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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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quarta-feira, 5 de julho de 2017

FliCaixa 2017 (3/3) – Xico Sá / Fabrício Carpinejar


Fotos: Denis Akel

Posts anteriores da série FliCaixa 2017:
FliCaixa 2017 (1/3) – Socorro Acioli e Angela Gutiérrez 

Finalmente fechando a série sobre a Flicaixa 2017, foco agora na última das três mesas que pude assistir naquele sábado, 5 de maio, que trouxe o poeta Fabrício Carpinejar e o cronista Xico Sá. A mesa foi uma das mais aguardadas do dia, sendo prevista para começar às 19h. Tive algum tempo, após a mesa anterior, mas fiquei pelos corredores do centro cultural, olhando o movimento, aquela atmosfera que, de certa forma, já começava a deixar saudade. 



PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES 

Estes dois, como eu bem sabia, com vasta obra publicada e sobretudo grande presença na mídia, redes sociais e o que mais inventarem, não estariam para brincadeira. Como era de se esperar uma superlotação, decidir ir logo ao auditório, garantir um bom lugar e depois não arriscar ficar sem lugar nenhum. 

Entrei quando ainda havia pouca gente, mas já bem mais pessoas que em ambas as mesas anteriores. A maioria dos que ali estavam ocupavam-se em seus celulares, vi com certo pavor a imensidão de telinhas brilhosas. E era muito fácil se tornar um deles. É algo cada vez mais comum nos dias de hoje, sem dúvida, mas de alguma forma é uma cena que me assusta, pela fragilidade da posição humana ante o aparelho. É inevitável, sim, mas nem por isso deixa de ser chocante. Apesar da epidemia de telinhas luminosas, uma ou outra pessoa conversava ou lia algum livro e havia até livros de Carpinejar nas mãos de outros poucos. 



Peguei minha caderneta para já esboçar algumas linhas destas observações, quando notei alto falatório e conversas paralelas, das cadeiras vizinhas, além de um ruído constante de papel dobrado – tratava-se da sacolinha da livraria lá de fora, que no ambiente fechado ressoava como uma trovoada. 

Por volta das 19h, o auditório já bastante cheio, mas não lotado. Os preparativos finalmente tiveram início no palco, arrumação das poltronas, mesas d'agua. O público, porém, parecia demorar a perceber que era hora de ficar quieto e continuava as múltiplas e inusitadas conversas paralelas, e como incomodavam, mas ao mesmo tempo inspiravam; histórias recolhidas são sempre materiais em potencial para escrever. E segui no caderninho, apoiado na perna, a rabiscar um pouco do que sentia. 

NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA

O apogeu de meu desconforto viria poucos minutos antes do início da palestra. Não bastasse o vozerio constante, alguém começou a bater com o pé em minha cadeira. De início, pensei ser algo inconsciente ou acidental, mas logo percebi que não. Era uma batida ritmada, quase necessária. Uma verdadeira tortura. Num giro rápido e disfarçado de pescoço, consegui ver meu desafeto: um senhor de magra estatura, expressão concentrada, cabelos grisalhos. Não parecia nem de longe o tipo provocador ou encrenqueiro, mas as batidas continuavam. 

Pensei em reclamar, sem me exaltar, pedir que parasse, que incomodava, mas antes que pudesse acolher essa ideia, o homem parou, como que se antevesse a mim. Respirei aliviado, não seria preciso dizer nada. Coisa nenhuma, um minuto depois as batidas recomeçam. Percebo, estudando o problema, que a pancadinha não é dada exatamente na minha cadeira, mas na cadeira ao lado. As poltronas do auditório eram daquelas que, antes de sentar, é preciso estabilizar o assento, que fica fechado. O pé do sujeito incidia justamente contra a parte do assento que ficava projetada pra baixo. O impacto reverberava na estrutura e chegava com relativa força à minha cadeira, o suficiente para gerar o incômodo. Uma solução bastante simples seria se alguém ocupasse aquela cadeira vazia, limitando o homem de sua diversão. Torci para que isso acontecesse, mas ninguém apareceu. Tive a ideia de colocar minha mochila ali, ocupando a cadeira, levantando o assento. A medida trouxe efeito, e desfrutei de momentânea paz. O homem, porém, logo descobriu outro meio de continuar as batidas: atacar diretamente o pé da cadeira, a reverberação fez seu papel e recomeçou o tormento. Percebi que não iria parar, não tinha jeito. Tive de falar. Virei, e com jeito, lhe disse:

– Com licença, o senhor poderia por favor parar de bater? Tá incomodando... 
O homem na mesma hora se endireitou na cadeira, como que saindo de um transe, me olhou com espanto:
– Oh, sim, claro, claro, desculpe, viu? A gente fica distraído, pensando, sem querer acontece isso e... 
– Tudo bem, tudo bem, acontece. 
Ele ainda quis continuar se desculpando, mesmo após eu me voltar à frente, como se não tivesse lhe acreditado. Falei que estava tudo tranquilo, não se preocupe. Meio minuto depois, voltou a insistir em se retratar. Nada do que dissesse parecia suficiente para justificar seu deslize.  
– Não tive intenção... você entende, né? 
– Claro que sim, não tem problema.
– A gente fica aqui, distraído, você sabe, né? Você também tem isso, né? 
Acabei concordando, para que se aquietasse. E também porque a palestra já estava prestes a começar. Depois fiquei pensando, como assim eu também tinha isso? O que o homem quis dizer? Tive ímpeto de dizer mais alguma coisa ao sujeito, mas me contive. Felizmente, nesse exato momento surgiram no palco os convidados da noite, Fabrício Carpinejar e Xico Sá, e levaram minha atenção daquela interferência. 

MESA  - NARRAÇÃO DE AFETOS (XICO SÁ / FABRÍCIO CARPINEJAR) 



Havia 
algumas almofadas sobre as cadeiras do palco. Mal Carpinejar entrou, tratou logo de atirá-las ao público, num gesto quase incontrolável, como se fosse mais forte do que ele. Parecia quase uma criança, improvisando uma diversão com o que tinha à mão, ou seria apenas a sua necessidade de sempre querer aparecer e chamar a atenção um pouco mais? O sorriso irreverente já engatilhado, acompanhado dos tradicionais óculos que muitas vezes o fazem parecer uma mosca. 

Carpinejar sentou a uma das cadeiras, Xico Sá assumiu a outra e o mediador do encontro, o jornalista Jáder Santana, entre ambos. O auditório, praticamente lotado, recebeu o trio com prolongadas palmas e vi quando as dezenas de telinhas se ergueram no ar, para o fuzilamento de fotos. Eu mesmo empunhava uma delas. Passada a euforia inicial, a conversa finalmente teve início. Com o tema narração dos afetos, era bem evidente que ambos os autores falariam de temas que lhes são bem comuns, como relacionamentos, futebol, rotina de trabalho etc. Além disso, era notável uma sinergia entre esses dois, que são grandes amigos, inclusive já tendo feito essa mesma mesa na Flicaixa de Salvador. Estavam muito à vontade ali, muito seguros de si. 

Jáder, após breve introdução de cada um, começou bem direto, perguntando que crônica eles escreveriam hoje, naquele momento. Xico Sá partiu de um desabafo irônico, falando de sua família, que depois de tanto tempo de seu trabalho, ainda não sabe para quê serve literatura. 

