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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Uma noite búlgara no Ceará



Fotos: Denis Akel / Diego Akel

No domingo, 12 de fevereiro, tive uma surpresa bastante agradável, ao descobrir, meio por acaso, uma programação cultural aqui em Fortaleza. Tinha quase que acabado de chegar de Recife, onde fui fazer uma oficina literária (da qual falarei numa postagem futura), e ainda respirava o forte clima cultural que sempre paira na capital pernambucana, quando soube desse evento, o Panoramas Internacionais de Cultura, que reuniria exposições, mostra de filmes e apresentações musicais. Como destaque da programação, dois artistas convidados, a pianista Borislava Tavena e o escritor Ilko Minev.

BORISLAVA TANEVA?

Quando soube da programação e tive o desejo inicial de ir, comecei a pesquisar alguma coisa sobre a pianista, mas logo me detive. Nesse mundo de hoje, é um impulso essa coisa de querer sempre saber tudo, ou de querer se antever muito ao que vai acontecer. Chega, preferi não ler mais nada, não descobrir mais nada, mas me deixar envolver pelo momento que estava por vir. O máximo que cheguei a ver foi a foto de Borislava, que parecia muito simpática e receptiva. Já estava ótimo.

Haveria, ainda, antes do recital da pianista, uma apresentação do escritor búlgaro, radicado brasileiro, Ilko Minev. Eu ainda desconhecia Ilko, e seria uma ótima oportunidade também de conhecer sua obra, o que me deixou ainda mais animado para não perder essa noite, mais ainda por ter chegado há poucos dias de uma oficina literária e ver nessa oportunidade quase como algum tipo de prolongamento da boa sensação que trouxe de lá.

O horário que vi, da apresentação, à princípio foi às 18:30, mas quando chegamos ao teatro (fui com meu irmão Diego e uma amiga querida nossa, Carol), mais ou menos perto desse horário, esperando encontrar um habitual atraso como em qualquer evento do gênero, me deparei com o escritor búlgaro já no centro do palco.



EMBALADO POR CLÁSSICOS BÚLGAROS 

À entrada, tinha recebido um folheto informativo que constava o verdadeiro horário: 17:30. Precisei de alguns minutos para entender que a apresentação não só já tinha começado como o escritor já ia bem além da metade de sua fala. Fazer o quê... procurei um lugar para sentar, enquanto o público, à meia luz, ouvia as palavras de Ilko. O áudio estava péssimo, tentei captar ainda um pouco do que ele dizia, mas já sabendo que tinha perdido bastante do contexto geral.

Sentado, observei um pouco o teatro e as pessoas que ali estavam,  pensando como tinham sabido daquele vento, uma vez que foi bem pouco divulgado. Havia um público até bem respeitável, em sua maioria de senhores e senhoras. Não demorou mais do que alguns minutos, Ilko Minev agradeceu, foi aplaudido e deixou o palco. No instante seguinte, a apresentadora chamou o outro destaque da noite, a pianista Borislava Taneva. No folheto, havia um pequeno texto de introdução da própria Borislava. Achei as palavras tão sinceras, transmitindo muito bem o tom desta noite tão singular, que as reproduzo a seguir:
​
Nesse recital apresentarei uma espécie de "caminhada" no tempo, abrangendo obras desde a criação da escola búlgara de compositores profissionais (início do século 20) até os tempos atuais.
Interpretarei peças para piano de compositores clássicos, como o nosso grande Pancho Vladigerov (cujo Concerto no. 1 para piano figurou no concerto de diplomação de Hebert von Karajan - um fato pouco conhecido!) - e de seus colegas mais jovens Alexander Tanev, Georgui Minchev, Julia Tsenova. Apresentarei também os contemporâneos Georgui Arnaudov e Christo Yotzov.

Além de buscar representar as diversas gerações, ampliei tanto quanto possível a palheta de gêneros, de modo a incluir o estilo folclórico, música aleatória, jazz, colagem e muito mais.

Este meu projeto autoral foi implementado em Atenas, Genebra, Paris, Berlim, Luxemburgo, Munique, Moscou e em outros lugares, tendo sido recebido muito calorosamente, com grande interesse e curiosidade indisfarçável por parte do público.

A apresentação das peças será acompanhada por breves comentários, sendo uma honra para mim, como pianista, poder representar pela primeira vez este gênero específico da música búlgara aqui no Brasil, estreando na cidade de Fortaleza.

Borislava Taneva 




A pianista surgiu com elegância, trajando um longo vestido preto, sobre o qual um majestoso lenço enrolado ao pescoço. Tinha feições tão ternas que passava a sensação de já conhecer o teatro, o público, a cidade. Da mesma forma, senti um bem-estar só de vê-la, como se sua figura transmitisse paz, tranquilidade. No centro do palco do teatro, um enorme piano aguardava em silêncio, prestes a ser acordado.

O recital teve início, e tal como Borislava disse que faria, antes de cada música, ela falou algumas breves palavras sobre o compositor e curiosidades que a envolviam, enquanto uma projeção no fundo do palco mostrava uma foto do autor. A pianista falava diretamente em búlgaro, cabendo à apresentadora da noite, Nara, a função também de tradutora. Foi muito interessante observar aquele choque cultural, dois idiomas tão diferentes convergindo em algum tipo de entendimento, bem como as histórias que envolviam cada uma das melodias.

As músicas foram interpretadas maestralmente, de uma pianista segura e concentrada. É difícil definir exatamente o que senti ao escutá-las, mas é certamente algo de mágico, transcendental, algo que corre no ar, invisível, mas ao mesmo tempo palpável, amável. O prazer de se escutar um piano, se deixar perder na intensidade das notas, que ordenavam diálogos ora caóticos ora suaves. A cada nova peça, novas sensações, transformações. Observei também como o restante do público reagia a tudo aquilo, o que será que cada um pensava de Borislava? das composições? De que forma cada uma daquelas músicas lhes tocava?



