Ao lado, havia uma ala aberta do prédio, que dava para um espaço arborizado, no qual foi montada uma espécie de livraria, com livros dos autores que passariam por ali, ao longo de todo o período da Flip. E felizmente neste espaço, onde havia um café, havia também alguns bancos e cadeiras, que logo foram usados como assentos extras pelo público da palestra. Nós chegamos bem a tempo de garantir dois, e nos apertamos junto aos demais, que se esforçavam para ver a palestra através das janelas.

Além de Lourenço Mutarelli, a conversa se daria também entre os artistas visuais Roger Mello e Joana Cesar. O trio já estava prestes a iniciar os temas, quando Joana sentiu-se mal e teve de deixar seu lugar, definitivamente. Restou portanto conduzir o debate sem ela, apenas com Lourenço e Roger. O foco da palestra seria o uso da linguagem visual, como dizer algo através de imagens, partindo das obras e pontos de vistas dos autores convidados. Como eles enxergavam o mundo? Como fluíam suas ideias? Até que ponto seus traços podiam expressar mais do que palavras?




Mutarelli e Roger revezaram declarações, falando de suas rotinas, seus pensamentos, sua relação com a imagem. De onde estávamos mal conseguíamos vê-los. De quando em quando ambos mostravam desenhos no que imaginamos ser uma enorme televisão no alto da parede, pois para nós só chegava uma imagem embaçada e entrecortada pelos padrões da janela. Em suma, era uma mesa sobre a imagem, na qual, ironicamente, não tivemos quase imagem nenhuma. Felizmente o som dos microfones e a acústica estavam bons, e foi possível pegar um pouco da essência do que foi dito. Não lembro o nome do mediador (não consta no folheto de programação) mas fez uma ótima mediação. Abaixo um pouco do que consegui extrair da conversa:

Desenho para mim é meio sem elaboração. Separo um pouco a escrita do desenho, quando estou escrevendo, não desenho – Mutarelli

O macaco é um símbolo muito importante da minha vida – Mutarelli

Criança gosta de ter medo – Roger

Rosto, cabeça, orelha... as partes do livro são também partes do corpo humano, como se o livro desejasse ser humano – Roger

Ilustrador e artista plástico são coisas bem diferentes. O ilustrador não tem muito tempo, sempre precisa enviar seu trabalho. O artista plástico pode estudar uma parede por meses – Mutarelli

Adoro a palavra rabisco, dizem para não usá-la, mas adoro – Roger

O rabisco é uma forma de pensamento – Mutarelli

A viagem é a possibilidade de você fazer anotações, principalmente no aeroporto. É um lugar onde tudo está em movimento – Roger



O despreparo do lugar era notável. De onde estávamos não víamos quase nada da tela que exibia os desenhos dos dois, pelo contrário. O reflexo das janelas na frente da tela lhe davam uma textura permanente, de modo que até víamos a imagem, mas sempre alterada por essa intervenção indesejada.

A arte não é amiga ou fã da beleza, e sim da estranheza, da provocação – Roger

O Brasil é um país de imagem, mas de imagem viciada, as pessoas estão viciadas. Temos que prestar mais atenção às imagens, conhecer melhor museus e principalmente crianças, pois elas já têm uma visão mais ampla da imagem, e os adultos as reprimem. – Roger

Marcelino Freire juntou-se ao público, e mal entrou deu sorte de encontrar um banco vazio. Sentou-se. Logo percebendo o calor, tirou o casaco. Quando uma cadeira vagou, à sua frente, mudou-se de imediato para ela. E o mesmo se repetiu, quando a cadeira à frente dessa ficou livre. Logo ele estava bem diante do parapeito da janela, e imaginei que se pudesse, pegaria ainda a próxima cadeira, janela adentro, caso essa também liberasse. Contudo, agora ele parecia mais preocupado em folhear as páginas de um jornal, lendo notícias da Flip.

Respeito a criança quando desenho, faço sobretudo pensando em mim, mas eles gostam de medo, de terror. – Roger

Com o fim desta mesa, demos mais uma andada pelo centro histórico, apinhado de gente. Lojas, pousadas, bares, tudo cheio, caótico. Era hora do almoço, e rodamos bastante até conseguir achar um lugar tranquilo, e razoavelmente barato, para comer. Tínhamos tempo, nosso próximo compromisso seria somente às 16h, no encerramento da Flip, na mesa Livro de Cabeceira. Aproveitamos ainda para visitar algumas lojas de artesanato e espaços como a Casa Folha, que fechariam mais cedo nesse dia.


Ruas do centro histórico de Paraty, nos últimos dias da Flip 2015




MESA: LIVRO DE CABECEIRA

A última mesa da Flip. Fiz questão de incluí-la em nossa programação – para assistir de dentro da tenda dos autores –, ainda no primeiro dia em que compramos os ingressos, pois sua tradição a fazia, na minha concepção, uma mesa obrigatória para uma primeira experiência do evento. A mesa Livro de Cabeceira é um segmento bem tradicional da Flip. Nela, parte do elenco de autores convidados se reúne para compartilhar seus livros preferidos, lendo-os diretamente para o público; uma maneira de conhecer um pouco mais dos autores, e ainda uma oportunidade de interagir com Liz Calder, a inglesa criadora da Flip, que comumente faz a mediação desse encontro.

Sabia, como já disse várias vezes aqui, que não conseguiria acompanhar toda a programação da tenda principal, como fazia em casa (pela internet), por conta da gigantesca programação paralela com a qual nos deparamos tão logo chegamos à Paraty, então imaginei que esta mesa seria uma chance de observar escritores cujas mesas centrais não tínhamos visto, como o queniano Ngũgĩ wa Thiong'o e o irlandês Cólm Tóibín.


Intensa movimentação minutos antes da última mesa da Flip 2015. A diversidade de pessoas era cada vez maior.

Quando chegamos já havia uma fila considerável formada, claro, e logo a adentramos. Dentro da tenda, procuramos lugares mais próximos ao palco. Desta vez, diferente da mesa Micróbios, eu não registraria nada no momento, me limitando mais a apreciá-lo, a vivência em si, e não abri caderno ou celular. A experiência de entrar na tenda também já não impressionava tanto como no início, onde subir aqueles degraus e procurar uma cadeira parecia quase um ritual sagrado. Desmistificado, era tão somente um auditório, eu agora já percebia, sem toda a carga de ansiedade do início do evento.




