Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Bienal do Livro do Ceará - 2014


Imagem: Google

Está acontecendo, finalmente, a XI edição da Bienal Internacional do Livro do Ceará. Este ano, homenageando a obra do grande contista cearense Moreira Campos.

Não estava muito empolgado com a bienal esse ano, principalmente por conta da fraquíssima divulgação, mas como um evento de literatura é sempre um evento de literatura, acabei invariavelmente mexido.

Acontecerá até o próximo domingo, dia 14 de dezembro, sempre das 9h às 22h. A entrada pode até ser gratuita, mas o estacionamento custa absurdos R$15, em taxa única.

Entre os destaques, estão, além de Moreira Campos, a homenagem também ao escritor amazonense Milton Hatoum. Ainda entre as mesas e palestras, nomes como Lira Neto, Luiz Ruffato e Xico Sá.

Estou acompanhando, na medida do possível, uma vez que como não há programação impressa, fica complicado decidir – e lembrar – o que se quer assistir. Em breve, farei aqui algumas postagens referentes ao evento em si e às palestras que pude acompanhar.

Mais informações sobre a Bienal no site oficial: http://bienaldolivro.org

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Livro: A Cabana


Fotos: Denis Akel

A Cabana é um daqueles livros que mesmo sem termos lido, certamente já ouvimos falar, seja através de algo, alguém, ou ainda pela superexposição que a mídia faz em cima de obras como essa, os best-sellers. Dificilmente essa seria uma de minhas prioridades de leitura, mas surgiu a oportunidade de lê-lo, quando uma tia me emprestou, e como estava curioso para ver o que havia na tal cabana, abracei a chance. Devo ter passado bem mais tempo do que imaginava envolvido neste livro, pois, diferente de outros, resolvi fazer aqui um estudo mais abrangente (também para tentar entender o fenômeno que ele se tornou), analisando capítulos individualmente, repensando e refletindo os rumos da história, e foi uma experiência no mínimo curiosa, que procurarei relatar ao longo desta breve postagem.

A trama geral do livro fala de um provável encontro com Deus, no qual o protagonista, Mack, se vê diante de uma trindade divina bastante, vamos dizer, incomum. O enredo começa quando Mack passa por uma grande perda em sua família e se vê desde então imerso numa grande tristeza, desiludido do mundo e de Deus, por não entender como Ele pôde permitir tal perda. Então, certo dia, depara-se com um bilhete, aparentemente escrito por Deus, que lhe propõe um encontro na cabana que dá título à obra, justo onde se deu sua grande perda, onde a filha de Mack foi assassinada. Esse jogo de emoções marca os momentos iniciais do livro. Revisitar a cabana, palco de angústias e tristezas parece algo improvável de Mack fazer, porém a estranheza daquela mensagem provoca a curiosidade dele. Será possível que Deus realmente estará à sua espera? Essa ideia fantástica logo povoa não apenas a mente de Mack, como do leitor, que se vê igualmente tentado. E aqui se inicia toda a saga de Mackenzie Allen Philipps, uma jornada que, segundo os inúmeros comentários ilustres que precedem o primeiro capítulo, pode mudar a vida daqueles que se permitirem tocar por ela.



Comecei a ler o livro sem muita pretensão, me deixando levar por sua história, amplamente surreal, emotiva e visivelmente convidativa. Apesar de ser um livro de tamanho médio (pouco mais de duzentas páginas), há pouquíssimos personagens, podendo-se reduzi-los a apenas Mack e o trio divino. Esse detalhe deixa a história com um ar mais pessoal, mais tangível, de maneira que podemos acompanhar toda a evolução do personagem, suas transformações, e, invariavelmente, nós colocarmos em seu lugar. Em contra-partida, às vezes a narrativa se perde um pouco do foco, o que resulta em trechos repetitivos, confusos e cansativos. 

A divina Trindade; Deus, Jesus e o Espírito Santo, aparecem com representações humanas bastante extravagantes, demonstrando que não há muita preocupação do autor em seguir preceitos tradicionais e teológicos, apesar de ser uma história de alto teor religioso. Os capítulos são breves, contendo praticamente apenas diálogos entre Mack e as divindades. Ele busca entender as razões pelas quais Deus faz o que faz, e questões sobre sofrimento, liberdade, fé e autoridade são diretamente focados. A cada capítulo Mack meio que recebe um novo ensinamento, como se a venda que lhe cobre a visão fosse retirada pouco a pouco.



O curioso quanto a esse livro é que, pelo que li e vi de entrevistas com William P. Young, ele foi inicialmente escrito para seus filhos, sem qualquer pretensão maior. Foi graças a dois amigos do autor que a obra foi projetada para uma tiragem maior, e foi aos poucos atingindo cada vez mais e mais pessoas, recebendo mais e mais traduções, até chegar ao status que tem hoje. Mas será que o livro é mesmo isso tudo o que dizem? Sem dúvida essa questão é bastante pessoal. Procurei lê-lo sem considerar essa ou aquela colocação, visando não ficar direcionado a pensar isso ou aquilo, mas alguns fatores que foram surgindo ao longo dos capítulos são bastante notáveis.

Primeiramente, o livro, apesar do teor religioso, desconsidera completamente a bíblia. Inclusive, pelo que pesquisei, é alvo de inúmeras polêmicas que alegam que ele deturpa boa parte do que é dito nas Escrituras. Ainda, sugere que a bíblia contém inverdades, mas que seria mesmo assim usada por Deus devido à complexidade que se tornou a vida humana depois de se afastar Dele. Assim, a trama também sugere que há verdades além da Bíblia que só o homem que se relaciona com Deus pode alcançar. Um exemplo disso está no capítulo 6 (Aula de voo), quando Deus ironiza: "Aqui não é escola dominical. É uma aula de voo".

O principal entrechoque de opiniões referentes a A Cabana, a meu ver, é justamente quando se quer pensar nela como "uma nova bíblia". O livro tem sim um alto valor emocional, uma ótima história, reconfortante até, mas em nenhum momento deve ser confundido com nada além disso. Um de meus pensamentos, durante a leitura foi "com que liberdade o autor pode se colocar no papel de Deus e dizer o que é certo ou errado? E como as pessoas que lêem acreditam assim tão cegamente?" Tudo o que ele faz é criar um estereótipo para Deus, mas o faz de maneira realista, convincente. Young vende seus princípios sobre Deus como se fosse a mais absoluta verdade, mas acaba, involuntariamente, contrariando a Palavra revelada por Ele.



