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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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domingo, 8 de abril de 2018

Bienal do Livro do Ceará 2017 - dia 7: Ricardo Aleixo, Talles Azigon, Jorge Pieiro (20/04/2017)



Fotos capa: montagem de imagens via Google
Outras fotos e vídeo: Denis Akel
E agora diante do sétimo dia das saudosas vivências da Bienal do Livro do Ceará 2017. Voltemos a 20 de abril de 2017. Este foi um dia difícil, por conta de toda a problemática envolvendo os muitos casos de ônibus incendiados na cidade. Acabei por assistir apenas a uma palestra, salteando em uma ou outra programação paralela, saindo cedo, quase escoltado. A cidade vivia momentos de tensão. Antes de aprofundar o teor da mesa em questão, republico o texto original, escrito naquele dia:

"Ontem, meu sétimo dia de Bienal do Livro. O destaque não esteve exatamente nas mesas ou programação, mas em um centro de eventos bem mais vazio do que tenho visto ultimamente. Isso se deve, bem possível, à caótica situação que se instalou na cidade nos últimos dias, ônibus queimados, tensão, medo. Tudo agora é risco. Mesmo ler, ir à Bienal, é perigoso. Ainda assim, a literatura é teimosa, resiste.

Assisti a uma das mesas da tarde, intitulada "os deslimites da poesia em um mundo prosaico", um debate muito necessário quanto à questão do valor da poesia no mundo de hoje. Uma palestra que transbordou sensações, com menções a Manuel de Barros, Drummond e incontáveis outros poetas.

Dava gosto estar ali, ouvir aquelas colocações tão precisas, desvelando um mundo poético dentro do mundo mundano. O trio no palco, Talles Azigon, Jorge Pieiro e Ricardo Aleixo passaram quase duas horas enaltecendo o prazer do dizer poético, do quanto se tem medo de se "viver poeticamente". A educação não é poética, ela despoetiza nosso olhar, disse Talles. Já Aleixo completou: "A poesia sempre habita o pouco, ela não precisa de mais do que o pouco. O mundo não é hostil a ela, só é indiferente". Leram poemas, contaram histórias, expuseram polêmicas. Fluiu bem demais, cada pequena fala dava margem a nova posição do outro, num jogo lúdico de ideias que brincava com a mãe poesia.

Excelente mediação de Jorge Pieiro, que impôs um ritmo agradável e crescente, pulso de quem conduz barcos assim há tempos, alimentando o interesse dos poucos que ali assistiam. É verdade, havia bem poucas pessoas nessa bela mesa. Não sei se a culpa é do caos da cidade, dos ônibus queimados ou somente com a indiferença à poesia...

De lá, não me demorei muito no evento. Dei uma rápida passada pelo café literário, onde acontecia conversa do querido Ricardo Kelmer com Lira Neto. O espaço reduzido e informal não coportava muitos. Ouvi uma ou outra palavra, risada, e saí. Iria embora mais cedo. Antes de sair, passo por acaso num estande e encontro um livro de poemas da Adélia Prado, da qual tenho visto muita coisas esses dias mas ainda nada tinha. Parecia um sinal mais do que claro da boa vibração vinda da palestra do prosaico. Agarrei-a de imediato. E vamos lá que já já tem mais Bienal!"

Escrito e publicado originalmente no Facebook em 20/04/2017

Neste dia, uma quinta-feira, véspera do feriado de Tiradentes, inúmeras programações me atraíam à Bienal, já estava decidido a seguir a peregrinação diária ao Centro de Eventos, filtrar ao máximo o que pudesse. Como fazia, marcava tudo no folheto, tentando criar uma agenda, ou guia, mesmo sabendo que dificilmente conseguiria ir a todas. Haveria mais Lira Neto, Ricardo Kelmer e algumas novidades, como Conceição Evaristo, que ansiava conhecer mais.

