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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Cine Ceará 2015 – breves comentários



Já faz algum tempo que não falo de um festival de cinema por aqui, então aproveito a recente edição do Cine Ceará para retomar o tema, ainda que brevemente. Este ano, o tradicional festival cearense completou 25 anos. Meu irmão, Diego Akel, teve um de seus trabalhos, o curta Micro-Macro, selecionado e assim decidi acompanhá-lo em todas as atividades dentro do período do festival.

Diferente do ano passado, quando ocorreu no Theatro José de Alencar, este ano o Cine Ceará retornou ao Cine São Luiz, célebre cinema aqui da cidade, que foi inteiramente reformado há pouco. A Praça do Ferreira, que abriga o agora Cineteatro São Luiz, conheceu um intenso movimento, durante as noites do festival, contando ainda com grande proteção policial, o que foi ótimo, dado que o local é meio vulnerável à noite.

Desta vez, o país homenageado foi a Espanha, que contou com inúmeras produções ao longo da programação, composta de curtas e longas-metragens. Dos filmes que consegui assistir, destaco nos curtas os trabalhos de Chema Garcia Ibarra, uma trilogia muito bem construída, de grande força visual e narrativa, que propõe uma reflexão livre e sonhadora no gênero ficção-científica. A trilogia pode ser assistida aqui. Nos longas, o exótico Crumbs, de Miguel Llansó, traz personagens incomuns e surreais, que se entrelaçam às belas paisagens da Etiópia, num enredo pós-apocaliptico que faz alusão às vivências do diretor, além de dialogar também a questão da influência de ícones na sociedade.



A sede do Cine Ceará mais uma vez foi o hotel Mareiro, na Beira-Mar. Como é um pedaço da cidade que não costumamos andar muito, foi quase como ser alguém de fora, ainda mais quando interagíamos com os demais realizadores, nacionais e internacionais. Como estou aprofundando meus estudos linguísticos, dava gosto ouvir o espanhol ser pronunciado com tanta naturalidade, e ir esboçando uma palavra ou outra, no decorrer do evento. Participei o tanto quanto pude, ao lado de Diego, aproveitando essa atmosfera, que meio que nos transformava em turistas na nossa própria cidade.

A Praça do Ferreira fervilhou durante os dias do evento, uma vez que boa parte da programação acontecia no Cineteatro São Luiz. Diariamente, as sessões começavam por volta das 19h, seguindo noite adentro, na exibição dos curtas e longas. No entorno da praça, foram montadas tendas e mesas, uma área de convivência, além da presença também de uma boa variedade dos food trucks, com pizza, cachorro-quente, espetinhos e tudo o mais o que a fome – e o dinheiro – permitissem, pois ao contrário dos ingressos, gratuitos, os preços dos lanches não eram nada convidativos.

Fotos: Denis Akel


Nas manhãs do Cine Ceará, o destaque era o debate dos realizadores, que acontecia sempre no hotel Mareiro. Nele, jornalistas e público eram convidados a uma conversa com os diretores ou representantes das obras exibidas na noite anterior, que discutiam detalhes do filme e respondiam dúvidas ou comentários. Em geral, percebi que este espaço era mesmo mais voltado à imprensa e que de público mesmo, muitas vezes só os mais interessados.





Micro-Macro, filme em stop motion de meu irmão, foi exibido no Cine Ceará na noite do domingo. Por ser um trabalho de apenas 1 minuto, sua exibição se deu quase que numa piscadela de olhos, diante de uma sala quase lotada, o que foi um efeito bastante curioso, deve dizer. Diego reproduziu, no dia seguinte, no debate, parte do cenário usado no filme, com objetos comuns como papel de presente, cadeados, fone de ouvido etc, tendo como elemento diferencial o uso da lente micro, que dá todo o aspecto, toda a textura das imagens. Acompanhei a produção do filme, aqui em casa, e acho incrível a reinvenção que os objetos em cena assumem, a grandeza que adquirem, uma vastidão que nos faz sentir pequeninos e ao mesmo tempo gigantescos. Outro detalhe é que Micro-Macro foi totalmente feito num tablet, desde a concepção à edição final. Assista ao filme aqui.




Diego explicou ainda que cada vez mais tem investido na criação de filmes sem grandes produções e planejamentos, partindo de ideias e ferramentas simples e diretas, visando sempre um resultado mais prático, evitando desgastes e estresses, e assim conseguindo dar vazão a cada vez mais ideias e execuções. Esta é a premissa do projeto Animato, do qual Micro-Macro faz parte. Diego já fez mais de vinte trabalhos similares, com o mesmo desprendimento.



