Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



terça-feira, 16 de outubro de 2012

FENOMA 2012 (II) - O espetáculo


Fotos: Denis Akel e Diego Akel

Continuando a falar do FENOMA 2012, Festival Nordeste de Mágicos, nesta que é a segunda e última postagem sobre o evento, escreverei agora um pouco sobre como foi o festival em si, algumas das atrações, o teatro, o público, a programação, a versão final da vinheta (que estampou a primeira postagem desta série), enfim, impressões minhas e de meu irmão Diego Akel, e até nossa vontade de iniciar carreira de mágico.

Antes de mais nada, e ainda pegando carona no post anterior, apresento logo a versão final da vinheta, para já trazer à tona o clima e atmosfera mágica:





Ao final da vinheta, havia a interação com o mágico real, momento que vimos então, em nossa frente, nosso trabalho, finalizado e cumprindo seu propósito. E pensar que aquilo era apenas um esboço, uma ideia, dias antes. Foi algo memorável.

Um dos grandes momentos do FENOMA foram os shows de Gala, que aconteciam sempre nas noites dos três dias, a partir das 20h, e apresentavam espetáculos de mágica, ilusionismo e até, de certa forma, piadas no melhor estilo stand up. Entre os destaques a se apresentar nesta edição do evento, estavam o mágico japônes Shoot Ogawa, os argentinos Daba y Cielo (cujo filho Sebak, de apenas 12 anos, também se apresentaria), além do chileno Zyro. Do Brasil, o Fenoma reuniu nomes consagrados do meio, para citar alguns: Klaus, Henry Vargas, Pjota, Yesus, além dos já citados no post anterior, Goldini, Éflem e Ryan Rodrigues.

Quando concluímos a vinheta e a entregamos, decidimos também desfrutar um pouco mais daquela atmosfera. Pensamos algo como "De que outra maneira estaríamos tão aptos a assistir a um show de mágica?". De fato, nosso envolvimento com a vinheta nos deu ainda esse bônus, uma vez que provavelmente continuaríamos sem saber da existência do festival não fosse essa oportunidade. E se ter assistido a alguns dos ensaios já foi uma boa experiência, poder desfrutar do show em toda sua integridade e magnitude seria realmente algo marcante.

Inicialmente, esta vinheta seria exibida nos três dias do evento, sempre minutos antes do início, no momento em o público estivesse chegando e se acomodando no teatro. Por alguns reveses e mudanças de plano, porém, a vinheta não foi exibida na primeira noite do festival. E também por alguns imprevistos nossos, nesse primeiro dia, também não fomos ao show.

Contudo, no dia seguinte, sábado, 15 de setembro, chegamos ao Dragão do Mar cerca de meia hora antes do início. De cara, já nos surpreendemos com uma gigantesca fila à entrada do teatro. Não acompanhamos muito da divulgação do FENOMA, e até pensamos que o evento não vinha sendo bem divulgado, mas aquele contigente de pessoas provava o contrário. Só comecei a pensar uma outra coisa: a julgar pelo tamanho do ambiente, provavelmente não haveria lugar para todos. O teatro, em si, é agradável, climatizado, palco bem disposto, ótimo jogo de luzes e cabine de projeção, mas deixa a desejar quanto à quantidade de cadeiras. Não foi feito pensando em grandes públicos, aparentemente.

Tomamos lugares, Diego preparou-se para fazer alguns registros com sua câmera (que depois foram editados e inseridos ao final da vinheta que coloquei acima, para levar um pouco do que foi a interação a quem não pôde ir ao evento) a ali aguardamos. A vinheta ainda não tinha começado, uma vez que a entrada oficial ainda não tinha sido autorizada. Só estavam no teatro os participantes do show, familiares destes, e pessoas ligadas à produção do evento. Passados mais alguns minutos, o projetor e tela, que já se achavam prontos no palco, começaram a exibir a vinheta, bem na hora que as pessoas começavam a entrar.




Enquanto todos iam se acomodando, a vinheta seguiu seu curso. Foi se repetindo, dentro do loop previsto. Um, dois, três ciclos... O olhar das pessoas era atraído por aquilo, notei que elas observavam e discutiam sobre as imagens. As crianças, animadas, riam olhando para a tela. A música tinha sido deixada baixinha, para compor a atmosfera, e não incomodar as pessoas.











E ela se repetiu, inúmeras vezes, ao longo de cerca de dez minutos. Nesse tempo, entre observar as pessoas e suas reações, fiquei pensando: "é, aí está, conseguimos mesmo". Não que achasse que não fôssemos conseguir, claro, mas é sempre um sabor especial ver algo que nos dedicamos tão intensamente ali, cumprindo o que se esperou dele. E mesmo já na área de animação há algum tempo, ainda nos espantamos ao ver o resultado de horas e mais horas de trabalho passar assim, num piscar de olhos, de ver cenas e detalhes que inserimos muitas vezes sequer serem notadas, percebidas.


Não demoraria muito, o teatro lotaria completamente. As poucas poltranas vazias foram logo ocupadas por quem ainda entrava. Enquanto isso, a vinheta seguia, inabalável, lá na frente. A música, já entrecortada pelo amplo vozerio, ainda convidava os que chegavam a acompanhar as peripécias do mini-mágico. E praticamente quando todos já estavam sentados, foi exibida então a versão com os 20 segundos adicionais, a versão onde enfim ocorreria a interação. Para tal, as luzes foram totalmente apagadas, chamando mais a atenção do público, para já se dar a entender que desta vez ocorreria alguma coisa de diferente.

Nosso personagem, o mini-mágico, "contracenou" com Rafael Titonelly, que também seria responsável pela abertura e condução do show. No momento que sua silhueta surgiu na projeção, Diego já estava gravando. Queríamos registrar não só a exibição da vinheta como também o momento da interação, afinal, esta só seria feita duas vezes. Aliás, devo ainda mencionar que a suavidade do movimento da passagem da cartola ficou bem melhor nos ensaios. Talvez tivesse sido mais fluido se feito como Marcos, o Doutor Mágico, falara: o mágico real ficaria na frente da tela, na frente do personagem, e faria a cartola aparecer. Enfim, de uma maneira ou de outra, o resultado final ainda ficou bem interessante.






Em meio a uma generosa salva de palmas, Titonelly, já de posse da cartola, viu a projeção ser suspensa no ar, revelando-o ao público. O interessante é que se criou um efeito quase como se ele a tivesse atravessado. As luzes se acenderam, marcando o início do espetáculo.

