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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Bienal do Livro do Ceará 2012 - III (Márcia Tiburi)



Fotos e vídeo: Denis Akel

Enfim, e antes tarde do que nunca, fechando as postagens referentes à X Bienal Internacional do Livro, ocorrida ano passado, agora falarei um pouco sobre a participação da escritora e filósofa Márcia Tiburi, um dos destaques da atração (quase tanto quanto as apresentações musicais). O encontro aconteceu no penúltimo dia de bienal, no sábado, 17 de novembro.

Não tenho nenhum livro de Márcia, mas já li alguns de seus artigos, como também assisti a algumas de suas palestras em programas como o Café Filosófico. Suas palavras expõem o comportamento e pensar humano com grande personalidade, além de certa rebeldia, transformando e instigando a mente. Assim, quando soube que ela estaria presente nesta edição da Bienal, não pude deixar de agarrar essa grande oportunidade.

Ao contrário de como foi com Ignácio de Loyola Brandão, não foi difícil localizar a sala onde ocorreria a palestra de Márcia. A maioria das pessoas com as quais cruzei no caminho também estavam indo para lá. O auditório estava já bastante lotado, e novamente tive de pegar um lugar mais atrás de onde gostaria. Uma vez sentado, tratei logo de pegar minha caderneta, onde passaria a anotar os trechos mais marcantes da palestra, os quais tentarei repassar ao longo da postagem.

O mediador, após uma estabilidade da entrada de pessoas, iniciou a conversa, falando algumas palavras introdutórias sobre a autora, e em seguida lhe cedendo a palavra, sob fortes e ruidosos aplausos. Márcia Tiburi abriu a palestra pedindo desculpa pelo atraso (prevista para as 15:00, começou só às 15:30). Ela se justificou, mencionando a falta de comunicação por parte da equipe da bienal, que não entrou em contato. Os minutos se passaram, o horário marcado se aproximava, e nenhuma comunicação. Preocupada, não soube o que fazer. Viu vans na porta do hotel, pensou ser para ela, mas não eram. Acabou sendo obrigada a tomar um táxi por sua conta, para chegar logo ao centro de eventos, ou perderia ainda mais a hora.

O público aplaudiu a sinceridade e coragem de Márcia ao revelar estes fatos tão inesperados. Não lembro, porém, de depois ter havido alguma explicação do porquê dessa falha de comunicação. Uma situação vergonhosa, devo dizer, para receber uma pessoa que se dispôs a vir dar a palestra e logo depois já voltaria para sua cidade, São Paulo, onde já teria outra palestra.

Márcia começou expondo alguns conceitos que diferenciam a literatura da filosofia, apesar da grande cooperação que há entre as duas áreas. Segundo a autora, a filosofia consegue ter uma proposta educacional maior que a literatura, uma vez que a literatura é tão pouco valorizada no Brasil. Contudo, ela diz que filosofia não pode ser ensinada ou transmitida às massas. Há um grande desinteresse geral, e para ela o melhor público para falar sobre são mesmo seus alunos, bem como estudantes realmente interessados.

Um dos momentos mais curiosos do debate foi quando ela falou dos típicos frequentadores de shopping centers, pessoas com hábitos compulsivos de comprar, muitas vezes coisas supérfluas, que nunca serão usadas, e de como as pessoas podem gastar tanto tempo em tais atividades, repetidas vezes até. Foi uma crítica um tanto severa até, uma vez que generalizou demais o público que costuma frequentar esse tipo de ambiente, porque nem todos são realmente assim "cegos" como ela afirmou. Inclusive, na hora das perguntas do público, um professor que assistia da plateia, contestou esta questão, alegando que as pessoas que segundo Márcia estavam perdidas, comprando inutilidades, poderiam mesmo assim estar se sentindo felizes e realizadas, que não se podia julgá-las ou condená-las por tais atos, afinal, se isso as fazia se sentir bem, felizes, tinham mais era que seguir esse ideal. As ideias deste professor serviram como lenha na fogueira, gerando um ótimo debate, e fez Márcia ponderar tais questões. Os dois trocaram mais algumas palavras, com o professor compartilhando em alguns detalhes o ponto de vista de Márcia, que o chamou de colega.

O vídeo abaixo, apesar do áudio precário, retrata alguns destes e de outros momentos:


As festas de natal e ano-novo também foram alvo de algumas de suas críticas. Da típica troca de presentes familiar ao puro comercialismo promovido pela mídia, Márcia pontuou tudo como uma grande falsidade, na qual se perde o real sentido da comemoração e visa-se apenas o bem material, ou ainda, agradar ou desagradar alguém, meramente por interesse. Concordo com ela, afinal é bem isso que datas como essa representam para muitos de nós, sufocados pela febre do consumismo. 

Ela então falou como começou seus estudos, de seu gosto por poesia, que sempre lhe fez encher vários cadernos com textos e mais textos em sua adolescência. Sua paixão pela escrita a levaria a se enveredar completamente no mundo literário, no qual busca uma realidade. Além de prosa, a autoria viria a escrever  contos, crônicas, crítica, poesia, romance, mesmo inicialmente não se sentindo capaz de tantos desdobramentos. Comentou não gostar de romances (apesar de ter passado a escrevê-los), uma vez que não gosta da sua estrutura tradicional, a qual comparou a "contar historinhas pra dormir". Depois que passou a escrever literatura, mudou sua maneira de escrever filosofia, que se tornou mais selvagem, mais intensa. Nas palavras dela, literatura e filosofia juntas constituem o universo da linguagem. 