Dezenas de pessoas lotavam os arredores da tenda central

Os fones de ouvido, sabia que seriam uma das coisas que mais me chamariam a atenção, nesta mesa. A princípio, usá-los, brincar entre os canais tradutores, ouvir em inglês, espanhol, francês, tudo isso foi divertido e inovador, para quem estava acostumado a fazê-lo apenas com um clique do mouse. Contudo, quando se tratava de funcionalidade, vi que os fones não eram bem o que eu esperava: em nenhuma das três vezes que estive na tenda consegui aumentar o volume do áudio. O botão parecia solto, dançando de um lado para outro, evitando meu dedo. Havia ainda muita interferência, mas o pior mesmo era o estado dos fones: muitos estavam danificados, desgastados, e davam a entender que a produção não os testava entre uma mesa e outra (ou talvez entre um dia e outro). Sei que são muitos, mas é um detalhe importante.

De imediato, me chamou a atenção também as inúmeras poltronas dispostas no palco, meio separadas por cores. O público começou a tomar seus lugares. Sentamos meio à esquerda do centro, e observando o grupo de poltronas coloridas à frente, imaginei que Liz Calder sentaria numa que parecia mais à esquerda, um pouco separada das demais, para assim mediar aquele encontro. Logo surgiu novamente Paulo Werneck, curador do evento, apresentando a mesa e alguns dados estatísticos desta edição. Ele disse ainda que haveria uma menção ao escritor Roberto Saviano, que não estava presente, ao final da mesa, para fechar a Flip com chave de ouro. Em seguida, chamou ao palco Liz Calder. A inglesa agradeceu a todos por mais aquela edição da festa literária e chamou os oitos escritores que logo preencheram as demais poltronas ao seu lado, eram eles: Ayelet Waldman, Cólm Tóibín, Diego Vecchio, Carlos Augusto Calil, Marcelino Freire, Ngũgĩ wa Thiong'o, Matilde Campilho e Richard Flanagan.



Os autores então começaram suas leituras. Esta mesa sempre me deixa curioso para saber o que cada um deles lerá, qual obra, qual autor consideram importante para destacar neste desfecho. Desta vez, entre eles, ouviu-se Virginia Woolf, James Joyce, Flaubert, Samuel Beckett e até o próprio Mário de Andrade, o autor homenageado desta Flip.

Foi muito bom ver a bela interação entre todos que compunham a mesa. Todos únicos, diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Apesar de não falarem a mesma língua, falavam literatura, e esse espírito os unia. É difícil de tentar explicar, mas ver aquela cena, com Marcelino Freire ao lado do escritor queniano, dois comportamentos distintos, mas que de alguma maneira se completavam, foi muito profundo.

O australiano Richard Flanagan embala o público com Guimarães Rosa

Mais do que prestar atenção propriamente ao que cada um lia, preferi focar nessa curiosa simbiose cultural. A maneira específica com que liam, com que ouviam, o modo como colocavam o fone de ouvido, tudo era fascinante de se observar. Todos esses detalhes eu provavelmente já pudesse observar de casa, da tela do computador, mas estar ali, diante dos fatos, sem dúvida fez a diferença. Era possível sentir aquela vibração, os movimentos, as expressões, tudo, que também acabava por convergir para o encerramento da festa. Mesmo tendo perdido todas as mesas na tenda central deste último dia, esta última foi uma grata compensação, uma excelente forma de ter uma visão geral, pelo menos daqueles autores.

O queniano Ngũgĩ lê George Lamming

Um dos momentos mais comentados da mesa foi a leitura feita por Marcelino Freire, que declamou um poema da moçambicana Noémia de Sousa, falecida em 2002, ainda pouco conhecida aqui no Brasil. O texto Súplica faz parte do único livro publicado por ela em vida, Sangue Negro. Marcelino, com sua habitual graça oratória, encantou a todos, arrancando efusivos aplausos do público e comentários dos colegas ao seu lado. Esta leitura despertou a atenção para a poetisa, que segundo Marcelino pode ser considerada a mãe dos poetas moçambicanos.

Para alguns, a mesa Livro de Cabeceira talvez não pareça ter tanta relevância quanto as demais mesas da tenda central, por ela não ter exatamente um tema base ou uma linha de diálogo tradicional, e ser "apenas" uma série de leituras sucessivas. A meu ver, contudo, o encanto desta mesa é justamente por não ter compromisso claro, por ser quase uma hora de relaxamento. Os autores que dela participam já tiveram seus momentos, e estão quase como num recreio, onde terão apenas de fazer algo que para eles é um grande prazer: ler. E prazer maior ainda quando o fazem em voz alta, partilhando aquele livro, aquela leitura que lhes é tão especial. É como conhecê-los um pouco mais, descobrir seus receios, suas virtudes, seus reflexos através daquelas palavras. O brilho da mesa Livro de Cabeceira vai muito além de "apenas" leituras sucessivas.

OBSERVAÇÕES PARALELAS (DESTA MESA)

Bem ao meu lado, sentaram-se uma moça e um rapaz, um casal, talvez. Eles pareciam muito interessados. Ela manteve um bloquinho de anotações no colo durante todo o debate, e bastava os autores mencionarem o título da obra que leriam, ela (ou ele) os anotavam com imediata avidez, como números de um sorteio milionário. Engraçado é que ambos usavam lápis.

Essa mesma dupla, antes da mesa iniciar, conversava bastante e, como não poderia ser diferente, uma conversa muito rica, sobre livros, obras literárias. A princípio, essas conversas paralelas eram fascinantes mas reconheço que a essa altura elas já ficavam um pouco maçantes e repetitivas, quase como se todo mundo tivesse o tempo todo que provar que sabe algo, ou mais do que o outro.

Próximo ao final, esta mesma moça empunhou o celular, e abriu o Twitter. Ela escreveu algo relacionado à Flip, mais ou menos: "Última mesa da Flip, livro de cabeceira, sensacional. Paulo Werneck arrasou mais uma vez!" e publicou na rede social. Percebi então que ela estava acompanhando a Flip com muita vontade, realmente entregue ao evento, vibrando e deixando bem clara sua vibração. Aplaudiu tão vivamente ao fim da mesa, que chegou a ficar de pé enquanto batia palmas.