"Eu estou um pouco numa fase de rasgar convicções infinitas, aquelas coisas que a gente pensa ter certeza. Para entender essa desgraça do país, vejo com otimismo. Escrevo com afeto, é uma colcha de retalhos, de família, de quem amamos." – Xico

Já Carpinejar se disse inspirado pela força poética de Fortaleza. Citou uma moça que lhe deu um poema escrito numa folha, e de como a cidade pulsa poesia. "Sempre me impressiono com Fortaleza pela quantidade de poetas que há aqui. Acho que Fortaleza não perdeu o reduto de resistência, não se rendeu ao digital. Os artistas daqui ainda confiam na palavra, que ela ainda possa driblar a crítica." – Carpinejar

CASUALIDADES QUE INSPIRAM

Nos primeiros minutos, ambos os escritores falaram bastante de seus hábitos e rotinas na hora da escrita, e contaram algumas histórias bem curiosas. Xico Sá, que é muito conhecido também por aparições em programas de TV, foi bastante sincero:

"Falar uma besteira na TV não tem muita importância para mim, mas por num livro é algo muito diferente, é difícil, é profundo. Já escrevi crônicas com muita facilidade mas hoje em dia tem sido difícil, tenho que limpar muito. O que escrevo atualmente é impublicável. A escrita da máquina de escrever, você sabe que uma hora vai acabar, mas no computador não acaba nunca! Escrevi de maneira muito clara e limpa quando escrevia para jornal. Agora quero e tenho feito textos mais incompreensíveis. Guardo as crônicas mais loucas e solto as que dê para entender algo. O cronista é um pescador de casualidades. Ele se distrai para ficar mais atento. O cronista é invisível, tem que ser. " – Xico

Falando em casualidades (e também invisibilidade), Carpinejar contou que quando tinha uns 7, 8 anos, resolveu 'ficar' invisível, e escolheu logo o dia em que seu pai recebia o poeta Mario Quintana em casa. Nas artes de criança, Carpinejar achava que aquela célebre pomadinha Minancora, poderia ser a chave da invisibilidade, tirou a roupa e a aplicou por todo o corpo. Em seguida para testar, comprovar seu feito, foi à sala onde o pai conversava com Quintana. Ficou na frente deles por vários minutos e não houve reação, eles não o viram, ignoraram aquele menino pelado todo coberto de pomada. Voltou ao quarto, acreditando de fato estar invisível. Era demais para a pobre criança. Mas tinha de ter absoluta certeza. Tornou à sala e começou a dançar na frente dos dois. O pai o olhou com uma cara que até hoje não esquece. No fim das contas, ficou sim invisível, do futebol, por três meses. 

"Meus textos vêm muito da família, quem me vê falando da minha mãe numa crônica, vai ver a sua mãe. Falo da minha e o leitor vê a sua" – Carpinejar 

O poeta gaúcho aproveitou ainda este momento para citar o grande Paulo Mendes Campos, e sua obra Infância Azul, que precisa ser mais lembrada. 

CRONISTAS RIVAIS? 



Jáder questionou a existência de uma possível rivalidade entre cronistas, entre eles, por exemplo, de um pegar uma coisa do outro, de invejar uma ideia, coisas assim. Xico e Carpinejar sorriram, como cúmplices silenciosos. 

"Fico feliz quando vejo uma crônica bem escrita, que me emociona, por alguém tê-la escrito eu não precisar" – Carpinejar, referindo-se a uma crônica de Xico. 

"A crônica é meio que o PF da literatura" – Xico

"Mas o PF é o melhor, né?" – Carpinejar 

A simples menção e analogia da crônica a um prato de comida fez com que Carpinejar se manifestasse de uma maneira bem própria sua. Segundo ele, há uma teoria do prato "bonitinho" para o prato bagunçado. Quanto mais organizado, mais tímida, travada, a pessoa é. Pratos bagunçados são de pessoas muito falantes, extrovertidas. 

"Olhe como a pessoa come o PF e saberá como ela é na cama" – Carpinejar

Nessa hora pensei: será que isso se aplica também às crônicas, se elas são o PF da literatura? Será que crônicas bonitinhas e mais bagunçadas ditam os comportamentos de seus autores? Xico Sá não comentou nada quanto a isso. 

PARA SE DEIXAR SER VULNERÁVEL 

Jáder Santana, o mediador da conversa, desviou o assunto para o amor, tema comum na obra de ambos. Vocês dois escrevem sobre o amor... sentem que são ouvidos?

"Não falamos para mulheres. Falamos para os homens, mas eles não nos escutam. A mulher compra roupa e demora um tempão para tirar etiqueta. O universo feminino nunca termina. Já o homem tem um medo, um medo de estar vulnerável. Nossas crônicas são para fazer os homens se deixarem ser vulneráveis." – Carpinejar

"Temos muita autoironia, de nos autoesculhambar, de não se levar a sério" – Xico

"O homem fracassado é vitorioso. Quem perdeu tudo não tem nada a perder. Os homens o tempo inteiro têm que provar que são homens. Ninguém pode ser natural com tantas regras" – Carpinejar

A mesa tinha constante teor cômico. A todo momento risos vinham do público e mesmo do próprio trio do palco. Alguns elementos-chave, ditos no início, voltavam de vez em quando, gerando novas discussões – e piadas. Foi mais ou menos assim que tornaram a falar da minancora. Xico disse que a conhecia como pomada São Sebastião, possivelmente um genérico. 

"Tem afeto maior que mãe passando Vicky no peito do filho?" – Xico

Xico Sá falava com grande ternura, como se agora pudesse sentir mais, perceber mais. Ele recentemente teve uma filha, desfruta a alegria da paternidade. Era notável como estava mais sensível, mais aberto. 

A FIGURA MASCULINA E OS PADRÕES ESTÉTICOS

Falando sobre a questão de afetos e relacionamentos, focaram na figura masculina, de beleza, feiúra e ditos padrões estéticos, mesclando humor com realidade:

"O estranho é uma promoção do feio. Uso essas roupas, esses óculos, para dispersar a atenção de mim" – Carpinejar

"O bonito tem conquista imediata e fraudulenta. A beleza é passageira. A feiúra é para sempre" – Xico

Apesar de ambos terem uma energia parecida, e de até meio que completarem bem as colocações, eram bastante diferentes, distintos, o que gerava interessantes divergências e contrapontos, de forma a engrandecer a conversa. Eu me divertia tomando notas de suas falas, recolhendo referências e mesmo olhando as pessoas em volta para ver suas reações às falas da dupla. 

CRONISTAS NA ERA DO FACEBOOK E A REALIDADE DOS DESFAVORECIDOS



Como ser cronista em tempos de Facebook, onde todos são? Foi a pergunta lançada a seguir por Jáder. 

"Fico feliz com muita gente escrevendo. A gente não pode querer ser melhor do que os outros. O que quero é um abraço bem dado nas palavras – Carpinejar

"O escritor não tem obrigação de ser amostrado, somente de escrever. Tenho amigos tímidos que escrevem muito, são geniais, mas esquecidos – Xico

E seguindo essa linha, Carpinejar completou:

"São escritores que não têm apoio do estado, estes são os escritores de verdade" 

"Esses caras precisam ser publicados, estão fora desse barulho das redes, não têm obrigação de falar nada no palco" – Xico

Achei muito interessante esse ponto da conversa, os dois autores, cercados de mídia e ativos em todas as redes, falarem dos mais desconhecidos e desfavorecidos. Certamente, há mesmo muita gente nessas condições, alheias a esse mar de informação, a esse exagero de vozes, de imagens. Mas penso, por que eles não ajudam esses caras de alguma forma? Por que não lançam algum projeto voltado à visibilidade dessas pessoa? Seria ótimo ver esse tipo de incentivo, de publicar autores desconhecidos, partindo de outros já amplamente abraçados. 

PERDAS E GANHOS DO RECONHECIMENTO 

Seguindo essa discussão, Jáder perguntou: o que o escritor perde e ganha quando tem muito público? 

Xico Sá falou que tem um conflito, que era ser mais conhecido como o 'menino do Saia Justa' (Programa da GNT). Ficava chateado porque sempre escreveu a vida toda. Tal como Carpinejar, diz que se eventualmente perder as aparições em TV, será o que sempre foi: escritor. 

"Nossa cabeça antes de tudo é o mundo do papel, do livro. Fico sempre entre o amostramento e o bicho guardado querendo ser mais do que é." – Xico 

"Não tenho preocupação, tenho dupla personalidade. Ser poeta é tudo o que não consigo dizer. O cronista rouba do poeta, mas rouba pouco. O poeta é triste, o cronista é alegre, é do mundo. Na crônica, meus amigos são reais, na poesia, são irreais. O cronista, meu lado cronista, é como um irmão, diferente, mas da mesma família." – Carpinejar

QUAL A HORA DE SE ESCREVER UMA CRÔNICA?