Por não ter qualquer intenção de concordar com as Escrituras, o livro busca inserir novos conceitos, apresentar uma nova verdade, uma verdade que se por um lado pode ser bastante herética, por outro permite uma visão bastante peculiar e ousada, que deve ser interpretada não como verdade absoluta, mas como um ponto de vista, o ponto de vista do autor. Segundo ele, aliás, a simbologia da cabana atua como uma metáfora para um local de aprisionamento ou de dor, como se cada pessoa tivesse uma cabana em sua vida, ou seja um lugar que de alguma maneira as machucou profundamente e que jamais pensam em voltar. Imagino também que o protagonista da história, Mack, tenha muito de William P. Young, de maneira que a trama constitui um relato bastante particular, a história de sua vida, pode-se dizer, pois havia sido escrita a seus filhos.




Deixando de lado o fator teológico e focando um pouco no aspecto literário, A Cabana é excelente, no âmbito de ser uma história feita sob medida para emocionar e comover. Há um aspecto de realidade mesclado com fantasia, como uma fábula, que valoriza bastante a trama, tornando-a agradável e atrativa. A narração, viva e pungente, descreve com clareza a intensa viagem pela qual o protagonista passa, com cenas em geral bem construídas e articuladas. À primeira vista, o livro tem fortes ares de romance policial, à medida que somos apresentados aos personagens, à trama e ao lugar. Em certo capítulo, porém, dá-se uma virada brusca nesse ponteiro, e chegamos assim ao córrego que nos conduzirá até o final; conversas de Mack com a trindade. Pode até ser impressão, mas percebi que a partir daqui um ou outro capítulo não consegue manter a força do anterior, de modo que ficamos sempre à espera de que aconteça algo realmente relevante na história.

Uma das coisas que mais me desagradou no livro, e que também foi uma certa surpresa, surgiu logo quando o terminei. Nas últimas páginas há um "pedido" nada modesto, para que simplesmente o leitor busque passar aquela história adiante, oralmente ou mesmo dando o livro de presente a amigos, familiares e até desconhecidos. A pretensão com que o "livro" (na verdade um grupo de leitores muito tocados pela obra) fala de si mesmo chega a ser ridícula, de modo que ele nitidamente perde o foco ao  se supervalorizar. É preciso mesmo que o público seja lembrado?  Se a obra afinal é tão contundente e transformadora, nada mais natural do que ela contagiar naturalmente mais e mais pessoas, sem a necessidade de que sejam sugeridas maneiras de como fazer isso. É como dizem, quem fala demais de si é porque no fundo não tem nada a dizer. A partir do momento que é pedido para que sua história seja passada adiante fica implícito um receio de que ela, por si só, não consiga esse feito. E ainda, de certa forma, é quase como se ao fazer isso o livro, e também o grupo de leitores, contrariasse os ensinamentos do Deus inventado pelo próprio autor, que afirma em certo trecho que "Eu não crio instituições. Nunca criei, nunca criarei".



A Cabana, contudo, se sobressai mesmo com seu forte apelo emocional, que permeia a todo instante o caráter do protagonista e, através de descrições precisas e às vezes até exageradas, são transmitidas ao leitor em toda sua essência. Há sim, como já se deve imaginar que um livro assim traga, um rebuscado de frase bonitas e de efeito, mas há também muito mais além disso. Não vou, porém, recomendar diretamente o livro, contrariando o que este me pede para fazer. Prefiro apenas dizer, ignorando todo o estardalhaço que há em volta dele, que é uma boa história, que merece sim ser conhecida e apreciada. É certo que por ser uma obra de ficção, não se pode atribuir ao Deus inventado a condição de Deus verdadeiro, embora não seja bem essa a sensação que é vista no decorrer da história, na qual seus conceitos alfinetam e podem acabar perpassando os conceitos ditos sagrados. Deve ser lido e encarado, sobretudo, com a mente aberta, sem grandes expectativas, apenas se deixando levar, aproveitando o momento, a viagem que o autor propõe, reconhecendo que a trindade criada por ele funcionou muito bem em sua história, e que talvez cada um de nós possa fazer o mesmo, já que todos temos uma cabana em nossa vida, não é mesmo?



terça-feira, 3 de junho de 2014

Família Felina




Finalmente de volta ao blog! Nossa, já faz quase um ano desde a última vez que postei algo aqui! Em parte, a foto acima é a razão desse hiato no blog. A história desses gatos é bem peculiar. Eles chegaram à minha vida de maneira inesperada e eu, que nunca tinha criado nenhum animal, me vi de repente completamente envolvido, a ponto de quase não ter tempo para qualquer coisa que não fosse relacionada aos felinos. É um pouco dessa história que pretendo contar ao longo deste post, um breve resumo dos últimos meses. 

Tudo teve início durante o mês de julho do ano passado, no qual eu estava ajudando meu irmão, Diego, em algumas produções, na Casa Amarela. Estávamos em um ritmo intenso, trabalhando em vários projetos, mas mais focados  no videoclipe animado Agradecimento (o qual ainda pretendo fazer um post a respeito). Durante o tempo que passávamos por lá, entre uma saída e outra da sala da truca, palco central de nosso trabalho, nos deparamos pela primeira vez com a gatona aí de cima, a gata mãe, que na época, por inexperiência, acreditávamos ser um gato macho. Era comum aparecerem gatos por ali, uma vez que os muros eram baixos e o ambiente convidativo aos felinos, mas mal sabíamos nós que aquela gata não estava ali por acaso. Nosso primeiro contato, aliás, foi no mínimo estranho, pois sua aparência não era das melhores; pêlo arrepiado, olhos esbugalhados e miado rouco. Ela mais nos causou susto do que qualquer outra coisa. A angústia do olhar, contudo, tinha uma razão: estava faminta. Na hora, por conta da correria desenfreada do trabalho, acabamos sem poder fazer nada por ela.