Pelo já crescente desgaste acumulado dos dias anteriores, acabei me permitindo chegar apenas no meio da tarde, pouco depois das 15h. O carro dessa vez me deixou no estacionamento interno do prédio. Gigantesco, difícil era achar o acesso correto à ala correspondente aos mezaninos usados pelo evento. Não havia sinalização, mal havia alguém a dar informação. Silêncio quebrado apenas nas luzes que davam um tom surreal àquele lugar, como um cenário futurista d'algum filme de ficção científica. Bem poderia ser uma pista de corrida, uma prisão, qualquer coisa assim, levei esses devaneios enquanto subia a escada rolante, finalmente localizada. Não olhei muita coisa da feira ou dos pavilhões, não agora. Algo que as bienais anteriores e talvez certo amadurecimento tenham ensinado: não queria acumular livros, o foco dessa vez era outro.



Segui direto ao mezanino 2, sala 1, a mesma sala de boa parte das palestras dos dias anteriores. O local tão velho conhecido que rever aquelas cadeiras esverdeadas era quase como voltar para casa. Começaria dentro de instantes a palestra que traria Talles Azigon e Ricardo Aleixo para falarem do tema deslimites da poesia no mundo prosaico, com mediação do professor e escritor Jorge Pieiro. Ainda praticamente desconhecia o trio, o que configurava momento mais do que propício para esse reconhecimento, além do tema já ser instigante por si só.

Estando com relativa antecedência no auditório, pude escolher lugar com toda a tranquilidade, ficando entre finalizar algumas anotações no caderno e fazer novos cartões de divulgação de meus blogs, à época feitos parcialmente à mão. Por ali já algumas pessoas, embora o público aqui permanecesse pouco até o final. E logo chegaram os convidados, tomaram seus lugares ao palco, seguiram proclames e foi aberta a discussão.

MESA (16h): DESLIMITES DA POESIA NO MUNDO PROSAICO – Ricardo Aleixo, Talles Azigon – Mediação: Jorge Pieiro


Jorge Pieiro é o mediador. Abre a mesa dizendo que escreve todo dia, logo quando acorda, um pensamento para aquele dia.

"O que é prosaico? O que é poesia?", Jorge busca explicar definições, levantando caminhos para percorrer nos próximos minutos.

"Poesia nao é para entender, mas para incorporar. Parede é para entender, é preciso ser uma árvore" – Jorge cita Manoel de Barros.

"Tenho mania de deixar tudo pela metade" – Talles Azigon, antes de começar a ler texto seu, sobre um eventual crime mais organizado.

"O poeta é um escondedor, esconde muitas coisas dentro das palavras. É difícil ser poético nesse cotidiano onde a vida cotidiana não é nada poética mas o poeta segue na sua arte, na tentativa libertadora. Se se consegue ou não, não cabe ao poeta mas a quem o lê." – Talles

Desta vez não vi Lira Neto, um dos coordenadores da bienal, no público (ele era uma presença onipresente) mas vi a professora Cleudene Aragão.

A sala contou com pouco público, mas mais uma vez reforço o lado positivo, sendo possível penetrar mais na conversa, concentrar-se mais sem tantas distrações quando se tem muita gente.

Ricardo Aleixo tinha um timbre de voz muito peculiar, com boas pausas. Parecia escolher bem as palavras antes de dizê-las:

"Poesia não é afastamento do mundo, não se pode pensar em poesia como meta para o mundo, mas em um caminho" – Ricardo Aleixo

"Disposição para algo que não se sabe bem o que é. O poético é sempre algo que escapa de uma definição rígida. Por isso, desde sempre a poesia é vista com desconfiança, quando comparada à filosofia" – Aleixo.

