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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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domingo, 1 de janeiro de 2017

Livro: O escaravelho do diabo



Fotos: 
Capa do post e páginas do livro: Denis Akel 
Outras fotos: Google 

E foi-se 2016! Planejei esta postagem para ontem, mas surgiram reveses e só pude publicá-la hoje, o que pelo menos a torna já a primeira postagem deste novo ano. Bom, já faz algum tempo que não falo de livros por aqui, com opiniões e comentários de algumas de minhas leituras, sendo assim resolvi trazer um pouco sobre este livro e o que ele representa para mim. Boa leitura, e bom ano novo a todos!

RETORNANDO AO PASSADO

Há alguns meses, estava buscando uma nova leitura, para intercalar com outras, algo mais leve, mas ao mesmo tempo agradável. E o melhor momento para se encontrar tais leituras é bem quando estamos arrumando as estantes de livros. Passamos por tantos, de recentes a mais antigos, que quase sequer lembrávamos que tínhamos, e desta inocente arrumação, chegamos a ótimas descobertas, ou por que não dizer, redescobertas.

Foi assim que me senti, quando remexia um velho organizador com livros muito antigos, alguns paradidáticos e clássicos de outros tempos. Ali estavam vários que li na época escolar, bem como outros que nunca lera ainda, mas que tinham sido guardados na esperança de que um dia ganhassem algum brilho sobre suas capas e páginas já amareladas. Lá estavam ainda vários títulos da série Vaga-Lume, uma célebre coleção dos anos 70 (e mantida até hoje), responsável por alimentar toda uma geração de leitores, criando e saciando muito bem esse hábito, numa época em que não tínhamos tantas distrações, tantas telas como se tem hoje, onde o ato de ler tinha outro sentido, mais puro, mais arrebatador.

Quem conhece a série, sabe do que estou falando, de livros como Spharion, O rapto do garoto de ouro, O Mistério do Cinco Estrelas, entre dezenas de outros. Já até, inclusive, falei de um outro livro desta coleção em um outro post (veja aqui). Desta vez, arrumando e limpando os livros, me deparei com um dos maiores clássicos da Vaga-Lume, O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida. Peguei-o nas mãos e numa rápida folheada comecei a relembrar aquela história que tanto me fascinou. Decidi que seria um ótimo momento para revisitar este livro, também porque recentemente foi lançado um filme baseado nele, e gostaria de ter a vivência do livro antes de assistir ao filme, que, aliás, parecia meio duvidoso.

O LIVRO  



A experiência de retornar a uma leitura deste tipo, depois de muito tempo, e agora com uma maior maturidade literária, se revelou muito mais intensa do que jamais poderia imaginar. A partir da primeira página, das primeiras descrições e diálogos, me vi inundado pelo estilo tão característico que permeia boa parte das obras da coleção Vaga-Lume, uma atmosfera de mistério que prende, envolve, já de cara, como se a história conseguisse se reinventar, se transmutar em algo novo, diferente.




O que acredito que pouca gente sabe, como eu também não sabia, é que apesar da publicação do livro pela Vaga-Lume ter sido nos anos 70, a história foi originalmente publicada já nos anos 50, como folhetim da famigerada revista O Cruzeiro. Não consegui encontrar nenhuma foto deste material mas é muito interessante saber desde fato; a trama já carrega mais de meio século e ainda se mostra forte e contundente, característica comum aos clássicos.

A ESTÉTICA DA VAGA-LUME




A série Vaga-Lume se tornou bastante célebre também pelo peculiar cuidado que tinha com as capas e ilustrações de suas obras. As primeiras edições dos livros, por pertenceram às décadas de 70 e 80, traziam aquela cara tão característica destas épocas, com desenhos intensos e cores vibrantes. Além das capas, os livros são permeados também por ilustrações complementares à trama, que ajudam a lhes dar uma cara ainda mais característica e marcante. Até hoje, lembro bem das ilustrações de Spharion, que se equilibravam perfeitamente à história. Com o Escaravelho, não foi diferente. A obra foi ilustrada pelo artista e designer Mario Cafieiro, que traz um refinamento único, um estilo meio fotorealístico, bem próprio da época. Ao longo dos anos, a série mudou as capas de seus livros, talvez para se encaixarem nos "padrões" de cada época. Cheguei a ter primeira edição da obra, na minha opinião a melhor de todas, mas a minha atual (da capa do post) é a de 1998, e essa última é a mais recente, lançada na ocasião do filme baseado no livro:


Primeira edição, de 1974

Edição dos anos 80,90

Edição especial com referência ao filme, lançada em 2016

NA COMPANHIA DOS ESCARAVELHOS

O enredo, em linhas gerais, fala de uma série de misteriosos assassinatos, cometidos apenas contra pessoas ruivas, em uma cidade do interior de São Paulo. Em todos os casos, há algo em comum: um escaravelho é sempre enviado às vítimas. Qual motivo? Qual explicação? Este é o mote lançado logo nas primeiras páginas, o primeiro fio do novelo tecido por Lúcia Machado de Almeida. O título sugere ainda alguma interferência sobrenatural, aumentando ainda mais o mistério. Uma trama forte, intensa, que provavelmente levantaria polêmica se fosse publicada pela primeira vez nos dias de hoje, onde há tanto conservadorismo e censura no que se vê nos livros. Entre os anos 50 e 80, época em que foi escrito e consagrado, certamente exerceu uma forte disposição no imaginário dos muitos leitores que abraçaram o livro até o final.



Contudo, há um respeito, e por que não dizer inocência, na história, em relação a hoje em dia. Por ter sido escrita nos anos 50, tudo carrega uma certa dignidade, um ar mais respeitoso, que se faz presente em todas as suas cenas e diálogos, e chega a ser quase engraçado às vezes. O livro usa expressões e modismos praticamente impossíveis atualmente, é uma curiosa viagem a um tempo onde tudo parecia mais inocente, mais simples. A história segue um fluxo agradável, instigante, à medida que se compreende aos poucos os seus desenrolares e desfechos. Disfarçado em um livro aparentemente voltado apenas ao público infanto-juvenil, está um muito bem elaborado romance policial, com personagens que rapidamente se permitem envolver pela trama a ponto de engrandecê-la a cada página. O núcleo da pensão de Cora, onde se passa boa parte da ação, e se conecta a todos os demais núcleos, agrega humor e mistério, ingredientes que se combinam e conduzem muito bem a tensão constante que gira em torno da obra.

Quando li este livro nas primeiras vezes, ainda criança, lembro de que a história era tão estranha e surreal que não entendi muita coisa. Não entendia (ainda não entendo até hoje) essa bizarra capa de 74. Com o passar do tempo e novas releituras, comecei a enxergar o brilho por trás do escaravelho. Quando descobri o gosto pela escrita, comecei a perceber ainda mais nuances nas páginas desta história tão conhecida do público juvenil, como direi mais a seguir.



