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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Livro: A Cabana


Fotos: Denis Akel

A Cabana é um daqueles livros que mesmo sem termos lido, certamente já ouvimos falar, seja através de algo, alguém, ou ainda pela superexposição que a mídia faz em cima de obras como essa, os best-sellers. Dificilmente essa seria uma de minhas prioridades de leitura, mas surgiu a oportunidade de lê-lo, quando uma tia me emprestou, e como estava curioso para ver o que havia na tal cabana, abracei a chance. Devo ter passado bem mais tempo do que imaginava envolvido neste livro, pois, diferente de outros, resolvi fazer aqui um estudo mais abrangente (também para tentar entender o fenômeno que ele se tornou), analisando capítulos individualmente, repensando e refletindo os rumos da história, e foi uma experiência no mínimo curiosa, que procurarei relatar ao longo desta breve postagem.

A trama geral do livro fala de um provável encontro com Deus, no qual o protagonista, Mack, se vê diante de uma trindade divina bastante, vamos dizer, incomum. O enredo começa quando Mack passa por uma grande perda em sua família e se vê desde então imerso numa grande tristeza, desiludido do mundo e de Deus, por não entender como Ele pôde permitir tal perda. Então, certo dia, depara-se com um bilhete, aparentemente escrito por Deus, que lhe propõe um encontro na cabana que dá título à obra, justo onde se deu sua grande perda, onde a filha de Mack foi assassinada. Esse jogo de emoções marca os momentos iniciais do livro. Revisitar a cabana, palco de angústias e tristezas parece algo improvável de Mack fazer, porém a estranheza daquela mensagem provoca a curiosidade dele. Será possível que Deus realmente estará à sua espera? Essa ideia fantástica logo povoa não apenas a mente de Mack, como do leitor, que se vê igualmente tentado. E aqui se inicia toda a saga de Mackenzie Allen Philipps, uma jornada que, segundo os inúmeros comentários ilustres que precedem o primeiro capítulo, pode mudar a vida daqueles que se permitirem tocar por ela.



Comecei a ler o livro sem muita pretensão, me deixando levar por sua história, amplamente surreal, emotiva e visivelmente convidativa. Apesar de ser um livro de tamanho médio (pouco mais de duzentas páginas), há pouquíssimos personagens, podendo-se reduzi-los a apenas Mack e o trio divino. Esse detalhe deixa a história com um ar mais pessoal, mais tangível, de maneira que podemos acompanhar toda a evolução do personagem, suas transformações, e, invariavelmente, nós colocarmos em seu lugar. Em contra-partida, às vezes a narrativa se perde um pouco do foco, o que resulta em trechos repetitivos, confusos e cansativos. 

A divina Trindade; Deus, Jesus e o Espírito Santo, aparecem com representações humanas bastante extravagantes, demonstrando que não há muita preocupação do autor em seguir preceitos tradicionais e teológicos, apesar de ser uma história de alto teor religioso. Os capítulos são breves, contendo praticamente apenas diálogos entre Mack e as divindades. Ele busca entender as razões pelas quais Deus faz o que faz, e questões sobre sofrimento, liberdade, fé e autoridade são diretamente focados. A cada capítulo Mack meio que recebe um novo ensinamento, como se a venda que lhe cobre a visão fosse retirada pouco a pouco.



O curioso quanto a esse livro é que, pelo que li e vi de entrevistas com William P. Young, ele foi inicialmente escrito para seus filhos, sem qualquer pretensão maior. Foi graças a dois amigos do autor que a obra foi projetada para uma tiragem maior, e foi aos poucos atingindo cada vez mais e mais pessoas, recebendo mais e mais traduções, até chegar ao status que tem hoje. Mas será que o livro é mesmo isso tudo o que dizem? Sem dúvida essa questão é bastante pessoal. Procurei lê-lo sem considerar essa ou aquela colocação, visando não ficar direcionado a pensar isso ou aquilo, mas alguns fatores que foram surgindo ao longo dos capítulos são bastante notáveis.

Primeiramente, o livro, apesar do teor religioso, desconsidera completamente a bíblia. Inclusive, pelo que pesquisei, é alvo de inúmeras polêmicas que alegam que ele deturpa boa parte do que é dito nas Escrituras. Ainda, sugere que a bíblia contém inverdades, mas que seria mesmo assim usada por Deus devido à complexidade que se tornou a vida humana depois de se afastar Dele. Assim, a trama também sugere que há verdades além da Bíblia que só o homem que se relaciona com Deus pode alcançar. Um exemplo disso está no capítulo 6 (Aula de voo), quando Deus ironiza: "Aqui não é escola dominical. É uma aula de voo".