Quanto ao ato de publicar, ao sentido legítimo da publicação, Márcia foi precisa: "percebe-se que não se está sozinho, apesar de literatura ser um ato solitário". Concluindo seu pensamento, ela disse que literatura não tem lugar no Brasil, e que exercê-la por aqui só mesmo por puro amor, uma vez que há pouco rendimento financeiro. Ainda sobre o ato da escrita, a autora citou uma frase de Lobo Antunes: escrever é deixar de atrapalhar os outros. Quanto a seus livros favoritos, ela não citou nenhum em específico, disse gostar de ler livros difíceis, que a façam ler de novo, pois assim passa a aprender e conhecer coisas que desconhece. Condenou ainda quem lê muitos livros rapidamente, dizendo que assim não se retém muito conteúdo. Márcia Tiburi disse também que não quer ser reconhecida por se aproximar de nomes como Machado de Assis, mas sim unicamente por sua selvageria e ousadia no texto.

Sobre internet, a autora disse que é um ótimo local para se fazer guerrilha literária e filosófica, uma vez que pessoas nas redes sociais têm falta de combatividade, e são facilmente suscetíveis a textos e conteúdos. Segundo ela, o ser humano de hoje é preguiçoso, ausente de reflexão, e por isso a filosofia deve ser usada de todas as formas possíveis, respeitando a vontade de quem faz, para assim desmistificá-la. 

Um outro tema levantado foi o poder tudo que este traz consigo. Será que o poder é realmente o que achamos que é? Para Márcia, o poder é ruim, pois gera violência, caos, situações ruins e desagradáveis. Para ela, estudantes têm de ser desobedientes, ir contra o poder. A escritora se diz desobediente, e ser feliz assim. Concluiu essa parte dizendo que os obedientes gostam do poder, e são devorados por ele. 

Por parte da plateia, veio ainda um dos melhores comentários da ocasião, quiçá de todo o evento. "Deveriam distribuir um livro para cada pessoa que espera nas filas de shows da Bienal, assim o evento seria bem melhor". O autor da sentença, Ramon, foi largamente aplaudido por todos, inclusive por Márcia, que achou isso genial. Ramon, após todos se acalmarem, agradeceu e elogiou Márcia, dizendo ouvir música em suas palavras. Com certeza, se essa ideia vingasse, a Bienal do Livro seria muito mais do livro do que da música. 

Longe de mim querer julgar, mas preciso apontar também alguns pontos que me desagradaram um pouco. Apesar de tantos momentos interessantes e propensos à reflexão, a escritora também pareceu demonstrar um pouco de arrogância em alguns pontos da conversa, como que julgando muito sem conhecer exatamente sobre o que falava. Ao falar de livros e leituras, deu a entender que só o seu gosto prevalecia, criticando e condenando severamente as pessoas só porque liam determinado livro. Ora, mas se essa ou aquela leitura fazem alguém feliz, o que há de mal nisso? Era evidente sua personalidade forte, que se transmitia neste modo de pensar. Ao menos não lhe faltava sinceridade, apesar de às vezes ela ter soado meio como um 'personagem', principalmente ao fazer algumas piadinhas típicas e quase bobas.

Próximo ao final, Márcia comentou que, para se sentir diferente, fugir da mesma direção, ultimamente tem aplicado em sua vida a política do "pensar ao contrário", que consiste em inverter a lógica das coisas, quebrar o óbvio. Essa conduta, segundo ela, a leva a relevar algumas trivialidades da vida, em atitudes comuns como receber o troco de alguma compra, ou querer que algo saia exatamente como o planejado. Assim, ela se liberta um pouco de tanta obrigação de ter de fazer tudo sempre certo e perfeito, uma rebeldia justificada pela quebra da monotonia. Esse modo de pensar, inclusive, é bem interessante, pois nos faz aprender a ver o lado bom de tudo. Há uma ideia similar num livro do autor Paul Arden, do qual falarei aqui em breve.

Abaixo, mais algumas frases e colocações marcantes da autora, ditas durante a palestra:

"Cada livro é uma aventura. Aventura para quem escreve e aventura para quem lê"

"Será que a gente escreve para ficar sozinho ou fica sozinho para escrever?"

"Ler um livro também é um esporte radical"

"Filosofia para mim é uma exposição de pensamento, tal como literatura"

"As pessoas devem fazer o que quiserem pois assim tudo vale a pena"

"Filosofia não pode ser guardada. Um livro de filosofia já é por si só um paradoxo"

"Devemos nos dar conta de que existimos, e do quão louca é essa existência, pois somos todos, antes de tudo, animais"

"Não é tão preciso estudar os filósofos para saber filosofia. Basta haver uma experiência de diálogo, de troca, de pensar junto"

Ao final, a plateia manifestou-se em efusivos aplausos, aos quais Márcia respondeu com sorrisos. Em seguida, ela se dirigiu para uma mesinha à entrada da sala, onde já havia desde o início uma pilha de seus livros. Uma fila de pessoas rapidamente se formou à sua frente. Estava iniciada uma breve sessão de autógrafos. Acompanhei de perto a movimentação, o entusiasmo das pessoas, ao cumprimentá-la, e ter seu livro autografado. Márcia parecia retribuir muito bem o carinho dos fãs:







Enquanto observava o momento do autógrafo, e fazia essas fotos, não pude deixar de lembrar da Bienal de 2010, de momentos similares, onde escritores como Pedro Bandeira e Ziraldo autografaram suas obras. Perceber essa atmosfera, de reconhecimento, prestígio e honra é sempre gratificante, e faz repensar bastante sobre o rumo cultural de nosso país, onde a literatura ainda tem tão pouco espaço. 

Pensei em entrar na fila para falar com ela, agradecê-la pelas palavras, mas acabei não fazendo isso; havia ainda alguns expositores que gostaria de visitar antes do fim do dia, que já era o penúltimo da Bienal. Espero através desta postagem ter podido expressar meu agradecimento. Márcia não demorou muito a cumprimentar todas as pessoas da fila e logo em seguida deixou o centro de eventos, já rumo ao aeroporto, como ela dissera, de onde já iria para outra palestra, em São Paulo.