Terminado o recital, Borislava foi aplaudida de pé. Sorridente e realizada, a pianista agradeceu a todos pela presença e por receberem tão bem aquelas composições que chegavam, em forma de recital, pela primeira à Fortaleza. Ela recebeu ainda um buquê de rosas e o carinho de todos com prolongadas palmas.




MOMENTO ILKO MINEV 

Informaram em seguida que haveria um sorteio dos livros de Ilko. A maneira como esse sorteio se deu foi no mínimo inusitada: nada de números ou papéis distribuídos, a apresentadora disse que ganhariam os livros os aniversariantes do mês de fevereiro, e à medida que as pessoas foram se agrupando, ela finalizou dizendo que os do mês de maio e março também seriam vencedores. O público reagiu com certa estranheza, mas foi se adaptando à novidade.

No saguão central do teatro, foi disposta uma mesinha, onde o autor sentou-se. À sua volta, as pessoas tinham que estar com a identidade em mãos, para provar que eram dos respectivos meses. Todos se agruparam, sem saber ao certo onde ficar, até serem organizados de acordo com os meses que representavam. Como representante do mês de março, juntei-me a meus irmãos de mês. Parecia quase uma gincana escolar, com uma curiosa vibração no ar, de alegria, festa. A iniciativa de sortear aquele monte de livros (acho que foram mais de 30) era algo bem incomum de se ver. Ilko queria realmente espalhar sua literatura, e o fazia com uma leveza e simplicidade que davam gostos de ver. As duas obras, A filha dos rios e Onde estão as flores iam sendo distribuídas à medida que as filas andavam. No fim, fiquei um pouco ansioso por quase não ver mais livros sobre a mesinha. Mas ainda havia sobrado um, como que a conta certa para aquele momento. Recebi o livro das mãos do autor, que estava ao lado de sua esposa. Conversamos brevemente e soube que ele teria, no dia seguinte, uma fala na Academia Cearense de Letras. Seria um ótimo momento para compensar o que eu tinha perdido no início da noite. E lá fomos nós.



UM DIA NA AMAZÔNIA

Tão logo tive a honra de ganhar o livro "A Filha dos Rios", de Minev, me pus a lê-lo. Tenho adotado cada vez mais a ideia de fazer logo coisas que pensamos "faço depois, leio depois". E esse depois nunca chega. Gosto de assumir uma postura mais livre e solta, tentando ler sem que me dê conta de que realmente estou lendo, e assim deixando a leitura fluir com espontaneidade. Encontrei uma leitura acessível, bem articulada, bastante própria de imagens e sentidos, numa linguagem direta e bem dosada, que me fez sentir quase na Amazônia, à medida que se desenrola. E assim sigo a leitura, em uma brecha ou outra, sempre que possível, sem me dar conta de que realmente o estou lendo.

E NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS

No dia seguinte, Ilko fez de fato a fala especial na ACL, na qual falaria com mais tempo, abordando sua história desde Sófia (capital da Búlgaria) , passando por São Paulo até chegar a Manaus. Na bancada junto a ele, acadêmicos e professores de universidades. Praticamente não havia público. Fui novamente com Diego e Carol e acho que éramos quase o único público extra oficial ali presente, e isso foi relativamente bom, pois favoreceu um debate mais silencioso. Contudo, o espaço da Academia é ótimo e deveria ser mais utilizado para falas de escritores e também mais divulgado.



A acústica do microfone também não era das melhores, mas já superava a do teatro. O escritor e acadêmico Dimas Macedo fez a mediação, debatendo com Ilko sua trajetória, desde a fuga da Bulgária por questões políticas, do longo período como empresário (começou vendendo calculadoras), da vida em Manaus e de como entrou na literatura. Foi uma conversa breve, mas bastante profunda. Era possível ver em Ilko alguém que abraçou a cultura brasileira com um apego muito próprio, a vida na Amazônia, que ele conhece tão bem desde sua juventude, uma história que se misturou tanto a ele a ponto de querer contá-la, como tem feito desde que começou a escrever.

A seguir alguns trechos do que consegui pegar da conversa:

Sempre fui leitor compulsivo, leio de tudo, até bula de remédios, isso me fez querer escrever e quis escrever para ser fácil de ler, escrevi em português simples – Ilko

Todas as histórias têm o seu lado positivo e negativo. Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, mesmo que não para publicar, escreva-as para a família – Ilko





No final da palestra, Ilko distribuiu mais livros, e dessa vez sem necessidade de sorteios. "Não pretendo voltar com todos esses livros não!", disse em tom de brincadeira. Mas ele voltaria, havia bem mais livros do que pessoas. Fez-se uma fila, e fui na esperança de conseguir o segundo livro, que na verdade era o primeiro em ordem de publicacão, Onde estão as flores. Tive mais uma conversa rápida com ele, na qual agradeci e parabenizei pelo conjunto da obra, e comentei que já tinha começado a ler o outro e estava gostando muito da maneira bem peculiar com a qual ele trabalhava a narrativa, nos situando realmente na Amazônia, e contava a história numa linguagem tão simples quanto cativante. Minev sorriu, disse que tinha um filho com o meu nome.