O principal entrechoque de opiniões referentes a A Cabana, a meu ver, é justamente quando se quer pensar nela como "uma nova bíblia". O livro tem sim um alto valor emocional, uma ótima história, reconfortante até, mas em nenhum momento deve ser confundido com nada além disso. Um de meus pensamentos, durante a leitura foi "com que liberdade o autor pode se colocar no papel de Deus e dizer o que é certo ou errado? E como as pessoas que lêem acreditam assim tão cegamente?" Tudo o que ele faz é criar um estereótipo para Deus, mas o faz de maneira realista, convincente. Young vende seus princípios sobre Deus como se fosse a mais absoluta verdade, mas acaba, involuntariamente, contrariando a Palavra revelada por Ele.



Por não ter qualquer intenção de concordar com as Escrituras, o livro busca inserir novos conceitos, apresentar uma nova verdade, uma verdade que se por um lado pode ser bastante herética, por outro permite uma visão bastante peculiar e ousada, que deve ser interpretada não como verdade absoluta, mas como um ponto de vista, o ponto de vista do autor. Segundo ele, aliás, a simbologia da cabana atua como uma metáfora para um local de aprisionamento ou de dor, como se cada pessoa tivesse uma cabana em sua vida, ou seja um lugar que de alguma maneira as machucou profundamente e que jamais pensam em voltar. Imagino também que o protagonista da história, Mack, tenha muito de William P. Young, de maneira que a trama constitui um relato bastante particular, a história de sua vida, pode-se dizer, pois havia sido escrita a seus filhos.




Deixando de lado o fator teológico e focando um pouco no aspecto literário, A Cabana é excelente, no âmbito de ser uma história feita sob medida para emocionar e comover. Há um aspecto de realidade mesclado com fantasia, como uma fábula, que valoriza bastante a trama, tornando-a agradável e atrativa. A narração, viva e pungente, descreve com clareza a intensa viagem pela qual o protagonista passa, com cenas em geral bem construídas e articuladas. À primeira vista, o livro tem fortes ares de romance policial, à medida que somos apresentados aos personagens, à trama e ao lugar. Em certo capítulo, porém, dá-se uma virada brusca nesse ponteiro, e chegamos assim ao córrego que nos conduzirá até o final; conversas de Mack com a trindade. Pode até ser impressão, mas percebi que a partir daqui um ou outro capítulo não consegue manter a força do anterior, de modo que ficamos sempre à espera de que aconteça algo realmente relevante na história.

Uma das coisas que mais me desagradou no livro, e que também foi uma certa surpresa, surgiu logo quando o terminei. Nas últimas páginas há um "pedido" nada modesto, para que simplesmente o leitor busque passar aquela história adiante, oralmente ou mesmo dando o livro de presente a amigos, familiares e até desconhecidos. A pretensão com que o "livro" (na verdade um grupo de leitores muito tocados pela obra) fala de si mesmo chega a ser ridícula, de modo que ele nitidamente perde o foco ao  se supervalorizar. É preciso mesmo que o público seja lembrado?  Se a obra afinal é tão contundente e transformadora, nada mais natural do que ela contagiar naturalmente mais e mais pessoas, sem a necessidade de que sejam sugeridas maneiras de como fazer isso. É como dizem, quem fala demais de si é porque no fundo não tem nada a dizer. A partir do momento que é pedido para que sua história seja passada adiante fica implícito um receio de que ela, por si só, não consiga esse feito. E ainda, de certa forma, é quase como se ao fazer isso o livro, e também o grupo de leitores, contrariasse os ensinamentos do Deus inventado pelo próprio autor, que afirma em certo trecho que "Eu não crio instituições. Nunca criei, nunca criarei".