Além das perguntas e comentários do mediador, com alguns minutos passados, o debate foi aberto às perguntas do público. Como acontecia em todos, uma pessoa da produção ficava encarregada de passar uma folha entre as pessoas que queriam perguntar, e uma vez ali anotadas, o papel era encaminhada ao mediador. Foi assim nas anteriores, mas não seria bem assim nessa. 

Quebrando mais uma vez os protocolos, Fabrício Carpinejar interceptou a folha, questionando o sentido daquilo, dizendo que era muito melhor se cada um fizesse sua própria pergunta no microfone. De fato, deixaria tudo bem menos pomposo. E para selar sua sentença, o poeta simplesmente rasgou a folha em pedacinhos, os atirando à plateia, dando uma de suas características gargalhadas. Podíamos talvez ter passado sem essa. 

O público começou a se manifestar diretamente. Alguém perguntou aos dois quando surge a vontade de escrever, quando vem a inspiração? Carpinejar e Xico Sá se entreolharam num risinho, como se estivessem prestes a responder a essa pergunta pela enésima vez. 

"A grande musa é o prazo de escrever. Escrevo no último momento. A crônica jornalística é uma encomenda, um trabalho, não tem frescura, levante e escreva, tem hora, prazo, tem que fazer. Não tem que depender da musa, não pode esperar. Escrita é disciplina. Escrever com ou sem inspiração, depois corta, depois joga fora. Senta e escreve. Tá sem assunto? Pega um livro e lê ou dá uma volta e vê algo na rua que te inspire. A crônica tem essa urgência. – Xico

Concordando que o prazo de entrega é sempre importante, e aproveitando isso do sair para buscar inspiração, Carpinejar completou:

"Uma vez, encontrei o Xico em Pelotas. O que tu tá fazendo aqui? Ele disse: procurando a crônica!"

Xico contou uma pequena história que tinha lhe acontecido mais cedo, naquele mesmo dia, quando encontrou pelas ruas um menino, vendedor ambulante, lhe vendendo óculos Ray Ban. Os óculos claramente não eram originais, mas a maneira como o garoto os anunciava, os vendia, inspirou o cronista, que já tirou deste fato a ideia de que precisava. "O cronista vive de pequenas histórias" – Xico

"Tive muitos pesadelos com crônicas, que tinha escrito mal, e até hoje, às vezes, essas ideias me seguem. Como cronistas, temos truques, porque temos às vezes quinze minutos pra escrever, mas daí a estar bom... você sabe, tem consciência de que não está muito bom." – Xico.

SEM MICROFONE, UMA PARTICIPAÇÃO INESPERADA 

Carpinejar pontuava, completando e adicionando à fala do colega com experiências próprias do ofício de cronista. Logo ambos começaram a citar alguns cronistas esquecidos no tempo, como o cearense Rafael Caneca. Foi mais ou menos nessa hora que alguém na plateia se manifestou, e não precisou sequer do microfone.

A voz veio de alguém bem atrás de mim, uma voz ampla e decidida, típica de quem aparenta segurança no que diz. Após virar a cabeça, como todos ou quase todos fazemos involuntariamente, para vermos, de algum modo, quem está falando, vi com certa surpresa que se tratava do homem que tinha chutado minha cadeira! Ele falava sobre o cronista Airton Monte, também cearense, da importância de sua obra, e do quão ela necessitava ser reeditada. O homem expressava-se com grande eloquência, deixando claro que era mais do que um espectador comum, talvez um jornalista? Professor? Escritor? Fiquei bastante curioso. Seu timbre de voz, alto, cheio, dispensava microfone, enchendo o auditório. No palco, os autores ouviam atentos e concordaram, reforçando novamente a necessidade destes autores esquecidos de serem trazidos de volta. O homem da pergunta, contudo, não pareceu muito satisfeito, como se esperasse que dissessem mais algo. 

SER ESCRITOR NO BRASIL, UM POUCO DE FUTEBOL E A IMPORTÂNCIA DOS LIVROS NA VIDA DAS CRIANÇAS 



Logo surgiu uma outra pergunta, vinda de alguém nas primeiras fileiras do auditório: hoje em dia, ainda se precisa sair do Brasil para ser escritor?

Ambos dizem que não, mas é Xico quem dá a deixa: "Em qualquer lugar que se está, pode-se ter uma proposta de um editor e se levar a sério. Aqui mesmo no nordeste, não precisamos mais da mediação do sudeste para nada."

Veio ainda uma questão sobre algum texto que Xico escreveu sobre futebol, publicado em certo jornal que não iam mas acabaram falando o nome. Não consegui entender muito bem do que se tratava, mas algo sobre eleições que se relacionava a futebol. Citaram o nome de alguns jogadores, completando o tema. "Jornais costumam ter listas do que se pode falar mal e do que não pode. Todos têm. O que me interessa no futebol, para escrever, é o drama humano, dessas pessoas, os esquemas táticos, deixo para quem entende". – Xico

Os intelectuais foram fundamentais para você? Foi uma pergunta que alguém do público dirigiu a Capinejar:

"Meu pai deixava riscar, desenhar os livros. Estavam ao alcance. Depois ele ia lá, os consertava como podia. Ao evitarmos isso, estamos afastando as crianças dos livros. Meu pai me tinha mais importante que os livros." – Carpinejar
"A gente escreve quando tem um grande contador de histórias na família. Nós queremos salvar essa memória, nos equipararmos, esse é talvez o maior incentivo" – Carpinejar

OS MUITOS AFETOS POR BELCHIOR 

E o tema final desta mesa de afetos foi trazido, inesperadamente, pelo homem que dispensava microfone. Ele, aliás, tinha lapsos de comentar ou falar de vez em quando, entre as falas dos autores, com propriedade e admirável ousadia. Ouvi, como todos, em alto e bom som, quando perguntou: o que acham da perda de Belchior?

Xico e Carpinejar claramente não esperavam aquele tema, mas adoraram quando surgiu. Tanto que antes de responderem qualquer coisa, Xico sacou o celular e colocou uma trilha sonora, Coração Selvagem, e só depois comentaram. Carpinejar começou lembrando que Belchior já estava sumido quando ficou um tempo num convento. Já Xico considera que o sumiço do compositor foi justificado com uma narrativa muito pobre para alguém tão genial. "Penso que foi uma escolha. A ideia de narrar uma vida só com isso de dívidas é muito pouco. Ele era muito mais, estava traduzindo, criando..."

E enquanto o eterno rapaz latino americano continuava entoando uma de suas mais emblemáticas canções, no celular de Xico, foi cogitado o que teria acontecido se Belchior tivesse voltado. Carpinejar achava que ele não conseguiu reagir à força da esposa que queria evitar isso, mas ninguém pareceu concordar dessa vez.

"É triste, mas eu acho que ele não sabia o quanto era amado", concluiu o poeta. Para o senhor que dispensava microfone, que participava amplamente da discussão, Belchior não conseguiria viver publicamente nos tempos que estamos vivendo hoje, como também não conseguiriam Elis Regina e Glauber Rocha, citados por ele, artistas que morreram no auge das carreiras.

AFINAL, SOMOS FELIZES? 

Jáder Santana, mediador do debate, retomou a voz ativa no finzinho, retomando também o tema narração dos afetos, e quis saber o que eram os afetos e felicidade de ambos.

