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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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domingo, 25 de agosto de 2013

Encontro com Fernando Arrabal




Fotos: Denis Akel

Há algum tempo, publiquei aqui um texto sobre a participação do escritor Ignácio de Loyola Brandão na X Bienal do Livro do Ceará, no ano passado (2012). Na ocasião, foi apresentada uma prévia do espetáculo teatral Não Verás País Nenhum, inspirado na obra homônima do escritor. A íntegra da apresentação, conforme escrevi lá, seria dia 7 de dezembro, no Centro Cultural Dragão do Mar. O ritmo da encenação foi tão cativante, que fiquei até o final da prévia, e já disposto a ir conferir a peça completa.

Passaram-se dias. Terminou a Bienal, o mês de novembro, e chegou então a noite do dia 6 de dezembro. Estava tão certo de que a apresentação seria no dia 7, que desde aquele dia não chequei mais a data. Nesta noite, porém, de última hora fui confirmar a hora e então veio o inesperado: a apresentação tinha ocorrido neste dia, 6 de dezembro! Eu me equivocara na data, anotara errado, ou vai ver eles próprios divulgaram errado no dia da prévia. De uma maneira ou de outra, já havia perdido. Porém, nem tudo estava perdido, ou melhor, eu estava prestes a ver algo que transformaria essa aparente perda em um significativo ganho.

No site do Dragão do Mar, bem abaixo das informações referentes ao espetáculo, havia um outro evento que me chamou imediatamente a atenção assim que li um nome: Arrabal. O nome me era familiar, era um escritor espanhol. Tinha um livro dele, comprado há tempos, um romance que trazia uma partida de xadrez como pano de fundo. Um livro que já me conquistou desde a capa, com um ar surreal e instigante. Arrabal estava vindo à Fortaleza. Estava aí uma bela oportunidade que eu não poderia deixar passar.

Minha única referência de Arrabal até então

Refeito pelo ganho desta palestra, apesar da perda do espetáculo, fui no dia seguinte, com meu irmão, Diego Akel, ao Centro Cultural. O encontro com Arrabal estava marcado para as 19h, mas só conseguimos chegar um pouco depois, temendo já ter começado. Felizmente, esse tipo de evento nunca começa na hora marcada, ou por imprevistos, ou por atrasos ou mesmo por ser simplesmente de praxe começar um pouco além da hora. No anfiteatro, já passando das 19:15, algumas pessoas já se achavam sentadas, e nós nos juntamos a elas.

O fluxo de pessoas continuou constante, e já por volta das 19:30, um público considerável já se fazia presente nas fileiras de cadeiras. Eram tipos bem característicos, expressivos, nitidamente pessoas de alguma maneira ligadas às artes cênicas. Comunicativas, falavam, conversavam e gesticulavam entre si o tempo todo. No palco, sob uma indireta luz avermelhada, havia duas poltronas de madeira, elegantemente dispostas. No centro, uma mesinha também de madeira, sobre a qual estava uma jarra d'agua vazia. Instantes depois, ela foi levada e em seguida recolocada, cheia, na mesinha, agora juntamente com uma garrafa de vinho, que imaginei ser talvez uma exigência ou luxo de Arrabal. Em seguida, foi colocada lá ainda uma outra bebida, num copinho plástico. Parecia ser uma espécie de coquetel, mas esta, como eu veria depois, não seria para Arrabal.


Alguns minutos depois, teve início a palestra. Em um primeiro momento, uma das organizadoras explicou em breves palavras um pouco do projeto Memória Viva da Cultura e das Artes, que tornou possível a vinda de Arrabal ao Ceará. A garrafa de vinho foi aberta, e as duas taças servidas, na mesinha. Surgiu então, da lateral do palco, Fernando Arrabal. Eu nunca o havia visto antes, exceto pela foto de divulgação deste evento, então não pude conter o misto de susto e surpresa.

Imagem de divulgação da palestra

Arrabal trajava uma roupa meio oriental, preta, que parecia um quimono, com detalhes dourados, num visual único e característico – na verdade, também me lembrou de alguma maneira o tradicional fardão usado pelos membros da Academia Brasileira de Letras. No rosto, dois óculos; um simples e comum, outro verde, na altura da testa, que reluzia amplamente as luzes do palco. Ainda não sabia, mas este curioso segundo óculos era como uma marca registrada de Arrabal. O intelectual logo bebericou um gole do vinho e postou-se de pé ao lado de uma das cadeiras. Duas outras pessoas, ligadas à UFC, que viabilizou a vinda de Arrabal, falaram brevemente, agradecendo o momento e a presença de todos.



Também surgiu no palco Wilson Coelho, amigo de Arrabal, que seria o mediador da conversa. Antes de mais nada, ele introduziu a si mesmo, falando de sua formação em filosofia, área na qual lecionava, e de como começou sua amizade com o intelectual espanhol. Falou ainda um pouco sobre o que consistiria esse debate com Arrabal, dizendo que ele teria a missão de apresentá-lo ao país como cineasta. Em seguida, mencionou o grau de multiplicidade que há em Arrabal, uma vez que foi amigo de grandes nomes das artes, como Beckett, Duchamp, Warhol, Picasso e Jodorowsky.



Após toda essa introdução, enfim o espanhol foi agraciado com o microfone, mas nos surpreendeu ficando em silêncio. Pelo caminhar da cena, parecia que falar seria a última coisa que ele iria fazer. Arrabal fez vários estranhos movimentos, uma curiosa performance, meio que procurando o que dizer e não encontrando. O público ficou em um misto de graça e surpresa, como se já esperasse aquilo de alguém tão excêntrico.

Inicialmente, Arrabal falou sobre os ditos avatares, os arquétipos das pessoas de hoje, das listas que geralmente eclodem pela mídia, com os mais ricos, mais poderosos etc, em oposição às de ontem, que era o foco do encontro, intitulado "Um sobrevivente dos avatares da modernidade". As pessoas mais poderosas do mundo, por exemplo, são lideradas por Obama, algo que não se pode discutir. Mas e em listas de pessoas influentes e afins, por que a cultura não figura? Como se pode medir a real influência das pessoas que figuram nelas? Segundo Arrabal, esta resposta é bastante nebulosa. O que de fato estaria influenciando a vida das pessoas?

O intelectual teve total liberdade para falar, mas foi difícil entendê-lo perfeitamente, dada a ausência de tradutores. Tudo bem que dava para se entender uma palavra ou outra de seu espanhol, mas às vezes a complexidade dos assuntos fazia desaparecer qualquer entendimento. Ainda assim, era incrível como todos pareciam entender tudo, inclusive rindo sempre das piadas deixadas no ar por ele.



O copo que parecia ser de um coquetel ou alguma bebida típica das imediações do Dragão do Mar, era na verdade de Wilson. Como já estava na metade quando foi ali colocado, deduzi que ele já viera tomando aquilo antes dali. Quando começou a conversa com Arrabal, tratou logo de beber o resto do copinho. Wilson também aprovou o vinho e, após beber rapidamente a primeira taça, encheu logo em seguida a segunda. Comecei a imaginar que aquilo não daria certo.

Arrabal, por sua vez, tinha uma postura muito engraçada, fazendo caras e poses, demonstrando jovialidade. Mostrou ainda não gostar de ficar sentado, uma vez que se levantava sempre para falar. Era comum dar pausas breves e silenciosas, e ficar olhando todos, como que aguardando aprovação pelo que tinha dito. Enquanto seguia o debate, me esforcei para registrar o máximo que consegui em meu bloquinho, o que inclusive foi fundamental para escrever este post.



Observando mais um tempo a pose do intelectual, no alto do palco, percebi que seu par de óculos extra, acima da altura dos olhos, dava-lhe uma aspecto quase de super-héroi. O verde agudo e brilhoso refletia fortemente os holofotes do teto do teatro, e sempre que ele mexia a cabeça, me sentia levemente ofuscado.