"Pessoas que não costumam ler poesia, ao lerem, não falam de ganho, mas de perda, de algo que lhes é tirado. É como a paixão, de tirar o chão, roubar raízes." – Aleixo




"Um poema só será bom se conseguir estranhar as palavras do dia a dia" – Aleixo

"Só se pode aproximar da poesia, tornando-se poeta, conhecendo algo que já está em você" – Aleixo

Aleixo cita frequentemente a linguagem de sinais que é feita ao vivo na hora, o que chama de corpografia e compara sua utilização um pouco a como se manifesta a poesia, ressaltando a importância de sentir a palavra:

"Precisa-se dizer poema de forma lenta para melhor apreciá-lo" – Aleixo

O mediador aproveitou para comentar:

"Não olhar pras coisas e ver exatamente o que são, mas procurar ver o invisível. É preciso que as pessoas transformem esse invisível em palavras. As metáforas, assim, passarão a ser normalidade" – Jorge

"Imaginar precisa ser primeiro exercício. Mas parece que nos retraímos, temos medo de agir dessa forma, de pensar outro lado para a mesma moeda." – Jorge

Um trechinho da conversa em vídeo:


Talles falou bastante de Manoel de Barros, de suas imagens e símbolos, do mudar o sentido das coisas.

"O poeta precisa encontrar o coração onde não há, como num copo de plástico que é tão problemático. Mas o problema estará no copo ou em nós que o criamos?" – Talles

"O humano só se pode se definir como 'o sendo', nunca 'o é'" – Aleixo

É citado o poema de João Cabral, A Educação pela Pedra

"A educação precisa ser pela pedra, pelo poético, mas não é. Ela "despoetisa" nosso olhar. Quanto mais ponto da escola, mais longe da poesia." - Talles

Fiquei um tempo refletindo essa colocação de Talles, o quanto somos "despoetisados", durante a época escolar, o quanto a luta pela nota, pela aprovação, desvia do simples, do pequeno, o ínfimo do cotidiano. Deixamos passar as frestas da poesia, engessados pelo dever, a obrigação da média. Não há muito espaço para "errar", ou mesmo ver por outra óptica as coisas do mundo. E nesse processo, vai-se muito do pensar poético. É uma realidade cruel.

"Poeta é o que está mais envolvido na vida, ele tem sim capacidade para ir além, o que muitas vezes ninguém acredita.", diz Jorge, que comenta já ter sido bancário e engenheiro.

"Sabe o que acontece comigo quando leio bula de remédio? Começo a adoecer" – Jorge

Ele leu Mulher ao Volante, texto seu. Leitura precisa, pausas, entonação, timbre, prendeu atenção.

"Estamos tão presos ao politicamente correto que não podemos falar mais nada com medo que alguém interfira" – Jorge

Aleixo fala de um de seus poemas, explica que é um poema muito pensado, muito trabalhado, como costuma fazer em seu processo.

"Se definir como um escritor negro é um automatismo verbal. Sou escritor e sou negro. Escritor negro não" – Aleixo

Aleixo falou também do conto Festa, de Wander Piroli (leia aqui).




"O modo como ele se refere ao personagem, 'O Preto' me causa desconforto. O escritor humaniza o preto, é da esfera da obra de arte causar desconforto" - Aleixo

Quanto à questão da publicação, e a posição do poeta no processo:

"É muito natural que o poeta seja seu próprio editor, pois talvez seja o único artista da palavra capaz de atuar à frente de todas as etapas de sua obra." – Aleixo

"O poeta é o designer da linguagem", Aleixo, citando alguém que não me recordo.

"Sempre habito o pouco. A poesia não precisa de mais do que o pouco. O mundo não é hostil à poesia, só é indiferente". – Aleixo

A professora Cleudene Aragão, uma das coordenadoras da bienal, agora entre o público, citou o escritor uruguaio Eduardo Galeano como mestre da prosa poética:

"Nosso mundo é propício e ao mesmo tempo superficial à poesia" - Cleudene

Talles retoma seus temas e fala um pouco de seus trabalhos, com micro poemas:

"Estou terminando o curso de letras eternamente, mas já dou aulas de literatura." – Talles

"Poema precisa de tempo. Tempo para ser escrito e tempo para ser lido. A capacidade de não entender os poemas é simplesmente por não termos tempo. Inventamos coisas como celular, redes sociais, para chegarmos rápido e acabamos não chegando, pois na verdade nunca saímos." – Talles

Ele lê seu poema Curió, de tijolos, vigas, telhas...