Sem dúvida, foi para mim um dos melhores momentos desta bienal. O relacionamento de Márcia com a filosofia e literatura gerou ideias muito distintas, que buscaram desmistificar o conceito e utilização de ambas as áreas. Ficou evidente o estreitamento que há entre elas, e como uma pode fazer bem à outra. Também foi uma boa introdução às etapas necessárias para se publicar um livro, um processo demorado, que muitos que desejam ser escritores ainda desconhecessem. Márcia foi bem no cerne da questão, mostrando que literatura precisa ser, antes de tudo, feita com amor, para assim poder se pensar em algum retorno financeiro, no decorrer de uma longa estrada, em se tratando de nosso país. Uma palestra rica de conteúdo, que como qualquer outra teve seus altos e baixos e divergências de opiniões, mas semeou uma interessante e selvagem visão do mundo, descomplicando e integrando o universo da linguagem de uma maneira bem peculiar. 

Para finalizar, deixo a colocação final feita por ela: "O mundo é um livro e a gente segue lendo o que puder"

Esta postagem deveria ter sido publicada antes, mas por motivos pessoais, só pude finalizá-la agora.  Apesar do tempo passado, o foco da palestra de Márcia Tiburi é atemporal, e continua fortemente em evidência. Obrigado a todos que leram minhas postagens referentes à X Bienal Internacional do Livro do Ceará, e a todos envolvidos em sua produção!



sexta-feira, 15 de junho de 2012

VII ETC Fortaleza (II)


Fotos e vídeos: Denis e Diego Akel

Dando continuidade aos comentários sobre minha experiência ao ir ao VII ETC Fortaleza, nesta segunda e última postagem sobre o tema, contarei mais um pouco do que pude observar no evento. Sensações, observações, inquietações, lamentações, especulações e até provocações seguem entremeadas nas linhas abaixo.

Como falei na primeira parte do texto, tínhamos ido eu e meu irmão, Diego, que foi peça fundamental, não só me incentivando a ir ao evento, mas também me ajudando com as fotos e vídeos. Nos revezávamos nesses registros. Voltando agora a falar da mesa em si, mais ou menos do ponto que deixei do primeiro post.
Passadas as primeiras colocações de Fabrício Carpinejar, percebi que Glória Diógenes demonstrava uma postura mais de palestrante do que mediadora, e isso engrandeceu significativamente a mesa, pois ela tinha ótima sintonia com os demais, além de expor perspectivas interessantes. Reparei também que alguns fãs de Carpinejar escreviam as frases que o poeta soltava na folha de papel, tão rápido quanto ele as dizia. Em volta, diversas pessoas fotografavam a mesa, com os mais variados ângulos e câmeras. Uns poucos pareciam registrar oficialmente, outros apenas para guardar aquele momento, tal como nós. E ainda não pude deixar de perceber garçons do hotel, que entravam de quando em quando, e repunham água nas taças e serviam xícaras de café.


Na cadeira ao meu lado, alguém escrevia as frases do poeta




Era engraçado como o público ficava muito quieto sempre que Carpinejar assumia o microfone. Não era para menos, ele literalmente esbravejava. Não se ouvia nada além de sua voz, que rapidamente ganhava o auditório. Aliando a isso seu dircurso sempre pungente, temos uma maneira de cativar sem igual. Quando o microfone trocava de mão, porém, percebi uma certa dispersão por parte do público, com vozes perdidas e cochichos. Carpinejar ainda meio que 'provocou' Plínio Bortolloti, com leves alfinetadas (talvez por estar sentado ao seu lado). José Luiz Goldfarb também deu uns pitacos, do outro lado da mesa. O jornalista se defendeu, principalmente no que diz respeito a necessidade de se ter ou não um iPhone. Esse tema passaria a ser recorrente a partir de então, gerando muitas risadas – e caras sérias. Caloroso e intenso, o debate só ganhou com os ânimos 'agitados'. A opinião de Plínio, também sobre seu uso do Twitter, foi bem centrada, e partilho dela. Ter muitos ou poucos seguidores, seguir qualquer pessoa apenas 'por seguir', entre outros pontos, foram comentados pelo jornalista.






Goldfarb passou a maior parte do tempo em que não estava falando na frente de seu macbook, provavelmente tuitando. A uma primeira vista, tal gesto fez parecer que ele não estava muito interessado no que os outros diziam, embora comentasse uma ou outra coisa ao acaso. Carpinejar também, hora e outra, tomava o Blackberry à mão e não resistia ao Twitter. De certa forma, essas atitudes, que podem parecer desatenciosas, acabam por vir bem de encontro ao tema do debate, afinal, numa mesa com twitteiros culturais, seria mesmo difícil eles conseguirem resistir ao micro blog, embora Plínio e Glória tenham resistido muito bem.




Pelo que pude notar, Goldfarb estava também divulgando o evento no próprio twitter, através dos inúmeros perfis que disse controlar. A organização do evento pediu ao público que fizesse o mesmo, uma vez que não tinha sido possível fazer a transmissão ao vivo via twitcam – o que aliás achei um absurdo. Atribuíram a falha à rede de internet do hotel, mas será que um hotel daquele gabarito, com tanta estrutura, não tinha condições de preparar isso com mais antecedência? De assegurar um modo para que tudo corresse bem na hora? É certo que imprevistos acontecem, mas a esse ponto? A ponto de impossibilitar algo tão importante para um evento desse porte? Não deu para entender...

A mesa seguiu fluindo. Cada palestrante explicou sua visão das redes sociais, como elas nos influenciam e sua própria maneira de interagir e lidar com o twitter e as demais redes. O clima descontraído garantia generosas e fartas risadas constantemente. Um dos poréns foi que, devido ao atraso do início (cerca de quarenta minutos), a palestra se estendeu por horas, invadindo a noite. Muitas pessoas já tinham deixado a sala, ainda que uma boa parte do público permanecesse fiel.