Na época da palestra, em dezembro passado, fazia poucos dias do falecimento de Oscar Nieymeier. Wilson relembrou do momento no qual Arrabal quis conhecer o arquiteto brasileiro, em certa vez que foi a Porto Alegre. Wilson contou a história em detalhes. O encontro entre os dois rendeu uma crônica e uma cobertura filmada. E ainda dele nasceu um livro, combinando texto de Arrabal e ilustrações de Nieymeier, livro este que até hoje ainda não foi editado, pois seria preciso a assinatura do arquiteto para seguir o projeto. Wilson finalizou reforçando a emoção não só deste momento mas também de estar relembrando-o justo agora com a morte de Nieymeier.

Wilson relembrou em detalhes o encontro entre Fernando Arrabal e Oscar Nieymeier


Um dos outros temas centrais foram as artes cênicas e seus desdobramentos. Segundo Arrabal, os melhores teatros e dramaturgos do mundo estão em Atenas. E eles próprios, atenienses, ironicamente ou não, não se interessam tanto por isso. Wilson ocasionalmente interpretava algumas de suas palavras, complementando ou pontuando, e eu me desdobrava para anotar o que conseguia de relevante.

Fernando Arrabal também deteve-se bastante falando do coletivo pelo qual ficou bem conhecido, o Panic Movement, ou Teatro Pânico, formado por ele, o cineasta Alejandro Jodoroswky e o ilustrador Roland Torpor em 1962, na França. O nome faz referência ao deus grego Pan, e o grupo se focava na performance artística caótica e surreal, aproveitando a época na qual o surrealismo se tornava uma forte vertente.

Quando se deu este encontro, eu ainda mal conhecia Arrabal, apenas do livro que mencionei, mas nada sabia ainda de sua prolífica criação. Por conta disso, tudo o que foi falado sobre o Teatro Pânico me passou meio ao acaso, sem muita identificação. Para escrever esse post, li alguns artigos, confrontando-os com minhas anotações, conseguindo assim, imagino eu, captar um pouco melhor a atmosfera proposta pelo coletivo.

As composições teatrais do movimento seguiam um caminho bem peculiar, planejadas para serem chocantes e provocativas. Ao invés de ficarem limitados a apenas palavras e gestos, o grupo queria algo mais visceral, grotesco, forte. Tudo para aproximar o espetáculo do espectador, e deixar bem explícita a expressividade do trio, servindo quase como um alerta do sofrimento e angústia que os atormentava.

Segundo o próprio Fernando Arrabal, o Teatro Pânico não era um grupo ou movimento, mas uma "maneira de ser", de acordo com uma ideologia que tinha por alicerce a exaltação da moral múltipla. Alguns dos principais diretores teatrais da época, como Victor García, Georges Vitaly e o próprio Jodorowski se entusiasmaram com a necessidade de se fazer um teatro diferente, inquietante, libertador, que aproximasse o espectador. Boa parte desse grupo de diretores achou na obra de Arrabal um ótimo elo com suas ideias. Deve-se ressaltar que essas inquietações não eram exclusivas do Pânico, uma vez que o dramaturgo Antonin Artaud havia elaborado o Manifesto do Teatro da Crueldade, em 1932, no qual já havia a preocupação com um teatro que atingisse o público diretamente, torturante, de maneira quase física, sem distância entre ator e plateia.

Antonin Artaud, precursor dos ideais seguidos pelo Teatro Pânico (Foto: Google)

O Teatro Pânico, trinta anos depois, fez ecoar as ideias de Artaud, e revelou tantos outros olhares similares. Para Arrabal, o héroi pânico seria algo como um desertor, no qual se mesclam paranóia, megalomania, desespero, fetichismo, modéstia, necrofilia etc. As obras de Arrabal foram carregadas dessas sensações, transmitidas de maneira ousada ao espectador, que ao entrar no teatro não podia se sentar onde quisesse, mas onde o ator lhe indicasse. O espectador estava sempre dentro da peça, era parte orgânica do todo, compartilhando desconfortos, torturas e angústias. Assim era o Teatro Pânico: um choque de conflitos e sensações, de dores e condições, de ousadias e expressões, que convidavam o espectador a sentir diretamente tudo isso. Voltando às palavras de Antoni Artaud: “O teatro não poderá tornar a ser ele próprio, ou seja, constituir um meio de ilusão verdadeira, se não fornecer ao espectador modelos verídicos de sonhos, em que seu apetite pelo crime, suas obsessões eróticas, sua selvajaria, suas quimeras, sua noção utópica de vida e das coisas e seu próprio canibalismo transbordem para um plano que não é suposto nem ilusório, mas interior”.


Alexandro Jodorowski, Fernando Arrabal e Roland Torpor, trio principal formador do Teatro Pânico (Foto: Google)

Retomando ao assunto central da postagem, o Teatro Pânico esteve de uma maneira ou de outra, presente em quase todas as colocações de Fernando Arrabal durante sua palestra no Dragão do Mar. Apesar de neste dia eu ter deixado de entender muita coisa, em contrapartida, fiquei livre para outras percepções, como direi mais a frente.

Algum tempo decorrido, iniciou-se um espaço de perguntas ao espanhol. Muitos falavam em português, e eram traduzidos a Arrabal por Wilson, outros mais exibidos se arriscavam no espanhol, muitas vezes em uma pronúncia errante. Arrabal até entendia as perguntas feitas em português, mas não se atrevia muito a falar o idioma. Uma das questões mais ansiadas pelo público era sobre a relação atual de Arrabal com Jodorowsky, que segundo o próprio Arrabal não era nada tão profundo, eles se falam sempre, mas não tanto quanto todos imaginavam. Concluiu ainda dizendo que o considera uma das pessoas mais inteligentes que conheceu. Segundo Wilson, Jodorowsky é mais espiritual, místico, e Arrabal é mais como uma pedrada. Provavelmente por isso sua obra era tão associada à ideia do Teatro Pânico.

Para Arrabal, artistas em geral não defendem a real vertente de suas ideias

Questionado, em espanhol, sobre o porquê dos múltiplos óculos, disse: todos somos ególotras, ou seja, viciados em si mesmo. Essa é minha maneira de ficar mais bonito. Provavelmente essa não tenha sido a resposta que se esperaria ouvir, mas arrancou algumas boas risadas de todos.

Durante alguns momentos, percebi que Wilson parecia meio grogue, talvez pelo efeito do que bebera. Não sei se foi impressão, mas ele demonstrava um ego um pouco elevado, falando muito de si, quase que usando Arrabal como ponte. O público estranhou: estavam ali primeiramente pela presença do intelectual espanhol. A coisa chegou a tal ponto de Wilson querer assumir as respostas, de perguntas feitas a Arrabal. As pessoas se entreolhavam, conversando entre si, visivelmente chateados e enfadados. Um certo mal estar fora criado. Foi demais. O público, já impaciente, reagiu com gritos. Desconsolado, Wilson cedeu, parecia já bem desorientado pelo álcool, uma vez que a essa altura já tinham sido umas três taças, fora o coquetel que ele entrou tomando.



O clima começou a ficar delicado, apesar do ar cômico que pairava na palestra. Era visível que as organizadoras do evento não aprovavam as atitudes de Wilson, que não deixava Arrabal falar. O espanhol, contrito, não se manifestava. Era comum ouvir coisas como "Deixa o Arrabal falar!", vindo de quando em quando do público.

Assim se seguiu a palestra, e nesse momento minha atenção pouco captava o que era dito, mas mais o ambiente em si. Wilson, agora nitidamente embriagado, já se perdia em suas palavras, e misturava e confundia temas e assuntos, mas como citava o nome de Arrabal em cada frase era rapidamente engolido pelo vozerio do público, que só se calava quando o espanhol assumia a palavra.

Me esforcei para entender o máximo possível de suas palavras, e ainda transcrevê-las para o papel, mas bastava uma sentença mais enrolada para que eu me perdesse completamente no assunto, o que invariavelmente acabou desviando minha atenção para outras coisas, como a avidez com que Wilson bebericava o vinho.





