Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (VI - Literatura e Loucura)


Fotos: Denis Akel

Para esta sexta postagem, uma das mesas mais surpreendentes e reveladoras que tive o prazer de assistir nesta Bienal, Literatura e loucura, com Jackson Sampaio. Aconteceu na quinta-feira, 11 de dezembro, às 15h, no Centro de Eventos, na já tradicional sala 2 do mezanino 2.

Quando soube que haveria uma mesa com esse tema, fiquei bastante entusiasmado. A ideia e associação da arte literária com algum tipo de distúrbio psicótico é sempre recorrente, desde tempos remotos, sendo difundida, partilhada e defendida por inúmeros intelectuais do brasil e do mundo. De cara até lembrei de uma participação do grande Rubem Fonseca, em 2012, num evento literário em Portugal, que falava exatamente disso, mas deixarei isto para o fim da postagem. Embora agora eu ainda não soubesse quem era Jackson Sampaio, me inspirou grande curiosidade em conhecê-lo, por tratar esse tema tão interessante e necessário, e vi que provavelmente estava diante de mais um momento marcante deste evento.

Nesta quinta-feira, eu tinha chegado ainda de manhã à Bienal, com o intuito de explorar mais um pouco a feira, as oportunidades. Almoçaria lá mesmo, apesar das fracas opções de pratos e por volta das 14:40 seguiria já para a sala da palestra. Diego Akel, meu irmão, desta vez estava me acompanhando. Ele, inclusive, disse que já conhecia nosso palestrante, Jackson Sampaio, que agora eu soube ser o reitor da UECE, uma das principais universidades aqui de Fortaleza. Diego, que já estudara lá, disse que ele era muito conhecido e conceituado. Fiquei logo pensando "Puxa, o reitor da universidade... com certeza vai dar praticamente uma aula em forma de palestra!", de modo que a excitação só aumentava.

Como já mencionei nas postagens anteriores, era comum todas as mesas e palestras atrasarem, às vezes menos, às vezes mais, o atraso parecia fazer parte do cronograma. Acostumado a isso, resolvi dessa vez chegar mais perto do horário, a fim de passar menos tempo esperando. Contudo, mesmo faltando 15 minutos para as 15h, quando cheguei me deparei com a sala inteiramente vazia, exceto o rapaz que cuidava do sistema de som/vídeo, que na ocasião até me tomou como o palestrante. Desfiz a confusão e ele disse que já poderíamos entrar, se não nos importássemos com o frio da sala. Ora, justamente por isso que eu estava com aquela grossa camisa gola polo, impossível de se usar em casa, nesse calor doentio, mas maravilhosamente boa ali. Aliás, nunca é demais lembrar que os ares-condicionados do Centro de Eventos continuam ótimos. Tomamos, então, lugares bem à frente, pertinho do palco, onde àquela hora as duas poltronas ainda aguardavam, vazias.

Embora marcada para as 15h, foi só nesse horário que começaram a chegar as primeiras pessoas, inclusive o próprio palestrante, Jackson Sampaio. Como falei, ainda não o conhecia, mas Diego sim. E quando surgiu aquele senhor que aparentava grande sabedoria e propriedade, perguntei a meu irmão se ele era Jackson. Diego confirmou com a cabeça. O semblante sério, concentrado, do professor só me fez ter mais certeza de que coisa boa estava por vir. A sala começou a ser ocupada, mas percebi que aqui também haveria um público bem pequeno, o que não seria ruim, se fosse interessado. Uma câmera foi logo instalada num tripé, bem no centro da sala, provavelmente para registrar a conversa, o que parecia ser um hábito comum (já tinha visto em outras), embora eu já soubesse muito bem que esse registro provavelmente não seria divulgado depois.

Marisa Aderaldo, professora de literatura hispano-americana, seria a mediadora, e quando, por volta de 15:20, todos já haviam sentado, ela deu início aos trabalhos. O professor Jackson, então, percebendo a fraca frequência no auditório, sugeriu que todos que estivessem sentados atrás viessem mais para a frente, e os da frente fossem ainda mais para frente. Mais do que isso, ele mesmo puxou algumas das cadeiras das primeiras fileiras, sugerindo que todos fizessem o mesmo, e meio que as circundassem em torno do palco. Uns aceitaram, colocando a cadeira para a frente, outros apenas se deslocaram para uma fileira mais próxima. Com todos já mais perto do coração da conversa, Marisa fez uma breve apresentação do convidado, e aproveitei para conhecer um pouco mais sobre ele. Jackson Sampaio tem formação em medicina, com especialização em psiquiatria. Exerceu diversos cargos em hospitais e em inúmeras universidades pelo Brasil. É autor de diversos livros e publicações científicas, tendo também uma respeitável obra poética e literária. Agora pensei alguma coisa como "Nossa, com uma carreira tão específica, ele ainda se dedica às letras..." e não pude deixar de lembrar do saudoso Moacyr Scliar, um de meus escritores favoritos, também médico.

Jackson então começou, dando continuidade ao que Marisa havia inicialmente proposto, ao falar que boa parte de sua obra, já publicada em vários idiomas, agora começava a ser publicada em húngaro. Ele disse que isso é divertido, pois pela primeira vez não conseguirá entender o que escreve. Ainda, o professor falou um pouco sobre a curiosa origem da língua húngara, desde os tempos dos Montes Urais. Suas palavras pareciam cobertas de grande embasamento, de modo que não havia como questionar ou duvidar. A princípio, abordou literatura e o ato da criação literária. Seguem algumas colocações de Jackson que pude recolher deste começo, antes de necessariamente se entrar no clímax da palestra:

A literatura não deve ser carreira ou orgulho, deve ser como respirar. Toda expressão artística tem a ver com humildade e democracia. 

Se eu não me expresso, eu não sou.

A poesia é rigorosamente fácil, comparada às artes plásticas. Ela pode vir a qualquer hora. 

Não é preciso ser uma pessoa culta para ser um artista. 

Logo, o professor começou a penetrar no tema-base, a relação entre literatura e loucura, estabelecendo interessantes correlações:

A grande vantagem do poeta é que ele vai, finge, e volta. O poeta é um psicótico que alucina de maneira controlada. O esquizofrênico não.

Toda a arte está sempre escapando daquilo que é comum, que é consenso, que é verdade. 

A inutilidade da poesia atual se traduz em enorme liberdade.

Não importa o substrato onde se escreve. Pode ser uma tabuleta ou um tablet, um papel ou pergaminho, você sempre encontra um jeito de se comunicar dentro de um código.

Há momentos em que é preciso produzir algo que ninguém entenda. 

A psicose é simplesmente quando alguém constrói perguntas e respostas que só ele entende.

Exemplificando esses conceitos, citou uma cena de um filme do italiano Pier Pasolini, no qual um pintor quer pintar algo que ninguém entenda, evidenciando traços de uma psicose, e ainda talvez um reflexo do próprio Pasolini, que também era pintor. A cada palavra, sentença, mais me interessei por aquele assunto. O professor falava com grande presença, como que dando mesmo uma aula, com uma dicção e ritmo precisos, que dava gosto de se ouvir.




Grandes poetas eram doentes mentais. Grandes poetas também não eram. Não é uma relação de causa-efeito. 