Um pouco mais tarde, nesse mesmo dia, pedimos pizzas para o jantar, e quando fui jogar fora as embalagens e os eventuais restos de massa, me deparei novamente com a gata, mas dessa vez ela não estava como antes. Estava calma e logo se aproximou de mim, se pondo a miar, um miado agora suave, mas ainda claramente de pedido. Como depois viríamos a perceber, essa gata miava muito, sendo essa uma de suas principais peculiaridades. Olhei para ela, e lembrei dos restos de pizza que tinham sobrado, que estavam ali pertinho, nas caixas que iam para o lixo. Resolvi então dá-los ao pobre felino. Peguei os pedaços de massa e os atirei perto dela. Foi quase instantâneo: a gata os atacou de imediato, faminta como estava. Comeu quase todas as migalhas de massa e pedaços de calabresa. Eu sabia que esse estava longe de ser o alimento ideal para ela, mas com certeza era mais ideal do que não ter nenhum alimento. Satisfeito pelo que tinha feito, voltei para junto do pessoal.

Comentei meu gesto com Diego e Grá, amiga nossa que fazia parte da equipe de produção. Ela me contou que já tinha visto a gata, já tinha lhe dado algum alimento e que no dia seguinte iria trazer ração. Grá então foi nos contando detalhes sobre os hábitos dos gatos, pois ela tinha um, e estava bem acostumada a esse mundo. Aqui, então, soubemos que aquele gato que tinha aparecido ali não era gato, mas sim gata, e mais: havia a possibilidade de estar esperando filhotes. Grá nos explicou que as fêmeas geralmente têm três tonalidades de cor na pelagem, e essa gata de fato era salpicada de branco, preto e marrom. Nosso trabalho então seguiu, e não vimos mais a gata naquele dia. À noite, em casa, fiquei pensando em tudo isso, toda essa nova experiência. Provavelmente no dia seguinte ela já teria ido embora, e tudo aquilo seria esquecido.



No dia seguinte, assim que chegamos lá, vi que Grá colocara um pratinho com ração e outro com água para a gatinha, mas não a vi em nenhum lugar. Com certeza já tinha sumido no mundo, da mesma maneira como apareceu, pensei. Grá, porém, me garantiu que ela ainda estava lá e que já tinha comido bastante. Pouco depois, vi a gatinha, e ela veio diretamente a mim, naturalmente, miando, com aqueles belos e expressivos olhos esverdeados. Parou próxima e continuou miando, depois passando entre minhas pernas, meio que roçando. Era um gesto que a princípio podia não agradar muito, mas que depois percebi se tratar de um pedido de carinho, uma aproximação, uma maneira da gatinha chamar atenção. Passei a aceitar esse gesto, e a retribui-lo com afagos e carinhos, e creio que assim comecei a criar um vínculo com ela. 

O desenrolar desses dias, pelo menos quanto ao nosso trabalho no videoclipe, foram bem exaustivos, pois passamos da hora muitas vezes, inclusive adentrando madrugadas. Com certeza a presença da gatinha nesses momentos foi de grande importância, pelo menos para mim. Após os primeiros contatos, eu ficava na sala pensando como ela estaria lá fora, se ainda estava lá. De tal maneira que aproveitava uma ou outra pausa do trabalho para sair e brincar um pouco com ela, que sempre me recebia com muita efusão. Era engraçado, pois me senti quase como se já tivesse aquele contato há tempos, sendo que nunca – nunca mesmo – tinha tido nenhum animal de estimação, ideia que com certeza sequer chegava a considerar. 

Passamos então a alimentá-la todos os dias, e isso favoreceu ainda mais a aproximação dela com nossa equipe, principalmente comigo, que costumava lhe dedicar mais tempo. Muitas foram as vezes em que ela entrava na salinha onde estávamos produzindo o videclipe, e logo se refestelava em uma das poltronas e cadeiras, entregando-se a um sono puro e tranquilo. Era tão relaxante que até nos motivava a animar com mais afinco. Uma das coisas que mais me chamou a atenção nessa gatinha, além de seus miados constantes, foi sua docilidade; sempre se aproximava de todos que de uma maneira ou de outra estavam pelos corredores da Casa Amarela. Seu carisma contagiava. Todos se encantavam com ela, lhe faziam carinho, lhe afagavam a cabeça. Claro que nem tudo eram flores e também havia os que não gostavam muito dela, ao que gata, que não é besta nem nada, procurava evitar. Por causa dela, aconteceram até reuniões entre os funcionários, a fim de estabeler "oficialmente" a presença da gatinha ali. 




Uma das situações mais curiosas desse início de convívio se deu em um dos dias onde madrugamos na Casa Amarela. Em um dos muitos momentos em que deixei a sala para respirar outros ares (e também olhar a gatinha), sentei num banco lá fora, e me pus a relaxar. Já devia passar das duas da manhã. A gatinha logo veio e se aninhou ao meu lado no banco. Ali fiquei, alternando olhares entre o céu estrelado e a felina, até que de repente, sentindo o peso do cansaço acumulado do dia, comecei a cochilar, tornando a cabeça para trás. As pálpebras já fechavam quando senti uma das patinhas da gata em meu braço, com uma leve faiscada do contato com suas unhas. Percebi então o que ela fizera: ao meu lado, esticou-se para frente, ergueu uma das patinhas e me cutucou levemente, meio que para me acordar, como quem diz: "não é hora de dormir agora" ou "acorda e olha pra mim". Achei notável essa sua iniciativa, em perceber que eu começava a dormir e ao fazer o que podia para me acordar. Sem dúvida, nosso vínculo ficava mais forte a cada dia. 

E assim passaram-se dias, e essa realidade continuou fazendo parte de minha rotina, ao menos enquanto estava na Casa Amarela. E, invariavelmente, pensei em como seria se eu por acaso a adotasse, a levasse para casa. Daria eu conta de cuidar dela? Seria uma experiência totalmente nova, sem dúvida. As meninas que compunham nossa equipe, Grá e Carol, disseram que até levariam a gatinha, mas ambas tinham empecilhos; Carol, dois cachorros e Grá, uma gata ciumenta. Ninguém mais manifestou vontade de ficar com a pobre gatinha, que enquanto isso ia sobrevivendo da generosidade dos que passavam diariamente pela Casa Amarela. 