POST SCRIPTUM (01/05/2017)

Este post já estava praticamente pronto há meses, faltando apenas selecionar as fotos e fechar um ou outro tópico, mas me ocupei em outros eventos, como a Bienal do Livro e somente agora pude finalizá-lo. Este dia, a noite búlgara, continua ainda bastante aceso em mim. De quando em quando escuto algum dos compositores búlgaros e sigo ainda na leitura de A filha dos rios, que percebo cada vez mais ser um romance que homenageia Manaus, um retrato histórico muito particular, a visão de um europeu que se sentiu abraçado pelo Brasil, que mostra uma realidade pouco conhecida na literatura, de igarapés, seringais, pelas de borracha, de uma Manaus antiga que clama para ser revisitada.

Para mais informações sobre Ilko Minev, há largo conteúdo sobre ele no YouTube, e o autor tem ainda seu site oficial.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Balada do Guarda-Roupa


Fotos: Diego Akel e Denis Akel

Nossa, fazia já um longo tempo que não me envolvia tão diretamente na produção de uma animação, ao ponto de que já quase não me lembrava do quão intensa é essa experiência! A última vez ainda tinha sido em 2009, quando fiz, ao lado de meu irmão, Diego Akel, o curta Golpe Postal. De lá para cá, tive várias ideias para futuros projetos, como Polígonos e outros, mas me vi mais tragado ao mundo literário, e segui na medida do possível, colaborando com ideias e sugestões nos trabalhos que Diego fez depois do Golpe.

Planejamento demais, muitas vezes, leva à estagnação. Talvez seja bem por isso que alguns de nossos projetos ainda não caminharam tanto quanto gostaríamos. A Balada do Guarda-roupa, porém, contraria completamente essa maré. O filme, inicialmente, surgiu quase sem nenhum planejamento, assim de um lampejo, tão intenso que praticamente só nos demos conta do que tínhamos feito quando o finalizamos. E querem saber? Talvez, afinal, essa seja a melhor maneira de trabalhar. Fazer as coisas sem se dar conta de que as estamos fazendo.

Balada do Guarda-Roupa tem sua origem direta na música que embala todo o filme, "Bm Klezmer", da banda americana The Underscore Orkestra. Diego me disse que sempre quis fazer um trabalho tendo já uma trilha sonora como guia, e que há tempos estava de olho nas músicas desta banda. Até que certo dia, em uma de nossas muitas madrugadas insones, ele descobre esta bela composição. Pronto, estava dado o primeiro passo. Diego desde já teve a certeza: faria um filme com aquela música. Ele entrou em contato com o pessoal da banda, uma vez que já tinha visto no site do grupo que as músicas estariam disponíveis sob licença Creative Commons, e uma vez plenamente autorizado, deu início então à produção do filme.

Inicialmente, a ideia era usar brinquedos, animando-os em stop motion de acordo com a trilha sonora. Seria uma interpretação livre da música. Os brinquedos seriam dispostos como uma bandinha, cada um com um instrumento musical, representados por canetas, tampas, objetos que juntos lembrassem violinos, sanfonas etc. Nós guardamos aqui ainda muitos brinquedos, remanescentes de uma infância que até hoje lembramos com grande apego, seria uma boa utilização para eles, afinal.

Com o passar dos dias e evolução do projeto, Diego, que me pôs a par dessa ideia, decidiu que não usaria mais os brinquedos, pois isso demandaria mais tempo, para recolhê-los, prepará-los, e aí então animá-los. O que o ajudou a tomar essa decisão foi quando ele, por acaso, se deparou com um cinto e um pente, e percebeu nesses objetos mais do que eles aparentemente representam. Diego viu ali, de alguma maneira, a imagem de um violino. O filme começava a tomar uma guinada diferente. Eufórico, Diego correu para os guarda-roupas aqui de casa, e pegou o que pôde. A ideia do violino foi aprimorada quando ele viu alguns cabides, e sua imaginação foi tratando do resto. Saiam de cena definitivamente os brinquedos, para dar espaço àqueles objetos tão comuns, tão do dia-a-da, que acabariam tendo bem mais o que dizer. Ao perceber a grandeza e unidade de um cinto, visto sob a perspectiva não de acessório, mas como objeto a ser animado, Diego tem então a visão nítida do que usar para fazer seu filme. Cintos, roupas, sapatos, cabides, e assim os objetos foram, naturalmente, se juntando ao elenco da produção. Foi ainda nesse momento de redescoberta que ele teve a ideia do título do filme, Balada do Guarda-Roupa, um nome que até então ainda era provisório, mas que à medida que víamos o desenrolar das cenas, se encaixava muito bem na proposta, bem como na música.



Toda essa concepção inicial do filme surgiu, ainda por cima, sob a ideia louca de finalizá-lo a tempo de enviar para o Anima Mundi (para a categoria Anima Multi, competição de animações online) desse ano, cujo prazo terminaria em cerca de uma semana a partir do ponto que começamos, ou seja, teríamos apenas sete dias para concluir o filme! Era algo tão absurdo de imaginar, que preferíamos evitar pensar nisso, e ir começando a produzi-lo.

O filme inteiro foi animado no NUCA, Núcleo de Cinema de Animação Casa Amarela Eusélio Oliveira. Diego tinha feito por lá, recentemente, uma vinheta para o festival de animação MUMIA (veja aqui), usando o equipamento local, que consiste em uma truca profissional de animação, um aparato muito eficiente no meio, que permite afixar câmera, níveis de altura, entre outras coisas. É ótima pela praticidade com que torna o trabalho do animador. Já com alguns trabalhos feitos nessa truca, Diego teve a ideia de fazer o Balada nela, onde teria boa liberdade para mover os objetos, boa iluminação, além, é claro, da assistência do também grande animador Josimário Façanha, que trabalha na instituição.