"A felicidade é um contentamento, queremos ser felizes de qualquer jeito, mesmo que não seja a melhor maneira. E a felicidade só importa pra gente. Nós nunca perguntamos aos outros se estão felizes, talvez com medo da resposta. Olhar o instagram dos outros não é ver como o outro vive, mas o que te falta" – Carpinejar

"A gente não presta atenção no outro, a gente vive muito não prestando atenção e perdemos muito por viver assim." – Xico



O relógio já marcava além das 21h quando a mesa foi enfim encerrada. Aplausos estrondosos vieram de todos os lados, as pessoas se puseram de pé. O trio, no palco, agradeceu a ovação e posou para as centenas de celulares que os tinham como alvo. Eu desta vez estava mais preocupado em cumprimentar melhor o senhor que dispensava microfone, fiquei bastante curioso para saber quem ele era, o que fazia, mas tão logo me virei, só consegui vê-lo sair apressadamente, no meio da massa de pessoas. Guardei seu tipo físico, roupas e o fato de estar com uma mochila. De repente o encontrava lá fora, pensei. E empunhei a câmera para me juntar ao bolo de flashes e telinhas piscantes. Sair do auditório não foi tarefa fácil, as duas saídas congestionadas. Não quis me apertar no meio daquela gente, quase como se lutassem para descer de um ônibus ou avião. Esperei a poeira baixar. Teria ainda uma longa jornada pela frente, estava para começar a sessão de autógrafos.

O ÚLTIMO DA FILA



Era notório que esta mesa, sendo a última do dia e com os convidados mais conhecidos do grande público, teria mesmo este recorde de presença. Quando cheguei à área dos autógrafos, vi uma fila gigantesca, contornando os corredores. Carpinejar e Xico Sá, no meio da multidão, dividiam-se para atender ao que depois percebi serem duas filas distintas. 





Não comprei nenhum de seus livros, embora até tenha considerado, mas achei todos muito caros. Como estava recém-saído da intensa movimentação da Bienal do Livro, onde interagi com vários escritores, achei que deveria ao menos conversar com um deles agora. Mas não fui de mãos vazias, levei um livrinho do Carpinejar, que tinha comprado num outro evento que contou com sua presença, o ETC, também aqui em Fortaleza, em 2012 (Veja aqui). Um livrinho bem diferente, feito apenas com suas citações do twitter. 




Por alguma razão, decidi não me juntar logo à fila. Percebi que teria de passar muito tempo em pé. E como aparentemente não chegaria mais ninguém, notei que poderia muito bem esperar sentado, numa das muitas mesas que havia nos entornos. Ali, observando o movimento, o ir e vir, os risos, os muitos abraços nos dois autores, fiquei escrevendo em meu caderno, pensando as vantagens de se ser o último de uma fila. As pessoas ficam na fila para não perderem seus lugares. O último da fila pode escolher não ficar, não tem mais o que perder: já é o último. 



Poder ficar ali, confortavelmente sentado, sabendo que teria minha vez garantida, mas sem ter que ficar colado a todos, de alguma forma me inspirou até a escrever e desenhar qualquer coisa nos minutos de suspensão que se seguiram. Ainda procurei o senhor exótico da palestra mas não vi sinal dele, certamente já tinha ido embora, não tinha o tipo de quem ficaria para pedir autógrafos. 

Cerca de quarenta minutos depois, quando só faltavam uns três ou quatro a serem atendidos pelo poeta (Xico já tinha encerrado suas assinaturas), foi que me levantei e assumi meu lugar na fila. Algo que achei curioso, estando ali já perto do espaço destinado aos autores, foi ver que havia vários daqueles pedestais organizadores de fila arrumados de modo a conter as pessoas dos autores, sendo abertos apenas para liberar a passagem de cada um por vez. Ora, para que tudo isso? Havia muita gente, sim, mas todos bem comportados e tranquilos, sem alvoroço. Qual a finalidade de se resguardar tanto os autores, como se, através daquelas proteções estivessem assegurando a integridade de, digamos, os "animais mais preciosos de seu zoológico"? Comentei esse fato com uma das diretoras do lugar, que concordou, rindo, e logo começou a afastar os pilares. 

DIANTE DO POETA, TUDO SE DESPERTA



Me vi diante de Carpinejar. É sempre uma sensação estranha, essa de estar numa fila de autógrafos. Já falei desses momentos em vários posts aqui ao longo dos anos. Costumavam ser situações que eu preferia evitar, mas que invariavelmente se mostraram necessárias, uma vez que, de um jeito ou de outro, permitem estreitar algum contato com esse ou aquele autor, mas isso não muda o fato de ser um momento estranho. Nunca se sabe direito o que dizer, naquele tempinho tão curto que parece durar uma vida. Enquanto não chega nossa vez, ficamos pensando, tentando arrumar na mente as palavras, os assuntos, o que se quer dizer, o que perguntar, ou simplesmente o que não dizer. Quase como se estudássemos para uma prova iminente. E quando é hora de dizer, as coisas não saem como planejamos, o que tem um lado bom, afinal o imprevisto muitas vezes é o melhor dos temperos, garante boas surpresas. 

Enquanto a maioria das pessoas debruçava sobre ele cópias de seu livro mais recente, eu trazia este que mal era visto na pilha dos livros disponíveis ali para compra. Percebi que aquele livrinho do evento de 2012 talvez fosse, de certa forma, uma supresa para ele. Provavelmente não o esperava. Após os cumprimentos iniciais e enquanto eu lhe falava, o poeta pegou o livro nas mãos e começou a folheá-lo, detendo especial atenção nas orelhas, como se há muito tempo não visitasse aquilo. Leu as citações, quase como se encontrasse a si mesmo em um passado distante. Observando tal transe, me contive a não falar tanto, a respeitar aquele momento. Ele já não lembrava de mim, daquela outra vez que lhe falei, em 2012, já não lembrava sequer daquele outro evento, mas lembrava muito bem do livro. Gostou de vê-lo comigo. Parabenizei da palestra, disse que tinha voltado a acompanhá-lo e que também escrevia. Falei até bastante, ele agradeceu, comentou qualquer coisa, mas a melhor resposta não foi em palavras, foi ter visto a maneira como seu próprio livro, que tinha apenas 5 anos de publicação, de alguma forma o fez parar breves segundos, e se permitir uma volta àquela realidade, àquele passado recente já tão longíquo. E assim, ele assinou o livro, dedicando a mim o que chamou de "breviário do profano". 

A HORA E A VEZ DE XICO SÁ 



Após o encontro com Carpinejar, já me preparava para enfim ir embora. Foi quando tive a ideia de cumprimentar também Xico Sá, que por acaso ainda estava por lá, andando tranquilamente com um ar de que eu sabia que me receberia bem se o interpelasse. Ainda cheguei a dar uma melhor olhada em seus livros à venda, mas os preços realmente não facilitavam. 

Mesmo fora da formalidade de fila e autógrafos, Xico me acolheu como a um velho amigo. Não li ainda nenhum de seus livros, mas já ouço seu nome há tempos, de programas como o Entrelinhas da TV Cultura, das crônicas que publica nos jornais e sites, e mesmo de outras palestras e eventos. Foi uma troca rápida, um afeto instantâneo, assim de improviso, sem tempo para ensaiar palavras, tudo bem natural. Grande figura, grande momento enfim conhecê-lo.  

E lá fora do Centro Cultural, enquanto aguardava meu carro, já além das 22h, tive uma última grata surpresa, ao ver Xico aparecer com sua filhinha no colo, a pequena Irene, de poucos meses. A pequenina dormia, abraçada ao pai. Junto a ele, estavam outras pessoas da família, num momentinho particular longe do grande público e da mídia. Me aproximei, acenando. O cronista disse que ela tinha vindo conhecer a terra do pai (Xico é natural do Crato, aqui no Ceará). 

Foi engraçado ter este último momento, conhecendo sua filha. Lembrei de que, meses atrás, em fevereiro, quando estive numa oficina literária do escritor Marcelino Freire, em Recife, e uma das primeiras coisas que se comentou por lá, no primeiro dia, foi "nasceu a filha do Xico Sá!". Era quase como se eu, vendo agora a pequena Irene, de alguma maneira, também fizesse parte deste ciclo. Comentei isso com ele, que riu enternecido. Xico estava radiante, com a menina no colo. A paternidade lhe fazia transbordar de alegria. Me despedi de todos, daquele momento tão belo quanto singelo, e seguimos nossos caminhos. 