Por mim, já a teria levado pra casa, já teria aceitado essa nova responsabilidade. Diego também achava uma ideia interessante, principalmente após todo o apoio que Grá se comprometeu a nos dar, mas ainda dependia da aceitação de nossa minha mãe, que não parecia muito a favor, sempre não aprofundando muito quando eu tocava no assunto. Ela até gostava de gatos, desde que estivessem longe, e sempre dizia a sentença: "não gosto quando eles ficam roçando na gente". Por mais que eu comentasse, falando as vantagens de se ter um gato, pelo que pesquisara e ouvira de amigos, mamãe não era flexível, e assim a questão ficou um longo tempo em aberto.

Mais dias se passaram, o ritmo de trabalho no videoclipe Agradecimento chegava a seu clímax. A gatinha seguia como mascote oficial do curta, ganhando inclusive aparições nos bastidores. Ela vinha por enquanto sendo chamada de Aparecida, nome dado por Dona Vera, funcionária da Casa Amarela que também se afeiçoara bastante a ela (mas que não poderia adotá-la por também ter cachorros em casa). Tudo estava tranquilo, porque também ainda não sabíamos que a gatinha estava de fato esperando filhotes. 

Mesmo com as luzes apagadas na filmagem, a gatinha prestava atenção a tudo

É interessante mencionar também que desde os primeiros contatos que tivemos com ela, vimos logo que não se tratava exatamente de um gato de rua. Não costumava se assustar, nem com pessoas, nem com carros. Parecia de alguma maneira bem educada, uma vez que não arranhava, não mordia, mesmo quando lhe fazíamos carinho na barriga (posição mais vulnerável dos felinos). A hipótese mais provável para ela ter ido parar na Casa Amarela era mesmo abandono por parte de seu antigo dono, ou fuga – chegamos até a sondar se alguém das imediações dera por falta dela, sem sucesso. Contudo, nada de seu bom comportamento a livraria de sua natureza felina, e imaginamos que cedo ou tarde, se não agíssemos, ela iria ter filhotes. A solução seria castrá-la, mas ainda até esse momento não estávamos bem certos de que a adotaríamos, embora inconscientemente já nos sentíssemos responsáveis por ela. A medida então seria apenas para mantê-la na Casa Amarela, e até buscamos referências de locais e preços, mas tudo chocou-se com o prazo que tínhamos para finalizar o filme, de tal modo que quando percebemos, não deu outra, a gatinha estava esperando filhotes. E mal sabíamos o rumo que esses filhotes dariam à nossa vida. 

A notícia dividiu opiniões; por um lado seria uma experiência única acompanhar o nascimento dos filhotes enquanto que por outro agora seria bem mais difícil cuidar de toda a família felina, e talvez até inviabilizasse a vinda da gata mãe – já bastante complicada – para nossa casa. Foi Natália, outra amiga de Diego, que estava de passagem por lá certo dia, que atestou, com firmeza, a gravidez. Antes, suspeitávamos, mas achávamos que a gatinha estava gordinha apenas por comer demais. Agora estava fora de questão castrá-la, ela teria mesmo os filhotinhos.   

E tudo se deu mais rápido do que imaginávamos. Conforme pesquisei, a gestação dos gatos dura em média apenas 65 dias, e uma ou duas semanas após concluirmos a produção de nosso videoclipe, soubemos que os filhotes já tinham nascido. Fomos até lá esperando encontrar uma ninhada de pelo menos uns cinco ou seis gatinhos, mas eram apenas três! E como eram diferentes entre si, com relação à pelagem! Um era preto com branco, outro dourado com branco e o último todo acinzentado. A estranha mistura seria explicada pelo fato de cada um ter um pai diferente, pelo que pesquisei depois. O comportamento da gata mudou completamente, passando ela a ficar quase integralmente com os filhotes, amamentado-os. Também não ficava nada feliz se alguém por acaso chegasse perto de um dos gatinhos. Passamos então a ir ocasionalmente lá, deixar ração, uma vez que a mamãe precisava comer mais do que nunca para garantir leite para seus filhotes. 




Contudo, nada ainda havia sido concretizado sobre eu vir a adotar ou não a gata mãe. O nascimento dos filhotes meio que bagunçou um pouco esse ideal, uma vez que agora não poderíamos separá-los até que passassem cerca de 2 meses, tempo mínimo recomendado para que desmamassem. E muito provavelmente eles teriam passado esse tempo lá mesmo na Casa Amarela, não fosse minha intervenção, para propiciar um local melhor e mais seguro para abrigá-los, como direi mais adiante.

Foi arranjada uma caixa de papelão, na qual foi feita a caixa-maternidade, que manteria os filhotes seguros e a mamãe teria tranquilidade para alimentá-los em segurança. Essa caixa foi colocada numa salinha reservada lá mesmo, e por lá a família felina ficou nos primeiros dias dos recém-nascidos. A princípio, não tive razão para querer tirá-los dali, mas foi mesmo a própria mamãe gata que demonstrou estar insatisfeita, cerca de duas semanas após o nascimento, época em que os filhotes começaram a abrir os olhinhos.

Ela simplesmente começou a tirar os filhotes um a um da caixa, com a boca, e levá-los para locais bastante inóspitos, como uma passarela que dava para a sala de cinema. E não adiantava trazê-los de volta, pois não demorava lá estava a gata mãe novamente levando-os para lá. Pelo que pesquisei (sim, durante toda essa época, tive de fazer inúmeras pesquisas, virando quase um especialista em comportamento felino), esse comportamento se dá quando a mamãe gata percebe que o local onde está seu ninho é inseguro, perigoso para sua cria, e busca assim um lugar mais protegido. E a Casa Amarela, de um jeito ou de outro, tem uma boa circulação de pessoas por dia, principalmente quando lá acontecem eventos e exibições de filmes. Tudo bem que a intenção era proteger a cria, mas do jeito que as coisas estavam, a mamãe gata podia acabar achando eram mais problemas, pois essa passarela de acesso ao cinema era de fluxo constante nos dias de sessão. Os gatinhos corriam bem mais riscos ali, não havia dúvida. Quando me dei conta desse risco, ainda maior porque bem naquele período aconteceria o Cine Ceará – que teria inúmeras atividades no local – tive a certeza de que tinha de fazer alguma coisa, ainda naquele mesmo dia. 