Foram ótimos e já memoráveis momentos, poder estar ali e acompanhar de perto todas aquelas ideias, todas aquelas sensações, não só na mesa de Diego, mas nas dos demais realizadores, e em todo o festival em si. Teve também suas dificuldades, muitas vezes pelo cansaço de passar dias inteiros entre as atividades, mas que foi recompensado por um enorme enriquecimento, sobretudo por interagir, como já disse, com pessoas diferentes, e por ouvir a bela língua espanhola a todo momento. Acredito que o que o Cine Ceará traz de melhor é bem isso, a oportunidade dessa vivência, de conhecer novas pessoas, novas culturas. Eu e Diego pensamos, mais do que nunca, que isso é melhor do que qualquer prêmio. Aliás, não deixa de ser um prêmio, mas um prêmio que fica, que marca, de verdade.




segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Balada do Guarda-Roupa


Fotos: Diego Akel e Denis Akel

Nossa, fazia já um longo tempo que não me envolvia tão diretamente na produção de uma animação, ao ponto de que já quase não me lembrava do quão intensa é essa experiência! A última vez ainda tinha sido em 2009, quando fiz, ao lado de meu irmão, Diego Akel, o curta Golpe Postal. De lá para cá, tive várias ideias para futuros projetos, como Polígonos e outros, mas me vi mais tragado ao mundo literário, e segui na medida do possível, colaborando com ideias e sugestões nos trabalhos que Diego fez depois do Golpe.

Planejamento demais, muitas vezes, leva à estagnação. Talvez seja bem por isso que alguns de nossos projetos ainda não caminharam tanto quanto gostaríamos. A Balada do Guarda-roupa, porém, contraria completamente essa maré. O filme, inicialmente, surgiu quase sem nenhum planejamento, assim de um lampejo, tão intenso que praticamente só nos demos conta do que tínhamos feito quando o finalizamos. E querem saber? Talvez, afinal, essa seja a melhor maneira de trabalhar. Fazer as coisas sem se dar conta de que as estamos fazendo.

Balada do Guarda-Roupa tem sua origem direta na música que embala todo o filme, "Bm Klezmer", da banda americana The Underscore Orkestra. Diego me disse que sempre quis fazer um trabalho tendo já uma trilha sonora como guia, e que há tempos estava de olho nas músicas desta banda. Até que certo dia, em uma de nossas muitas madrugadas insones, ele descobre esta bela composição. Pronto, estava dado o primeiro passo. Diego desde já teve a certeza: faria um filme com aquela música. Ele entrou em contato com o pessoal da banda, uma vez que já tinha visto no site do grupo que as músicas estariam disponíveis sob licença Creative Commons, e uma vez plenamente autorizado, deu início então à produção do filme.

Inicialmente, a ideia era usar brinquedos, animando-os em stop motion de acordo com a trilha sonora. Seria uma interpretação livre da música. Os brinquedos seriam dispostos como uma bandinha, cada um com um instrumento musical, representados por canetas, tampas, objetos que juntos lembrassem violinos, sanfonas etc. Nós guardamos aqui ainda muitos brinquedos, remanescentes de uma infância que até hoje lembramos com grande apego, seria uma boa utilização para eles, afinal.

Com o passar dos dias e evolução do projeto, Diego, que me pôs a par dessa ideia, decidiu que não usaria mais os brinquedos, pois isso demandaria mais tempo, para recolhê-los, prepará-los, e aí então animá-los. O que o ajudou a tomar essa decisão foi quando ele, por acaso, se deparou com um cinto e um pente, e percebeu nesses objetos mais do que eles aparentemente representam. Diego viu ali, de alguma maneira, a imagem de um violino. O filme começava a tomar uma guinada diferente. Eufórico, Diego correu para os guarda-roupas aqui de casa, e pegou o que pôde. A ideia do violino foi aprimorada quando ele viu alguns cabides, e sua imaginação foi tratando do resto. Saiam de cena definitivamente os brinquedos, para dar espaço àqueles objetos tão comuns, tão do dia-a-da, que acabariam tendo bem mais o que dizer. Ao perceber a grandeza e unidade de um cinto, visto sob a perspectiva não de acessório, mas como objeto a ser animado, Diego tem então a visão nítida do que usar para fazer seu filme. Cintos, roupas, sapatos, cabides, e assim os objetos foram, naturalmente, se juntando ao elenco da produção. Foi ainda nesse momento de redescoberta que ele teve a ideia do título do filme, Balada do Guarda-Roupa, um nome que até então ainda era provisório, mas que à medida que víamos o desenrolar das cenas, se encaixava muito bem na proposta, bem como na música.



Toda essa concepção inicial do filme surgiu, ainda por cima, sob a ideia louca de finalizá-lo a tempo de enviar para o Anima Mundi (para a categoria Anima Multi, competição de animações online) desse ano, cujo prazo terminaria em cerca de uma semana a partir do ponto que começamos, ou seja, teríamos apenas sete dias para concluir o filme! Era algo tão absurdo de imaginar, que preferíamos evitar pensar nisso, e ir começando a produzi-lo.

O filme inteiro foi animado no NUCA, Núcleo de Cinema de Animação Casa Amarela Eusélio Oliveira. Diego tinha feito por lá, recentemente, uma vinheta para o festival de animação MUMIA (veja aqui), usando o equipamento local, que consiste em uma truca profissional de animação, um aparato muito eficiente no meio, que permite afixar câmera, níveis de altura, entre outras coisas. É ótima pela praticidade com que torna o trabalho do animador. Já com alguns trabalhos feitos nessa truca, Diego teve a ideia de fazer o Balada nela, onde teria boa liberdade para mover os objetos, boa iluminação, além, é claro, da assistência do também grande animador Josimário Façanha, que trabalha na instituição.