Jorge Pieiro resolve também ler algo, um poema de sua autoria, e com velocidade pelo avançar da hora, pede desculpa a Tyson, o intérprete de libras. "Será que conseguirá me acompanhar?"

Fiquei me perguntando onde foi parar a história da leitura lenta? De sentir cada palavra? A hora vinha nos cobrar urgência. A hora agia quase como a escola, despoetisava. Eram agora 17:44.

"É preciso organizar a recepção da obra de arte" – Aleixo cita o poeta russo Maiakovski, muito criterioso neste sentido.

"Grafitei poemas visuais nos muros das escolas lá em BH. Precisamos estar mais disponíveis a tudo. Um garoto veio me falar, disse que me viu na TV: "Ah, você é poeta, né?" – Aleixo

Sob aplausos do pouco mas concentrado público, encerrou-se a mesa. Acabei não falando com o trio, deixei passar, senti que haveria outros momentos. Fiquei bastante chacoalhado com toda aquela efervescência, as colocações, referências. Abriam-se diante de mim portas que ainda sequer sabia a existência. Começava a enxergar melhor quinas e esquinas, como se o teor inteiro da palestra realçasse minha visão. E era bem assim que costumava sair, após a maioria das falas e palestras dessa bienal. Talvez pela imersão à qual me propunha, fosse tão intenso o retorno.






Já além das 18h quando, descendo de volta aos pavilhões centrais, decidi comer qualquer coisa. Num dos quiosques de alimentação, um pai e filho também lanchavam, e tinham conversa bem curiosa, o pai: "Nós já estamos jantados". "Quem inventou a carne de sol?" – pergunta o menino. O pai de pronto: "Alguém que percebeu que não tinha".

Dali segui direto para o espaço do Café Literário, onde acontecia parte das programações e eventos da Bienal. O espaço não era muito grande, as poucas mesas lotavam rapidamente, sendo difícil acompanhar muita coisa para quem chegava após o início, o que acabou sendo o meu caso. Marcada para as 18h, estava em curso um diálogo intitulado Profissionalismo literário, com Lira Neto e Ricardo Kelmer.

Fiquei por lá pela brevidade de alguns minutos. Lira falava de modo envolvente, sobre sua vida, trabalhos, processos que o levariam à literatura e ao jornalismo.

"Passei um tempo sem fazer nada, ou talvez aliás estivesse fazendo tudo. Fritei hambúrguer na rua, fui vendedor de loja, fiz artesanatos e nessa fui tentar ser professor" – Lira Neto 

Diz que conseguiu vaga de revisor, e percebeu que queria ser jornalista. Passou em 1º lugar na UFC.

"Passei um bom tempo como editor de cultura do Vida e Arte" - Lira

Já Kelmer, muito à vontade em sua poltrona, comenta também de seu início na vida artística, influências, leituras, caminhos:

"Decidi aos 10 anos que queria escrever" – Kelmer




Não demorei ali mais do que dez ou quinze minutos. Me despedi bem mais cedo do agito da bienal, a cidade ainda respirava o caos dos ônibus queimados, muitos tendo sido incediados neste dia. Ainda tinha várias outras coisas que gostaria de ver mas abri mão, o que não foi de todo ruim, precisava descansar um pouco de toda essa maratona. Revi alguns amigos no entorno do Café (haveria um lançamento da Fernanda Meireles) e saí de lá no início da noite, antes, porém, uma passado de acaso num estande e encontro este livro de Adélia Prado, poetíssima que há muito conhecia mas ainda nunca tinha lido de fato. Um fim de dia que já prenunciava bons ventos! 