UM AMBIENTE MEMORÁVEL 

Satisfeito com aquele dia que mais pareceu durar um mês, fiquei rememorando na mente um resumo de tudo o que tinha vivido em tão poucas horas. Foi um belíssimo evento, uma grande iniciativa da Caixa Cultural, em reunir uma programação tão atrativa. Intenso, profundo, lírico, é difícil definir a complexidade de minha experiência naquele dia, ainda mais considerando que foi poucos dias após a igualmente intensa Bienal do Livro do Ceará 2017 (da qual haverá posts aqui em breve). Tinha quase uma sensação de estar viajando, de estar longe, estando perto, uma realidade incomum dentro de uma aparente rotina. 

Não posso deixar de comentar também as mudanças que a Caixa Cultural fez para tornar seu espaço mais acolhedor e receptivo. Quem conhece o lugar, sabe que há um espaço que seria dedicado a um café e a uma livraria mas que, sabe-se lá por que (provavelmente razões políticas), quase nunca é usado com esses fins, ficando sempre vazios e inutilizados. É muito comum ir para algum show ou apresentação teatral lá e ter a dificuldade de fazer um lanche ou mesmo de uma simples água. De café, só mesmo o nome "café cultural", numa placa lá no alto. Existe a ideia, mas algum problema a impossibilita de ser posta em prática. Bom, impossibilitava. Durante os dias da Flicaixa, vi com imenso assombro aquele espaço ocupado, com venda de lanches, bebidas e, claro, cafés. 





Ainda, o espaço da livraria, ao lado, igualmente ocupado, por livreiros que tinham vindo de Salvador especialmente para vender os livros dos autores presentes na festa literária. Essas mudanças ajudaram a tornar a vivência da Flicaixa realmente única, diferente da maioria dos eventos já ali realizados, onde, uma vez terminados, se ficava meio perdido, por não haver mais o que fazer, o espaço não favorecia conversas ou oferecia sequer água a seus frequentadores. No horário de maior movimento, a tarde de sábado, dia 5 de maio, os saguões do Centro Cultural estavam lotados de pessoas, de movimento, de vida e sobretudo, de literatura. Não seria muito exagero dizer que me senti quase como se estivesse em eventos como a FLIP, dada a intensidade que percebi em tudo. 

FLICAIXINHA E O FUTURO DA FLICAIXA

Show da companhia Dona Zefinha agitou o palco no domingo da Flicaixa

A Flicaixa, porém, não terminou nesse dia. No dia seguinte, 6 de maio, domingo, houve a parte final da programação, a Flicaixinha, voltada às crianças. Conversas e práticas com autores, como Tânia Dourado e André Neves, contação de histórias, finalizando com show da companhia cenomusical Dona Zefinha. Estive por lá mais para acompanhar os momentos finais do evento, mas as coisas estavam bem diferentes. 

Apesar de ter contado com uma excelente programação, a primeira edição da Flicaixa, a meu ver, foi bastante curta. Colocar todas as mesas centrais em apenas um dia deixou o segundo dia mais vazio, com bem pouco movimento no café e livraria, quase como se eles não fizessem mais sentido estar ali. Conforme conversei com algumas pessoas da produção e da própria Caixa, o evento ainda está em fase inicial e certamente, após o sucesso que tem feito por onde passa (veio de Salvador, e daqui de Fortaleza seguiria ainda para Curitiba), a próxima edição será maior e mais completa. Para uma primeira vez, eles estão de parabéns, todos os envolvidos. O evento nasce ainda como um forte impulsionador da arte literária em Fortaleza, que ultimamente tem recebido inúmeros eventos voltados à escrita. 

Esta mesa final foi, sobretudo, uma divertida conversa, que quebrou protocolos, arrancou bons risos, enalteceu a crônica como gênero da urgência e ainda homenageou Belchior. Chego assim ao final desta série, que me foi especialmente única. Conheci muita gente incrível, de energia contagiante, revi vários amigos e respirei dessa atmosfera tão maravilhosa que permeia qualquer evento dedicado à literatura. Agradeço a todos que porventura leram estes posts e vamos em frente. 




sexta-feira, 13 de março de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (FINAL – O conto nosso de cada dia)


Fotos: Denis Akel

Finalmente diante da oitava e última postagem desta extensa série sobre a Bienal do Livro do Ceará 2014. Recapitulando, ao longo dos primeiros meses do ano, postei aqui minhas experiências e impressões de todas as mesas e palestras que pude assistir, bem como do evento em si, que ocorreu entre 6 e 14 de dezembro de 2014. Para encerrar, talvez uma das mesas mais aguardadas, ou pelo menos badaladas: O conto nosso de cada dia, que contou com a presença de Xico Sá e Ricardo Kelmer. Aconteceu no penúltimo dia de Bienal, 13 de dezembro, um sábado, às 19h. Foi a única mesa que vi lotar a sala. O público-recorde provavelmente não se deve pelo interesse real na temática do conto, e acredito que pouco devido a Ricado Kelmer, mas sim por conta de Xico Sá. Uma palavra, contudo, define muito bem o que para mim foi essa mesa: decepção.

Desde o início, este foi um dia agitado na Bienal do Livro. Sábado, penúltimo dia, o Centro de Eventos estava lotado, barulhento, difícil de transitar, com a sensação de que com certeza era um lugar no qual não se queria estar. Isso, aliás, não deve ter sido escolhido ao acaso; óbvio que não colocariam Xico Sá em um dia de semana, e sim em um dia naturalmente movimentado. Cheguei cedo por lá, pouco depois das 14h, imaginando que no dia seguinte não iria, para evitar a loucura ainda maior que seria o último dia (só imaginei, porque acabei indo!). Rodei entre os expositores de livros, na medida do possível – todos cheios, desconfortáveis e sufocantes. Ainda comprei um livrinho aqui, outro acolá, aproveitando oportunidades, mas é mesmo incrível o tempo que se gasta, sem se dar conta, só em pé folheando um possível livro a comprar!

Intensa agitação no penúltimo dia da Bienal

Como falei nas postagens anteriores, nenhuma das mesas costumava começar na hora marcada, e esta não quebraria a tradição, embora algo me dissesse que eu deveria chegar um pouco mais cedo, imaginando que possivelmente haveria uma fila. Xico Sá, por ser cearense, e 'personalidade de TV', com certeza arrastaria um grande público. Foi por volta das 18:30 que cheguei ao mezanino 2, encontrando o corredor já bastante cheio, percebendo que eu estava certo em minhas suspeitas. Como não havia bancos ou lugares para se sentar (uma falha em meio a toda a moderna estrutura do Centro de Eventos), as pessoas ficavam no chão mesmo, encostadas às paredes. Não havia, contudo, nenhuma fila, inclusive a sala continuava fechada. Estranhando, me aproximei, e me informei com um receptivo que por acaso estava por ali. Meu receio era de a sala ter mudado, o que já acontecera antes. Ele, porém, me disse que seria ali mesmo, mas que iria atrasar um pouco, uma vez que havia ainda uma palestra acontecendo, com Carolina Munhoz, alguma coisa referente ao tema juventude fantástica. Afastei-me e, sem opção, me juntei às muitas pessoas que ali estavam, também me sentando na fria cerâmica do piso.



Alguns minutos passados, as portas se abriram, dando saída às dezenas de pessoas que lá estavam, no que constatei que Carolina Munhoz também tinha um grande público. Logo formou-se uma fila à porta da sala, das pessoas que, como eu, estavam ali fora sentadas à espera da mesa de Xico Sá. Como já havia muita gente quando cheguei, tive de ficar atrás de umas trinta pessoas, imaginando que isso me prejudicaria na escolha da cadeira no auditório; certamente todos iriam querer sentar bem na frente. Tudo bem, o que desse para ver, estava bom. Por esses momentos iniciais, de grande movimentação, comecei a desconfiar que esta mesa talvez não fosse bem o que eu estava esperando.