O que está influenciando a vida das pessoas? Esta notória pergunta foi claramente ouvida, mas a resposta não. A língua de Arrabal articulou uma dezena de palavras que não consegui entender. Olhei para Diego, a meu lado, mas ele também não entendera. À nossa volta, todo o resto do público parecia ter entendido, e esse foi mais uma daqueles momentos no qual todos entendem, e até riem. Seria possível? Fico pensando quantos fingem entender e rir só para não se sentirem excluídos.

Pois bem, às 21:00, encerrava-se a sessão. Arrabal agradeceu e choveram aplausos sequenciais, inclusive com o público de pé, por minutos, em uma cena de nítido respeito e admiração. Wilson ainda tentou falar alguma coisa nessa hora mas sorveu em meio a salva de palmas. Ele logo desapareceu atrás do palco, achamos até que tinha caído ou algo assim, mas depois reapareceu, bastante trôpego, chegando até a derrubar o microfone, e se comunicando aos gritos com as organizadoras, para lembrá-las de falar da programação do dia seguinte.

As pessoas começaram a deixar a sala, enquanto Arrabal posava para fotos. As organizadoras do evento convidaram o público para se juntar a ele, e boa parte dos que ainda estavam no local subiram ao palco. Dezenas de pessoas se misturaram ao intelectual espanhol, gerando um clima muito descontraído e fraternal. Eu e Diego permanecemos sentados, de onde fiz mais algumas fotos.



Acompanhamos um pouco o clima de descontração presente após a formalidade, com Arrabal recebendo muito cumprimentos, e deixamos a sala. Como não poderia ser diferente, essa palestra ficou bastante tempo em minha cabeça. Independente de eu ter assimilado tudo o que foi debatido, me senti bastante realizado, simplesmente por ter podido assistir àquele momento. Posso dizer até que o que mais me chamou a atenção a princípio, ironicamente, foi o embaraço causado pelo aparente exagero na bebida de Wilson, por uma série de razões: a quebra do protocolo, da formalidade, que de repente se instalou no palco, as pessoas comentando, a organização idem. Nos momentos finais, foi quase como se Arrabal e Wilson estivessem contracenando no palco; o primeiro impassível, não movia um músculo, o segundo cambaleava, tentando manter o controle sobre si mesmo. A interferência do público, em forma de gritos e protestos, se tornou parte desse espetáculo inesperado, e agora vejo que ali acabou se formando algo bem à la Teatro Pânico. Para mim, sem dúvida, esse imprevisto, apesar de rapidamente superado no final, roubou literalmente a cena da palestra.

A interação do público por meio de gritos, e o comportamento de Wilson fizeram ecoar elementos do Teatro Pânico na palestra

Não sou um profundo conhecedor de teatro, como muitos ali pareciam ser (ou queriam aparentar ser), mas a ocasião desta palestra, sobretudo, me incitou a curiosidade de querer saber mais sobre Fernando Arrabal e o tão falado Teatro Pânico, algo que consegui realizar para escrever este texto. Uma das coisas mais bacanas que percebi no intelectual espanhol, é que ele está sempre revolucionando, sempre se perguntando e questionando o que é dito como verdade. Conversei bastante com meu irmão, nos dias seguintes, e percebemos que esta questão dos avatares, que é imposta hoje em dia no mundo de maneira quase cega, é duvidosa, principalmente quando se chega aos ditos mais influentes. As listas que buscam classificar a ordem de importância ou valor das pessoas, no fundo, são vazias, nada significam. Podemos não ter chegado ao cerne do pensamento exposto por Arrabal, mas vimos que devemos desmistificar conceitos, certezas, expor novas diretrizes de pensamento. Como Wilson disse, já ao final da palestra, é preciso "arrabalizar", ou seja, agir com ímpeto, foco, sem desvios, como uma pedrada. Com toda essa reflexão, não posso deixar de considerar o próprio Fernando Arrabal como um excelente avatar. E numa lista de pessoas mais bonitas, provavelmente ele se sairia bem, pelo menos por conta de seus múltiplos óculos.


A garrafa de vinho, que teve participação decisiva na palestra, não poderia faltar na foto

domingo, 27 de janeiro de 2013

Bienal do Livro do Ceará (II - Ignácio de Loyola Brandão)


Fotos e vídeos: Denis Akel e Diego Akel

Quando vi o nome de Ignácio de Loyola Brandão na lista dos convidados para essa Bienal, de cara já me empolguei com o evento. Loyola é um autor que admiro bastante, mesmo ainda tendo lido muito pouco de sua obra; apenas contos e crônicas, mas já me identificando, inclusive em um período onde ainda estava por descobrir meu gosto pela escrita. Contos como O homem cuja orelha cresceu e O homem que procurava a máquina, me impressionaram, e hoje vejo bem o porquê. Além disso, a própria maneira de Loyola falar, em entrevistas, aumentava minha identificação com ele, e com a literatura em si. Era algo parecido com o que sentia sempre que ouvia ou lia Moacyr Scliar.

A palestra estava marcada para as 17:00 do sábado, 11 de novembro. Fui, dessa vez acompanhado por meu irmão Diego Akel. Chegamos ao Centro de Eventos já um pouco atrasados, e temi que já tivesse começado, mas ao chegar lá, porém, percebi que não trouxera a programação ou memorizara o nome da sala onde aconteceria. Como encontrá-la? Não parecia nada complicado, uma vez que havia muita gente da organização no balcão de recepção, mas não foi assim tão simples.

Falamos com os receptivos, que se mostraram bastante despreparados, com dificuldade de nos darem as informações devidas – sequer entenderam quando pronunciei o nome do escritor. Para completar, não havia nenhum folheto da programação por perto (seria útil para localizar o nome e local). Acabaram por nos mandar ao primeiro andar, para procurar alguém de lá para nos dar essa informação. No caminho, imaginei que provavelmente àquela hora Loyola já estaria com a palavra. A situação no primeiro andar não foi muito diferente, no que diz respeito à dificuldade de informação, mas pelo menos lá o nome do escritor foi entendido rapidamente. Após algumas consultas em um guia, que parecia exclusivo aos receptivos, a moça com quem falamos nos orientou até a sala. Não foi difícil de achar, após essa instrução.

Seguimos em meio a um extenso corredor. Havia uma porta entreaberta, onde parecia se concentrar um grande fluxo de pessoas. Era ali. Espichei o rosto para dentro e vi dezenas de cadeiras preenchendo o interior da sala. Logo à entrada, uma mulher nos cumprimentou, falando sobre a palestra que  – para meu alívio – ainda não tinha começado. Não sabíamos quem era ela, mas parecia ter alguma influência, ou mesmo cargo, na produção. Reforçando essa ideia, ela nos contou que ao final da palestra haveria uma apresentação teatral, uma adaptação de uma das obras de Loyola. Falou bastante sobre o espetáculo, e mesmo ansiosos para entrar logo na sala, a ouvimos com atenção. A apresentação seria uma prévia, que aproveitaria a presença do autor para ser divulgada. A versão completa seria encenada no dia 7 de dezembro, no Dragão do Mar. De posse de todas essas informações, enfim entramos no auditório. Todos os lugares frontais estavam ocupados, nos fazendo seguir para as cadeiras mais ao fundo. Ignácio de Loyola Brandão já estava presente no local, e bem visível, sentado entre as pessoas, bem perto de onde ficamos. Calmo e sereno, o escritor transmitia tranquilidade.

Havia bem à frente, em uma espécie de palanque, a mesa que receberia o escritor. Nela, um homem, que devia ser o mediador da conversa, lia algum texto de Loyola. Ao final, chamou o escritor que, sob uma salva de palmas, caminhou até o palco.