Autores se despedem da Flip 2015



MENÇÃO A ROBERTO SAVIANO

Considerado pela mídia como o maior destaque e ao mesmo tempo maior desfalque desta edição da Flip, o escritor italiano Roberto Saviano acabou tendo de cancelar sua participação no evento por questões de segurança. O autor do livro Gomorra está jurado de morte há anos pela máfia italiana. Suas obras expõe conexões da máfia e rastros do tráfico de cocaína mundo afora. Salviano disse que vir ao Brasil seria muito arriscado. "O Brasil é uma situação complexa. Espero que possa ir para lá. Mas é considerado um lugar mais arriscado que o Reino Unido, por exemplo", disse o escritor, numa entrevista sobre o cancelamento de sua participação.

No fim da mesa Livro de Cabeceira, um vídeo do escritor Roberto Saviano foi exibido. Nele, o autor lamentou não poder estar na Flip e explicou as questões políticas que o impossibilitaram, bem como diferenças entre máfia e crime organizado, dando ainda uma alerta para a situação do Brasil, onde diz haver uma máfia brasileira. Com palavras bem dosadas e inúmeros trejeitos com as mãos, Saviano expressou bem o objetivo, a importância e ao mesmo tempo o risco de seu trabalho, de se escrever sobre esses temas. Ressaltou ainda que gostaria muito de ir à Flip no ano seguinte, ou no próximo, que não desistam de chamá-lo. Exibir aquele vídeo ali, naquele momento foi uma bela iniciativa, sobretudo para dar uma satisfação ao público (A Flip devolveu o valor pago nos ingressos e teve de escalar uma nova mesa, de tema similar, para substituir Saviano).

O vídeo de Saviano tentou explicar sua ausência, mas não pareceu ter sido assim a chave de ouro que se esperava, uma vez que foi pouco aplaudido, mesmo pelos colegas da mesa. Aliás, agora, depois de passados alguns meses, enquanto eu lia e relia alguns conteúdos para escrever este texto, fiquei pensando: por que ele confirmou presença se sabia da dificuldade de se deslocar ao Brasil? Por que criar tanta expectativa em cima de algo incerto? E por que avisar praticamente em cima da hora? Será que uma semana antes do início da festa ele ainda acreditava que poderia vir? O que mudou em tão pouco tempo? Isso o italiano não respondeu. Com certeza não deve ter sido muito ruim ganhar algum destaque na mídia sem sequer ter pisado em Paraty. Começo a pensar que Marcelino Freire está certo, "Não veio, problema dele!".

O vídeo pode ser visto abaixo:



A mesa Livro de Cabeceira pode ser assistida na íntegra aqui.

E VEM O MARACATU!

O público que lotava o interior da tenda irrompeu em aplausos, Paulo Werneck agradeceu ,"Ano que vem estamos todos em Paraty!", encerrou o curador, marcando o fim da mesa. Deixamos a tenda, juntamente com a massa de pessoas. Lá fora já agitava-se outra grande movimentação: uma apresentação de maracatu, a céu aberto, que cativou a todos que por ali estavam, com seu ritmo característico. A manifestação, considerada o show de encerramento, seguiria em procissão pelas ruas do centro histórico, embalando todos no clima de desfecho do festival. Observamos de perto, no início do trajeto, que começou bem ali do lado de fora da tenda. A empolgação de todos, que começavam a dançar, as batidas dos tambores, os brilhos e cores, os muitos flashes que eram disparados, a noite que logo se anunciou. E lá se foi a multidão, acompanhando a música.

Maracatu agitou o fim de tarde do último dia da Flip 2015


E assim a Flip 2015 chegou ao fim. Nesta noite, enquanto estávamos jantando nos restaurantes do centro histórico, foi bem comum ver alguns dos escritores transitando por lá, conversando, bebendo, vivendo a intensidade da cidade, desfrutando as horas finais desta grande festa. O irlandês Cólm Toíbín foi um deles, passou por nós numa conversa animada com um amigo. Falavam um inglês gracioso, e o irlandês parecia bem à vontade no chão pedregoso. Sua empolgação era visível na expressão e na voz. Que incrível é poder ver momentos como esse, momentos de tão bela simplicidade, que se sobressaem muitas vezes às tolas formalidades.

Bom, este foi um considerável panorama de algumas das mesas que pudemos assistir. Espero ter conseguido passar um pouco do sabor que foi assistir a cada um desses momentos. A próxima postagem, penúltima dentro da série da Flip 2015, focará nos livros que comprei e deixei de comprar e em outras observações e curiosidades da festa. Até lá!

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Rumo à Fliporto 2015!



Vem aí a Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco! Um dos principais eventos literários do país chega à sua 11ª edição, que este ano homenageará o poeta português Fernando Pessoa. Após minhas incríveis experiências recentes na FLIP, resolvi também acompanhar, pela primeira vez de perto, mais esta festa da literatura, que também sempre ouvi falar muito bem. Com programação ampla, de congressos literários, feira de livros, ao melhor da gastronomia portuguesa, a Fliporto acontece de 12 a 15 de novembro no colégio São Bento, em Olinda, PE. Um dos maiores destaques é a presença da escritora Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa.

Programação completa no site oficial do evento.

Por conta desta viagem, darei uma pequena pausa nos posts da série da Flip. O próximo já está quase pronto e deve ser publicado até o fim de novembro, sobrando dois para concluir a série, em dezembro.

Vamos lá, rumo ao mundo de heterônimos de Fernando Pessoa, rumo à Fliporto!

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

FLIP 2015 (II – As mesas que assistimos, parte 2/3)


Fotos: Denis Akel

Seguindo com esta série de posts da viagem que fiz com meu irmão à Festa Literária Internacional de Paraty, em julho deste ano, vamos à segunda parte do post anterior, dedicado a algumas das mesas e palestras que pudemos assistir. Novamente, continuando exatamente do ponto deixado no post anterior, o fim da mesa Zé Kleber.

A PRÓXIMA MESA: DE MICRÓBIOS E SOLDADOS

Saímos de toda a movimentação da mesa Zé Kleber por volta das 13:30, e tivemos apenas uma pequena brecha para o almoço, antes desta próxima mesa, marcada para as 15:00. Escolhi esta mesa, De micróbios e soldados, pelo contexto que ela parecia trazer. Diego Vecchio e Sasa Stanisic, de acordo com o folheto da programação, eram dois destaques da ficção contemporânea. Em resumo, Diego transformou sua mania de doenças num livro, Micróbios. Já Sasa tinha a experiência da guerra da Bósnia recorrente em seus romances. Na Flip, ele lançaria Antes da festa, sobre um vilarejo na Alemanha que luta contra o desaparecimento e a extinção de sua memória. Parecia sem dúvida um interessante entrechoque, dois universos bem distintos, que colidiriam naquela tarde. Além de tudo, o encontro teria a mediação de Joca Reiners Teron, escritor que já conhecia de vista de outros eventos, sempre muito perspicaz em suas colocações.