O que aconteceu a seguir foi invariavelmente muito rápido. Agilizamos a vinda de toda a família – os quatro gatos – para nossa casa. Mamãe ainda não estava bem certa de aceitar, mas acabou cedendo, também de alguma maneira penalizada pelo risco que os felinos corriam. Tivemos de armar toda uma operação para tal ato. Primeiro, a caixa maternidade foi transformada em uma jaulinha, pois era muito mais conveniente transportar os filhotes ali mesmo. A grande dificuldade foi mesmo fazer com que a mamãe gata colaborasse, entrando também. Após vários minutos de tentativas, ela finalmente consentiu, ficando quietinha lá dentro. Assim, selamos a caixa e fomos direto para casa. No trânsito, eu estava em um misto de euforia e receio. Era fantástico enfim trazer a gatinha para casa, claro, não havia dúvida, mas a preocupação seguia, agora multiplicada por quatro. Será que daríamos conta de todos aqueles gatos, tão inexperientes como éramos? Tudo era nebuloso, à medida que meu pensamento vagava perdido entre a noite da janela do carro e os miados que hora e outra vinham da caixinha colocada ao meu lado.



PARTE II - A chegada em casa

Chegar com os gatos em casa foi uma emoção completamente diferente de tudo o que senti até hoje. Não era nenhuma compra, nenhuma tecnologia revolucionária, nenhum objeto estúpido, eram tão somente gatos, o que poderia ser mais simples do que isso? Talvez justamente por isso tenha sido um momento tão marcante, tão glorioso. Eram vidas, vidas que tínhamos resgatado. Vê-los todos, ali, agora no chão de casa, foi um momento mágico e, sem qualquer experiência com animais, nos vimos subitamente inundados por aqueles seres tão graciosos, tão carentes. A mamãe gata estranhou um pouco, mas como não era boba tratou logo de conhecer o novo lar, e se pôs a andar por todos os cômodos da casa, enquanto a ninhada aguardava na caixa. Os primeiros dias foram bastante difíceis, estávamos todos nos adaptando, tanto nós como os gatos. Foi preciso reestruturar muita coisa, principalmente nossas vidas, para nos adaptarmos a essa nova realidade. 

Algumas coisas, porém, não mudaram. Colocávamos a caixa maternidade em um lugar tranquilo da casa, pouco tempo depois lá vinha a mãe e começava a carregar os filhotes para os locais mais malucos, como atrás de estante e móveis, muitas vezes até empoeirados. De início achamos ruim, tentamos trazê-los de volta, mas logo ela tornava a levá-los. Como estávamos na segurança de casa, não ligamos mais, deixando a mamãe gata seguir seus instintos. Com o tempo, todos os gatinhos abriram os olhos, e foram pouco a pouco saltando para fora da caixinha. A cada variação de seu crescimento, mais tínhamos de aprender para poder criá-los adequadamente, e muitas vezes a tarefa se tornava bem exaustiva. Felizmente, grande parte do esforço era recompensado, ao vermos aquelas criaturinhas ali, tão vulneráveis, tão inocentes, dormindo. Quando os vimos começando a andar, então, com aqueles passinhos trôpegos e desengonçados! Tendo os acompanhado desde o nascimento, foi muito gratificante. 





E seguiu-se o tempo, implacável como sempre, e logo os filhotes cresceram. Com cerca de dois meses, ainda mamavam, mas já comiam ração, bebiam água e, por conseguinte, precisavam fazer suas necessidades. Nós já tínhamos comprado uma caixa de areia, para uso da gata mãe, que felizmente nunca nos deu trabalho quanto a isso, pois sempre a usava. Aprender a limpar a caixinha de areia foi um divisor de águas. De início, eu usava a pazinha com certa timidez, sem ter bem certeza se estava fazendo corretamente. A prática logo veio, após uma dúzia de vezes, e essa tarefa – por incrível que parece – se tornou até prazerosa. Costumo até brincar, dizendo que é quase como o trabalho daqueles garimpeiros de ouro. A diferença é que o "ouro" que encontro aqui não vale muita coisa. 


O trio, com cerca de quatro meses




Uma das primeiras medidas que tivemos que agilizar foi levar todos ao veterinário. Era um mundo completamente novo para mim, Diego e mamãe. Sondar a vizinhança, as ruas conhecidas, a cidade, em busca de petshops, locais onde sempre passávamos indiferentes, mas que agora teriam significado. E logo vieram todos os protocolos comuns, todos os cuidados, as vacinas, vermifugações, reforços, consultas etc. Marinheiros de primeira viagem, tivemos de assimilar tudo isso, e dedicar todo esse tempo extra aos bichinhos, fundamental para a saúde deles.

Os filhotes logo passaram a usar o banheiro da mãe (ela mesma os ensinava a usar!), o que significaria uma dose extra de "ouro" para ser garimpado. E com isso fomos estabelecendo um vínculo cada vez maior com eles, uma interação tão afetiva como se sempre os tivéssemos tido. Foi difícil inicialmente, depois que começaram a andar, correr e principalmente saltar, estabelecer um local para eles, que até então ainda ficavam acomodados por dentro de casa. Felizmente temos uma garagem vazia à disposição, e lá foi feita a morada dos gatos, que vez ou outra ainda deixávamos brincar pela casa, relembrando assim os dias de suas primeiras infâncias, quando mal conseguiam subir no sofá da sala. 



Sabíamos, contudo, que não poderíamos ficar com toda a família felina, que apesar de estarem nos fazendo bem, era uma tremenda responsabilidade. Eu, como principal responsável, tinha de me virar para dar conta de toda a rotina diária deles e ainda manter minhas atividades. Por conta disso, inevitavelmente, tive de diminuir o ritmo de algumas coisas e até parar outras, como foi o caso do blog. Houve vezes que quase me arrependi de tê-los trazido, mas também houve muitas em que agradeci cada momento que já tinha passado com eles, toda a dedicação que pude lhes dar, por tudo que essa experiência tinha me feito crescer.

