Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



quinta-feira, 19 de julho de 2012

Estreia de diário gráfico



Sempre gostei de desenhar, desde os tempos de escola, há uns quinze anos atrás. Acho que fui diretamente influenciado por meu irmão, Diego Akel, que sempre demonstrou grande interesse nesta arte, desde muito cedo, até canalizar, mais recentemente, toda essa força, de certa maneira, no estilo voraz com o qual conduz seus atuais trabalhos com cinema de animação.

Meus desenhos não eram lá essas coisas, mas chamavam alguma atenção, ao menos na época da escola. Gostava de criar personagens caricatos, cartoons, de alguma forma similares aos que sempre via Diego desenhando. Chegava até a fazer algumas historinhas em quadrinhos, despretensiosamente. Mais ou menos nessa época (oitava série/primeiro ano) fui desenvolvendo um estilo de alguma maneira geométrica, um gosto por formas e simetrias, ainda que não me dando conta exatamente disso. O tempo foi passando, e, por alguma razão, acabei não levando o desenho tão adiante. Talvez pela força com a qual a literatura chegou até mim, talvez por certa acomodação ou talvez simplesmente por preguiça.


Diário gráfico, como o próprio nome já diz, é um diário visual, um caderno portátil, construído de imagens, das maneiras mais variadas possíveis, geralmente para uso de artistas gráficos ou tão somente pessoas que desenhem com frequência. Lápis, caneta, nankin, colagens, recortes, tintas... a única regra é não ter regras. As páginas são de um papel especial, próprio para este fim, que podem aguentar firmemente todo o carnaval que ocorrer sobre elas.

Já o diário gráfico da imagem-título do post, porém, me foi dado por Diego há talvez quase três ou quatro anos. O fato de ele ainda estar sem uso até pouco antes da ideia de escrever esse post demonstra um pouco do que quero comentar aqui. Antes do dito diário, contudo, eu já havia pintado algumas coisinhas. Por volta de 2008, Diego, já com uma carreira como ilustrador/artista visual/animador, começou a pintar. Comprou muitas tintas, telas e iniciou uma produção intensa. Vendo todo aquele movimento de telas, pincéis e cores, tive vontade de tentar também, e fiz algumas experimentações nessa época, mas essas ficarão para um post futuro!

Ultimamente, ando disposto a variar cada vez mais os dias, então, olhando para o diário gráfico, quase esquecido no alto da prateleira, perdido entre dezenas de outros livros, decidi fazer algo a respeito. A decisão, porém, veio uns dez dias antes da ação propriamente dita. É incrível como às vezes queremos fazer algo mas somos involuntariamente deslocados a outras coisas e quando vemos, lá se foi passou mais um dia!




Determinado, e sem procurar pensar muito no que estava fazendo (ajuda a fazer as coisas mais no impulso, sem grandes planejamentos e parâmetros), no início desse mês, tirei o diário da prateleira, tomei algumas tintas e pincéis emprestados com Diego, preparei a base de minha mesa e quando me dei conta já estava diante da página em branco, com pincel em punho.

Como disse, já fazia quase quatro anos desde a última vez que pintara algo e a princípio a visão da página em branco assusta, porém, pouco depois, percebi que ela também fascina. À medida que as pinceladas iam saindo, me impressionava com suas possibilidades. Foi quase como se eu tivesse esquecido como era lidar com tintas e pincéis, quase como se descobrisse um mundo novo, bem ali naquela folha em branco. Vermelho, preto, azul, preto, ia testando as cores, percebendo as nuances, sentindo as texturas.

A maior motivação inicial foi justamente brincar com as formas, uma estética que a cada dia me empolga mais. Aquela simetria que falei no início do texto, que despontou ainda na época que fazia meus desenhos nas salas de aula. Brincar com entrelaçamentos, enviesados, quebrar e desconstruir o olhar. E assim fui tentando conduzir os pincéis, que muitas vezes pareciam ganhar vida própria e seguir por caminhos diferentes, chegando a resultados não menos interessantes.





Posso dizer, depois de fazer duas ou três páginas, o quanto a pintura tem me feito bem. É uma sensação plácida, terna, ver as tintas aderirem, espalharem-se, criarem imagens, contarem histórias. Tudo ali, acontecendo bem diante da gente. Não é difícil, sob tais circunstâncias, perder a noção do tempo. Meia hora, uma hora e meia, vai-se a hora do jantar, mas queremos dar aquele toque que sabemos faltar. Depois, quando lavamos os pincéis, parecemos de alguma forma refeitos, libertos. Sim, pintar é uma ótima maneira de extravassar sentimentos, de expulsar agruras e aflições.

A pintura também está me reaproximando do desenho, do qual nunca deixei efetivamente de praticar, mesmo que sendo apenas um pequeno rabisco aqui ou ali. Agora, já penso em fazer ilustrações para alguns de meus textos, a começar com uns hai-kais (poema japonês) que tenho guardados aqui para publicar logo mais.





Sigo fazendo minhas brincadeiras geométricas, ou quase, ao tentar lidar com o ímpeto dos pincéis. O melhor mesmo, também diante da folha em branco, é não fazer muitos planejamentos, é agir de maneira solta, livre, sendo conduzidos apenas pelo que acreditamos.

Ver a obra depois de terminada pode ser uma faca de dois gumes. Muitas vezes, ficamos satisfeitos, outras achamos que está péssima. Na maioria das vezes, é preciso, como aprendi com meu irmão, deixar a obra 'descansar' um pouco. Deixar de vê-la por algum período, para depois redescobri-la, e assim percebê-la sob uma perspectiva talvez antes não observada. Essa 'técnica', inclusive, é muito bem-vinda para artistas em geral.





O melhor de se variar as atividades é sempre quando as intercalamos. Muitas vezes não estou conseguindo achar o ponto satisfatório de um texto, ou mesmo sem ânimo para escrever ou ler, ou fazer qualquer outra coisa que esteja habituado. O diário gráfico caiu como uma luva para esses momentos. É uma fuga, que permite que eu me perca momentaneamente em ideias e sensações que jamais conseguiria colocar em um texto. E que bela fuga! Quando, depois de uma sessão, volto às letras, as ideias estão mais claras, mais nítidas. A mente trabalha melhor, é como se tivesse sido dado um banho no cérebro!

Em meio a tudo isso, parei também para observar a maneira curiosa como as coisas acontecem. O diário gráfico me foi dado anos atrás, e algumas vezes cheguei a cogitar repassá-lo de volta para Diego, por achar que acabaria por não usá-lo. Ia pegar algum livro, passava os olhos nele, pensava "um dia vou fazer algo com ele", e assim o tempo seguia. O diário gráfico que Diego me deu pode ter tardado, mas está cumprindo – e muito bem – sua finalidade. Talvez até mais e melhor do que estaria se eu o tivesse usado na época. Percebo, então, que nunca se é tarde para descobrir ou redescobrir alguma coisa. Esse fato me lembrou muito a história de meu velho teclado musical, que redescobri recentemente, depois de quase quinze anos. Narrei um pouco deste fato nessa outra postagem.




Agora, depois me enturmar às cores básicas, comecei a combiná-las, ainda sem muito critério, mas chegando a tonalidades incríveis. É realmente um universo sem fim, que podemos e devemos verter à nossa maneira. Continuarei nesse espírito, experimentando, não só as tintas, pincéis e telas, mas tudo de diferente que porventura apareça, afinal esse é o grande barato de se viver. A folha em branco é, antes de tudo, um espelho, que termina por nos mostrar exatamente aquilo que somos, ou fingimos ser.

