Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



sexta-feira, 25 de maio de 2012

VII ETC Fortaleza (I)


Fotos e vídeos: Denis e Diego Akel


O ETC, Encontro de Twitteiros Culturais, é um evento que já ocorre há algum tempo no Brasil (nos moldes de outros similares que também ocorrem em vários outros países) cujo enfoque básico é o universo virtual, ou seja, falando nos tempos atuais, nas redes sociais e tudo o mais que movimenta esse infinito e assustador mundo que é a internet. Valendo-se do Twitter como ferramenta principal, os encontros visam explorar tendências e costumes do mundo digital, e perceber como esses novos parâmetros podem e estão influenciando nossas vidas.

Pois bem, até o dia 14 do mês de abril, eu ainda não sabia de nada disso. Tinha conhecimento, bem por alto, do ETC, que sabia ter alguma coisa a ver com redes sociais, mas nada além disso. E talvez continuasse com esse parco conhecimento até hoje, não fosse justamente a ferramenta que dá o eixo e base do evento: o Twitter. Não sou muito de redes sociais, dessa febre que se espalha avassaladoramente a cada dia, de viver praticamente em torno e dependente delas, como vejo muitas pessoas fazendo. Faço uso moderado do Twitter, por ele ser prático, rápido, e sem muitas frescuras típicas das demais redes (apesar de às vezes também encher a paciência). Por lá, podemos saber um pouco de tudo sobre áreas de interesse comum, referências de pessoas que admiramos, e eventos que acontecerão. Acompanho várias editoras, escritores e pessoas ligadas às letras. Foi através de lá também que me aproximei mais do trabalho do poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, bastante celebrado e cultuado por suas frases e sentenças pungentes que coloca diariamente em seu perfil. Comecei a pesquisar mais sobre ele, assistir a entrevistas, ler seu blog, conhecer livros, e quando me dei conta, tinha o poeta como um de meus autores mais respeitados, apesar de ainda ter lido pouca coisa dele.

Ainda sobre Carpinejar, não posso deixar de citar o recente A Máquina, programa de entrevistas que o lançou como apresentador. Quando eu soube, imaginei logo: esse programa vai ser único! Sabia que o lado excêntrico e quase performático do poeta daria um tom bastante surreal e característico, tornando o programa uma experiência ímpar. E é bem isso o que pode ser visto nas noites de terça na TV Gazeta. Enfim, falarei mais sobre esse programa em um possível post futuro.

Retomando o tema, é engraçada a maneira como as coisas acontecem, como tudo parece às vezes planejado, sem que tenhamos feito quase nada para isso. Eu poderia ainda não saber o que é exatamente o ETC e sequer estar fazendo essa postagem aqui não fosse um tweet do Carpinejar, além, é claro, do fato de eu estar no Twitter na hora, em tempo hábil de saber: ele estaria aqui em Fortaleza, para fazer parte de uma mesa do VII ETC Fortaleza. Na hora, fiquei estupefato, pois seria uma excelente oportunidade para enfim conhecer o poeta gaúcho. Uma oportunidade como aquelas que aparecem em horas inusitadas e sabemos que não podemos deixar passar.

Para tornar tudo ainda mais alucinado, me dou conta de que a palestra será exatamente no dia seguinte, então não havia muito tempo para pensar, era preciso decidir logo. Por razões que são difíceis de explicar, após a euforia inicial, não me senti mais tão empolgado para ir. Então, no dia em questão, 14 de abril, há algumas poucas horas da palestra, fui incentivado por Diego, meu irmão, que ainda se ofereceu para ir comigo. Resolvi ir, sem mais ficar pensando o contrário, e ligamos para o número de informações, a fim de saber mais detalhes do evento. Foi preciso ainda mandar nossos dados por e-mail, uma espécie de cadastro, imaginei, que devia facilitar para quando chegássemos lá.
Esta edição do ETC Fortaleza, que acontecia dentro da programação de outro evento, o 2º WebFor, teria como palco o hotel Gran Marquise, que fica na Beira Mar. O debate, que traria como tema "Literatura e Cultura nas Redes Sociais" estava marcado para as 16h, mas eu já imaginava que provavelmente atrasaria. É comum a essas apresentações o início impreciso, dados os imprevistos, ou mesmo para esperar mais público. Talvez seja um dos momentos onde é educado atrasar.

Seguimos para o hotel com cerca de uma hora de antecedência. A Beira Mar é um lado da cidade onde pouco costumo ir, portanto é sempre quase como se estivesse em outra cidade; o clima praiano,  a atmosfera turística, evidenciada pelas dezenas de hotéis em sua orla; tudo contribui para tornar este lado de Fortaleza uma travessia memorável.

Nosso táxi parou bem à entrada do suntuoso hotel – soube depois que aquele era um dos hotéis mais novos dali. Fomos bem recebidos, do carro até a recepção. Próximo dela, um funcionário prontamente perguntou se estávamos ali para o evento. Concordamos, e ele nos colocou no elevador, que já sabia o caminho para o andar em questão (acabamos por nem reparar qual era). Demos em uma saleta, toda iluminada e encarpetada. Dali seguimos por um corredor, buscando alguma orientação.  Encontramos mais uma recepção, dessa vez do WebFor, o evento maior que englobaria o ETC. Acreditamos ser ali o ponto inicial, o local que validaria nosso cadastro feito por e-mail minutos antes, e nos aproximamos. Alguns atendentes, que pareciam muito ocupados, com inúmeros papéis em suas mesas, vieram ao nosso auxílio. Nos identificamos.

Nossos nomes, porém, não constavam na lista.

Indicaram uma segunda lista, atualizada com os nomes mais recentes. Procuraram novamente. Folhas e mais folhas com nomes. Nada. Estranhamos. Diego disse que mandamos o e-mail, e que até tínhamos ligado para confirmar, tendo falado com a Telma. Mas onde estaria essa Telma? Ninguém ali parecia conhecê-la. A solução foi fazer um novo cadastro para nós. Perguntaram para qual oficina seria. Oficina? Pensei. Não sabíamos de nenhuma oficina, uma vez que estávamos ali mais pela mesa composta pelo Carpinejar. Explicamos isso, e, por via dos fatos, por já estar ali e tudo, pedi para ver a programação das tais oficinas. Imprimiram um página. Com a folha em mãos, vi em letras vermelhas a programação, e não entendi bem por que eram chamadas de oficinas, uma vez que pareciam apenas mais palestras. A uma primeira vista, não nos interessamos por nenhuma delas. Falaram para resolvermos logo se iríamos ou não a alguma, pois precisavam fechar os nomes. Pedimos um tempinho para avaliar com calma e deixamos a salinha, indo a uma área externa, ao ar livre.

Ali, olhei e considerei novamente a programação. Continuamos, porém, sem ânimo para nada daquilo. Nosso foco ali era mesmo o Carpinejar. Seguimos o caminho à nossa frente até chegar onde achávamos que seria a palestra. Havia no final desse trajeto uma tenda enorme, montada e climatizada para o evento. Portas envidraçadas na entrada, ar-condicionados, centenas de cadeiras, telão ao fundo e tantas outras parafernálias. Era um espaço amplo, onde àquela hora já acontecia uma outra palestra. Quatro homens em uma mesa. Um deles, de  microfone em punho, discursava amplamente. O telão o exibia em close. Era um local bastante grandioso, até demais, pensamos, para a mesa da qual Carpinejar faria parte, que imaginávamos ser mais simples, reservada, tranquila, mas se seria mesmo assim, naquele ambiente, só nos restava esperar. O tema em questão pelos quatro sujeitos não parecia muito convidativo, então preferimos ficar nas imediações da tenda, observando pombos voarem entre os prédios em volta e fotografando os arredores (uma mania que temos). Voltamos para o interior algumas vezes, mas o debate lá não parecia sequer perto de acabar. Mais minutos se passaram. Faltava pouco mais de dez para as quatro da tarde, hora marcada para a mesa que tanto aguardávamos.

Eis então que uma pessoa da produção surgiu de repente e falou conosco, lá do lado de fora. Disse-nos, com grande efusão, que logo começaria a palestra com o embaixador da Venezuela no Brasil. Ficamos meio atônitos, mais pelo caráter absurdo, como se estivéssemos ali esperando o senhor embaixador. Isso, porém, me abriu os olhos, e quase de última hora, tive uma luz: seria mesmo ali o local da mesa de Carpinejar? Não víamos qualquer sinal de que começaria – muito pelo contrário, os palestrantes da tenda pareciam ainda muito animados a continuar falando. Além de que aquela tenda parecia mesmo o local propício para abrigar a palestra do embaixador da venezuela no Brasil, um acontecimento pomposo, sério, diferente de "apenas" um grupo de twitteiros convidados. Intrigado, voltei a olhar a programação, mas dessa vez não para ver as oficinas. Li o nome "Fabrício Carpinejar" e imediatamente as demais informações da mesa, até perceber o nome da sala: Capitólio. Estávamos mesmo no local errado! Passavam alguns minutos das 16h, imaginei que talvez a mesa já tivesse sido iniciada e que Carpinejar já podia até mesmo estar com a palavra. Nos apressamos a sair dali. De volta ao corredor, e à saleta encarpetada, onde tínhamos passado na hora que não acharam nosso nomes, nos deparamos, sem muita dificuldade, com o nome "Capitólio" estampado numa parede a um canto, na esquina oposta à que entramos. Não poderia ser mais fácil; era ali, afinal.