E então foi hora de esquecer um pouco dos frames e cores e nos focarmos apenas em aproveitar o show, em aproveitar aquele momento mágico, literalmente falando. Quem primeiro subiu ao palco foi um garoto, que já foi anunciado como uma das grandes revelações do festival. Tratava-se de Sebak, de apenas 12 anos, que cativou de imediato o público, com carisma e simpatia. A apresentação do mágico mirim, que veio da argentina, foi ainda composta com uma trilha dançante, em um ritmo que embalou intensamente a todos. Sebak, em sua apresentação, manipulou CD's com agilidade surpreendente, fazendo-os aparecer e desaparecer. Um skate também estava entre os objetos usados. Demonstrava grande técnica, e parecia muito feliz por estar ali, parecia realizado. Sebak fez inúmeras mágicas, em um ritmo tão rápido e intenso que algumas deles não consegui acompanhar direito, por ainda estar pensando nos truques anteriores. Ele concluiu sua apresentação completamente ovacionado por todos e devo dizer que foi um dos melhores a se apresentar nesse dia, sem dúvida. Sebak tinha tudo, e sua presença de palco não parecia forçada, programada, era simplesmente inocente, alegre, pulsante.

Depois foi a vez de Eduardo Peres, mágico e palestrante que só pelo porte e maneira de falar já percebemos ter certo renome nacional e internacional. Peres atua também no setor corporativo com conferências motivacionais e, antes de fazer seu show, conversou um pouco com a plateia, apontando pontos interessantes sobre a convivência humana e lançando questões que propunham certa reflexão. Bem articulado, escolhendo bem suas palavras, Peres pediu a ajuda de pessoas do público (foi uma constante entre muitos dos mágicos) para realizar seus números.

Eduardo Peres conduzia seus truques quase como se dessa uma palestra, seu humor preciso foi um diferencial 

Um dos momentos mais surreais da noite foi a apresentação de Mr. Daba. Com jeito irreverente e um 'portunhol' competente, o mágico encenou uma louca partida de tênis no palco. Chamou uma pessoa da plateia, e passou a chamá-la de Guga (nome de um tenista escolhido pela pessoa). Fez mágicas com bolas e raquetes, entre outros truques. Também divertiu muito o público com tiradas no mínimo inusitadas e terminou por chamar a pobre pessoa sempre de Guga, ao fim do número ninguém mais lembrava seu verdadeiro nome.

Mr. Daba e "Guga", em uma partida de tênis mágico

O japonês Shot Ogawa também foi outro mágico muito aplaudido. Com um terno branco, quase ofuscante ante a posição do jogo de luzes, ele fez vários truques com varinhas coloridas, lenços e outros objetos, demonstrando mãos hábeis e incrível concentração. Como Ogawa não fala português, foi traduzido em tempo real, o que gerou algumas situações engraçadas, das quais o mágico, com muito bom humor, se saiu muito bem.

Shoot Ogawa em momento-chave de seu número, na segunda noite do FENOMA 2012

Já no domingo, último dia de FENOMA, Ogawa impressionou o público com mágicas que questionavam a realidade

Um outro número bastante interessante se deu com Vinny, um jovem mágico daqui mesmo do estado. Ele adotou pequenos guarda-chuvas, ou sombrinhas, como elemento central. Entrou no palco sozinho, aparentemente sem nada, e de repente, fez surgir a primeira sombrinha. O que se viu a seguir foi um belíssimo número de multiplicação. Vinny as girava, criando curiosos padrões de cores, e mais e mais sombrinhas iam surgindo, enchendo o palco, e os olhos de todos que acompanhavam. Foram dezenas delas, até sua participação ser encerranda com a aparição de um guarda-sol. Mágica memorável!

Vinny e sua incrível multiplicação de guarda-chuvas, ótimo número do FENOMA 2012


Fechando essa noite, tivemos ainda a bela apresentação de Ryan Rodrigues, que apresentou um misto de coreografia e mágica. Ryan trouxe a suavidade de leques para o palco, multiplicando-os, manipulando-os, e encantando a todos. Sua roupa lembrava a de um samurai, e ela foi sofrendo alterações durante toda a rotina, sendo assim parte fundamental de sua apresentação.

Ryan Rodrigues, além de dirigir o espetáculo, também se apresentou nos shows de Gala

O show terminou por volta das 22h. Todos os mágicos da noite foram novamente anunciados e voltaram ao palco, onde receberam os aplausos calorosos do público, além de serem também fustigados pelos inúmeros flashes das máquinas fotográficas. Reconhecimento e prestígio mais que merecidos, foram shows fascinantes e surpreendentes.



Na sequência, houve uma breve e reservada homenagem ao mágico Joe Marbel, falecido em dezembro de 2011. Nesta ocasião, seria lançado um DVD reunindo todas as participações do mágico e suas colaborações no Fenoma, entre outros materiais. Então, bem na salinha de entrada do teatro, todos os mágicos foram reunidos e Marcos, presidente do NUAMAC (Núcleo de Amigos Mágicos do Ceará), falou algumas palavras, sobre a importância e falta que Marbel tem e faz no cenário mágico atual. Também estava presente o filho de Joe Marbel, demonstrando respeito e admiração pelo trabalho e obra do pai, ainda que visivelmente emocionado. Ainda, foi anunciada e entregue a cada um dos mágicos desta edição do Fenoma uma medalha, a medalha Joe Marbel. Foi gesto emocionante e reconhecedor.




Mas o FENOMA não se resumia só a shows, a programação do evento era bem ampla. Havia conferências apresentadas pelos próprios mágicos, nas quais se comentavam truques e afins, com destaque para a de Héctor Carrion. Ainda, tinha-se a Feira Mágica, com variedade de produtos para mágica, aberta ao público. Outro destaque era também o espetáculo teatral A Cidade Mágica, que foi encenado no Theatro José de Alencar e trouxe todo o elenco formado por mágicos, numa interessante maneira de fundir a arte mágica com dramaturgia.

Infelizmente, por contratempos nos horários, não pudemos acompanhar grande parte dessas programações. Assim, só voltamos mesmo a interagir com o FENOMA na noite de domingo, 16, quando se daria então o último show de Gala, encerrando o evento.Tivemos neste dia mais apresentações, alguns novos truques de mágicos do dia anterior, (como a segunda foto de Shoot Ogawa, que coloquei mais acima) outras de mágicos que ainda não tinham se apresentado, além, é claro, novamente, da apresentação de Rafael Titonelly.

Alías, por falar nele, posso dizer que Rafael exerceu ali quase uma posição típica do rótulo "ame-o ou deixe-o". Era evidente, desde os primeiros minutos dos shows, que ele já desempenhava um personagem, que não era o mesmo Rafael de fora do palco. Com o andamento dos shows, e após alguns poucos truques (e mais piadas) feitas por ele, percebi como era meio apelativa sua maneira de conduzir o show. Ele parecia usar um pouco do stand-up para ganhar as graças do público. Suas aparições eram sempre com as luzes acesas, talvez para facilitar de chamar as pessoas do público – dizia gostar sempre de ajuda para seus  números, mas o que mais parecia fazer era criticar e até fazer piadas de mal gosto sobre o porte físico das pessoas. Claro que a maioria das pessoas do público adorava aquelas piadas toscas, a maioria ria mesmo, um riso alto, típico quase de quem quer chamar a atenção, mas havia muitas crianças presentes ali, muitas crianças que não viam qualquer graça naquilo. Onde estava o respeito por elas? E mesmo às pessoas mais conservadoras? Piadas infames que mais denegrem do que causam graça, foram ouvidas constantemente. Toda essa situação me lembrou muito o filme O professor aloprado (1996), na cena em que o professor entra em um bar para assistir a um show de humor e se vê ridicularizado continuamente pelo 'artista'. Foi mais ou menos essa a imagem que Titonelly passou, em boa parte desses momentos de stand-up.