A Cabana, contudo, se sobressai mesmo com seu forte apelo emocional, que permeia a todo instante o caráter do protagonista e, através de descrições precisas e às vezes até exageradas, são transmitidas ao leitor em toda sua essência. Há sim, como já se deve imaginar que um livro assim traga, um rebuscado de frase bonitas e de efeito, mas há também muito mais além disso. Não vou, porém, recomendar diretamente o livro, contrariando o que este me pede para fazer. Prefiro apenas dizer, ignorando todo o estardalhaço que há em volta dele, que é uma boa história, que merece sim ser conhecida e apreciada. É certo que por ser uma obra de ficção, não se pode atribuir ao Deus inventado a condição de Deus verdadeiro, embora não seja bem essa a sensação que é vista no decorrer da história, na qual seus conceitos alfinetam e podem acabar perpassando os conceitos ditos sagrados. Deve ser lido e encarado, sobretudo, com a mente aberta, sem grandes expectativas, apenas se deixando levar, aproveitando o momento, a viagem que o autor propõe, reconhecendo que a trindade criada por ele funcionou muito bem em sua história, e que talvez cada um de nós possa fazer o mesmo, já que todos temos uma cabana em nossa vida, não é mesmo?



domingo, 2 de setembro de 2012

Livro: Sem medo de viver



Algum tempo atrás, escrevi aqui um pouco sobre um livro de Augusto Cury (De gênio e louco todo mundo tem um pouco), que tinha ganhado de presente. Não sabia muita coisa sobre o autor, mas a ideia geral já me soou interessante, a ponto ter conseguido "furar a fila" de outras leituras que eu tinha em vista. A vida é sempre feita de escolhas, e mesmo a entre dois livros pode representar bem mais do que imaginamos.

Pois, de certa forma, este fato se repetiu, mas dessa vez com Max Lucado. Já conhecia, bem do alto, alguma coisa de sua obra, mas não me imaginava lendo algum de seus livros (ao menos por hora), até que o livro que ilustra esse post chegou às minhas mãos. De início, foi apenas para checar, ver do que se tratava, curiosidade literária, uma olhadela rápida por entre as páginas. A maneira como a questão do medo era posta em xeque por Lucado, porém, me fisgou e, antes que percebesse, já tinha lido as trinta primeiras páginas.



Não sei como são os demais livros do autor, mas pude ver uma boa aproximação dele com sua obra, a partir do ponto que insere fatos de sua própria vivência, deixando o todo com uma cara mais transparente, mais realista, mais próxima do leitor. O irmão de Lucado, sua esposa, filhas, amigos, todos figuram constantemente, demonstrando um lado humano, que muitas vezes passa meio longe da visão que temos de um autor, principalmente de um tão amplamente divulgado e alardeado pela mídia.



Ao longo deste livro, também, fica evidente a forte religiosidade de Lucado (até então, não sabia que ele era pastor), uma vez que há inúmeras citações bíblicas, geralmente usadas para exemplificar condutas, passar ensinamentos, transmitir virtudes, que atravessam os tempos bíblicos e chegam aos dias de hoje com a mesma intensidade. São as parábolas de Jesus.

Essa interessante aproximação com o livro sagrado desperta um olhar curioso, mais ainda a quem ainda não se aventurou muito nessas águas. Lucado cita parábolas que trazem à tona alguns dos medos mais comuns a afligir a humanidade, medos estes dissolvidos pelas palavras divinas. Em um dos capítulos, discute ainda o medo de que Deus não exista, sempre apoiado pelos alicerces da bíblia. O livro pode até ser encarado, algumas vezes, como um certo "processo de evangelização", mas prefiro observá-lo de uma maneira mais aberta, com o amplo e contundente valor literário e, acima de tudo, humano, que há nas entrelinhas de suas páginas.



Como falei antes, o autor menciona diversas situações de sua própria vida, expõe seus medos, demonstra sua incapacidades, ao mesmo tempo que cita também seus porto-seguros, seus guias, como superou estes momentos. O tempo inteiro busca abrir os olhos do leitor, para aquilo que muitas vezes é um medo errôneo, sem motivo ou razão, como, aliás, são a maioria deles. O medo, até certo ponto, é saudável, inerente ao ser humano. O problema é quando ele começa a controlar a nossa vida, quando coloca suas rédeas sobre nós.





Entre a abordagem dos capítulos, estão medos comuns e amplamente discutidos, como a própria origem do medo, o medo da falta, medo de não ser importante, medo de grandes desafios, medo da violência, medo do futuro, medo da morte, entre outros. Essa divisão facilita a leitura, pois possibilita os capítulos de serem lidos em qualquer ordem, uma vez que cada um é bem específico, quase como se fossem mini-livros reunidos.