Gosto muito da metáfora bíblica de Adão, de dar nomes às coisas, dar nomes aos sem nomes. Deus cria Adão e Adão cria a língua. Os escritores, os poetas, sobretudo, continuam o trabalho de Adão, continuam dando nomes, a coisas e sentidos sem nomes.

Jackson contou a peculiar história da origem da palavra maluco, que se relaciona com o topônimo (nome dado a uma localidade) Malucas, (Ilhas Molucas, na Indonésia), partindo do vocábulo local Maluku, em consequência da impressão que os malucos, habitantes daquelas ilhas, teriam causado aos portugueses, pela ação sangrenta e prolongada, de quem luta feroz e cegamente, durante o levantamento que sustentaram em 1570.

Boa parte das palavras ditas pelo professor Jackson vinham acompanhadas de suas origens e curiosidades, de modo que estávamos também tendo quase uma aula de etimologia. O termo 'louco' porém, não foi muito explorado por, segundo o professor, este ter uma origem bastante obscura, não se chegando a um concesso. Ele ainda mencionou algumas possibilidades, e disse que se alguém soubesse mais, se pronunciasse, o que não aconteceu.

Falou da curiosa origem de Gotham City, como sendo o apelido carinhoso de Nova Iorque. A história conta que, segundos provérbios ingleses, haveria uma vila chamada Gotham ou Gottam, significando Goat's Town (Cidade das Cabras) em antigo anglo-saxão. As pessoas que moravam nessa vila eram consideradas pouco inteligentes, bobas, talvez porque a cabra fosse considerada um animal burro. Dizem ainda que na verdade as pessoas só se faziam de bobas, para evitar a ira do rei John, assim desviando o rei da rota da vila. Jackson desenvolveu mais um pouco, e concluiu brincando: estão vendo até onde uma conversa como essa pode nos levar? Ao Batman! Risos gerais preencheram o auditório.

Todos os super-heróis são esquizofrênicos, são duplos. Quem são realmente?

Loucura, hoje, é todo comportamento que não se ajustar ao ideal que uma sociedade tenha de sim mesmo. A palavra deixou de habitar o mundo da psiquiatria. Por isso, quem faz poesia, só pode ser louco (risos). Poesia, uma coisa que não tem qualquer valor de troca. 

A poesia é o oposto da Coca-cola. O máximo valor de troca pelo menor valor de uso. O valor da Coca-cola é o valor que o marketing cria.

A poesia hoje não tem quase nenhum valor de troca, mas o máximo valor de uso, pois segue dando nome ao inominável, e dando sentido àquilo que não sabemos que sentimos. 

O conceito de novo e velho não tem nada a ver com arte, com poesia. Os autores antigos, gregos, são bem mais interessantes que a revista Piauí. 

Uma boa poesia não significa que seus sentimentos são bons.




Com pouco mais de uma hora decorridos, a palestra se abriu para perguntas do público. A primeira pergunta foi na verdade um pedido, para que o professor fizesse uma reflexão sobre um possível elogio à loucura, ao que Jackson respondeu em vários segmentos, dos quais destaco os centrais:

A angústia dos jovens de hoje é simultaneamente quererem e não quererem ter estatuto.

A arte é reconhecida pela fruição de um outro. 

O desabar na psicose é desabar num mundo sem sentido. Quando se delira, mais se aprofunda a lógica psicótica do que a supera. 

Disney digeriu e cuspiu todas as histórias da idade média. De origem nas histórias dos irmão Grimm, elas perderam sua essência. 

Carolina Campos, neta do contista Moreira Campos, que mais uma vez estava presente a um debate, fez um pequeno aparte, citando o artigo "Escrever", do poeta inglês W. H. Auden, que lera na publicação Serrote nº16. Auden é considerado o maior poeta inglês do século XX, sua obra influenciou e influencia gerações de poetas. Uma de suas célebres citações: "Por que você quer escrever poesia?" Se o jovem responde: "Tenho coisas importantes a dizer", então não é um poeta. Se responde: 'Gosto de curtir as palavras, ouvindo o que elas têm a dizer', então talvez se torne um poeta." Carolina contou ainda que sua mãe, a escritora Natércia Campos, costumava dizer que um escritor deve sempre começar com um 'era uma vez' e terminar com um fecho, que não se pode viver no conto.

O escritor não tem que esperar esse insight criativo, não precisa enlouquecer para produzir. – Jackson Sampaio

Não tenho nenhuma alucinação que tive na juventude, tenho liberdade por não ter mais esses desejos. – Jackson Sampaio

As perguntas iam se tornando mais comentários do que questionamentos, pedindo a ele que discorresse mais sobre alguns temas, explorando assuntos paralelos que se ramificavam dos centrais. O professor seguia, expondo seus ideais:

Nós temos uma sociedade que acha que não tem marca. Temos uma volúpia quase neurótica pela juventude. Hoje não há limites para adolescentes, muitas pessoas de 50, 60 anos, levam a vida sem qualquer preocupação, como se fossem adolescentes.

Tudo o que é sólido desmancha no ar – Jackson cita Marx, em seu pensamento metafórico, na questão da modernidade, da sociedade burguesa, em contraponto à atual.

Em certo momento, o professor foi perguntado a respeito de seu processo de criação, se costumar registrar todas suas ideias, e se por acaso se levanta do sono para anotar alguma coisa. Jackson foi direto: O texto é uma expressão, se tem intenção, já virou livro de auto-ajuda. Toda arte é policênica. Todo artigo científico é monocênico. Se uma ideia não permanece na minha memória no dia seguinte, é porque não era boa. Não costumo me levantar do sono para anotar ideia nenhuma.




O professor falou também de um exercício que lhe foi proposto por um jornal, o qual ele já faz há anos. Consiste em se por ideias complexas em apenas 2000 caracteres com espaço. Disse que é uma experiência muita rica, na qual visa sempre manter a clareza, e isso lhe permite controlar e filtrar muito bem suas ideias.

Prestes a concluir a palestra, Jackson mencionou (e repetiu várias vezes para que se pudesse anotar) ainda as três modalidades da poesia, ou três modos retóricos, de acordo com o poeta americano Ezra Pound:

Melopeia – Aquela em que as palavras são impregnadas de uma propriedade musical (som, ritmo) que orienta seu significado.
Fanopeia – Um lance de imagens sobre a imaginação visual
Logopeia – "A dança do intelecto entre as palavras", que trabalha no domínio específico das manifestações verbais e não se pode conter em música ou em plástica.

Uma poesia tem que estar próxima da música. – Jackson Sampaio

Após esta última colocação, seguiu-se um breve silêncio e percebi que afinal chegáramos ao fim da palestra. A professora Marisa então assumiu a palavra: Não sabemos o que está saindo na cabeça de cada um, mas com certeza estamos saindo dessa conversa mais ricos, conclui, sorrindo. Uma grande salva de palmas se fez ouvir. Jackson então finalizou: Quem veio para cá, foi atraído pela loucura ou pela literatura? Deixando o público numa inusitada – e bem-vinda – interrogação, propondo uma reflexão que afinal só poderia começar ali, no final da conversa. Bem, acredito que fui mesmo por ambas, para ver como uma alimentava a outra, e o resultado foi surpreendente.

Ao contrário de boa parte das mesas e palestras anteriores, nesta não houve momento para autógrafos ou nada parecido, o que foi de certa forma lamentável. Fiquei muito curioso para conhecer os livros de Jackson Sampaio, sua obra poética, ou mesmo os livros acadêmicos. O professor apenas conversou com um ou outro, nos momentos pós-palestra e logo deixou a sala.