Continua no dia 8, com Braúlio Tavares, Stelio Torquato, Fanka Santos, Ignácio de Loyola Brandão e muito mais. Falta pouco para fechar, sigamos!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (VII - A influência estética de Moreira Campos)


Fotos: Denis Akel

Chegando agora à sexta postagem relativa à Bienal do Livro 2014, que abordará a mesa A influência estética de Moreira Campos, com Adriano Espínola e Ana Miranda, mediados por Jorge Pieiro. O encontro ocorreu em 11 de dezembro, quinta-feira, a partir das 17h, logo depois da mesa Literatura e Loucura, da qual falei na postagem anterior.

O contista Moreira Campos, grande homenageado desta edição da Bienal, teve, além de uma exposição com fotos e fatos de sua vida e obra (veja na primeira postagem desta série), inúmeras palestras e mesas relacionadas. Diariamente, acontecia sempre às 17h, um seminário sobre a obra do autor, nesta mesma sala que foi cenário de praticamente todas as postagens que fiz desta série. Houve comemorações pelo seu centenário, discussões em torno da atemporalidade de sua obra, a arte literária presente em seus textos e tantos outros temas focando o contista.

Boa parte dessa programação, porém, ou chocaria com o horário das palestras que eu já decidira assistir ou seria justamente depois de uma delas, o que a tornaria muito desgastante, considerando que cada uma durava 1h30m. Assim, me foquei para ver o que tinha planejado, mas pensei que seria bom também assistir a pelo menos uma das mesas dedicadas a Moreira Campos, aproveitando o momento para conhecer um pouco mais do autor, que não lia há algum tempo. Escolhi esta, intitulada a influência estética, imaginando encontrar um bom panorama de seu processo criativo, e de como seu legado perdura até hoje. Acabei por encontrar bem mais do que isso.

Como disse, esta mesa aconteceu logo após a mesa de Jackson Sampaio, da postagem anterior. Só deu tempo de esticar um pouco as pernas pelo corredor e logo voltar à sala. Mais pessoas chegaram, somando-se a umas poucas também remanescentes da palestra anterior. Era perceptível uma outra energia no novo público, um público diferente, mais maduro, senhoras, senhores que pareciam saber perfeitamente bem porque estavam ali, quase como se tivessem conhecido o próprio Moreira Campos (e quem sabe tivessem mesmo, afinal). Identifiquei ainda rostos conhecidos de boa parte das mesas anteriores, como a curadora da Bienal, Mileide Flores, a também curadora e neta de Moreira Campos, Carolina Campos e o simpático jornalista Anderson Sandes.

Compunham a mesa a escritora cearense Ana Miranda, e Adriano Espínola, poeta, professor de literatura e sobrinho de Moreira Campos. A mediação ficou por conta do também escritor Jorge Pieiro. Procurei me sentar quase no mesmo lugar da palestra anterior, ainda que agora todas as cadeiras tivessem voltado para a posição normal. Após as apresentações comuns da Bienal, patrocinadores e afins, Ana Miranda tem a palavra. A escritora agradece a oportunidade, e começa falando um pouco de literatura em geral, passando por sua obra, e chegando a Moreira Campos:

A qualidade de um livro é proporcional à quantidade de sentidos ali contidos. – Ana Miranda

O que torna um autor canônico, segundo Harold Bloom, é a estranheza. – Ana Miranda

A originalidade de uma obra é a originalidade do eu autoral. – Ana Miranda

Tento partir do corriqueiro para chegar ao contexto fantástico, no estilo Moreira Campos. – Ana Miranda



Ana então falou de alguns ensinamentos bem peculiares de Moreira Campos, a lição da parede, a lição do copo, a lição do portão e a lição da cama. Ela então entreolhou Adriano, que lhe sorriu, concordando. Fiquei pensando em que consistiriam estas lições, de nomes tão simples e aparentemente bobos. Na verdade, estava diante de um conhecimento incrivelmente complexo, disfarçado nesta aparente simplicidade. Adriano Espínola faria uma boa explanação destas lições, como direi mais a seguir.