A palestra foi muito reveladora, Loyola contou, brevemente, um pouco de como começou sua carreira. O escritor começou relembrando uma professora que teve, que lhe foi muito especial, por ter-lhe ensinado a ler e escrever, sobretudo o gosto pela escrita. O autor disse ainda que ela está viva até hoje, e ele, nos seus 76 anos, ainda conversa com ela, sempre que pode. Relembrou também que ela dizia sempre, nas aulas de redação, que criassem o que quiserem, que escrevessem o que quiserem, nada é absurdo. Esse tipo de liberdade lhe deu os alicerces que o fizeram até hoje como escritor.

Ainda sobre início de carreira, falou de como a profissão de jornalista foi importante para difini-lo como escritor. Disse ainda que os jornalistas precisam correr, buscar, aquilo que não é dito, aquilo que é escondido. Este é o trabalho do jornalista.



Contou muitas histórias, explanando situações e vivências, com um jeito característico, fazendo breves pausas entre as palavras, transmitindo muito bem o peso de cada uma delas. Era quase como se narrasse um conto ali, durante a palestra. Tal ação, excelência com a palavra, chamava a atenção da plateia, que ouvia em silêncio, cativada. Em uma das histórias, falou de um ipê, muito bonito e vistoso, que tinha o hábito de observar todos os dias. Até que percebeu que ele vinha ficando mais fraco e sem vida, e curiosamente via uma senhora o regando todos os dias. O ipê acabou por morrer. Loyola fez uma averiguação. A tal mulher matara o ipê. O motivo? Ele sujava sua calçada com suas folhas. Ela não o regava por bondade, mas para acabar com ele, em uma engenhosa artimanha para não despertar suspeitas. Essa história ilustrou bem como o ato de observar fatos do dia a dia podem revelar histórias surpreendentes.

O escritor comentou que as ideias para criar suas histórias vêm muito de imagens, uma vez que sua formação tem muita coisa de cinema. Quando uma dessas imagens fica em sua cabeça, sabe que é hora de escrever. Falou bastante, também, sobre um baú onde guarda recortes de matérias suas que não puderam ser publicadas na época, agora fonte de inspiração para livros e crônicas.

Alguém certa hora perguntou sobre seus autores e obras preferidas, uma pergunta bem recorrente quando se  tem um escritor palestrando. Loyola inicialmente foi contra a maré, falando de autores e obras que muitos talvez não esperassem ouvir. Disse que O Patinho Feio, Robinson Crusoé, entre outros, o marcaram bem mais que os autores típicos, sinônimos de intelectualismo, como Machado de Assis ou José de Alencar. Não os descartou, mas sua resposta mostra que obras consideradas pequenas ou infantis podem ter muito a dizer, se a pessoa souber enxergar. Ainda sobre obras preferidas, citou Ulysses, de Joyce. Meio que complementando essa reposta, em outro trecho da conversa, Loyola disse não se apegar a semiótica ou outros conceitos formais. Os respeita, mas sempre gostou simplesmente de contar histórias.

Uma de suas obras mais comentadas na ocasião foi Não Verás País Nenhum (que era também a que estava sendo adaptada para o teatro). O escritor contou como surgiu a ideia para a história, a partir do "furo na mão". Foi simples, estava certo dia em sua mesa, e desenhou, ao acaso, um furo na mão com uma caneta. Um amigo que passava por ali então lhe perguntou: "O que é isso, Ignácio, um furo na mão?" E ele respondeu, aproveitando-se da situação: "É". Nascia aí a questão que era abordada no livro, a questão do ser diferente, e dessa diferença incomodar um certo sistema.



Em certo momento, uma mulher, professora, se levantou, para perguntar, e disse que ele provavelmente não se lembraria dela, mas que ela o conheceu em Ocara, em uma visita que o escritor fez anos atrás. Ela disse que tinha ficado muito feliz com a maneira como ele se relacionou com as pessoas da região, que todos tinham gostado muito dele, que o achou uma pessoa muito simples, apesar de ser um escritor renomado. Ela completou dizendo que sempre quis comentar como esse fato a deixou marcada, bem como a todos da comunidade. Loyola falou, enternecido, que lembra bem desse episódio, e que gostou muito de ter conhecido tudo aquilo. Disse ainda que uma senhora de Ocara chegou para ele com um presente, de forma muito humilde. Um vidro de mel. A senhora disse que o mel tinha uma procedência especial, feito em sua própria casa. Loyola disse, para o público, que aquele foi o melhor mel que já provou em toda sua vida. O episódio o marcou tanto que seu próximo livro se chamará O Mel de Ocara.

Um dos momentos mais curiosos e destacáveis, ao menos para mim, foi quando Loyola falou de seu livro Veia Bailarina, um relato autobiográfico, que embora com elegante e poético título, nasceu de uma situação ameaçadora; a descoberta de um aneurisma cerebral, em 1996. Ele explicou tudo. Era uma cirurgia delicada. Nas palavras do escritor: "...uma granada dentro de minha cabeça, que podia explodir a qualquer momento". Felizmente, foi diagnosticado a tempo, e venceu essa barreira da vida, mas sempre, antes e depois do tratamento, avaliou sua vida, refletindo erros e acertos. Contudo, desde o início o nome "veia bailarina", a que os médicos chamam o aneurisma, fascinou o escritor. Como um termo tão belo e dançante poderia fazer parte do seco e sério vocabulário médico? Ao final, Loyola resolveu publicar o livro, extraindo dessa experiência uma lição elementar e fundamental, a redescoberta da vida. Não poderia haver título melhor, pois, do que Veia Bailarina.

Quando indagadado sobre fatos e detalhes do livro Bebel que a Cidade Comeu, Loyola disse não gostar de falar sobre o que acontece em seus livros. Que o leitor precisa pensar também, precisa ele próprio raciocinar sobre o que acontece. Já perto do fim, Loyola deu um conselho valoroso aos novos escritores: estejam atentos ao mundo, ao que acontece à volta de vocês, no dia a dia.

Pensei em fazer uma pergunta, na verdade não bem uma pergunta típica, mas pedir a ele que falasse um pouco sobre Moacyr Scliar, uma vez que sei que eram grande amigos. Antes que pudesse me dar conta, porém, o bloco de perguntas já estava para ser finalizado, e esse meu comentário teria de ficar para uma outra vez. A última pergunta foi se Loyola acredita em teorias da conspiração. O escritor foi novamente direto em sua resposta, ao dizer que tem coisas mais importantes com que se preocupar.

E então, sob uma prolongada salva de palmas, Ignácio de Loyola Brandão deixa a bancada da palestra, retornando para sua cadeira, do lado da qual aguardava sua esposa. Logo em seguida, o palco é rapidamente preparado, saindo a mesa e entrando muitas pessoas, o elenco da peça, a adaptação da obra Não Verás País Nenhum, a prévia do espetáculo. Os atores tomaram suas posições, devidamente caracterizados, enquanto uma banda assumiu, ao fundo, uma poderosa trilha sonora. Para uma amostra, até que a encenação foi surpreendente. A atuação dos atores era bem verossímil, com um texto forte e pungente. Não pretendia ficar além da palestra, mas me vi quase hipnotizado pela peça (apesar da má acústica da sala ter prejudicado algumas falas), e assim meia hora passou-se num sopro. Ainda não conhecia a obra em questão, mas com certeza após essa breve encenação irei procurá-la em um momento futuro. Mais grandes aplausos, em agradecimento aos atores, fecharam a programação. Loyola levantou-se, recebeu ainda o carinho de algumas pessoas, que se dirigiam a ele, enquanto o contigente maior deixava a sala. Dei uma última olhada no escritor, nas pessoas ali presentes, nos atores do espetáculo, e deixei também o auditório, bastante realizado.

