Frases


"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Livro: Bartleby, o escriturário


Fotos: Diego e Denis Akel

Já estava praticamente decidido a finalmente ler O exército de um homem só, de Moacyr Scliar – um livro que há tempos está na minha mira – mas quando estava procurando por ele na estante, dei com este outro livrinho, que já tinha comprado há tempos, na esperança de lê-lo num futuro não muito distante. Como se trata de um livro fininho, e com um mote que tinha tudo que me atraía, resolvi ceder-lhe a vez na leitura.

O que mais me chamou para comprar esse livrinho não foi o fato de ele ser de autoria de Herman Melville, autor do clássico Moby Dick (pelo menos não a princípio). A pequena e breve sinopse contida nas costas dele, sim. Claro que geralmente as palavras contidas nesta parte são justamente com este fim, de fisgar o leitor, mas elas exerceram em um fascínio maior, instantâneo, quase como se tivessem sido escritas para mim, se é que me entendem, por tratar-se de um tema realmente inesperado e absurdo, bem ao estilo que gosto de compor minhas histórias, quando escrevo.

A ideia geral é bem simples, a princípio. Um sujeito que trabalha em um escritório, subitamente, passa a se recusar a trabalhar, contrariando seu chefe. É justamente essa simplicidade que coroa a complexidade da obra.

Narrado viva e realisticamente pelo próprio chefe, que detém um pequeno escritório na Wall Street, a história foca Bartleby, que havia sido contratado como auxiliar de escritório, para ajudar nas cópias e revisões de documentos, ou seja, trabalhar como escriturário. É interessante observar como o dono do escritório é bastante arguto e observador, gostando de traçar perfis de seus funcionários, com um certo ar de superioridade. Porém, se vê desarmado e quase incomodado diante de Bartleby.

Bartleby mostra-se, a princípio, extremamente produtivo, um exemplo de funcionário. Até que certo dia vem a bomba, quando, sem qualquer explicação, ousa responder às ordens de seu chefe com um surpreendente "Prefiro não fazer". É a partir daqui que temos uma reviravolta, em todos os aspectos. O dono do escritório se vê desorientado diante daquela situação. Como reagir àquela inesperada insubordinação? O mais curioso é que Bartleby nunca é mal-educado ou rude. Mesmo recusando-se a trabalhar, ele mantém a calma e frieza. E é bem isso que o torna insuportável.

Cada vez mais, esse comportamento incomum vai perturbando e quase fascinando o dono do escritório, que passa a observar Bartebly continuamente. Tudo nele parece estranho. Trata-se de uma pessoa, aparentemente, sem passado, sem família e, de certa forma, quase sem vida.

Seu patrão, claro, poderia demiti-lo de imediato, e por fim àquela estranha situação, correto? Mas será que ele pode mesmo fazê-lo? Temos aqui vários questionamentos e reflexões referentes à ética, culpa, fragilidade e inocência. Se demitisse Bartleby, não estaria sendo injusto? Quem sabe aquilo fosse apenas uma fase ou algo parecido? E se nunca mais o coitado tivesse uma oportunidade na vida? Pensamentos parecidos povoam a mente do dono do escritório, que vê sua vida tomada por esse repentino, silencioso e enigmático peso, que Bartleby passou a se tornar. Representado ainda como uma figura apática, magra e quase inexpressiva (o que faz nutrir justamente esse sentimento de pena e culpa, razão pela qual o narrador hesita em reagir).

O livro instiga, e flui surpreendentemente rápido, à medida que vamos acompanhando e tentando, junto com o narrador, entender Bartleby. É um personagem único, ousado, que quebra conceitos e destrói certezas, fazendo repensar valores, tudo isso sem dizer praticamente nada, afinal, ele prefere não dizer!

Além de todo este enredo intrincado e surpreendente, o livro tem ainda uma acentuada carga de humor negro, pois de tão absurda e fantástica, a situação chega a parecer uma brincadeira, uma situação cômica. Mas se desenha igualmente com ares de tragédia, numa interessante mistura de sensações.

Outro detalhe que também me chamou muito a atenção foi o fato de a história, ambientada no século XIX, nos fazer imaginar como é a rotina de um escritório de advocacia nesse período. Não há muitos elementos que façam essa descrição, então ficamos apenas com nossa imaginação, pensando como seria a rotina e disposição do lugar, provavelmente ainda à luz de velas. Acabamos involuntariamente tentados a encaixar o escritório nos tempos atuais, dada a proporção e atemporalidade da história, mas não podemos nos esquecer de que ela já tem mais de 150 anos. Contudo, segue constante, atemporal, como um clássico, que sobrevive às novas eras e gerações.

Enfim, uma leitura deliciosa, intrigante, reveladora, a cada página. Não deixem de ler! A L&PM Editores tem essa ótima edição, por R$8,00, se não me engano.
Bom, procurei dar um rápido panorama desta breve e fascinante história. Um último comentário: a história de Bartleby, é, no fundo, a história de todos nós. Essa percepção é incrível!

E querem saber? Prefiro não dizer mais nada!


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