Uma palestra-aula brilhantemente conduzida. A iniciativa de Jackson em aproximar as cadeiras do palco, quebrando o protocolo, a tornou uma conversa com ar mais informal, quase como se todos tivessem se reunido para escutar histórias do pai ou de um tio que há muito não viam. E para encerrar a postagem, aproveitando o tema da loucura, volto a falar na intervenção de Rubem Fonseca, que mencionei lá no início, e que cabe tão bem aqui. Quando saí do mezanino 2, da palestra de Jackson, a todo instante lembrava de Rubem, do seu "Nós aqui nessa mesa somos todos loucos, cada um à sua maneira", de modo que acho a circunstância perfeita para trazer o vídeo à tona:




Na ocasião, Rubem citou, em um discurso cativante, o que se precisa ser para ser escritor: louco, alfabetizado, motivado, paciente e imaginativo. A citação de Doctorow: Escrever é uma forma aceita de esquizofrenia, com a qual ele inicia sua fala, pode resumir e explicar muito bem toda essa questão de literatura x loucura, somada a tudo o que foi dito por Jackson Sampaio em sua palestra.

A seguir, a penúltima postagem desta série, com a mesa A Influência estética de Moreira Campos, com Ana Miranda, Adriano Espínola e Jorge Pieiro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (V - Produção literária brasileira contemporânea)


Fotos: Denis Akel

Seguindo com a série relativa à Bienal do Livro do Ceará 2014, chego agora à quinta postagem, centrada na participação do escritor Luiz Ruffato, na mesa Produção literária brasileira contemporânea. A palestra, mediada por Sarah Diva, aconteceu na mesma sala que as anteriores, no mezanino 2, do Centro de Eventos, no dia 9 de dezembro, uma terça-feira, 19:00.

Ver o nome de Luiz Ruffato entre os destaques da programação desta Bienal foi uma grande satisfação. O escritor mineiro talvez possa ser considerado um dos mais destacáveis escritores brasileiros em atividade, com uma carreira relativamente nova, mas significativa. Já o conhecia de nome de inúmeros festivais, entrevistas e palestras, no âmbito literário e jornalístico. Acho, porém, que a organização da Bienal poderia ter dado mais importância a Ruffato, uma vez que não havia sequer uma foto sua no folheto de programação, diferente de Lira Neto ou Xico Sá, outros "pesos pesados" que puxariam – ou deveriam puxar – os maiores públicos. Uma palestra que tivesse Luis Ruffato para tratar da questão da produção literária brasileira sem dúvida seria de suma importância num evento como a Bienal, e agora, um tempo depois, posso afirmar sem dúvida que ela foi tão boa quanto a de Lira e bastante superior à de Xico.

Cheguei por volta das 18:50. Percebi que não adiantava chegar muito cedo, uma vez que as mesas e palestras sempre atrasavam consideravelmente. Subi direto ao mezanino 2, pois seria mais um dia que não pretendia comprar livros nos expositores. Logo de cara, já vi Luiz Ruffato, à entrada da sala. Ao lado do escritor, a tradicional mesinha com seus livros à venda. Entrei e tomei um lugar, bem à frente; a sala estava vaga, com um público bem reduzido, talvez o menor que eu tenha visto até então. Felizmente, até o final, este público aumentaria, não muito, mas aumentaria. Abri o notebook, que dessa vez seria a peça base para anotar trechos e apontamentos e esperei, observando a movimentação crescente à minha volta.

Após as introduções e patrocinadores, Sarah Diva e Luiz Ruffato assumiram suas posições no palco. Sarah Diva, professora de literatura comparada e mestra em estudos literários, estaria à frente desta conversa, que enfocaria não só um panorama da produção literária brasileira, mas também um pouco da vida e obra do próprio Ruffato.

Com a palavra, Sarah fez uma breve apresentação de Ruffato, mencionando que seu primeiro livro, Histórias de Remorsos e Rancores, data de 1998, e que de lá para cá já tem 16 anos de uma carreira literária de grande sucesso, traduzido já para várias línguas, passando por vários gêneros – uma carreira extremamente rápida. Procurei não dar muita atenção a esses dados, números e estatísticas, que muitas vezes não representam a real grandeza do artista, apenas servindo para meio que "justificar" o fato de ele estar ali, no centro dos holofotes, como se, não fosse tudo isso, não estivesse apto àquele momento. Esta é sempre uma boa reflexão a se fazer.

Sarah então começou perguntando como ele se sente hoje, se olha para o passado ou se está sempre pensando no próximo projeto literário. Luiz Ruffato, primeiramente, agradeceu o convite e a todos os que estavam ali presente, em plena terça à noite. Em seguida, disse que é de uma família pobre, que por isso não teve qualquer registro fotográfico de sua infância e adolescência. Para ele, é quase como se tivesse duas vidas. Não tem lembrança nenhuma de ter qualquer interesse de pensar em futuro. Em sua infância e adolescência, desejava apenas ser uma pessoa honesta, ter estudo, seguir os ideais que seus pais desejavam para ele. Falou ainda da época em que fez tornearia mecânica, que seus pais acharam que ele finalmente deslancharia. De lá, acabou fazendo um curso, depois chegou ao jornalismo e em seguida à literatura. Ruffato comentou ainda que se sentia ignorante perto de seus colegas de universidade. Para mudar isso, começou a ler compulsivamente.

Há dois grandes momentos de pensar na literatura brasileira. No século XIX, com José de Alencar, e no XX, com Mário de Andrade. Não considero Mário de Andrade um grande escritor, mas é essencial para se entender a literatura brasileira, a partir do que aconteceu no século XIX. Embora Andrade não cite Alencar de maneira explícita, está sempre dialogando com ele. – Luiz Ruffato

Ruffato contou como José Lins do Rego, a quem considera absolutamente verossímil no universo da literatura rural, lhe foi uma grande influência, no início de sua carreira. Inicialmente, percebeu que não havia representação do trabalhador urbano na literatura brasileira, por isso decidiu escrever sobre isso, focar nesse tema, tal como Rego focou sua literatura regional. Ruffato passou 15 anos querendo, mas não podendo, por não ter competência para tal. Então partiu de um exercício para buscar a estética necessária para conseguir escrever finalmente o primeiro romance.

É importante ter pretensão para conseguir construir um lugar singular na literatura brasileira. Como não havia ninguém que se dedicasse àquele momento, decidi me dedicar a ele. Publicava contos, mas chamava de romances, e vendia. Me diziam que contos não vendiam, não davam nada.  – Luiz Ruffato



Quando perguntado sobre a questão de prêmios, disse não estar preocupado com isso, mas sim com a construção de seu projeto literário, O Inferno Provisório, obra composta de cinco livros sobre o operariado brasileiro, concluída em 2011. Sarah completou, citando a metodologia de outros escritores, como Guimarães Rosa e Murilo Rubião, onde o primeiro cuida de seus textos como se fossem filhos, até a hora de publicar; o segundo os refazia exaustivamente.