A trama tem os escaravelhos como peça importante de todo seu novelo, mas a participação dos insetos vai muito além disso. Conforme pude perceber durante esta leitura mais recente, a autora se empenhou intensamente nesta parte, recorrendo a toda uma variedade de espécies, nomes científicos e obras e tratados relativos a eles, tudo baseado em material existente e catalogado, um trabalho de pesquisa que deve ter dado esforço considerável, ainda mais se considerarmos que naquele tempo não havia nenhuma das facilidades que se tem hoje. Era preciso folhear livros e mais livros, conversar com especialistas... quase como fazem os personagens de seu próprio livro. A maneira como ela utilizou os insetos para associar aos crimes cometidos é muito criativa, e chega a lembrar histórias de Sherlock Holmes. A cada novo caso, aumenta-se a curiosidade, a incerteza, o que virá a seguir?

Uma das obras de referência usada pela autora e citada no livro 


Há ainda inúmeras outras referências de obras literárias, filosóficas, de óperas, músicas, tudo de maneira sutil e discreta, mas suficiente para fazer a diferença. Aliás, uma das coisas que tenho achado mais fascinante, quando retorno a livros já lidos, é perceber esses detalhes, nuances talvez não percebidas nas leituras anteriores, e assim desbravar novas percepções sobre a história, sobre a época em que foi escrito, sobre o autor... é quase como uma pequena investigação que se desenrola em paralelo à trama principal.



Curioso, durante esta leitura, foi quando me vi surpreendido por não lembrar mais como era o final do livro (o que foi ótimo), e me deliciei em pouco a pouco ir descobrindo as respostas do grande quebra-cabeças proposto pela autora. A maneira como ela finaliza a obra é inacreditável, quase chocante, um desfecho inesperado que arrebata pela ousadia.

A AUTORA



Lúcia Machado de Almeida é a mente por trás do Escaravelho do Diabo. Natural de Minas Gerais, nasceu em 1910, tendo passado parte da infância na fazenda Nova Granja, de seu pai, no município de Santa Luzia. A autora mais tarde diria da importância que isso teve em sua vida, em sua formação, em sua visão do mundo. Estudou literatura, história da arte, línguas, piano, entre outras áreas, o que lhe deu ampla gama de recursos para engrandecer suas histórias. Além disso, era irmã dos também escritores Aníbal Machado, Paulo Machado e Carolina Machado, tia dos escritores Maria Clara Machado e Ângelo Machado e cunhada do poeta Guilherme de Almeida, o que evidencia que a literatura sempre esteve muito presente em sua vida. Publicou pela primeira vez aos 14 anos, o poema Desencanto, no jornal Estado de Minas. O primeiro livro, No fundo do mar, viria alguns anos depois. Lúcia também atuou como jornalista, escrevendo para inúmeros jornais e revistas da época. Além do Escaravelho do Diabo, outras de suas obras conhecidas são: Spharion, Aventuras de Xisto e O caso da borboleta Atíria, também publicados na Vaga-Lume. A autora faleceu em 2005.

Enquanto pesquisava mais sobre o livro para escrever este post, encontrei o vídeo abaixo, uma bela e rara entrevista com Lúcia, na qual ela fala um pouco de sua vida, do ofício de escritora, sua relação com a escrita, tudo com um jeitinho tão próprio, tão terno, autêntico, que transmite uma paz atemporal. Um grande exemplo a todos que escrevem ou admiram a arte literária, a arte de contar histórias.




Que o Escaravelho continue incentivando e fascinando mais e mais gerações vindouras, bem como as demais obras da autora. É ótimo perceber como tivemos (e ainda temos) excelentes autores no Brasil. Chego ao final deste texto já empolgado para reler os outros livros de Lúcia e também ler pela primeira vez os que nunca li. Penso que descobrir é bom mas redescobrir é ainda melhor; redefinir imagens, certezas, é o que nos torna humanos. Incrível como nesse mundo louco de hoje, de tantas distrações, efemeridades e futilidades, o simples gesto de abrir um livro pode ser uma salvação, um voltar-se para dentro de si mesmo. Acredito que possa nos tornar pessoas melhores. E talvez nunca se precisou tanto fazer isso.






quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Livro: Doze horas de terror



A série Vaga-Lume foi (e talvez ainda seja) uma das grandes responsáveis por incitar o hábito da leitura em muita gente, em especial a faixa jovem, a partir da década de 1970. Uma porta inicial de acesso ao fascinante mundo da leitura, à descoberta desse caminho tão mágico, que acontece de maneira tão peculiar e própria para cada pessoa. As obras sempre apresentavam enredos instigantes, muito bem desenvolvidos por grandes nomes de nossa literatura. Um dos livros, inclusive, que considero grande incentivador por me motivar a gostar e querer escrever é da própria Vaga-Lume, Spharion, mas deixarei para falar dele em outra oportunidade. O livro em questão neste post é Doze Horas de Terror, de Marcos Rey.

Encontrei-o ao acaso, em um sebo, por dois reais. Já havia lido clássicos de Rey como O Rapto do Garoto de Ouro e O Mistério do Cinco Estrelas, então não pude deixar de agarrar mais essa oportunidade, apesar do estado lastimável em que o livro se encontrava. Assim, foi direto para o local da estante onde costumo guardar livros mais antigos, lá ficando indefinidamente.

Resolvi então, esses dias, fazer uma leitura mais livre, mais solta, e esse livrinho de Marcos Rey foi exatamente o primeiro que me veio em mente, à medida que me lembrei dos demais livros da Vaga-Lume e do que havia comprado recentemente. Sem delongas, resolvi lê-lo.

Imagino que para muita gente, a primeira impressão que se tem, ao olhar para um livro da série Vaga-Lume, é rotulá-lo apenas como um mero livro infanto-juvenil, um livro menor, ou sem muito valor, ou ainda, limitado. Acho tudo isso uma grande bobagem, a começar por esses rótulos, infanto juvenil é um termo que por si só já limita o alcance de qualquer obra, cega e impossibilita de se enxergar ali mais do que se imagina encontrar. Claro que não dá também para fugir deles, uma vez que nossa sociedade é quase que totalmente baseada em rótulos, mas acredito que livros vão bem mais além disso.

Disposto a me deixar levar pela boa história que certamente ali se achava, comecei a ler o livrinho. A trama gira em torno de Júlio, um rapaz que chega a São Paulo para trabalhar, vindo do interior, divide um apartamento com o irmão, Miguel, e tenta se acostumar ao ritmo acelerado e denso da cidade grande. Os dois quase não se encontram, uma vez que trabalham em horários diferentes. Os dias se passaram normalmente, até que certa vez, ao voltar para casa, Júlio se depara com o apartamento totalmente revirado. Logo em seguida, é surpreendido por um telefonema. Uma voz feminina, que ele nunca ouviu antes. Daí inicia-se o fio condutor da trama, com a entrada de Ruth, uma moça que põe Júlio a par dos negócios excusos em que seu irmão andou se envolvendo. Juntos, ele e Ruth descobrirão que não será fácil se livrar de uma perigosa quadrilha de traficantes. 