Esta seria a segunda mesa que assistiria de dentro da tenda. Como disse no post anterior, comprara ingressos apenas para duas mesas, esta e a última, Livro de Cabeceira. A mesa Zé Kleber foi gratuita, e apesar de todas as mesas serem também gratuitamente transmitidas no telão na parte externa da tenda, era uma sensação única estar lá dentro, ver de perto toda aquela ação, sentir aquela pulsação, aquele frenesi. E além da mesa em si, seria possível ver e viver todo um mundo de pequenos acontecimentos; inesperados, surpreendentes, curiosos, que direi ao longo deste texto.

A FILA DOS PATRONOS

Após o almoço, e já de posse do ingresso, eu estava sossegado, mas tentei não demorar muito para garantir um bom lugar no auditório. Quando tornamos à tenda dos autores, porém, vi um movimento colossal em volta da entrada, e logo nos achegamos, ficando atrás de onde a fila parecia começar. Nesse momento vimos o que parecia ser uma outra entrada, na outra extremidade, onde também havia uma fila, menor, porém que já permitia a entrada. Descobriríamos depois que esta fila era um acesso preferencial, destinado a jornalistas e também aos chamados "patronos", que eram pessoas que tinham de alguma maneira contribuído para o evento, seja através de doações de dinheiro ou livros, e portanto tinham, entre outros benefícios, um crachá especial, direito a entrar primeiro, e por essa entrada preferencial. Havia até bastantes patronos, e sempre que víamos alguma pessoa munida daquele curioso crachá verde, ficávamos pensando o que ele significaria.




Meu irmão, Diego, desta vez decidiu não assistir na tenda, iria dar um passeio pelas imediações, respirar um pouco outros ares, e além de tudo economizaríamos um pouco de dinheiro. Depois soube que ele acabou parando no telão e assistindo um pouco, o que foi bem interessante, pois assim pudemos trocar experiências de ambos os pontos de vista. Diego ficaria ainda comigo na fila, conversando, enquanto aguardávamos a liberação de entrada. Eu estava novamente bastante ansioso, à expectativa de mais aquela mesa. Os minutos passavam, vagarosos, enquanto ali estávamos, e mais e mais pessoas foram chegando. Logo nos vimos imersos numa multidão gigantesca, um mar de gente, de vozes, de expressões, e tudo nunca pareceu tão bom, estar no coração daquele caos.

Movimentação antes da mesa. Ao fundo, a fila dos patronos e Paulo Werneck, curador da Flip, em uma entrevista





Até que finalmente escutei um barulhinho eletrônico constante, como de uma máquina registradora de supermercado, e olhei para a frente da fila, vendo algum movimento de entrada. Era tão somente o ruído da maquininha leitora de ingressos, que anunciava que a entrada fora liberada. Me despedi de Diego e segui o fluxo, à medida que consegui, entrando na portinha e subindo os degraus iluminados. Estava prestes a viver novamente um fantástico jogo de sensações.

E NA TENDA DOS AUTORES, OS FONES DE TRADUÇÃO SIMULTÂNEA

Estar no interior da tenda pela segunda vez foi uma sensação diferente. Eu não me sentia mais um estranho, como da primeira vez. Tudo parecia mais nítido, mais crível, apesar de ainda gerar intenso deslumbramento, sobretudo por agora estar sozinho, e ter de guardar minhas observações para mim mesmo. As primeiras fileiras já estavam tomadas pelos patronos. Não hesitei em procurar um lugar mais ou menos no meio do auditório, perto do palco, e o fiz rápido, pois todos pareciam querer fazer o mesmo. Uma vez sentado, armei-me de meu diário de anotações, para já começar a transformar um pouco daquelas sensações em palavras.

E lá estava eu, imerso no meio de toda aquela gente, sozinho, mas ao mesmo tempo preenchido, completo. Chamou-me de cara a atenção o fone de ouvido atrelado à cadeira, que naquela mesa teria papel fundamental. Na mesa Zé Kleber, embora não tenho sido usado, já o tinha percebido, mas não com a devida atenção. Agora, ele seria um dos astros do show, possibilitaria a tradução simultânea. Dediquei um tempo analisando o aparelhinho, conferindo o estado do fone, caso fosse preciso trocar, mas tudo parecia direito. O auditório foi enchendo, e logo a fileira na qual estava foi quase que totalmente preenchida. Mais alguns minutos depois, as luzes baixaram e o telão exibiu o vídeo em homenagem a Mário de Andrade, em seguida os anúncios tradicionais dos patrocinadores, bem como a introdução da Associação Casa Azul, órgão que é responsável pela Flip, que além de apresentar como operar o aparelhinho de tradução, sempre reforçava que não se permitia fotografar ou filmar a palestra. Desta vez, o que me chamou mais a atenção foi a parte dos controles do aparelhinho, para saber de antemão onde aumentar o volume ou quais canais correspondiam a qual idioma, uma vez que isso não ficava claro só se olhando para o dispositivo.



As luzes tornaram a acender, revelando um auditório agora quase cheio, mas ao olhar em volta, vi ainda vários lugares vazios, principalmente nos flancos da estrutura. Apesar do grande movimento do evento, ouvi comentários que esse ano não estava como nos anos anteriores, por conta da tal crise, mas falarei disso mais adiante. E lá estava de novo o curador Paulo Werneck, no centro do palco, e com um sorriso de satisfação deu boa tarde a todos e abriu mais aquela mesa, a terceira daquele dia. Paulo introduziu brevemente os convidados, Diego Vecchio e Sasa Stanisic, bem como o mediador da conversa, Joca Reiners Teron. Enquanto ele falava, peguei meu fone, para já tentar me acostumar a seu uso, foi então que aconteceu o inesperado: o fone de minha cadeira quebrou, um dos acolchoados dos ouvidos soltou-se da haste. Tentei recolocar a todo momento, sem êxito. E agora? O que fazer? A quem recorrer? Nesse momento Joca já tinha assumido a palavra e apresentava a dupla de autores, falando um pouco de suas obras e histórias de vida. Eu começava a me desesperar, imaginando já que não conseguiria ouvir nada da mesa, quando percebi o fone da cadeira ao meu lado, que estava vazia. Foi a salvação. Troquei os conectores e coloquei na cabeça. Pronto, deu certo, ouvia claramente a voz de Joca, aliás, a voz da tradutora, que o traduzia aos escritores estrangeiros.