Rafael Titonelly mescla mágica com comédia stand-up, mas passa do ponto muitas vezes, tornando-se dispensável e vulgar

Claro que ele também tinha bons trunfos, e muitas vezes contava histórias realmente engraçadas, criativas, fazia piadas de si mesmo e ria de suas próprias desgraças, além de demonstrar uma ótima capacidade de improvisação, em momentos que o show não ia bem para o lado que ele levava. E se a situação apertasse demais? Ora, Titonelly tinha uma arma secreta: tirar a camisa. Como assim? Prefiro nem comentar, mas quem estava lá, ou o conhece, sabe do que estou falando. E isso funcionava? Sim, mas era mais um momento dispensável e vulgar.

Se por um lado as piadas sem graça de Titonelly desvirtuaram um pouco o show, por outro a ideia de ter um apresentador que não fizesse só mágica era boa. Era como um breve intervalo entre os shows, um relaxamento. As luzes se acendiam, o público descontraia um pouco, mas Titonelly parecia exagerar, passar do ponto, saturar. Em certo momento, ao chamar um garotinho para ajudá-lo, sua falta de tato fez com que o garoto chorasse. O público ficou meio dividido nessa hora, uns penalizados, outros criticando o menino. Crianças são sinceras, não se submetem facilmente a fingir caras e sorrisos. O garotinho só refletiu a sensação de estar no palco, sem saber o que fazer, orientado por aquele 'louco'. Como falei, percebíamos que não era só a pessoa Rafael Titonelly, mas sim uma espécie de personagem, criada por ele, para aqueles momentos.

Não era preciso exagerar tanto ou baixar o nível das piadas para divertir o público. Eduardo Peres, que mencionei lá em cima, conversou bastante, contou histórias hilárias e rapidamente cativou a todos, sem precisar criticar as pessoas, usar palavras chulas, ou muito menos tirar a camisa. Claro, a personalidade é o que nos torna diferentes. Titonelly, como já o vi dizer em uma entrevista, só gosta de fazer mágicas junto com comédia, essa é quase uma marca sua, tanto que é conhecido por muitos justamente por magicomediante. Nesse ponto, para quem gosta desse tipo de piada, sua participação foi um prato cheio, não há dúvidas. E já digo logo que não quero em nenhum momento aqui repudiar seu método, técnica ou conduta. Só estou comentando um pouco do que senti e percebi na hora, o que foi partilhado por meu irmão, Diego Akel, e outros familiares que também assistiram ao show. Titonelly, no geral, fez uma boa apresentação, animada e descontraída, só passou mesmo do ponto em vários momentos, demonstrando um pouco de falta de respeito, parecendo esquecer-se da mistura de públicos que havia ali, das inúmeras crianças que o assistiam, e que talvez não fosse bem aquilo que esperavam ver.

Bom, voltando a falar do show em si, nesse último dia de Fenoma, domingo, o teatro lotou em poucos instantes. Igual como no sábado, havia uma fila com dezenas de pessoas à entrada. Após o início, inúmeras delas ainda ficaram de fora. Foi feita uma concessão, para entrarem mais pessoas, e rapidamente o chão e laterais do teatro foram preenchidas, por gente que se sentou no chão mesmo, o importante era assistir ao show.

Depois de cerca de duas horas de mais mágicas, músicas, luzes e stand up, por voltas das 22h, houve o encerramento do show, que dessa vez fechava também o evento. Fernando Dantas, que era responsável pelo marketing, e que havia contracenado com Titonelly em certas partes do show, agradeceu ao público o prestígio dado ao FENOMA, ao longo desses três dias, enalteceu a importância do evento, e chamou todos que fizeram o festival a se juntar no palco, para uma foto coletiva. O elenco de mágicos, a equipe de produção, todos subiram e se agruparam lado a lado. Até alguns convidados e amigos que não participaram diretamente do show foram chamados, no clima de encerramento. Eu e Diego, sentados, ficamos surpresos quando Marcos, o Doutor Mágico, lá de cima, chamou para o palco os autores da vinheta que engrandeceu o espetáculo, do mágico maluco. Nos levantamos, sob alguns aplausos, e nos juntamos a todos eles, já fechando o plano que limitaria a fotografia. Sob a orientação da fotógrafa para não nos mexermos, a fim de que todos aparecessem, a foto que marcava o encerramento do Fenoma foi tirada. Foi muito bacana para nós também estarmos nela, de ter feito parte deste ótimo evento.

Encerramento do Fenoma 2012. Equipe responsável pelo evento se reúne no palco. Foto: Sheila Oliveira


Tivemos ainda uma breve confraternização, no palco mesmo, onde todos se cumprimentaram, tiraram mais fotos, e conversaram brevemente. Era uma sensação muito boa de fazer parte daquilo, nos sentimos quase como colegas dos mágicos, envolvidos naquela atmosfera. Durante a produção da vinheta, nossa passada pelo mundo da mágica tinha começado a nos cativar e atrair, a ponto de pensarmos até em começar a praticá-la. Ali no palco, diante de nomes como Shot Ogawa, Diego comentou novamente comigo a vontade de começar a treinar mágica. É, pensei, seria mesmo bem interessante. Quando crianças, claro, nos encatávamos com truques de cartas e moedas, e até sabíamos fazer alguns truquezinhos básicos de um livrinho. E se agora, anos depois, tentássemos desvendar esse horizonte a tanto tempo esquecido. Por que não?

Cumprimentamos alguns dos mágicos, agradecemos e fomos agradecidos pelo Doutor Mágico, com quem comentamos nosso interesse de aprender a arte mágica. Ele disse haver cursos, organizados pelo próprio NUAMAC, e nos ficamos de ir até lá um dia, dar o primeiro passo.

Para finalizar, devo dizer mais uma vez da excelente experiência que foi para nós fazer parte desse grande festival que foi o FENOMA. O prazer de poder criar, com grande liberdade, a vinheta, a pesquisa extensa que fizemos nos artigos mágicos e, claro, a oportunidade de assistir aos shows, que podemos considerar quase um bônus, tudo foi único. Já disse e repito: um dos momentos mais bacanas para nós foi ver a vinheta sendo exibida, cumprindo a função a qual foi designada, ver acontecer diante de nós algo que era apenas uma ideia dias atrás, quase como num passe de mágica!