Até esse ponto, o enredo talvez não chame muito a atenção, mas é a maneira como a história se desenrola que achei o grande destaque do livro. Cada capítulo é nomeado por uma hora, de modo que acompanhamos ininterruptamente os passos dos protagonistas. Toda a trama, da primeira à última de suas 128 páginas, acontece em apenas um dia, mais precisamente nas dozes horas que lhe servem de título. Isso dá um fôlego incrível às sequências, pois a passagem de tempo tem papel crucial na narrativa, ora limitando, ora favorecendo sua evolução.



O texto de Marcos Rey é simples, rápido e preciso, com uma ótima descrição e narração, criando cenários e cenas maestralmente, cativando o leitor. O trecho da briga entre o "jacaré" e o "louva-a-deus" é genial. Há ainda sutis toques de humor e boas doses de suspense permeados em quase todas as páginas, fazendo a leitura se renovar constantemente, a cada novo detalhe, a cada 'hora' passada.



Talvez não tenha o mesmo brilho de outros livros do autor, como O Mistério do Cinco Estrelas, mas é com certeza uma história digna de seu nome, que traz ainda um certo ar nostálgico, por ser uma das últimas obras escritas por Marcos Rey, antes de seu falecimento em 1999. Nela, como em quase a totalidade de seus textos, temos ainda a força da cidade de São Paulo como personagem maior, como via condutora de todos os fatos, como palco ou set de filmagem, no qual o escritor exprime livremente sua visão, alimentada pela cidade onde passou a maior parte de sua vida.




Um outro elemento característico da série Vaga-Lume, que também está presente neste livro, é o estilo clássico de suas capas, bem como as ilustrações. As primeiras edições, como esta mostrada aqui, são verdadeiros retratos de sua época, e apenas o folhear de uma dessas edições históricas já é por si só uma bela volta ao passado, um passado onde parecia havia uma certa inocência, uma maior valorização da imagem, que casou perfeitamente na unidade do texto.



Por fim, retomando a questão do livro infanto-juvenil não ter muita voz ou alcance, reforço minha opinião mencionando o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que comentou na IX Bienal do Livro aqui de Fortaleza que suas primeiras referências literárias são obras de Andersen, como O Patinho Feio, obras não tão agraciadas e sinônimos de intelectualismo, como Joyce ou Proust. Ou seja, tudo pode ser referência, tudo pode inspirar, despertar, basta apenas a pessoa saber olhar. Esse 'preconceito' em desmerecer esse ou outro livro apenas pelo público ao qual ele é inicialmente dirigido é que é o problema. A escritora Marina Colasanti é outra que partilha esse ponto de vista, ao comentar certa vez que escreve do mesmo jeito, tanto para adultos como crianças.

As obras da coleção Vaga-Lume têm a missão de ser quase como "degraus" de uma escada, os primeiros passos para o conhecimento posterior de outros livros e autores, mas isso não quer dizer que elas não sejam ricas e profundas. Muito pelo contrário, pois se – na maioria dos casos – são as primeiras leituras de alguém, maior é a chance de se tornarem eternas, fortes, sempre nas lembranças de saudosas leituras, de bons momentos vividos. Doze Horas de Terror é certamente um livro capaz de reunir tudo isso e muito mais. 


Outras obras de Marcos Rey que também se destacaram na coleção Vaga-Lume.

Só lembrando que hoje em dia os livros de Marcos Rey estão fora da Vaga-Lume, então é procurar em sebos pelas edições clássicas, ou recorrer à editora Global, que o edita atualmente, em edições, digamos, bem mais sem sal (por parte das ilustrações de capa e miolo).

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Livro: Bartleby, o escriturário


Fotos: Diego e Denis Akel

Já estava praticamente decidido a finalmente ler O exército de um homem só, de Moacyr Scliar – um livro que há tempos está na minha mira – mas quando estava procurando por ele na estante, dei com este outro livrinho, que já tinha comprado há tempos, na esperança de lê-lo num futuro não muito distante. Como se trata de um livro fininho, e com um mote que tinha tudo que me atraía, resolvi ceder-lhe a vez na leitura.

O que mais me chamou para comprar esse livrinho não foi o fato de ele ser de autoria de Herman Melville, autor do clássico Moby Dick (pelo menos não a princípio). A pequena e breve sinopse contida nas costas dele, sim. Claro que geralmente as palavras contidas nesta parte são justamente com este fim, de fisgar o leitor, mas elas exerceram em um fascínio maior, instantâneo, quase como se tivessem sido escritas para mim, se é que me entendem, por tratar-se de um tema realmente inesperado e absurdo, bem ao estilo que gosto de compor minhas histórias, quando escrevo.

A ideia geral é bem simples, a princípio. Um sujeito que trabalha em um escritório, subitamente, passa a se recusar a trabalhar, contrariando seu chefe. É justamente essa simplicidade que coroa a complexidade da obra.

Narrado viva e realisticamente pelo próprio chefe, que detém um pequeno escritório na Wall Street, a história foca Bartleby, que havia sido contratado como auxiliar de escritório, para ajudar nas cópias e revisões de documentos, ou seja, trabalhar como escriturário. É interessante observar como o dono do escritório é bastante arguto e observador, gostando de traçar perfis de seus funcionários, com um certo ar de superioridade. Porém, se vê desarmado e quase incomodado diante de Bartleby.

Bartleby mostra-se, a princípio, extremamente produtivo, um exemplo de funcionário. Até que certo dia vem a bomba, quando, sem qualquer explicação, ousa responder às ordens de seu chefe com um surpreendente "Prefiro não fazer". É a partir daqui que temos uma reviravolta, em todos os aspectos. O dono do escritório se vê desorientado diante daquela situação. Como reagir àquela inesperada insubordinação? O mais curioso é que Bartleby nunca é mal-educado ou rude. Mesmo recusando-se a trabalhar, ele mantém a calma e frieza. E é bem isso que o torna insuportável.

Cada vez mais, esse comportamento incomum vai perturbando e quase fascinando o dono do escritório, que passa a observar Bartebly continuamente. Tudo nele parece estranho. Trata-se de uma pessoa, aparentemente, sem passado, sem família e, de certa forma, quase sem vida.

Seu patrão, claro, poderia demiti-lo de imediato, e por fim àquela estranha situação, correto? Mas será que ele pode mesmo fazê-lo? Temos aqui vários questionamentos e reflexões referentes à ética, culpa, fragilidade e inocência. Se demitisse Bartleby, não estaria sendo injusto? Quem sabe aquilo fosse apenas uma fase ou algo parecido? E se nunca mais o coitado tivesse uma oportunidade na vida? Pensamentos parecidos povoam a mente do dono do escritório, que vê sua vida tomada por esse repentino, silencioso e enigmático peso, que Bartleby passou a se tornar. Representado ainda como uma figura apática, magra e quase inexpressiva (o que faz nutrir justamente esse sentimento de pena e culpa, razão pela qual o narrador hesita em reagir).