Devo ter passado pelo menos uns 15 minutos em pé, inerte, à espera. A fila, todavia, não parou de crescer, e logo fez uma curva pelo corredor. Nesse meio tempo, pensei, relembrando a Bienal do Livro de 2010, onde também fiquei numa fila, à espera da palestra de Maurício de Sousa, e ainda por cima sob um escaldante sol de meio-dia, nas limitadas dependências do antigo Centro de Convenções. Desta vez, felizmente, não havia sol, mas a sensação de ficar ali, limitado a uma fila, é sempre desagradável. Pensei também se valeria a pena tamanho esforço, dedicação, pelo que poderia ser a vindoura palestra. O que mais me atraiu aqui a princípio foi mesmo o tema, O conto nosso de cada dia. Imaginei que discorreriam sobre esse gênero tão fascinante mas muitas vezes subjulgado, mesmo agora em alta devido à homenagem à Moreira Campos. Já conhecia Xico Sá de outros eventos literários e também de programas de TV, como Cartão Verde e Saia Justa. De vez em quando também lia um ou outro de seus textos pela internet. Quanto a Ricardo Kelmer, não fazia ainda ideia de quem era, mas se poderia acrescentar algo a este tema, com certeza seria bem-vindo.

Detalhe das vidraças, refletindo a extensão da fila


Passando um pouquinho da hora marcada para o início, o acesso ao auditório foi enfim liberado. Como pensei, os lugares mais à frente foram rapidamente tomados, e tive de me conformar com a quarta fileira, mas pelo menos fiquei ao lado do corredor, assim teria alguma liberdade quando fosse fazer os registros fotográficos. Em questão de minutos, praticamente todas as cadeiras estavam ocupadas, e havia mais gente do lado de fora querendo entrar. Nunca vi nada parecido, em nenhuma das palestras anteriores que assisti. O público, pelo que pude perceber, não tinha nada de muito chamativo, eram mais jovens, talvez na faixa de 20 a 30 anos, que pareciam quase estar ali para algum show musical ou de stand-up. Logo eu perceberia que, afinal, não seria muito distante disso.





Diferente de todas as mesas anteriores, aqui em nenhum momento vi Xico Sá nas imediações da sala, à espera, como todos, do início de sua mesa. Luiz Ruffato e Milton Hatoum estavam bastante visíveis em seus momentos e Lira Neto estava até sentado nas cadeiras do auditório momentos antes de sua fala. Com Xico Sá, porém, não foi assim. Lá dentro, já sentado, procurei em volta, também sem qualquer sinal do escritor. Era quase como se o estivessem preservando, evitando que tivesse contato com o público antes da hora, talvez para fazer uma entrada triunfal ou algo do tipo. Quanta besteira, pensei, como se ele fosse um ídolo, intocável, feito de vidro. Ricardo Kelmer talvez já estivesse por lá, mas provavelmente entraria junto com ele, pegando uma caroninha em todo aquele oba-oba. Reparei no detalhe que havia pelo menos umas quatro portas de acesso à sala, sendo geralmente usada apenas uma. Por qual delas será que entraria Xico? Seria daquela mais afastada, meio escondida por uma tela de projeção?




Não demorou muito e a sala lotou completamente. Eu já estava com meu notebook no colo, começando a fazer as primeiras anotações quando, passados alguns minutos das 19:00, finalmente vi de relance, por uma brecha entre a parede e a tela, saindo mesmo da última porta, a figura de Xico Sá, curiosamente bem escondida por esta tela de projeção, que acabou funcionando como uma espécie de cortina. Não sei se foi proposital, mas com certeza desnecessário. Via-se apenas detalhes de sua roupa, a camisa estampada, como que para aumentar mais a expectativa.Vi ainda mais vultos, indicando que ele não entrara sozinho. Logo, saíram de trás da tela de projeção os palestrantes daquela mesa, Xico Sá e Ricardo Kelmer, para o delírio da plateia, que prorrompeu gritos eufóricos. Seria toda aquela comoção pelo fato de Xico ser cearense e assim de estar, de certa forma, meio que de volta à casa? Ou pela força de sua presença televisiva? Era uma boa questão. Seguido dos palestrantes, estava também Cleudene Aragão, autora responsável pela mediação do debate, bem como apresentadores da Bienal que logo cuidaram das introduções e patrocinadores. Nessa hora, olhei para trás, percebendo, além da grandeza do auditório cheio, a porta principal ainda aberta, e muita gente ainda lá fora, como que a espera de algum lugar vagar de repente. Para começar a mesa, após cumprimentos gerais a ambos, Cleudene perguntou a Xico se ele venceu na vida. A essa fraca e genérica pergunta, o escritor cearense não pensou muito antes de dizer:

Não tem isso não, a ideia é se emocionar, não tem vitória, não tem triunfo, a gente leva é uma emoção. Não há vitória, não precisa ganhar nada, o essencial é ter emoção e ir levando.

Incontáveis câmeras eram apontadas para o palco, algumas por parte da produção, que além das dos fotógrafos, novamente mantinha uma num tripé, gravando tudo, mas a maioria das lentes vinha mesmo do público. De onde eu estava via, ali na chuva de telinhas, miniaturas do palco. Foquei em uma delas, onde uma diminuta Cleudene agora perguntava: qual a relação de vocês com Moreira Campos e sua obra?




Eu inicialmente só comecei a ler Moreira para impressionar a neta dele, – disse Ricardo Kelmer, em meio a risos, disse ainda que depois se encantou pela obra, de grande vigor e significado, a tendo como inspiração para seus contos.

É impossível não amar um conto de Moreira Campos, aquilo é o melhor entretenimento do mundo, melhor que qualquer televisão do universo. – Xico Sá

Não pensem em literatura como chatice, um conto de Moreira Campos é imensamente divertido. Não fazemos um favor a ele lendo-o, mas sim um favor a nós mesmos. – Completou Xico Sá.

A mesa corria a um ritmo bem progressivo, e a julgar por esse início, parecia até interessante, contudo, logo mais ela começaria a declinar. O público, silencioso, ouvia, interessado. Cleudene seguiu perguntando, agora novamente direcionada a Xico: qual o barato dos gêneros literários?

Perdemos muito tempo buscando definições; conto é isso, crônica é aquilo. Bobagem, o importante é ler. – Xico Sá

Xico ainda tentou explicar um pouco as sutis diferenças entre conto e crônica, mas preferiu dizer que praticamente não há, que os dois gêneros meio que se misturam um no outro, e tecnicamente, são quase como uma coisa só.

A mediadora pediu a Xico que falasse um pouco de seu romance "Big Jato". O escritor começou dizendo como surgiu a ideia para o livro, que na verdade Big Jato é um limpa-fossas, muito conhecido por atuar bastante na área do Crato e Cariri, em meados dos anos 70, 80, quando também popularizou o nome Big Jato como sinônimo de limpa-fossas. O caminhão era destinado a esvaziar as fossas das casas sem encanamento. Ele disse ainda: Quem daqui esteve no Crato, ali por aquela época, e cagou, certamente o Big Jato limpou a merda de vocês – o tom irreverente logo arrancaria mais risos e gracejos do público –. Então, sempre lembrei do Big Jato, que na minha época de infância limpava as merdas de todos. De lá em diante, continuou a limpar, mas dessa vez minhas merdas mentais, concluiu, para mais um forte e exagerado aplauso.



O livro é um romance auto-biográfico, que não tem muito compromisso, porém, em retratar fielmente as memórias do autor. Isso, inclusive, é exatamente o que Xico mais gosta, pois diz que não conseguiria lembrar precisamente de todos os detalhes, o que resultaria numa história não fiel à realidade e tampouco uma boa ficção. Optei por uma ficção maluca, de uma região em que eu vivi desde a infância e começo da adolescência, para contar a história de um menino que vive entre um pai trabalhador, motorista do caminhão, e um tio delirante, poeta, que cresce ora sobre a influência de um, ora do outro, sem saber que destino tomar na vida. Xico usou a imagem do Big Jato sobretudo como uma simbologia da região do Cariri, como pano de fundo de uma história de dúvidas e descobertas. O protagonista da história, o menino, ou o cabinha, como chama Xico, vai crescendo com essa dúvida: a que mundo ele pertence? Ao mundo da poesia tresloucada do tio ou ao trabalho sujo e desgarrado do pai?