É engraçado que sempre quando assistia a essas mesas de casa, nos anos anteriores, na tela do computador, ficava alternando entre os idiomas, sempre achando incrível o trabalho dos tradutores que em tempo real transmitiam as falas dos convidados internacionais para o português. Agora, eu podia ver a pequena guarita um pouco ao fundo da plateia, onde ficavam os tradutores, que tinham de estar sempre prontos, sempre atentos. É um lado da Flip que sempre admirei muito.



QUE VENHAM OS MICRÓBIOS E SOLDADOS

Como era costante nessas mesas, os escritores começavam lendo trechos de seus livros mais recentes, para aclimatar o público, demonstrando um pouco de suas narrativas. Era sempre um bom momento para se deixar levar por suas palavras, tentar perceber naqueles fragmentos um pouco de suas vidas, de suas identidades, um momento bastante precioso. Diego Vecchio começou a ler, e o fez diretamente de um tablet. Foi a primeira vez que vi isso na Flip, e achei uma cena bem engraçada, que mostrava a clara evolução de tudo. Já o bósnio Sasa quis ler em alemão, e o fez, direto de um manuscrito, com determinação, a mão em riste ditava o ritmo da narrativa. Ele disse que era um trecho de seu livro novo, que se passa numa aldeiazinha no norte da Alemanha, de como é incrível trazer essa história a Paraty, ao Brasil.

Vi, de onde estava, que Paulo Werneck, que não usou o fone quando Sasa começou a falar em inglês, teve de recorrer a ele, quando se falou em alemão. O curador ficava sempre ali, em cadeiras especias, quase ao lado da mesa, abaixo de um dos telões, certamente para ter uma visão geral do andamento das mesas, e para ficar a postos caso algum imprevisto surgisse. Ao lado dele, um outro rapaz que parecia seu assistente. E foi neste momento que percebi que não conseguiria focar a atenção somente na mesa, mas também no que acontecia no entorno dela. Os bastidores, a movimentação da produção, os detalhes da estrutura da tenda, a iluminação, as demais pessoas ao meu lado, tão características, tão diferentes. Gosto desses detalhes. Tudo era muito interessante de observar. O fato de eu estar sozinho favorecia essas apropriações, essa consciência, como se eu conseguisse captar uma realidade que de alguma maneira não estava visível na ocasião da mesa Zé Kleber. Com meu caderno em mãos, segui escrevendo tudo o que me inundava os sentidos, mas também tentando pegar algo da mesa em si.

Sentado, minha atenção girava entre o debate que se iniciava, ali a poucos metros, e as pessoas à volta. Novamente, como tenho observado desde cheguei a Paraty, o público da Flip é muito interessado. Muitos senhores, senhoras, mais ou menos na faixa dos 40-70 anos (que parecia ser maioria do público), ouviam, com os fones de ouvido bem presos, acompanhando a tradução com afinco, se alimentando daquilo, realmente apaixonados por literatura.



"SAÍMOS DO PAÍS ATRAVÉS DE UMA PIADA" 

Após as leituras iniciais, Joca disse ser difícil achar similaridades entre os dois autores, e brincou citando algumas bem óbvias, como o fato de serem homens, brancos, escritores. Diego Vecchio, argentino, mora na França há mais de vinte anos; Sasa, bósnio, vive na Alemanha desde os doze anos. Podia não parecer, mas havia pontos em comum, e muitos, que seriam descobertos ao longo da conversa. Um dos mais recorrentes era o fato de serem imigrantes, de terem saído de suas terras, e esse tema viria a permear todo o debate.

Inicialmente foi levantada a questão da guerra, que ambos de alguma maneira sentiram, pois eram muito novos quando eclodiram guerras significativas em seus países. Sasa contou que ao saírem da Bósnia, da fronteira com a sérvia, militares lhes pararam o carro e perguntaram se tinham armas. Isso rendeu um desfecho surpreendente

"Meu pai disse ao soldado: Sim, temos gasolina e isqueiro. O soldado riu. Foi a piada mais besta, mas fez com que ele não pedisse nossa identificação. Se tivesse pedido, veria que minha mãe tem nome árabe e a mandaria de volta para a Bósnia, onde ela não estava mais segura. Saímos do país através de uma piada tola do meu pai" – Sasa

Entre as muitas pessoas que estavam ali, algumas, como eu, faziam anotações. Achei muito legal ver essas cenas. Na fileira atrás de mim, um senhor estava debruçado sobre um caderno desses universitários e tomava notas com grande afinco, alternando o olhar entre o papel e a mesa, para não perder um detalhe. Mais ao lado, outras pessoas repetiam o ritual em bloquinhos, e era tão incrível observar essa manifestação silenciosa, a maneira como cada um buscava se apropriar daquela conversa, guardar um pouco daquilo.

OBSERVAÇÕES PARALELAS (I)

Notei, assim num golpe de vista perdido, que Sasa trajava meias azuis escuras, que davam um curioso contraste com suas demais roupas, como que destacando-o. Teria isso alguma representação? Talvez uma mania, um acaso? Ou apenas coisa da minha cabeça? Contudo, o próprio Sasa chamou atenção, não para as meias mas para seus sapatos, que segundo ele eram iguais aos de Diego, e disse entre risos que este seria mais um ponto em comum entre eles.

Percebi que apesar do aviso para desligar celular, muitos não o fizeram, e vi algumas telinhas iluminadas, alguns rostos abaixados, em meio àquelas dezenas de pessoas. Temendo alguma represália, preferi não usar, razão pela qual esse trecho está com poucas fotos, uma vez que só as tirei ao final da mesa. Percebi ainda inúmeros receptivos da Flip, de vermelho, que ficaram o tempo todo de pé, a um canto, mais atentos ao que se passava no público do que no palco. Imaginei que fosse algum suporte ao público, caso necessário. Não pude deixar de imaginar também se eles por acaso assistiam a alguma coisa da mesa.

LITERATURA X HIPOCONDRIA 

Um dos momentos mais bacanas da mesa foi toda a questão da hipocondria que revestia Diego Vecchio e seu livro Micróbios. Ele explicou de maneira geral que a hipocondria é como uma guerra do corpo contra os micróbios. Falou ainda de como se deu seu processo de criação da obra, que teve de "se tornar" um escritor hipocondríaco, fazer uma mímica com suas ideias. Durante o ato de escrita, desenvolveu sua sensibilidade com relação a doenças, projetando, aumentando sintomas, coisas assim.