O livro instiga, e flui surpreendentemente rápido, à medida que vamos acompanhando e tentando, junto com o narrador, entender Bartleby. É um personagem único, ousado, que quebra conceitos e destrói certezas, fazendo repensar valores, tudo isso sem dizer praticamente nada, afinal, ele prefere não dizer!

Além de todo este enredo intrincado e surpreendente, o livro tem ainda uma acentuada carga de humor negro, pois de tão absurda e fantástica, a situação chega a parecer uma brincadeira, uma situação cômica. Mas se desenha igualmente com ares de tragédia, numa interessante mistura de sensações.

Outro detalhe que também me chamou muito a atenção foi o fato de a história, ambientada no século XIX, nos fazer imaginar como é a rotina de um escritório de advocacia nesse período. Não há muitos elementos que façam essa descrição, então ficamos apenas com nossa imaginação, pensando como seria a rotina e disposição do lugar, provavelmente ainda à luz de velas. Acabamos involuntariamente tentados a encaixar o escritório nos tempos atuais, dada a proporção e atemporalidade da história, mas não podemos nos esquecer de que ela já tem mais de 150 anos. Contudo, segue constante, atemporal, como um clássico, que sobrevive às novas eras e gerações.

Enfim, uma leitura deliciosa, intrigante, reveladora, a cada página. Não deixem de ler! A L&PM Editores tem essa ótima edição, por R$8,00, se não me engano.
Bom, procurei dar um rápido panorama desta breve e fascinante história. Um último comentário: a história de Bartleby, é, no fundo, a história de todos nós. Essa percepção é incrível!

E querem saber? Prefiro não dizer mais nada!


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Teatro e dança: As Três Irmãs


OBS: Fotos de divulgação do espetáculo, retiradas do Google (exceto as duas referidas).


Já estava previsto fazer esse post há pelo menos uns três meses, época em que ele 'aconteceu', mas somente agora pude enfim terminá-lo. Não sei se o espetáculo ainda está sendo apresentado...

Desde que assisti à peça A Galinha Degolada, ganhei grande interesse por teatro, por várias razões, entre elas a tênue linha que há entre ele e a literatura, como mencionei na postagem sobre a peça, bem aqui.

Alguns dias passados dali, voltei ao SESC Iracema, aqui em Fortaleza, e deparei-me com um anúncio de outra peça: As Três Irmãs. A apresentação seria na semana seguinte. A princípio, imaginei ser uma adaptação da obra homônima, um clássico do escritor e dramaturgo russo Anton Tchékov, o qual muito admiro. Pensei, de cara, que seria algo parecido com o que vi na adaptação do conto de Horácio Quiroga, naquele outro dia. Fiquei bastante entusiasmado, até perceber, pelo cartaz, que não se trataria de uma encenação tradicional, mas de um espetáculo de dança, realizado pela Paralelo Cia de Dança. Contudo, ainda não muito familiarizado às estruturas teatrais, imaginei que haveria alguma narrativa, talvez contando uma parte da história ou algo parecido. Pelo sim, pelo não, resolvi procurar a peça para ler antes de assistir à apresentação.



Graças ao Google, não foi nada difícil achá-la, e naquele mesmo dia comecei a ler. Não era um texto rápido, como eu já desconfiava. A peça era composta por quatro atos, que juntos totalizavam 54 páginas. Ávido para ter logo uma visão geral da história, antes de assistir à adaptação teatral, dediquei um bom tempo dos dias seguintes a essas páginas.

Já no primeiro ato, percebi a força dessa obra. Personagens densos, ambientação precisa, grande carga filosófica e psicológica. Tudo se mesclava em diálogos intensos, formando uma atmosfera que prendia facilmente.
A trama desta que é uma das mais célebres peças de Tchékhov gira em torno de três irmãs, como diz o título. São elas Irina, Olga e Macha. As três vivem há anos em uma província russa, mas, desacreditadas da vida (exceto Irina, a mais nova), levam uma rotina monótona, e acreditam que voltar a Moscou, cidade onde passaram a infância, seja sua única esperança. Entre os demais personagens, estão ainda Andrei, irmão das três, vários militares e outros de apoio. Mas depois voltarei a falar da obra original.

Bem que me esforcei, mas não consegui ler tudo antes do dia da encenação. Li três atos, suficientes para já ter uma boa noção da trama. Imaginei ser mais do que o suficiente, uma vez que sequer tinha a certeza de que seria mesmo uma adaptação, o que, portanto, tornaria essa leitura não tão importante. Quando voltei ao SESC, no dia marcado, vi várias fotos de divulgação da peça, próximo à bilheteria. Por elas, pude ver, agora claramente, que se tratava mesmo de um espetáculo exclusivamente de dança. Três moças em poses de bailarinas. Não parecia haver mais nenhum personagem em cena e, pelas fotos, o cenário se resumia a um sofá.




Confesso que a princípio fiquei um pouco receoso, e até ligeiramente desanimado ao perceber que seria mesmo algo bem diferente do que eu tinha imaginado. Porém, pensei por alguns instantes. Seria uma oportunidade de ver algo novo, ainda desconhecido para mim. Um espetáculo que priorizaria o movimento e sua fluidez de uma maneira única. A Paralelo Cia de Dança ia apresentar um espetáculo inspirado na obra de Tchékhov, que não necessariamente buscava estabelecer um elo entre a literatura e a dança. Foi com estes pensamentos que comprei o ingresso e tomei um lugar à plateia.

No centro do palco havia um sofá, sobre o qual jazia um ursinho de pelúcia. Próximo do móvel, pendendo do teto, preso a algo que parecia um cabo, estava um buquê de rosas. Todos eles, sofá, ursinho e buquê, seriam peças importantes no desenrolar do espetáculo. Eis que surgem então as três atrizes. As três irmãs. Irina, Olga e Macha, e começam a executar suas coreografias.





Durante toda a apresentação, que durou cerca de 50 minutos, observei com grande fascínio todas aquelas evoluções. A coreografia tinha muita suavidade e leveza, sendo conduzida por uma música envolvente, com altos e baixos, em um ritmo e sintonia extaseantes. As três atrizes ora interagiam juntas, ora se afastavam, independentes, ficando quase isoladas uma da outra, usando toda a extensão do palco. Era como se cada uma estivesse em seu próprio mundo, vivendo as angústias e aflições de suas personagens. Na plateia, nesses momentos, tínhamos que alterar olhares entre as três, e mesmo assim, em certas horas, quase não conseguíamos acompanhá-las.