Bom, quanto a nos aventurarmos ou não no mundo da mágica, ainda não aconteceu propriamente. É um mundo novo, e como qualquer coisa nova que ser queira fazer, é preciso dedicação e determinação, ou seja, abrir um tempo para esse novo segmento. Certa vez ouvi um especialista na organização do tempo dizer que quando queremos fazer algo novo, temos sempre que olhar o que já fazemos e pensar: "Será que posso manter mais isso"? E que muitas vezes é preciso deixar uma coisa para poder fazer ou ter outra. Com certeza, seguir a área da mágica significaria talvez reduzir o tempo em alguma outra de nossas atividades, será que estaríamos prontos para tal? É com isso em mente que talvez continuemos ainda apenas pensando nessa possibilidade.

Enfim, amigos, busquei passar aqui, ao longo dessas duas extensas postagens, um pouco de tudo o que sentimos e vimos, eu e meu irmão, antes, durante e após o Fenoma 2012. Agradeço a todos que leram!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

FENOMA 2012 (I) - Bastidores da vinheta



Entre os dias 14 e 16, Fortaleza foi palco de mais uma edição do FENOMA, Festival Nordeste de Mágicos, evento que já está na sua nona edição, e que traz o melhor da arte mágica para a cidade. É engraçado pensar que até pouco tempo atrás, eu sequer sabia da existência de um evento assim aqui na cidade, e que agora, após seu término, vejo o quanto o mundo dos mágicos está inserido na capital, o quanto intensa essa arte está aqui representada.

Estive mais próximo do FENOMA do que jamais imaginaria estar, talvez, porque fomos, meu irmão e eu, os responsáveis pela vinheta de abertura do festival. E é bem nesta parte que começa a história que contarei a partir daqui, de como um show de mágicos pode descortinar caminhos tão próprios.

Inicialmente, tudo começou há algum tempo atrás quando meu irmão, Diego Akel, me falou sobre a proposta que recebera, de fazer uma vinheta para um festival de mágica que aconteceria em setembro aqui na cidade. Na hora, já fiquei entusiasmado, primeiro por não saber que existia algo assim por aqui, depois por imaginar as possibilidades que isso traria. Tínhamos acabado de concluir o curta Balada do Guarda Roupa e um novo projeto era mais do que necessário.

Diego me contou, por alto, um pouco de como seria a animação: haveria uma espécie de camarim, que mostraria vários mágicos se preparando e executando truques, depois uma menção a Luiz Gonzaga, devido ao seu centenário em 2012, e por fim uma interação com o mágico real que abriria o show. Essa ideia geral veio da mente de Marcos Queiroz, que encomendara o trabalho, e mesmo tendo de segui-la, tínhamos boa liberdade para explorar planos, cenários, mágicas e possibilidades. Diego quis que eu participasse efetivamente do projeto, criando um roteiro para a animação, com base nos elementos que tínhamos. Assim, embarquei e abracei logo a ideia.

Tivemos uma reunião com Marcos, que descobri ser o presidente de uma associação de mágicos locais, o NUAMAC, cerca de 1 mês antes do evento, que até então eu ainda sequer sabia que se chamava Fenoma. Nesta conversa, entendi mais claramente o que Marcos pretendia. E enquanto Diego acertava com ele quanto a que estilo a animação teria, eu, entre uma colocação e outra, anotava ideias e possíveis rumos e caminhos para o roteiro que bolaria. A ideia geral era produzir uma vinheta de 40 segundos, que seria exibida em um telão no teatro, em loop (repetindo-se), momentos antes do início do show, e que desde então atrairia a atenção das pessoas, de maneira visual e sonora, seria quase como boas-vindas ao fascinante mundo da mágica.

Ainda nesse primeiro encontro, fomos apresentados a um elemento que teria grande importância na vinheta: a cartola de cartas. Essa cartola, que pertencia ao próprio Marcos, que aliás também é mágico, seria o elemento de interação. Através dela, o mágico que abriria o show se "comunicaria" com a vinheta. De certa forma, ele a tiraria "de dentro" da projeção. Ou seja, a cartola representava o elo do efeito que se queria passar.

Cartola que seria usada tanto na vinheta, como no show


Já a menção a Luiz Gonzaga foi uma breve homenagem sugerida por Marcos. O rei do Baião terá seu centenário celebrado agora em dezembro. Diego, a princípio, sugeriu que os mágicos fossem criando o Gonzagão aos poucos, em meio a truques e passos de mágica, mas nada estava decidido ainda, então  tentamos explorar uma maneira melhor, mais suscinta, de fazer essa menção.

Ao final dessa reunião, Diego decidira que os desenhos dos mágicos seriam feitos livremente inspirados numa linha próxima ao estilo tradicional de animações UPA (como Mr. Magoo), que dariam um ar cômico e de certa forma clássico à vinheta. Marcos, satisfeito ao ver um dos primeiros esboços já finalizados, consentiu, e nos deu bandeira branca para começar a produção. A cartola foi deixada conosco, para referência, e antes de sairmos, ainda descobri que Marcos, além de mágico, é também médico! Momentos antes do fim da reunião, ele vestiu um jaleco e disse: "Agora sai o mágico e entra o médico!". Rimos. A transformação se deu assim, quase num passe de mágica, literalmente falando. Diego brincou: "Doutor Mágico, não é?" Ao que Marcos, sorridente, respondeu: "Esse é exatamente meu nome artístico, Doutor Mágico!"

Abaixo alguns dos primeiros esboços e estudos que fizemos, mostrados nessa primeira reunião:

Arte de Diego Akel









Com os esclarecimentos desse primeiro encontro, já podíamos visualizar, ainda na mente, alguns rumos interessantes para a vinheta. Diego começou a fazer esboços, a treinar o traço, uma vez que fazia um bom tempo que ele não fazia uma animação desta forma, talvez desde O Facínora, de 2006. Ultimamente seus trabalhos estão com uma cara mais experimental, mais livre, solta. Agora, com a oportunidade trazida por esta vinheta, seria quase como voltar às origens.

Nos dias seguintes, fomos, Diego e eu, a alguns Cafés (é sempre interessante para relaxar a mente um ambiente fora de casa) para digerir o que tinha sido dito. Filtrei alguns pontos importantes do que Marcos falara, numa folha de papel, e começamos a divagar, livremente, sobre como seria a vinheta propriamente dita. Essa parte do processo é muito legal, pois pode-se criar praticamente tudo, pensar os maiores absurdos, ainda que dentro das limitações que tínhamos.

Joguei todas as ideias, certezas e incertezas que tínhamos, no papel. Daqui saiu a base e o conceito final para a vinheta

Primeiramente, listamos o que teríamos para trabalhar: mágicos, a cartola, truques de mágica, Luiz Gonzaga e os cenários. Pensei que a cartola, como elemento principal (por ser o elo da interação pretendida) poderia figurar bastante, e imaginei que poderia haver quase uma briga em volta dela, como se somente com ela a mágica acontecesse, como se a cartola tivesse um quê a mais.  Os truques poderiam ser feitos em um cenário que lembrasse um camarim, e não seria difícil inserir Luiz Gonzaga em uma dessas cenas, mas ainda faltava algo: um personagem central, que conduzisse e completasse toda essa sequência de ações e, principalmente, que chegasse até o fim para entregar a cartola ao mágico.