Ana também contou a história de Pedro Salgueiro, que teve em Moreira Campos uma espécie de mentor. Ele admirava muito o escritor, já conhecendo boa parte de sua obra, e embora passasse por ele quase todos os dias, ao cruzar o Bosque de Letras (hoje Bosque Moreira Campos), não tinha coragem de lhe falar. Assim passaram-se quase dez anos. Pedro, que começara então a também escrever contos, conheceu a filha do escritor, a também escritora Natércia Campos, que de certa forma facilitou seu antigo sonho. Fez algumas visitas ao apartamento de Moreira, sendo muito bem recebido por ele e sua esposa, dona Zezé. Numa destas visitas, Pedro teve a coragem de levar um exemplar de seu primeiro livro, pedindo a Moreira que ele, nas palavras do próprio Pedro, "desse uma olhadinha, se pudesse". Moreira Campos deu uma olhadinha, e fez bem mais do que isso.

Segue o artigo completo, que foi lido por Ana na ocasião desta mesa, de autoria do próprio Pedro Salgueiro: Moreira Campos por Pedro Salgueiro.

A mesa foi adiante:

Há uma relação entre Machado de Assis e Moreira Campos, ambos gostam de revolver os lados psicológicos, ambos têm uma dose de descrença na humanidade. – Ana

Na estética de Moreira Campos, descrições devem ser sempre com o mínimo de informações, mas o máximo de sugestões. – Ana

Moreira Campos primava pelo acabamento de seus textos, e sua obra influenciou todos os escritores depois dele. – Ana

Jorge Pieiro leu, com grande emoção, um conto do livro inédito de Moreira, A Gota Delirante. Um texto de leitura intensa e vibrante, como lhe era tão comum. Impossível não lembrar de Dizem que os cães vêem coisas, que considero uma de suas melhores obras. As palavras de Jorge logo absorveram o público, que o acompanhou com grande atenção até a última palavra, a última sensação. De onde eu estava, não pude deixar de reparar, em certo momento, que aquela leitura emocionou também a neta de Moreira, Carolina, sentada à minha extrema esquerda. Ela chegou mesmo a chorar, de modo contido, sensibilizada, talvez lembrando do avô, talvez da mãe, de tudo, toda essa energia, que lhe deve ser comum, mas que agora chegou com mais intensidade, ao ouvir aquela leitura, naquele momento. Fiquei pensando "puxa, ela passou a semana inteira envolvida diretamente nesse evento, e até antes, no planejamento... esteve ainda em quase todas as palestras, deve ter revivido e relembrado muita coisa do avô, da mãe... não dá mesmo para não se emocionar". De certa forma, ouvir ali, naquelas circunstâncias, aquela leitura, deve parecer quase como ouvir o próprio Moreira Campos falando... Ao final do conto, uma enorme salva de palmas encheu a sala. O livro, que seria originalmente publicado em 1990, por conta do falecimento de Moreira, acabou guardado por vinte anos. Agora, por iniciativa de Carolina, ele seria uma das grandes atrações do evento, a ser lançado no dia seguinte, lá mesmo na Bienal.



Jorge então passou a palavra, e antes de começar a falar sobre Moreira Campos, Adriano Espínola disse a princípio achar estranho chamá-lo assim, pois sempre passou a vida o chamando de tio Zé Maria.

Moreira era um admirável contador de histórias, sobretudo anedotas. O contar para ele era natural, contava tudo com muita graça, mesmo com seu ar sério, encantava a todos. – Adriano Espínola

Moreira Campos é um escritor muito importante, deveria ser mais conhecido no Brasil – e Adriano contou que certa vez estava num festival literário no Rio, quando um homem ganhou um prêmio e lembrou, antes de tudo, de Moreira. Adriano achou aquilo incrível, percebendo a força que ele tem e que ainda pode vir a ter.

A maneira como Adriano falava, com grande propriedade, dando o tom certo ao que dizia, cativava de imediato. Era visível que também tinha uma veia contadora de histórias. Imaginei que com certeza ele aprendeu muito com o tio Zé Maria.