Vamos sempre nos reinventar.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

FLIP 10 anos!




Nesta quarta-feira, 4 de julho, terá início mais uma edição da FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, que este ano celebra seu décimo aniversário com um 'cardápio' muito variado em sua programação. O homenageado da vez é o célebre poeta Carlos Drummond de Andrade, que deverá ser tema recorrente na maioria das mesas, além de receber exposições e outras atividades.

E por falar nas mesas, como no ano passado, toda as principais mesas do evento serão transmitidas ao vivo diretamente do site oficial do evento! A lista completa dos autores que estarão em Paraty pode ser vista neste link.

Eu estava planejando finalmente ir a Paraty esse ano, acompanhar este belo evento, sentir toda essa energia tão impulsionadora, mas infelizmente ainda não será dessa vez. Tudo vem no seu devido tempo, não é mesmo? Quem sabe ano que vem.

Felizmente, mesmo em casa, poderei assistir a todas as mesas fundamentais, graças a essa sempre bem-vinda iniciativa da organização do evento. Mal posso esperar por algumas delas, com autores que admiro, e também será muito interessante assistir aos escritores que ainda não conheço, como aconteceu no ano passado, onde conheci o simpático escritor português valter hugo mae, que viria a se tornar quase a sensação da FLIP 2011! Vejam mais sobre essa edição do evento neste post que fiz na época.

E para finalizar, os links abaixo, que nos põe em ótima sintonia com a FLIP:

Programação completa
Site oficial 
Twitter oficial
Flickr oficial
Facebook oficial

sexta-feira, 15 de junho de 2012

VII ETC Fortaleza (II)


Fotos e vídeos: Denis e Diego Akel

Dando continuidade aos comentários sobre minha experiência ao ir ao VII ETC Fortaleza, nesta segunda e última postagem sobre o tema, contarei mais um pouco do que pude observar no evento. Sensações, observações, inquietações, lamentações, especulações e até provocações seguem entremeadas nas linhas abaixo.

Como falei na primeira parte do texto, tínhamos ido eu e meu irmão, Diego, que foi peça fundamental, não só me incentivando a ir ao evento, mas também me ajudando com as fotos e vídeos. Nos revezávamos nesses registros. Voltando agora a falar da mesa em si, mais ou menos do ponto que deixei do primeiro post.
Passadas as primeiras colocações de Fabrício Carpinejar, percebi que Glória Diógenes demonstrava uma postura mais de palestrante do que mediadora, e isso engrandeceu significativamente a mesa, pois ela tinha ótima sintonia com os demais, além de expor perspectivas interessantes. Reparei também que alguns fãs de Carpinejar escreviam as frases que o poeta soltava na folha de papel, tão rápido quanto ele as dizia. Em volta, diversas pessoas fotografavam a mesa, com os mais variados ângulos e câmeras. Uns poucos pareciam registrar oficialmente, outros apenas para guardar aquele momento, tal como nós. E ainda não pude deixar de perceber garçons do hotel, que entravam de quando em quando, e repunham água nas taças e serviam xícaras de café.


Na cadeira ao meu lado, alguém escrevia as frases do poeta




Era engraçado como o público ficava muito quieto sempre que Carpinejar assumia o microfone. Não era para menos, ele literalmente esbravejava. Não se ouvia nada além de sua voz, que rapidamente ganhava o auditório. Aliando a isso seu dircurso sempre pungente, temos uma maneira de cativar sem igual. Quando o microfone trocava de mão, porém, percebi uma certa dispersão por parte do público, com vozes perdidas e cochichos. Carpinejar ainda meio que 'provocou' Plínio Bortolloti, com leves alfinetadas (talvez por estar sentado ao seu lado). José Luiz Goldfarb também deu uns pitacos, do outro lado da mesa. O jornalista se defendeu, principalmente no que diz respeito a necessidade de se ter ou não um iPhone. Esse tema passaria a ser recorrente a partir de então, gerando muitas risadas – e caras sérias. Caloroso e intenso, o debate só ganhou com os ânimos 'agitados'. A opinião de Plínio, também sobre seu uso do Twitter, foi bem centrada, e partilho dela. Ter muitos ou poucos seguidores, seguir qualquer pessoa apenas 'por seguir', entre outros pontos, foram comentados pelo jornalista.






Goldfarb passou a maior parte do tempo em que não estava falando na frente de seu macbook, provavelmente tuitando. A uma primeira vista, tal gesto fez parecer que ele não estava muito interessado no que os outros diziam, embora comentasse uma ou outra coisa ao acaso. Carpinejar também, hora e outra, tomava o Blackberry à mão e não resistia ao Twitter. De certa forma, essas atitudes, que podem parecer desatenciosas, acabam por vir bem de encontro ao tema do debate, afinal, numa mesa com twitteiros culturais, seria mesmo difícil eles conseguirem resistir ao micro blog, embora Plínio e Glória tenham resistido muito bem.




Pelo que pude notar, Goldfarb estava também divulgando o evento no próprio twitter, através dos inúmeros perfis que disse controlar. A organização do evento pediu ao público que fizesse o mesmo, uma vez que não tinha sido possível fazer a transmissão ao vivo via twitcam – o que aliás achei um absurdo. Atribuíram a falha à rede de internet do hotel, mas será que um hotel daquele gabarito, com tanta estrutura, não tinha condições de preparar isso com mais antecedência? De assegurar um modo para que tudo corresse bem na hora? É certo que imprevistos acontecem, mas a esse ponto? A ponto de impossibilitar algo tão importante para um evento desse porte? Não deu para entender...

A mesa seguiu fluindo. Cada palestrante explicou sua visão das redes sociais, como elas nos influenciam e sua própria maneira de interagir e lidar com o twitter e as demais redes. O clima descontraído garantia generosas e fartas risadas constantemente. Um dos poréns foi que, devido ao atraso do início (cerca de quarenta minutos), a palestra se estendeu por horas, invadindo a noite. Muitas pessoas já tinham deixado a sala, ainda que uma boa parte do público permanecesse fiel.







Abri mão de ficar escrevendo na hora, para concentrar a atenção ao que era dito, e também observar o ambiente. Sabia que essas observações seriam tão ou mais importantes do que o que eu viesse a escrever ali. Talvez por isso eu tenha reparado que depois de algum tempo os balões mandados por Carpinejar vinham autografados. As pessoas que os recebiam (pareciam ter pedido por eles assim) já não os mandavam para o ar, já não brincavam mais. Guardavam o balão junto a si. Com a assinatura do poeta, aquilo já não era mais um mero balão. 

O bloco de perguntas e comentários do público foi deixado para o fim. De início, era feita a pergunta, seguida da resposta. Depois, não sei por que, preferiram que fossem feitas logo todas as perguntas, uma após a outra, para só depois serem respondidas pelos convidados. Isso geraria uma grande confusão, ao menos na minha opinião, pois no momento em que elas foram respondidas, vários minutos após terem sido feitas, não lembrávamos mais o que tinha sido perguntado ou quem tinha perguntado, e muitas vezes parecia que nem o próprio palestrante lembraria, não fossem breves anotações que eles faziam na hora, que deduzi serem possíveis lembretes às questões. Em meio a toda essa bagunça, não era difícil de alguma pergunta ficar sem resposta ou até de alguma resposta não condizer com a pergunta. Creio ainda que para algumas perguntas, porém, jamais se soube a resposta.