Em meu primeiro dia no filme (um dia após o início oficial da produção), reunimos todo o material interessante que encontramos. Trouxemos de nossa casa cintos, pentes, colares, anéis, fivelas, muitas roupas, e ainda pedimos outras tantas emprestadas aos colaboradores, além de cabides e o que mais pudessem trazer. Colocamos tudo isso numa mesa, bem ao lado da truca. O ambiente reservado é ótimo para trabalhar. Foi colocada uma base de madeira sobre a superfície da truca, ajustadas as duas luzes laterais, que cuidariam da boa iluminação do filme, posicionada a câmera, preparado o notebook que faria a captação das imagens (usamos o software Dragon Frame) e pronto. O resto agora cabia aos objetos, ao que nós faríamos deles.

Caos ordenado; algumas das roupas e acessórios que usamos no filme

Diego já tinha feito uma cena no dia anterior, animando dois cintos, a primeira cena do filme, e agora teríamos que continuar a partir dela. Um dos maiores desafios era a questão da duração da música, que tinha cerca de 5 minutos. O filme teria que ter praticamente a mesma duração, então tínhamos que ter cuidado com cada cena, com cada ritmo e batida, com o efeito que queríamos passar com os objetos, que de certa forma deveriam representar aquela melodia. Diego, até o final das quase duas semanas que levamos para terminar o curta, ouviu exaustivamente a música, tendo-a praticamente decodificado. Ele sabia com rigoroso controle onde começava e terminava cada trecho, e isso lhe moldou para que fosse aos poucos montando todas as cenas.

Ao longo de todos esses dias, do fim de maio ao começo de junho, nossa rotina na Casa Amarela foi bastante intensa. Quando chegávamos em casa, já à noitinha, Diego ia tratar as inúmeras fotos que tínhamos (eram cerca de 300, 400 por dia) e começar a montar o filme. Com o tratamento de cores, era visível a vida que as imagens ganhavam, e agrupadas junto à música, já era possível ter uma prévia de como estava ficando o trabalho. Assistíamos várias vezes, tanto em casa, como sempre logo que chegávamos à Casa Amarela, nas manhãs seguintes. Era uma maneira de reorgarnizar nossas ideias, e nos preparar para as cenas que faríamos naquele dia. Isso foi algo tão marcante para mim que sempre que vejo os primeiros 20 ou 30 segundos do filme, lembro vivamente de quando os via, ainda na salinha da truca, em um destes momentos de que falei. 

Inicialmente, as cenas eram relativamente calmas, ainda estávamos desenvolvendo um ritmo, enquanto aprendíamos como trabalhar com aqueles objetos. Animar anéis, pente e cintos era divertido. A liberdade era enorme; criávamos padrões e movimentos próprios, como o efeito do cinto saindo pelo braço da camisa ou entrando pelo bolso da calça, de maneira a sempre buscar uma interação entre os elementos que tínhamos.







Os momentos onde a música crescia, se intensificava, foram propícios para cenas rápidas e totalmente livres. Poucos frames, que criavam um pequeno caos, um delírio que confundia ao mesmo tempo que encantava, tal como a música. Nos divertimos muitos nessas cenas, que eram feitas rapidamente, justamente por não haver muito planejamento nelas. 

As roupas foram, por si só, quase um capítulo à parte. Possibilitaram uma extensa variedade de texturas e cores, que renovavam e transformavam o filme em muitas das transições. Era engraçado ver calças, camisas, gravatas, e manipulá-las daquela forma. Animar é, sobretudo, dar vida, e só quando estamos lá, interagindo com tudo, que percebemos o poder que temos nas mãos.







Criar pequenas sequências com os objetos também foi uma constante. Às vezes, estabelecíamos mais ou menos movimentos para eles, quase como criando uma pequena narrativa muda, e animávamos. Claro, acontecia sempre pequenos imprevistos e a animação caminhava para um lado não pensando, mas não menos interessante. Os objetos, de certa forma, nos diziam como queriam ser animados.




Durante boa parte das cenas, usamos uma folha de madeira como plano central, que possibilitou que girássemos o plano livremente, tornando possível uma nova variedade de transições e interações entre os objetos. Com as funcionalidades da truca, podíamos ainda aproximar ou afastar a altura da câmera, fechando ou abrindo o plano, tornando todo o conjunto de cenas ainda mais pulsante e feroz.

Nos revezávamos constantemente; enquanto um animava, o outro ficava a cargo de captar as imagens, usando um pequeno controle que acionava a câmera. Desse modo, o animador da cena teria sua atenção inteiramente voltada para ela, sem ter de precisar se deslocar para acionar o botão a cada foto tirada. 