Eu escrevo para leitores, não para pesquisadores. Nada contra pesquisadores, claro – Luiz Ruffato

A professora trouxe ainda à tona a série Amores Expressos, perguntando a Ruffato como foi a experiência de participar do projeto da editora Companhia das Letras, que levou 16 escritores a 16 cidades ao redor do mundo, com o objetivo de escrever um romance na volta. Aproveito para dizer o quão interessante é esse projeto, com sua proposta inovadora, que deveria servir de base para outros similares, uma vez que expande nosso eixo cultural, traz um pouco dessas cidades para cá, leva daqui para lá, encurtando distâncias e criando sonhos, sejam na ficção ou não. Foi produzida ainda uma série de 16 episódios, mini-documentários, nos quais se acompanha um pouco da vivência do escritor na cidade, bem como suas ideias e possibilidades de escrita. Infelizmente, esse conteúdo – que deveria estar sempre em evidência – fica fechado a passar vez ou outra em canais como o Arte 1 e TV Cultura. Na internet, encontrei somente trailers e teasers. Uma pena.

Sempre fui péssimo repórter, na época do jornalismo. Consegui me achar como editor. Como repórter, não conseguia cumprir pauta. Inventava coisas, escrevia horóscopos, escrevia cartas para eu mesmo responder, até ver que não dava. Fui o primeiro autor a ser convidado ao Amores Expressos, durante um carnaval com meu filho.

Na ocasião, inclusive, ele contou que a ligação veio para o celular de seu filho, pois nas palavras do próprio Ruffato: não tenho celular, nunca tive e nunca terei. O escritor, que inicialmente seria designado a Paris, disse que recusou a capital francesa, optando por Lisboa, pois queria um personagem seu, brasileiro, indo a terras portuguesas, e isso seria bem inverossímil de se ver em Paris.

Leio muito prosa de ficção, sou viciado. Gosto ainda de história e poesia. Sempre tenho três ou quatro livros de poesia. Não gosto de ler o livro inteiro. Gosto de ler o mesmo poema às vezes repetidas vezes. Tenho veneração por poesia por achá-la quase outro gênero, diferente de literatura. – Luiz Ruffato

O legal da poesia é republicar o mesmo livro sempre, bastando mudar o título, por um ou outro poema. As pessoas sempre vão comprá-lo. – Luiz Ruffato

Larguei o jornalismo em 2003, para o bem do jornalismo. – Luiz Ruffato

O escritor não pode ser acomodado. Precisa trabalhar todos os dias, se dedicar, não pode esperar que a esperança bata à sua porta. – Luiz Ruffato

Enquanto a conversa fluía, corri um pouco a atenção pela sala, prestando atenção às outras pessoas e a como elas pareciam ouvir aquilo. Perto de mim, duas tomavam notas com grande afinco. Suas canetas, intrépidas, não paravam de escrever; seus olhos pareciam brilhar a cada título de livro, cada fala de Ruffato, como que realizados. Fiquei curioso para saber quem eram, o que pretendiam, focados daquele jeito.

O que mata um escritor é a sensação de conforto. Não se pode virar uma máquina de repetição. Em cada livro meu, busquei uma sensação de desconforto.  – Luiz Ruffato

Com quase uma hora decorrida de palestra, Sarah Diva abriu para perguntas do público. A primeira pergunta foi sobre seus livros futuros, vinda de um canto da plateia que parecia abrigar os fãs e seguidores mais fervorosos do autor, que conheciam – ou deviam conhecer bem –  suas obras. Eles disseram ter visto Ruffato escrevendo alguma coisa ali nos arredores do Centro de Eventos e queriam saber do que se tratava. O escritor riu, disse que tem projetos para novos livros, mas ainda em estágios iniciais. Atualmente, tem se ocupado muito de sua coluna semanal no jornal El País, e era justamente o que estava escrevendo quando foi visto.

Coluna semanal dá uma trabalheira danada. Às vezes é preciso escrevê-la em todas as brechas possíveis. – Luiz Ruffato.

Ruffato citou uma pergunta que lhe foi feita pelo jornal Zero Hora. Em ocasião do final do ano, perguntaram-lhe: o que aprendeu em 2014? Não aprendi exatamente, mas aprofundei mais a amar as pessoas. O escritor falou ainda da crise que as eleições causaram nas pessoas, de separá-las, julgando seu modo de pensar, mas que nunca deixou de amar ou os amou menos por conta disso. Cada um é diferente do outro. Ninguém é igual.

Amar é um grande exercício de tolerância. – Luiz Ruffato

A vida pode ser inverossímil, a arte não. – Luiz Ruffato

As histórias fantásticas tem que ter uma coerência interna, a coerência da literatura, não da vida.  – Luiz Ruffato



Ainda dentro do tema, citou o escritor italiano Luigi Pirandello, que trabalha com o absurdo com a verdade da literatura, não da vida. A questão do tempo e espaço me interessam muito particularmente. Os romances do século XIX eram no tempo sucessivo, tudo tinha uma ordem para acontecer. Hoje em dia já devem ser em tempo simultâneo, onde tudo acontece ao mesmo tempo. O romance tradicional foi criado para a burguesia, para se contrapor à aristocracia. Nessa época, ele é totalmente simbólico; há o amor, há a dor, são signos. A burguesia então criou uma espécie de carteira de identidade, identificando portanto personagens.

Ruffato, além de dizer não usar celular, disse também não ter qualquer rede social, dando particular ênfase ao facebook. Quando perguntado do porquê não ter um perfil, disse simplesmente que não tem porque não lhe pagam, soltando uma gargalhada em seguida. Eu também adoraria ter um blog, mas como não teria retorno financeiro, prefiro não. Seu tom pareceu irônico demais, muito forçado, já quase querendo se tornar engraçado. Fiquei em dúvida se ele falava sério ou estava brincando, mas logo ele próprio acabaria se contradizendo, como observei mais a seguir.

Não tenho nada contra a internet, muito pelo contrário, acho que ela valorizou muito a literatura. Hoje em dia, todos estão escrevendo, todos estão publicando, e há ainda os militistas que criticam, sem motivo, as feiras de livros, as vendas de livros etc. Qual o problema de vender livros? Isso é ótimo para Fortaleza, é ótimo para o brasil. 

O escritor abordou também a arte abstrata, mencionando uma exposição que viu certa vez, que reunia inúmeros calçados jogados a um canto. Achou aquilo estranho, e tentou entendê-los de todo o jeito, mas não conseguiu. Na verdade, achou aquilo uma bobagem, uma besteira, e por isso se pôs a tentar desvendar aquilo, até que o curador lhe explicou que os sapatos ali amontoados tinham um sentido, cada um pertencera a uma pessoa, tinha deixado marcas, pegadas etc. Somente aí a mente do escritor se clareou, e ele passou a compreender melhor essa linha artística.

Ruffato, conforme observei em alguns momentos, demonstrava uma certa teatricidade no palco, com traquejos linguísticos que eram ganchos perfeitos para risadas e descontração, o que a princípio achei desnecessário, mas depois considerei talvez não ser realmente ruim, uma vez que pelo menos estava conseguindo ter a atenção de todos, à medida que explorava esse ou aquele assunto.

Explicou ainda os conceitos de romances com foco no realismo socialista e capitalista: realismo socialista, uma coisa horrorosa. Romances coletivos onde o homem comum não interessa, só interessava a história. Já o realismo capitalista é construído a partir das histórias individuais, tal como ficou O Inferno Provisório, que tenta escrever biografias de pessoas que não tem biografias, expor histórias de pessoas quase invisíveis. Jogar uma luz sobre pessoas que ninguém vê e não tem a menor importância. 