Falando deles, os comentários e perguntas são um caso a parte. Boa parte dos que tiveram o microfone por algum tempo enfeitaram, firularam e muitas vezes nada acrescentaram. Glória deu três minutos a cada pessoa. Tudo bem que tentaram ser bem flexíveis em relação ao tempo, mas acho que esse controle foi um pouco desnecessário, uma vez que muitos passaram desse limite. Posso até estar julgando precipitadamente, mas percebi uma grande carga de diálogos carregados com muito ego, como se cada pessoa quisesse se impor ante à mesa, para talvez assim conquistar mais visibilidade, também entre o restante da plateia e assim ganhar uma espécie de fama instantânea. Foram poucos, mas claro que houveram pessoas que falaram mais humilde e diretamente, que deixaram uma mensagem mais clara e óbvia, que realmente assimilaram bem o debate, e ajudaram a engrandecê-lo. Uma boa sugestão seria fazer um método que certa vez vi a filósofa Márcia Tiburi comentar: dar a cada pessoa que assiste a uma palestra o limite de 140 caracteres para se expressar. Casaria perfeitamente com a proposta do ETC, afinal!








Não nego que tivemos vontade de dizer alguma coisa. Não sei se seria propriamente uma pergunta ou um comentário. Talvez sequer fosse algo relacionado ao ETC. Pensamos em perguntar algo ao Carpinejar sobre seu programa A Máquina. Por achar que o tema fugiria à ocasião, terminamos por não fazê-la, e nos limitamos apenas a continuar assistindo.

Finalmente, ao término da mesa, o público prorrompeu em efusivos aplausos, com grande vibração. Os convidados sorriam e agradeciam. Em seguida, um grande fluxo de pessoas começou a deixar a sala. Neste momento de dispersão, Carpinejar se viu quase acuado por inúmeros fãs, que o surpreenderam (ou não) com muitos pedidos de autógrafos e fotos. Atencioso e simpático, ele atendeu a todos. Autografou, posou para várias fotos, fez tudo que os fãs pediram. Do outro lado, Goldfarb conversava também com uma fatia do público, da mesma forma que Plínio e Glória. De longe, eu e Diego observávamos essa movimentação.





Próximo à entrada da sala, algumas mesas tinham sido dispostas com lanches (salgadinhos, sucos e refrigerantes, acho). Boa parte, senão todos os que ainda estavam ali, exceto os que falavam com os convidados, se deslocaram imediatamente para lá, e em pouco tempo uma nuvem de pessoas varria as iguarias da mesa. Nós também estávamos com fome, claro – ali desde 15:30 – apenas com o almoço, mas relutamos um pouco em ir até lá comer algo. Fiquei pensando se falaria ou não com Carpinejar. Provavelmente me veria diante, mais uma vez, de mais um momento como aqueles onde nunca sabemos ao certo o que dizer, onde as palavras parecem fugir. Sabia que deveria aproveitar a oportunidade, mas hesitava. Diego insistiu para que fôssemos falar com ele. Assim, só restou continuarmos esperando, pacientemente, o contingente de pessoas em volta do poeta diminuir.



Passados cerca de quinze minutos do final da palestra, ainda aguardávamos no meio do salão, apoiando as cabeças no acolchoado que revestia as paredes, ainda à espera de uma chance de falar com Fabrício Carpinejar. Havia nesse momento apenas duas pessoas terminando de pegar autógrafos. Olhei para a mesa de lanches, agora nem que quiséssemos: tudo já tinha terminado, restavam apenas pratos e copos vazios. E no instante seguinte, percebi que enfim o poeta estava livre. Era esse o momento. Fomos em direção a ele. Cumprimentamos Carpinejar com um sorriso, o poeta nos recebeu com outro, antes de um firme aperto de mãos, quase nos abraçando, sem cerimônia, como se já nos conhecesse há muito tempo. Invariavelmente, acabei começando com o clássico clichê "admiro muito seu trabalho", meio que ainda procurando o que dizer. O poeta nos encarava tranquilamente. Senti que não precisava correr com as palavras. Não fiquei muito animado também para dizer outra coisa que também considero meio redundante: "eu também escrevo". Diego trouxe A Máquina à conversa, e juntos elogiamos o programa, perguntando, em termos, como nasceu a ideia para criá-lo. Carpinejar disse que ele buscava resgatar um pouco o ar teatral dos antigos programas de TV, algo meio trash, meio bizarro. Falou ainda do ato de se puxar a alavanca (característico do programa): "que coisa mais antiquada aquela alavanca!". Emendei dizendo que de fato pairava uma atmosfera de teatro ali, não só por seu próprio ar performático, que parece estar mais elevado que o normal, mas também pelo entrevistado, que mergulhava no clima proposto. Esses ingredientes combinados resultavam em um programa diferente, forte, que ficava na cabeça mesmo após horas, dias, de assistido. Carpinejar sorria enquanto nos ouvia, comentei ainda que sempre visitava seu blog, que traz um conteúdo ágil, direto e sem frescura, um texto bem ao seu estilo.



Após essa breve conversa, o poeta nos agradeceu pelo afeto. Nós ainda o saudamos pelas suas palavras no ETC, por finalmente poder conhecê-lo, e nos afastamos. Carpinejar ainda foi solicitado por mais algumas pessoas. Eu e Diego, antes de sair da sala, porém, paramos diante da mesa que trazia os livros do poeta, à venda. Olhei todos por cima. Pensei em comprar algum. Imaginei que estivessem bem caros, dada a presença do autor. Dei-me conta de que ainda não tinha nenhum livro dele, apesar de já conhecer bem alguns. Contudo, talvez fosse melhor deixar para comprar numa livraria. Diego incentivou-me a comprar. Perguntei os preços, para me situar. Até que não pareciam tão exorbitantes. Mas naquele momento nenhum me pareceu muito atrativo, até que vi aquele seu livrinho que tinha nascido no Twitter. Reunindo frases do poeta publicadas no micro blog ao longo de 2009, este livro praticamente inaugurou um novo gênero. Ainda não o tinha folheado, mas sempre fui curioso para fazê-lo. Perguntei o preço: vinte reais. Não estava tão caro, afinal. Tirei a nota do bolso. Carpinejar ainda estava por ali – ou seja, eu ainda teria a chance de conseguir um autógrafo. Mas será que eu queria mesmo um autógrafo?

Enquanto ponderava essa questão, Glória Diógenes, mediadora da mesa, falou brevemente conosco, perguntando se tínhamos gostado. Elogiamos o debate, dizendo que tinha sido nossa primeira vez no evento, e que tínhamos adorado, principalmente das partes onde os ânimos esquentaram. Ela comentou, enquanto ríamos os três, que geralmente não costumam ser tão calorosos como este, e ainda falou um pouco sobre a edição passada do ETC, onde tinham recebido a escritora Ana Miranda.