Uma coisa que também me chamou muito a atenção, assim como em A Galinha Degolada, foi a iluminação. O intenso jogo de luzes que se alternava de instante em instante, dando a cada movimento uma atmosfera única, uma emoção mais condizente, crível. Não foi à toa que vários fotógrafos circulavam em volta do palco, em busca dos melhores ângulos para suas fotos.





As arquibancadas que formavam a plateia estavam bem movimentadas, talvez não lotadas, mas pude perceber um público bastante interessado. Para mim, ainda pouco habituado a esse ambiente teatral, como já disse, tudo era novidade. Não pude deixar de notar como um espetáculo como aquele tinha seu toque peculiar e atrativo. Era surpreendente ver o que se podia obter com o fato de não haver qualquer diálogo, de toda a comunicação ser feita, expressada, somente através daqueles movimentos tão precisos, tão cuidadosamente coreografados e ensaiados. Inclusive, a atriz Joyce Barbosa, que interpreta Macha, é responsável também pela coreografia, figurino e direção artística. Ótimo trabalho!

Falando um pouco de simbolismos, de maneira bem livre e pessoal, o sofá, a meu ver, representava a estagnação, a prostração à qual as três se submeteram, a incapacidade de reverter a situação, que no texto da peça é retratado pela desesperança, que habita amargamente o coração delas. O ursinho talvez representasse um mínimo de alegria encontrado por elas naquela vida tão melancólica e sem sentido. O buquê, que começa pendendo do alto, de certa forma inatingível, seria o símbolo da esperança, tão almejada e perseguida pelas três. Em certos momentos, elas o jogam ao chão, como que incertas de suas decisões.



Quando as luzes se acenderam, toda a plateia prorrompeu em aplausos. Comecei a refletir algumas dessas sensações, enquanto olhava as três atrizes no palco, que agradeciam a ovação. Elas avisaram que fariam ainda um breve momento de conversa com o público, onde explicariam em termos como foi o processo de criação do espetáculo. Porém, boa parte dos presentes se levantou quase incontinente, deixando as dependências da sala. Os que permaneceram, puderam ouvir detalhes dos bastidores da produção, da concepção da ideia à montagem do espetáculo. Se não me engano, a produtora também subiu ao palco, onde foram feitos também comentários sobre a obra original, de Tchékhov, e os pontos e singularidades escolhidos para servir como base da coreografia por elas criadas.

A plateia, ou o que sobrou dela, fez ainda algumas perguntas, que exploraram mais alguns pontos interessantes deste belo espetáculo. Aproveitei esses instantes finais para registrar, na medida do possível, o momento, através da câmera de meu celular. Seguem as duas imagens abaixo:








Nos dias seguintes, após a apresentação, terminei a leitura da peça, com grande entusiasmo. Como falei no início desse texto, esta obra de Tchékhov é impregnada de questionamentos filosóficos. As três irmãs, atormentadas pelas desventuras de sua rotinas, perguntam-se a todo o instante qual seria o sentido da vida, se é que há um. Repensam atos, ações, sentimentos. Discutem esses assuntos com os demais personagens, que também demonstram um viés filosófico. Por que vivemos? Por que sofremos? Será que tudo isso é em vão? Sendo assim, tanto faz o que fizermos da vida? Tais pensamentos, levantados em extensos e complexos diálogos, nos faz repensar conceitos e até mesmo nossa própria vida, de uma maneira arrebatadoramente profunda. Cheguei a fazer breves pausas entre um diálogo e outro para refletir melhor aquilo, e até marquei as passagens mais marcantes (assunto para um outro post, talvez?) Para mim, As Três Irmãs é, sobretudo, uma história de esperança, de uma busca por dentro de sim mesmo, uma vez que mostra os personagens exatamente como eles são. Não há grandes desenlaces ou conflitos dramáticos, propositalmente. Tchékhov, como é comum em suas obras, prefere retardar essa ação em prol do desenvolvimento psicológico de seus personagens. Isso é significativamente notado na rotina das três irmãs, com suas desesperanças e ideologias tão convincentes e intensas.

A Paralelo Cia de Dança conseguiu transmitir muito bem essa sensação de melancolia, apresentando poucos elementos em cena, priorizando ação e gestos automáticos, quase motores, refletindo a angústia de cada personagem, a inquietação de suas mentes, incapazes de reagir, de se erguer. Seu único ideal de esperança é a volta a Moscou. Será mesmo que esse é o único caminho?

E pensar que eu quase desisti de assistir! Foi uma das experiências mais bacanas que passei ultimamente, pois me despertou para muitas coisas as quais ainda não conhecia, como a dança e essa incrível peça de Anton Tchékhov!

Parabéns às três atrizes e a toda a equipe que participou desse espetáculo!

Ah, mas agora não posso esconder o desejo de assistir também a uma encenação tradicional da peça, que é uma das mais representadas no mundo cênico!

Bom, vou parando por aqui! Para finalizar, vejam mais detalhes sobre a Paralelo Cia de Dança no site oficial do grupo. E, claro, leiam a obra As Três Irmãs aqui!


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Shakespeare animado (II): Hamlet



Amigos, há um tempo atrás postei aqui no blog um curta animado bem interessante, uma adaptação da célebre A Megera Domada, de Shakespeare (quem não viu, clique aqui). O curta faz parte da série Shakespeare: Animated Tales, produzida pela BBC em meados dos anos 90, que traz diversas peças do grande dramaturgo inglês adaptadas sob as mais variadas técnicas de animação, como stop-motion, 2D etc.

Desta vez, postarei uma adaptação de Hamlet, talvez a mais conceituada das tragédias shakesperianas. Legendas em inglês, em um texto que busca uma proximidade com o orginal, daí tamanha erudição presente.

Quem já conhece a imortal história do princípe Hamlet, que luta para vingar a morte de seu pai, assassinado por seu tio, que usurpou-lhe o trono, irá se maravilhar vendo-a recontada em tão primorosa animação. Os que não sabem nada de Hamlet podem até achar enfadonho a princípio, mas garanto que não se arrependerão em se deixarem levar por alguns minutos, mesmo que não entendam precisamente todos os diálogos:












A qualidade desta obra me impressionou bastante quando a vi pela primeira vez; creio ser um dos mais belos episódios da série. A sutileza e fluidez da animação, juntamente com a trilha sonora, criam uma atmosfera bastante tétrica, perfeita para uma trama tão profundamente carregada de intensos valores, como traição e vingança.

Através de Hamlet, estou me aprofundando mais no vastíssimo universo shakesperiano, tão rico em interpretações e leituras, tão infinitamente extensível. Como diria um outro grande autor, cujo nome não me recordo agora, é quase como a eterna utopia de querer se chegar ao horizonte, uma vez que ele sempre estará à nossa frente.