Pensamos a princípio em um mágico atrapalhado, que estivesse apreensivo para o início do show. Seria um personagem bem engraçado, careca, baixinho, gorducho. Ele perceberia que estava sem sua cartola, e iria até o camarim, buscá-la. Lá, seria surpreendido já de cara por uma revoada de pombos, produzidos por um outro mágico, que os tirava exatamente da dita cartola. Irritado, o baixinho toma a cartola dele, mas sequer respira direito, já a tem tomada de si, por um outro mágico, que, usando-a, começa a fazer o mini-mágico (era o nome que tínhamos bolado para ele) levitar, alucinadamente. Até que a cartola é novamente surrupiada por mais um mágico, e isso quebraria a levitação, causando a queda do pobre mini-mágico, além de também deixar em aberto a questão do truque só ter sido possível graças à cartola. O mágico seguinte, com a cartola, começaria a tirar de dentro dela vários objetos típicos do mundo da mágica: lenços, coelhos, argolas, bolas e por último o próprio mini-mágico! Bastante insatisfeito, ele tomaria novamente a cartola para si, sairia para outro ponto do camarim e colocaria a cartola no chão, ao lado do último mágico a figurar, que chutaria a cartola, virando-a para cima, daria um toque com sua varinha e surgiria Luiz Gonzaga, acompanhado de um som característico de sanfona. Perplexo, o mini-mágico, já irritado, pula para cima dele e o "encolhe" de volta na cartola, pegando-a novamente para si e desatando a correr. Ele segue no corredor em direção ao palco, onde apresentaria seu show, mas tropeça na escada. Veríamos a cartola rolar, e teríamos um fade com ela fechando a câmera, em seguida tudo isso se repetiria. Esse seria o loop de 40 segundos. A parte da interação – que só seria exibida uma vez por noite – teria seu diferencial a partir da parte da escada, onde ele não tropeçaria. Chegaria ao palco, para fazer seu show, e seria exatamente a hora da interação, do início do show propriamente dito. A princípio ele relutaria, mas entregaria, com um sorriso, a cartola, para que o mágico real, que com um truque, a faria aparecer em sua mão. Estava começado o show.

Imagens de conceito, com estudos para os personagens, que incluiam o mini-mágico e os demais mágicos:








Esse foi o enredo base que nós montamos para trabalhar. Diego, à medida que eu falava, ia desenhando as cenas no storyboard, e aos poucos víamos a coisa engrenar. É incrível como desenhos de storyboard são dinâmicos, me arrisco a dizer que muitas vezes acabam melhores até do que o resultado final. Quando fechamos o storyboard, com todas as cenas, os primeiros 40 segundos, e depois o momento da interação, com mais 20 segundos, vimos uma boa unidade na história, embora algumas arestas ainda tivessem que ser aparadas.



Trio de imagens com o storyboard completo


Arestas estas que foram aparadas na segunda reunião com Marcos, o Doutor Mágico. Na ocasião, fomos apresentados aos simpáticos mágicos Goudini e Éflem, que também participariam do FENOMA. Mostramos o storyboard, discutimos amplamente sobre as cenas, os planos utilizados, a técnica de animação. Diego mostrou um teste animado. As opiniões dos três mágicos foram valorosas e contundentes, ao darem ideias e sugestões, que nós rapidamente anotávamos. Ninguém melhor para pegar referências do que os próprios mágicos, afinal. E tivemos uma enchurrada delas. Desse encontro, já vimos a necessidade de fazer várias modificações. E a primeira delas era tratar nosso personagem central não como um mágico, mas como uma espécie de diretor do espetáculo, ou chefe de cerimônia, que se esforça a pegar a cartola para dar ao mágico real. Diego, inclusive, já tinha pensado em fazer isso antes.

Tal ação aceleraria bastante o processo, pois cortaríamos algumas cenas adicionais, onde coisas cairiam de seus bolsos, ou ele faria algum truque com a varinha. Como estávamos quase a uma semana do evento, optamos por seguir essa linha. Mas, no final, esses possíveis detalhes que fortaleceriam sua caracterização como mágico acabaram nem fazendo muita diferença. Ele já estava tão atrelado aos demais personagens, ao universo mágico, que não se precisou dizer mais nada. Por mais que tentássemos instaurar uma imagem diferente, ele continuou o mini-mágico, ou o mágico atrapalhado, como disse Marcos nos agradecimentos na noite de encerramento do FENOMA.

Outra modificação foi o trecho final, após o tropeço. Veríamos agora apenas ele e a cartola caindo, e o vulto de uma cortina fecharia a cena, recomeçando do início em seguida. A cena da cartola rolando, aproximando da câmera, consumiria muito mais tempo para ser feita. Essas e outras pequenas exugadas no roteiro original deixaram o filme mais afinado, mais focado no que queria comunicar.

A etapa seguinte foi a pesquisa. Enquanto Diego pesquisava referências de cartoons e desenhos clássicos para a elaboração dos personagens, eu busquei na internet por trajes típicos e comuns de mágicos, representações visuais de objetos, coelhos, pombos, enfim, uma vasta gama de material para ajudar a enriquecer os figurinos e cenários que iríamos compor. Era preciso conhecer bem o terreno onde estávamos pisando. Foi nessa etapa do processo que resolvemos colocar mágicos bem diferentes entre si, dos clássicos, passando pelos casuais, e até mesmo um indiano.


Tabelinha geral com todas as cenas e andamentos

Depois de acertado e definido o visual de nosso protagonista, o mini-mágico, Diego começou a trabalhar nos demais mágicos. O tempo já estava um pouco apertado, então as versões finais eram quase as primeiras desenhadas por ele. Quanto a mim, em tese, por já ter contribuído na história e na pesquisa, minha parte estaria terminada. Mas não seria justo deixar tanto trabalho nas costas dele, uma vez que mesmo simplificada em várias cenas, a grandeza da animação ainda era intimidadora, pelo menos no pouco tempo que tínhamos, e considerando que éramos basicamente nós dois na linha de frente. Assim, assumi a parte de preenchimento de cor. Diego fazia as cenas, agrupava os frames, gravava-os num pen-drive, e eu, em outro computador, preenchia as cores de um por um, em um processo no mínimo exaustivo, mas que gostei de fazer. Depois, voltava as imagens para ele, e assim seguimos, nessa rotina, durante cerca de uma semana inteira. Tivemos ainda a grata colaboração da amiga Francimone Campos, que contribuiu em parte do processo de colorização de cenários e personagens.