Voltando ao livro que tinha acabado de comprar, dei uma breve folheada. Continuava pensando no autógrafo. Carpinejar já tinha falado conosco, valeria a pena tentar falar com ele de novo somente para conseguir sua assinatura? Comecei a me lembrar do dia em que fui ver uma palestra do Walcyr Carrasco, que também teve sessão de autógrafos. Tal como naquele dia, fiquei imaginando que a maioria das pessoas que falaram com o poeta provavelmente tinham pegado seu autógrafo, mas quão profunda realmente tinha sido a experiência para cada uma dessas pessoas? Teriam pegado o autógrafo apenas para dizer que conseguiram, para apresentá-lo como um "troféu"? Ou havia um quê a mais, uma real admiração? Sabia que nenhuma dessas perguntas podia ter uma resposta muito clara, tampouco lógica, uma vez que em momentos como aquele tudo ocorre em segundos. O fato é que não tive mesmo muita vontade de lhe pedir o autógrafo. Não estava ali com aquele intuito. O contato com Carpinejar, a oportunidade de ter estado ali assistindo àquele belo debate já me bastavam. Num último momento, ainda mantive o livro e a caneta junto ao braço, e me coloquei ao lado do poeta, que agradecia ao vendedor que vendera seus livros ali (ouvi ainda quando este lhe deu um cartãozinho, dizendo que onde quer que ele fosse palestrar, que o chamasse e ele iria). Estava com o livro e caneta prontos, mas não com a vontade. Por termos conseguido falar tranquilamente com ele, e ainda sobre um tema bem avesso ao discutido na mesa, eu já me considerava "autografado". E não deu outra: após receber alguns presentes dos organizadores do evento e de José Luiz Goldfarb, que ainda estava por ali, Carpinejar deu-me as costas, fazendo-me literalmente ler o que estava escrito em sua cabeça, e deixou a sala Capitólio.

Sem mais ter o que fazer ali, nos dirigimos também para fora do hotel. No saguão, Plínio ainda conversava com alguém. Pensamos em cumprimentá-lo, mas acabamos passando direto. Uma agradável música, tocada num piano, no fundo do salão, chamava atenção. Não sei como ainda pude percebê-la, uma vez que estávamos quase em êxtase. Primeiramente pela enorme carga de informação recebida (muita coisa que queria comentar com diego e ainda não tinha tido chance) e também, claro, pela fome exagerada que agora nos corroía. Já passava das 20:30.

Em casa, com energias repostas, passamos o resto do dia ainda eufóricos com tudo o que tínhamos absorvido. Comecei quase de imediato a esboçar as primeiras linhas de ambas estas postagens, que viria a continuar nos dias seguintes e só conseguiria finalizar agora em meados de junho.

Agora, já passados alguns meses deste ETC, e quase às portas do próximo, é possível refletir alguns pontos. Os palestrantes destes eventos geralmente saem de um para outro, sem ter muito tempo para 'digerir' o que passou, de perceber o que eles de fato realizaram. Naquele dia, no auditório, além da mesa composta por eles, além da presença de Fabrício Carpinejar, havia um público, do qual muitos quiseram aparecer e outros mal se fizeram notar, mas todos contribuíram, à sua maneira, para que o evento transcorresse como transcorreu. Para alguns, talvez tenha entrado por um ouvido e saído pelo outro, para outros, fez a diferença. Essas sensações me lembram, novamente, de alguma forma a palestra dada por Walcyr Carrasco na II Feira do Livro Infantil de Fortaleza, da qual comecei a falar neste post.

Enfim, eu tinha planejado fazer um breve texto aqui sobre o encontro, mais para falar de Carpinejar, porém a mesa inteira foi enriquecedora, de uma maneira que eu talvez não esperasse. Goldfarb, Plínio e Glória se mostraram muito simpáticos em contatos que fiz com eles via Twitter após essa edição do ETC. Agradeço pelos comentários e elogios que fizeram a essa minha iniciativa. Como falei, não conhecia ainda nada deles, e passo agora a ter essa oportunidade, impulsionado por suas palavras e guiado pelos seus blogs (ou perfil de Twitter, no caso de Goldfarb!). Se há mais algo que posso deixar ainda aqui, são os agradecimentos a eles, a toda a equipe que faz o ETC, e também a cada uma das pessoas que esteve ali naquela hora, e ajudaram a compor aquele cenário. Em particular, um obrigado especial ao meu irmão Diego Akel, que me motivou a abraçar essa oportunidade, sem o qual depois só teria me restado lamentar, caso não tivesse ido.

Não posso deixar, ainda, de mencionar os perfis dos palestrantes que fizeram essa edição do evento:

Glória Diógenes – @gloriadioge
José Luiz Goldfarb – @jlgoldfarb
Plínio Bortolloti – @plinioce
Fabrício Carpinejar – @CARPINEJAR
Albanisa Dummar (@albanisaL), ela estava lá, mas não chegamos a conhecê-la. Soubemos depois que é a responsável pelo Armazém da Cultura, que abraçou o ETC aqui em Fortaleza.

E também o meu e de meu irmão:

Denis Akel – @DenisAkel
Diego Akel – @cineakel




E um grande abraço a quem leu até aqui!

domingo, 3 de junho de 2012

50 Frases


Ilustração: Diego Akel


Quem apareceu por aqui ao menos duas vezes em algum intervalo de tempo, e teve alguma atenção, certamente já percebeu as alterações que costumo fazer nas frases e sentenças do topo do blog. Geralmente, troco as citações a cada nova postagem. A ideia desse sisteminha (que começou algum tempo depois que criei o blog) veio quando vi que seria interessante dar um 'bem-vindo' a quem entrasse, de maneira sutil, e percebi que através desses aforismas seria possível fazer isso, já transmitindo uma reflexão, um breve momento de recolhimento, ou até mesmo um questionamento.

E por nesta postagem completar-se a 50ª frase, resolvi fazer um apanhado geral delas, postando-as novamente, dessa vez todas juntas. Desde que comecei a colocá-las aqui, atreladas a cada nova postagem, já tinha a ideia de reuni-las em um post futuro, uma vez que todas têm uma importância especial para mim. Não as escolhi a esmo, apenas para enfeitar ou chamar a atenção; vieram de leituras, de recomendações, de momentos que se encaixavam de alguma forma no meu estado no tempo em questão.

Tal como uma música ou filme, para mim rever essas frases (principalmente as primeiras) me remota quase instantaneamente para períodos bastante específicos. É incrível como nossas vivências podem ser afetadas ou marcadas por esse tipo de coisa. Influenciamos e somos influenciados a todo instante, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Quis, nesse post, novamente dar movimento a essas frases, para que possam de repente fazer a diferença, ou apenas gerar alguma reflexão, como fizeram para mim. Enfim, uma salada que mistura escritores, filósofos e intelectuais com os quais acabei 'cruzando' de alguma maneira ao longo desses quase 2 anos.

Aconteceu ainda uma coisa engraçada. Ao vê-las todas aqui reunidas, percebi que há um choque bem distinto entre várias, um confrontamento de ideias, uma certa incerteza de opiniões, mas ao mesmo tempo um debate claro sob pontos de vista bastante específicos. Sutilezas que seriam bem difíceis de notar ao lidar apenas de uma em uma, como eu vinha fazendo até então.

Claro que essas frases representam visões, prismas, particulares de seus autores, portanto discordar é perfeitamente natural, mas outras vezes deixar-se levar pela sua mensagem e, quem sabe, surpreender-se, também é igualmente interessante.

Bom, sem mais delongas, aí vão elas:



1. "Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós" – Antoine de Saint-Exupéry, escritor e piloto francês.

2. "Para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós certas pequenas loucuras" – Marcel Proust, escritor francês.