Quanto à animação em si, aconteceram algumas coisas engraçadas. Inicialmente, eu iria apenas dar um suporte a Diego, mas à medida que fui me aprofundando e entendendo o que o filme parecia pretender, me soltei a ponto de pensar em algumas ideias e planejamentos de cenas. Comentava-as com Diego, que aprovava com a cabeça e no segundo seguinte eu já estava diante da truca, animando o que pensara. Nossa visões, apesar de parecidas, se diferem bastante em muitos aspectos, como se pode observar ao longo do filme. Enquanto Diego prima pelo caos e inquietação em suas cenas, característica forte em seus trabalhos, eu me sinto mais à vontade animando padrões geométricos, ou de alguma maneira simétrica, criando oposições de cores ou formas. Ambas essas estéticas se completaram muito bem, de acordo com os momentos do filme, da música. 




A visão própria de cada animador engrandeceu o filme, gerando um harmonioso choque de pontos de vista

A técnica do stop motion consiste em se tirar foto após foto, movendo um pouco os objetos entre uma e outra imagem. Agrupadas, as imagens criam a ideia do movimento, e nasce a animação. É uma técnica fascinante, mas requer grande paciência e capacidade de improvisação. Paciência porque muitas vezes passamos horas e mais horas para produzir meros segundos animados. Improvisação para momentos onde não conseguimos fazer algo do jeito que imaginamos. Neste trabalho, cada objeto tinha sua peculiaridade, tínhamos que aprender como poderíamos animá-los, entendê-los. E mesmo assim, algumas cenas não ficavam bem como pensávamos. Felizmente, desses "erros" saiam também valorosas surpresas.













Um detalhe curioso, que surgiu sem muita preparação, foi o incrível efeito que obtivemos com as sombras dos objetos, acentuadas pelas luzes amareladas. Tivemos o cuidado apenas de equilibrar a iluminação, para que as sombras ficassem mais ou menos com o mesmo volume. Como resultado, toda a fotografia do filme se beneficiou deste aspecto.

Sombras e iluminação, detalhes que acabaram fazendo toda a diferença

A sanfona é também um outro trecho bastante interessante do filme, e da música. Diego já tinha pensando em como conduzi-la ainda desde quando pensava em usar os brinquedos, com lápis de cor e afins. Com a mudança no material usado, no momento que ele pegava algumas roupas para o filme, percebeu o curioso efeito que se fazia ao esticar o tecido. Nascia ali a sanfona! Foi uma sequência de certa dificuldade de execução, onde Diego teve que literalmente meter as mãos na massa, mas cujo resultado criou aquela que muitos consideraram a melhor cena do filme. O movimento cadenciado, quase uma dança, mostra toda a vivacidade que queríamos passar.




Para cobrir a duração da música, e também poupar algumas horas de trabalho, alguns planos foram repetidos, em momentos precisos, como um complemento adicional. O pouco tempo que tínhamos limitou um pouco a elaboração de novas sequências, e como tudo flui muito rápido, essas breves repetições acabam por criar alguma unidade. Ainda, muitas cenas tiveram de ser cortadas da versão final, por não se encaixarem devidamente no ritmo. É um processo difícil, porém necessário, esses pequenos cortes, muitas vezes de cenas que pareciam tão promissoras.



Como já disse, uma coisa muito bacana do Balada foi a liberdade que tivemos para animar, justamente por não haver um roteiro pré-estabelecido. Claro, tínhamos um pequeno planejamento das cenas, mas só com base nos frames que cada uma teria. O que aconteceria em cada uma era pensado na hora. Ouvir novamente a música era sempre um ótimo impulso criativo, para clarear as ideias. Além de mim, Diego e Josimário, contamos ainda com a participação de outros dois animadores: Clayton Bochecha e Maurício Nunes. Na verdade, Clayton inicialmente faria mais registros de bastidores, mas foi rapidamente contigiado pelo espírito do filme. Maurício veio à cidade para o Cine Cieará. Bastou uma breve passada na Casa Amarela, para Diego, convidativo, lhe dizer: "Não quer animar um pouquinho?" Ele riu, dizendo que já temia essa pergunta e no segundo seguinte já estava debruçado sobre a truca. 

Eu e Josimário Façanha, em uma das muitas sequências onde roupas e objetos se misturam

Clayton Bochecha e Diego Akel, em esforço mútuo para convencer os cintos a ficarem na posição adequada

Após uma semana intensa, produzindo e animando diariamente o filme, percebemos a loucura onde havíamos nos metido. O prazo limite do Anima Mundi já quase batia à nossa porta. Tínhamos feito muita coisa, claro, cerca de dois ou três minutos, mas ainda faltava uma fatia considerável. Mesmo que ficássemos os próximos dias direto animando, não daria tempo, uma vez que ainda teríamos pela frente todo o processo de edição do filme. Diego então recorre a perguntar se por acaso o festival vai adiar um pouco o prazo de inscrições, dizendo que algo em torno de uma semana seria ideal. E qual não foi nossa surpresa com a resposta: o prazo foi adiado em uma semana! Continuamos então, em ritmo acelerado, agora já perto da etapa final.