Entramos e nos surpreendemos. Ambiente refinado, organizado e aprazível. Uma sala vistosa, que lembrava um anfiteatro. À entrada, algumas mesas dispostas verticalmente. Em uma delas, vi livros de Carpinejar sendo vendidos, em outra, havia o que parecia ser outro espaço para inscrições. A seguir, várias cadeiras arrumadas em filas e colunas. Além delas, uma mesa retangular, coberta com um pano preto, encimada por quatro taças d'água. Tranquilidade e silêncio, que era o que provavelmente não acharíamos na tenda, havia de sobra ali.

Vimos um dos palestrantes (José Luiz Goldfarb, como descobriríamos depois), já sentado, em um dos lugares da mesa. Ele parecia simpático e receptivo, e foi bem o que demonstrou no decorrer da palestra. Naquele momento, Goldfarb estava atrás de seu macbook, e parecia invariavelmente ocupado.

Nos apresentamos às mesas de inscrições, onde fomos muito bem recebidos. Demos nossos nomes, e desse vez não deu outra: lá estavam eles! Recebemos crachás identificados, e pastas com papel e caneta. Comentei com Diego que parecíamos quase jornalistas especialmente convidados para cobrir o evento. Diego disse que isso era uma prática comum neste tipo de evento, o que desmonta minha fantasia e só demonstra minha inexperiência na situação. Quem também nos acolheu, com grande simpatia, que depois descobrimos ser a mediadora da mesa, foi Glória Diógenes. Ela nos disse que apenas estavam esperando o Carpinejar chegar para dar início, então buscamos logo bons lugares. Tivemos plena liberdade para escolhermos onde sentar, uma vez que quase todos os lugares (cerca de 100) ainda estavam livres. Fomos bem para a frente; tínhamos o objetivo de fazer algum registro, através de fotos e vídeos. Havia um tripé com uma câmera, armados bem à frente da mesa, juntos a um notebook preparado. Soubemos depois que a ideia era fazer a transmissão do debate ao vivo pela twitcam, como – também soubemos depois – aconteceu na edição anterior do ETC, mas isso acabaria não dando certo dessa vez, como direi mais adiante.



Aproveitei esse breves momentos antes do início para já escrever algumas observações sobre o lugar, nas muito bem-vindas folhas de papel que recebemos. Continuavam todos à espera de Carpinejar. Já se aproximava das 16:30. Felizmente o atraso básico que eu imaginara tinha se consolidado, mas já começava a se tornar abusivo. O lado bom é que mais e mais pessoas foram chegando, enchendo o auditório. Em certo momento, pediram aos que ainda não tinha feito a inscrição (que dava direito ao crachá e tudo o mais), para fazê-lo. Percebi então que quase todos não tinham feito, uma vez que boa parte das pessoas se levantou. Ainda bem que nós já tínhamos feito desde casa!



E continuava o suspense quanto a chegada de Fabrício Carpinejar. Alternei constantemente olhares entre os organizadores do evento e a porta de entrada da sala, à espera do poeta gaúcho. Então, passando um pouquinho das 16:30, a mediadora, Glória Diógenes, já à mesa com os demais palestrantes (o jornalista Plínio e o professor Goldfarb), decidiu dar início aos trabalhos. Ela começou a apresentá-los ao público, começando com Goldfarb. Em vez de repetir aqui títulos e rótulos, praxe nesse tipo de introdução, colocarei um link que expõe um pouco mais sobre eles, deixando assim que cada um fale por si. Vejam abaixo:

Glória Diógenes

José Luiz Goldfarb

Plínio Bortolloti

Fabrício Carpinejar

Precisamente às 16:37, ouvi quando alguém da produção do evento disse, lá de trás, que Carpinejar já estava no hotel. Nesse meio tempo, já estava até brincando com Diego, dizendo que até então ainda não se sabia se Carpinejar realmente existia, no sentido de que só o tínhamos visto em entrevistas e tal, e de repente estávamos ali à espera dele. Parecia ilusório demais. Era quase como se achássemos que ele fosse apenas uma invenção...  da máquina, talvez? O fato é que a notícia da chegada de Carpinejar ao hotel nos jogou de volta à realidade. Mesmo sem ainda termos visto o poeta, uma coisa já era certa: ele realmente existia. Passaram-se mais uns minutos, nos quais Glória continuou a apresentação e logo depois, em um momento onde eu mais uma vez alternava olhares entre a mesa e a entrada da sala, vejo finalmente a chegada do poeta de óculos vermelhos com poesia na cabeça, literalmente falando. Ele assumiu sua cadeira, em meio a uma gigantesca salva de palmas. Sorridente, o poeta agradeceu. Com a mesa enfim completa, Glória continuou fechando as introduções dos demais, falando um pouco de suas áreas de atuação e trabalhos.






Carpinejar mal se juntou à mesa e já chamou atenção. Enquanto Glória passou a palavra a Goldfarb, e este começou a falar, o poeta gaúcho de repente pegou um pacote com algo amarelo, que já trazia à mão desde sua chegada. A uma primeira vista, achei ser um saquinho de batata fritas ou algo similar. Em se tratando de Carpinejar, tudo seria possível, pensei. Vai que ele não tinha almoçado. Mas era algo ainda mais louco e incomum que isso. Eram balões! Balões amarelos, com um sorrisinho estampado! Sentado à mesa, ele encheu um e mandou com um soco na direção do público. A reação a princípio foi de choque e espanto, mas depois todos caíram na brincadeira e ficaram jogando os balões para o alto. Com certeza foi um gesto bastante ousado, mas que descontraiu a todos, e preparou para o caloroso debate que estava por vir. Não sei se isso é costume em suas palestras, mas de cara já colocou todos no clima e no astral do poeta, ao desarticular um pouco toda aquela seriedade de evento, fazendo com que as pessoas sorrissem. Foi quase como um mergulho na infância, onde correr atrás de balões era lei.







O vídeo a seguir mostra um pouco das palavras iniciais de Goldfarb:





A palavra foi então passada de Goldfarb a Carpinejar. Ele não poupou o pobre microfone. Sua voz em segundos encheu a sala, e quase não se ouviu mais nada além dela. Rapidamente tornei a empunhar a câmera e comecei a gravar as efusivas palavras do poeta gaúcho. Era por causa dele que estávamos ali, afinal:







Bom, optei por dividir essa postagem em duas, pois havia muita coisa da qual queria falar, nesta minha pequena releitura do evento, além das fotos e vídeos. Continuarei na segunda parte, contando mais detalhes e o desfecho, a hora que enfim conseguimos trocar algumas palavras com Carpinejar.

Obrigado a todos que leram até aqui e até a parte II!




domingo, 1 de abril de 2012

Livro: O Exército De Um Homem Só


Fotos: Denis Akel

Ah, O Exército de um homem só! Há muito, muito tempo, estava de olho nesse livro. De autoria de Moacyr Scliar, talvez a maior de minhas referências e influências, cuja obra comecei a conhecer ainda na escola, com o livro Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar, que, de alguma forma, me inclinou a descobrir o prazer e gosto pela leitura e, principalmente, pela escrita, como já comentei aqui em outros textos.

Antes de começar esta leitura, lembro que de cara já tinha sido fisgado pelo título, enquanto ainda descobria quem era Scliar, anos atrás. Como poderia haver um exército de um só homem? Quem seria este homem? Pelo quê e contra quem lutaria? Estava ansioso por estas respostas. Agora, depois de ter passado alguns meses imerso em suas páginas, percebo que tudo é muito mais complexo do que eu poderia imaginar. Tentarei expor alguns pontos interessantes da obra, sem me aprofundar muito, nas linhas seguintes.

A primeira imagem que talvez venha à cabeça é que o livro gire em torno de guerras, conflitos – o que de fato acontece, porém a maior guerra desta história não é exatamente um conflito armado, mas a que o protagonista, Mayer Guinzburg, traz acesa dentro de si. Uma guerra por um mundo mais justo, por uma nova sociedade, por tudo o que acredita, um desejo incessante; chama que jamais se extinguirá.