Abri mão de ficar escrevendo na hora, para concentrar a atenção ao que era dito, e também observar o ambiente. Sabia que essas observações seriam tão ou mais importantes do que o que eu viesse a escrever ali. Talvez por isso eu tenha reparado que depois de algum tempo os balões mandados por Carpinejar vinham autografados. As pessoas que os recebiam (pareciam ter pedido por eles assim) já não os mandavam para o ar, já não brincavam mais. Guardavam o balão junto a si. Com a assinatura do poeta, aquilo já não era mais um mero balão. 

O bloco de perguntas e comentários do público foi deixado para o fim. De início, era feita a pergunta, seguida da resposta. Depois, não sei por que, preferiram que fossem feitas logo todas as perguntas, uma após a outra, para só depois serem respondidas pelos convidados. Isso geraria uma grande confusão, ao menos na minha opinião, pois no momento em que elas foram respondidas, vários minutos após terem sido feitas, não lembrávamos mais o que tinha sido perguntado ou quem tinha perguntado, e muitas vezes parecia que nem o próprio palestrante lembraria, não fossem breves anotações que eles faziam na hora, que deduzi serem possíveis lembretes às questões. Em meio a toda essa bagunça, não era difícil de alguma pergunta ficar sem resposta ou até de alguma resposta não condizer com a pergunta. Creio ainda que para algumas perguntas, porém, jamais se soube a resposta.





Falando deles, os comentários e perguntas são um caso a parte. Boa parte dos que tiveram o microfone por algum tempo enfeitaram, firularam e muitas vezes nada acrescentaram. Glória deu três minutos a cada pessoa. Tudo bem que tentaram ser bem flexíveis em relação ao tempo, mas acho que esse controle foi um pouco desnecessário, uma vez que muitos passaram desse limite. Posso até estar julgando precipitadamente, mas percebi uma grande carga de diálogos carregados com muito ego, como se cada pessoa quisesse se impor ante à mesa, para talvez assim conquistar mais visibilidade, também entre o restante da plateia e assim ganhar uma espécie de fama instantânea. Foram poucos, mas claro que houveram pessoas que falaram mais humilde e diretamente, que deixaram uma mensagem mais clara e óbvia, que realmente assimilaram bem o debate, e ajudaram a engrandecê-lo. Uma boa sugestão seria fazer um método que certa vez vi a filósofa Márcia Tiburi comentar: dar a cada pessoa que assiste a uma palestra o limite de 140 caracteres para se expressar. Casaria perfeitamente com a proposta do ETC, afinal!








Não nego que tivemos vontade de dizer alguma coisa. Não sei se seria propriamente uma pergunta ou um comentário. Talvez sequer fosse algo relacionado ao ETC. Pensamos em perguntar algo ao Carpinejar sobre seu programa A Máquina. Por achar que o tema fugiria à ocasião, terminamos por não fazê-la, e nos limitamos apenas a continuar assistindo.

Finalmente, ao término da mesa, o público prorrompeu em efusivos aplausos, com grande vibração. Os convidados sorriam e agradeciam. Em seguida, um grande fluxo de pessoas começou a deixar a sala. Neste momento de dispersão, Carpinejar se viu quase acuado por inúmeros fãs, que o surpreenderam (ou não) com muitos pedidos de autógrafos e fotos. Atencioso e simpático, ele atendeu a todos. Autografou, posou para várias fotos, fez tudo que os fãs pediram. Do outro lado, Goldfarb conversava também com uma fatia do público, da mesma forma que Plínio e Glória. De longe, eu e Diego observávamos essa movimentação.





Próximo à entrada da sala, algumas mesas tinham sido dispostas com lanches (salgadinhos, sucos e refrigerantes, acho). Boa parte, senão todos os que ainda estavam ali, exceto os que falavam com os convidados, se deslocaram imediatamente para lá, e em pouco tempo uma nuvem de pessoas varria as iguarias da mesa. Nós também estávamos com fome, claro – ali desde 15:30 – apenas com o almoço, mas relutamos um pouco em ir até lá comer algo. Fiquei pensando se falaria ou não com Carpinejar. Provavelmente me veria diante, mais uma vez, de mais um momento como aqueles onde nunca sabemos ao certo o que dizer, onde as palavras parecem fugir. Sabia que deveria aproveitar a oportunidade, mas hesitava. Diego insistiu para que fôssemos falar com ele. Assim, só restou continuarmos esperando, pacientemente, o contingente de pessoas em volta do poeta diminuir.



Passados cerca de quinze minutos do final da palestra, ainda aguardávamos no meio do salão, apoiando as cabeças no acolchoado que revestia as paredes, ainda à espera de uma chance de falar com Fabrício Carpinejar. Havia nesse momento apenas duas pessoas terminando de pegar autógrafos. Olhei para a mesa de lanches, agora nem que quiséssemos: tudo já tinha terminado, restavam apenas pratos e copos vazios. E no instante seguinte, percebi que enfim o poeta estava livre. Era esse o momento. Fomos em direção a ele. Cumprimentamos Carpinejar com um sorriso, o poeta nos recebeu com outro, antes de um firme aperto de mãos, quase nos abraçando, sem cerimônia, como se já nos conhecesse há muito tempo. Invariavelmente, acabei começando com o clássico clichê "admiro muito seu trabalho", meio que ainda procurando o que dizer. O poeta nos encarava tranquilamente. Senti que não precisava correr com as palavras. Não fiquei muito animado também para dizer outra coisa que também considero meio redundante: "eu também escrevo". Diego trouxe A Máquina à conversa, e juntos elogiamos o programa, perguntando, em termos, como nasceu a ideia para criá-lo. Carpinejar disse que ele buscava resgatar um pouco o ar teatral dos antigos programas de TV, algo meio trash, meio bizarro. Falou ainda do ato de se puxar a alavanca (característico do programa): "que coisa mais antiquada aquela alavanca!". Emendei dizendo que de fato pairava uma atmosfera de teatro ali, não só por seu próprio ar performático, que parece estar mais elevado que o normal, mas também pelo entrevistado, que mergulhava no clima proposto. Esses ingredientes combinados resultavam em um programa diferente, forte, que ficava na cabeça mesmo após horas, dias, de assistido. Carpinejar sorria enquanto nos ouvia, comentei ainda que sempre visitava seu blog, que traz um conteúdo ágil, direto e sem frescura, um texto bem ao seu estilo.



