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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



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domingo, 1 de janeiro de 2017

Livro: O escaravelho do diabo



Fotos: 
Capa do post e páginas do livro: Denis Akel 
Outras fotos: Google 

E foi-se 2016! Planejei esta postagem para ontem, mas surgiram reveses e só pude publicá-la hoje, o que pelo menos a torna já a primeira postagem deste novo ano. Bom, já faz algum tempo que não falo de livros por aqui, com opiniões e comentários de algumas de minhas leituras, sendo assim resolvi trazer um pouco sobre este livro e o que ele representa para mim. Boa leitura, e bom ano novo a todos!

RETORNANDO AO PASSADO

Há alguns meses, estava buscando uma nova leitura, para intercalar com outras, algo mais leve, mas ao mesmo tempo agradável. E o melhor momento para se encontrar tais leituras é bem quando estamos arrumando as estantes de livros. Passamos por tantos, de recentes a mais antigos, que quase sequer lembrávamos que tínhamos, e desta inocente arrumação, chegamos a ótimas descobertas, ou por que não dizer, redescobertas.

Foi assim que me senti, quando remexia um velho organizador com livros muito antigos, alguns paradidáticos e clássicos de outros tempos. Ali estavam vários que li na época escolar, bem como outros que nunca lera ainda, mas que tinham sido guardados na esperança de que um dia ganhassem algum brilho sobre suas capas e páginas já amareladas. Lá estavam ainda vários títulos da série Vaga-Lume, uma célebre coleção dos anos 70 (e mantida até hoje), responsável por alimentar toda uma geração de leitores, criando e saciando muito bem esse hábito, numa época em que não tínhamos tantas distrações, tantas telas como se tem hoje, onde o ato de ler tinha outro sentido, mais puro, mais arrebatador.

Quem conhece a série, sabe do que estou falando, de livros como Spharion, O rapto do garoto de ouro, O Mistério do Cinco Estrelas, entre dezenas de outros. Já até, inclusive, falei de um outro livro desta coleção em um outro post (veja aqui). Desta vez, arrumando e limpando os livros, me deparei com um dos maiores clássicos da Vaga-Lume, O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida. Peguei-o nas mãos e numa rápida folheada comecei a relembrar aquela história que tanto me fascinou. Decidi que seria um ótimo momento para revisitar este livro, também porque recentemente foi lançado um filme baseado nele, e gostaria de ter a vivência do livro antes de assistir ao filme, que, aliás, parecia meio duvidoso.

O LIVRO  



A experiência de retornar a uma leitura deste tipo, depois de muito tempo, e agora com uma maior maturidade literária, se revelou muito mais intensa do que jamais poderia imaginar. A partir da primeira página, das primeiras descrições e diálogos, me vi inundado pelo estilo tão característico que permeia boa parte das obras da coleção Vaga-Lume, uma atmosfera de mistério que prende, envolve, já de cara, como se a história conseguisse se reinventar, se transmutar em algo novo, diferente.




O que acredito que pouca gente sabe, como eu também não sabia, é que apesar da publicação do livro pela Vaga-Lume ter sido nos anos 70, a história foi originalmente publicada já nos anos 50, como folhetim da famigerada revista O Cruzeiro. Não consegui encontrar nenhuma foto deste material mas é muito interessante saber desde fato; a trama já carrega mais de meio século e ainda se mostra forte e contundente, característica comum aos clássicos.

A ESTÉTICA DA VAGA-LUME




A série Vaga-Lume se tornou bastante célebre também pelo peculiar cuidado que tinha com as capas e ilustrações de suas obras. As primeiras edições dos livros, por pertenceram às décadas de 70 e 80, traziam aquela cara tão característica destas épocas, com desenhos intensos e cores vibrantes. Além das capas, os livros são permeados também por ilustrações complementares à trama, que ajudam a lhes dar uma cara ainda mais característica e marcante. Até hoje, lembro bem das ilustrações de Spharion, que se equilibravam perfeitamente à história. Com o Escaravelho, não foi diferente. A obra foi ilustrada pelo artista e designer Mario Cafieiro, que traz um refinamento único, um estilo meio fotorealístico, bem próprio da época. Ao longo dos anos, a série mudou as capas de seus livros, talvez para se encaixarem nos "padrões" de cada época. Cheguei a ter primeira edição da obra, na minha opinião a melhor de todas, mas a minha atual (da capa do post) é a de 1998, e essa última é a mais recente, lançada na ocasião do filme baseado no livro:


Primeira edição, de 1974

Edição dos anos 80,90

Edição especial com referência ao filme, lançada em 2016

NA COMPANHIA DOS ESCARAVELHOS

O enredo, em linhas gerais, fala de uma série de misteriosos assassinatos, cometidos apenas contra pessoas ruivas, em uma cidade do interior de São Paulo. Em todos os casos, há algo em comum: um escaravelho é sempre enviado às vítimas. Qual motivo? Qual explicação? Este é o mote lançado logo nas primeiras páginas, o primeiro fio do novelo tecido por Lúcia Machado de Almeida. O título sugere ainda alguma interferência sobrenatural, aumentando ainda mais o mistério. Uma trama forte, intensa, que provavelmente levantaria polêmica se fosse publicada pela primeira vez nos dias de hoje, onde há tanto conservadorismo e censura no que se vê nos livros. Entre os anos 50 e 80, época em que foi escrito e consagrado, certamente exerceu uma forte disposição no imaginário dos muitos leitores que abraçaram o livro até o final.



Contudo, há um respeito, e por que não dizer inocência, na história, em relação a hoje em dia. Por ter sido escrita nos anos 50, tudo carrega uma certa dignidade, um ar mais respeitoso, que se faz presente em todas as suas cenas e diálogos, e chega a ser quase engraçado às vezes. O livro usa expressões e modismos praticamente impossíveis atualmente, é uma curiosa viagem a um tempo onde tudo parecia mais inocente, mais simples. A história segue um fluxo agradável, instigante, à medida que se compreende aos poucos os seus desenrolares e desfechos. Disfarçado em um livro aparentemente voltado apenas ao público infanto-juvenil, está um muito bem elaborado romance policial, com personagens que rapidamente se permitem envolver pela trama a ponto de engrandecê-la a cada página. O núcleo da pensão de Cora, onde se passa boa parte da ação, e se conecta a todos os demais núcleos, agrega humor e mistério, ingredientes que se combinam e conduzem muito bem a tensão constante que gira em torno da obra.

Quando li este livro nas primeiras vezes, ainda criança, lembro de que a história era tão estranha e surreal que não entendi muita coisa. Não entendia (ainda não entendo até hoje) essa bizarra capa de 74. Com o passar do tempo e novas releituras, comecei a enxergar o brilho por trás do escaravelho. Quando descobri o gosto pela escrita, comecei a perceber ainda mais nuances nas páginas desta história tão conhecida do público juvenil, como direi mais a seguir.



A trama tem os escaravelhos como peça importante de todo seu novelo, mas a participação dos insetos vai muito além disso. Conforme pude perceber durante esta leitura mais recente, a autora se empenhou intensamente nesta parte, recorrendo a toda uma variedade de espécies, nomes científicos e obras e tratados relativos a eles, tudo baseado em material existente e catalogado, um trabalho de pesquisa que deve ter dado esforço considerável, ainda mais se considerarmos que naquele tempo não havia nenhuma das facilidades que se tem hoje. Era preciso folhear livros e mais livros, conversar com especialistas... quase como fazem os personagens de seu próprio livro. A maneira como ela utilizou os insetos para associar aos crimes cometidos é muito criativa, e chega a lembrar histórias de Sherlock Holmes. A cada novo caso, aumenta-se a curiosidade, a incerteza, o que virá a seguir?

Uma das obras de referência usada pela autora e citada no livro 


Há ainda inúmeras outras referências de obras literárias, filosóficas, de óperas, músicas, tudo de maneira sutil e discreta, mas suficiente para fazer a diferença. Aliás, uma das coisas que tenho achado mais fascinante, quando retorno a livros já lidos, é perceber esses detalhes, nuances talvez não percebidas nas leituras anteriores, e assim desbravar novas percepções sobre a história, sobre a época em que foi escrito, sobre o autor... é quase como uma pequena investigação que se desenrola em paralelo à trama principal.



Curioso, durante esta leitura, foi quando me vi surpreendido por não lembrar mais como era o final do livro (o que foi ótimo), e me deliciei em pouco a pouco ir descobrindo as respostas do grande quebra-cabeças proposto pela autora. A maneira como ela finaliza a obra é inacreditável, quase chocante, um desfecho inesperado que arrebata pela ousadia.