Todo livro sempre é uma valorosa surpresa, mas muitas vezes os que lemos porque procuramos ou fomos indicados não são bem aquilo que esperávamos. Já aqueles que chegam de repente, sem ter sido previstos ou planejados, acabam por nos surpreender, por nos atingir de uma maneira especial, por comunicar algo que sabemos que somente ele poderia tê-lo feito. Foi uma sensação mais ou menos assim que tive ao ler esse livro de Max Lucado. Não pude, inclusive, deixar de marcá-lo de cima a baixo, praticamente, ressaltando trechos e passagens memoráveis. Fazer marcações em livros, inclusive, são excelentes! São quase como novos livros escritos por nós. Vou falar sobre isso depois, em outro post.



Não sou nenhum especialista na bíblia, o que provavelmente me impossibilitou de ver algumas coisas neste livro, é verdade, mas já me considero mais próximo, mais enriquecido de seu conteúdo, uma vez que o livro me abriu a novas portas de compreensão e percepção. Portanto, ele pode se estabelecer ainda como uma interessante ponte ao livro sagrado. Ao final, há ainda um guia de discussão, onde são usadas mais várias referências bíblicas, direcionadas aos medos abordados ao longo do livro.

Além de suas vivências, e do amplo rol bíblico empregado pelo autor, vemos também inúmeras referências de personalidades e figuras célebres, tais como o cantor e ator Dean Martin, o jogador de futebol americano Noble Doss, o grande golfista Byron Nelson, além do cineasta Woody Allen, e dos escritores Yann Martel, Tolkien, e C.S. Lewis, que ilustram casos curiosos de como o medo ou dúvida pode se manifestar na vida. Há ainda comentários sobre a fantástica e incrível história evolvendo o médico judeu Boris Kornfeld e o então soldado russo Alexander Solzhenitsyn.




Um dos fatores, porém, que me desagradam no livro, é algo que acaba sendo sempre inerente a uma obra tão difundida, ou a um nome como o de Max Lucado. É tão simplesmente o "Mais de 65 milhões de livros vendidos", que acaba atuando quase como um outro sobrenome do autor na capa do livro. Será que é mesmo necessária essa conduta? É o que me questiono sempre que vejo esses ditos "best-sellers". Essa jogada de marketing é tão comum que já nos acostumamos a ela. E mais, é ela que deve ser a responsável por boa parte das ditas vendas. Pode-se pensar: "Nossa, tantos vendidos, deve ser um bom livro!". Não querendo desmerecer esse ou aquele livro, por trazerem esta espécie de rótulo, principalmente porque tanto o autor como a editora querem vender seu trabalho, seu produto, e lutarão para tal,  mas e os livros que não venderam milhões de exemplares? Deixam de ser bons por isso? E mesmo esses milhões vendidos, será que cada uma dessas pessoas realmente usufruiu a obra, ou apenas serviu para aumentar as estatísticas? E essa questão vai bem além da literatura, chegando também ao cinema, música, etc. Meu propósito não é repudiar ou atacar o mercado de marketing, mas apenas sugerir que não nos deixemos levar apenas por dados e estatísticas para comprar ou usar algo. Muitas vezes, o que é menos vendido, ou menos conhecido, pode ter bem mais a dizer. Acredito que o melhor a fazer é confiar em nosso próprio instinto, ao invés de se deixar guiar por números ou listas.

Livros não mudam pessoas, mas mostram caminhos. Escolhemos ou não segui-los. Talvez ler este não signifique superar de uma vez todos nossos medos, mas nos dará uma consciência, um panorama do que o medo poder representar e roubar de nossa vida. Reagir e lutar contra ele é uma escolha nossa. Viver sem medo é viver plenamente, evitar preocupações desnecessárias. Viver não o passado ou o futuro, mas o presente. Nos atirar sem receios nessa maravilha que é viver, usufruir de tudo o que quisermos e pudermos, enquanto neste mundo. É um ideal que muitas vezes nós mesmos afastamos, por motivos e razões que dariam praticamente outro post como esse, mas é como diz Max Lucado: troquemos o medo do próximo inverno pela fé, afinal de contas, é tudo como dinheiro de Banco Imobiliário. Tudo volta para a caixa quando o jogo acaba (Trecho final do capítulo 9).