3. "Você consegue saber se um homem é inteligente pelas suas respostas. Você consegue saber se um homem é sábio pelas suas perguntas."– Nagib Mahfuz, escritor egípcio.

4. "Tudo tem uma moral se você conseguir simplesmente notar" – Lewis Carroll, escritor e matemático britânico

5. "O mundo está cheio de coisas óbvias, que ninguém, em momento algum, observa!" – Arthur Conan Doyle, escritor e médico britânico

6. "Escrever é gravar reações psíquicas. O escritor funciona qual antena – e disso vem o valor da literatura. Por meio dela, fixam-se aspectos da alma dum povo, ou pelo menos instantes da vida desse povo." – Monteiro Lobato, escritor brasileiro.

7. "Todos os erros humanos são fruto da impaciência, uma interrupção prematura de um trabalho metódico." – Franz Kafka, escritor tcheco.

8. "Ler é mais importante do que estudar" – Ziraldo, cartunista e escritor brasileiro.

9.  "Quanto menos inteligente um homem é, menos misteriosa lhe parece a existência" – Arthur Schopenhauer, filósofo alemão.

10. "Onde não estamos é que estamos bem. Já  não estamos no passado, e então ele parece-nos belíssimo" – Anton Tchekhov, escritor, médico e dramaturgo russo.


11. "A consciência é o último ramo da alma que floresce; só dá frutos tardios" – Joaquim Nabuco, diplomata, historiador e jornalista brasileiro.

12. "Quem jamais fracassou em algo, não pode alcançar a grandeza"– Hermann Melville, escritor e ensaísta americano.

13. "A humildade é a base e o fundamento de todas as virtudes e sem ela não há nenhuma que o seja" –
Miguel de Cervantes, romancista e dramaturgo castelhano.

14. "Não há assunto tão velho que não possa ser dito algo novo sobre ele" – Fiódor Dostoiévski, escritor russo.

15. "Amar não é olhar um para o outro, é olhar juntos na mesma direção" – Aintoine de Saint-Exupéry, escritor francês.

16. "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las" – Voltaire, filósofo francês

17. "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos" – Euclides da Cunha, escritor brasileiro.

18. "Ler sem refletir é como comer sem digerir" – Max Weber, jurista e economista alemão.

19. "O Brasil não tem povo, tem público" – Lima Barreto, escritor brasileiro.

20. "Para se escrever um romance é preciso ter paciência, muita paciência" – Moacir C. Lopes, escritor brasileiro.

21. "Ler não nos obriga em nenhuma medida a compreender" – Jacques Lacan, psicanalista francês.

22. "A gente nunca pode desistir de encontrar sentido no aparente absurdo de nossa existência" –
Moacyr Scliar, escritor brasileiro.

23. "Há coisas que se publicam em jornal que ficariam melhor em livro. São textos enfadonhos. E há coisas que se publicam que são tão supérfluas, mesquinhas, do ponto de vista de ideias" – Benedito Nunes, filósofo brasileiro.

24. "A infelicidade tem isto de bom: faz-nos conhecer os verdadeiros amigos" – Honoré de Balzac, escritor francês.

25. "Tente ser melhor do que você mesmo" – William Faulkner, escritor americano.

26. "Todo o passado não passa do começo de um começo – e tudo o que a mente humana absorveu não passa de um sonho antes do despertar" – H.G. Wells, escritor britânico.

27. "Não quero saber como as coisas se comportam. Quero inventar comportamento para as coisas" – 
Manoel de Barros, poeta brasileiro.

28. "O que é a felicidade senão a mera harmonia entre um homem e a vida que ele leva?" – Albert Camus, escritor francês.

29. "Conheço apenas uma liberdade: a liberdade da mente" – Antoine de Saint-Exupéry, escritor e piloto francês.

30. "Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro" – Groucho Marx, ator e comediante americano.

31. "Não há nada no mundo que esteja melhor repartido do que a razão: toda a gente está convencida de que a tem de sobra" – René Descartes, filósofo e matemático francês.

32. "Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons" – Sigmund Freud, psicanalista austríaco.

33. "As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam ideias" – Goethe, escritor alemão.

34. "O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar" – Fernando Pessoa, escritor e poeta português.

35. "A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede" – Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro.

36. "A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos" – Aldous Huxley, escritor inglês.

37. "Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação" – André Breton, escritor francês.

38. "A infância é um paraíso do qual somos expulsos pela idade" – Jean-Paul Sartre, filósofo francês.

39. "O livro é o amigo da solidão, ele aumenta o individualismo liberador. Na leitura solitária, o homem que procura a si mesmo tem alguma oportunidade de se encontrar" – Georges Duhamel, escritor francês.

40. "É fácil se livrar das responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por ter se livrado delas" – Graciliano Ramos, escritor brasileiro

41. "Escolhe cedo um ideal que possa perdurar por toda a tua vida" – Denis Diderot, filósofo francês.


42. "O meio de combater uma ideia é lançar ao seu encontro uma ideia melhor. (...) Nunca no mundo uma bala matou uma ideia" – Somerset Maugham, escritor britânico.


43. "Aquele que não pode perdoar destrói a ponte sobre a qual ele mesmo deve passar" – George Herbert, poeta anglo-galês.


44. "Uma vida longa pode não ser boa o suficiente, mas uma vida boa é longa o suficiente" – Benjamin Franklin, diplomata e cientista americano.


45. "Se não gosta de alguma coisa, mude-a. Se não puder mudá-la, mude sua atitude. Não reclame" – Maya Angelou, poeta americana.


46. "Uma conversa é um diálogo, não um monólogo. É por isso que há tão poucas conversas boas: devido à escassez, dois falantes inteligentes raramente se encontram " – Truman Capote, escritor americano.


47. "Quando encontro alguém, não me importo se é branco, preto, judeu ou muçulmano. Só sei que é um ser humano" – Walt Whitman, poeta norte-americano.


48. "Claro, não se pode evitar o nascimento nem a morte. Mas não dá pra melhorar um pouco o intervalo?" – Millôr Fernandes, intelectual brasileiro.


49. "Necessito, logo imagino"  – Carlos Fuentes, escritor e diplomata mexicano.


50. "Por cada cem homens capazes de suportar a adversidade, há apenas um capaz de suportar a prosperidade" – Thomas Carlyle, escritor e historiador escocês.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

VII ETC Fortaleza (I)


Fotos e vídeos: Denis e Diego Akel


O ETC, Encontro de Twitteiros Culturais, é um evento que já ocorre há algum tempo no Brasil (nos moldes de outros similares que também ocorrem em vários outros países) cujo enfoque básico é o universo virtual, ou seja, falando nos tempos atuais, nas redes sociais e tudo o mais que movimenta esse infinito e assustador mundo que é a internet. Valendo-se do Twitter como ferramenta principal, os encontros visam explorar tendências e costumes do mundo digital, e perceber como esses novos parâmetros podem e estão influenciando nossas vidas.