Mayer Guinzburg é um personagem fascinante. Judeu, emigrante russo, chegou a Porto Alegre ainda menino, na década de 1920. Tem um forte lado comunista, marxista, que o impele a querer mudar a  sociedade, que tanto o desagrada. Suas ideias o transformam em uma figura marcante da sociedade gaúcha, principalmente devido a sua empolgação e euforia com Birobidjan, uma colônia coletiva de judeus na Rússia, que receberia incentivos do governo soviético. De tanto falar nela, acabou apelidado, sem mais delongas, Capitão Birobidjan.




Qual seria a nova sociedade almejada pelo Capitão? Seu sonho é extremente utópico, quase uma alucinação que o persegue, o comanda (a ponto de até ver homenzinhos, que só ele vê, de baixa estatura, que o aplaudem a cada ação). Desobedeceria o pai, os costumes judaícos, teria crises familiares, para em seguida lutar, sozinho, pelo seu ideal.

Um dos grandes atrativos desta obra, na minha opinião, é o intenso ar de romance histórico que percorre suas páginas. Fatos reais se misturam e enlaçam à ficção, dando-lhe uma aura incrivelmente realista. A situação de Israel, os conflitos travados com o Egito, os nomes envolvidos neles, tudo é perfeitamente encaixado. Chega-se a pensar, por um momento, que o Capitão Birobidjan realmente existiu, uma vez que nomes como Ben Gurion, Stalin e Rosa Luxemburgo são frequentemente citados. De certa forma, o livro é quase como uma aula de história. Toda essa apropriação histórica, presente em muitas obras de Scliar, contribui para integrar a cultura judaica à cultura gaúcha e, consequentemente, à brasileira.

Além disso, o texto fluente, leve, alegre, otimista, transborda sensações. Outro detalhe que o maximiza é o humor negro, a ironia típica de Moacyr Scliar, que faz o Capitão passar pelas mais inusitadas situações, sempre com seu ar lunático, revolucionário, sempre disposto a realizar seu sonho utópico, e completamente alheio a nada que não fosse isso. Por essas e outras razões, inclusive, Mayer Guinzburg ou Capitão Birobidjan, é sempre comparado ao lendário Dom Quixote, obra máxima de Miguel de Cervantes. O ar quixotesco neste texto de Scliar é mesmo notório, uma vez que percebemos as semelhanças entre ambos os protagonistas. O próprio Moacyr Scliar respondeu a essa inevitável comparação com o seguinte:

"Bem, para mim a comparação é elogiosa. Mas acho, sim, que o personagem tem muito de 'Dom Quixote', como tinham todos os jovens de minha geração que lutavam por uma sociedade mais justa".

Brilhantemente narrado em terceira pessoa, acompanhamos toda a trajetória da vida de Guinzburg, através de um ano ou conjunto de anos importantes. É fantástico observar as mudanças que vão ocorrendo no personagem com o decorrer do tempo, as ideias que são mantidas, a rebeldia, tudo. O narrador, ainda, muitas vezes quase alimenta a loucura de Mayer, chamando-o de Capitão Birobidjan e tornando mais verossímeis seus delírios. O livro também não entrega tudo de bandeja, e nos mostra vários elementos semi definidos, vários trechos onde encaixam-se várias acepções, de uma maneira bem característica ao texto de Moacyr Scliar, que nasce de um mar de dúvidas e incertezas.




O Exército de um Homem Só é considerado uma das principais obras de ficção dos anos 70 (inspirou até uma música do Engenheiros do Hawaii) e, curiosamente, foi apenas o segundo romance de Scliar. Uma outra curiosidade que descobri há pouco: à época da publicação do livro, em meados de 1973, Moacyr Scliar visitou Érico Veríssimo para conversar sobre literatura. Que conversa não deve ter sido!

Após refletir por um tempo, depois de terminar o livro, percebi que a história até se confunde, de certa maneira, com a do próprio Scliar, que é filho de imigrantes judeus. Sob certa ótica, esse tema está invariavelmente presente em suas obras. A ambientação no Bom Fim, bairro de Porto Alegre onde o escritor nasceu, as citações, tudo traz traços de suas próprias vivências, inclusive o desejo por um mundo mais justo.

Para encerrar esse texto, falarei um poquinho sobre esse grande autor que muito representa para mim, e para nosso cenário literário.

Moacyr Scliar, médico, escritor, professor, jornalista, autor de cerca de oitenta livros, com forte ressonância internacional, membro ativo da Academia Brasileira de Letras, presença constante em seminários, feiras e eventos literários no país e no mundo. Scliar viajava muito, era um homem em trânsito. Todos brincavam dizendo não entender como ele conseguia estar em tantos locais em tão pouco intervalo de tempo. E como conseguia escrever tanto, entre livros e colunas em jornais, e como ainda dava palestras na área médica, e como nunca faltava às sessões da ABL. Scliar era isso tudo e muito mais, um grande contador de histórias. Ele dizia, bem-humorado, que o escritor é aquele que escreve, então não fazia nada além do seu "trabalho".




Veio a falecer em fevereiro do ano passado. Infelizmente não tive o prazer de conhecê-lo, esse que sem dúvida era por si só um "exército de um homem só". Imagino que todos nós devemos ser um pouco como Mayer Guinzburg, que nunca desistiu de seu ideal, por mais absurdo e inatingível que este pudesse parecer.

Dêem uma chance a este belo livro, que diverte, empolga, emociona, entristece, assusta, anima, arrebata; um jogo de sensações, daquele jeito que só Moacyr Scliar soube, sabe, e saberá fazer, inclusive às futuras gerações, àqueles que tentarão mais uma vez iniciar a construção de uma nova sociedade.



Essa não é a primeira, e com certeza não será a última vez que falo de Moacyr Scliar por aqui. Vejam mais sobre ele nos posts abaixo:

– Palavras de Moacyr Scliar (1º de março de 2010)
– Moacyr Scliar... (1º de março de 2011)


quinta-feira, 15 de março de 2012

Walcyr Carrasco na II Feira do Livro - Meus bastidores




Neste breve post, falarei um pouco do processo que me levou a fazer as duas postagens recentes sobre a participação do escritor Walcyr Carrasco na II Feira do Livro Infantil, aqui em Fortaleza.

Comecei a trabalhar nele no mesmo dia da palestra de Walcyr, 17 de setembro de 2011, tão logo cheguei em casa. A ideia era jogar logo para o papel os acontecimentos, à medida que ia me lembrando, para depois ir aparando as arestas do texto. Sem pensar muito, peguei papel, caneta, e comecei a despejar os fatos. Achei que quanto mais detalhes pudesse colocar, melhor conseguiria definir a atmosfera que se fez presente naquela hora na Praça do Ferreira.




Geralmente, quando escrevo para o blog, não costumo fazer muitos esboços ou preparações. Escrevo direto no editor de texto do Blogger, e ali mesmo acontece toda a evolução do texto, até chegar a hora de postá-lo (muitas vezes mexo neles até depois, quando me dou a reler posts antigos. É como dizem: um texto definitivo é algo que não existe.) Dessa vez, porém, percebi que seria interessante ter um pequeno planejamento, e aproveitaria para escrever à mão, que é algo que adoro fazer e que essa era digital luta para nos restringir a todo instante.





Foram três folhas, totalizando quase dez páginas, escritas ao longo de três ou quatro dias. Ali, como pode-se ver nas fotos, estava disposto, de maneira meio bruta ainda, as ideias e fatos que pude presenciar na palestra. Não tinha qualquer objetivo de fazer um texto jornalístico; queria imprimir minhas impressões, mostrar um ponto de vista, celebrar aquele momento, de maneira bem pessoal, como venho tentando fazer nos textos deste blog. E estava ficando satisfeito ao ler estas folhas, ao me ver novamente inserido naquela realidade.





Como não poderia deixar de ser em qualquer esboço, várias mudanças e correções foram feitas. Alguns trechos sequer foram usados, outros foram bastante ampliados. De qualquer maneira, após a publicação dos posts, e a boa repercussão que tiveram, guardo estes rascunhos com um gosto especial, um quê de certa forma precioso, se é que me entendem!

As poucas fotos e vídeos que consegui fazer, embora de baixa qualidade, ajudaram a compor algumas das cenas que descrevi nesses textos. Por mim, gostaria até de ter podido gravar todas as palavras do Walcyr, e acho que por isso busquei tentar colocar em palavras tudo o que assimilei, para tentar de alguma forma preencher essa impossibilidade. É evidente, também, que se tivesse conseguido toda a palestra registrada em vídeo, talvez não me debruçasse para escrever sobre ela. Enfim, tudo acontece como tem que acontecer.