Nessa altura os gatinhos filhotes já estavam com cerca de três ou quatro meses. Já tinham desmamado. Era o momento de doá-los, mas a cada dia que passava, ficava mais difícil. Queríamos nos desapegar, mas já estávamos mais do que apegados. Já tínhamos lhes dado nomes, sem nos darmos conta do vínculo que isso criava. Ficava os acariciando às vezes até perder o tempo, sentindo a maciez do pêlo, relaxando e desestressando junto com ele. Volta e meia lá estava eu brincando com toda a turma, com um ratinho plástico ou um cordão velho, e apenas isso era para eles a maior alegria do dia, como um brinquedo para uma criança pobre. Quando brincava com eles, a diversão era mútua, pois sempre ria das peripécias que faziam para pegar a 'presa'.
Durante muito tempo, consideramos doar todos os filhotes e ficar com a mãe, que agora chamávamos de Ninha, depois pensamos em ficar com ela e mais um filhote, cogitamos também ficar com apenas um filhote, enfim, a única semelhança em todas essas possibilidades era que queríamos que os gatos doados fossem para pessoas de confiança, que gostassem de bichos, que soubéssemos que iriam cuidar bem deles e que de repente pudéssemos revê-los, em algum momento do futuro. Até o momento, não achamos essas pessoas. Mas agora fico a me perguntar: será que queremos mesmo achá-las?



O resto é história. Eu poderia dizer ainda muito mais aqui, de todo o desdobramento que estamos fazendo para cuidar da família felina do dia em que chegaram aqui, ainda em setembro do ano passado, até hoje, mas isso levaria provavelmente mais o dobro dessa postagem. Independente do destino que terão os gatos, conosco ou doados, tenho a certeza de que eles nos fizeram muito mais bem do que imaginávamos. Foram capazes de, de certa maneira, nos tornar mais humanos, mais sensíveis. Hoje, sempre que vemos um animal abandonado, nos compadecemos mais, como que aptos a ajudá-los, revoltados com o descaso que o levou a estar ali, vagando sem destino. É uma triste realidade, que agora enxergamos com outros olhos. 
Bom, senti a necessidade de comentar essa história aqui, para, além de registrá-la, mostrar como há coisas que acontecem que mudam bastante nossa vida, que nos direcionam a caminhos impensados, que acabam revelando valorosos propósitos. Fico pensando às vezes, que se fosse por minha vontade, provavelmente nunca me interessaria em ter um gato, digo ir a um petshop para comprar um e tal, não. Esse caso foi bem insólito, pois foi longe de ser premeditado. É como dizem por aí, afinal, não somos nós que escolhemos o gato, e sim ele que nos escolhe. 




domingo, 25 de agosto de 2013

Encontro com Fernando Arrabal




Fotos: Denis Akel

Há algum tempo, publiquei aqui um texto sobre a participação do escritor Ignácio de Loyola Brandão na X Bienal do Livro do Ceará, no ano passado (2012). Na ocasião, foi apresentada uma prévia do espetáculo teatral Não Verás País Nenhum, inspirado na obra homônima do escritor. A íntegra da apresentação, conforme escrevi lá, seria dia 7 de dezembro, no Centro Cultural Dragão do Mar. O ritmo da encenação foi tão cativante, que fiquei até o final da prévia, e já disposto a ir conferir a peça completa.

Passaram-se dias. Terminou a Bienal, o mês de novembro, e chegou então a noite do dia 6 de dezembro. Estava tão certo de que a apresentação seria no dia 7, que desde aquele dia não chequei mais a data. Nesta noite, porém, de última hora fui confirmar a hora e então veio o inesperado: a apresentação tinha ocorrido neste dia, 6 de dezembro! Eu me equivocara na data, anotara errado, ou vai ver eles próprios divulgaram errado no dia da prévia. De uma maneira ou de outra, já havia perdido. Porém, nem tudo estava perdido, ou melhor, eu estava prestes a ver algo que transformaria essa aparente perda em um significativo ganho.

No site do Dragão do Mar, bem abaixo das informações referentes ao espetáculo, havia um outro evento que me chamou imediatamente a atenção assim que li um nome: Arrabal. O nome me era familiar, era um escritor espanhol. Tinha um livro dele, comprado há tempos, um romance que trazia uma partida de xadrez como pano de fundo. Um livro que já me conquistou desde a capa, com um ar surreal e instigante. Arrabal estava vindo à Fortaleza. Estava aí uma bela oportunidade que eu não poderia deixar passar.

Minha única referência de Arrabal até então

Refeito pelo ganho desta palestra, apesar da perda do espetáculo, fui no dia seguinte, com meu irmão, Diego Akel, ao Centro Cultural. O encontro com Arrabal estava marcado para as 19h, mas só conseguimos chegar um pouco depois, temendo já ter começado. Felizmente, esse tipo de evento nunca começa na hora marcada, ou por imprevistos, ou por atrasos ou mesmo por ser simplesmente de praxe começar um pouco além da hora. No anfiteatro, já passando das 19:15, algumas pessoas já se achavam sentadas, e nós nos juntamos a elas.

O fluxo de pessoas continuou constante, e já por volta das 19:30, um público considerável já se fazia presente nas fileiras de cadeiras. Eram tipos bem característicos, expressivos, nitidamente pessoas de alguma maneira ligadas às artes cênicas. Comunicativas, falavam, conversavam e gesticulavam entre si o tempo todo. No palco, sob uma indireta luz avermelhada, havia duas poltronas de madeira, elegantemente dispostas. No centro, uma mesinha também de madeira, sobre a qual estava uma jarra d'agua vazia. Instantes depois, ela foi levada e em seguida recolocada, cheia, na mesinha, agora juntamente com uma garrafa de vinho, que imaginei ser talvez uma exigência ou luxo de Arrabal. Em seguida, foi colocada lá ainda uma outra bebida, num copinho plástico. Parecia ser uma espécie de coquetel, mas esta, como eu veria depois, não seria para Arrabal.