Após ouvir o autor falando, e agora lendo sobre o livro para poder escrever aqui, não posso conter certa curiosidade em conhecer essa obra, ver como foi feita essa fusão entre realidade e ficção, e mesmo de conhecer a vida deste menino, que cresceu em meio a limpezas de fossas e canções dos Beatles.

Cleudene seguiu, comentando ainda que o livro está em processo de adaptação para filme, ao que Xico Sá confirmou, dizendo que o diretor Claúdio Assis recentemente terminou as filmagens. A mediadora então perguntou se Xico se sente o personagem do livro Big Jato:

Inicialmente, era mais a importância do caminhão que limpava esgotos, mas isso foi aumentando, para poder fantasiar um pouco de minhas memórias e infâncias. – Xico Sá

Desafio alguém a contar a história de sua vida sem aumentar um pouquinho, é impossível, é necessário. – Xico Sá



Em seguida, o foco passou para Ricardo Kelmer, e seu livro mais recente, Indecências para o fim de tarde, que seria lançado na ocasião do evento. A mediadora lhe pediu para falar um pouco sobre a obra. O autor começou logo soltando: dizem que a humanidade é dividida em dois tipos de pessoas, aquelas que gostam de sacanagem e aquelas que assumem que gostam de sacanagem. Disse ainda que seu livro se trata de uma coletânea de contos eróticos, uns mais românticos, uns mais apimentados, mas todos sacanas. Falou que boa parte deles vieram de ideias que seus próprios leitores enviavam, através de seu blog. O tema logo deixou o público meio dividido, mesmo porque havia crianças no ambiente, e percebi várias pessoas deixando a sala. Suas cadeiras não ficavam vazias por muito tempo, porém, uma vez que logo entrava mais gente, no que constatei então que o pessoal estava lá fora só esperando uma oportunidade de entrar. Pensando melhor, agora, bem que houve uns momentos onde eu gostaria de estar lá fora...

Kelmer falou das leitoras de seu blog, de como elas se sentiam à vontade para compartilhar ideias ou fantasias, que ele desenvolvia, e meio que de certa forma as realizava. Disse ser muito importante essa troca, de leitor x escritor, algo que se torna bem mais fácil quando se é um escritor que se auto publica, que é acessível ao leitor.

O feminino é o que move o escritor. – Kelmer

Só existe um sentido de estar vivo: decifrar o ser feminino. – Xico Sá

Queria continuar com a cabeça de menino, que tudo era mais ou menos bonito. – Kelmer

Com toda essa temática feminina trazida à tona, começaram a discorrer, sem razão aparente, sobre estria x celulite, em termos ora quase científicos, ora escrachados. A mediadora parecia levemente desconcertada. Comecei a me perguntar o que eu estava fazendo ali. Onde tinha ido parar a literatura, o conto? Moreira Campos? Eu parecia estar novamente certo em minhas suspeitas, que aquela mesa não era bem o que eu esperava, a literatura não estava exatamente em foco. A presença de Xico Sá ali não era muito como escritor, mas mais como um astro, um ícone, que metade das coisas que dizia era motivo para risos exagerados e aplausos cegos e descontidos. Mas ainda havia conteúdo interessante a ser aproveitado, felizmente:

O google acabou com as idades. Não tem mais idade, tem google. – Xico Sá, ao dizer que hoje em dia não tem mais essa coisa de velhice, ou não pode mais fazer isso ou aquilo. Com o google se pode tudo, se sabe tudo, não há limites.

Gosto muito de Macunaíma, de Mario de Andrade. Todo homem tem um pouco disso, todo homem é meio preguiçoso e chorão em relação a mulher. – Xico Sá.



Xico me lembrava bastante Fabrício Carpinejar, como se desempenhasse quase um papel, um tipo, um tipo que, evidentemente, logo cairia nas graças do público, aliás já tinha caído, desde antes de surgir ali naquela noite, uma vez que era a principal causa daquele monte de gente. Afinal, em diversos momentos, a mesa era quase um show de stand-up mesmo, com piadas meio forçadas, mas que todos riam, não sei se por realmente acharem graça ou por educação. Ele ainda trouxe à tona um de seus decálogos, que novamente dissipou um pouco o tema literário na mesa, transformando-a quase em uma das entrevistas que costuma dar na TV. Não lembro agora se foi o decálogo do homem feio ou do macho jurubeba, mas foram enumerados cada um de seus mandamentos, em um tempo que eu esperava que estivessem abordando a estrutura do conto, eventuais autores favoritos, como e porquê escrevê-los... enfim algo mais pertinente ao tema. Não que não se falasse, mas o tema literário me parecia forçado e arrastado na conversa.

Lygia Fagundes Telles é parente de Moreira Campos, no sentido de ser também grande contista. – Xico Sá, que parece ter lembrado de citar de novo o mestre Moreira Campos.

Tem hora que a gente não conta as horas, não precisa. – Xico, referindo-se ao dia-a-dia de hoje, no qual temos hora para tudo, mas certas coisas precisam de um descontrole, uma imprecisão, para melhor serem vividas.

A gente esquece de viver e apenas fotografa. – Xico, que falava sobre memórias, enfocando como, nessa vida de hoje, em meio a tantas redes sociais, estamos muitas vezes mais preocupados em registrar um momento do que propriamente vivê-lo.

E eis que finalmente falaram de inspiração criativa:

Às vezes a inspiração do escritor vem do nada, às vezes vem de tudo, é mesmo uma vadia. – Ricardo Kelmer

Xico comentou um pouco de seu processo criativo: às vezes escrevo uma ou duas coisas e penso "nossa, que maravilha de texto que eu fiz!" e aí quando acordo no dia seguinte, penso "mas que porcaria é essa, quem foi o idiota que escreveu isso?

A inspiração parece coisa feminina, é imprevisível, quando você chama, ela não vem, quando você não pode, ela chega, se você não aproveitar logo, depois fica complicado. Quem inspirou as histórias de meu livro foram as mulheres, o arquétipo feminino. – Kelmer

Gosto muito do mundo pop, do mundo da cultura de massa, de dividir a ideia da paixão de um homem comum por uma personalidade inatingível. – Xico, que neste momento citou seu livro "O livro das mulheres extraordinárias", no qual homenageia, como ele mesmo diz, com uma devoção escancarada, centenas de mulheres brasileiras, numa coletânea de perfis, crônicas e elogios amorosos.



Gosto de falar como a cabeça do homem, genericamente, pensa, essa ideia narrativa é boa para se compartilhar. – Xico Sá

Deveríamos ser menos solenes na literatura, tratá-la como um prazer, uma coisa do dia-a-dia. – Xico Sá

A ideia de relato, de contar uma história, uma coisa comum, acessível, assim é que é bom pensar na literatura. – Xico Sá, fazendo valer o tema da mesa.

A Mediadora então começou a falar do escritor que promove a sua escritura, a exemplo de Kelmer, e manteve um bom foco na discussão literária:

O mercado editorial hoje em dia é muito perverso, as editoras brasileiras estão se afiliando às internacionais. – Xico Sá

Precisamos ser agressivos, personalizar a literatura como conversa. – Xico Sá

O artista precisa, antes de tudo, ultrapassar a visibilidade, ser notado. Sempre gostei de interação com o leitor, o que ele pode me inspirar. – Kelmer

Gosto muito da ideia do movimento punk inglês, o Faça Você Mesmo. Tenha juízo, reclame, fale mal da cadeia perversa mas junte um ou quatro amigos e façam vocês mesmos. Grave uma coisa, faça uma coisa sua e deixe o mercado ir atrás, não vá buscar uma guarita, um selo de editora ou algo assim. – Xico Sá



Não tenho questão mercadológica, me inspiro nas pessoas que buscam algo e acabam chegando ao meu blog. – Kelmer

Aos futuros escritores, se diferencie tentando chegar um pouco mais próximo de seus leitores. – Kelmer

Cleudene seguiu perguntando e mantendo o foco literário: estão trabalhando em novos livros?