Além de tudo, recebi ainda um ótimo comentário, no segundo post, de Júlio Kadetti, amigo e assessor de Walcyr Carrasco. Júlio, mais uma vez, obrigado por suas palavras!

Esse evento, com toda a certeza, me marcou bastante. Muito mais do que pelo autógrafo que consegui, mas pela grandeza que senti ao participar, interagir e principalmente relatar essa história, ao longo desses, agora três, posts dedicados a ele.



Os esboços e rascunhos aqui publicados originaram os posts abaixo:

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (I)
II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (II)

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arroz à Parmegiana



Antes de mais nada, preciso falar como conheci essa receita. Ultimamente, peguei o hábito de assistir a programas de culinária, desde que comecei a me interessar pela área. Vejo-os com outros olhos, reparando detalhes e sequências que com certeza não notaria antes. Entre estes programas, destaco notoriamente o do Anonymus Gourmet (José Antônio Pinheiro Machado) – autor do livrinho que de certa forma foi responsável por me propagar no terreno gastronômico, ao me incentivar a fazer a pizza de liquidificador, como falei nesse outro post. Descobri a existência desse programa quase por acaso, enquanto rodava pelos canais à procura de algo bom, e o vi "perdido" entre a programação do Canal Rural (o programa é original da RBS TV). De lá para cá, sempre que posso assisto. É um programa de culinária bastante singular, por diversos fatores, mas primeiramente pela abordagem diferenciada; tem um ritmo e andamento próprios, e mescla culinária com música, cinema e até literatura, de uma maneira agradável e cativante. É gostoso de se assistir, não só pelo apetite que se abre com a receita do dia, mas por vermos o respeito que tem com o telespectador.

Em um desses dias, em meados de novembro, topei com o prato que dá título a esse post, o arroz à parmegiana, e confesso que fiquei fascinado por ele, pela composição dos ingredientes e – principalmente – ao ver que ele se valia de nada mais nada menos que arroz cru em seu preparo. Como isso é possível? foi a primeira coisa que me perguntei na hora, e continuei assistando às etapas de preparo, enquanto conhecia também o filme Secretariat, e me deleitava com a trilha sonora de Ella Fitzgerald e os talentosos Jorge e Pedro Serafim, que compunham a seleção musical do dia.

Impulsionado pela singularidade da receita, e também pela recém-descoberta do programa, resolvi me aventurar no preparo do arroz. Não seria tarefa fácil, para quem só tinha feito aquela pizza e uns poucos complementos em outros pratos mais simples, mas segui em frente; o máximo que poderia acontecer seria a receita não dar certo. Assim, fui direto em busca dos ingredientes. Aproveitando, vamos a eles:

- 500g de carne moída;
- 1 xícara (cafezinho) de molho de soja;
- 1 colher (sopa) de farinha de trigo;
- 1 cebola média;
- 2 tomates grandes, ou 4 pequeninos;
- 3 colheres (sopa) de massa de tomate;
- 1 copo de caldo de carne;
- 2 copos de água fervente;
- 1 copo de suco de laranja;
- 1 colher (sopa) de açúcar;
- 300g de queijo ralado ou picado;
- 2 copos de arroz cru.

Já de posse de todos os ingredientes, e tendo-os devidamente posicionados na cozinha, comecei, ainda com a supervisão de minha mãe, o preparo da receita, seguindo uma versão que consegui imprimir da internet. (OBS.: Recentemente, 19/02, fiz novamente esse prato, e aproveitei para fotografar as etapas de preparo. Irei listá-las a seguir, de acordo com o processo).

Inicialmente, coloquei a carne moída numa panela, que já estava aquecida e com um filete de azeite, em uma das bocas do fogão. Fui então trabalhando-a com uma colher, fazendo um refogado, parte primordial do arroz à parmegiana.



Depois, dosei a xicarazinha de molho de soja. Ela ajudaria no colorido do refogado e ao mesmo tempo também fortaleceria o tempero, dispensando ainda o uso do sal. A seguir, foi a vez da colher de farinha de trigo. O Anonymus recomenda polvilhá-la sobre o refogado, com uma peneira, assim afinando a farinha e eliminando eventuais grumos que possam vir a surgir, além de acelerar a incorporação à carne. Misturei bem, até obter um refogado bem sólido e consistente, já com tudo devidamente incorporado. A aparência dele aqui deve parecer um pouco seca; sinal que estamos no caminho certo. O refogado agora, porém, deve ser reservado, pois precisa-se preparar o molho, a segunda etapa da receita.

Carne moída após cozinhar e com molho de soja adicionado. Aproveitei para adicionar um pouquinho d`água e daqui tirei o caldo de carne que entra na próxima parte da receita


Aqui entra em cena o liquidificador, e nele vão a cebola, cortada grosseiramente ao meio; os tomates cortados; a massa de tomate, fundamental para o tom avermelhado do molho; o caldo de carne e o suco de laranja. Achei engraçado a receita levar suco de laranja, e me diverti ao despejar o copo liquidificador abaixo. Ficava imaginando que diferença ele faria, que sutileza e sabor acrescentaria. Antes de fechar o aparelho, ainda faltava uma última coisa: a colher de açúcar! Ele, embora não apareça, é fundamental para arredondar e reduzir o grau de acidez, elevado por causo dos tomates e suco de laranja. A visão do liquidificador cheio, com todos aqueles ingredientes era muito interessante; o que resultaria daquela mistura? É incrível como um cozinheiro iniciante pode se impressionar com esses detalhes, mas não pude deixar de pensar nisso.





Após tudo devidamente liquidificado, vi um molho bem espesso, levemente alaranjado, surgir no interior do aparelho. Tinha uma ótima consistência. Lembram do refogado lá do início? É hora de ele voltar ao palco, uma vez que estava à espera do molho. Despejei todo o molho na panela, incorporando-o à carne. É um momento mágico; o sabor, o aroma da carne vai para o molho e vice-versa. Desse processo, nasce um único molho, vermelho, característico, que é o clássico molho parmegiana. Que cheiro!



Na etapa seguinte finalmente entra em cena o arroz cru. Detalhe fundamental do prato: é um arroz de forno, mas vai ao forno cru, em vez de cozido. Coloquei água para ferver, e peguei um refratário retangular, untando-o com óleo ou azeite. O Anonymus recomenda para isso um pincel culinário, mas me virei muito bem com folhas de papel toalha, para espalhar o azeite em todo o refratário. Então chegou a hora do arroz. Despejei o primeiro copo, devagar, espalhando de maneira uniforme. Era engraçado usar aquele arroz cru ali, soava quase estranho, mas eu tinha que ver se daria mesmo certo. A ideia após o primeiro copo de arroz é já colocar o refogado por cima, criando uma camada sobre o arroz. É preciso espalhá-lo bem. Logo após, vem o segundo e último copo de arroz cru, espalhado por cima do refogado. Lancei as mãos sobre o queijo, ralado grosso, e fui salpicando todo o refratário, até quase cobrir todo o conteúdo. A cada camada, a aparência do prato ficava mais e mais iterressante, e eu não conseguia conter a surpresa ao ver aqueles ingredientes tão incomuns (arroz cru) se misturando.














Estando quase pronto para ir ao forno, ainda faltava coroar o refogado, dar o toque final na receita, adicionando dois copos de água fervente. Espalhei um por um, com cuidado, uniformemente pela extensão do refratário. É incrível, mas nessa hora temos a certeza de que estamos colocando tudo a perder, estragando a receita! Pela aparência que a mistura assume, parece mesmo que alguma coisa desandou, mas segui em frente, acreditando na receita.





Após a água fervente, o refratário vai direto ao forno, que já deve estar pré-aquecido. Esperei então cerca de 40, 50 minutos, com o forno fazendo seu trabalho a uma temperatura de 180º para menos.



Passado esse tempo, retirei o prato, e que bela visão! A água fervente havia secado completamente, o queijo, parcialmente derretido e misturado ao molho, parecia um lençol alaranjado, cobrindo o enorme "colchão" abaixo dele. Inclusive, ali podia-se notar as camadas do arroz, agora já cozido, que aumentaram um pouco a altura do prato. O aroma, maravilhoso e convidativo, começava a se alastrar pela casa. Arrumei a mesa, tirei o refratário do forno e então cheguei à hora do sacrifício, como diz o Anonymus Gourmet, referindo-se à hora de se deliciar com o resultado.




O arroz à parmegiana é, antes de tudo, um arroz de forno, e, olhando por esse prisma, pode parecer fácil no preparo, mas ele consegue ser bem mais complexo que isso. Não que a receita seja complicada, ela é até bem simples, com ingredientes acessíveis, de bom manuseio, mas requer atenção nas etapas de preparo.