Atores encantam público com bela prévia do espetáculo Não Verás País Nenhum 

Essa foi uma daquelas palestras onde ficamos, de alguma maneira, com tudo o que foi dito ainda na cabeça, mesmo com dias passados. Mesmo agora, meses depois, escrevendo sobre ela, ainda a tenho viva nas lembranças, e é justamente para prolongar mais essa sensação que resolvi escrever aqui um pouco sobre este momento. Quanto à encenação completa de Não Verás País Nenhum, ainda tentei ir, mas não consegui, como contarei em um post futuro. Ainda sobre a Bienal do Livro do Ceará 2012, postarei em breve comentários sobre a palestra da escritora Márcia Tiburi, que também tive o prazer de assistir.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

FENOMA 2012 (II) - O espetáculo


Fotos: Denis Akel e Diego Akel

Continuando a falar do FENOMA 2012, Festival Nordeste de Mágicos, nesta que é a segunda e última postagem sobre o evento, escreverei agora um pouco sobre como foi o festival em si, algumas das atrações, o teatro, o público, a programação, a versão final da vinheta (que estampou a primeira postagem desta série), enfim, impressões minhas e de meu irmão Diego Akel, e até nossa vontade de iniciar carreira de mágico.

Antes de mais nada, e ainda pegando carona no post anterior, apresento logo a versão final da vinheta, para já trazer à tona o clima e atmosfera mágica:





Ao final da vinheta, havia a interação com o mágico real, momento que vimos então, em nossa frente, nosso trabalho, finalizado e cumprindo seu propósito. E pensar que aquilo era apenas um esboço, uma ideia, dias antes. Foi algo memorável.

Um dos grandes momentos do FENOMA foram os shows de Gala, que aconteciam sempre nas noites dos três dias, a partir das 20h, e apresentavam espetáculos de mágica, ilusionismo e até, de certa forma, piadas no melhor estilo stand up. Entre os destaques a se apresentar nesta edição do evento, estavam o mágico japônes Shoot Ogawa, os argentinos Daba y Cielo (cujo filho Sebak, de apenas 12 anos, também se apresentaria), além do chileno Zyro. Do Brasil, o Fenoma reuniu nomes consagrados do meio, para citar alguns: Klaus, Henry Vargas, Pjota, Yesus, além dos já citados no post anterior, Goldini, Éflem e Ryan Rodrigues.

Quando concluímos a vinheta e a entregamos, decidimos também desfrutar um pouco mais daquela atmosfera. Pensamos algo como "De que outra maneira estaríamos tão aptos a assistir a um show de mágica?". De fato, nosso envolvimento com a vinheta nos deu ainda esse bônus, uma vez que provavelmente continuaríamos sem saber da existência do festival não fosse essa oportunidade. E se ter assistido a alguns dos ensaios já foi uma boa experiência, poder desfrutar do show em toda sua integridade e magnitude seria realmente algo marcante.

Inicialmente, esta vinheta seria exibida nos três dias do evento, sempre minutos antes do início, no momento em o público estivesse chegando e se acomodando no teatro. Por alguns reveses e mudanças de plano, porém, a vinheta não foi exibida na primeira noite do festival. E também por alguns imprevistos nossos, nesse primeiro dia, também não fomos ao show.

Contudo, no dia seguinte, sábado, 15 de setembro, chegamos ao Dragão do Mar cerca de meia hora antes do início. De cara, já nos surpreendemos com uma gigantesca fila à entrada do teatro. Não acompanhamos muito da divulgação do FENOMA, e até pensamos que o evento não vinha sendo bem divulgado, mas aquele contigente de pessoas provava o contrário. Só comecei a pensar uma outra coisa: a julgar pelo tamanho do ambiente, provavelmente não haveria lugar para todos. O teatro, em si, é agradável, climatizado, palco bem disposto, ótimo jogo de luzes e cabine de projeção, mas deixa a desejar quanto à quantidade de cadeiras. Não foi feito pensando em grandes públicos, aparentemente.

Tomamos lugares, Diego preparou-se para fazer alguns registros com sua câmera (que depois foram editados e inseridos ao final da vinheta que coloquei acima, para levar um pouco do que foi a interação a quem não pôde ir ao evento) a ali aguardamos. A vinheta ainda não tinha começado, uma vez que a entrada oficial ainda não tinha sido autorizada. Só estavam no teatro os participantes do show, familiares destes, e pessoas ligadas à produção do evento. Passados mais alguns minutos, o projetor e tela, que já se achavam prontos no palco, começaram a exibir a vinheta, bem na hora que as pessoas começavam a entrar.




Enquanto todos iam se acomodando, a vinheta seguiu seu curso. Foi se repetindo, dentro do loop previsto. Um, dois, três ciclos... O olhar das pessoas era atraído por aquilo, notei que elas observavam e discutiam sobre as imagens. As crianças, animadas, riam olhando para a tela. A música tinha sido deixada baixinha, para compor a atmosfera, e não incomodar as pessoas.











E ela se repetiu, inúmeras vezes, ao longo de cerca de dez minutos. Nesse tempo, entre observar as pessoas e suas reações, fiquei pensando: "é, aí está, conseguimos mesmo". Não que achasse que não fôssemos conseguir, claro, mas é sempre um sabor especial ver algo que nos dedicamos tão intensamente ali, cumprindo o que se esperou dele. E mesmo já na área de animação há algum tempo, ainda nos espantamos ao ver o resultado de horas e mais horas de trabalho passar assim, num piscar de olhos, de ver cenas e detalhes que inserimos muitas vezes sequer serem notadas, percebidas.


Não demoraria muito, o teatro lotaria completamente. As poucas poltranas vazias foram logo ocupadas por quem ainda entrava. Enquanto isso, a vinheta seguia, inabalável, lá na frente. A música, já entrecortada pelo amplo vozerio, ainda convidava os que chegavam a acompanhar as peripécias do mini-mágico. E praticamente quando todos já estavam sentados, foi exibida então a versão com os 20 segundos adicionais, a versão onde enfim ocorreria a interação. Para tal, as luzes foram totalmente apagadas, chamando mais a atenção do público, para já se dar a entender que desta vez ocorreria alguma coisa de diferente.

Nosso personagem, o mini-mágico, "contracenou" com Rafael Titonelly, que também seria responsável pela abertura e condução do show. No momento que sua silhueta surgiu na projeção, Diego já estava gravando. Queríamos registrar não só a exibição da vinheta como também o momento da interação, afinal, esta só seria feita duas vezes. Aliás, devo ainda mencionar que a suavidade do movimento da passagem da cartola ficou bem melhor nos ensaios. Talvez tivesse sido mais fluido se feito como Marcos, o Doutor Mágico, falara: o mágico real ficaria na frente da tela, na frente do personagem, e faria a cartola aparecer. Enfim, de uma maneira ou de outra, o resultado final ainda ficou bem interessante.






Em meio a uma generosa salva de palmas, Titonelly, já de posse da cartola, viu a projeção ser suspensa no ar, revelando-o ao público. O interessante é que se criou um efeito quase como se ele a tivesse atravessado. As luzes se acenderam, marcando o início do espetáculo.

E então foi hora de esquecer um pouco dos frames e cores e nos focarmos apenas em aproveitar o show, em aproveitar aquele momento mágico, literalmente falando. Quem primeiro subiu ao palco foi um garoto, que já foi anunciado como uma das grandes revelações do festival. Tratava-se de Sebak, de apenas 12 anos, que cativou de imediato o público, com carisma e simpatia. A apresentação do mágico mirim, que veio da argentina, foi ainda composta com uma trilha dançante, em um ritmo que embalou intensamente a todos. Sebak, em sua apresentação, manipulou CD's com agilidade surpreendente, fazendo-os aparecer e desaparecer. Um skate também estava entre os objetos usados. Demonstrava grande técnica, e parecia muito feliz por estar ali, parecia realizado. Sebak fez inúmeras mágicas, em um ritmo tão rápido e intenso que algumas deles não consegui acompanhar direito, por ainda estar pensando nos truques anteriores. Ele concluiu sua apresentação completamente ovacionado por todos e devo dizer que foi um dos melhores a se apresentar nesse dia, sem dúvida. Sebak tinha tudo, e sua presença de palco não parecia forçada, programada, era simplesmente inocente, alegre, pulsante.