Em meu primeiro dia no filme (um dia após o início oficial da produção), reunimos todo o material interessante que encontramos. Trouxemos de nossa casa cintos, pentes, colares, anéis, fivelas, muitas roupas, e ainda pedimos outras tantas emprestadas aos colaboradores, além de cabides e o que mais pudessem trazer. Colocamos tudo isso numa mesa, bem ao lado da truca. O ambiente reservado é ótimo para trabalhar. Foi colocada uma base de madeira sobre a superfície da truca, ajustadas as duas luzes laterais, que cuidariam da boa iluminação do filme, posicionada a câmera, preparado o notebook que faria a captação das imagens (usamos o software Dragon Frame) e pronto. O resto agora cabia aos objetos, ao que nós faríamos deles.

Caos ordenado; algumas das roupas e acessórios que usamos no filme

Diego já tinha feito uma cena no dia anterior, animando dois cintos, a primeira cena do filme, e agora teríamos que continuar a partir dela. Um dos maiores desafios era a questão da duração da música, que tinha cerca de 5 minutos. O filme teria que ter praticamente a mesma duração, então tínhamos que ter cuidado com cada cena, com cada ritmo e batida, com o efeito que queríamos passar com os objetos, que de certa forma deveriam representar aquela melodia. Diego, até o final das quase duas semanas que levamos para terminar o curta, ouviu exaustivamente a música, tendo-a praticamente decodificado. Ele sabia com rigoroso controle onde começava e terminava cada trecho, e isso lhe moldou para que fosse aos poucos montando todas as cenas.

Ao longo de todos esses dias, do fim de maio ao começo de junho, nossa rotina na Casa Amarela foi bastante intensa. Quando chegávamos em casa, já à noitinha, Diego ia tratar as inúmeras fotos que tínhamos (eram cerca de 300, 400 por dia) e começar a montar o filme. Com o tratamento de cores, era visível a vida que as imagens ganhavam, e agrupadas junto à música, já era possível ter uma prévia de como estava ficando o trabalho. Assistíamos várias vezes, tanto em casa, como sempre logo que chegávamos à Casa Amarela, nas manhãs seguintes. Era uma maneira de reorgarnizar nossas ideias, e nos preparar para as cenas que faríamos naquele dia. Isso foi algo tão marcante para mim que sempre que vejo os primeiros 20 ou 30 segundos do filme, lembro vivamente de quando os via, ainda na salinha da truca, em um destes momentos de que falei. 

Inicialmente, as cenas eram relativamente calmas, ainda estávamos desenvolvendo um ritmo, enquanto aprendíamos como trabalhar com aqueles objetos. Animar anéis, pente e cintos era divertido. A liberdade era enorme; criávamos padrões e movimentos próprios, como o efeito do cinto saindo pelo braço da camisa ou entrando pelo bolso da calça, de maneira a sempre buscar uma interação entre os elementos que tínhamos.







Os momentos onde a música crescia, se intensificava, foram propícios para cenas rápidas e totalmente livres. Poucos frames, que criavam um pequeno caos, um delírio que confundia ao mesmo tempo que encantava, tal como a música. Nos divertimos muitos nessas cenas, que eram feitas rapidamente, justamente por não haver muito planejamento nelas. 

As roupas foram, por si só, quase um capítulo à parte. Possibilitaram uma extensa variedade de texturas e cores, que renovavam e transformavam o filme em muitas das transições. Era engraçado ver calças, camisas, gravatas, e manipulá-las daquela forma. Animar é, sobretudo, dar vida, e só quando estamos lá, interagindo com tudo, que percebemos o poder que temos nas mãos.







Criar pequenas sequências com os objetos também foi uma constante. Às vezes, estabelecíamos mais ou menos movimentos para eles, quase como criando uma pequena narrativa muda, e animávamos. Claro, acontecia sempre pequenos imprevistos e a animação caminhava para um lado não pensando, mas não menos interessante. Os objetos, de certa forma, nos diziam como queriam ser animados.




Durante boa parte das cenas, usamos uma folha de madeira como plano central, que possibilitou que girássemos o plano livremente, tornando possível uma nova variedade de transições e interações entre os objetos. Com as funcionalidades da truca, podíamos ainda aproximar ou afastar a altura da câmera, fechando ou abrindo o plano, tornando todo o conjunto de cenas ainda mais pulsante e feroz.

Nos revezávamos constantemente; enquanto um animava, o outro ficava a cargo de captar as imagens, usando um pequeno controle que acionava a câmera. Desse modo, o animador da cena teria sua atenção inteiramente voltada para ela, sem ter de precisar se deslocar para acionar o botão a cada foto tirada. 




Quanto à animação em si, aconteceram algumas coisas engraçadas. Inicialmente, eu iria apenas dar um suporte a Diego, mas à medida que fui me aprofundando e entendendo o que o filme parecia pretender, me soltei a ponto de pensar em algumas ideias e planejamentos de cenas. Comentava-as com Diego, que aprovava com a cabeça e no segundo seguinte eu já estava diante da truca, animando o que pensara. Nossa visões, apesar de parecidas, se diferem bastante em muitos aspectos, como se pode observar ao longo do filme. Enquanto Diego prima pelo caos e inquietação em suas cenas, característica forte em seus trabalhos, eu me sinto mais à vontade animando padrões geométricos, ou de alguma maneira simétrica, criando oposições de cores ou formas. Ambas essas estéticas se completaram muito bem, de acordo com os momentos do filme, da música. 




A visão própria de cada animador engrandeceu o filme, gerando um harmonioso choque de pontos de vista

A técnica do stop motion consiste em se tirar foto após foto, movendo um pouco os objetos entre uma e outra imagem. Agrupadas, as imagens criam a ideia do movimento, e nasce a animação. É uma técnica fascinante, mas requer grande paciência e capacidade de improvisação. Paciência porque muitas vezes passamos horas e mais horas para produzir meros segundos animados. Improvisação para momentos onde não conseguimos fazer algo do jeito que imaginamos. Neste trabalho, cada objeto tinha sua peculiaridade, tínhamos que aprender como poderíamos animá-los, entendê-los. E mesmo assim, algumas cenas não ficavam bem como pensávamos. Felizmente, desses "erros" saiam também valorosas surpresas.