Queria colocar nomes nas ruas de pessoas que nunca tem seus nomes nas ruas, como "pipoqueiro fulano de tal" – Uma citação muito válida, que leva a uma contundente reflexão sobre dar importância a quem não a tem. Ainda, esta curiosa citação não foi por mero acaso, uma vez que o pai de Ruffato foi pipoqueiro e o próprio escritor também desempenhou o ofício, durante a juventude.

Perguntado sobre como as obras novas podem ficar no futuro, ele citou o filósofo alemão Heigel, que diz que quando você faz história, você não sabe que está fazendo história. Isso não deve ser preocupação do escritor, ele deve simplesmente escrever, e bem. O escritor não deve se preocupar com essas bobagens. A mesma pessoa tornou a perguntar: como chegar às editoras? através de concursos? Ruffato foi incisivo: não choramingar, batalhar. Se você acredita que é um escritor de verdade, vá à luta, tenha coragem. É uma batalha diária, acredite no seu trabalho. Quem está batalhando sempre vai à frente, diferente daquele que apenas diz que faz, e não faz. 

Para finalizar, o escritor paulista fez questão de citar dois livros que nenhum escritor pode deixar de ler, por questões estéticas. Fez ainda uma breve pausa de suspense antes de revele-los, com pompa de quem iria dizer quase um segredo indizível: Dom Quixote, toda a pós modernidade está nele; e Ilusões Perdidas, por ver toda essa coisa do escritor que quer chegar lá mas não faz por conta. Leia os dois livros, quem quiser ser escritor vai aprender um monte de coisas neles. 

Concluída a palestra, Luiz Ruffato foi aplaudido e logo se dirigiu a uma mesinha, ali mesmo na sala, onde se pôs a autografar livros, recebendo a todos com um simpático sorriso. Pensei em adquirir algum de seus livros, mas não ali, onde deviam estar caríssimos. Diferente do que aconteceu a Milton Hatoum, porém, vi livros de Ruffato em vários expositores da Bienal, logo seria melhor tentar pechinchar depois, embora seus livros não fossem uma prioridade para mim no momento. Fiz então mais algumas fotos do pós-palestra, e saí, com a mente fervilhando, considerando e refletindo tudo o que fora dito ali naquela noite tão produtiva.




Do lado de fora da sala, grande movimentação para comprar livros do autor, para em seguida pegar seu autógrafo



Só fico até agora pensando, porém, nesse lado capitalista, quase mercenário, que se desenhou na palestra quando ele disse que não tem facebook ou blog porque não lhe pagam. Ora, essa ideia é muito relativa. É muito conveniente um escritor como ele, já estabilizado, afirmar isto, mas e quanto aos que visam se tornarem escritores? Como devem começar? Essa pergunta foi feita lá, e foi respondida por ele. Ao dizer que o escritor iniciante deve batalhar, escrever sempre, Ruffato meio que se contradiz, afinal nos tempos de hoje, usar essas ferramentas, como blog/facebook, só aumenta a abrangência que um texto pode ter. E ainda, não é fácil mal começar já querendo dinheiro, esse pensamento talvez sequer devesse ser considerado, de modo que no início da estrada é preciso escrever puramente pelo prazer da escrita, pela conquista dessa batalha diária. Uma coisa que fiquei pensando até agora... será que ele não tem celular também porque não lhe pagam?

No mais, foi uma boa palestra, melhor do que eu poderia imaginar. Luiz Ruffato traçou um interessante panorama literário, desvelando conceitos, refinando ideias, clareando um entendimento e uma curiosidade que certamente poderia fazer aquela palestra durar bem mais do que durou. Mais um grande momento desta Bienal do Livro, mais um grande aprendizado.

Para a próxima postagem, a reveladora mesa Literatura e Loucura, com Jackson Sampaio.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (IV - Milton Hatoum no cinema)

Da esquerda para a direita: Sérgio Machado, Glauber Filho e Milton Hatoum
Fotos: Denis Akel

Nesta quarta postagem relativa à XI Bienal Internacional do Livro do Ceará, o destaque será novamente o escritor amazonense Milton Hatoum, um dos homenageados desta edição do evento.
Milton, que já estivera presente na cerimônia de abertura, bem como na mesa Infância e Memórias, faria agora sua última participação na Bienal, em uma mesa que abordaria a adaptação cinematográfica de sua obra.

Na mesa, intitulada Milton Hatoum no cinema, realizada no dia 8 de dezembro, o escritor dividiria o palco com o diretor Sérgio Machado, com mediação do também diretor Glauber Filho. Era uma das mesas que eu mais queria assistir, pois além de ter a presença de Milton, trataria do tema de adaptação de uma obra literária. Como surge o interesse para a adaptação? A linguagem se modifica? Como se dá o diálogo entre o escritor e o diretor? Qual a liberdade que compete a cada um? Eram algumas das perguntas que me vinham à mente quando pensava nesse tema, um tema sempre pertinente, sempre curioso.

Haveria duas horas e meia de intervalo entre a mesa que vi anteriormente, Biografar brasileiros, e o início desta. Usei este tempo passeando entre os expositores de livros, aproveitando a atmosfera do evento, imerso em leituras ora conhecidas, ora inesperadas, e é incrível como o tempo passou rápido, mal senti passarem essas duas horas e meia! Retornei ao auditório da mesma sala, Contos Escolhidos, pouco antes das 19h, hora prevista para o início. Havia ainda muita movimentação por conta da palestra anterior; Lira Neto podia ainda ser visto nos corredores do mezanino, muito assediado por fãs e amigos. Milton Hatoum, destaque da mesa vindoura, já estava a postos nas imediações, também amplamente solicitado.

Movimento na sala momentos antes do início da mesa

Desta vez, sentei-me ainda mais à frente, como se a cada palestra ganhasse mais confiança, mais vontade, disposto a absorver cada vez melhor os temas e assuntos discutidos. Armei minha base de operações, que consistia num bloquinho de anotações e um iPad e fiquei à espera, observando a movimentação crescente do público, que começava a preencher à sala. E com um atraso habitual de dez ou quinze minutos, a mesa teve início. Após palavras de praxe de patrocinadores e afins, Glauber Filho fez a introdução do tema, citando obras de Milton Hatoum que estão em vias de serem produzidas para o cinema.

Quando escrevi os livros, os romances, não pensava que seriam adaptados. Não penso no cinema quando escrevo, embora literatura e cinema sejam muito tênues. A literatura no século 19 já tinha um tom cinematográfico. – Milton

Não uso computador para escrever. Basta uma caneta bic e uma folha de papel, tudo é muito simples, mas quando isso vai passar para o cinema, tudo se complica. – Milton

Sérgio Machado, que está adaptando obras do escritor amazonense, falou de como Milton surgiu para ele, de como escolheu os livros, através de Maria, uma amiga sua, crítica literária. Ele pediu a ela dez livros para sondar a possibilidade de adaptação. Acabou por ir com ela à livraria. Um destes livros foi de Milton Hatoum, e os contos o fascinaram, pois eram todos feitos de imagem e ação, uma vez que Sérgio disse gostar muito mais de imagem e ação do que de diálogo.