Claro que na primeira vez que fiz esta receita não estava tão seguro quanto aparento estar nesse texto; em vários momentos, mesmo tendo assistido ao programa, me senti meio atrapalhado e receoso (principalmente na hora de colocar a água fervente) mas, como falei no texto da pizza, observar os ingredientes se misturando, tomando novas formas e cheiros, superou qualquer temor, e me levou a seguir em frente, animado, surpreendido a cada etapa, até finalmente levar à boca uma genorosa garfada, e me deliciar com a incrível junção de sabores que é esse prato.

Nesta segunda vez quis, antes de tudo, registrar o processo, algo que a inocência e ansiedade da primeira vez não me permitiram lembrar de fazer. Aliás, não foi fácil fazer algumas dessa fotos, manipulando a câmera com as mãos meio meladas dos ingredientes, entre um passo e outro da receita, sem descuidá-la. Ao fim, vejo que valeu a pena o esforço, não só para ajudar a compor esta postagem, como também para ficar o registro da receita, que é tão prazerosa de se fazer.

A primeira garfada foi sensacional. A suavidade do arroz, que estava no ponto, bem soltinho; a carne, macia e saborosa; a crosta de queijo semi-derretido, e tudo isso já incorporado e transformado pelo molho. Ainda consegui sentir, bem lá no fundo, o toque da cebola e principalmente do suco de laranja, que deu um ar refinado à receita. O único problema era ter que esperar esfriar um pouco para saborear!








O que mais eu posso dizer? O prato, literalmente, já diz tudo: bom apetite!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (II)


Fotos: Denis Akel

Dando continuidade ao primeiro post sobre a presença do escritor e autor Walcyr Carrasco, que fechou a programação da II Feira do Livro Infantil, em setembro passado aqui em Fortaleza, comentarei agora sobre um dos momentos mais esperados por todos: a sessão de autógrafos.

Ao final de sua palestra, que durou cerca de uma hora, Walcyr foi ovacionado fervorosamente. Chegara o momento dos autógrafos. O narrador do evento, de posse do microfone, começou então a orientar como seria o procedimento. A multidão de pessoas se levantou das cadeiras, ainda sem saber muito bem para onde deveria se dirigir. Lembro de que bem no início da aprensentação, foi dito que Walcyr, devido à grande demanda do público, não falaria com cada um individualmente. Informaram que quem tivesse algo para dar a ele, teria de dar à produção, e esta a encaminharia ao escritor. É engraçado que mesmo assim uma pessoa do público conseguiu lhe dar um livro, sem toda essa formalidade, como falei no primeiro post. Entendi então que talvez ele não desse uma sessão de autógrafos aberta, e lembrei-me de imediato de como Maurício de Sousa tinha feito, na Bienal do Livro de 2010 (dando autógrafos em uma salinha separada, veja mais aqui).

Contudo, desta vez não chegaria a esse ponto. A produção aparentemente voltou atrás. É certo que não havia mais de mil pessoas, como lá no dia do Maurício, logo não haveria necessidade de tanto. Assim, os autógrafos seriam mesmo dados ali na tenda. Walcyr se dirigiu para uma mesinha que foi arrumada em uma das extremidades desta. Todos o seguiram quase de imediato e uma fila começou logo a se formar. Sem hesitar, fui logo em direção a ela; o livro, O caçador de palavras, firme nas mãos. Quando consegui tomar a fila, já estava com umas cinquenta pessoas à frente. E mais e mais iam chegando, extendendo-a até quase fora da tenda. Mentalmente, enquanto não chegava a minha vez, ocupei-me em meio que ensaiar o que iria dizer ao Walcyr. Com o passar dos minutos, uma certa apreensão crescia em mim. Pensei em desistir, sair da fila. Por alguma razão me sentia subitamente quase incapacitado. É sempre uma situação de certo nervosismo quando temos a oportunidade de falar com alguém cujo trabalho exerce tanta influência em nós, ficamos sempre meio abobalhados, ainda mais quando vemos que não teremos mais do que alguns breves minutos, ou até segundos.

De onde estava, alternei olhares entre onde Walcyr deveria estar, no começo da fila, imerso em uma grande massa de pessoas, a fila atrás de mim e para as pessoas que iam saindo com seus autógrafos. Enquanto observava, refletia. Ora, todos estavam ali com um objetivo: ter um contato, por menor que fosse, com o autor. Embora eu ainda desconfiasse que talvez a maioria estava ali mesmo era pela badalação. Olhei então para meu livrinho, amarelado pelo tempo, não mais editado, quase esquecido, que não era um dos livros novos e recentes do autor, que enchiam o estande da Editora Moderna, e pensei que provavelmente seria único ali. Não que eu esteja menosprezando os outros, mas eu julgava estar naquela fila por bem mais que um simples e mero autógrafo. Aquele livrinho significava muito para mim. Praticamente me inclinou à literatura, juntamente com outros três (que mencionarei aqui em outro momento). Ter a oportunidade de estar diante do autor, que a princípio não faz ideia de nada disso, é um momento indescritível. Gostaria de poder conversar com ele mais livremente, saber de onde veio a ideia para aquela história, como foi escrevê-la, comentar que estou seguindo um caminho similar e por aí vai, mas eu bem imaginava que ali, naquele momento, talvez nada disso fosse possível.

O trechinho abaixo mostra um pouco da movimentação da fila:



A fila caminhava, e eu notava que todos passavam realmente pouquíssimos minutos, senão segundos na vez. Claro que seria impossível dedicar muita atenção a todos, imaginei. Walcyr recebia as pessoas com um sorriso e já esperava o livro, ou o que quer que fosse, para assinar (teve gente que quis que ele autografasse a camisa que vestiam!). Depois, elas saiam pela lateral, e a próxima avançava, mecanicamente, como um automóvel que espera o semáforo abrir. Olhando para aquela cena, pensei comigo: Walcyr está aqui quase como um semi-deus, adorado e idolatrado por todos, com pompa de héroi, mas não se pode esquecer que antes de tudo ele é uma pessoa comum, que soube aproveitar as oportunidades que lhe surgiram na vida, e que teve seu talento reconhecido. Como ele mesmo disse, chegou aonde chegou com muito trabalho. Todos temos esse potencial. Então, não havia a necessidade de se criar muros entre mim e ele, e certamente havia mais alguém naquela fila com ideais semelhantes aos meus. Mesmo tendo essa consciência, ainda não consegui me sentir inteiramente à vontade, embora já estivesse mais focado.

Faltando mais ou menos dez pessoas à minha frente, percebi que não poderia mais voltar atrás, não poderia (nem deveria) desistir. Iria em frente agora de qualquer jeito. Walcyr enfim se tornara visível a meus olhos, quando a aglomeração em volta dele começou a se dissipar. Podia vê-lo dando as assinaturas. Continuei organizando mentalmente o que queria dizer para ele: "Walcyr, é um prazer conhecê-lo...", "Esse livrinho é um dos meus favoritos...", "Eu também escrevo...", "Seu livro me influenciou muito...". Frases como essa pipocavam a todo instante em minha mente. Sabia que não seria possível dizer tudo o que gostaria, mas era preciso tentar. Não estava querendo falar nada referente às novelas, por já ser um assunto tão comum e de certa forma desgastado naquele momento. Com apenas duas pessoas à minha frente, eu já me sentia quase diante dele.Vi os dois seguranças, de expressões impassíveis, próximos à mesa. E então, enfim chegou a minha vez.

Cumprimentei Walcyr com um olhar, e disse que era um prazer conhecê-lo. Walcyr balançou a cabeça, em um gesto semi-automático. Em seguida, soltei o livrinho na mesa diante dele. Foi tudo muito rápido, e mesmo mais calmo senti as frases que tanto ensaiara antes me fugirem. Walcyr então esboçou uma exclamação de surpresa: "Ah, esse livro...", como que se ele próprio não o visse há muito tempo. Me pareceu que ainda diria mais algo, continuando sua colocação, mas acabei cortando-o, jogando as coisas que queria lhe dizer, começando a aproveitar o pouco tempo que teria. Se ele tinha ou não mais algo a dizer sobre o livro, jamais saberei. Depois que eu falei uma ou duas frases, para um Walcyr agora sorridente, ele perguntou meu nome, já com a caneta em riste no punho e o livro com a primeira página virada. Claro que o objetivo daquela fila era mesmo o autógrafo, e não ficar conversando com o autor, mas não pude evitar de sentir naquela pergunta uma maneira de me encerrar logo, como que para apressar a fila, e dar passagem ao próximo "automóvel" – ou talvez fosse só impressão minha. Dito meu nome, a mão de Walcyr começou a fazer seu trabalho, assinando friamente o livrinho. Aproveitei esse ínterim para dizer o quanto aquele livro era significativo para mim, sem antes dizer, é claro, que eu também escrevia. A trama do livro, que envolve etimologia, me fascinara de imediato na primeira vez que li, anos atrás, e desde então passara a gostar e me interessar pela área. Walcyr concordava com a cabeça, enquanto terminava de assinar. Depois virou o rosto para mim, entregando o livrinho. Eu disse ainda que admirava muito seu trabalho, que gostara da palestra e que sempre acompanhava seu blog. Agora vejo que talvez pudesse ter falado algo menos clichê, mas na hora foi apenas o que me ocorreu. Walcyr concordou novamente com a cabeça, dessa vez olhando para mim. Senti que de certa forma meu tempo se esgotara.