Após essa breve conversa, o poeta nos agradeceu pelo afeto. Nós ainda o saudamos pelas suas palavras no ETC, por finalmente poder conhecê-lo, e nos afastamos. Carpinejar ainda foi solicitado por mais algumas pessoas. Eu e Diego, antes de sair da sala, porém, paramos diante da mesa que trazia os livros do poeta, à venda. Olhei todos por cima. Pensei em comprar algum. Imaginei que estivessem bem caros, dada a presença do autor. Dei-me conta de que ainda não tinha nenhum livro dele, apesar de já conhecer bem alguns. Contudo, talvez fosse melhor deixar para comprar numa livraria. Diego incentivou-me a comprar. Perguntei os preços, para me situar. Até que não pareciam tão exorbitantes. Mas naquele momento nenhum me pareceu muito atrativo, até que vi aquele seu livrinho que tinha nascido no Twitter. Reunindo frases do poeta publicadas no micro blog ao longo de 2009, este livro praticamente inaugurou um novo gênero. Ainda não o tinha folheado, mas sempre fui curioso para fazê-lo. Perguntei o preço: vinte reais. Não estava tão caro, afinal. Tirei a nota do bolso. Carpinejar ainda estava por ali – ou seja, eu ainda teria a chance de conseguir um autógrafo. Mas será que eu queria mesmo um autógrafo?

Enquanto ponderava essa questão, Glória Diógenes, mediadora da mesa, falou brevemente conosco, perguntando se tínhamos gostado. Elogiamos o debate, dizendo que tinha sido nossa primeira vez no evento, e que tínhamos adorado, principalmente das partes onde os ânimos esquentaram. Ela comentou, enquanto ríamos os três, que geralmente não costumam ser tão calorosos como este, e ainda falou um pouco sobre a edição passada do ETC, onde tinham recebido a escritora Ana Miranda.

Voltando ao livro que tinha acabado de comprar, dei uma breve folheada. Continuava pensando no autógrafo. Carpinejar já tinha falado conosco, valeria a pena tentar falar com ele de novo somente para conseguir sua assinatura? Comecei a me lembrar do dia em que fui ver uma palestra do Walcyr Carrasco, que também teve sessão de autógrafos. Tal como naquele dia, fiquei imaginando que a maioria das pessoas que falaram com o poeta provavelmente tinham pegado seu autógrafo, mas quão profunda realmente tinha sido a experiência para cada uma dessas pessoas? Teriam pegado o autógrafo apenas para dizer que conseguiram, para apresentá-lo como um "troféu"? Ou havia um quê a mais, uma real admiração? Sabia que nenhuma dessas perguntas podia ter uma resposta muito clara, tampouco lógica, uma vez que em momentos como aquele tudo ocorre em segundos. O fato é que não tive mesmo muita vontade de lhe pedir o autógrafo. Não estava ali com aquele intuito. O contato com Carpinejar, a oportunidade de ter estado ali assistindo àquele belo debate já me bastavam. Num último momento, ainda mantive o livro e a caneta junto ao braço, e me coloquei ao lado do poeta, que agradecia ao vendedor que vendera seus livros ali (ouvi ainda quando este lhe deu um cartãozinho, dizendo que onde quer que ele fosse palestrar, que o chamasse e ele iria). Estava com o livro e caneta prontos, mas não com a vontade. Por termos conseguido falar tranquilamente com ele, e ainda sobre um tema bem avesso ao discutido na mesa, eu já me considerava "autografado". E não deu outra: após receber alguns presentes dos organizadores do evento e de José Luiz Goldfarb, que ainda estava por ali, Carpinejar deu-me as costas, fazendo-me literalmente ler o que estava escrito em sua cabeça, e deixou a sala Capitólio.

Sem mais ter o que fazer ali, nos dirigimos também para fora do hotel. No saguão, Plínio ainda conversava com alguém. Pensamos em cumprimentá-lo, mas acabamos passando direto. Uma agradável música, tocada num piano, no fundo do salão, chamava atenção. Não sei como ainda pude percebê-la, uma vez que estávamos quase em êxtase. Primeiramente pela enorme carga de informação recebida (muita coisa que queria comentar com diego e ainda não tinha tido chance) e também, claro, pela fome exagerada que agora nos corroía. Já passava das 20:30.

Em casa, com energias repostas, passamos o resto do dia ainda eufóricos com tudo o que tínhamos absorvido. Comecei quase de imediato a esboçar as primeiras linhas de ambas estas postagens, que viria a continuar nos dias seguintes e só conseguiria finalizar agora em meados de junho.

Agora, já passados alguns meses deste ETC, e quase às portas do próximo, é possível refletir alguns pontos. Os palestrantes destes eventos geralmente saem de um para outro, sem ter muito tempo para 'digerir' o que passou, de perceber o que eles de fato realizaram. Naquele dia, no auditório, além da mesa composta por eles, além da presença de Fabrício Carpinejar, havia um público, do qual muitos quiseram aparecer e outros mal se fizeram notar, mas todos contribuíram, à sua maneira, para que o evento transcorresse como transcorreu. Para alguns, talvez tenha entrado por um ouvido e saído pelo outro, para outros, fez a diferença. Essas sensações me lembram, novamente, de alguma forma a palestra dada por Walcyr Carrasco na II Feira do Livro Infantil de Fortaleza, da qual comecei a falar neste post.