O hipocondríaco é uma pessoa hipersensível às menores alterações do corpo. Doí a cabeça e já acha que tem um tumor cerebral. – Diego

Ele acredita que o hipocondríaco põe sua imaginação a serviço do corpo, do que poderia ou não acontecer nele, similar ao que fazem os escritores, que escrevem livros de maneira parecida, buscando distorcer a aparente verdade que há por exemplo no trabalho de historiadores e jornalistas.

Há um ponto em comum entre o hipocondríaco e o escritor: a imaginação – Diego

A imaginação pode ser como um vírus para um escritor. Quando se inventa historias. As histórias, os personagens, nos possuem enquanto escrevemos, e só saem quando concluímos a obra. É como literalmente adoecer. – Diego

O escritor citou ainda um desenho animado que costumava assistir muito quando era criança. Era um desenho que explicava como o corpo funcionava, no qual micróbios, vírus, células e etc eram personagens, viviam no corpo e faziam coisas. Diego disse que ficou fascinado quando o viu pela primeira vez, a ponto de cortar um pouco o dedo para ver com uma lupa o que acontecia, numa inocente curiosidade infantil.

O nome do desenho é Era uma vez a vida. Não me lembro de tê-lo visto antes, mas foi uma grande felicidade poder conhecê-lo. Uma produção França/Japão, com animação bem caprichada, personagens expressivos e sobretudo um enredo curioso e atrativo, como não se vê nas produções de hoje. Vale muito a pena assistir. No Youtube há alguns episódios, como esse abaixo:




Sempre acreditei que houvesse um mundo dentro de nós, com suas próprias leis, seus sistemas, sua maneira de lidar com as doenças e com o organismo. É como escrever, ter suas regras, seu estilo, seu mundo – Diego

Depois de ter toda essa percepção, aprendi também que o lugar com mais bactérias num hotel não é no vaso sanitário, mas no controle remoto da televisão. O vaso é limpo todos os dias, o controle não. Nunca mais vi televisão num hotel. – Diego

O SOM QUE VEIO DO SONO

Certa hora, percebi assim de repente, a duas cadeiras ao meu lado, uma moça que mais cochilava do que assistia. Pensei muita coisa: como entrar aqui, pagar o ingresso caro, e dormir? Mas podia também estar muito cansada, quem sabe o que já terá feito naquele dia? Será que era estrangeira? Seria de lá mesmo de Paraty? Qual seria sua afinidade com a Flip? Qual sua história, para que ela estivesse ali naquele momento, e dormindo? Jamais saberei nenhuma dessas respostas, mas não consegui deixar de criar essas perguntas. Subitamente ela despertou, pegou meu antigo fone quebrado e mexeu algo nele. Mas que estranho.

E por falar nos fones, eu fiquei meio atrapalhado com eles. No início foi divertido, brincar entre os idiomas, regular os canais, mas depois encontrei uma intensa interferência. De novo, o que fazer? A quem chamar? Mexi no fio, no conector, alternei infinitas vezes entre os canais, mas sem resultado. A voz do tradutor ficava cada vez mais longe. Fiquei um pouco receoso. Será que devia tentar chamar uma das moças de vermelho para me ajudar? Nenhuma delas olhava na minha direção. Que situação. Foi quando olhei para o lado e vi meu antigo fone, e o peguei, e qual não foi minha supresa ao ver que estava consertado! A moça sonolenta o tinha consertado, foi minha salvação! A transmissão agora estava perfeita. Infelizmente, acabei não pudendo lhe agradecer pois ela logo voltou a cochilar...

OBSERVAÇÕES PARALELAS (II)

Ainda me encantava muito admirar o painel de Mário de Andrade, ao fundo, visto ali de tão perto, belíssimo, atemporal. Olhando-se só por ele talvez não se poderia dizer em que época a Flip se passava. Era 2015, mas poderia ser 2005, 1995, 1975... Ri comigo mesmo nestes pensamentos. As poltronas que acomodavam os autores também chamavam a atenção, cada uma de uma cor, vermelha, amarela e azul, numa curiosa sintonia com o painel de fundo, uma simbiose de cores tão agradáveis ao olhar.



E falando em cores, uma moça de verde, à direita do palco, no extremo oposto de onde estava Paulo Werneck, abaixo do outro telão, estava sentada com um macbook no colo. Imaginei ser a responsável pelo Twitter, ou demais redes sociais da Flip, de interagir com o público que via pela internet, de transmitir as perguntas enviadas aos palestrantes, como me lembro dos anos anteriores. Talvez tenha sido ela a responder meus tweets nesses anos anteriores, algumas sugestões que dei, como mostrar a plateia em outros momentos que não fossem os de aplausos.

Perdi o olhar durante algum tempo também observando as luzes, os inúmeros refletores espalhados pelo teto da tenda, que durante a palestra em si, iluminavam à meia luz, mas sempre a cada salva de palmas clareavam intensamente, revelando o esplendor da plateia cheia, como um sol a brilhar, mas não apenas uma luz artificial, havia mais ali, um sol de calor humano.

DO LIXO PARA O LIVRO 

Em certo momento da mesa, quando se falava das possíveis referências dos livros de ambos, Joca enxergou influências de uma literatura tradicional, do tratado científico, do conto oralizado. Estaria o futuro da literatura no passado? Questionou o mediador. Sasa explanou mais um pouco de sua obra, da pesquisa que fez, coletando histórias antigas da aldeia.

A literatura acontece quando você pega uma história do passado, uma história não concluída, e você, como escritor, tem habilidades para conclui-la. – Sasa

Diego falou de A saúde dos homens de letras, um importante tratado do francês Samuel Tissot, que tem uma epígrafe em seu livro Micróbios. Na obra, Tissot dizia que os homens que escrevem padecem de males terríveis, como cegueira e epilepsia. Diego no fim das contas achou tudo bem divertido, uma vez que toda essa teoria é falsa. São histórias que a ciência joga fora, inutiliza.

Histórias que a ciência joga no lixo, a literatura vai lá, as pega e as recicla. A partir de histórias e teorias errôneas, cria-se ficção, de um material descartado pelo ciência ou pela história – Diego

O ENCANTO DAS PEQUENAS CIDADES

Falando sobre o livro Antes da festa, de Sasa, Joca evocou a cidadezinha retratada no romance do bósnio, e comentou que para ele (Joca) cidades pequenas têm um ritmo muito próprio, meio letárgico, como um pesadelo. O mediador disse ainda que no livro, tem-se a sensação de que a cidade está à espera de se impor de vez na vida dos personagens, deixando o leitor meio que em sustentação. Terminou mencionando que a ideia veio de uma visita que Sasa fez à sua cidade natal, Visegrad, na Bósnia, e pediu-lhe para que contasse um pouco disso e porque ambientar a trama numa cidade pequena.