Estou no meio de um romance, depois do Big Jato, tomei gosto pelo gênero. O humor cearense é muito existencialista. Estou gostando muito, apesar do difícil processo criativo. – Xico Sá

Kelmer falou sobre sua época espiritualista. Usou algumas vezes a expressão 'Paulo Coelho da Caatinga', como era conhecido, causando furor de risadas no público. Hoje em dia estou pensando em escrever um livro sobre os bastidores desta época, os bastidores de um grupo esotérico-cearense no Rio.

E então chequei as horas; já pertinho do final, e ainda não havia sido aberto para o público se posicionar. Não era possível que achassem que com o auditório lotado não haveria perguntas... ou talvez fosse proposital para não tomar muito tempo... De um jeito ou de outro, Cleudene seguiu, com outra pergunta: como vocês, cearenses, circulam pelo Rio?

A gente sempre é nomeado, isso que é bom. "Ei cearense!" – Xico, que lembrou uma história de Câmara Cascudo – Mentalmente, nossa alma é do lugar.

A grande tristeza é o povo do Rio não entender as suas piadas, essa é a grande ideia da solidão, do exílio, tirar a mesma onda. É preciso primeiro educá-los a rir da gente. Essa demora é a maior angústia mesmo. Depois de 20 anos, quando eles finalmente entendem, você vai embora. – Xico, olhando para Kelmer, que confirmou sorrindo, como se entendesse exatamente o que ele quis dizer.



Ricardo Kelmer também se mostrava um típico performer, numa tentativa meio desesperada de fazer humor. Claro que muita gente ria, com uma ou duas piadinhas bobas e desnecessárias. Agora me era perceptível, então, mais do que nunca, que aqueles dois, Xico e Kelmer, se completavam bem. Suas obras versavam por caminhos similares, os dois são do Ceará, eram quase comediantes, em suma, era mesmo a "mesa perfeita".

Perguntas do público foram finalmente iniciadas às 20:30, praticamente já no final da mesa, que se estenderia um pouquinho por conta do atraso. Se não me engano houve apenas uma ou duas, uma delas mais uma observação quanto à maneira como Xico escreveu um artigo para um jornal, ao que o escritor logo defendeu seu trabalho, explicando as nuances do referido artigo. Não pude deixar de observar, também, que em tudo, ou quase tudo o que Xico dizia, uma moça sentada na primeira fileira sempre puxava palmas, mas não de modo natural, ela o fazia com grande vontade, de maneira meio frenética, quase grosseira, como se estivesse quase ironizando.

Alguém perguntou, ainda sobre o ato de se autopublicar, como divulgar o trabalho ou mesmo manter o foco inicial:

Invejo jovens que se juntam e realizam coisas, sem precisar de grandes corporações, ou no mínimo inverter as coisas, deixar as corporações irem atrás de você. – Xico

Mesmo que esteja dentro das corporações, você ainda pode manter a sua essência. – Kelmer

Logo a mediadora Cleudene Aragão agradeceu a Xico, Kelmer, e a todos os que tinham comparecido, dando por encerrada a mesa. Aplausos e gritos vieram da multidão que me cercava no auditório, e logo que os palestrantes se levantaram, várias pessoas foram na direção deles. Inclusive, momentos antes da mesa terminar, fiquei pensando "como será que vão fazer com os autógrafos?" Lá fora, havia uma mesinha vendendo livros de Xico Sá, onde certamente poderia encontrar o Big Jato por um preço realmente Big, mas o autor iria até lá ou ficaria numa mesa, ali mesmo na sala, atendendo às dezenas de pessoas que certamente lhe solicitariam, como fizeram Luiz Ruffato e Milton Hatoum? Na verdade, nem uma coisa nem outra.



O que se viu foram todos se amontoarem em volta de Xico, lutando por uma autógrafo ou ainda uma foto com ele, que era só sorrisos, e atendeu a todos de pé mesmo. Do outro lado, Ricardo Kelmer, também foi procurado pelo público, mas por bem menos pessoas. O autor disse que quem estivesse interessado em algum livro de sua obra, bastava fazer o contato com ele mesmo. Aproveitei toda a descontração daquele momento (até os receptivos queria tirar fotos de Xico Sá) para também fazer algumas fotos, que acho que retratam bem o que foi a mesa.









Quando saí da sala do Centro de Eventos, neste dia, me senti diferente. Não estava completo, realizado com a palestra, como acontecera em todas as anteriores, era mesmo uma sensação de decepção, como escrevi no início deste texto. A mesa não foi exatamente ruim, claro, mas estava longe de ser o que eu acreditei que poderia ser. Não foi bem uma defesa do conto como gênero, mas mais dos interesses de cada autor. Por que falar tanto de um romance (Big Jato) quando o tema proposto eram os contos? Toda a badalação em torno de Xico Sá sufocou o tema proposto. É até curioso, pois o próprio Xico disse que deveríamos ser menos solenes com a literatura, tratá-la como uma coisa do dia-a-dia, no entanto não foi bem isso que ele fez, ao meio que fugir do primeiro contato com seus fãs, executando sua entrada escondida por trás da tela de projeção, o que com certeza não é uma coisa que se vê no dia-a-dia.

Já Ricardo Kelmer apresentou uma obra de delicada aceitação, uma tema que sempre envolve certa polêmica, certo desconforto. Não deve ter sido à toa que muita gente se retirou da sala, não só nestes momentos bem como quando ele ou Xico falavam assuntos que não tinham qualquer relevância ao tema, e entre as pessoas que saíram vi até alguns jornalistas. Gostei, no entanto, da conduta de Kelmer, em se auto-publicar, se auto-divulgar. Demonstra que há, acima de tudo, uma vontade, um querer.

Achei a mediação de Cleudene Aragão um pouco fraca, com perguntas vazias e de pouca profundidade, que mal raspavam no cerne do tema, sem desenvolvê-lo. Um de seus pontos altos foi que pelo menos ela conseguia voltar ao tema literário quando este se perdia entre um assunto e outro.

Talvez o melhor momento, ou pelo menos o que me ficou de mais memorável, tenha sido a menção do movimento punk, tanto por parte de Xico como de Kelmer, a ideologia do fazer você mesmo, sem precisar de nenhuma mega corporação, que é um direcionamento que eu mesmo também procuro seguir, em meus textos e em alguns trabalhos que realizo em parceria com meu irmão, Diego Akel. É um modo sobretudo libertador de se produzir, no qual focamos sempre o estar sempre fazendo, sempre produzindo algo, nunca ficar à espera, pois muitas vezes ficamos à espera de algo que no fundo sabemos que pode ser que nunca chegue.

Enfim, hora de encerrar esta série, que ao longo destas oito postagens, buscou transmitir um pouco de minha experiência pela Bienal do Livro do Ceará 2014. É provável que algumas delas não tenham conseguido passar exatamente o que eu queria, devido ao longo tempo já decorrido do evento, mas imagino que o principal tenha sido transmitido, um pouco da atmosfera do lugar, bem como minhas impressões pessoais, críticas, de tudo ou quase tudo o que pude ver ou interagir. Nesta mesa em particular, não fiz questão, em nenhum momento, ao longo deste texto, de esconder minha insatisfação, mas reforço, porém, que é tão somente minha opinião, que a postura de Xico Sá ou de Ricardo Kelmer, ou de qualquer outro foi mesmo o que tinha de ser, e assim é a vida.

Escrever estas postagens, apesar de cansativo, foi um grande prazer, pois foi, além de um exercício de reviver um passado, uma chance de quase recontá-lo, recriá-lo, numa pequena narrativa. Surge assim a sensação de viver novamente um momento, uma cena da qual fui personagem, da qual pude de certa forma imortalizar, não deixando se perder no tempo, como certamente vão ficar os registros integrais de vídeo que a produção da Bienal fez. É sobretudo um registro bem pessoal, no qual tentei fazer literatura para falar de literatura.

Meus agradecimentos a meu irmão, Diego Akel e minha mãe Izabel Akel, que me acompanharam ao longo desta pequena grande jornada, e a todos que porventura lerem qualquer uma das postagens.