Nos últimas dias de produção na Casa Amarela, porém, já sentíamos o cansaço, que invariavelmente se acumulava dos dias anteriores. Já olhávamos para os objetos com certa repulsa, a criatividade parecia ter se esgotado, não sabíamos mais como conduzir as cenas. Os olhos, já pesavam, o corpo, de tanto ficar em pé, refletia em dores musculares o esforço empreendido. Bem exatamente no último dia, tudo isso se intensificou, a ponto de passarmos da hora na Casa Amarela (geralmente saíamos de lá às 17h). Dessa vez, tínhamos que ficar lá até terminar aquela parte do filme, a captação de imagens, pois no dia seguinte, já o último do prazo, seria dedicado à edição. 

Os planos finais do Balada trouxeram os sapatos como elemento novo. Foi muito divertido lidar com eles, e integrá-los ao que já tínhamos. Mas após alguns planos, não era fácil manter o fôlego. Diego sentou-se e me disse que estava difícil. Disse a ele que já estávamos quase lá, que já tínhamos feito muito, agora bastava um último esforço, e fui com passos decididos para a truca, onde comecei a tentar bolar outra cena. Diego, motivado, retomou em seguida, para fazer a cena final, que envolvia praticamente todos os objetos que usamos no filme, em uma salada de cores e formas, uma cena caótica que somente ele poderia fazer.






A cena final, que mostra o suposto guarda-roupa se fechando, e meio que engolindo tudo, foi pensada e feita um dia antes. Na realidade, usamos um pequeno baú, colocado de lado, para criar o efeito de guarda-roupa. Os detalhes na fechadura e entalhes na madeira ajudaram a criar uma composição, dando tanta força para a cena que a consideramos a melhor para fechar o filme, apesar de ser rápida e brusca, quase como se a ordem afinal se fizesse após o caos.

Com essa primeira parte terminada, Diego assumiu, literalmente sozinho, as etapas finais, de edição e finalização. Tratar as imagens, montá-las para compor as cenas, criar a relação com a música. Um processo que foi até divertido, uma vez que a partir dele víamos o filme realmente ganhar forma e corpo. Já a finalização, que englobava exportar o filme pronto, foi um parte complicada. Por ter grande variação de cores e texturas, o arquivo final ficava muito pesado, comprometendo o computador. O resultado disso foi que a qualidade de imagem sempre ficava um pouco abaixo do esperado. Diego lutou como pôde para criar uma versão com qualidade aceitável, que foi a que seria disponibilizada para o Anima Mundi (postada no Vimeo) e seria a versão usada para participar do Anima Multi, categoria do festival com filmes de internet.

Para deixar esse post ainda mais completo, pedi a Diego que escrevesse algumas breves linhas sobre o filme:

O Balada do Guarda-Roupa foi um filme que, ao mesmo tempo que saiu num estalar de dedos, teve um processo instintivo, solto mas ao mesmo tempo intenso e complexo. O filme é, acima de tudo, a prova viva pra mim de que temos que agir direto do nosso instinto, fazer as coisas do jeito que achamos que deve ser, e adaptar todo o nosso entorno a isso. Acreditar mesmo no que achamos certo.

Trabalhar com outras pessoas sempre é fantástico, e tenho aprendido mais a cada trabalho como os colaboradores podem agregar tanto a algo que inicialmente só existia na sua cabeça. Trabalhar com o Denis sempre é algo que flui naturalmente e nos diverte muito. Apesar de nos parecermos muito, nossa abordagem animando é bem diferente, e isso se complementa muito bem no filme, tanto que fizemos os dois a direção de animação, combinando realmente como os planos iriam fluir. Josimário e sua abordagem tranquila mas concentrada sempre é uma presença que traz muita segurança na hora da animação, com o seu apoio, atenção aos detalhes e facilidade de se adaptar instantaneamente ao processo, seja ele qual for. Tive ainda as presenças rápidas mas precisas de Clayton Bochecha e Maurício Nunes, que deram sua participação ao filme.

O filme, no fim das contas, fluiu de uma forma bem natural e foi feito em um espírito livre. Da melhor forma que muitas coisas podem ser feitas, como sempre conversamos Denis e eu: terminar antes de se dar conta que se começou. E penso ainda que não dá para teorizar nem fazer muito juízo sobre o filme antes ou durante o processo; melhor fazer primeiro e deixar isso pra depois, se é que nós vamos fazer algum julgamento. Talvez seja melhor deixar essa tarefa para os outros.


Tampamos parcialmente as luzes, para fazer o plano final do filme, criando a ilusão de que tudo realmente estava sendo guardado no 'guarda-roupa'.  