Pois bem, até o dia 14 do mês de abril, eu ainda não sabia de nada disso. Tinha conhecimento, bem por alto, do ETC, que sabia ter alguma coisa a ver com redes sociais, mas nada além disso. E talvez continuasse com esse parco conhecimento até hoje, não fosse justamente a ferramenta que dá o eixo e base do evento: o Twitter. Não sou muito de redes sociais, dessa febre que se espalha avassaladoramente a cada dia, de viver praticamente em torno e dependente delas, como vejo muitas pessoas fazendo. Faço uso moderado do Twitter, por ele ser prático, rápido, e sem muitas frescuras típicas das demais redes (apesar de às vezes também encher a paciência). Por lá, podemos saber um pouco de tudo sobre áreas de interesse comum, referências de pessoas que admiramos, e eventos que acontecerão. Acompanho várias editoras, escritores e pessoas ligadas às letras. Foi através de lá também que me aproximei mais do trabalho do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, bastante celebrado e cultuado por suas frases e sentenças pungentes que coloca diariamente em seu perfil. Comecei a pesquisar mais sobre ele, assistir a entrevistas, ler seu blog, conhecer livros, e quando me dei conta, tinha o poeta como um de meus autores mais respeitados, apesar de ainda ter lido pouca coisa dele.

Ainda sobre Carpinejar, não posso deixar de citar o recente A Máquina, programa de entrevistas que o lançou como apresentador. Quando eu soube, imaginei logo: esse programa vai ser único! Sabia que o lado excêntrico e quase performático do poeta daria um tom bastante surreal e característico, tornando o programa uma experiência ímpar. E é bem isso o que pode ser visto nas noites de terça na TV Gazeta. Enfim, falarei mais sobre esse programa em um possível post futuro.

Retomando o tema, é engraçada a maneira como as coisas acontecem, como tudo parece às vezes planejado, sem que tenhamos feito quase nada para isso. Eu poderia ainda não saber o que é exatamente o ETC e sequer estar fazendo essa postagem aqui não fosse um tweet do Carpinejar, além, é claro, do fato de eu estar no Twitter na hora, em tempo hábil de saber: ele estaria aqui em Fortaleza, para fazer parte de uma mesa do VII ETC Fortaleza. Na hora, fiquei estupefato, pois seria uma excelente oportunidade para enfim conhecer o poeta gaúcho. Uma oportunidade como aquelas que aparecem em horas inusitadas e sabemos que não podemos deixar passar.

Para tornar tudo ainda mais alucinado, me dou conta de que a palestra será exatamente no dia seguinte, então não havia muito tempo para pensar, era preciso decidir logo. Por razões que são difíceis de explicar, após a euforia inicial, não me senti mais tão empolgado para ir. Então, no dia em questão, 14 de abril, há algumas poucas horas da palestra, fui incentivado por Diego, meu irmão, que ainda se ofereceu para ir comigo. Resolvi ir, sem mais ficar pensando o contrário, e ligamos para o número de informações, a fim de saber mais detalhes do evento. Foi preciso ainda mandar nossos dados por e-mail, uma espécie de cadastro, imaginei, que devia facilitar para quando chegássemos lá.
Esta edição do ETC Fortaleza, que acontecia dentro da programação de outro evento, o 2º WebFor, teria como palco o hotel Gran Marquise, que fica na Beira Mar. O debate, que traria como tema "Literatura e Cultura nas Redes Sociais" estava marcado para as 16h, mas eu já imaginava que provavelmente atrasaria. É comum a essas apresentações o início impreciso, dados os imprevistos, ou mesmo para esperar mais público. Talvez seja um dos momentos onde é educado atrasar.

Seguimos para o hotel com cerca de uma hora de antecedência. A Beira Mar é um lado da cidade onde pouco costumo ir, portanto é sempre quase como se estivesse em outra cidade; o clima praiano,  a atmosfera turística, evidenciada pelas dezenas de hotéis em sua orla; tudo contribui para tornar este lado de Fortaleza uma travessia memorável.

Nosso táxi parou bem à entrada do suntuoso hotel – soube depois que aquele era um dos hotéis mais novos dali. Fomos bem recebidos, do carro até a recepção. Próximo dela, um funcionário prontamente perguntou se estávamos ali para o evento. Concordamos, e ele nos colocou no elevador, que já sabia o caminho para o andar em questão (acabamos por nem reparar qual era). Demos em uma saleta, toda iluminada e encarpetada. Dali seguimos por um corredor, buscando alguma orientação.  Encontramos mais uma recepção, dessa vez do WebFor, o evento maior que englobaria o ETC. Acreditamos ser ali o ponto inicial, o local que validaria nosso cadastro feito por e-mail minutos antes, e nos aproximamos. Alguns atendentes, que pareciam muito ocupados, com inúmeros papéis em suas mesas, vieram ao nosso auxílio. Nos identificamos.

Nossos nomes, porém, não constavam na lista.

Indicaram uma segunda lista, atualizada com os nomes mais recentes. Procuraram novamente. Folhas e mais folhas com nomes. Nada. Estranhamos. Diego disse que mandamos o e-mail, e que até tínhamos ligado para confirmar, tendo falado com a Telma. Mas onde estaria essa Telma? Ninguém ali parecia conhecê-la. A solução foi fazer um novo cadastro para nós. Perguntaram para qual oficina seria. Oficina? Pensei. Não sabíamos de nenhuma oficina, uma vez que estávamos ali mais pela mesa composta pelo Carpinejar. Explicamos isso, e, por via dos fatos, por já estar ali e tudo, pedi para ver a programação das tais oficinas. Imprimiram um página. Com a folha em mãos, vi em letras vermelhas a programação, e não entendi bem por que eram chamadas de oficinas, uma vez que pareciam apenas mais palestras. A uma primeira vista, não nos interessamos por nenhuma delas. Falaram para resolvermos logo se iríamos ou não a alguma, pois precisavam fechar os nomes. Pedimos um tempinho para avaliar com calma e deixamos a salinha, indo a uma área externa, ao ar livre.

Ali, olhei e considerei novamente a programação. Continuamos, porém, sem ânimo para nada daquilo. Nosso foco ali era mesmo o Carpinejar. Seguimos o caminho à nossa frente até chegar onde achávamos que seria a palestra. Havia no final desse trajeto uma tenda enorme, montada e climatizada para o evento. Portas envidraçadas na entrada, ar-condicionados, centenas de cadeiras, telão ao fundo e tantas outras parafernálias. Era um espaço amplo, onde àquela hora já acontecia uma outra palestra. Quatro homens em uma mesa. Um deles, de  microfone em punho, discursava amplamente. O telão o exibia em close. Era um local bastante grandioso, até demais, pensamos, para a mesa da qual Carpinejar faria parte, que imaginávamos ser mais simples, reservada, tranquila, mas se seria mesmo assim, naquele ambiente, só nos restava esperar. O tema em questão pelos quatro sujeitos não parecia muito convidativo, então preferimos ficar nas imediações da tenda, observando pombos voarem entre os prédios em volta e fotografando os arredores (uma mania que temos). Voltamos para o interior algumas vezes, mas o debate lá não parecia sequer perto de acabar. Mais minutos se passaram. Faltava pouco mais de dez para as quatro da tarde, hora marcada para a mesa que tanto aguardávamos.