Depois foi a vez de Eduardo Peres, mágico e palestrante que só pelo porte e maneira de falar já percebemos ter certo renome nacional e internacional. Peres atua também no setor corporativo com conferências motivacionais e, antes de fazer seu show, conversou um pouco com a plateia, apontando pontos interessantes sobre a convivência humana e lançando questões que propunham certa reflexão. Bem articulado, escolhendo bem suas palavras, Peres pediu a ajuda de pessoas do público (foi uma constante entre muitos dos mágicos) para realizar seus números.

Eduardo Peres conduzia seus truques quase como se dessa uma palestra, seu humor preciso foi um diferencial 

Um dos momentos mais surreais da noite foi a apresentação de Mr. Daba. Com jeito irreverente e um 'portunhol' competente, o mágico encenou uma louca partida de tênis no palco. Chamou uma pessoa da plateia, e passou a chamá-la de Guga (nome de um tenista escolhido pela pessoa). Fez mágicas com bolas e raquetes, entre outros truques. Também divertiu muito o público com tiradas no mínimo inusitadas e terminou por chamar a pobre pessoa sempre de Guga, ao fim do número ninguém mais lembrava seu verdadeiro nome.

Mr. Daba e "Guga", em uma partida de tênis mágico

O japonês Shot Ogawa também foi outro mágico muito aplaudido. Com um terno branco, quase ofuscante ante a posição do jogo de luzes, ele fez vários truques com varinhas coloridas, lenços e outros objetos, demonstrando mãos hábeis e incrível concentração. Como Ogawa não fala português, foi traduzido em tempo real, o que gerou algumas situações engraçadas, das quais o mágico, com muito bom humor, se saiu muito bem.

Shoot Ogawa em momento-chave de seu número, na segunda noite do FENOMA 2012

Já no domingo, último dia de FENOMA, Ogawa impressionou o público com mágicas que questionavam a realidade

Um outro número bastante interessante se deu com Vinny, um jovem mágico daqui mesmo do estado. Ele adotou pequenos guarda-chuvas, ou sombrinhas, como elemento central. Entrou no palco sozinho, aparentemente sem nada, e de repente, fez surgir a primeira sombrinha. O que se viu a seguir foi um belíssimo número de multiplicação. Vinny as girava, criando curiosos padrões de cores, e mais e mais sombrinhas iam surgindo, enchendo o palco, e os olhos de todos que acompanhavam. Foram dezenas delas, até sua participação ser encerranda com a aparição de um guarda-sol. Mágica memorável!

Vinny e sua incrível multiplicação de guarda-chuvas, ótimo número do FENOMA 2012


Fechando essa noite, tivemos ainda a bela apresentação de Ryan Rodrigues, que apresentou um misto de coreografia e mágica. Ryan trouxe a suavidade de leques para o palco, multiplicando-os, manipulando-os, e encantando a todos. Sua roupa lembrava a de um samurai, e ela foi sofrendo alterações durante toda a rotina, sendo assim parte fundamental de sua apresentação.

Ryan Rodrigues, além de dirigir o espetáculo, também se apresentou nos shows de Gala

O show terminou por volta das 22h. Todos os mágicos da noite foram novamente anunciados e voltaram ao palco, onde receberam os aplausos calorosos do público, além de serem também fustigados pelos inúmeros flashes das máquinas fotográficas. Reconhecimento e prestígio mais que merecidos, foram shows fascinantes e surpreendentes.



Na sequência, houve uma breve e reservada homenagem ao mágico Joe Marbel, falecido em dezembro de 2011. Nesta ocasião, seria lançado um DVD reunindo todas as participações do mágico e suas colaborações no Fenoma, entre outros materiais. Então, bem na salinha de entrada do teatro, todos os mágicos foram reunidos e Marcos, presidente do NUAMAC (Núcleo de Amigos Mágicos do Ceará), falou algumas palavras, sobre a importância e falta que Marbel tem e faz no cenário mágico atual. Também estava presente o filho de Joe Marbel, demonstrando respeito e admiração pelo trabalho e obra do pai, ainda que visivelmente emocionado. Ainda, foi anunciada e entregue a cada um dos mágicos desta edição do Fenoma uma medalha, a medalha Joe Marbel. Foi gesto emocionante e reconhecedor.




Mas o FENOMA não se resumia só a shows, a programação do evento era bem ampla. Havia conferências apresentadas pelos próprios mágicos, nas quais se comentavam truques e afins, com destaque para a de Héctor Carrion. Ainda, tinha-se a Feira Mágica, com variedade de produtos para mágica, aberta ao público. Outro destaque era também o espetáculo teatral A Cidade Mágica, que foi encenado no Theatro José de Alencar e trouxe todo o elenco formado por mágicos, numa interessante maneira de fundir a arte mágica com dramaturgia.

Infelizmente, por contratempos nos horários, não pudemos acompanhar grande parte dessas programações. Assim, só voltamos mesmo a interagir com o FENOMA na noite de domingo, 16, quando se daria então o último show de Gala, encerrando o evento.Tivemos neste dia mais apresentações, alguns novos truques de mágicos do dia anterior, (como a segunda foto de Shoot Ogawa, que coloquei mais acima) outras de mágicos que ainda não tinham se apresentado, além, é claro, novamente, da apresentação de Rafael Titonelly.

Alías, por falar nele, posso dizer que Rafael exerceu ali quase uma posição típica do rótulo "ame-o ou deixe-o". Era evidente, desde os primeiros minutos dos shows, que ele já desempenhava um personagem, que não era o mesmo Rafael de fora do palco. Com o andamento dos shows, e após alguns poucos truques (e mais piadas) feitas por ele, percebi como era meio apelativa sua maneira de conduzir o show. Ele parecia usar um pouco do stand-up para ganhar as graças do público. Suas aparições eram sempre com as luzes acesas, talvez para facilitar de chamar as pessoas do público – dizia gostar sempre de ajuda para seus  números, mas o que mais parecia fazer era criticar e até fazer piadas de mal gosto sobre o porte físico das pessoas. Claro que a maioria das pessoas do público adorava aquelas piadas toscas, a maioria ria mesmo, um riso alto, típico quase de quem quer chamar a atenção, mas havia muitas crianças presentes ali, muitas crianças que não viam qualquer graça naquilo. Onde estava o respeito por elas? E mesmo às pessoas mais conservadoras? Piadas infames que mais denegrem do que causam graça, foram ouvidas constantemente. Toda essa situação me lembrou muito o filme O professor aloprado (1996), na cena em que o professor entra em um bar para assistir a um show de humor e se vê ridicularizado continuamente pelo 'artista'. Foi mais ou menos essa a imagem que Titonelly passou, em boa parte desses momentos de stand-up.

Rafael Titonelly mescla mágica com comédia stand-up, mas passa do ponto muitas vezes, tornando-se dispensável e vulgar

Claro que ele também tinha bons trunfos, e muitas vezes contava histórias realmente engraçadas, criativas, fazia piadas de si mesmo e ria de suas próprias desgraças, além de demonstrar uma ótima capacidade de improvisação, em momentos que o show não ia bem para o lado que ele levava. E se a situação apertasse demais? Ora, Titonelly tinha uma arma secreta: tirar a camisa. Como assim? Prefiro nem comentar, mas quem estava lá, ou o conhece, sabe do que estou falando. E isso funcionava? Sim, mas era mais um momento dispensável e vulgar.

Se por um lado as piadas sem graça de Titonelly desvirtuaram um pouco o show, por outro a ideia de ter um apresentador que não fizesse só mágica era boa. Era como um breve intervalo entre os shows, um relaxamento. As luzes se acendiam, o público descontraia um pouco, mas Titonelly parecia exagerar, passar do ponto, saturar. Em certo momento, ao chamar um garotinho para ajudá-lo, sua falta de tato fez com que o garoto chorasse. O público ficou meio dividido nessa hora, uns penalizados, outros criticando o menino. Crianças são sinceras, não se submetem facilmente a fingir caras e sorrisos. O garotinho só refletiu a sensação de estar no palco, sem saber o que fazer, orientado por aquele 'louco'. Como falei, percebíamos que não era só a pessoa Rafael Titonelly, mas sim uma espécie de personagem, criada por ele, para aqueles momentos.