Em julho desse ano, Diego foi para o Rio, para acompanhar a vigésima edição do festival. O Anima Mundi celebrava vinte anos de existência. Diego, além de acompanhar a programação do evento, e rever os amigos, participaria ainda com o curta Maria da Glória (na categoria Galeria), além do Balada. Em casa, fiquei me interando dos demais filmes que concorriam no Anima Multi. Essa categoria consistia em filmes feitos para a internet. Uma vez selecionados, os filmes ficariam disponíveis para o público assistir e votar em seu favorito. Assisti a todos os outros, e vi muitos muito bem realizados, dignos de talvez ganharem a votação. Igualmente, havia também algumas produções meio limitadas e de certa forma mal finalizadas. Em todo caso, já era um prazer figurar entre os vinte selecionados, dentre todos os que foram enviados. Votei, comentei com amigos, divulguei nosso filme como podia, nesse grande emaranhado que são as redes socias, e a expectativa, à medida que o dia do resultado se aproximava, era grande, embora não quisesse alimentar grandes esperanças prematuras. Vejam os filmes que participaram do Anima Multi aqui.

Houve ainda a feliz supresa de eu também ir ao festival, no fimzinho de julho. Pude acompanhar os últimos dias do Anima Mundi 2012, além da cerimônia de premiação. Só que, no último dia, sem muita explicação, a divulgação dos ganhadores deste segmento do festival foi adiada. Como acontece todo ano, o Anima Mundi tem edições no Rio e em São Paulo. O resultado que esperávamos só seria divulgado no último dia de lá. Ficamos desapontados, mas não havia o que fazer. Diego, porém, decidiu esticar sua viagem, e foi para SP, em parte, somente para acompanhar o desfecho dessa situação. Voltei para casa, onde fiquei acompanhando o que acontecia por lá, e já começava a esboçar essa postagem. 

Balada do Guarda-Roupa acabou não ganhando prêmios. Claro, ficamos um pouco inconformados no início, mas depois percebemos que o filme já ganhara muita coisa, e que nós, sobretudo, fomos 'premiados' simplesmente por tê-lo feito em tão curto tempo. Desde a concepção da ideia, da produção em si, todas as etapas tiveram seus desafios. E ainda, sempre nossa maior motivação foi terminá-lo a tempo de enviar para o evento, ser ou não ser premiado seria apenas consequência. 

Todo o tempo que investimos nesse filme nos ensinou que é possível, sim, fazer coisas acontecerem sem muito planejamento, sem muito preparativo, quando se tem um ideal e determinação. Quantas não são as ideias e projetos que são interrompidos, por extensos e muitas vezes desnecessários planos? Como eu disse no início desse texto, procuramos fazer o filme sem pensar muito, agindo de maneira solta e livre, apesar, claro, de depois, na parte da edição, ser necessário um controle maior e mais rígido para melhor lapidar a versão final. 

A sensação de ver um filme finalizado é sempre gratificante. E se tratando de animação, talvez seja ainda mais. Ver cada cena que fizemos, com tanto esmero, reunidas, é algo indescritível. Ainda que tudo passe incrivelmente rápido, e muitos detalhes sequer sejam vistos ou assimilados, sentimos cada cena, em cada transição, em cada  frame, ao lembrar de como foi fazê-lo para que ficasse daquele jeito. Com igual força, também vem à cabeça coisas como "Nossa, conseguimos mesmo!" ou "Puxa, fizemos mesmo isso!". Isso tudo talvez nos faça pensar que muitas vezes nós mesmos não acreditamos no que podemos fazer, e é justamente aí que talvez esteja nossa maior limitação.

E para finalizar, o filme concluído:





domingo, 11 de setembro de 2011

Referência: 8-bit trip



Para mim, e acredito que também para muitos, Lego é muito mais que um simples brinquedo. Desde pequeno, quando tive o primeiro contato com ele, percebi o incrível potencial dessa ferramenta. Além dos modelos padrões que se podiam montar, era sempre possível soltar a imaginação e criar praticamente tudo usando as peças certas. Lembro de eu e meu irmão ficarmos horas e horas montando as mais loucas e malucas concepções que podíamos, sempre variando e explorando as peças que tínhamos, depois de já montadas exaustivamente as estruturas padrão do Lego Polícia e Lego Bombeiro, destaques da época. Era mais que um brinquedo, sem dúvida. Creio que o Lego, de alguma maneira, nos ajudou bastante a desenvolver a criatividade.

Hoje em dia, o Lego, mesmo dividindo espaço com essa enxurrada de jogos eletrônicos, continua forte, com inúmeras novas versões, centenas de novas peças (quase nem reconheço algumas variações) mas dá para notar que a essência está mantida. Além de tudo, Lego também virou matéria-prima para arte, e é até bem comum vermos modelos impressionantes de coisas do cotiadiano feitas com os bloquinhos. Dentro da área de animação, é comum também vermos trabalhos em stop-motion usando Lego. Os resultados são bem interessantes, dado o efeito simples mas impactante que os tijolinhos animados podem representar.

Nesse prisma, o curta que mostro nessa postagem é sem dúvida dos melhores e mais surpreendentes a usar o Lego como base. Vejam (em HD de preferência!):




O trabalho é de autoria dos suecos Tomas Redigh e Daniel Larsson, que executaram uma obra de incríveis proporções, combinando o Lego à tradicional e clássica atmosfera de jogos 8-bit, como Pacman e Pong. Para esta grandiosa homenagem, eles usaram vários truques de câmera, mesa, iluminação e muitos, muitos blocos de Lego. A trilha sonora também merece destaque, criando facilmente o ritmo perfeito, que tem tudo a ver com a concepção e andamento das cenas.