Eis então que uma pessoa da produção surgiu de repente e falou conosco, lá do lado de fora. Disse-nos, com grande efusão, que logo começaria a palestra com o embaixador da Venezuela no Brasil. Ficamos meio atônitos, mais pelo caráter absurdo, como se estivéssemos ali esperando o senhor embaixador. Isso, porém, me abriu os olhos, e quase de última hora, tive uma luz: seria mesmo ali o local da mesa de Carpinejar? Não víamos qualquer sinal de que começaria – muito pelo contrário, os palestrantes da tenda pareciam ainda muito animados a continuar falando. Além de que aquela tenda parecia mesmo o local propício para abrigar a palestra do embaixador da venezuela no Brasil, um acontecimento pomposo, sério, diferente de "apenas" um grupo de twitteiros convidados. Intrigado, voltei a olhar a programação, mas dessa vez não para ver as oficinas. Li o nome "Fabrício Carpinejar" e imediatamente as demais informações da mesa, até perceber o nome da sala: Capitólio. Estávamos mesmo no local errado! Passavam alguns minutos das 16h, imaginei que talvez a mesa já tivesse sido iniciada e que Carpinejar já podia até mesmo estar com a palavra. Nos apressamos a sair dali. De volta ao corredor, e à saleta encarpetada, onde tínhamos passado na hora que não acharam nosso nomes, nos deparamos, sem muita dificuldade, com o nome "Capitólio" estampado numa parede a um canto, na esquina oposta à que entramos. Não poderia ser mais fácil; era ali, afinal.

Entramos e nos surpreendemos. Ambiente refinado, organizado e aprazível. Uma sala vistosa, que lembrava um anfiteatro. À entrada, algumas mesas dispostas verticalmente. Em uma delas, vi livros de Carpinejar sendo vendidos, em outra, havia o que parecia ser outro espaço para inscrições. A seguir, várias cadeiras arrumadas em filas e colunas. Além delas, uma mesa retangular, coberta com um pano preto, encimada por quatro taças d'água. Tranquilidade e silêncio, que era o que provavelmente não acharíamos na tenda, havia de sobra ali.

Vimos um dos palestrantes (José Luiz Goldfarb, como descobriríamos depois), já sentado, em um dos lugares da mesa. Ele parecia simpático e receptivo, e foi bem o que demonstrou no decorrer da palestra. Naquele momento, Goldfarb estava atrás de seu macbook, e parecia invariavelmente ocupado.

Nos apresentamos às mesas de inscrições, onde fomos muito bem recebidos. Demos nossos nomes, e desse vez não deu outra: lá estavam eles! Recebemos crachás identificados, e pastas com papel e caneta. Comentei com Diego que parecíamos quase jornalistas especialmente convidados para cobrir o evento. Diego disse que isso era uma prática comum neste tipo de evento, o que desmonta minha fantasia e só demonstra minha inexperiência na situação. Quem também nos acolheu, com grande simpatia, que depois descobrimos ser a mediadora da mesa, foi Glória Diógenes. Ela nos disse que apenas estavam esperando o Carpinejar chegar para dar início, então buscamos logo bons lugares. Tivemos plena liberdade para escolhermos onde sentar, uma vez que quase todos os lugares (cerca de 100) ainda estavam livres. Fomos bem para a frente; tínhamos o objetivo de fazer algum registro, através de fotos e vídeos. Havia um tripé com uma câmera, armados bem à frente da mesa, juntos a um notebook preparado. Soubemos depois que a ideia era fazer a transmissão do debate ao vivo pela twitcam, como – também soubemos depois – aconteceu na edição anterior do ETC, mas isso acabaria não dando certo dessa vez, como direi mais adiante.



Aproveitei esse breves momentos antes do início para já escrever algumas observações sobre o lugar, nas muito bem-vindas folhas de papel que recebemos. Continuavam todos à espera de Carpinejar. Já se aproximava das 16:30. Felizmente o atraso básico que eu imaginara tinha se consolidado, mas já começava a se tornar abusivo. O lado bom é que mais e mais pessoas foram chegando, enchendo o auditório. Em certo momento, pediram aos que ainda não tinha feito a inscrição (que dava direito ao crachá e tudo o mais), para fazê-lo. Percebi então que quase todos não tinham feito, uma vez que boa parte das pessoas se levantou. Ainda bem que nós já tínhamos feito desde casa!



E continuava o suspense quanto a chegada de Fabrício Carpinejar. Alternei constantemente olhares entre os organizadores do evento e a porta de entrada da sala, à espera do poeta gaúcho. Então, passando um pouquinho das 16:30, a mediadora, Glória Diógenes, já à mesa com os demais palestrantes (o jornalista Plínio e o professor Goldfarb), decidiu dar início aos trabalhos. Ela começou a apresentá-los ao público, começando com Goldfarb. Em vez de repetir aqui títulos e rótulos, praxe nesse tipo de introdução, colocarei um link que expõe um pouco mais sobre eles, deixando assim que cada um fale por si. Vejam abaixo:

Glória Diógenes

José Luiz Goldfarb

Plínio Bortolloti

Fabrício Carpinejar

Precisamente às 16:37, ouvi quando alguém da produção do evento disse, lá de trás, que Carpinejar já estava no hotel. Nesse meio tempo, já estava até brincando com Diego, dizendo que até então ainda não se sabia se Carpinejar realmente existia, no sentido de que só o tínhamos visto em entrevistas e tal, e de repente estávamos ali à espera dele. Parecia ilusório demais. Era quase como se achássemos que ele fosse apenas uma invenção...  da máquina, talvez? O fato é que a notícia da chegada de Carpinejar ao hotel nos jogou de volta à realidade. Mesmo sem ainda termos visto o poeta, uma coisa já era certa: ele realmente existia. Passaram-se mais uns minutos, nos quais Glória continuou a apresentação e logo depois, em um momento onde eu mais uma vez alternava olhares entre a mesa e a entrada da sala, vejo finalmente a chegada do poeta de óculos vermelhos com poesia na cabeça, literalmente falando. Ele assumiu sua cadeira, em meio a uma gigantesca salva de palmas. Sorridente, o poeta agradeceu. Com a mesa enfim completa, Glória continuou fechando as introduções dos demais, falando um pouco de suas áreas de atuação e trabalhos.






Carpinejar mal se juntou à mesa e já chamou atenção. Enquanto Glória passou a palavra a Goldfarb, e este começou a falar, o poeta gaúcho de repente pegou um pacote com algo amarelo, que já trazia à mão desde sua chegada. A uma primeira vista, achei ser um saquinho de batata fritas ou algo similar. Em se tratando de Carpinejar, tudo seria possível, pensei. Vai que ele não tinha almoçado. Mas era algo ainda mais louco e incomum que isso. Eram balões! Balões amarelos, com um sorrisinho estampado! Sentado à mesa, ele encheu um e mandou com um soco na direção do público. A reação a princípio foi de choque e espanto, mas depois todos caíram na brincadeira e ficaram jogando os balões para o alto. Com certeza foi um gesto bastante ousado, mas que descontraiu a todos, e preparou para o caloroso debate que estava por vir. Não sei se isso é costume em suas palestras, mas de cara já colocou todos no clima e no astral do poeta, ao desarticular um pouco toda aquela seriedade de evento, fazendo com que as pessoas sorrissem. Foi quase como um mergulho na infância, onde correr atrás de balões era lei.







O vídeo a seguir mostra um pouco das palavras iniciais de Goldfarb:





A palavra foi então passada de Goldfarb a Carpinejar. Ele não poupou o pobre microfone. Sua voz em segundos encheu a sala, e quase não se ouviu mais nada além dela. Rapidamente tornei a empunhar a câmera e comecei a gravar as efusivas palavras do poeta gaúcho. Era por causa dele que estávamos ali, afinal:







Bom, optei por dividir essa postagem em duas, pois havia muita coisa da qual queria falar, nesta minha pequena releitura do evento, além das fotos e vídeos. Continuarei na segunda parte, contando mais detalhes e o desfecho, a hora que enfim conseguimos trocar algumas palavras com Carpinejar.