Milton leu trecho do conto "O adeus do comandante", demonstrando um pouco desse contexto visual que permeia sua obra. Sérgio disse que pensa em seguir mais o texto original de Milton na adaptação. O diretor comentou que está fazendo a adaptação junto com Milton e Maria, o que dá ao roteiro um ar mais literário. Ele diz ser um privilégio poder trabalhar junto com Milton, que escreve muito cinematograficamente.




Sérgio então leu um pouco do roteiro, e era bastante perceptível como transbordava de imagens, mas não como um roteiro típico, havia ali um toque literário, a essência da obra estava presente, e percebi também, ao mesmo tempo, como se o roteiro fosse uma continuação do conto de Milton. O escritor escutou a leitura de Sérgio com grande atenção, como se conferindo se tudo estava no lugar certo. Quase não movia um músculo; os nós dos dedos cruzados em profunda reflexão.



A conversa fluía, instigante. Lutei para conseguir, não só assimilar e refletir tudo o que era dito, como também escrever meus apontamentos, filtrando os trechos que me fossem mais valorosos, à medida que eram ditos. Como em todas as palestras, dediquei também um tempo a observar os semblantes, ora do público, ora do trio que discursava. Enquanto observava Milton lendo, fiquei pensando o que ele sentia, ao ler ali, trechos de sua obra. Deve ser algo já comum para ele, mas mesmo assim ainda uma sensação única, e talvez até um pouco amedrontadora. Ele lia com avidez, com gosto, como se de fato vivesse tudo aquilo, acreditasse em toda aquela realidade inventada.



Entre o público, identifiquei várias pessoas que já vira nas palestras anteriores, como a curadora Mileide Flores, e a neta de Moreira Campos, Carolina Campos. Lira Neto, que há algumas horas atrás estava sentando naquele mesmo palco, podia também agora ser visto entre o público que assistia. Ele, inclusive, pediu a palavra e fez alguns comentários sobre uma minissérie de Raquel de Queiroz. O jornalista fez perguntas direcionadas aos dois palestrantes; a Sérgio, quais são os limites artísticos a que um roteirista pode se permitir? Até onde ele tem o direito de mexer na narrativa? E para Milton, como é, para você, escrever um texto originalmente para ser lido e vê-lo chegar ao texto cinematográfico?

O jornalista Lira Neto faz perguntas à mesa e chama a atenção do público

É muito ruim trair o espírito do livro, diz Sérgio, que falou ainda das obras que já adaptou, citando o filme biográfico Padre Cícero, inspirado no livro de autoria de Lira Neto, e como é difícil fazer os cortes num livro grande. Segundo o diretor, um conto é mais tranquilo de ser adaptado, sem ser preciso fazer muitos cortes.

É importante o diálogo com o escritor a ser adaptado. – Sérgio

Já Milton acha uma maluquice que o diretor faça uma cópia do original. Para ele, é meio que uma tradução de uma linguagem para outra. Milton acredita que todo escritor espera ver a essência de sua obra na versão adaptada.

Se você explicar, você mata a literatura. É preciso deixar muitas coisas em aberto. Tchekhov dizia: escreva um conto, tire o começo e o fim, deixe só o miolo. O conto se diz por si, seja breve, intenso, não diga tudo e vá cortando. – Milton

Milton falou muito no poder da imagem, de como a literatura para ele não tem comparação, não conhece fronteiras. O alcance da imagem, contudo, acaba sendo muito maior. Deu ainda uma pequena alfinetada em livros com A Cabana, livros de auto-ajuda em geral, que têm grande alcance mas pouco ou nenhum valor literário. Nesse ponto, discordo em parte. Claro que não se pode comparar, por exemplo, Crime e Castigo com A Cabana, mas daí a dizer que não há valor literário nesse último é ser um pouco extremista. Acho que tudo é muito subjetivo, afinal, se um livro faz bem a quem lê, independente do que fale ou de como fale, é o que realmente importa. A  questão estilística tem valor, com certeza, mas não deve ser o único quesito observado para esse julgamento.

A literatura é um quarto pequeno nos fundos de uma casa, e não toda essa ostentação que se faz sobre as obras cinematográficas. – Milton

Glauber Filho, mediador da mesa, diz que para ele a escrita de Milton tem um tempo muito cinematográfico.



Sérgio foi perguntado sobre como é colocar mais um personagem na obra adaptada. Ele disse que isso seria uma grande traição com o escritor. Não é preciso acrescentar nada, pois a obra por si só já prevalece. A adaptação é um encontro da subjetividade do diretor com a do escritor.

Hitchcock só adaptava porcaria. Busco sempre acrescentar um pouco meu, naquela obra que tanto me marcou, sem tirar a essência do original. – Sérgio

Toda a coisa do caráter espacial da obra vai fazer parte da obra cinematográfica, trechos simples da narração vão fazer a passagem de tempo na imagem. Houve uma editora alemã obcecada em ter a planta da casa dos Dois Irmãos – sim, a casa de fato existe. – Milton

Eu tento trabalhar com a ação e a interioridade dos personagens, um estilo conradiano. – Milton, numa referência ao escritor polaco Joseph Conrad.

Sérgio, em um dos momentos, perguntou a Milton se ele escreve biografias ou trechos sobre a vida de seus personagens, ao que o escritor amazonense respondeu:

Os escritores mentem muito. Henry James pensou e escreveu cada personagem. Ele compôs tudo, meticulosamente, cada personagem. Flaubert fazia o mesmo, pensa com cuidado em cada personagem. Eu também prefiro pensar em cada personagem. Você tem que ter um planejamento do personagem, é preciso pensar sobre eles, para saber aonde podem chegar. – Milton



Em inglês, personagem é 'character', ou seja, o caráter da pessoa. Como ela age? como ela pensa? Tudo isso tem que ser planejado – Milton

Glauber pergunta a Milton se o trabalho nesse processo de adaptação pode favorecer mais projetos similares de sua parte. O escritor diz que ainda não, que aí vai querer logo escrever um romance. Sérgio e Maria fizeram uns 87% do roteiro, eu apenas dei algumas ideias, notas de rodapé, conflitos dos personagens. Sérgio é diretor, quando ele tá com a gente, ele já vê o filme. Quem escreve, não vê a princípio o filme. – Milton

Jamais pensei em escrever. A literatura nunca me passou pela cabeça. Seria mais fácil me imaginar coreógrafo do que escritor. Penso mais na imagem. Só sei escrever imaginando a cena, a imagem. Acho o processo de escrita muito fascinante, curioso, e sempre quis entender mais esse processo. Quero aprender mais a escrever, os roteiros que vi até agora carecem de valor literário, que é algo muito inspirador. A sensação de poder filmar isso é enlouquecedora. A força do começo do conto do Milton funciona perfeitamente como imagem, sem precisar tirar ou cortar nada. É minha primeira experiência trabalhando com um escritor. – Sérgio



O mais louco do cinema é ter uma ideia e fazer de tudo para realiza-la e no final ter que tirar a cena – Sérgio

Sou muito obsessivo. Antes de filmar, escrevo um livrão, de pesquisa, de estudo, para me preparar para as filmagens. – Sérgio

Fazer um filme sobre Mário Peixoto foi como se entendesse melhor meu pai. No fundo, eu parecia falar para meu pai, através do filme. – Sérgio

Quero respeitar ao máximo a vida daqueles sobre os quais faço filmes, mas quero descobrir um pouco de mim na vida daquela pessoa. – Sérgio



No momento das perguntas do público, uma professora fez uma pergunta meio sem nexo e sentido, que demorou um tempão para ser formulada e acabaria por ser esquecida por Sérgio (eram várias perguntas dentro de uma), tendo ela que repeti-la com uma agilidade que faltou no momento inicial. Ainda assim, a pergunta continuou confusa, o diretor falou, falou mas não soube se conseguiu respondê-la. Pelo que percebi, acho que ele talvez até já houvesse respondido, em colocações anteriores. São essas típicas perguntas que podem ser resumidas a sentenças simples e diretas mas parece que todos têm um certo prazer em torná-las o mais longas e complexas possíveis.