O livrinho, em minhas mãos, já estava autografado e eu teoricamente já deveria ter deixado os "holofotes", já devia abrir espaço à pessoa de trás. Walcyr olhava para mim como se esperasse que eu fosse dizer mais algo. Naquele momento, porém, temi não conseguir articular mais nada a dizer, sem cair em repetição. Após falar do blog, agradeci a ele, e acabei saindo pela lateral. Enquanto andava, notei que Walcyr ainda continuou me olhando, por breves segundos. Era como se ele ainda quisesse me dizer algo, ou como se sentisse que eu tinha mais a dizer, mas de certa maneira estava tão incapacitado quanto eu. A enorme fila que estava às minhas costas esperava, pacientemente, para ser atendida. Talvez Walcyr esperasse que eu quisesse fazer uma foto com ele, como muitos ali desejavam, mas esse não era bem meu objetivo. Sim, minha vez acabou sendo muito rápida, muito abrupta. Segundos depois que saí da tenda, Walcyr, após me acompanhar momentaneamente com o olhar, tornou a virar o rosto para o próximo, que já lhe estendia o livro a ser autografado.

Enquanto caminhava, saindo dos arredores da Praça do Ferreira, olhei novamente a assinatura que Walcyr me deixara. Tinha esperado cerca de trinta minutos para apenas trinta segundos. Mas era isso mesmo. Ao menos eu tinha conseguido lhe dizer algo. Fui numa lanchonete próxima, onde tomei um suco e fiquei repensando toda esta situação. Recordava o que havia dito, em um hábito típico de pensar se tinha agido bem. Comecei a crer que talvez tivesse falado tudo muito rápido. Talvez Walcyr não tenha entendido quase nada do que falei. Mas procurei não me preocupar, pois sabia que alguma coisa ele tinha entendido sim. Sua exclamação de surpresa ao ver o livrinho não deixava dúvida. Eu me senti bem, de certa forma realizado, apesar do momento ter sido tão breve e direto. Quando terminei o suco e retornei à praça, a fim de olhar alguns livros nos estandes, vi que ainda havia um enorme burburinho na tenda principal, e perguntei a mim mesmo se seria possível Walcyr ainda estar ali. Já se passara uns quarenta minutos desde que eu saíra da fila. Apurei a vista, à medida que me aproximava, até que o vi emergir do contigente de pessoas que lá estava. Sorridente, Walcyr começou a deixar a tenda, ladeado por seus seguranças. Algumas pessoas ainda tentavam segui-lo. Ele seguiu alguns metros, na direção de onde havia sido montado um palco para shows e desapareceu por entre uma portinha lateral que se camuflava a uma parede. Tudo foi muito rápido.

Ainda retornei à praça, onde desfrutei mais um pouco dos últimos momentos da feira, passeando pelos estandes. Nesse dia, no caminho de volta para casa fiquei olhando a assinatura. Ela inegavelmente exercia em mim um certo ar de conquista. Por várias razões, imagino, mas primeiramente por ser o primeiro autógrafo ao vivo que consigo, e por ele ter sido dado em um livro que tanto me estima. No dia seguinte, Walcyr deixaria Fortaleza e retornaria à sua rotina de trabalho no eixo Rio/SP. As pessoas que estiveram na Praça do Ferreira, durante sua palestra, àquele 17 de setembro, com certeza foram marcadas por suas palavras, umas mais, outras menos, é fato, mas o autor se fez ouvir de maneira geral, expondo um pouco de sua carreira, do início à fase atual. É sempre interessante saber como escritores e autores dão seus primeiros passos, principalmente aqui no Brasil, onde não há muito suporte ou incentivo nessa área. Gostei da palestra, das palavras de Walcyr, apesar de achar que talvez houvesse mais variedade de assuntos e perguntas se ele não estivesse com uma novela no ar na época. Não que eu esteja excluindo as telenovelas de sua obra, mas a maioria das perguntas acabou centrada nelas e como ele estava em uma feira literária, seria mais interessante se o foco principal estivesse mesmo nos livros e na literatura. Contudo, quem faz uma boa palestra, além do palestrante, é o público, e é evidente, porém, que se não fosse a novela em questão, provavelmente uma boa parte das pessoas não teria comparecido!





terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nos caminhos da música – memórias de um teclado quase esquecido



Bom, aproveitando que este é invariavelmente o primeiro post do ano, falarei um pouco sobre um tema de que gosto muito, mas que ainda tinha tido pouco ou quase nenhum espaço por aqui: a música.

Agora por esses dias, coisa de dois ou três meses, comecei a me aventurar por esta fantástica arte, de uma maneira um pouco inusitada, aproveitando um antigo instrumento de quase quinze anos, que estava parado há tempos – o teclado da foto acima.

Meu interesse inicial pela música veio quando ainda era pequeno, por volta de 1991 ou 1992. Costumava tocar um pouco de flauta, nada muito significativo, mas para mim tinha um sabor único, ao soprar e ouvir e ouvir aqueles sons se entrelaçando. Não era preciso entender nada, apenas sentir. Era meio que um momento de lazer, uma distração, mas um momento onde sobretudo me sentia bem, em harmonia.

O tempo passou. A magia da infância começava a desaparecer. Vinham outros interesses, e a velha flauta foi encostada (mas ainda a tenho). Os anos foram se seguindo. Ainda tentei retomar o gosto pela música, comprando um teclado básico, ideal para iniciantes, em meados de 1997. Por alguma razão, porém, não consegui manter o interesse. Cheguei a dedilhar algumas coisas, seguindo guias simples com números e cores (que usava na flauta ), mas realmente não me apronfundei. Após mais um certo tempo, acabei guardando o aparelho, que acabaria recluso por anos dentro de armários. Meu irmão bem que ainda tentou usá-lo algumas vezes, mas também de modo passageiro. É provável que durante todo esse tempo até tenha me passado pela cabeça doá-lo ou vendê-lo, por não saber direito o que fazer com ele.

Mas este teclado ainda viveria para ter seus dias de glória. Como sempre digo por aqui, tudo tem o seu devido tempo para acontecer. Foi assim que subitamente me vi tragado de volta ao mundo da música, de uma maneira tão abrupta que de certa forma me surpreendeu, e percebi que realmente podemos fazer qualquer coisa, se realmente quisermos. Eu estava seguindo dias de certa forma iguais, monótonos até, pode-se dizer, simplesmente com as atividades rotineiras, como acho que muitas vezes fazemos, sem nos darmos conta, ou por realmente não termos escolha. Recentemente, encontrei o velho teclado em uma faxina corriqueira, e o deixei por perto (ainda o guardo na caixa original), para uma hora abrir e ver se estava tudo bem. Sabia que talvez não fizesse isso tão cedo, mas a caixa permaneceu lá, inerte, ao alcance de minha mãos. Em um certo dia, decidi agir. Não sei o que me deu, mas resolvi não só pegar o teclado, como também me dedicar a aprender a tocá-lo. E não queria apenas seguir numerozinhos e coisas parecidas; queria aprender as notas, queria entender a teoria musical.

Pensei logo em usar a internet para esse fim, valendo-me de cursos (em PDF) e vídeo-aulas, pelo menos inicialmente. Resoluto, coloquei o teclado sobre minha mesa e me preparei para ligá-lo. Sabia que precisaria da fonte, que naquele momento não fazia a menor idéia de onde estava, se é que ainda a tinha, mas lembrava de que ele também funcionava a pilhas. Virei o aparelho, abri o compartimento e relembrei o número de pilhas de que precisaria: cinco. Corri pela casa, coletando-as de outros eletrônicos, até ter as cinco em mãos. Enfim colocadas no teclado, liguei-o. Não tinha muitas esperanças de que ainda fosse funcionar – estava guardado há anos, sem uso – mas ele ligou! O vislumbre da luzinha vermelha acendendo me trouxe um sorriso de satisfação. Dedilhei um pouco algumas teclas. Parecia mesmo tudo bem com o instrumento. O som das notas me remotava ao passado, à época que o comprei, até mesmo à época da flauta. Embalado por estas boas lembranças, repeti para mim mesmo que agora chegara o momento de aprender a tocá-lo.