Um detalhe curioso, que surgiu sem muita preparação, foi o incrível efeito que obtivemos com as sombras dos objetos, acentuadas pelas luzes amareladas. Tivemos o cuidado apenas de equilibrar a iluminação, para que as sombras ficassem mais ou menos com o mesmo volume. Como resultado, toda a fotografia do filme se beneficiou deste aspecto.

Sombras e iluminação, detalhes que acabaram fazendo toda a diferença

A sanfona é também um outro trecho bastante interessante do filme, e da música. Diego já tinha pensando em como conduzi-la ainda desde quando pensava em usar os brinquedos, com lápis de cor e afins. Com a mudança no material usado, no momento que ele pegava algumas roupas para o filme, percebeu o curioso efeito que se fazia ao esticar o tecido. Nascia ali a sanfona! Foi uma sequência de certa dificuldade de execução, onde Diego teve que literalmente meter as mãos na massa, mas cujo resultado criou aquela que muitos consideraram a melhor cena do filme. O movimento cadenciado, quase uma dança, mostra toda a vivacidade que queríamos passar.




Para cobrir a duração da música, e também poupar algumas horas de trabalho, alguns planos foram repetidos, em momentos precisos, como um complemento adicional. O pouco tempo que tínhamos limitou um pouco a elaboração de novas sequências, e como tudo flui muito rápido, essas breves repetições acabam por criar alguma unidade. Ainda, muitas cenas tiveram de ser cortadas da versão final, por não se encaixarem devidamente no ritmo. É um processo difícil, porém necessário, esses pequenos cortes, muitas vezes de cenas que pareciam tão promissoras.



Como já disse, uma coisa muito bacana do Balada foi a liberdade que tivemos para animar, justamente por não haver um roteiro pré-estabelecido. Claro, tínhamos um pequeno planejamento das cenas, mas só com base nos frames que cada uma teria. O que aconteceria em cada uma era pensado na hora. Ouvir novamente a música era sempre um ótimo impulso criativo, para clarear as ideias. Além de mim, Diego e Josimário, contamos ainda com a participação de outros dois animadores: Clayton Bochecha e Maurício Nunes. Na verdade, Clayton inicialmente faria mais registros de bastidores, mas foi rapidamente contigiado pelo espírito do filme. Maurício veio à cidade para o Cine Cieará. Bastou uma breve passada na Casa Amarela, para Diego, convidativo, lhe dizer: "Não quer animar um pouquinho?" Ele riu, dizendo que já temia essa pergunta e no segundo seguinte já estava debruçado sobre a truca. 

Eu e Josimário Façanha, em uma das muitas sequências onde roupas e objetos se misturam

Clayton Bochecha e Diego Akel, em esforço mútuo para convencer os cintos a ficarem na posição adequada

Após uma semana intensa, produzindo e animando diariamente o filme, percebemos a loucura onde havíamos nos metido. O prazo limite do Anima Mundi já quase batia à nossa porta. Tínhamos feito muita coisa, claro, cerca de dois ou três minutos, mas ainda faltava uma fatia considerável. Mesmo que ficássemos os próximos dias direto animando, não daria tempo, uma vez que ainda teríamos pela frente todo o processo de edição do filme. Diego então recorre a perguntar se por acaso o festival vai adiar um pouco o prazo de inscrições, dizendo que algo em torno de uma semana seria ideal. E qual não foi nossa surpresa com a resposta: o prazo foi adiado em uma semana! Continuamos então, em ritmo acelerado, agora já perto da etapa final.




Nos últimas dias de produção na Casa Amarela, porém, já sentíamos o cansaço, que invariavelmente se acumulava dos dias anteriores. Já olhávamos para os objetos com certa repulsa, a criatividade parecia ter se esgotado, não sabíamos mais como conduzir as cenas. Os olhos, já pesavam, o corpo, de tanto ficar em pé, refletia em dores musculares o esforço empreendido. Bem exatamente no último dia, tudo isso se intensificou, a ponto de passarmos da hora na Casa Amarela (geralmente saíamos de lá às 17h). Dessa vez, tínhamos que ficar lá até terminar aquela parte do filme, a captação de imagens, pois no dia seguinte, já o último do prazo, seria dedicado à edição. 

Os planos finais do Balada trouxeram os sapatos como elemento novo. Foi muito divertido lidar com eles, e integrá-los ao que já tínhamos. Mas após alguns planos, não era fácil manter o fôlego. Diego sentou-se e me disse que estava difícil. Disse a ele que já estávamos quase lá, que já tínhamos feito muito, agora bastava um último esforço, e fui com passos decididos para a truca, onde comecei a tentar bolar outra cena. Diego, motivado, retomou em seguida, para fazer a cena final, que envolvia praticamente todos os objetos que usamos no filme, em uma salada de cores e formas, uma cena caótica que somente ele poderia fazer.






A cena final, que mostra o suposto guarda-roupa se fechando, e meio que engolindo tudo, foi pensada e feita um dia antes. Na realidade, usamos um pequeno baú, colocado de lado, para criar o efeito de guarda-roupa. Os detalhes na fechadura e entalhes na madeira ajudaram a criar uma composição, dando tanta força para a cena que a consideramos a melhor para fechar o filme, apesar de ser rápida e brusca, quase como se a ordem afinal se fizesse após o caos.