Enfim, eu tinha planejado fazer um breve texto aqui sobre o encontro, mais para falar de Carpinejar, porém a mesa inteira foi enriquecedora, de uma maneira que eu talvez não esperasse. Goldfarb, Plínio e Glória se mostraram muito simpáticos em contatos que fiz com eles via Twitter após essa edição do ETC. Agradeço pelos comentários e elogios que fizeram a essa minha iniciativa. Como falei, não conhecia ainda nada deles, e passo agora a ter essa oportunidade, impulsionado por suas palavras e guiado pelos seus blogs (ou perfil de Twitter, no caso de Goldfarb!). Se há mais algo que posso deixar ainda aqui, são os agradecimentos a eles, a toda a equipe que faz o ETC, e também a cada uma das pessoas que esteve ali naquela hora, e ajudaram a compor aquele cenário. Em particular, um obrigado especial ao meu irmão Diego Akel, que me motivou a abraçar essa oportunidade, sem o qual depois só teria me restado lamentar, caso não tivesse ido.

Não posso deixar, ainda, de mencionar os perfis dos palestrantes que fizeram essa edição do evento:

Glória Diógenes – @gloriadioge
José Luiz Goldfarb – @jlgoldfarb
Plínio Bortolloti – @plinioce
Fabrício Carpinejar – @CARPINEJAR
Albanisa Dummar (@albanisaL), ela estava lá, mas não chegamos a conhecê-la. Soubemos depois que é a responsável pelo Armazém da Cultura, que abraçou o ETC aqui em Fortaleza.

E também o meu e de meu irmão:

Denis Akel – @DenisAkel
Diego Akel – @cineakel




E um grande abraço a quem leu até aqui!

sexta-feira, 25 de maio de 2012

VII ETC Fortaleza (I)


Fotos e vídeos: Denis e Diego Akel


O ETC, Encontro de Twitteiros Culturais, é um evento que já ocorre há algum tempo no Brasil (nos moldes de outros similares que também ocorrem em vários outros países) cujo enfoque básico é o universo virtual, ou seja, falando nos tempos atuais, nas redes sociais e tudo o mais que movimenta esse infinito e assustador mundo que é a internet. Valendo-se do Twitter como ferramenta principal, os encontros visam explorar tendências e costumes do mundo digital, e perceber como esses novos parâmetros podem e estão influenciando nossas vidas.

Pois bem, até o dia 14 do mês de abril, eu ainda não sabia de nada disso. Tinha conhecimento, bem por alto, do ETC, que sabia ter alguma coisa a ver com redes sociais, mas nada além disso. E talvez continuasse com esse parco conhecimento até hoje, não fosse justamente a ferramenta que dá o eixo e base do evento: o Twitter. Não sou muito de redes sociais, dessa febre que se espalha avassaladoramente a cada dia, de viver praticamente em torno e dependente delas, como vejo muitas pessoas fazendo. Faço uso moderado do Twitter, por ele ser prático, rápido, e sem muitas frescuras típicas das demais redes (apesar de às vezes também encher a paciência). Por lá, podemos saber um pouco de tudo sobre áreas de interesse comum, referências de pessoas que admiramos, e eventos que acontecerão. Acompanho várias editoras, escritores e pessoas ligadas às letras. Foi através de lá também que me aproximei mais do trabalho do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, bastante celebrado e cultuado por suas frases e sentenças pungentes que coloca diariamente em seu perfil. Comecei a pesquisar mais sobre ele, assistir a entrevistas, ler seu blog, conhecer livros, e quando me dei conta, tinha o poeta como um de meus autores mais respeitados, apesar de ainda ter lido pouca coisa dele.

Ainda sobre Carpinejar, não posso deixar de citar o recente A Máquina, programa de entrevistas que o lançou como apresentador. Quando eu soube, imaginei logo: esse programa vai ser único! Sabia que o lado excêntrico e quase performático do poeta daria um tom bastante surreal e característico, tornando o programa uma experiência ímpar. E é bem isso o que pode ser visto nas noites de terça na TV Gazeta. Enfim, falarei mais sobre esse programa em um possível post futuro.

Retomando o tema, é engraçada a maneira como as coisas acontecem, como tudo parece às vezes planejado, sem que tenhamos feito quase nada para isso. Eu poderia ainda não saber o que é exatamente o ETC e sequer estar fazendo essa postagem aqui não fosse um tweet do Carpinejar, além, é claro, do fato de eu estar no Twitter na hora, em tempo hábil de saber: ele estaria aqui em Fortaleza, para fazer parte de uma mesa do VII ETC Fortaleza. Na hora, fiquei estupefato, pois seria uma excelente oportunidade para enfim conhecer o poeta gaúcho. Uma oportunidade como aquelas que aparecem em horas inusitadas e sabemos que não podemos deixar passar.

Para tornar tudo ainda mais alucinado, me dou conta de que a palestra será exatamente no dia seguinte, então não havia muito tempo para pensar, era preciso decidir logo. Por razões que são difíceis de explicar, após a euforia inicial, não me senti mais tão empolgado para ir. Então, no dia em questão, 14 de abril, há algumas poucas horas da palestra, fui incentivado por Diego, meu irmão, que ainda se ofereceu para ir comigo. Resolvi ir, sem mais ficar pensando o contrário, e ligamos para o número de informações, a fim de saber mais detalhes do evento. Foi preciso ainda mandar nossos dados por e-mail, uma espécie de cadastro, imaginei, que devia facilitar para quando chegássemos lá.
Esta edição do ETC Fortaleza, que acontecia dentro da programação de outro evento, o 2º WebFor, teria como palco o hotel Gran Marquise, que fica na Beira Mar. O debate, que traria como tema "Literatura e Cultura nas Redes Sociais" estava marcado para as 16h, mas eu já imaginava que provavelmente atrasaria. É comum a essas apresentações o início impreciso, dados os imprevistos, ou mesmo para esperar mais público. Talvez seja um dos momentos onde é educado atrasar.