Pouco tempo depois, Milton fez o seguinte comentário, que considero o ápice da palestra, em resposta a alguém:

Só começo a escrever um romance quando os conflitos estão armados na minha cabeça. Penso muito, e quando isso está meio armado, começo a escrever. Eles já existem antes de eu começar a escrever, pois de certa forma eles já estão na minha vida. Não consigo escrever sobre um assunto que está longe da minha vida. Gosto de romances que o leitor consiga perceber que a vida do escritor está implicada. Quando há uma entrega por parte do autor, me apaixona ainda mais. Graciliano, por exemplo, viveu aquilo, no sertão, viu um monte de coisa. Não tá escrevendo de longe, está enraizado nele. Quando tua vida tá implicada, os personagens passam por essa experiência. Quando o diretor tem um pouco dessa apropriação, é sinal de que se está no caminho certo. – Milton.

Se não houver entrega, não dá certo. Escrever é como filmar uma história de amor séria, não é qualquer namorinho não. – Milton.

E então, após uma hora e meia de palestra, a mesa chegou ao fim. Milton Hatoum agradeceu o suporte de todos e se disse comovido com o cearense, sempre hospitaleiro. Disse que entende bem isso por ser do norte, onde a presença cearense foi fundamental. Falou ainda que quando leu os 136 contos de Moreira Campos se identificou muito, eles literalmente o transformaram. O trio então desceu do palco, e se pôs a cumprimentar os fãs e amigos, em um clima descontraído que precedeu uma sessão de autógrafos com Milton Hatoum, que aconteceria ali mesmo na sala.





Sentado num birô, Milton recebeu com simpatia todos os que se dirigiram a ele. Fiquei imaginando novamente o que se passava na cabeça dele. O que estaria dizendo àquelas pessoas? E ouvindo delas? Do lado de fora, foi mais uma vez montada uma venda de seus livros, e iniciou-se o vai-e-vem de ir até lá, comprar um livro e tornar à fila, para receber o autógrafo. Me mantive observando, de longe, essa movimentação. Decididamente não estava em meus planos comprar um daqueles livros, naquela situação, por razões que comentei na postagem Infância e Memórias, de modo que permaneci lá apenas para fechar esse registro. Enquanto a maioria das pessoas se focava nos autógrafos de Milton, outras poucas conversavam com Sérgio e Glauber, ambos também bastante solícitos.





Saí da sala já por volta das 21h, com uma sensação de profundo enriquecimento, como sempre nos acontece após palestras como essa. Foi um dia muito exaustivo, no qual devo ter passado umas seis horas no centro de eventos, mas extremamente valoroso. Fiquei ainda um bom tempo com as palavras de Milton Hatoum e Sérgio Machado na cabeça, à medida que pensava e repensava o ofício de escritor, em contraponto ao de diretor. Aliás, essa foi uma das palestras que mais me fez ficar lendo e relendo a todo instante o que tinha anotado – mesmo dias depois – para buscar novamente essa sensação, esse prazer. Poder finalmente postá-la aqui é uma dupla realização, primeiro por ter ido assisti-la, depois por poder, de certa maneira, recriá-la. Esse, aliás, é bem o objetivo dessa série de postagens: recriar momentos, revivê-los.

E logo mais, na quinta postagem, a mesa Produção literária brasileira contemporânea, com o escritor Luiz Ruffato.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (III - Mesa Biografar brasileiros)


Fotos: Denis Akel
Cena do filme O Sujeito Oculto: Google

Dando continuidade à série de postagens sobre a Bienal do Livro do Ceará 2014, enfoco agora a mesa Biografar brasileiros, que aconteceu na segunda-feira, 8 de dezembro.

Assim que a identifiquei e considerei, lendo a programação, percebi também que esse seria um dia bastante cheio, uma vez que haveria ainda uma outra mesa, novamente destacando Milton Hatoum, um dos homenageados do evento. Sabendo que passaria por uma boa maratona de palestras, nesse dia optei por não visitar os expositores de livros, e imagino que com isso com certeza economizei algum dinheiro.

Biografar brasileiros trazia os jornalistas e biógrafos Lira Neto e Mário Magalhães, mediados pela escritora cearense Socorro Acioli. O que mais me atraiu para essa mesa, inicialmente, não foi nenhum dos três, mas apenas o tema em si: biografias. Tenho cada vez mais me interessado pelo assunto, inclusive boa parte dos livros que comprei nesta edição da Bienal foram justamente biografias. A extensa pesquisa feita sobre uma vida, a responsabilidade do biógrafo ante o biografado, o tom da escrita, eram algumas das questões que sempre tinha em mente. Essa mesa me pareceu uma excelente oportunidade de mergulhar um pouco mais neste universo.

Conhecia bem do alto o nome de Lira Neto, que escreveu, entre outras, biografias de Getulio Vargas, Maysa e Padre Cícero. Sabia que ele, embora cearense, morava agora em São Paulo, e era sem dúvida uma autoridade no assunto. Já Mário Magalhães foi uma total surpresa, e muito bem-vinda. Os dois, obviamente, se conheciam há tempos, como ficou perceptível ao início e durante todo o debate. A sala, intitulada "Contos Escolhidos", em virtude à homanagem à Moreira Campos, seria novamente o palco da mesa, marcada para as 15h. Cheguei dessa vez com grande antecedência, o que facilitou a poder escolher um lugar mais à frente, bem como me preparar melhor para poder, tal como fiz na outra palestra, registrar em fotos e por escrito tudo o que pudesse.

Pouco a pouco o público foi chegando, tomando lugares. Não tardei a identificar Lira Neto e Socorro Acioli, tão logo entraram no auditório. Carolina Campos, neta de Moreira Campos, novamente se fazia presente, bem como outras pessoas que não conhecia, mas já vira na mesa anterior e imaginei também terem alguma relevância. A movimentação crescia, ainda que ficasse claro que o público total não lotaria a sala.

Mesmo antes de iniciar a palestra, Lira Neto já era solicitado pelo público
E então teve início a mesa, com um atraso de quinze ou vinte minutos. Socorro Acioli começou fazendo uma breve introdução dos convidados, sobre as extensas pesquisas que fizeram para realizarem suas obras centrais, Getúlio, de Lira Neto, e Marighella, de Mário Magalhães. Seguem então as principais colocações que pude colher, ao longo do seminário:

Sou apaixonado por pesquisa, um rato de arquivo – Mário

Há tesouros nunca remexidos nos arquivos nacionais – Mário

Cada um é legalmente responsável pelo uso que vai fazer dos arquivos públicos – Mário

Não há ar condicionado funcionando no arquivo público do estado da Bahia. O pesquisador acaba por destruir os tesouros históricos, uma vez que os documentos, seculares, não resistem ao contato manual – Mário

É preciso correr atrás. Está tudo lá, apesar das péssimas condições de armazenamento – Mário

Mário Magalhães (autor de Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo), falou um pouco do processo de coleta de dados, das longas pesquisas que precisam ser feitas, na condução da biografia, que explorou todos os detalhes da vida de Carlos Marighella e de como esse trabalho lhe tomou 9 anos. Uma curiosidade imediata surgiu em mim assim que ele mencionou os arquivos nacionais, uma vontade de conhecer esse acervo, que está aberto e disponível a qualquer um. Contudo, o alerta dado a respeito da precária conservação destes documentos foi uma surpresa. Imaginei que documentos históricos, com tanto peso e relevância, seriam mais bem preservados, mas segundo Mário muitos estão em condições lastimáveis, isso quando não acabam sendo descartados pelos próprios responsáveis do acervo.