Algumas cenas são realmente surpreendentes, como o cubo girando no "load" ou a partida de Pong. A técnica da rotoscopia, que consiste na utilização de imagens reais, sobre as quais são orientados os frames a serem animados, a fim de ser obter uma animação fluida e suave, é usada nos trechos onde podemos ver as silhuetas de ambos os autores colocando cartuchos ou jogando. É um efeito realmente muito interessante.

Palmas aos dois, por fazer esta belíssima combinação de material e de talento!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eatliz - Lose this Child



Amigos! Não posso deixar de compartilhar este maravilhoso curta animado. É um clipe da banda israelense Eatliz, todo em stop-motion! Não canso de ver, pois além do fantástico uso da técnica, tem um apelo emotivo muito forte, incrivelmente comovente. Sem dúvida, um dos curtas mais impressionantes que já vi!

Ah, se possível, assistam em HD!


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Anima Mundi 2010 (VI - Exibições)

- A enorme projeção da Praça Animada, palco onde eram exibidos diariamente as várias sessões animadas. A pequena tarja abaixo da tela era onde apareciam as legendas, transmitidas na hora por alguém da produção, que ficava sentado com um notebook em uma das cadeiras da frente.

Nessa, que será a última postagem da série Anima Mundi, o foco são as animações que foram exibidas, ou melhor, as que conseguimos assistir. Essa é a maior postagem da série!

Quando estávamos na correria do festival, sabíamos que eram muitos os curtas que estavam sendo exibidos, em dezenas de sessões diárias, mas não tínhamos uma ideia de mais ou menos quantos trabalhos faziam parte do Anima Mundi deste ano. Nos últimos dias, porém, fiz uma breve pesquisa em alguns sites e soube que o festival exibiria mais de 450 curtas; destes mais de 100 eram de origem brasileira. Um recorde, um fato memorável, como nunca se viu na história do evento.

Ainda fiz algumas fotos durante as exibições (o pessoal da produção disse depois não ser permitido tirar fotos, ora, mas quase tudo que era exibido ali já estava na internet há tempos...) e para evitar confusões, guardei a câmera permanentemente. Abaixo, o que ainda consegui registrar, momentos específicos de alguns curtas, que refletem bem a personalidade de cada um:
























Desse enorme montante, é óbvio que era praticamente impossível assistir a todos, e agora, folheando aqui o catálogo do festival (que pode ser visto aqui), vejo vários trabalhos que não chegamos a assistir, e que parecem espetaculares. Mas para sintetizar, vou mostrar aqui apenas alguns dos que vimos. A seguir, uma "pequena" degustação, com 20 curtas, de sessões misturadas do Anima Mundi. Todos usam técnicas bem variadas, e são uma amostra de como estavam as produções neste ano. Destaque pessoal para os seguintes: Abuela Grillo, Pigeon: Impossible, Der Praezise Peter, mas recomendo assistirem a todos!


Rise Above Plastics (30s) - Aaron Sorenson; Jeremy Boland - EUA/2009


Videogioco a loop experiment (1m 40s) - Donato Sansone - Itália, 2009


Le Noeud Cravate (12m 23s) - Jean-François Lévesque - Canadá/2008



La Dama y la Muerte (8m) - Javier Recio Gracia - Espanha/2009




Pigeon: Impossible (6m 12s) - Lucas Martell - EUA/2009




Zeitwellen (2m 22s) - Evgenia Gostrer - Alemanha/2009




Der Praezise Peter (5m 35s) - Martin Schmidt - Alemanha/2010





The Lighthouse Keeper (3m 15s) - David François, Rony Hotin, Jeremie Moreau, Baptiste Rogron. Gaëlle Thierry, Maïlys Vallade - França/2009




Pust' igraet/Let Him Play (2m 59s) - Yulia Mikushina - Rússia, 2009


After the Rain (4m) - François Vogel - França, 2008



Dame otro Papel (5m45s) - Home de Caramel - Espanha, 2008




Dodudindon (0m 48s) - Lucrèce Andreae, Julien Chheng, Tracy Nowocien, Rémy Schaepman - França, 2009




The Green Effect 'Butterflies' (1m 06s) - Isaac King - Canadá, 2009




Xixi no Banho (0m 45s) - Fernand Sanches - Brasil, 2009




Abuela Grillo (12m42s) - Denis Chapon - Dinamarca, 2010



Conectados (2m 12s) - David Hoffmann - Brasil, 2010



Le Loup Blanc (8m 30s) - Pierre-Luc Granjon - França, 2006


Love & Theft (7m) - Andreas Hykade - Alemanha, 2009


Operatatatata (5m 15s) - Antoine Rota - França, 2009


Un Tour de Manege (3m 32s) - Nicolas Athane, Brice Chevillard, Alexis Liddell, Françoise Losito, Mai Nguyen - França, 2009