Seguimos para o hotel com cerca de uma hora de antecedência. A Beira Mar é um lado da cidade onde pouco costumo ir, portanto é sempre quase como se estivesse em outra cidade; o clima praiano,  a atmosfera turística, evidenciada pelas dezenas de hotéis em sua orla; tudo contribui para tornar este lado de Fortaleza uma travessia memorável.

Nosso táxi parou bem à entrada do suntuoso hotel – soube depois que aquele era um dos hotéis mais novos dali. Fomos bem recebidos, do carro até a recepção. Próximo dela, um funcionário prontamente perguntou se estávamos ali para o evento. Concordamos, e ele nos colocou no elevador, que já sabia o caminho para o andar em questão (acabamos por nem reparar qual era). Demos em uma saleta, toda iluminada e encarpetada. Dali seguimos por um corredor, buscando alguma orientação.  Encontramos mais uma recepção, dessa vez do WebFor, o evento maior que englobaria o ETC. Acreditamos ser ali o ponto inicial, o local que validaria nosso cadastro feito por e-mail minutos antes, e nos aproximamos. Alguns atendentes, que pareciam muito ocupados, com inúmeros papéis em suas mesas, vieram ao nosso auxílio. Nos identificamos.

Nossos nomes, porém, não constavam na lista.

Indicaram uma segunda lista, atualizada com os nomes mais recentes. Procuraram novamente. Folhas e mais folhas com nomes. Nada. Estranhamos. Diego disse que mandamos o e-mail, e que até tínhamos ligado para confirmar, tendo falado com a Telma. Mas onde estaria essa Telma? Ninguém ali parecia conhecê-la. A solução foi fazer um novo cadastro para nós. Perguntaram para qual oficina seria. Oficina? Pensei. Não sabíamos de nenhuma oficina, uma vez que estávamos ali mais pela mesa composta pelo Carpinejar. Explicamos isso, e, por via dos fatos, por já estar ali e tudo, pedi para ver a programação das tais oficinas. Imprimiram um página. Com a folha em mãos, vi em letras vermelhas a programação, e não entendi bem por que eram chamadas de oficinas, uma vez que pareciam apenas mais palestras. A uma primeira vista, não nos interessamos por nenhuma delas. Falaram para resolvermos logo se iríamos ou não a alguma, pois precisavam fechar os nomes. Pedimos um tempinho para avaliar com calma e deixamos a salinha, indo a uma área externa, ao ar livre.

Ali, olhei e considerei novamente a programação. Continuamos, porém, sem ânimo para nada daquilo. Nosso foco ali era mesmo o Carpinejar. Seguimos o caminho à nossa frente até chegar onde achávamos que seria a palestra. Havia no final desse trajeto uma tenda enorme, montada e climatizada para o evento. Portas envidraçadas na entrada, ar-condicionados, centenas de cadeiras, telão ao fundo e tantas outras parafernálias. Era um espaço amplo, onde àquela hora já acontecia uma outra palestra. Quatro homens em uma mesa. Um deles, de  microfone em punho, discursava amplamente. O telão o exibia em close. Era um local bastante grandioso, até demais, pensamos, para a mesa da qual Carpinejar faria parte, que imaginávamos ser mais simples, reservada, tranquila, mas se seria mesmo assim, naquele ambiente, só nos restava esperar. O tema em questão pelos quatro sujeitos não parecia muito convidativo, então preferimos ficar nas imediações da tenda, observando pombos voarem entre os prédios em volta e fotografando os arredores (uma mania que temos). Voltamos para o interior algumas vezes, mas o debate lá não parecia sequer perto de acabar. Mais minutos se passaram. Faltava pouco mais de dez para as quatro da tarde, hora marcada para a mesa que tanto aguardávamos.

Eis então que uma pessoa da produção surgiu de repente e falou conosco, lá do lado de fora. Disse-nos, com grande efusão, que logo começaria a palestra com o embaixador da Venezuela no Brasil. Ficamos meio atônitos, mais pelo caráter absurdo, como se estivéssemos ali esperando o senhor embaixador. Isso, porém, me abriu os olhos, e quase de última hora, tive uma luz: seria mesmo ali o local da mesa de Carpinejar? Não víamos qualquer sinal de que começaria – muito pelo contrário, os palestrantes da tenda pareciam ainda muito animados a continuar falando. Além de que aquela tenda parecia mesmo o local propício para abrigar a palestra do embaixador da venezuela no Brasil, um acontecimento pomposo, sério, diferente de "apenas" um grupo de twitteiros convidados. Intrigado, voltei a olhar a programação, mas dessa vez não para ver as oficinas. Li o nome "Fabrício Carpinejar" e imediatamente as demais informações da mesa, até perceber o nome da sala: Capitólio. Estávamos mesmo no local errado! Passavam alguns minutos das 16h, imaginei que talvez a mesa já tivesse sido iniciada e que Carpinejar já podia até mesmo estar com a palavra. Nos apressamos a sair dali. De volta ao corredor, e à saleta encarpetada, onde tínhamos passado na hora que não acharam nosso nomes, nos deparamos, sem muita dificuldade, com o nome "Capitólio" estampado numa parede a um canto, na esquina oposta à que entramos. Não poderia ser mais fácil; era ali, afinal.

Entramos e nos surpreendemos. Ambiente refinado, organizado e aprazível. Uma sala vistosa, que lembrava um anfiteatro. À entrada, algumas mesas dispostas verticalmente. Em uma delas, vi livros de Carpinejar sendo vendidos, em outra, havia o que parecia ser outro espaço para inscrições. A seguir, várias cadeiras arrumadas em filas e colunas. Além delas, uma mesa retangular, coberta com um pano preto, encimada por quatro taças d'água. Tranquilidade e silêncio, que era o que provavelmente não acharíamos na tenda, havia de sobra ali.

Vimos um dos palestrantes (José Luiz Goldfarb, como descobriríamos depois), já sentado, em um dos lugares da mesa. Ele parecia simpático e receptivo, e foi bem o que demonstrou no decorrer da palestra. Naquele momento, Goldfarb estava atrás de seu macbook, e parecia invariavelmente ocupado.