Incontinente, recorri a talvez um dos melhores professores que podemos ter hoje em dia: o Google. Pesquisei com determinação, até baixar um bom material, para ser lido e estudado no computador mesmo. Era o básico do básico; noções introdutórias e afins. Seria um bom primeiro passo, imaginei, e me pus a lê-los. Um dos cursos que baixei era na verdade um curso preparatório voltado a tecladistas de igreja, contando com um vasto hinário a ser aprendido pelo mesmo. Contudo, lá pude ver que estava toda a teoria, bem explicada, bem do início, e acreditei ser um bom começo. Ainda, para entender efetivamente este curso, era preciso passar por uma parte inicial de regência, onde era explicado os primeiros elementos básicos da partitura, juntamente com as noções do gestuário. Por achar tudo aquilo interessante e novo para mim, debrucei-me sobre todo este conteúdo, antes de chegar propriamente à parte do teclado.

Passei os dias seguintes bastante mergulhado nessa área, foi mesmo uma grande descoberta. À medida que lia os conceitos e os praticava no teclado, ia me surpreendendo. Partituras musicais sempre me intrigaram, por parecerem complicadas, ilegíveis, como imagino que é tudo o que desconhecemos. Quando, porém, começamos a entender a lógica daquilo, seja o que for, percebemos que não é nada assim tão inacessível. Com a música, acredito não ser diferente. Aprendendo o porquê dos símbolos, seus significados, as notas e nomenclatura, comecei a ficar ainda mais curioso diante das partituras, por agora enfim poder lê-las, pelo menos ainda as mais simplificadas. Imprimi até alguns modelos de pentagramas para treinar alguns exercícios e os nomes e posições da notas.

Meu modesto teclado, como devem ter notado, traz várias etiquetinhas coladas nas teclas. Trata-se daquele material didático que acompanhava revistas que se propunham a ensinar as primeiras noções. Lembro que as afixei com empolgação nos primeiros dias que comprei o instrumento, mas elas nunca foram exatamente muito úteis, exceto por ajudarem a memorizar algumas musiquinhas, embora eu me baseasse pelo número e não pelo nome da nota. Hoje em dia, já percebo que essas etiquetinhas mais atrapalham do que ajudam, pelo menos para mim, e logo devo mesmo removê-las. Ainda, algumas pessoas já comentaram que eu talvez devesse comprar outro teclado, maior, mais moderno. Preferi dar de ombros; meu velho teclado ainda tem muito chão pela frente. Ele é ótimo para as noções básicas que venho estudando, e percebo que, finalmente, após quase quinze anos, o teclado disse a que veio!

Falando agora sobre gêneros musicais e referências, recentemente comecei a me interessar mais por música minimalista. Já conhecia o estilo, graças a filmes como o excepcional Koyaanisqatsi, cuja trilha sonora é assinada por Philip Glass, um dos maiores nomes do minimalismo. Foi também através de outro filme, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que conheci Yann Tiersen, outro grande compositor minimalista e comecei a me enveredar cada vez mais no assunto. Tecnicamente, a música minimalista tem como características a repetição de pequenos trechos, com leves variações em grandes períodos de tempo, compondo assim ritmos quase hipnóticos. Depois que comecei a me aprofundar na área musical, posso dizer que não escuto mais uma música como antes, é como se conseguisse perceber certas nuances antes imperceptíveis. Ultimamente tem sido comum, ainda, gastar horas no YouTube , procurando vídeo-aulas, exercícios ou mesmo apenas se deliciando com interpretações de músicas no piano, teclado, em especial de Glass, Tiersen, Reich, clássicos como Beethoven, Chopin e trilhas sonoras.

Todo este estudo e pesquisa autodidata que venho conduzindo (apesar de também já considerar fazer um curso com professor físico) me faz pensar mais uma vez que podemos mesmo fazer qualquer coisa que quisermos, desde que haja determinação para tal. Às vezes um pequeno passo fora de nossa rotina nos desvela um mundo desconhecido, fascinante – que estava ali o tempo todo – embora, de certa forma cegos, não pudéssemos enxergá-lo, mas que muitas vezes pode mudar toda a nossa vida. É sempre bom sair da rotina, fazer coisa diferentes, às quais não estamos acostumados ou simplesmente não sabemos ainda. Faz bem para a alma, nos reiventarmos. Posso afirmar isso por conta de meu récem-revigorado gosto pela música e também pelo súbito gosto por cozinhar, do qual já falei nesse outro post.

Ah, estou pensando em comprar um violão em breve. Só espero não demorar quinze anos para começar a tocá-lo!






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (I)

Foto: Divulgação do evento

Recentemente, postei aqui alguns comentários sobre a passada do escritor e contador de histórias Ilan Brenman aqui em Fortaleza, em ocasião da II Feira do Livro Infantil (veja aqui). Agora, falarei um pouco sobre talvez o maior destaque desta edição do evento, a presença do escritor e autor Walcyr Carrasco. Nesse post, dividido em duas partes, procurei colocar uma visão geral de como foi a apresentação, sob meu ponto de vista.

Walcyr sem dúvida foi uma alavanca de formidável impulso para levar à Praça do Ferreira um excelente público, para um evento literário em ascensão; cerca de 150 pessoas somente em sua apresentação. Eu mesmo, inclusive, fui motivado a ir conhecê-lo. Admiro muito o seu trabalho, não somente na área de teledramaturgia, onde talvez seja mais conhecimento e amplamente divulgado, mas também na literária; Walcyr Carrasco tem uma sólida carreira como escritor, com diversos livros publicados, destacando-se os infantis, mas também com infanto-juvenis e romances, além de traduções, adaptações e peças de teatro.

Um de meus livros favoritos e, devo dizer, fundamentais para minha escolha por trilhar também o caminho das letras é da autoria de Walcyr. Trata-se de O Caçador de Palavras, um livrinho pequeno e pouco conhecido, que atualmente já não é editado. Mesmo assim, muitos devem lembrar dele por ter vindo junto com o dicionário LUFT, da editora Ática, em meados de 1993. É uma história curta, breve, mas que transmite um ideal tão vasto que até hoje me influencia. Enfim, falarei mais sobre este livrinho em uma postagem exclusiva, ainda por vir.

Voltando ao assunto central, Walcyr Carrasco fecharia a II Feira do Livro Infantil com chave de ouro. Sua participação estava marcada para o sábado, 17 de setembro. Na ocasião, Walcyr daria uma palestra sobre sua obra e carreira e ainda concederia uma sessão de autógrafos. Seria bem parecido como foi com Ilan Brenman, com a diferença massiva estando por conta da quantidade de público presente.

Marcada para as 15:00, me programei para evitar atrasos, saindo com certa antecedência, sem esquecer, é claro, de levar O Caçador de Palavras comigo; faria questão que Walcyr o autografasse. Sabia que a movimentação lá seria intensa e queria também um bom lugar para sentar, assim, cheguei à Praça do Ferreira por volta das 14:45. Quase não acreditei quando olhei para a tenda central: estava praticamente lotada. Dezenas e dezenas de crianças, fardadas, provavelmente de escolas, enchiam as muitas cadeiras que tinham sido dispostas, em meio ao mini palco onde ficavam os palestrantes. Além delas, havia também um enorme público geral, compondo os locais restantes e também curiosos nas imediações da tenda. Àquela hora, já era impossível pegar um lugar à frente; tive de me conformar em sentar bem atrás. Uma vez acomodado, comecei a olhar novamente em volta, observando o tipo de público que ali estava. Fazia um calor imensurável nesse momento, mesmo a tenda sendo ao ar livre (ou talvez justamente por isso).

Foto: Denis Akel

Pouco antes da hora marcada, o responsável pela locução do evento subiu ao mini palco e avisou, com voz entusiasmada, que Walcyr logo entraria. Somente essa declaração já foi suficiente para levar todos ao delírio, em sonoros gritos de euforia. E então, pontualmente às 15:00, avistei Walcyr Carrasco chegando à tenda. Trazia à cabeça uma espécie de chapéu-panamá (que depois revelaria ter ganhado já na cidade). Sua roupa, de algum modo leve e simples, transmitia segurança e tranquilidade. À aparição do autor, o público explodiu em fervorosos aplausos, juntamente com gritos e exaltação. Foi bom ver toda aquela comoção em torno de um escritor, embora soubesse que talvez a maior parte daquele estardalhaço se devesse não à sua obra literária, mas às suas novelas. Eu esperava até o final da palestra poder mudar de opinião.