Não era preciso exagerar tanto ou baixar o nível das piadas para divertir o público. Eduardo Peres, que mencionei lá em cima, conversou bastante, contou histórias hilárias e rapidamente cativou a todos, sem precisar criticar as pessoas, usar palavras chulas, ou muito menos tirar a camisa. Claro, a personalidade é o que nos torna diferentes. Titonelly, como já o vi dizer em uma entrevista, só gosta de fazer mágicas junto com comédia, essa é quase uma marca sua, tanto que é conhecido por muitos justamente por magicomediante. Nesse ponto, para quem gosta desse tipo de piada, sua participação foi um prato cheio, não há dúvidas. E já digo logo que não quero em nenhum momento aqui repudiar seu método, técnica ou conduta. Só estou comentando um pouco do que senti e percebi na hora, o que foi partilhado por meu irmão, Diego Akel, e outros familiares que também assistiram ao show. Titonelly, no geral, fez uma boa apresentação, animada e descontraída, só passou mesmo do ponto em vários momentos, demonstrando um pouco de falta de respeito, parecendo esquecer-se da mistura de públicos que havia ali, das inúmeras crianças que o assistiam, e que talvez não fosse bem aquilo que esperavam ver.

Bom, voltando a falar do show em si, nesse último dia de Fenoma, domingo, o teatro lotou em poucos instantes. Igual como no sábado, havia uma fila com dezenas de pessoas à entrada. Após o início, inúmeras delas ainda ficaram de fora. Foi feita uma concessão, para entrarem mais pessoas, e rapidamente o chão e laterais do teatro foram preenchidas, por gente que se sentou no chão mesmo, o importante era assistir ao show.

Depois de cerca de duas horas de mais mágicas, músicas, luzes e stand up, por voltas das 22h, houve o encerramento do show, que dessa vez fechava também o evento. Fernando Dantas, que era responsável pelo marketing, e que havia contracenado com Titonelly em certas partes do show, agradeceu ao público o prestígio dado ao FENOMA, ao longo desses três dias, enalteceu a importância do evento, e chamou todos que fizeram o festival a se juntar no palco, para uma foto coletiva. O elenco de mágicos, a equipe de produção, todos subiram e se agruparam lado a lado. Até alguns convidados e amigos que não participaram diretamente do show foram chamados, no clima de encerramento. Eu e Diego, sentados, ficamos surpresos quando Marcos, o Doutor Mágico, lá de cima, chamou para o palco os autores da vinheta que engrandeceu o espetáculo, do mágico maluco. Nos levantamos, sob alguns aplausos, e nos juntamos a todos eles, já fechando o plano que limitaria a fotografia. Sob a orientação da fotógrafa para não nos mexermos, a fim de que todos aparecessem, a foto que marcava o encerramento do Fenoma foi tirada. Foi muito bacana para nós também estarmos nela, de ter feito parte deste ótimo evento.

Encerramento do Fenoma 2012. Equipe responsável pelo evento se reúne no palco. Foto: Sheila Oliveira


Tivemos ainda uma breve confraternização, no palco mesmo, onde todos se cumprimentaram, tiraram mais fotos, e conversaram brevemente. Era uma sensação muito boa de fazer parte daquilo, nos sentimos quase como colegas dos mágicos, envolvidos naquela atmosfera. Durante a produção da vinheta, nossa passada pelo mundo da mágica tinha começado a nos cativar e atrair, a ponto de pensarmos até em começar a praticá-la. Ali no palco, diante de nomes como Shot Ogawa, Diego comentou novamente comigo a vontade de começar a treinar mágica. É, pensei, seria mesmo bem interessante. Quando crianças, claro, nos encatávamos com truques de cartas e moedas, e até sabíamos fazer alguns truquezinhos básicos de um livrinho. E se agora, anos depois, tentássemos desvendar esse horizonte a tanto tempo esquecido. Por que não?

Cumprimentamos alguns dos mágicos, agradecemos e fomos agradecidos pelo Doutor Mágico, com quem comentamos nosso interesse de aprender a arte mágica. Ele disse haver cursos, organizados pelo próprio NUAMAC, e nos ficamos de ir até lá um dia, dar o primeiro passo.

Para finalizar, devo dizer mais uma vez da excelente experiência que foi para nós fazer parte desse grande festival que foi o FENOMA. O prazer de poder criar, com grande liberdade, a vinheta, a pesquisa extensa que fizemos nos artigos mágicos e, claro, a oportunidade de assistir aos shows, que podemos considerar quase um bônus, tudo foi único. Já disse e repito: um dos momentos mais bacanas para nós foi ver a vinheta sendo exibida, cumprindo a função a qual foi designada, ver acontecer diante de nós algo que era apenas uma ideia dias atrás, quase como num passe de mágica!

Bom, quanto a nos aventurarmos ou não no mundo da mágica, ainda não aconteceu propriamente. É um mundo novo, e como qualquer coisa nova que ser queira fazer, é preciso dedicação e determinação, ou seja, abrir um tempo para esse novo segmento. Certa vez ouvi um especialista na organização do tempo dizer que quando queremos fazer algo novo, temos sempre que olhar o que já fazemos e pensar: "Será que posso manter mais isso"? E que muitas vezes é preciso deixar uma coisa para poder fazer ou ter outra. Com certeza, seguir a área da mágica significaria talvez reduzir o tempo em alguma outra de nossas atividades, será que estaríamos prontos para tal? É com isso em mente que talvez continuemos ainda apenas pensando nessa possibilidade.

Enfim, amigos, busquei passar aqui, ao longo dessas duas extensas postagens, um pouco de tudo o que sentimos e vimos, eu e meu irmão, antes, durante e após o Fenoma 2012. Agradeço a todos que leram!


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Teatro e dança: As Três Irmãs


OBS: Fotos de divulgação do espetáculo, retiradas do Google (exceto as duas referidas).


Já estava previsto fazer esse post há pelo menos uns três meses, época em que ele 'aconteceu', mas somente agora pude enfim terminá-lo. Não sei se o espetáculo ainda está sendo apresentado...

Desde que assisti à peça A Galinha Degolada, ganhei grande interesse por teatro, por várias razões, entre elas a tênue linha que há entre ele e a literatura, como mencionei na postagem sobre a peça, bem aqui.

Alguns dias passados dali, voltei ao SESC Iracema, aqui em Fortaleza, e deparei-me com um anúncio de outra peça: As Três Irmãs. A apresentação seria na semana seguinte. A princípio, imaginei ser uma adaptação da obra homônima, um clássico do escritor e dramaturgo russo Anton Tchékov, o qual muito admiro. Pensei, de cara, que seria algo parecido com o que vi na adaptação do conto de Horácio Quiroga, naquele outro dia. Fiquei bastante entusiasmado, até perceber, pelo cartaz, que não se trataria de uma encenação tradicional, mas de um espetáculo de dança, realizado pela Paralelo Cia de Dança. Contudo, ainda não muito familiarizado às estruturas teatrais, imaginei que haveria alguma narrativa, talvez contando uma parte da história ou algo parecido. Pelo sim, pelo não, resolvi procurar a peça para ler antes de assistir à apresentação.



Graças ao Google, não foi nada difícil achá-la, e naquele mesmo dia comecei a ler. Não era um texto rápido, como eu já desconfiava. A peça era composta por quatro atos, que juntos totalizavam 54 páginas. Ávido para ter logo uma visão geral da história, antes de assistir à adaptação teatral, dediquei um bom tempo dos dias seguintes a essas páginas.