Alguns minutos depois, teve início a palestra. Em um primeiro momento, uma das organizadoras explicou em breves palavras um pouco do projeto Memória Viva da Cultura e das Artes, que tornou possível a vinda de Arrabal ao Ceará. A garrafa de vinho foi aberta, e as duas taças servidas, na mesinha. Surgiu então, da lateral do palco, Fernando Arrabal. Eu nunca o havia visto antes, exceto pela foto de divulgação deste evento, então não pude conter o misto de susto e surpresa.

Imagem de divulgação da palestra

Arrabal trajava uma roupa meio oriental, preta, que parecia um quimono, com detalhes dourados, num visual único e característico – na verdade, também me lembrou de alguma maneira o tradicional fardão usado pelos membros da Academia Brasileira de Letras. No rosto, dois óculos; um simples e comum, outro verde, na altura da testa, que reluzia amplamente as luzes do palco. Ainda não sabia, mas este curioso segundo óculos era como uma marca registrada de Arrabal. O intelectual logo bebericou um gole do vinho e postou-se de pé ao lado de uma das cadeiras. Duas outras pessoas, ligadas à UFC, que viabilizou a vinda de Arrabal, falaram brevemente, agradecendo o momento e a presença de todos.



Também surgiu no palco Wilson Coelho, amigo de Arrabal, que seria o mediador da conversa. Antes de mais nada, ele introduziu a si mesmo, falando de sua formação em filosofia, área na qual lecionava, e de como começou sua amizade com o intelectual espanhol. Falou ainda um pouco sobre o que consistiria esse debate com Arrabal, dizendo que ele teria a missão de apresentá-lo ao país como cineasta. Em seguida, mencionou o grau de multiplicidade que há em Arrabal, uma vez que foi amigo de grandes nomes das artes, como Beckett, Duchamp, Warhol, Picasso e Jodorowsky.



Após toda essa introdução, enfim o espanhol foi agraciado com o microfone, mas nos surpreendeu ficando em silêncio. Pelo caminhar da cena, parecia que falar seria a última coisa que ele iria fazer. Arrabal fez vários estranhos movimentos, uma curiosa performance, meio que procurando o que dizer e não encontrando. O público ficou em um misto de graça e surpresa, como se já esperasse aquilo de alguém tão excêntrico.

Inicialmente, Arrabal falou sobre os ditos avatares, os arquétipos das pessoas de hoje, das listas que geralmente eclodem pela mídia, com os mais ricos, mais poderosos etc, em oposição às de ontem, que era o foco do encontro, intitulado "Um sobrevivente dos avatares da modernidade". As pessoas mais poderosas do mundo, por exemplo, são lideradas por Obama, algo que não se pode discutir. Mas e em listas de pessoas influentes e afins, por que a cultura não figura? Como se pode medir a real influência das pessoas que figuram nelas? Segundo Arrabal, esta resposta é bastante nebulosa. O que de fato estaria influenciando a vida das pessoas?

O intelectual teve total liberdade para falar, mas foi difícil entendê-lo perfeitamente, dada a ausência de tradutores. Tudo bem que dava para se entender uma palavra ou outra de seu espanhol, mas às vezes a complexidade dos assuntos fazia desaparecer qualquer entendimento. Ainda assim, era incrível como todos pareciam entender tudo, inclusive rindo sempre das piadas deixadas no ar por ele.



O copo que parecia ser de um coquetel ou alguma bebida típica das imediações do Dragão do Mar, era na verdade de Wilson. Como já estava na metade quando foi ali colocado, deduzi que ele já viera tomando aquilo antes dali. Quando começou a conversa com Arrabal, tratou logo de beber o resto do copinho. Wilson também aprovou o vinho e, após beber rapidamente a primeira taça, encheu logo em seguida a segunda. Comecei a imaginar que aquilo não daria certo.

Arrabal, por sua vez, tinha uma postura muito engraçada, fazendo caras e poses, demonstrando jovialidade. Mostrou ainda não gostar de ficar sentado, uma vez que se levantava sempre para falar. Era comum dar pausas breves e silenciosas, e ficar olhando todos, como que aguardando aprovação pelo que tinha dito. Enquanto seguia o debate, me esforcei para registrar o máximo que consegui em meu bloquinho, o que inclusive foi fundamental para escrever este post.



Observando mais um tempo a pose do intelectual, no alto do palco, percebi que seu par de óculos extra, acima da altura dos olhos, dava-lhe uma aspecto quase de super-héroi. O verde agudo e brilhoso refletia fortemente os holofotes do teto do teatro, e sempre que ele mexia a cabeça, me sentia levemente ofuscado.

Na época da palestra, em dezembro passado, fazia poucos dias do falecimento de Oscar Nieymeier. Wilson relembrou do momento no qual Arrabal quis conhecer o arquiteto brasileiro, em certa vez que foi a Porto Alegre. Wilson contou a história em detalhes. O encontro entre os dois rendeu uma crônica e uma cobertura filmada. E ainda dele nasceu um livro, combinando texto de Arrabal e ilustrações de Nieymeier, livro este que até hoje ainda não foi editado, pois seria preciso a assinatura do arquiteto para seguir o projeto. Wilson finalizou reforçando a emoção não só deste momento mas também de estar relembrando-o justo agora com a morte de Nieymeier.

Wilson relembrou em detalhes o encontro entre Fernando Arrabal e Oscar Nieymeier


Um dos outros temas centrais foram as artes cênicas e seus desdobramentos. Segundo Arrabal, os melhores teatros e dramaturgos do mundo estão em Atenas. E eles próprios, atenienses, ironicamente ou não, não se interessam tanto por isso. Wilson ocasionalmente interpretava algumas de suas palavras, complementando ou pontuando, e eu me desdobrava para anotar o que conseguia de relevante.

Fernando Arrabal também deteve-se bastante falando do coletivo pelo qual ficou bem conhecido, o Panic Movement, ou Teatro Pânico, formado por ele, o cineasta Alejandro Jodoroswky e o ilustrador Roland Torpor em 1962, na França. O nome faz referência ao deus grego Pan, e o grupo se focava na performance artística caótica e surreal, aproveitando a época na qual o surrealismo se tornava uma forte vertente.