Com essa primeira parte terminada, Diego assumiu, literalmente sozinho, as etapas finais, de edição e finalização. Tratar as imagens, montá-las para compor as cenas, criar a relação com a música. Um processo que foi até divertido, uma vez que a partir dele víamos o filme realmente ganhar forma e corpo. Já a finalização, que englobava exportar o filme pronto, foi um parte complicada. Por ter grande variação de cores e texturas, o arquivo final ficava muito pesado, comprometendo o computador. O resultado disso foi que a qualidade de imagem sempre ficava um pouco abaixo do esperado. Diego lutou como pôde para criar uma versão com qualidade aceitável, que foi a que seria disponibilizada para o Anima Mundi (postada no Vimeo) e seria a versão usada para participar do Anima Multi, categoria do festival com filmes de internet.

Para deixar esse post ainda mais completo, pedi a Diego que escrevesse algumas breves linhas sobre o filme:

O Balada do Guarda-Roupa foi um filme que, ao mesmo tempo que saiu num estalar de dedos, teve um processo instintivo, solto mas ao mesmo tempo intenso e complexo. O filme é, acima de tudo, a prova viva pra mim de que temos que agir direto do nosso instinto, fazer as coisas do jeito que achamos que deve ser, e adaptar todo o nosso entorno a isso. Acreditar mesmo no que achamos certo.

Trabalhar com outras pessoas sempre é fantástico, e tenho aprendido mais a cada trabalho como os colaboradores podem agregar tanto a algo que inicialmente só existia na sua cabeça. Trabalhar com o Denis sempre é algo que flui naturalmente e nos diverte muito. Apesar de nos parecermos muito, nossa abordagem animando é bem diferente, e isso se complementa muito bem no filme, tanto que fizemos os dois a direção de animação, combinando realmente como os planos iriam fluir. Josimário e sua abordagem tranquila mas concentrada sempre é uma presença que traz muita segurança na hora da animação, com o seu apoio, atenção aos detalhes e facilidade de se adaptar instantaneamente ao processo, seja ele qual for. Tive ainda as presenças rápidas mas precisas de Clayton Bochecha e Maurício Nunes, que deram sua participação ao filme.

O filme, no fim das contas, fluiu de uma forma bem natural e foi feito em um espírito livre. Da melhor forma que muitas coisas podem ser feitas, como sempre conversamos Denis e eu: terminar antes de se dar conta que se começou. E penso ainda que não dá para teorizar nem fazer muito juízo sobre o filme antes ou durante o processo; melhor fazer primeiro e deixar isso pra depois, se é que nós vamos fazer algum julgamento. Talvez seja melhor deixar essa tarefa para os outros.


Tampamos parcialmente as luzes, para fazer o plano final do filme, criando a ilusão de que tudo realmente estava sendo guardado no 'guarda-roupa'.  



Em julho desse ano, Diego foi para o Rio, para acompanhar a vigésima edição do festival. O Anima Mundi celebrava vinte anos de existência. Diego, além de acompanhar a programação do evento, e rever os amigos, participaria ainda com o curta Maria da Glória (na categoria Galeria), além do Balada. Em casa, fiquei me interando dos demais filmes que concorriam no Anima Multi. Essa categoria consistia em filmes feitos para a internet. Uma vez selecionados, os filmes ficariam disponíveis para o público assistir e votar em seu favorito. Assisti a todos os outros, e vi muitos muito bem realizados, dignos de talvez ganharem a votação. Igualmente, havia também algumas produções meio limitadas e de certa forma mal finalizadas. Em todo caso, já era um prazer figurar entre os vinte selecionados, dentre todos os que foram enviados. Votei, comentei com amigos, divulguei nosso filme como podia, nesse grande emaranhado que são as redes socias, e a expectativa, à medida que o dia do resultado se aproximava, era grande, embora não quisesse alimentar grandes esperanças prematuras. Vejam os filmes que participaram do Anima Multi aqui.

Houve ainda a feliz supresa de eu também ir ao festival, no fimzinho de julho. Pude acompanhar os últimos dias do Anima Mundi 2012, além da cerimônia de premiação. Só que, no último dia, sem muita explicação, a divulgação dos ganhadores deste segmento do festival foi adiada. Como acontece todo ano, o Anima Mundi tem edições no Rio e em São Paulo. O resultado que esperávamos só seria divulgado no último dia de lá. Ficamos desapontados, mas não havia o que fazer. Diego, porém, decidiu esticar sua viagem, e foi para SP, em parte, somente para acompanhar o desfecho dessa situação. Voltei para casa, onde fiquei acompanhando o que acontecia por lá, e já começava a esboçar essa postagem. 

Balada do Guarda-Roupa acabou não ganhando prêmios. Claro, ficamos um pouco inconformados no início, mas depois percebemos que o filme já ganhara muita coisa, e que nós, sobretudo, fomos 'premiados' simplesmente por tê-lo feito em tão curto tempo. Desde a concepção da ideia, da produção em si, todas as etapas tiveram seus desafios. E ainda, sempre nossa maior motivação foi terminá-lo a tempo de enviar para o evento, ser ou não ser premiado seria apenas consequência. 

Todo o tempo que investimos nesse filme nos ensinou que é possível, sim, fazer coisas acontecerem sem muito planejamento, sem muito preparativo, quando se tem um ideal e determinação. Quantas não são as ideias e projetos que são interrompidos, por extensos e muitas vezes desnecessários planos? Como eu disse no início desse texto, procuramos fazer o filme sem pensar muito, agindo de maneira solta e livre, apesar, claro, de depois, na parte da edição, ser necessário um controle maior e mais rígido para melhor lapidar a versão final. 