Abaixo alguns dos planos, em seus primeiros estágios de desenvolvimento:














O Fenoma teria início na sexta, 14 de setembro, e iria até domingo, 16. Aconteceria esse ano no teatro do Centro Cultural Dragão do Mar. Com a vinheta cerca de 70% pronta, combinamos de ir até lá, para fazer os primeiros testes e ensaios com a questão da projeção, e como seria feita a interação. Diego já tinha ido uma vez antes, reconhecido a tela, que tinha cerca de 3 metros de altura, e imaginado muita coisa para a vinheta. Dessa vez, porém, tínhamos já como ver algum resultado.

Conhecemos lá o mágico Ryan Rodrigues, que dirigiria os shows e apresentações. Ele já estava por dentro da ideia de Marcos, tivemos apenas de mostrar o storyboard e a versão beta da vinheta, que nesse momento já foi bem vista por ele e os que ali estavam presentes, acompanhando os ensaios. Esse, inclusive, foi um outro lado muito proveitoso de termos participado deste festival: assistir aos ensaios, absorver essa atmosfera. Vimos o ensaio de uma coreografia que envolvia letras nas camisas dos mágicos, que se movimentavam no palco, formando palavras. Neste dia, vimos ainda o mágico japonês Shoot Ogawa, um dos destaques do festival, sentado tranquilamente na plateia do teatro, acompanhando os ensaios, enquanto ouvia músicas japoneses em seu computador. Depois ele próprio foi ensaiar alguns truques no palco. O interessante era que, por quase todos ali serem mágicos, havia uma atmosfera muito integrada, de amizade, companheirismo, união. Os truques iam sendo compartilhados, divididos, a mágica transbordava e encantava, mesmo antes do início oficial do festival.

Fizemos testes e ensaios com o que tínhamos de pronto da vinheta. Para tal, foi montado o enorme projetor no palco. A imagem era projetada não pela frente, mas por trás, o que gerava um efeito muito interessante de sombra, caso alguém passasse por trás da tela. Tal efeito chamou a atenção de Ryan, que na hora decidiu mudar um pouco a maneira como a interação seria feita. Inicialmente, o mágico que abriria o show, iria pela frente do público, e, num passe de mágica, 'pegaria' a cartola das mãos de nosso personagem, o mini-mágico. Na nova versão, agora idealizada, veríamos apenas a silhueta do mágico que interagiria direto com a vinheta, chamando sua atenção, por trás da projeção. O mais importante da interação, a passagem da cartola, permanecia inalterada, exceto pelo lado de onde o mágico agora a receberia.


Nos ensaios, acompanhamos a preparação para a passagem da cartola

Saímos do teatro nesse dia com apenas mais algumas alterações para fazer. Os próximos dias foram de intensa atividade. Eu, que até esta etapa do processo apenas coloria com cores pré-definidas, agora já experimentava definir cores para os personagens, para agilizar o trabalho. Assim, fui pintando os mágicos que ilustram a vinheta, combinando cores que ressaltassem suas personalidades. Também colori nossa versão do Luiz Gonzaga, e segui dando suporte a Diego na medida do possível em todo o resto da finalização, que incluia cenários e montagem.

A cartola, que mostrei no início desse texto, inicialmente seria desenhada, como todo o resto, mas dada a sua singularidade (cheia de cartas de baralho e afins), optamos por fotografá-la e inseri-la digitalmente. O recorte ficou bem bacana e combinou bem com os traços e movimentos dos personagens.

Já a trilha sonora usada, foi de uma biblioteca sonora da Apple, os Apple Loops, disponíveis gratuitamente pra uso. A música dialogou bem com as cenas e o ritmo. Com a vinheta totalmente finalizada, aguardamos a chegada do dia 14, sexta-feira, onde teria início o FENOMA 2012.

Bom, continuarei falando, agora sobre o festival em si, a versão final da vinheta e sua exibição, os shows dos mágicos, e até de nossa vontade de seguir carreira de mágico, no próximo post dessa série!

Segue, ainda, o animatic, que é basicamente o storyboard animado, que foi peça fundamental para determinar tempo e ritmo de cenas na versão final:


domingo, 2 de setembro de 2012

Livro: Sem medo de viver



Algum tempo atrás, escrevi aqui um pouco sobre um livro de Augusto Cury (De gênio e louco todo mundo tem um pouco), que tinha ganhado de presente. Não sabia muita coisa sobre o autor, mas a ideia geral já me soou interessante, a ponto ter conseguido "furar a fila" de outras leituras que eu tinha em vista. A vida é sempre feita de escolhas, e mesmo a entre dois livros pode representar bem mais do que imaginamos.

Pois, de certa forma, este fato se repetiu, mas dessa vez com Max Lucado. Já conhecia, bem do alto, alguma coisa de sua obra, mas não me imaginava lendo algum de seus livros (ao menos por hora), até que o livro que ilustra esse post chegou às minhas mãos. De início, foi apenas para checar, ver do que se tratava, curiosidade literária, uma olhadela rápida por entre as páginas. A maneira como a questão do medo era posta em xeque por Lucado, porém, me fisgou e, antes que percebesse, já tinha lido as trinta primeiras páginas.



Não sei como são os demais livros do autor, mas pude ver uma boa aproximação dele com sua obra, a partir do ponto que insere fatos de sua própria vivência, deixando o todo com uma cara mais transparente, mais realista, mais próxima do leitor. O irmão de Lucado, sua esposa, filhas, amigos, todos figuram constantemente, demonstrando um lado humano, que muitas vezes passa meio longe da visão que temos de um autor, principalmente de um tão amplamente divulgado e alardeado pela mídia.



Ao longo deste livro, também, fica evidente a forte religiosidade de Lucado (até então, não sabia que ele era pastor), uma vez que há inúmeras citações bíblicas, geralmente usadas para exemplificar condutas, passar ensinamentos, transmitir virtudes, que atravessam os tempos bíblicos e chegam aos dias de hoje com a mesma intensidade. São as parábolas de Jesus.

Essa interessante aproximação com o livro sagrado desperta um olhar curioso, mais ainda a quem ainda não se aventurou muito nessas águas. Lucado cita parábolas que trazem à tona alguns dos medos mais comuns a afligir a humanidade, medos estes dissolvidos pelas palavras divinas. Em um dos capítulos, discute ainda o medo de que Deus não exista, sempre apoiado pelos alicerces da bíblia. O livro pode até ser encarado, algumas vezes, como um certo "processo de evangelização", mas prefiro observá-lo de uma maneira mais aberta, com o amplo e contundente valor literário e, acima de tudo, humano, que há nas entrelinhas de suas páginas.



Como falei antes, o autor menciona diversas situações de sua própria vida, expõe seus medos, demonstra sua incapacidades, ao mesmo tempo que cita também seus porto-seguros, seus guias, como superou estes momentos. O tempo inteiro busca abrir os olhos do leitor, para aquilo que muitas vezes é um medo errôneo, sem motivo ou razão, como, aliás, são a maioria deles. O medo, até certo ponto, é saudável, inerente ao ser humano. O problema é quando ele começa a controlar a nossa vida, quando coloca suas rédeas sobre nós.