A AUTORA



Lúcia Machado de Almeida é a mente por trás do Escaravelho do Diabo. Natural de Minas Gerais, nasceu em 1910, tendo passado parte da infância na fazenda Nova Granja, de seu pai, no município de Santa Luzia. A autora mais tarde diria da importância que isso teve em sua vida, em sua formação, em sua visão do mundo. Estudou literatura, história da arte, línguas, piano, entre outras áreas, o que lhe deu ampla gama de recursos para engrandecer suas histórias. Além disso, era irmã dos também escritores Aníbal Machado, Paulo Machado e Carolina Machado, tia dos escritores Maria Clara Machado e Ângelo Machado e cunhada do poeta Guilherme de Almeida, o que evidencia que a literatura sempre esteve muito presente em sua vida. Publicou pela primeira vez aos 14 anos, o poema Desencanto, no jornal Estado de Minas. O primeiro livro, No fundo do mar, viria alguns anos depois. Lúcia também atuou como jornalista, escrevendo para inúmeros jornais e revistas da época. Além do Escaravelho do Diabo, outras de suas obras conhecidas são: Spharion, Aventuras de Xisto e O caso da borboleta Atíria, também publicados na Vaga-Lume. A autora faleceu em 2005.

Enquanto pesquisava mais sobre o livro para escrever este post, encontrei o vídeo abaixo, uma bela e rara entrevista com Lúcia, na qual ela fala um pouco de sua vida, do ofício de escritora, sua relação com a escrita, tudo com um jeitinho tão próprio, tão terno, autêntico, que transmite uma paz atemporal. Um grande exemplo a todos que escrevem ou admiram a arte literária, a arte de contar histórias.




Que o Escaravelho continue incentivando e fascinando mais e mais gerações vindouras, bem como as demais obras da autora. É ótimo perceber como tivemos (e ainda temos) excelentes autores no Brasil. Chego ao final deste texto já empolgado para reler os outros livros de Lúcia e também ler pela primeira vez os que nunca li. Penso que descobrir é bom mas redescobrir é ainda melhor; redefinir imagens, certezas, é o que nos torna humanos. Incrível como nesse mundo louco de hoje, de tantas distrações, efemeridades e futilidades, o simples gesto de abrir um livro pode ser uma salvação, um voltar-se para dentro de si mesmo. Acredito que possa nos tornar pessoas melhores. E talvez nunca se precisou tanto fazer isso.






quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Livro: Doze horas de terror



A série Vaga-Lume foi (e talvez ainda seja) uma das grandes responsáveis por incitar o hábito da leitura em muita gente, em especial a faixa jovem, a partir da década de 1970. Uma porta inicial de acesso ao fascinante mundo da leitura, à descoberta desse caminho tão mágico, que acontece de maneira tão peculiar e própria para cada pessoa. As obras sempre apresentavam enredos instigantes, muito bem desenvolvidos por grandes nomes de nossa literatura. Um dos livros, inclusive, que considero grande incentivador por me motivar a gostar e querer escrever é da própria Vaga-Lume, Spharion, mas deixarei para falar dele em outra oportunidade. O livro em questão neste post é Doze Horas de Terror, de Marcos Rey.

Encontrei-o ao acaso, em um sebo, por dois reais. Já havia lido clássicos de Rey como O Rapto do Garoto de Ouro e O Mistério do Cinco Estrelas, então não pude deixar de agarrar mais essa oportunidade, apesar do estado lastimável em que o livro se encontrava. Assim, foi direto para o local da estante onde costumo guardar livros mais antigos, lá ficando indefinidamente.

Resolvi então, esses dias, fazer uma leitura mais livre, mais solta, e esse livrinho de Marcos Rey foi exatamente o primeiro que me veio em mente, à medida que me lembrei dos demais livros da Vaga-Lume e do que havia comprado recentemente. Sem delongas, resolvi lê-lo.

Imagino que para muita gente, a primeira impressão que se tem, ao olhar para um livro da série Vaga-Lume, é rotulá-lo apenas como um mero livro infanto-juvenil, um livro menor, ou sem muito valor, ou ainda, limitado. Acho tudo isso uma grande bobagem, a começar por esses rótulos, infanto juvenil é um termo que por si só já limita o alcance de qualquer obra, cega e impossibilita de se enxergar ali mais do que se imagina encontrar. Claro que não dá também para fugir deles, uma vez que nossa sociedade é quase que totalmente baseada em rótulos, mas acredito que livros vão bem mais além disso.