Já no primeiro ato, percebi a força dessa obra. Personagens densos, ambientação precisa, grande carga filosófica e psicológica. Tudo se mesclava em diálogos intensos, formando uma atmosfera que prendia facilmente.
A trama desta que é uma das mais célebres peças de Tchékhov gira em torno de três irmãs, como diz o título. São elas Irina, Olga e Macha. As três vivem há anos em uma província russa, mas, desacreditadas da vida (exceto Irina, a mais nova), levam uma rotina monótona, e acreditam que voltar a Moscou, cidade onde passaram a infância, seja sua única esperança. Entre os demais personagens, estão ainda Andrei, irmão das três, vários militares e outros de apoio. Mas depois voltarei a falar da obra original.

Bem que me esforcei, mas não consegui ler tudo antes do dia da encenação. Li três atos, suficientes para já ter uma boa noção da trama. Imaginei ser mais do que o suficiente, uma vez que sequer tinha a certeza de que seria mesmo uma adaptação, o que, portanto, tornaria essa leitura não tão importante. Quando voltei ao SESC, no dia marcado, vi várias fotos de divulgação da peça, próximo à bilheteria. Por elas, pude ver, agora claramente, que se tratava mesmo de um espetáculo exclusivamente de dança. Três moças em poses de bailarinas. Não parecia haver mais nenhum personagem em cena e, pelas fotos, o cenário se resumia a um sofá.




Confesso que a princípio fiquei um pouco receoso, e até ligeiramente desanimado ao perceber que seria mesmo algo bem diferente do que eu tinha imaginado. Porém, pensei por alguns instantes. Seria uma oportunidade de ver algo novo, ainda desconhecido para mim. Um espetáculo que priorizaria o movimento e sua fluidez de uma maneira única. A Paralelo Cia de Dança ia apresentar um espetáculo inspirado na obra de Tchékhov, que não necessariamente buscava estabelecer um elo entre a literatura e a dança. Foi com estes pensamentos que comprei o ingresso e tomei um lugar à plateia.

No centro do palco havia um sofá, sobre o qual jazia um ursinho de pelúcia. Próximo do móvel, pendendo do teto, preso a algo que parecia um cabo, estava um buquê de rosas. Todos eles, sofá, ursinho e buquê, seriam peças importantes no desenrolar do espetáculo. Eis que surgem então as três atrizes. As três irmãs. Irina, Olga e Macha, e começam a executar suas coreografias.





Durante toda a apresentação, que durou cerca de 50 minutos, observei com grande fascínio todas aquelas evoluções. A coreografia tinha muita suavidade e leveza, sendo conduzida por uma música envolvente, com altos e baixos, em um ritmo e sintonia extaseantes. As três atrizes ora interagiam juntas, ora se afastavam, independentes, ficando quase isoladas uma da outra, usando toda a extensão do palco. Era como se cada uma estivesse em seu próprio mundo, vivendo as angústias e aflições de suas personagens. Na plateia, nesses momentos, tínhamos que alterar olhares entre as três, e mesmo assim, em certas horas, quase não conseguíamos acompanhá-las.

Uma coisa que também me chamou muito a atenção, assim como em A Galinha Degolada, foi a iluminação. O intenso jogo de luzes que se alternava de instante em instante, dando a cada movimento uma atmosfera única, uma emoção mais condizente, crível. Não foi à toa que vários fotógrafos circulavam em volta do palco, em busca dos melhores ângulos para suas fotos.





As arquibancadas que formavam a plateia estavam bem movimentadas, talvez não lotadas, mas pude perceber um público bastante interessado. Para mim, ainda pouco habituado a esse ambiente teatral, como já disse, tudo era novidade. Não pude deixar de notar como um espetáculo como aquele tinha seu toque peculiar e atrativo. Era surpreendente ver o que se podia obter com o fato de não haver qualquer diálogo, de toda a comunicação ser feita, expressada, somente através daqueles movimentos tão precisos, tão cuidadosamente coreografados e ensaiados. Inclusive, a atriz Joyce Barbosa, que interpreta Macha, é responsável também pela coreografia, figurino e direção artística. Ótimo trabalho!

Falando um pouco de simbolismos, de maneira bem livre e pessoal, o sofá, a meu ver, representava a estagnação, a prostração à qual as três se submeteram, a incapacidade de reverter a situação, que no texto da peça é retratado pela desesperança, que habita amargamente o coração delas. O ursinho talvez representasse um mínimo de alegria encontrado por elas naquela vida tão melancólica e sem sentido. O buquê, que começa pendendo do alto, de certa forma inatingível, seria o símbolo da esperança, tão almejada e perseguida pelas três. Em certos momentos, elas o jogam ao chão, como que incertas de suas decisões.



Quando as luzes se acenderam, toda a plateia prorrompeu em aplausos. Comecei a refletir algumas dessas sensações, enquanto olhava as três atrizes no palco, que agradeciam a ovação. Elas avisaram que fariam ainda um breve momento de conversa com o público, onde explicariam em termos como foi o processo de criação do espetáculo. Porém, boa parte dos presentes se levantou quase incontinente, deixando as dependências da sala. Os que permaneceram, puderam ouvir detalhes dos bastidores da produção, da concepção da ideia à montagem do espetáculo. Se não me engano, a produtora também subiu ao palco, onde foram feitos também comentários sobre a obra original, de Tchékhov, e os pontos e singularidades escolhidos para servir como base da coreografia por elas criadas.

A plateia, ou o que sobrou dela, fez ainda algumas perguntas, que exploraram mais alguns pontos interessantes deste belo espetáculo. Aproveitei esses instantes finais para registrar, na medida do possível, o momento, através da câmera de meu celular. Seguem as duas imagens abaixo:








Nos dias seguintes, após a apresentação, terminei a leitura da peça, com grande entusiasmo. Como falei no início desse texto, esta obra de Tchékhov é impregnada de questionamentos filosóficos. As três irmãs, atormentadas pelas desventuras de sua rotinas, perguntam-se a todo o instante qual seria o sentido da vida, se é que há um. Repensam atos, ações, sentimentos. Discutem esses assuntos com os demais personagens, que também demonstram um viés filosófico. Por que vivemos? Por que sofremos? Será que tudo isso é em vão? Sendo assim, tanto faz o que fizermos da vida? Tais pensamentos, levantados em extensos e complexos diálogos, nos faz repensar conceitos e até mesmo nossa própria vida, de uma maneira arrebatadoramente profunda. Cheguei a fazer breves pausas entre um diálogo e outro para refletir melhor aquilo, e até marquei as passagens mais marcantes (assunto para um outro post, talvez?) Para mim, As Três Irmãs é, sobretudo, uma história de esperança, de uma busca por dentro de sim mesmo, uma vez que mostra os personagens exatamente como eles são. Não há grandes desenlaces ou conflitos dramáticos, propositalmente. Tchékhov, como é comum em suas obras, prefere retardar essa ação em prol do desenvolvimento psicológico de seus personagens. Isso é significativamente notado na rotina das três irmãs, com suas desesperanças e ideologias tão convincentes e intensas.

A Paralelo Cia de Dança conseguiu transmitir muito bem essa sensação de melancolia, apresentando poucos elementos em cena, priorizando ação e gestos automáticos, quase motores, refletindo a angústia de cada personagem, a inquietação de suas mentes, incapazes de reagir, de se erguer. Seu único ideal de esperança é a volta a Moscou. Será mesmo que esse é o único caminho?

E pensar que eu quase desisti de assistir! Foi uma das experiências mais bacanas que passei ultimamente, pois me despertou para muitas coisas as quais ainda não conhecia, como a dança e essa incrível peça de Anton Tchékhov!

Parabéns às três atrizes e a toda a equipe que participou desse espetáculo!

Ah, mas agora não posso esconder o desejo de assistir também a uma encenação tradicional da peça, que é uma das mais representadas no mundo cênico!

Bom, vou parando por aqui! Para finalizar, vejam mais detalhes sobre a Paralelo Cia de Dança no site oficial do grupo. E, claro, leiam a obra As Três Irmãs aqui!