Nos apresentamos às mesas de inscrições, onde fomos muito bem recebidos. Demos nossos nomes, e desse vez não deu outra: lá estavam eles! Recebemos crachás identificados, e pastas com papel e caneta. Comentei com Diego que parecíamos quase jornalistas especialmente convidados para cobrir o evento. Diego disse que isso era uma prática comum neste tipo de evento, o que desmonta minha fantasia e só demonstra minha inexperiência na situação. Quem também nos acolheu, com grande simpatia, que depois descobrimos ser a mediadora da mesa, foi Glória Diógenes. Ela nos disse que apenas estavam esperando o Carpinejar chegar para dar início, então buscamos logo bons lugares. Tivemos plena liberdade para escolhermos onde sentar, uma vez que quase todos os lugares (cerca de 100) ainda estavam livres. Fomos bem para a frente; tínhamos o objetivo de fazer algum registro, através de fotos e vídeos. Havia um tripé com uma câmera, armados bem à frente da mesa, juntos a um notebook preparado. Soubemos depois que a ideia era fazer a transmissão do debate ao vivo pela twitcam, como – também soubemos depois – aconteceu na edição anterior do ETC, mas isso acabaria não dando certo dessa vez, como direi mais adiante.



Aproveitei esse breves momentos antes do início para já escrever algumas observações sobre o lugar, nas muito bem-vindas folhas de papel que recebemos. Continuavam todos à espera de Carpinejar. Já se aproximava das 16:30. Felizmente o atraso básico que eu imaginara tinha se consolidado, mas já começava a se tornar abusivo. O lado bom é que mais e mais pessoas foram chegando, enchendo o auditório. Em certo momento, pediram aos que ainda não tinha feito a inscrição (que dava direito ao crachá e tudo o mais), para fazê-lo. Percebi então que quase todos não tinham feito, uma vez que boa parte das pessoas se levantou. Ainda bem que nós já tínhamos feito desde casa!



E continuava o suspense quanto a chegada de Fabrício Carpinejar. Alternei constantemente olhares entre os organizadores do evento e a porta de entrada da sala, à espera do poeta gaúcho. Então, passando um pouquinho das 16:30, a mediadora, Glória Diógenes, já à mesa com os demais palestrantes (o jornalista Plínio e o professor Goldfarb), decidiu dar início aos trabalhos. Ela começou a apresentá-los ao público, começando com Goldfarb. Em vez de repetir aqui títulos e rótulos, praxe nesse tipo de introdução, colocarei um link que expõe um pouco mais sobre eles, deixando assim que cada um fale por si. Vejam abaixo:

Glória Diógenes

José Luiz Goldfarb

Plínio Bortolloti

Fabrício Carpinejar

Precisamente às 16:37, ouvi quando alguém da produção do evento disse, lá de trás, que Carpinejar já estava no hotel. Nesse meio tempo, já estava até brincando com Diego, dizendo que até então ainda não se sabia se Carpinejar realmente existia, no sentido de que só o tínhamos visto em entrevistas e tal, e de repente estávamos ali à espera dele. Parecia ilusório demais. Era quase como se achássemos que ele fosse apenas uma invenção...  da máquina, talvez? O fato é que a notícia da chegada de Carpinejar ao hotel nos jogou de volta à realidade. Mesmo sem ainda termos visto o poeta, uma coisa já era certa: ele realmente existia. Passaram-se mais uns minutos, nos quais Glória continuou a apresentação e logo depois, em um momento onde eu mais uma vez alternava olhares entre a mesa e a entrada da sala, vejo finalmente a chegada do poeta de óculos vermelhos com poesia na cabeça, literalmente falando. Ele assumiu sua cadeira, em meio a uma gigantesca salva de palmas. Sorridente, o poeta agradeceu. Com a mesa enfim completa, Glória continuou fechando as introduções dos demais, falando um pouco de suas áreas de atuação e trabalhos.






Carpinejar mal se juntou à mesa e já chamou atenção. Enquanto Glória passou a palavra a Goldfarb, e este começou a falar, o poeta gaúcho de repente pegou um pacote com algo amarelo, que já trazia à mão desde sua chegada. A uma primeira vista, achei ser um saquinho de batata fritas ou algo similar. Em se tratando de Carpinejar, tudo seria possível, pensei. Vai que ele não tinha almoçado. Mas era algo ainda mais louco e incomum que isso. Eram balões! Balões amarelos, com um sorrisinho estampado! Sentado à mesa, ele encheu um e mandou com um soco na direção do público. A reação a princípio foi de choque e espanto, mas depois todos caíram na brincadeira e ficaram jogando os balões para o alto. Com certeza foi um gesto bastante ousado, mas que descontraiu a todos, e preparou para o caloroso debate que estava por vir. Não sei se isso é costume em suas palestras, mas de cara já colocou todos no clima e no astral do poeta, ao desarticular um pouco toda aquela seriedade de evento, fazendo com que as pessoas sorrissem. Foi quase como um mergulho na infância, onde correr atrás de balões era lei.







O vídeo a seguir mostra um pouco das palavras iniciais de Goldfarb:





A palavra foi então passada de Goldfarb a Carpinejar. Ele não poupou o pobre microfone. Sua voz em segundos encheu a sala, e quase não se ouviu mais nada além dela. Rapidamente tornei a empunhar a câmera e comecei a gravar as efusivas palavras do poeta gaúcho. Era por causa dele que estávamos ali, afinal:







Bom, optei por dividir essa postagem em duas, pois havia muita coisa da qual queria falar, nesta minha pequena releitura do evento, além das fotos e vídeos. Continuarei na segunda parte, contando mais detalhes e o desfecho, a hora que enfim conseguimos trocar algumas palavras com Carpinejar.

Obrigado a todos que leram até aqui e até a parte II!