Venho de uma cidade muito pequena, mas a cidade de meu avô e bisavô era ainda menor, um vilarejo nas montanhas, que hoje em dia tem apenas 13 habitantes. – Sasa

O bósnio contou que a visitou para poder escrever o livro, e achou tudo muito interessante, por haver tanta história ali, mais do que isso, a sua história. Como só tinha 13 habitantes e sua família morara lá, ele era parente de todos. Ficou maravilhado por descobrir suas origens, seus antepassados, e também assombrado ao perceber que o vilarejo pode desaparecer nos próximos anos, uma vez que só há idosos, os jovens saíram, não nasce mais ninguém.

Sempre achei cidades pequenas lugares mágicos – Sasa

Nossas origens como pessoa têm muita importância. As histórias daquelas pessoas eram minhas histórias – Sasa

Quis preservar as histórias, as lendas, as biografias, os mitos daquele lugar. Conversei com todos e comecei a escrever. Todas aquelas histórias tinham a ver com minha família, eram minhas histórias, as carregava dentro de mim. – Sasa

O fenômeno dos lugares que desaparecem é comum no mundo inteiro, jovens saem do campo e vão para a cidade. Eu estava muito interessado não nos que saíram, mas nos que ficaram. Saber o que eles querem fazer com a vida, o que querem vivenciar – Sasa

Me apaixonei por pessoas que lutam contra seu próprio desaparecimento – Sasa

Diego partilhou deste interessante ponto de vista e aproveitando a relação entre escrita e desaparecimento, do viver em um lugar estando em outro, perguntou a Sasa como foi a sensação de seu voltar a seu povoado, mas vendo-o de fora, estar ali mas ao mesmo tempo não viver ali.

Sair de minha terra quando era criança me permitiu sempre sentir que todos os lugares podem se tornar meus, onde quer que eu esteja. Sempre penso com seria minha vida se morasse neles. Tento levar isso a meus personagens. – Sasa

O papel dos escritores modernos é recolher, coletar vidas, e colocá-las em ambientes, ambientes em desaparecimento, assim impedindo que desapareçam. Enquanto escritores escreverem sobre eles, eles não desaparecerão. Viverão num território literário geográfico, na cabeça de nossos leitores – Sasa

ESCREVER EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Um outro ponto destacável surgiu perto do fim. Joca partiu do fato de que ambos eram imigrantes, e tinham uma maneira bem própria de escrever no país onde viviam. Sasa não escrevia em bósnio, somente em alemão, e Diego, mesmo após mais de vinte anos morando na França, escrevia em espanhol. Era sem dúvida um tema interessante e me recostei na cadeira para melhor ouvir o que diriam, mas sem tirar a caneta do alcance do caderno.

Não consegui escrever na minha língua materna. Não consegui escrever a história da guerra na língua da guerra. Escrevo em alemão porque como escritor é necessário se sentir seguro na língua que escrevemos, conseguir brincar com a linguagem, e sinto isso no alemão, mas não no bósnio. Apesar de falar bem, não consigo contar uma história em bósnio. – Sasa

A língua escolhe a gente, não a gente a língua. Tem que ser a língua que nos sentimos mais à vontade. Eu poderia escrever em francês, mas não me sentiria tão protegido como no espanhol. Curioso que falo francês todo dia, o espanhol virou quase uma língua estrangeira para mim, uma língua secreta, que utilizo para escrever. É uma língua ligada à minha infância e adolescência, usá-la é como voltar à Argentina. – Diego

AS PERGUNTAS JAMAIS RESPONDIDAS

Uma das primeiras coisas que reparei antes de sentar foi que havia uma tirinha retangular de papel sobre cada uma das cadeiras. Nela tão somente linhas vazias. Claro, era o espaço para o público fazer suas perguntas. Lembrei dos anos anteriores, quando assistia de casa, o curador dizer "...já podem fazer suas perguntas nesses papeizinhos que nós vamos recolher...", e logo Paulo Werneck disse quase as mesmas palavras ali há poucos metros de mim.

As moças de vermelho, da produção, coletavam os papeizinhos do público e os encaminhavam ao local onde estava Werneck, sem sequer lê-los. Junto ao curador, estava um outro sujeito, de barba e óculos, que parecia assessorá-lo. Ele recebia as perguntas, as lia e assim parecia aprová-las ou não, colocando logo em seguida ao alcance de Werneck. Entendi, como já imaginava, que havia um controle, ainda que mínimo, sobre o que seria perguntado. Fiquei imaginando, porém, que haveria pouco tempo para o bloco de perguntas. As mesas tinham duração média de 1h10, as perguntas do público, nesta, foram abertas faltando uns 20min para o final, de modo que seria muito improvável conseguirem fazer mais do que duas ou três perguntas, a maioria ficaria mesmo sem resposta. E o público "virtual" teria alguma prioridade ante o público "real"? Fiquei pensando em tudo isso, enquanto observava o papelzinho, o andar do relógio e o andamento da mesa. Não quis entrar na pequena loteria que seria tentar fazer uma pergunta, preferi guardar meu papelzinho como recordação do momento.

OBSERVAÇÕES PARALELAS (III)

Com mais ou menos uma hora passada, algumas pessoas começavam a deixar a tenda. Achei curioso, gastar tanto no ingresso, ficar na fila e sair tão perto do fim. Teriam tido algum problema? Ou o tema já não as interessava? Claro, a maioria se mantinha inerte em suas cadeiras, os fones firmes nas cabeças.

Notei ainda que havia ali uma postura de mesa totalmente diferente do que vi na mesa Zé Kleber, um caráter mais sério, comportado. Todos vestidos socialmente, davam uma cara diferente ao evento, o que foi uma excelente constatação, como se a Flip se reinventa-se a cada mesa, assumindo a cara, a identidade dos palestrantes. Cada debate era mesmo único, próprio. Pode parecer uma constatação óbvia, mas sentir essa energia ali de perto é algo surreal.