Uma história trágica, mergulhada em dúvidas e receios. Um ideal de vingança, uma honra a ser lavada, realismo fantástico, e muito mais do que qualquer coisa que posso escrever por enquanto. Enfim, existem infindáveis perspectivas de se analisar Hamlet, como tem sido ao longo dos séculos. É algo realmente impressionante o impacto dessa obra. Guardarei mais comentários sobre ela para postagens futuras!

Bom, acho que um bom primeiro passo é se deixar levar pelo clima que este curta nos proporciona, e assim buscar entender à nossa maneira o complexo e fascinante mundo de William Shakespeare.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Peça/Conto - A Galinha Degolada


OBS.: Imagens de divulgação da peça colhidas no Google

Há cerca de um mês, fui ao teatro. Pode soar engraçado, mas ainda não tinha tido a oportunidade de ir a um grande espetáculo, de certa forma devido a esse comodismo que tantas vezes nos priva, sem qualquer explicação, de fazermos coisas que tanto queremos. Mas, não é à toa que tudo tem sua hora certa de acontecer. Assim, tive uma grata surpresa ao ir ao Centro Cultural Dragão do Mar, aqui em Fortaleza, exatamente no dia em que seria encenada a peça A Galinha Degolada, baseada no conto homônimo de Horácio Quiroga.

Lembro de que tinha ido apenas para ver algumas exposições, mas assim que me deparei com anúncio da peça, no SESC Iracema, meus olhos faiscaram. Não tinha lido ainda este conto de Quiroga (só sabia que se tratava de algo dramático), mas já lera alguma coisa sobre o escritor, e parecia uma oportunidade perfeita de unir o útil ao agradrável. Comprei meu ingresso sem qualquer receio, e fui então ver as exposições antes do início da peça.

Ao voltar, deparei-me com uma enorme fila, com cerca de trinta pessoas, que foi outra surpresa. Não esperava todo esse movimento, e pensei que este talvez fosse um espetáculo em única apresentação. Após entrar, vi o palco e as arquibancandas, iluminados por uma fraca luz ambiente. Já quase não havia lugar livre, e tive que sentar bem na frente, diante do palco, onde já se vislumbrava um vulto de uma das atrizes, totalmente inerte, que se confundia com outros, que lembravam bonecos, aglomerados junto a ela. Pensava comigo mesmo, "seriam todos os atores já ali, enquanto o público se acomodava?"

Quando todos já estavam sentados (o que demorou bastante a acontecer, pois lotou o auditório), o espetáculo enfim começou. Era de fato uma das atrizes já no palco, e ela se ergueu assim que a iluminação local mudou de maneira natural, dando o ar de abertura à encenação. Junto a ela, quatro bonecos de aspecto sombrio e inquietante repousavam. Eu ainda não sabia, mas eles eram parte fundamental da peça.

E assim a encenação transcorreu. A história foi apresentada, outros atores entraram em cena, começaram a expor os conflitos, e eu pude aos poucos perceber toda essa atmosfera teatral, ainda inédita para mim e já tão fascinante, tão diferente de outras, como cinema e televisão.



Através dessa peça, um contundente e sufocante drama, percebi a intensidade da linguagem cênica. Diferente dos filmes, a ação está acontecendo ali, bem na nossa frente. Por mais que os atores tenham ensaiado exaustivamente, sempre parecerá a primeira vez, sempre terá que ter o mesmo peso. Outra coisa interessante é que não estamos limitados aos enquadramentos cinematográficos; podemos olhar para onde quisermos, buscar nosso melhor ângulo da peça a todo instante. Percebi isso mais claramente por estar sentado quase em cima do palco, e muitas vezes com os atores a poucos metros, no clímax de seus personagens.




A rotatividade deles, entrando e saindo de cena, os diálogos, as reviravoltas, os objetos em cena, a maquiagem e figurino, enfim, detalhes comuns a todos ligados ao teatro, mas bastante curiosos e interessantes para alguém que interaje com este mundo pela primeira vez. Inclusive, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o trabalho de iluminação. As luzes revezavam-se, para intensificar cenas dramáticas, e davam uma atmosfera bem realista. Alia-se a isso uma bela trilha sonora em momentos-chave e tínhamos no espetáculo um momento sublime, mágico.



Durante cerca de uma hora, todos esses elementos, somados ao talento dos atores e equipe de produção, levaram a história de um dos contos mais célebres do escritor uruguaio Horácio Quiroga a todos que assistiam. Triste, forte e de certa forma perturbador, o enredo de A Galinha Degolada tem uma força bem específica, e consegue marcar com grande facilidade. Lembro de que fiquei com a peça viva na cabeça dias após este. Tanto que uma das primeiras coisas que fiz após assistir a esse espetáculo, foi pegar o livro Contos de Amor, de Loucura e de Morte, de Horácio Quiroga, e ler A Galinha Degolada. E é ao conto, agora, que dedico as próximas linhas.

O primeiro parágrafo do conto já solta a bomba em nossa mão, vejam:  "O dia todo, sentados num banco no quintal, estavam os quatro filhos idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e viravam a cabeça com a boca toda aberta." Quatro filhos idiotas? Como seria isso? Por qual razão? (na peça, os filhos idiotas são representados por bonecos, seres desprovidos de vida, que vão de encontro à descrição de Quiroga).

Esse estilo narrativo, que já entrega a ideia geral do texto, sem qualquer rodeio, de maneira seca e direta, quase como um golpe em nossa mente, me lembrou bastante Franz Kafka, escritor tcheco, célebre por obras como A Metamorfose e O Castelo. Kafka costuma, em seus textos, ser direto e ágil, já expondo os fatos, sem se preocupar muito em explicá-los. Essa é uma linha muito interessante, sem dúvida, pois já nos coloca no meio do furacão.

Voltando a Quiroga, todas as quase onze páginas de A Galinha Degolada conseguem mexer com nossos sentimentos com grande propriedade, quase como um banho de inquietação. Os filhos idiotas são portadores de uma doença mental incurável, mas a maior doença que assola os quatro meninos é a falta de amor dos pais, retratada na maneira como tratam as crianças e a si mesmos. Quando o casal resolve ter um quinto filho, nasce uma menina, perfeitamente sadia, mas que desvela toda a conturbada relação de falta de amor e atenção que reina na família.

Ler esse texto após ter assistido ao drama foi uma experiência bacana. As cenas vinham à minha cabeça e completam as passagens do conto. Algumas, idênticas às encenadas, davam uma autenticidade ainda maior a toda essa mistura de sensações. Li ainda alguns outros contos de Horácio Quiroga, onde se percebe essa mesma carga, esse mesmo arrebatamento, que nos marca de alguma maneira, que pulsa e continua pulsando momentos após a leitura. Nas palavras do próprio Quiroga, no seu esclarecedor Decálogo do contista: "Não comece a escrever sem saber aonde ir. Em um bom conto, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância que as três últimas."