A sensação de ver um filme finalizado é sempre gratificante. E se tratando de animação, talvez seja ainda mais. Ver cada cena que fizemos, com tanto esmero, reunidas, é algo indescritível. Ainda que tudo passe incrivelmente rápido, e muitos detalhes sequer sejam vistos ou assimilados, sentimos cada cena, em cada transição, em cada  frame, ao lembrar de como foi fazê-lo para que ficasse daquele jeito. Com igual força, também vem à cabeça coisas como "Nossa, conseguimos mesmo!" ou "Puxa, fizemos mesmo isso!". Isso tudo talvez nos faça pensar que muitas vezes nós mesmos não acreditamos no que podemos fazer, e é justamente aí que talvez esteja nossa maior limitação.

E para finalizar, o filme concluído:





terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nos caminhos da música – memórias de um teclado quase esquecido



Bom, aproveitando que este é invariavelmente o primeiro post do ano, falarei um pouco sobre um tema de que gosto muito, mas que ainda tinha tido pouco ou quase nenhum espaço por aqui: a música.

Agora por esses dias, coisa de dois ou três meses, comecei a me aventurar por esta fantástica arte, de uma maneira um pouco inusitada, aproveitando um antigo instrumento de quase quinze anos, que estava parado há tempos – o teclado da foto acima.

Meu interesse inicial pela música veio quando ainda era pequeno, por volta de 1991 ou 1992. Costumava tocar um pouco de flauta, nada muito significativo, mas para mim tinha um sabor único, ao soprar e ouvir e ouvir aqueles sons se entrelaçando. Não era preciso entender nada, apenas sentir. Era meio que um momento de lazer, uma distração, mas um momento onde sobretudo me sentia bem, em harmonia.

O tempo passou. A magia da infância começava a desaparecer. Vinham outros interesses, e a velha flauta foi encostada (mas ainda a tenho). Os anos foram se seguindo. Ainda tentei retomar o gosto pela música, comprando um teclado básico, ideal para iniciantes, em meados de 1997. Por alguma razão, porém, não consegui manter o interesse. Cheguei a dedilhar algumas coisas, seguindo guias simples com números e cores (que usava na flauta ), mas realmente não me apronfundei. Após mais um certo tempo, acabei guardando o aparelho, que acabaria recluso por anos dentro de armários. Meu irmão bem que ainda tentou usá-lo algumas vezes, mas também de modo passageiro. É provável que durante todo esse tempo até tenha me passado pela cabeça doá-lo ou vendê-lo, por não saber direito o que fazer com ele.

Mas este teclado ainda viveria para ter seus dias de glória. Como sempre digo por aqui, tudo tem o seu devido tempo para acontecer. Foi assim que subitamente me vi tragado de volta ao mundo da música, de uma maneira tão abrupta que de certa forma me surpreendeu, e percebi que realmente podemos fazer qualquer coisa, se realmente quisermos. Eu estava seguindo dias de certa forma iguais, monótonos até, pode-se dizer, simplesmente com as atividades rotineiras, como acho que muitas vezes fazemos, sem nos darmos conta, ou por realmente não termos escolha. Recentemente, encontrei o velho teclado em uma faxina corriqueira, e o deixei por perto (ainda o guardo na caixa original), para uma hora abrir e ver se estava tudo bem. Sabia que talvez não fizesse isso tão cedo, mas a caixa permaneceu lá, inerte, ao alcance de minha mãos. Em um certo dia, decidi agir. Não sei o que me deu, mas resolvi não só pegar o teclado, como também me dedicar a aprender a tocá-lo. E não queria apenas seguir numerozinhos e coisas parecidas; queria aprender as notas, queria entender a teoria musical.

Pensei logo em usar a internet para esse fim, valendo-me de cursos (em PDF) e vídeo-aulas, pelo menos inicialmente. Resoluto, coloquei o teclado sobre minha mesa e me preparei para ligá-lo. Sabia que precisaria da fonte, que naquele momento não fazia a menor idéia de onde estava, se é que ainda a tinha, mas lembrava de que ele também funcionava a pilhas. Virei o aparelho, abri o compartimento e relembrei o número de pilhas de que precisaria: cinco. Corri pela casa, coletando-as de outros eletrônicos, até ter as cinco em mãos. Enfim colocadas no teclado, liguei-o. Não tinha muitas esperanças de que ainda fosse funcionar – estava guardado há anos, sem uso – mas ele ligou! O vislumbre da luzinha vermelha acendendo me trouxe um sorriso de satisfação. Dedilhei um pouco algumas teclas. Parecia mesmo tudo bem com o instrumento. O som das notas me remotava ao passado, à época que o comprei, até mesmo à época da flauta. Embalado por estas boas lembranças, repeti para mim mesmo que agora chegara o momento de aprender a tocá-lo.

Incontinente, recorri a talvez um dos melhores professores que podemos ter hoje em dia: o Google. Pesquisei com determinação, até baixar um bom material, para ser lido e estudado no computador mesmo. Era o básico do básico; noções introdutórias e afins. Seria um bom primeiro passo, imaginei, e me pus a lê-los. Um dos cursos que baixei era na verdade um curso preparatório voltado a tecladistas de igreja, contando com um vasto hinário a ser aprendido pelo mesmo. Contudo, lá pude ver que estava toda a teoria, bem explicada, bem do início, e acreditei ser um bom começo. Ainda, para entender efetivamente este curso, era preciso passar por uma parte inicial de regência, onde era explicado os primeiros elementos básicos da partitura, juntamente com as noções do gestuário. Por achar tudo aquilo interessante e novo para mim, debrucei-me sobre todo este conteúdo, antes de chegar propriamente à parte do teclado.