E então, Adriano abordou novamente as quatro lições. A lição da água foi a primeira. Tudo começou quando ele, há muito tempo, ainda estudante de letras, costumava, na saída das aulas, passar na casa de Moreira Campos, na época próxima ao campus do Benfica, para conversarem, ou "literarem". Em um desses dias, Adriano estava refletindo sobre o real valor da literatura, e disse a seu tio que obras literárias, por provirem da imaginação, não passam, portanto de uma mentira. Moreira não se abalou, e disse: É, pode até ser uma mentira, mas as fábulas de La Fontaine têm mais verdade humana do que essa parede, e apontou logo para uma parede a seu lado. E continuou: É mentira que uma raposa possa falar e pensar, mas o que ela diz, na fábula, sobre uvas que não pôde alcançar, a verdade humana que está aí, meu velho, vai durar mais que esta parede! Moreira Campos não poderia estar mais correto; a parede a qual ele se referia já não existe hoje em dia, uma vez que sua casa foi demolida em 2005 para dar lugar a uma expansão de estacionamento do shopping Benfica... mas a verdade humana, essa sem dúvida, perdura e sempre perdurará. Adriano assim entenderia o sentido da literatura, sua atemporalidade, através da lição da parede.

Para as demais lições, encontrei esse link, de uma fala proferida pelo próprio Adriano, em 1994, poucos meses após o falecimento de Moreira. Aqui, ele relembra o convívio com o escritor, bem como as célebres lições de seu legado: Quatro lições do mestre Moreira Campos.

E a mesa então prosseguiu:

A literatura tem que ser clara como um copo d'água – Adriano, citando a lição do copo d'água.

É um autor extremamente visual, como João Cabral. Com poucas palavras e recursos, arma toda uma cena com funcionalidade imediata. Moreira, contudo, não gostava de João Cabral.  – Adriano

Machado de Assis sempre foi um grande mestre, para Moreira. – Adriano

Moreira tinha uma grande admiração por Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Guimarães Rosa – Adriano.



Outro grande mestre do conto que também foi bastante lembrado na mesa foi o dramaturgo russo Anton Tchékhov. Sua obra, caracterizada sobretudo por narrativas curtas, influenciou inúmeros outros escritores, como Katherine Mansfield, Virginia Woolf e o próprio Moreira Campos. Através de um tema de Tchékhov, a metáfora da mosca prisioneira, surgiram inúmeros textos com temática similar, como A Mosca, de Mansfield, O vestido novo, de Woolf e A Grande Mosca no copo de Leite, de Moreira. O contista cearense ainda levou a temática tchekhoviana a outra vertente. Em vez da ideia da mosca retida, presa, incapaz de soltar-se, da dor do viver aprisionado, Moreira parte de um sentimento de injustiça com uma situação para criar uma revolta, uma indignação. O conto é forte, talvez para propor essa sensação e a metáfora então passa a representar coragem e resistência, em um tom menos denso do que visto em Tchékhov, apesar do caráter sádico usado pelo cearense. O conto pode ser lido aqui.

Ainda sobre Tchékhov, Adriano Espínola disse que Moreira Campos costumava citar e adotar muito também um outro princípio dramático provindo do escritor russo, conhecido atualmente como a arma de Tchékhov. Basicamente, consiste em evitar adornos, objetos e qualquer elemento desnecessário à história. Se foi citado um revólver, por exemplo, ele deverá ser usado:

Ninguém deve colocar um rifle carregado no palco se ninguém estiver pensando em dispará-lo. – Anton Tchékhov

A ideia é simples: não se demorar em detalhes irrelevantes, sem importância, filtrar ao máximo apenas o essencial para o desenvolvimento da história. O termo "arma", pelo que pesquisei, é bem genérico, podendo aqui estar qualquer outro elemento que ocupe similar função. Moreira Campos, segundo Adriano Espínola, a lembrava com a imagem de uma espingarda, e ia até um pouco além da máxima tchekhoviana, ao dizer que a arma não só deveria ser usada, como deveria ser colocada logo de volta no lugar.

