Frases


"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



terça-feira, 1 de março de 2011

Moacyr Scliar...


Texto iniciado em 27.02.2011

Há pouco tempo atrás falei sobre Moacir C. Lopes, escritor cearense, falecido em novembro do ano passado. Infelizmente, agora terei de falar um pouco, nestes termos, sobre o outro Moacir de nossa literatura, o Moacyr Scliar. Está é mais uma postagem que não está sendo nada fácil de escrever e que não imaginei ter de fazer tão cedo, mas, enfim, sei que preciso fazê-la, então vamos lá...

Estava nos últimos dias revendo alguns textos e assuntos para postar aqui no blog, e ia colocar uma nova fábula de Esopo hoje, porém... foi só o tempo de entrar no Twitter e ver os inúmeros tweets saudosos sobre Moacyr Scliar, além de seu nome nos Trends que percebi logo que boa coisa não tinha acontecido.

Nos últimos dias, sabia que ele, um de meus escritores favoritos, que me influenciou fortemente a querer e a gostar de escrever (por meio de uma antologia sua que li na época da escola), estava internado, por complicações devido a um AVC. Seu filho, Beto Scliar, através do Twitter, mantinha os fãs e admiradores de Moacyr informados acerca do estado de seu pai, e era grande a corrente de mensagens de melhoras enviadas (eu mandei várias). Estava confiante, assim como todos, que Moacyr se recuperaria e que logo esta seria somente mais uma página virada em sua vida. 

Até receber por meio dessa agitação no Twitter a notícia que ninguém queria. Moacyr Scliar tinha falecido. Fiquei em choque nos primeiros minutos, pois não conseguia de maneira alguma aceitar aquele fato. Li e reli a notícia, em inúmeros sites (que estão até agora minimizados aqui), e mesmo assim não queria acreditar. Scliar lutou muito, como Beto nos informava pelos tweets, lutou como o forte e inabálavel guerreiro que era. Após o AVC, teve boa recuperação, lutou contra febre e pneumonia, mas só não pôde lutar contra a vontade de Deus, que o chamou a seu lado. É uma dura realidade para nós, que só temos de nos conformar.

Ele fará uma falta incalculável no cenário literário e cultural de nosso país. Scliar era uma presença certa em quase todas as feiras e eventos litarários (e também os de medicina, pois também era médico,  conhecido como doutor Moacyr). Tinha também voz ativa na Academia Brasileira de Letras, onde sempre comparecia às reuniões. Não se sabe como, Moacyr Scliar ainda arranjava tempo para escrever suas colunas em vários jornais e revistas do país, além dos inúmeros livros (da crônica ao romance) que fascinaram, fascinam e fascinarão gerações. Quando o perguntavam como conseguira escrever tantas obras em relativamente pouco tempo, a resposta era simples: "É só partir do ponto que o escritor escreve, que este é seu ofício". Moacyr Scliar escrevia todos os dias, sem exceção, como disse em várias entrevistas. Ainda, sua admiração pelo escritor tcheco Franz Kafka (que também adoro) o fez escrever algumas obras relacionadas a ele, muito bem recebidas. 

Desejava muito ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente (ou mesmo de assistir a uma de suas palestras) e também de ter conversado um pouco com ele, que sempre me pareceu extremamente simpático, gentil e receptivo. Infelizmente não foi possível.

Moacyr Scliar. Este nome para mim (e creio que para muitos também) é muito mais do que um nome, é um ícone, quase um mito, que me incentivou muito a seguir pelo caminho que estou hoje, que me motivou a ver no mundo das letras, das palavras, uma maneira de me expressar, de criar, de construir. Conheço ainda muito pouco de sua vastíssima obra, mas os contos/crônicas que li até agora fizeram a diferença (como os dos livros Minha mãe não dorme enquanto eu não chegarHistórias para quase todos os gostos e O imaginário cotidiano), mudaram muita coisa em mim, tornaram-me mais crítico, mais observador, mais humano. Ele foi um grande contador de histórias, histórias para realmente quase todos os gostos, que articulavam ideias e visões de realidades bem diferentes das que conseguíamos enxergar, tirando de fatos simples e corriqueiros verdadeiras lições que engrandecem nosso espírito. Como disse o poeta Fabrício Carpinejar, em ocasião do fato, Moacyr Scliar tinha um exército dentro de si, um exército de um homem só domando centauros, produzindo miragens, dobrando os dias, duplicando a claridade da página.

Custo a acreditar que uma de minhas maiores (senão a maior) referências tenha ido assim, quase abruptamente. Nunca estamos preparados para momentos como esse, acho que essa é a única certeza que se pode ter. Enfim, não queria escrever tanto, mas jamais me sentiria bem sem fazer uma homenagem a ele, e para concluir, relembrarei uma outra postagem que fiz sobre Scliar, há exatamente um ano, que traz uma sensacional entrevista, dada a ele ao projeto Sempre um Papo (ótimo projeto, por sinal, do qual falarei melhor aqui numa outra postagem).

Palavras de Moacyr Scliar (texto de 1º de março de 2010)

Obrigado mestre Scliar! Seu carisma e personalidade estão em seus livros e textos, que são e serão sua melhor imagem, de agora em diante! 

Desejo também os melhores confortos à família Scliar, pelo momento que devem estar passando.



Conheça mais sobre Moacyr Scliar no site oficial do escritor.

Ah, também no dia 27, faleceu o escritor e filósofo Benedito Nunes, que também admirava bastante. Lamento mais essa perda. 

E ainda teve gente que no dia 27 só ligou pro Oscar...

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