Disposto a me deixar levar pela boa história que certamente ali se achava, comecei a ler o livrinho. A trama gira em torno de Júlio, um rapaz que chega a São Paulo para trabalhar, vindo do interior, divide um apartamento com o irmão, Miguel, e tenta se acostumar ao ritmo acelerado e denso da cidade grande. Os dois quase não se encontram, uma vez que trabalham em horários diferentes. Os dias se passaram normalmente, até que certa vez, ao voltar para casa, Júlio se depara com o apartamento totalmente revirado. Logo em seguida, é surpreendido por um telefonema. Uma voz feminina, que ele nunca ouviu antes. Daí inicia-se o fio condutor da trama, com a entrada de Ruth, uma moça que põe Júlio a par dos negócios excusos em que seu irmão andou se envolvendo. Juntos, ele e Ruth descobrirão que não será fácil se livrar de uma perigosa quadrilha de traficantes. 

Até esse ponto, o enredo talvez não chame muito a atenção, mas é a maneira como a história se desenrola que achei o grande destaque do livro. Cada capítulo é nomeado por uma hora, de modo que acompanhamos ininterruptamente os passos dos protagonistas. Toda a trama, da primeira à última de suas 128 páginas, acontece em apenas um dia, mais precisamente nas dozes horas que lhe servem de título. Isso dá um fôlego incrível às sequências, pois a passagem de tempo tem papel crucial na narrativa, ora limitando, ora favorecendo sua evolução.



O texto de Marcos Rey é simples, rápido e preciso, com uma ótima descrição e narração, criando cenários e cenas maestralmente, cativando o leitor. O trecho da briga entre o "jacaré" e o "louva-a-deus" é genial. Há ainda sutis toques de humor e boas doses de suspense permeados em quase todas as páginas, fazendo a leitura se renovar constantemente, a cada novo detalhe, a cada 'hora' passada.



Talvez não tenha o mesmo brilho de outros livros do autor, como O Mistério do Cinco Estrelas, mas é com certeza uma história digna de seu nome, que traz ainda um certo ar nostálgico, por ser uma das últimas obras escritas por Marcos Rey, antes de seu falecimento em 1999. Nela, como em quase a totalidade de seus textos, temos ainda a força da cidade de São Paulo como personagem maior, como via condutora de todos os fatos, como palco ou set de filmagem, no qual o escritor exprime livremente sua visão, alimentada pela cidade onde passou a maior parte de sua vida.




Um outro elemento característico da série Vaga-Lume, que também está presente neste livro, é o estilo clássico de suas capas, bem como as ilustrações. As primeiras edições, como esta mostrada aqui, são verdadeiros retratos de sua época, e apenas o folhear de uma dessas edições históricas já é por si só uma bela volta ao passado, um passado onde parecia havia uma certa inocência, uma maior valorização da imagem, que casou perfeitamente na unidade do texto.



Por fim, retomando a questão do livro infanto-juvenil não ter muita voz ou alcance, reforço minha opinião mencionando o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que comentou na IX Bienal do Livro aqui de Fortaleza que suas primeiras referências literárias são obras de Andersen, como O Patinho Feio, obras não tão agraciadas e sinônimos de intelectualismo, como Joyce ou Proust. Ou seja, tudo pode ser referência, tudo pode inspirar, despertar, basta apenas a pessoa saber olhar. Esse 'preconceito' em desmerecer esse ou outro livro apenas pelo público ao qual ele é inicialmente dirigido é que é o problema. A escritora Marina Colasanti é outra que partilha esse ponto de vista, ao comentar certa vez que escreve do mesmo jeito, tanto para adultos como crianças.

As obras da coleção Vaga-Lume têm a missão de ser quase como "degraus" de uma escada, os primeiros passos para o conhecimento posterior de outros livros e autores, mas isso não quer dizer que elas não sejam ricas e profundas. Muito pelo contrário, pois se – na maioria dos casos – são as primeiras leituras de alguém, maior é a chance de se tornarem eternas, fortes, sempre nas lembranças de saudosas leituras, de bons momentos vividos. Doze Horas de Terror é certamente um livro capaz de reunir tudo isso e muito mais. 


Outras obras de Marcos Rey que também se destacaram na coleção Vaga-Lume.

Só lembrando que hoje em dia os livros de Marcos Rey estão fora da Vaga-Lume, então é procurar em sebos pelas edições clássicas, ou recorrer à editora Global, que o edita atualmente, em edições, digamos, bem mais sem sal (por parte das ilustrações de capa e miolo).