Num conto, todos os elementos têm que ter uma coesão extraordinária, é preciso ter coerência para tudo. – Adriano.

Tchékhov dizia que se deve escrever contos sobre coisas longas, de formas curtas. A concisão é irmã do talento. Quanto mais conciso, mais forte. – Adriano.

Para mim, Moreira foi um modelo, me deu a medida da dignidade do que é ser escritor. Dava grande dignidade ao ofício de escrever. Assumiu isso – elegância, dignidade, dimensão extraordinária – para mim e para todos os que circulavam perto dele. – Adriano.

Neste ponto, olhei o relógio, constatando que a mesa já estava prestes a terminar. Que pena, agora que a conversa estava tão produtiva... como passou depressa.

Era um homem de convívio agradável. Educado, mas implacável na observação do bicho homem; grande observador das fraquezas humanas. – Adriano

Nos momentos finais, uma nota de Raquel de Queiroz, que já havia sido lida no início por Ana Miranda, foi lida novamente por Adriano. A nota encontra-se na orelha do livro Dizem que os cães vêem coisas:

Como prosador, poucos, neste País, terão um tal seguro domínio do idioma, um tal senso de aproveitamento de valores, prosa tão límpida, formosa e equilibrada, tanto foge à vulgaridade dos efeitos fáceis quanto aos preciosismos e invenções. Moreira Campos usa e enriquece a língua portuguesa do Brasil com sabedoria de professor e bom gosto de artista verdadeiro. – Rachel de Queiroz

O pequeno, mas interessado público da sala começou a aplaudir, mas Adriano ainda tinha uma última coisa a dizer:

Moreira Campos, por opção, nunca quis sair de sua terra, mas não é nenhum absurdo dizer que ele é um dos maiores nomes da literatura mundial, tanto quanto Balzac, Fitzgerald ou Tchékhov. Moreira é o pai de todos os contistas, escritores, do passado, presente e futuro, aqui do Ceará. – Adriano.



E eclodiram aplausos vivos e entusiasmados. Mais uma mesa que chegava ao fim, e mais uma vez a sensação de enriquecimento por ter podido assisti-la. O trio, Ana Miranda, Adriano Espínola e Jorge Pieiro levantou-se, sendo logo cumprimentado por amigos e parabenizado pelo belo debate. Os rostos de todos faiscavam, satisfeitos. O meu também. Registrei, tanto quanto possível, estes momentos. Não havia, e nem fazia sentido haver, qualquer mesa de autógrafos ou similar. O objetivo daquela mesa não era vender livros, mas homenagear Moreira Campos. Os palestrantes ainda dedicaram uns bons minutos a conversar com o público, ali mesmo na sala, antes do encerramento total.

Da esquerda para a direita: Anderson Sandes, Adriano Espínola, Jorge Pieiro, Carolina Campos e Ana Miranda





Levei muita coisa desse momento, e acho que só percebo melhor isso agora, após escrever este texto. Além da questão prática, da estética literária, as histórias de vida que pude, de certa forma, conhecer, desde a de Pedro Salgueiro, a sutil aproximação do leitor com o escritor, que se deu quase como um aprendiz conhecendo seu mestre; a relação entre Moreira Campos e Adriano Espínola, que com certeza era bastante especial, quase fraternal, como se Moreira pudesse responder a quase tudo que Adriano perguntasse; e até a expressão emocionada no rosto de Carolina Campos, uma marca de um sentimento único, puro, que se manifestou verdadeiramente, a saudade de seu avô. Uma palestra que me fez crescer muito como escritor, mas bem mais como ser humano.




A seguir, a oitava e última postagem desta série, centrada na participação de Xico Sá e Ricardo Kelmer, com a mesa O conto nosso de cada dia.