Entre a abordagem dos capítulos, estão medos comuns e amplamente discutidos, como a própria origem do medo, o medo da falta, medo de não ser importante, medo de grandes desafios, medo da violência, medo do futuro, medo da morte, entre outros. Essa divisão facilita a leitura, pois possibilita os capítulos de serem lidos em qualquer ordem, uma vez que cada um é bem específico, quase como se fossem mini-livros reunidos.





Todo livro sempre é uma valorosa surpresa, mas muitas vezes os que lemos porque procuramos ou fomos indicados não são bem aquilo que esperávamos. Já aqueles que chegam de repente, sem ter sido previstos ou planejados, acabam por nos surpreender, por nos atingir de uma maneira especial, por comunicar algo que sabemos que somente ele poderia tê-lo feito. Foi uma sensação mais ou menos assim que tive ao ler esse livro de Max Lucado. Não pude, inclusive, deixar de marcá-lo de cima a baixo, praticamente, ressaltando trechos e passagens memoráveis. Fazer marcações em livros, inclusive, são excelentes! São quase como novos livros escritos por nós. Vou falar sobre isso depois, em outro post.



Não sou nenhum especialista na bíblia, o que provavelmente me impossibilitou de ver algumas coisas neste livro, é verdade, mas já me considero mais próximo, mais enriquecido de seu conteúdo, uma vez que o livro me abriu a novas portas de compreensão e percepção. Portanto, ele pode se estabelecer ainda como uma interessante ponte ao livro sagrado. Ao final, há ainda um guia de discussão, onde são usadas mais várias referências bíblicas, direcionadas aos medos abordados ao longo do livro.

Além de suas vivências, e do amplo rol bíblico empregado pelo autor, vemos também inúmeras referências de personalidades e figuras célebres, tais como o cantor e ator Dean Martin, o jogador de futebol americano Noble Doss, o grande golfista Byron Nelson, além do cineasta Woody Allen, e dos escritores Yann Martel, Tolkien, e C.S. Lewis, que ilustram casos curiosos de como o medo ou dúvida pode se manifestar na vida. Há ainda comentários sobre a fantástica e incrível história evolvendo o médico judeu Boris Kornfeld e o então soldado russo Alexander Solzhenitsyn.




Um dos fatores, porém, que me desagradam no livro, é algo que acaba sendo sempre inerente a uma obra tão difundida, ou a um nome como o de Max Lucado. É tão simplesmente o "Mais de 65 milhões de livros vendidos", que acaba atuando quase como um outro sobrenome do autor na capa do livro. Será que é mesmo necessária essa conduta? É o que me questiono sempre que vejo esses ditos "best-sellers". Essa jogada de marketing é tão comum que já nos acostumamos a ela. E mais, é ela que deve ser a responsável por boa parte das ditas vendas. Pode-se pensar: "Nossa, tantos vendidos, deve ser um bom livro!". Não querendo desmerecer esse ou aquele livro, por trazerem esta espécie de rótulo, principalmente porque tanto o autor como a editora querem vender seu trabalho, seu produto, e lutarão para tal,  mas e os livros que não venderam milhões de exemplares? Deixam de ser bons por isso? E mesmo esses milhões vendidos, será que cada uma dessas pessoas realmente usufruiu a obra, ou apenas serviu para aumentar as estatísticas? E essa questão vai bem além da literatura, chegando também ao cinema, música, etc. Meu propósito não é repudiar ou atacar o mercado de marketing, mas apenas sugerir que não nos deixemos levar apenas por dados e estatísticas para comprar ou usar algo. Muitas vezes, o que é menos vendido, ou menos conhecido, pode ter bem mais a dizer. Acredito que o melhor a fazer é confiar em nosso próprio instinto, ao invés de se deixar guiar por números ou listas.

Livros não mudam pessoas, mas mostram caminhos. Escolhemos ou não segui-los. Talvez ler este não signifique superar de uma vez todos nossos medos, mas nos dará uma consciência, um panorama do que o medo poder representar e roubar de nossa vida. Reagir e lutar contra ele é uma escolha nossa. Viver sem medo é viver plenamente, evitar preocupações desnecessárias. Viver não o passado ou o futuro, mas o presente. Nos atirar sem receios nessa maravilha que é viver, usufruir de tudo o que quisermos e pudermos, enquanto neste mundo. É um ideal que muitas vezes nós mesmos afastamos, por motivos e razões que dariam praticamente outro post como esse, mas é como diz Max Lucado: troquemos o medo do próximo inverno pela fé, afinal de contas, é tudo como dinheiro de Banco Imobiliário. Tudo volta para a caixa quando o jogo acaba (Trecho final do capítulo 9).




terça-feira, 21 de agosto de 2012

3 anos de blog!


Ilustração: Denis Akel

Quase não acreditei quando percebi que já havia passado metade do mês de agosto! É incrível como nesses tempos de hoje os dias parecem não durar, bem diferente do que me lembro de uns dez anos atrás. Talvez isso se deva ao exagero de atividades que agora se tem à disposição, dessa rotina corrida que todos, invariavelmente, acabamos por ter. Assim, nunca ficamos sem ter o que fazer, e quando ficamos, ficamos também chateados por não estar 'fazendo alguma coisa'! Claro, esse tema renderia bem mais que isso, mas por enquanto esse não é meu foco :)

O Diálogos Visuais completou 3 anos agora em agosto. É sempre uma data bacana de lembrar, pois um aniversário sempre nos faz olhar de alguma maneira o passado para tentar imaginar como será o futuro. Ao longo desses anos, tentei fazer deste espaço um acervo onde pudesse reunir conteúdos que tinha imaginado desde que tive a ideia de criá-lo, tais como cinema de animação, literatura e artes em geral.

Ultimamente, tenho postado em ritmo menor, mas ainda constante. É sempre um prazer construir um texto para cá, falando de algum livro, evento, filme, de meus trabalhos em conjunto com meu irmão, ou mesmo fatos soltos, sem aparentemente nenhum grande ícone por trás, mas com um pouquinho da essência que me mudou na hora em que o experimentei, como foi o caso do teclado musical ou do diário gráfico.

Enfim, blogs são, sobretudo, grandes registros, principalmente para seus próprios donos, que têm neles quase uma retrospectiva de sua vida. Por essa razão, não pude deixar de fazer algo que já vinha fazendo nessa época nos anos anteriores, ao escolher algumas das principais postagens (feitas ao longo desse último ano) e jogá-las novamente em destaque, no topo dos degraus. Aí vão (cada título é um link para elas, exceto nas em que há mais de uma parte, onde o "parte 1 e parte 2" são os links):

-  Livro: De Gênio e Louco todo mundo tem um pouco (postado em 1º de setembro de 2011)
Não conhecia ainda nada da obra de Augusto Cury. Certa vez, me deixei levar por suas páginas, e me surpreendi com o ar cativante de seus personagens, que refletem, ao mesmo tempo, o melhor e pior das pessoas, ou seja, como elas realmente são. No post, um breve panorama desta história, com fotos do livro.