Passei os dias seguintes bastante mergulhado nessa área, foi mesmo uma grande descoberta. À medida que lia os conceitos e os praticava no teclado, ia me surpreendendo. Partituras musicais sempre me intrigaram, por parecerem complicadas, ilegíveis, como imagino que é tudo o que desconhecemos. Quando, porém, começamos a entender a lógica daquilo, seja o que for, percebemos que não é nada assim tão inacessível. Com a música, acredito não ser diferente. Aprendendo o porquê dos símbolos, seus significados, as notas e nomenclatura, comecei a ficar ainda mais curioso diante das partituras, por agora enfim poder lê-las, pelo menos ainda as mais simplificadas. Imprimi até alguns modelos de pentagramas para treinar alguns exercícios e os nomes e posições da notas.

Meu modesto teclado, como devem ter notado, traz várias etiquetinhas coladas nas teclas. Trata-se daquele material didático que acompanhava revistas que se propunham a ensinar as primeiras noções. Lembro que as afixei com empolgação nos primeiros dias que comprei o instrumento, mas elas nunca foram exatamente muito úteis, exceto por ajudarem a memorizar algumas musiquinhas, embora eu me baseasse pelo número e não pelo nome da nota. Hoje em dia, já percebo que essas etiquetinhas mais atrapalham do que ajudam, pelo menos para mim, e logo devo mesmo removê-las. Ainda, algumas pessoas já comentaram que eu talvez devesse comprar outro teclado, maior, mais moderno. Preferi dar de ombros; meu velho teclado ainda tem muito chão pela frente. Ele é ótimo para as noções básicas que venho estudando, e percebo que, finalmente, após quase quinze anos, o teclado disse a que veio!

Falando agora sobre gêneros musicais e referências, recentemente comecei a me interessar mais por música minimalista. Já conhecia o estilo, graças a filmes como o excepcional Koyaanisqatsi, cuja trilha sonora é assinada por Philip Glass, um dos maiores nomes do minimalismo. Foi também através de outro filme, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que conheci Yann Tiersen, outro grande compositor minimalista e comecei a me enveredar cada vez mais no assunto. Tecnicamente, a música minimalista tem como características a repetição de pequenos trechos, com leves variações em grandes períodos de tempo, compondo assim ritmos quase hipnóticos. Depois que comecei a me aprofundar na área musical, posso dizer que não escuto mais uma música como antes, é como se conseguisse perceber certas nuances antes imperceptíveis. Ultimamente tem sido comum, ainda, gastar horas no YouTube , procurando vídeo-aulas, exercícios ou mesmo apenas se deliciando com interpretações de músicas no piano, teclado, em especial de Glass, Tiersen, Reich, clássicos como Beethoven, Chopin e trilhas sonoras.

Todo este estudo e pesquisa autodidata que venho conduzindo (apesar de também já considerar fazer um curso com professor físico) me faz pensar mais uma vez que podemos mesmo fazer qualquer coisa que quisermos, desde que haja determinação para tal. Às vezes um pequeno passo fora de nossa rotina nos desvela um mundo desconhecido, fascinante – que estava ali o tempo todo – embora, de certa forma cegos, não pudéssemos enxergá-lo, mas que muitas vezes pode mudar toda a nossa vida. É sempre bom sair da rotina, fazer coisa diferentes, às quais não estamos acostumados ou simplesmente não sabemos ainda. Faz bem para a alma, nos reiventarmos. Posso afirmar isso por conta de meu récem-revigorado gosto pela música e também pelo súbito gosto por cozinhar, do qual já falei nesse outro post.

Ah, estou pensando em comprar um violão em breve. Só espero não demorar quinze anos para começar a tocá-lo!






quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eatliz - Lose this Child



Amigos! Não posso deixar de compartilhar este maravilhoso curta animado. É um clipe da banda israelense Eatliz, todo em stop-motion! Não canso de ver, pois além do fantástico uso da técnica, tem um apelo emotivo muito forte, incrivelmente comovente. Sem dúvida, um dos curtas mais impressionantes que já vi!

Ah, se possível, assistam em HD!


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Mario Paint Composer

Agora vamos falar de música, de um aplicativo que até os dias de hoje continua em alta.

Este simples compositor musical, que faz parte do jogo Mario Paint, de Super Nintendo, lançado em 1992, acabou sendo um dos maiores destaques entre todas as atividades disponíveis no cartucho.

O jogador tem à disposição uma partitura onde deve usar vários ícones do universo Mario para representar os sons dos instrumentos, criando assim uma melodia.


A qualidade sonora não surpreende tanto nos dias atuais, mas a boa distinção das notas (apesar das poucas oitavas disponíveis) torna possível a adaptação de praticamente qualquer música existente, com um toque bastante peculiar. Aliás, isso virou uma mania entre muitos fãs do jogo: reproduzir músicas famosas no aplicativo.

Para expandir o alcance do programa, chamado de Music Mode dentro do Mario Paint, ele foi disponibilizado, não oficialmente, por fãs, como um programa independente, intitulado Mario Paint Composer, para download gratuito e uso em computadores e dispositivos portáteis.




Essa versão traz novos recursos em relação à original, como um maior espaço para compor, possibilidade de por mais notas em cada batida, novos instrumentos, além da possibilidade de salvar sua composição.

Apesar de simples e rápido de se usar, o programa exige um certo conhecimento musical para um melhor aproveitamento, embora qualquer um possa criar um ritmo sem muito esforço.

Abaixo, algumas trilhas adaptadas para o Mario Paint Composer:

















Mais vídeos podem ser achados no YouTube, bastando se procurar por Mario Paint Composer.

Mesmo com quase 20 anos, esse clássico ainda se mostra divertido e empolgante.
Quer experimentar e ver o que consegue fazer no programa?
Você pode baixá-lo agora mesmo aqui(Windows/Mac).
Também há uma versão para Nintendo DS, disponível aqui.