Destaco ainda o filme de nosso amigo Marão, Eu queria ser um monstro, que foi premiado em duas categorias. Abaixo, o trailer:


É um filme bacana, o primeiro em stop-motion do Marão, que conta uma história sobre o cotidiano de uma criança com bronquite que quer ser um monstro. Há várias pontas com os já consagrados desenhos à mão de Marão, que dão um brilho especial ao filme. Mas, acho que seu filme anterior, O Anão que virou Gigante, ainda conseguia ter um peso maior, mais completo. Algumas coisinhas em Eu queria ser um monstro soam um pouco estranhas, e ao final fica-se evidente que o filme é mais uma homenagem, uma declaração, feita ao próprio pai do Marão, e que pode se estender à visão de todos que o assistirem, fazendo-nos ver que tudo é mais simples do que imaginamos, e que são as pequenas coisas, os pequenos gestos, que fazem uma vida feliz.

Para finalizar, vou falar um pouco também sobre os longas-metragens que foram exibidos esse ano. Foram três, mas só pudemos assistir a dois:


Mary And Max (1h 32m) - Adam Elliot - Austrália, 2009




Não sabia muito o que esperar desse filme, mas a julgar pelo pôster, seria algo bem interessante. E devo dizer que após mais de uma hora e meia sentado, tinha acabado de assistir a uma das melhores produções animadas dos últimos tempos.

O filme é bastante denso, com uma história muito bem conduzida, que consegue cativar rapidamente. A carga dramática é tanta que em certos momentos até se esquece de que é uma animação. Isso é algo muito interessante, pois transpõe essa tendência de que todo longo animado tem de ser bonitinho, engraçadinho, senão não é bem visto. Mary and max quebra esses conceitos, com uma fotografia bastante desaturada e personagens nada convencionais. Não se sabe ao certo aonde o filme vai nos levar, no seu decorrer, e são muitas as surpresas e reviravoltas ao longo da trama, de modo que se fica quase hipnotizado para saber o seu final.

Já conhecia alguns trabalhos de Adam Elliot, diretor do filme, e as similaridades são bem visíveis, claro, mas talvez aqui ele tenha atingido seu ápice. O filme traz também profundas reflexões acerca de conceitos bem singelos, como a amizade verdadeira, e pode mexer facilmente com nossas emoções. Para ver e rever, sem qualquer dúvida!


Boogie el Aceitoso (1h 22m) - Gustavo Cova - Argentina, 2009



Após a ótima experiência que foi Mary and Max, estava esperando mais uma grande surpresa. Passados os 15 primeiros minutos de Boogie, de fato tive uma surpresa, mas não como imaginava.

Violência. Violência, e mais um pouco de violência. Isso resume o que esperar deste filme. O longa foi baseado em uma HQ de mesmo nome, o que deve explicar o exagero de sangue que é visto na tela, porque não há mais justificativa. Os personagens matam por qualquer razão, e de maneira totalmente exagerada.

A animação usa várias técnicas, mas não surpreende, e tenta passar um ar cômico, que acaba saturando e irritando em certos momentos. Muitas cenas fazem referências a vários filmes famosos, o que faz o filme perder um pouco de sua identidade, além de tornar a história bem fraca e altamente previsível. Também há dezenas de piadinhas, para enaltecer o caráter machão de Boogie, protagonista e "anti-herói" da história, que arrancavam gargalhadas ocasionais do público. Mas o pior mesmo, como disse no início, é a violência gratuita. Tudo bem, estamos falando de uma animação, tudo são cores, claro, mas há limites e bom senso para tudo. Algumas cenas conseguem realmente incomodar, e o choque geral causado pelo filme foi tanto que quando terminou ninguém aplaudiu. Foi a única vez que não vi aplausos na praça animada.

Enfim, o diretor deve ter tido lá suas razões para fazer Boogie desse modo, com certeza voltado inteiramente para a natureza do personagem criado pelo cartunista Roberto Fontanarrosa. E com certeza deve haver muitos que o idolatram, é claro, mas definitivamente não é um filme para qualquer um. É um filme polêmico, que divide opiniões. Acredito ser mais um caso ame-o ou deixe-o. Hum... será? Acho um pouco improvável alguém amar um filme como esse... mas, claro, há gosto para tudo ;)


Bom, e aqui encerro esta postagem, e também o fim desta série sobre o Anima Mundi 2010. Ao longo destas 6 postagens, mostrei um pouco de como foi nossa passada (minha e de meu irmão Diego) pelo Rio de Janeiro, para o festival, com algumas das principais atividades que aconteceram por lá, as surpresas, emoções e vivências que tivemos desta experiência (foi nosso primeiro Anima Mundi) tão engrandecedora. Espero que tenham gostado e, quem não tiver podido ir, se sentido mais perto da magia do Anima Mundi! :)

Abaixo, links para as demais postagem da série:


Mais curtas que foram exibidos no Anima Mundi 2010 podem ser vistos na postagem V - Galeria Animada e no Especial Cordell Barker.