- Referência: 8-bit trip  (postado em 11 de setembro de 2011)
Um belo curta metragem em stop-motion, que usa peças de LEGO como elemento criativo, recriando famosos e clássicos videogames como Pacman e Pong . Um trabalho extremamente bem produzido por uma dupla de suecos loucos!

- Pizza de Liquidificador (Postado em 18 de setembro de 2011)
Conto aqui como comecei a me interessar por culinária, através de um livrinho.Ainda, as sensações de se fazer a primeira receita, o prazer de ter um prato feito por nós mesmos, entre outras coisas.  Esta postagem, em especial, foi escolhida pela equipe do Anonymus Gourmet, para ser veiculada junto ao site da RBS TV, emissora afiliada à Globo, bem como ao blog do próprio Anonymus: Rede Globo/RBS TV e Blog do Anonymus.

- Teatro e dança: As Três Irmãs  (postado em 26 de setembro de 2011)
Clássico absoluto de Tchékhov, um dos espetáculos mais apresentados do mundo cênico. A Paralelo Cia de Dança adaptou-o a uma coreografia bastante característica, com grande suavidade e leveza. Comento sobre a peça, com fotos, e ainda um link para o texto original do dramaturgo russo.

- Livro: Bartleby, o escriturário (postado em 7 de outubro de 2011)
Livro de autoria de Herman Melville, autor do clássico Moby Dick. Em Bartleby, vemos um protagonista excêntrico, que desafia preceitos e morais com incalculável frieza... ou inocência? Tudo porque ele responde a um pedido de seu chefe com um "Prefiro não fazer". No post, conto algumas das consequências desse ato.

- II Feira do Livro de Fortaleza: Ilan Brenman - (postado em 16 de novembro de 2011)
Conheci Ilan Brenman inicialmente pela TV, no programa Entrelinhas. Dias depois, soube que ele estaria aqui na cidade, em ocasião deste evento, falando de seus livros e obras. Não poderia ser melhor! Conto nesta postagem como foi este momento.

- II Feira do Livro de Fortaleza: Walcyr Carrasco - (Parte 1), (Parte 2) - [postado em 22 de dezembro de 2011 (1) e 3 de fevereiro de 2012 (2)]
Walcyr Carrasco é mais conhecido pelas suas novelas, mas é também um talentoso escritor. Seu livro O caçador de Palavras me marcou muito, incentivando a seguir a área literária. Neste post, um panorama da enorme movimentação em torno de sua presença na feira, e como reagi diante dele, no momento do autógrafo. Destaque ainda para o comentário de Júlio Kadetti, acessor de Walcyr.

- Nos caminhos da música – memórias de um teclado quase esquecido (postado em 10 de janeiro de 2012)
Devemos sempre nos reinventar. Foi com esse pensamento, de tentar algo novo, que decidi, enfim, aprender a tocar um velho teclado, encostado há quase 15 anos. Iniciativa e determinação, duas coisas que fazem diferença na nossa vida. No post, conto como foi essa experiência.

- Arroz à Parmegiana (postado em 27 de fevereiro de 2012)
Uma excelente receita que aprendi no programa de TV do Anonymus Gourmet, que aprofundou ainda mais meu gosto culinário. No post, conto, passo a passo, detalhadamente, todas as etapas de preparo, ainda com inúmeras fotos de apoio. Mais que isso, só passando um pedaço pela tela!

- Walcyr Carrasco na II Feira do Livro – Meus bastidores (Postado em 15 de março de 2012)
Contei aqui um pouco de como foi meu processo para escrever as duas postagens sobre a presença do autor na feira. Tudo começou com longo esboço, ainda escrito à mão, momentos depois da apresentação.

- Livro: O Exército De Um Homem Só (postado em 1º de abril de 2012)
Livro de autoria de um de meus escritores prediletos, Moacyr Scliar. Só o título desta obra já vinha me fascinando há tempos, até que enfim resolvi lê-lo, e mais uma vez me vi surpreendido com uma narrativa que só Scliar poderia desenhar! Falei em algumas linhas um pouco da história, sem entregá-la. Fotos de trechos acompanham o post.

- VII ETC Fortaleza - (Parte 1), (Parte 2) - [postado em 25 de maio de 2012 (1) e 15 de junho de 2012 (2)]
O Encontro de Twitteiros Culturais (ETC) já chegou à sua 7ª edição aqui em Fortaleza. Não sabia do que se tratava, mas o que me chamou a atenção nessa foi a presença do poeta gaúcho Carpinejar. A boa oportunidade de enfim conhecê-lo me levou ao evento, onde tive gratas e valorosas surpresas. Conto praticamente tudo, inclusive detalhes de como foi a mesa, que teve ainda  o curador do prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb, a antropólga Glória Diógenes e o jornalista Plínio Bortolloti. Fotos e vídeos recheiam ambos os posts, com momentos memoráveis do evento.

- 50 Frases (postado 3 de junho de 2012)
Costumo atualizar o blog sempre com um aforisma de algum autor no topo. Uma maneira singela de dar boas vindas a quem chega. Quando completei cinquenta, os reuni nesta postagem. Além disso, comento o porquê destas escolhas.

-  Estreia de diário gráfico (postado em 19 de julho de 2012)
Seguindo a ideia de buscar coisas diferentes para fazer, de sair da rotina, resolvi retomar o desenho, que há tempos não praticava. Apesar de ser a estreia, o diário gráfico não era novo, já tinha bons 3 ou 4 anos. Mas só o descobri quando dei o primeiro risco, a primeira pincelada. Esse é o tema deste post, que adorei escrever.

________________________________

Atualmente, tenho uns quatro novos em preparação para logo mais, que acabo sempre atrasando por eventualidades, mas em breve serão postados. E também, passarei a postar mais em meu blog autoral, O Provável do Improvável.

É incrível, mas às vezes tenho a sensação de que um blog muitas vezes é nosso melhor amigo, noutras nosso pior inimigo, e que ao mesmo tempo que nos liberta, nos aprisiona. Postar é ótimo, compartilhar conteúdos, informações, é mágico, claro, mas o compromisso, o prazo que acabamos colocando em nós mesmos para a postagem seguinte é também muitas vezes angustiante. Aqui vale ainda citar Clarice Lispector, que dizia ser amadora quando escrevia, pois profissional é aquele que tem obrigação consigo mesmo de escrever, ou com os outros. Ela fazia questão de se dizer amadora, para manter sua liberdade.

Nos blogs, ou na vida, vamos tentar fazer tudo no nosso próprio tempo!

Ah, uma última coisinha, os links abaixo são para posts semelhantes a esse, com uma seleção de outros posts dos anos anteriores. Posso dizer que essas três postagens juntas refletem bem a alma deste blog. Grande abraço a todos :)

1 ano de Diálogos Visuais – Antigas postagens
2 anos de Diálogos Visuais – Antigas postagens