Após este momento inicial com Mário, a palavra foi passada a Lira Neto, que agradeceu à organização do evento pelo convite, oportunidade de voltar à sua terra, e contrafez os inúmeros elogios feitos por Mário, como grandes amigos que são, um conhecendo muito bem o trabalho do outro. E então fez algumas considerações:

Moreira Campos é um dos maiores autores da literatura universal – Lira Neto

A pesquisa para o livro Getúlio teve vários eixos, em Berlim, Roma, entre outros, uma vez que o próprio Getulio se envolveu com o nazi-facismo – Lira

Getúlio guardava tudo o que escrevia, de modo que isso facilita o trabalho de qualquer um que quiser biografá-lo. Boa parte desse arquivo pode ser acessado pela internet – Lira

O site da biblioteca nacional fornece a qualquer um conteúdo de alto valor histórico – Lira

Há tesouros pedindo para serem visitados, tais como as cartas trocadas entre Getulio e sua filha, Alzira – Lira

Era preciso fazer um trabalho de confiança pessoal com as pessoas dos arquivos, para se ter acesso, pouco a pouco, aos documentos mais importantes – Lira

Há um filme que homenageia Guimarães Rosa, O Sujeito Oculto, que foi amplamente proibido de divulgar a imagem do autor, pois os herdeiros se julgaram donos de sua imagem, de modo que foi preciso recortá-lo de todas as imagens para o lançamento deste – Lira

Cena de O Sujeito Oculto, na qual se vê claramente o recorte onde Guimarães Rosa deveria estar

A legislação hoje autoriza que se queime os arquivos do ministério do trabalho com algumas décadas de existência – Mário, que acredita que tal medida dificulta o trabalho de pesquisadores, pois muitos documentos que podem vir a ser importantes acabam sequer sendo descobertos).

Durante toda a palestra, observei a propriedade com a qual ambos, Lira e Mário, versavam sobre seus temas, seus biografados. Eram tão naturais, quanto ao que diziam e defendiam, com amplo e preciso conhecimento de datas e fatos, quase como se tivessem conhecido de fato seus retratados.

"Isso eu nunca contei pra ninguém", frase que enlouquece qualquer biógrafo ou pesquisador, diz Mário, que entrevistou 256 pessoas, das quais 40 já morreram, tão velhinhas como ele (Marighella).

A grande informação, que é fundamental pro teu livro, pode te valer um capítulo, mas é tão bom quando surge uma história simples e você percebe que ali pode estar o final de seu livro – Mário

Ambos os autores, Lira e Mário, partilham a ideia de que a avidez de informação pode inundar a vida do biógrafo, fazendo-o se dedicar integralmente a isso, e que jornalistas, por se aterem apenas a contar a verdade, ficam frustrados quando por acaso algo que julgar saber se revela como errôneo.

A cada biografia feita, fica a apreensão: será que o livro será publicado? Será que ficará muito tempo nas livrarias? Terá problemas com os herdeiros? – Lira

Lira contou ainda as polêmicas que teve com a Rede Globo, por conta de não colocarem seu nome nos créditos da minissérie Maysa. Disse que assistiria à série, e caso encontrasse nela alguma informação que ele tivesse descoberto, tomaria as medidas cabíveis. Felizmente, ao final, pelo que consta, a emissora voltou atrás e creditou o jornalista.

Muitas vezes a pessoa sabe que pode se machucar emocialmente lendo uma biografia (caso da neta de Getulio) mas sabe da importância de alguém escrever e relatar aquela história tal como ocorreu – Lira.

Mário abordou a questão das biografias não autorizadas e sua fragilidade, de modo que a todo instante pode surgir algum herdeiro; filho, sobrinho ou neto, que tem plenos poderes para tirar o livro de circulação, uma vez que se sinta de alguma maneira ultrajado, caluniado. Isso é uma tragédia, pois faz com que inúmeros projetos não andem, tamanhas as dificuldades. O autor de Marighella também citou os problemas da legislação brasileira, que dificulta todo o trabalho não só de biógrafos como de qualquer artista que por acaso venha  cruzar com herdeiros ou descendentes, que impeçam exposições, filmes, livros e afins. É uma tragédia.

A mesa seguiu, a química entre os dois era notável, moldando a palestra com um ar de conversa informal. À medida que eu assistia, vez ou outra virava a cabeça para as pessoas do público. É sempre interessante ver as expressões, os comportamentos, perceber como aquilo parece mudar também aquelas outras pessoas. Houve um momento bastante curioso, no qual uma pessoa da plateia, subitamente, sem qualquer razão aparente, começou a bater palmas ruidosamente, durante uma fala de Lira. Não sei se por concordar muito com o que ele dizia, ou talvez só por ironia, mas atenção ele certamente conseguiu chamar.

Em um dos momentos finais, um senhor com o cabelo levemente azulado, sentado à primeira fileira, disse a Lira Neto, em tom quase profético, que deveria se fazer a biografia de um grande cearense, Edson Queiroz. Lira, calmamente, limitou-se a dizer que não fazia biografias encomendadas, e seguiram-se aplausos de todos. O homem de cabelo azul ficou ainda perdido numa exclamação de surpresa, antes de ser absorvido nas palmas do público. Chegava ao fim a mesa.


Em seguida, houve ainda um breve momento no qual ambos autografaram seus livros e conversaram mais um pouco com os mais interessados. Nesse momento, tratei de rever o que tinha escrito e colhido da palestra, percebendo uma boa dimensão de tudo o que fora falado, além de tudo o que não consegui registrar, mas apenas sentir e refletir. Essa, com toda a certeza, foi uma das melhores mesas que pude assistir da Bienal, por ter desvelado minúcias e peculiaridades que fazem parte do trabalho do biógrafo.

Antes de encerrar, aproveito a oportunidade para falar mais um pouco sobre o filme O Sujeito Oculto. Por se tratar de um filme sem fins lucrativos, ele está disponível no Youtube, neste link, e o  recomendo imensamente. O filme enfoca uma viagem feita por Guimarães Rosa com um grupo de vaqueiros, em Minas Gerais – mas vai bem além disso. Por conta da impossibilidade de se usar a imagem do escritor, a obra adquiriu um ar de protesto, em prol do direito e da liberdade de se contar uma história. Afinal, é bem como Lira Neto e Mário Magalhães falaram: herdeiros e descendentes se julgam mesmo donos de imagens e, como o filme completa, imagens que se não forem lembradas, homenageadas, tendem mesmo é a ser esquecidas.

Na próxima postagem,  a mesa Milton Hatoum no cinema.