Fiquei com muita vontade, após ler o conto, de assistir novamente à peça, que acho que ainda está sendo apresentanda pelo Brasil. O espetáculo, na programação do projeto Palco Giratório, é produzido pela Persona Cia. de Teatro em parceria com a Teatro em Trâmite, com direção de Jefferson Bittencourt. Quem viu, sabe o quão marcante é, e aproveito novamente para parabenizar toda a equipe pelo ótimo trabalho realizada na adaptação da obra.



Todos estes acontecimentos recentes ainda desenvolveram em mim o gosto pelo teatro, esta arte tão antiga e tão representativa, tanto que estou buscando me aprofundar mais no assunto, visando quem sabe escrever ou até mesmo atuar!

Para finalizar, deixo vocês com um clipe do drama A Galinha Degolada:




Ah, claro! Não posso deixar de recomendar a leitura  do conto, bem aqui!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Filme: O Pequeno Príncipe



Há pouco tempo, postei alguns comentários sobre a obra máxima de Antoine de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe (veja aqui), um livro fantástico, que consegue mudar nossa maneira de ver o mundo facilmente. Ocupei-me vários meses fazendo uma extensa análise do livro, e em breve devo postar uns trechos aqui. Mas, o assunto em questão, dessa vez, não é exatamente o livro, e sim o filme, como diz o título da postagem. Já tinha conhecimento da versão cinematográfica, porém é claro que preferi ter a primeira experiência da história diretamente no livro, para não ter uma visão apenas focada no filme.




Como já falei na postagem referente ao livro, passei vários meses mergulhado em suas páginas, maravilhando-me. Tive quase arrependimento por não tê-lo lido quando criança (o que me põe quase no papel do piloto, se é que me entendem!), e sem dúvida o considero uma das principais leituras que fiz nos últimos anos. Enfim, concluídas as duas leituras e análise que fiz da obra, me voltei então para o filme.

Lançado em 1974, a versão cinematográfica da famosa história de Exupéry traz à vida o principezinho, e grande parte dos acontecimentos do livro, mas também se dá ao direito de inserir alguns novos personagens e situações. Postarei mais algumas imagens do filme ao longo do texto.

Richard Kiley como o piloto


Como só descobri durante o filme, trata-se de um musical, onde as canções (belíssimas por sinal) se desenrolam em momentos chaves da história. Assisti, e devo dizer que fiquei maravilhado, com todo o conjunto da obra. Ao final, eu estava certo de que é um filme único, que, como o livro, tem o poder de cativar os que se deixam levar pela sua inocência, juntamente com suas valorosas citações e reflexões.

Cito um pouco do elenco principal: Richard Kiley como o piloto, Donna McKechnie como a vaidosa e temperamental flor, o famoso dançarino Bob Fosse como a serpente, Gene Wilder como a célebre raposa e Steve Warner como o Pequeno Príncipe.

Steve Warner é a estrela do filme, no papel do princepezinho


Bob Fosse, aliás, é o responsável por uma das cenas mais memoráveis, com sua performance – a dança da serpente. Bob inclusive teria influenciado bastante Michael Jackson, e essa cena não nos deixa dúvidas! E a raposa de Gene Wilder? Simplesmente perfeita, reproduzindo um dos momentos mais marcantes do livro. Já Richard Kiley faz um ótimo retrato do piloto, que vê no Pequeno Príncipe bastante de si, e repensa valores já quase esquecidos. Coube ao pequeno Steve Warner viver o principezinho, e ele o fez magnificamente bem. Sua candura reflete com graça uma ótima imagem do personagem, e ele parece atuar com tanta naturalidade! O curioso é que este foi o primeiro e único grande trabalho de Warner como ator (depois fez apenas papéis sem muito destaque). Atualmente, afastado das telas, ele trabalha como técnico de efeitos especiais para filmes como Gladiador. É... é melhor lembrar dele como o carismático e cativante princepezinho.






Bob Fosse na célebre dança da serpente

Algo que achei estranho, a princípio, foi ver os personagens animais interpretados por atores reais. Mas só por um breve momento, pois quando as brilhantes atuações (e a sensacional trilha sonora!) nos contagiam, esse passa a ser apenas um mero detalhe, que se torna perfeitamente cabível à proposta do filme, além de ser também um detalhe bem característico.



Gene Wilder dá um toque especial à raposa


Um outro detalhe no mínimo curioso sobre o filme é que ele foi uma produção americana/britânica, e não francesa, como haveria de se esperar. Aliás, é ainda mais curioso imaginar que até hoje nenhum diretor frânces não tenha filmado a obra, não é? Claro que o trabalho de Stanley Donen (mais conhecido por dirigir Cantando na Chuva), foi bastante preciso, mas seria interessante ver a visão de um cineasta frânces, como Jean-Jacques Annaud (de O Nome da Rosa) ou até Michel Gondry.

A flor é interpretada por Donna McKechnie


Por outro lado, temo um pouco ao pensar como poderia ser uma nova versão do Pequeno Príncipe, nesses tempos onde o 3D impera (Basta ver como saiu a Alice de Tim Burton). Que um filme como o de 1974, com aquela atmosfera, aquela inocência e simplicidade (que são na verdade seus pontos mais fortes), jamais seria feito hoje em dia, todos sabemos, mas o resultado de uma produção atual da principal obra de Exupéry pode acabar distoando imensamente da visão que preservamos do texto. Além de que, provavelmente a raposa, serpente e flor seriam retratados como personagens digitais (como o Gato de Cheshire, novamente da Alice de Tim Burton) o que diminuiria sensivelmente sua graça e apelo ante o público, não concordam?

O Rei, um dos personagens do livro que também está presente no filme

Alguns dos novos personagens, inseridos em contexto similar ao do livro, como o General, reforçam ideias que também se completam às do texto, intensificando-o e expandindo-o, em uma adição bem interessante.

O Pequeno Príncipe encontra o General


Por todas estas razões o filme de Stanley Donen pode ser considerado um clássico, e como todo clássico, deve estar sempre em evidência, em discussão. Por isso achei por bem falar um pouco sobre ele aqui, e motivá-los a assistir. Antes de finalizar, segue o trailer do filme:





Bom, acho que já deu para se ter uma boa ideia do que esperar do filme, não é? Quem já assistiu, sabe do que estou falando, aos que ainda não: assistam! Mas lembrem-se de que para melhor compreendê-lo, é importante ter lido o livro. E novamente, não se esqueçam de desenhar o carneiro!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dica de leitura: O Homem que Sabia Javanês (conto)



Hora de voltar a falar de literatura, mas não de um livro em específico, como tem sido os últimos Dica de Leitura, dessa vez vou falar de um conto em particular, um conto que merece grande destaque. Trata-se de O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, um clássico de nossa literatura, bastante conhecido por alguns, e igualmente desconhecido por outros.