ESCREVER FORA DE SEU PAÍS

O momento final da mesa veio quando ambos os escritores foram questionados da origem das ideias de narrar suas histórias em lugares diferentes de onde habitam, principalmente no caso de Diego, uma vez que cada conto do livro Micróbios se passa num país diferente:

Escrever não vivendo no lugar dá uma certa descentralização. A imaginação precisa estar descentralizada, perder-se. Assim, faço um livro em espanhol diferente de como o teria feito se estivesse na Argentina. – Diego

Acho que nem a literatura nem qualquer outra arte deve ter esses limites, de ter de escrever só sobre local onde vive, onde está, que conhece. Se fosse assim não teríamos Nabokov, Mann ou Conrad, todos eles contrariaram isso. Escritores precisam enriquecer seu mundo geográfico com o mundo dos outros, precisam viajar. Mesmo quem não for escritor, um dia pode querer contar uma história de vida; pois escrevam, isso enriquecerá a todos nós. – Sasa

ENCERRAM-SE OS MICRÓBIOS E SOLDADOS

Joca Reiners Teron fez a mediação com grande propriedade, participando, prendendo a atenção do público, explorando os temas, e ficando surpreso ao ver que os dois, ao contrário do que se parecia no início, tinham muito mais em comum do que se pensava. Joca contou ainda um conto de Diego sobre vampiros, fazendo todos rirem ao narrar com intensidade o curioso andamento dos personagens.

E assim esse fantástico debate chegou ao fim. Nossa, eu estava muito extasiado. A mente, impactada, depois de ser fustigada por tantas percepções, por tantos micróbios, por tantos soldados. Tinha sido pouco mais de uma hora, mas parecia muito mais, parecia que tinha passado um dia ali, e ao mesmo tempo pareceu também muito curto, quase um sopro. A vida tem esse poder, transforma o pouco em muito e o muito em pouco à todo momento, basta saber enxergar.  Me sentia sobretudo realizado, inundado, transbordado.

Uma generosa salva de palmas irrompeu da plateia, e logo todos começaram a se levantar. Os telões se desativaram. Pensei que aquele seria o momento de, se estivesse em casa, parar a gravação do vídeo. Ficava sempre imaginando nesses momentos, como estaria a movimentação na tenda, como era essa dispersão, e quando pisquei o olho, vi que de fato estava ali. Sorri, enquanto olhava em volta e finalmente saquei o celular e registrei algumas imagens só mesmo para marcar aquele instante.





APÓS A MESA, OS AUTÓGRAFOS

Terminada a mesa, segui o fluxo de saída e logo estava no exterior da tenda. Passava um pouco das 16h, uma bela tarde de quinta-feira, e ao sair encontrei Diego, meu irmão, no espaço do telão. Ele acabou ficando por ali mesmo, de onde assistiu boa parte do debate. Reparamos então uma intensa movimentação que parecia migrar para a área do café, e percebi que boa parte era do público desta mesa. Curiosos, seguimos aquele fluxo repentino.



Não era necessariamente o café, mas a tenda atrás dele, o foco de toda aquela concentração. Desde nosso primeiro passeio de reconhecimento, no dia anterior, tínhamos visto uma ala anexa à tenda da livraria, onde havia algumas exposições e um grande balcão de madeira, na frente do qual estavam dispostos vários organizadores de fila, e percebemos que ali provavelmente seria um espaço destinado a autógrafos. Eu bem me lembrava que após as mesas era comum os autores irem para algum lugar para autografarem. E esse lugar era mesmo ali, onde todos, inclusive nós, agora estavam.



Dezenas e dezenas de pessoas se aglomeravam, comprimidas, boa parte com os livros dos autores nas mãos. Sasa já estava lá, sentado ao longo do balcão, recebendo a todos educadamente. Diego viria logo, como indicava uma garrafinha d'água ao lado do bósnio. Vários seguranças e receptivos espalhados no vão entre o balcão e a fila, para conter alguma eventual desordem. Aquela cena seria uma constante após praticamente todas as mesas da tenda dos autores. Muitas vezes, ainda, como aconteceu na mesa de Arnaldo Antunes, vimos esta fila começar a se formar ainda faltando meia hora para o final da mesa. Seria engraçado, ficar ali, ser o primeiro da fila de autógrafos, mas sem ter sequer assistido a mesa em questão...

Não fazíamos questão dos autógrafos, mas muito me interessava aquela ebulição, aquele fervor de pessoas, seus trejeitos, suas expressões, suas diferenças. Novamente, fiquei pensando em suas histórias, de onde cada uma teria vindo, suas motivações, o que tinham achado da mesa, se já conheciam os autores, se os tinham descoberto agora, como nós, ou mesmo se estavam ali apenas por estar. E após um debate de tão arrebatadora grandeza, minha percepção parecia mais aguçada, mais precisa. Observei que diziam coisas aos autores, que lhes sorriam, tiravam fotos, viviam, celebravam.

Nunca consegui gostar muito disso de "sessão de autógrafos", de chegar assim de repente na cara do autor e lhe pedir seu nome no livro, ou uma foto ou sei lá mais o quê. Não sei explicar, mas isso me parece meio superficial, sem muito sentido, comum. Gostaria bem mais de uma conversa informal, mesmo que de momento, mas que realmente marcasse, que realmente me fizesse perceber que tive um contato com ele, que houvesse uma troca bem maior do que apenas deixá-lo assinar o livro, de maneira morna. Ainda assim, gostava de ver aquele tumulto controlado, por perceber a força que a literatura, de uma maneira ou de outra, consegue exercer. Era também um ótimo celeiro de ideias.






Passamos uns minutos ainda por ali e logo saímos. A próxima mesa na tenda dos autores começaria dentro de instantes, mas não a veria, nem mesmo no telão. Queria ter um momento de reflexão, de pensar no que ouvi e vi, e de comentar tudo com meu irmão. Era preciso momentos assim, eu bem sabia. Voltaríamos, contudo, para as mesas da noite. Falarei de algumas delas e de outras tantas na próxima postagem.

Me senti realizado, inundado, transbordado, lá naquele dia, e mais agora, ao revisitar o tema para completar o que já tinha escrito. Esta mesa foi uma grata descoberta, que sem dúvida marcou bastante minha primeira vez na Flip. Incrível conhecer um pouco da vida e obra destes autores tão singulares... a relação de Diego Vecchio com seu idioma, a questão dos micróbios, a inspiração para escrever... a descoberta dos antepassados de Sasa, seu apreço em querer preservar memórias, suas vivências da guerra... tudo contagia, incentiva, alimenta. E foi justamente buscando marcar esta memória em mim, que resolvi escrever este post, bem como toda esta série sobre a Flip.

O áudio na íntegra da mesa de Micróbios e Soldados pode ser ouvido neste link.