Obrigado a todos que leram até aqui e até a parte II!




domingo, 1 de abril de 2012

Livro: O Exército De Um Homem Só


Fotos: Denis Akel

Ah, O Exército de um homem só! Há muito, muito tempo, estava de olho nesse livro. De autoria de Moacyr Scliar, talvez a maior de minhas referências e influências, cuja obra comecei a conhecer ainda na escola, com o livro Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar, que, de alguma forma, me inclinou a descobrir o prazer e gosto pela leitura e, principalmente, pela escrita, como já comentei aqui em outros textos.

Antes de começar esta leitura, lembro que de cara já tinha sido fisgado pelo título, enquanto ainda descobria quem era Scliar, anos atrás. Como poderia haver um exército de um só homem? Quem seria este homem? Pelo quê e contra quem lutaria? Estava ansioso por estas respostas. Agora, depois de ter passado alguns meses imerso em suas páginas, percebo que tudo é muito mais complexo do que eu poderia imaginar. Tentarei expor alguns pontos interessantes da obra, sem me aprofundar muito, nas linhas seguintes.

A primeira imagem que talvez venha à cabeça é que o livro gire em torno de guerras, conflitos – o que de fato acontece, porém a maior guerra desta história não é exatamente um conflito armado, mas a que o protagonista, Mayer Guinzburg, traz acesa dentro de si. Uma guerra por um mundo mais justo, por uma nova sociedade, por tudo o que acredita, um desejo incessante; chama que jamais se extinguirá.



Mayer Guinzburg é um personagem fascinante. Judeu, emigrante russo, chegou a Porto Alegre ainda menino, na década de 1920. Tem um forte lado comunista, marxista, que o impele a querer mudar a  sociedade, que tanto o desagrada. Suas ideias o transformam em uma figura marcante da sociedade gaúcha, principalmente devido a sua empolgação e euforia com Birobidjan, uma colônia coletiva de judeus na Rússia, que receberia incentivos do governo soviético. De tanto falar nela, acabou apelidado, sem mais delongas, Capitão Birobidjan.




Qual seria a nova sociedade almejada pelo Capitão? Seu sonho é extremente utópico, quase uma alucinação que o persegue, o comanda (a ponto de até ver homenzinhos, que só ele vê, de baixa estatura, que o aplaudem a cada ação). Desobedeceria o pai, os costumes judaícos, teria crises familiares, para em seguida lutar, sozinho, pelo seu ideal.

Um dos grandes atrativos desta obra, na minha opinião, é o intenso ar de romance histórico que percorre suas páginas. Fatos reais se misturam e enlaçam à ficção, dando-lhe uma aura incrivelmente realista. A situação de Israel, os conflitos travados com o Egito, os nomes envolvidos neles, tudo é perfeitamente encaixado. Chega-se a pensar, por um momento, que o Capitão Birobidjan realmente existiu, uma vez que nomes como Ben Gurion, Stalin e Rosa Luxemburgo são frequentemente citados. De certa forma, o livro é quase como uma aula de história. Toda essa apropriação histórica, presente em muitas obras de Scliar, contribui para integrar a cultura judaica à cultura gaúcha e, consequentemente, à brasileira.

Além disso, o texto fluente, leve, alegre, otimista, transborda sensações. Outro detalhe que o maximiza é o humor negro, a ironia típica de Moacyr Scliar, que faz o Capitão passar pelas mais inusitadas situações, sempre com seu ar lunático, revolucionário, sempre disposto a realizar seu sonho utópico, e completamente alheio a nada que não fosse isso. Por essas e outras razões, inclusive, Mayer Guinzburg ou Capitão Birobidjan, é sempre comparado ao lendário Dom Quixote, obra máxima de Miguel de Cervantes. O ar quixotesco neste texto de Scliar é mesmo notório, uma vez que percebemos as semelhanças entre ambos os protagonistas. O próprio Moacyr Scliar respondeu a essa inevitável comparação com o seguinte:

"Bem, para mim a comparação é elogiosa. Mas acho, sim, que o personagem tem muito de 'Dom Quixote', como tinham todos os jovens de minha geração que lutavam por uma sociedade mais justa".

Brilhantemente narrado em terceira pessoa, acompanhamos toda a trajetória da vida de Guinzburg, através de um ano ou conjunto de anos importantes. É fantástico observar as mudanças que vão ocorrendo no personagem com o decorrer do tempo, as ideias que são mantidas, a rebeldia, tudo. O narrador, ainda, muitas vezes quase alimenta a loucura de Mayer, chamando-o de Capitão Birobidjan e tornando mais verossímeis seus delírios. O livro também não entrega tudo de bandeja, e nos mostra vários elementos semi definidos, vários trechos onde encaixam-se várias acepções, de uma maneira bem característica ao texto de Moacyr Scliar, que nasce de um mar de dúvidas e incertezas.




O Exército de um Homem Só é considerado uma das principais obras de ficção dos anos 70 (inspirou até uma música do Engenheiros do Hawaii) e, curiosamente, foi apenas o segundo romance de Scliar. Uma outra curiosidade que descobri há pouco: à época da publicação do livro, em meados de 1973, Moacyr Scliar visitou Érico Veríssimo para conversar sobre literatura. Que conversa não deve ter sido!

Após refletir por um tempo, depois de terminar o livro, percebi que a história até se confunde, de certa maneira, com a do próprio Scliar, que é filho de imigrantes judeus. Sob certa ótica, esse tema está invariavelmente presente em suas obras. A ambientação no Bom Fim, bairro de Porto Alegre onde o escritor nasceu, as citações, tudo traz traços de suas próprias vivências, inclusive o desejo por um mundo mais justo.

Para encerrar esse texto, falarei um poquinho sobre esse grande autor que muito representa para mim, e para nosso cenário literário.

Moacyr Scliar, médico, escritor, professor, jornalista, autor de cerca de oitenta livros, com forte ressonância internacional, membro ativo da Academia Brasileira de Letras, presença constante em seminários, feiras e eventos literários no país e no mundo. Scliar viajava muito, era um homem em trânsito. Todos brincavam dizendo não entender como ele conseguia estar em tantos locais em tão pouco intervalo de tempo. E como conseguia escrever tanto, entre livros e colunas em jornais, e como ainda dava palestras na área médica, e como nunca faltava às sessões da ABL. Scliar era isso tudo e muito mais, um grande contador de histórias. Ele dizia, bem-humorado, que o escritor é aquele que escreve, então não fazia nada além do seu "trabalho".




Veio a falecer em fevereiro do ano passado. Infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo, esse que sem dúvida era por si só um "exército de um homem só". Imagino que todos nós devemos ser um pouco como Mayer Guinzburg, que nunca desistiu de seu ideal, por mais absurdo e inatingível que este pudesse parecer.

Dêem uma chance a este belo livro, que diverte, empolga, emociona, entristece, assusta, anima, arrebata; um jogo de sensações, daquele jeito que só Moacyr Scliar soube, sabe, e saberá fazer, inclusive às futuras gerações, àqueles que tentarão mais uma vez iniciar a construção de uma nova sociedade.



Essa não é a primeira, e com certeza não será a última vez que falo de Moacyr Scliar por aqui. Vejam mais sobre ele nos posts abaixo:

– Palavras de Moacyr Scliar (1º de março de 2010)
– Moacyr Scliar... (1º de março de 2011)