Desde os tempos do colégio, já tinha conhecimento desse texto, das aulas de literatura, mas nunca tivera a oportunidade de lê-lo. Tudo o que sabia a respeito é que a história falava sobre uma pessoa que dizia saber javanês sem nunca ter falado uma palavra do idioma, e esse simples fio me deixava bastante curioso para saber como a trama se desenrolaria.

Um tempo depois, em certa ocasião, creio que na bienal do livro, no ano de 2004, me deparei com esse livrinho, intitulado O Homem que Sabia Javanês e outros contos. Lembrei-me de imediato do fascínio que tinha por esse título, e por descobrir esta história, e pelo simplório preço de R$1,00 eu o adicionei às compras da época. Se eu o li? Não! Mesmo empolgado, na época acabei pegando direcionamentos de outros livros, de autores como Lawrence Block (criador do famoso personagem Matt Scudder) e Lúcia Machado de Almeida (consagrada por livros infanto-juvenis, como Spharion e os da série Xisto), além de ter começado a desenvolver mais o gosto pela escrita, e o livrinho acabou acomodado na estante, indefinidamente, ao lado de vários outros, quase desaparecendo de vista no meio dos mais volumosos.

E passaram mais vários anos sem que eu soubesse, afinal, quem era o tal homem que dizia saber javanês. Mas, como certas coisas só acontecem quando devem realmente acontecer (ou tudo acontece no seu devido tempo), mês passado, eis que vejo passando uma chamada na TV Escola (canal que sempre assisto, e recomendo, por ter ótimos programas sobre literatura e documentários diversos) de uma adaptação do conto O Homem que Sabia Javanês, com grandes atores, como Sérgio Mamberti (o tio Vitor do Castelo Rá-Tim-Bum) e Carlos Alberto Riccelli. À medida que a chamada passava, comecei a entender um pouca mais a história (que me parecia ainda mais interessante do que imaginava), e fui novamente fisgado pela vontade de conhecer a obra original, uma vontade adormecida há anos, que agora voltava com grande intensidade. Geralmente, em adaptações baseadas em livros, creio que o ideal seja ler antes de assistir, para não termos só uma visão formada pela imagem, e sim nós mesmos criamos nossa própria imagem, sem a "facilidade" da imagem pronta, se é que me entendem!

O filme (sim, tem quase 1 hora de duração) seria exibido no dia seguinte, à noite. Eu sabia que o conto não era muito extenso, mas me precavi e fui logo ao encalço do livro, que, felizmente,  não demorei muito a localizar. Meu objetivo era também gravar o filme (e de fato gravei), mas queria já ter conhecimento da obra antes de ter contato com a adaptação, e me pus a lê-la, o que foi tranquilo, uma vez que é um conto bem pequeno (umas quinze páginas do livrinho).

Fiquei maravilhado ao final da leitura! É um texto rápido, enxuto, irônico, que trata, em linhas gerais, de como o comportamento humano pode ser facilmente manipulado, em uma crítica singela ao comodismo, a como o pensar deve estar colado ao agir. Vou falar um pouquinho da história, algo que não costumo fazer, mas apenas para melhor poder comentar!

O conto gira em torno de Castelo e Castro, dois amigos que conversam, em uma mesa de confeitaria, a tomar uma cerveja, em meados do início do século XX. Lá o primeiro começa a contar suas inúmeras histórias, surpreendentes, entre elas aquela que o celebrou: professor de javânes! O fato é que o tal sujeito, um malandro por natureza, nunca chega a falar nenhuma palavra do idioma, e vende apenas a ideia de que o ensina, após ver um anúncio em um jornal. Mas, diferente do que eu pensava inicialmente, ele não foi assim tão ignorante, e tratou de aprender um básico sobre a língua javanesa. Através de uma pequena pesquisa, conheceu um pouco do idioma – mas nunca o suficiente para ousar se passar por professor. Quando se depara com o seu aluno, então, percebe a situação onde se meteu! Ele terá que ensinar um velho barão a ler um antigo livro em javanês. E aí começam os problemas? descobrem a farsa? Não! Aí é que começa o seu triunfo, de maneira surpreendente!

É realmente muito interessante observar as mudanças pelas quais o caráter e conduta de Castelo, protagonista da história, vão mudando com a evolução desta, à medida que se afeiçoa ao barão, com a projeção a que chega o seu "golpe" e também os comentários de Castro, seu amigo, que acha tudo aquilo quase inacreditável, entre um gole e outro de cerveja. A trama prende fácil, e em certos momentos nos vemos até interessados em também aprender um pouco mais sobre a ilha de java e as línguas malaio-polinésias. Ao final, temos uma sucinta reflexão: podemos ser tudo o que queremos, se realmente acreditarmos, e a figura do malandro passa então a respirar ares quase heroicos.

Com estes ideais, assisti à adaptação do conto, e também me surpreendi. Toda a atmosfera do texto estava lá, em uma ótima ambientação, com grandes atuações do elenco, que trazem à vida a história do "professor" de javanês com excelente fidelidade. O fato de já conhecer o desenrolar da trama ajudou bastante, e me permitiu ter uma visão diferente da encontrada nas páginas do texto, em parte por alguns pequenos pormenores diferentes da obra original, que deram um ar mais dramático, mas não menos cativante à história.

É engraçado como certas coisas acontecem, não é? Não fosse eu ter visto a chamadinha do programa, numa hora em que eu poderia estar fazendo qualquer coisa – ao invés de estar diante da TV – não teria tomado conhecimento da existência dessa adaptação e, muito provavelmente, o livrinho de contos ainda estaria desaparecido entre os outros. É, tudo acontece realmente quando deve acontecer. Ter lido este conto agora foi fundamental para mim, uma vez que vejo nele uma linha de texto bem semelhante a que gosto de fazer; quase um realismo fantástico, mas que dentro de seu meio, se torna totalmente aceitável.

Além de tudo isto, o texto me motivou também a conhecer os demais contos da antologia, e, obviamente, um pouco mais sobre Lima Barreto, que é autor do também clássico Triste Fim de Policarpo Quaresma. E por que não até um pouco de javanês? (risos!).  Enfim, uma excelente leitura que recomendo veementemente a todos os bons leitores!

O livrinho pode ser achado em qualquer boa livraria a preços módicos. O texto, que já é domínio público, pode ser lido facilmente neste link. Mas seja no livro físico, ou na internet, o importante é ler!

Abaixo, algumas imagens da adaptação do conto O Homem que sabia Javanês, de 2004, exibido recentemente na TV Escola, mas que também, pelo que pesquisei, já passou no Canal Brasil:












Infelizmente não encontrei sequer um trailer desta versão (apenas de outra de 1994, que ainda desconheço, mas pelo que vi foge um pouco mais da linha original), mas, por estas imagens, já dá pra ter uma pequena ideia da produção, não é?

É isso, já falei demais. Agora é com vocês, prezados, leiam o conto!