Um outro detalhe que não pude deixar de notar, enquanto corria os olhos em volta, observando as pessoas, foi a forte presença de seguranças. E não pareciam seguranças comuns. Cogitei até a possibilidade de ser uma equipe especial do próprio Walcyr, já acostumada a protegê-lo. Farda escura, boina vermelha, rosto impassível. Num detalhe na manga do braço, os dizeres "defesa pessoal" podiam ser lidos. Pareciam saídos de um desses filmes de assaltos milionários.

Após receber o microfone e tomar a frente do público, Walcyr, sorridente, saudou a todos, dizendo o quão feliz estava por estar ali. Inicialmente, ele quis ler um poema de que muito gostava, de autoria de Mario Quintana. Walcyr bem que tentou, mas a plateia não facilitou; vozerios e balburdia iam se manifestando, complicando o andamento da apresentação. Além disso, graças ao microfone, que parecia estar com algum problema (não demorou a ser substituído), sua leitura começou quase inaudível. Percebendo a dificuldade repentina do público, Walcyr alertou, sério, que se todos não fizessem silêncio, ele iria embora. Pronto, bastou isso. Como num passe de mágica, as professoras das crianças, que eram as principais responsáveis pelo caos sonoro, se fizeram ouvir e buscaram conter os pequenos. Walcyr prosseguiu lendo Quintana, mas continuei ouvindo apenas palavras perdidas. Longe do palco, só ouvia uma palavra ou outra dele, espaçada – agora pelos murmúrios – do mar de crianças que estavam à minha frente.

Foto: Denis Akel

Em seguida, falou um pouco de sua carreira, de suas referências. Contou que seu gosto pela leitura veio da infância (em uma época em que sequer havia TV), através das clássicas obras de Monteiro Lobato, e que sua aptidão à escrita veio naturalmente por conta disso, por volta dos 12 anos de idade, quando começou a se descobrir escritor. Walcyr se encantou pelo Saci, Pedrinho, Emília, a ponto de decidir também querer escrever suas histórias. Daí em diante, para realizar seu intento, passou a ler muito, como deve ser o hábito de todo escritor. Apontou os contos de fadas como um de seus gêneros favoritos, citando a obra de Hans Christian Andersen, célebre por O Patinho Feio, A Pequena Sereia, entre outros. Falou ainda de nomes como Shakespeare, que ele muito admira e até traduz, a Júlio Verne, e de como gosta de fazer referências sutis a eles em suas obras. Ressaltou ainda o quão visionário Verne foi, ao escrever 20.000 Léguas Submarinas em uma época onde não existiam submarinos. Ainda sobre o ato e gosto pela leitura, enfatizou que o conceito de gostar ou não gostar de algo é muito relativo, pois pode-se muito bem aprender a gostar ou aprender a não gostar, seja lá do que se tratar.

Foto: Denis Akel


Seguindo-se a esta breve introdução, duas pessoas, cujos nomes ou cargos não me recordo, mas que certamente haveriam de ser pessoas de peso no evento (talvez até alguém de importância na cidade), foram chamadas ao centro da tenda, onde leriam alguns trechos de livros do Walcyr. Durante a leitura de seus textos, Walcyr Carrasco manteve-se sentado, ao lado da pessoa que lia. Percebi que ele vagueava o olhar pela plateia, como se buscasse conhecer melhor seu público, mas sem se distrair do que era lido. Porém, notei que a fatia do público que prestava atenção era muito pequena. Eu mesmo não conseguia acompanhar direito alguns trechos. Achei que os textos escolhidos foram demasiados longos, o que pareceu enfadar rapidamente boa parte do público, que, disperso, fazia barulho e atrapalhava quem queria ouvir e estava mais longe do palco, como eu.

Não lembro exatamente se foi nesse momento, ou mais no início, mas Walcyr ainda ganhou um livro de presente de uma pessoa do público, que fez questão de deixar claro que o livro só seria colocado à venda ano que vem, e que aquele exemplar era exclusivamente para ele. Walcyr, surpreso e admirado, mostrou o livro ao público, repetindo o que ela disse.

Findadas as leituras, o público respondeu com aplausos. Walcyr Carrasco continuou, então, tornando a falar, agora mais detalhadamente, de sua carreira, projetos e trabalhos. Ele esbanjava simpatia, usando seu chapéu-panamá que – como revelou depois – ganhara na ocasião, mas que lhe caiu perfeitamente; parecia quase feito para ele.  Walcyr falou que inicialmente escrevia para jornais e revistas (Revista Recreio) e que aos poucos foram lhe aparecendo oportunidades de escrever para teatro e TV. Disse ainda que chegou à Globo com muito trabalho e dedicação, e que isso já fazia dez anos. Mesmo com uma vasta liberdade de produção na TV, adora escrever livros para o público infantil, pois vê nessas histórias muito mais do que elas aparentam representar.

Foto: Denis Akel


Passada a introdução de Walcyr, a leitura de seus textos e do poema de Quintana, teve-se início o bloco de perguntas. Um microfone foi sendo conduzido a uma das muitas mãos que sempre se arguiam; todos buscavam  poder dirigir algumas palavras ao escritor. Uma das primeiras perguntas a surgir foi quanto à sua rotina de trabalho, em que hora ele costumava escrever. A isso Walcyr Carrasco respondeu de imediato, com ar brincalhão, arrancando sonoros risos de todos: "Sou um vampiro!". Com isso, quis dizer, como explicou em seguida, que tinha hábitos notívagos. Disse que usualmente começava a escrever às 23:00, indo até as 3 ou 4 da manhã (quem o conhece do Twitter sabe que é mais ou menos nesse horário que ele vai fumar seu charuto e meditar!).

Como não poderia deixar de ser, Walcyr foi fustigado com várias perguntas referentes à sua novela Morde & Assopra, ainda em exibição na época. Foram realmente muitas perguntas, desde as mais inocentes, como crianças que realmente acreditavam que havia um rôbo vivendo o personagem da Naomi Rôbo, a outras mais extravagantes, como: "Como você fez a cena onde o rôbo remove parte de sua pele artificial e exibe seus componentes eletrônicos?" Walcyr, direto, respondeu à primeira dizendo que era a atriz que fazia as duas personagens, que era mérito dela a "versão rôbo"ficar tão autêntica. Quanto à segunda pergunta, disse categoricamente que não foi ele quem fez a cena mencionada, e completou sua resposta, dando a todos um breve panorama de como funciona o andamento de uma novela, da concepção da cena à sua filmagem. Walcyr disse que ele somente escrevia. Em seguida, o produtor irá negociar detalhes que envolvem a cena (locações, etc) e o diretor a dirige. Citou ainda um exemplo, usando uma praia daqui de Fortaleza como ambiente. Ele escreveria o que iria ocorrer, o produtor entrava em contato com a prefeitura da cidade, para negociar detalhes da locação, e o diretor executava a direção. Em termos, foi bem claro ao dizer que poderia escrever praticamente o que quisesse e o produtor teria que se virar para conseguir realizá-la, o que arrancou mais boas risadas do público. Ainda sobre o tema de produção, alguém perguntou quem escolhe o elenco de suas novelas, e se a opinião dele é unânime. Walcyr respondeu, sucinto, que é 50% ele, 50% a emissora/equipe.

Tivemos também algumas perguntas bem incomuns, que geraram respostas bem contundentes. Em dado momento, Walcyr foi indagado sobre quais alguns de seus momentos felizes e tristes. Respondeu dizendo que tenta não ter momentos tristes; tenta sempre enxergar o lado bom que há em tudo. Completou dizendo que embora muitas vezes não consigamos fazer essa distinção, é um bom caminho para sofrermos bem menos.

Outra pergunta, ainda sobre Morde, foi referente ao desfecho de alguns personagens. Walcyr riu-se, e de certa forma insinuou, mas acabou não revelando nada, deixando suspense e ansiedade no público que assistia à novela. E sem deixar o assunto novelas de lado, um menino quis saber se o macaco pintor de Caras & Bocas, trama que repercutiu bastante em 2009, realmente pintava. Walcyr contou uma história sobre um macaco nos EUA, que nos anos 30, 40, ficou muito famosos por pintar, tendo inclusive vendido muitas telas. O macaco de sua novela (na verdade uma macaca) gostava muito de desenhar, mas não pintava.

Encerradas as perguntas, o público prorrompeu em um forte e prolongado aplauso. Walcyr Carrasco sorria, no centro de todos. Mas aquele momento ainda não terminaria: teríamos ainda a sessão de autógrafos. O narrador do evento assumiu o microfone  e começou a organizá-la. E é a partir de lá que começa a segunda parte dessa postagem, em breve no ar!

E para finalizar, alguns trechos que consegui captar da palestra. A qualidade não é das melhores, mas todo registro é válido. :)

Veja a segunda parte aqui.