Quando se deu este encontro, eu ainda mal conhecia Arrabal, apenas do livro que mencionei, mas nada sabia ainda de sua prolífica criação. Por conta disso, tudo o que foi falado sobre o Teatro Pânico me passou meio ao acaso, sem muita identificação. Para escrever esse post, li alguns artigos, confrontando-os com minhas anotações, conseguindo assim, imagino eu, captar um pouco melhor a atmosfera proposta pelo coletivo.

As composições teatrais do movimento seguiam um caminho bem peculiar, planejadas para serem chocantes e provocativas. Ao invés de ficarem limitados a apenas palavras e gestos, o grupo queria algo mais visceral, grotesco, forte. Tudo para aproximar o espetáculo do espectador, e deixar bem explícita a expressividade do trio, servindo quase como um alerta do sofrimento e angústia que os atormentava.

Segundo o próprio Fernando Arrabal, o Teatro Pânico não era um grupo ou movimento, mas uma "maneira de ser", de acordo com uma ideologia que tinha por alicerce a exaltação da moral múltipla. Alguns dos principais diretores teatrais da época, como Victor García, Georges Vitaly e o próprio Jodorowski se entusiasmaram com a necessidade de se fazer um teatro diferente, inquietante, libertador, que aproximasse o espectador. Boa parte desse grupo de diretores achou na obra de Arrabal um ótimo elo com suas ideias. Deve-se ressaltar que essas inquietações não eram exclusivas do Pânico, uma vez que o dramaturgo Antonin Artaud havia elaborado o Manifesto do Teatro da Crueldade, em 1932, no qual já havia a preocupação com um teatro que atingisse o público diretamente, torturante, de maneira quase física, sem distância entre ator e plateia.

Antonin Artaud, precursor dos ideais seguidos pelo Teatro Pânico (Foto: Google)

O Teatro Pânico, trinta anos depois, fez ecoar as ideias de Artaud, e revelou tantos outros olhares similares. Para Arrabal, o héroi pânico seria algo como um desertor, no qual se mesclam paranóia, megalomania, desespero, fetichismo, modéstia, necrofilia etc. As obras de Arrabal foram carregadas dessas sensações, transmitidas de maneira ousada ao espectador, que ao entrar no teatro não podia se sentar onde quisesse, mas onde o ator lhe indicasse. O espectador estava sempre dentro da peça, era parte orgânica do todo, compartilhando desconfortos, torturas e angústias. Assim era o Teatro Pânico: um choque de conflitos e sensações, de dores e condições, de ousadias e expressões, que convidavam o espectador a sentir diretamente tudo isso. Voltando às palavras de Antoni Artaud: “O teatro não poderá tornar a ser ele próprio, ou seja, constituir um meio de ilusão verdadeira, se não fornecer ao espectador modelos verídicos de sonhos, em que seu apetite pelo crime, suas obsessões eróticas, sua selvajaria, suas quimeras, sua noção utópica de vida e das coisas e seu próprio canibalismo transbordem para um plano que não é suposto nem ilusório, mas interior”.


Alexandro Jodorowski, Fernando Arrabal e Roland Torpor, trio principal formador do Teatro Pânico (Foto: Google)

Retomando ao assunto central da postagem, o Teatro Pânico esteve de uma maneira ou de outra, presente em quase todas as colocações de Fernando Arrabal durante sua palestra no Dragão do Mar. Apesar de neste dia eu ter deixado de entender muita coisa, em contrapartida, fiquei livre para outras percepções, como direi mais a frente.

Algum tempo decorrido, iniciou-se um espaço de perguntas ao espanhol. Muitos falavam em português, e eram traduzidos a Arrabal por Wilson, outros mais exibidos se arriscavam no espanhol, muitas vezes em uma pronúncia errante. Arrabal até entendia as perguntas feitas em português, mas não se atrevia muito a falar o idioma. Uma das questões mais ansiadas pelo público era sobre a relação atual de Arrabal com Jodorowsky, que segundo o próprio Arrabal não era nada tão profundo, eles se falam sempre, mas não tanto quanto todos imaginavam. Concluiu ainda dizendo que o considera uma das pessoas mais inteligentes que conheceu. Segundo Wilson, Jodorowsky é mais espiritual, místico, e Arrabal é mais como uma pedrada. Provavelmente por isso sua obra era tão associada à ideia do Teatro Pânico.

Para Arrabal, artistas em geral não defendem a real vertente de suas ideias

Questionado, em espanhol, sobre o porquê dos múltiplos óculos, disse: todos somos ególotras, ou seja, viciados em si mesmo. Essa é minha maneira de ficar mais bonito. Provavelmente essa não tenha sido a resposta que se esperaria ouvir, mas arrancou algumas boas risadas de todos.

Durante alguns momentos, percebi que Wilson parecia meio grogue, talvez pelo efeito do que bebera. Não sei se foi impressão, mas ele demonstrava um ego um pouco elevado, falando muito de si, quase que usando Arrabal como ponte. O público estranhou: estavam ali primeiramente pela presença do intelectual espanhol. A coisa chegou a tal ponto de Wilson querer assumir as respostas, de perguntas feitas a Arrabal. As pessoas se entreolhavam, conversando entre si, visivelmente chateados e enfadados. Um certo mal estar fora criado. Foi demais. O público, já impaciente, reagiu com gritos. Desconsolado, Wilson cedeu, parecia já bem desorientado pelo álcool, uma vez que a essa altura já tinham sido umas três taças, fora o coquetel que ele entrou tomando.



O clima começou a ficar delicado, apesar do ar cômico que pairava na palestra. Era visível que as organizadoras do evento não aprovavam as atitudes de Wilson, que não deixava Arrabal falar. O espanhol, contrito, não se manifestava. Era comum ouvir coisas como "Deixa o Arrabal falar!", vindo de quando em quando do público.

Assim se seguiu a palestra, e nesse momento minha atenção pouco captava o que era dito, mas mais o ambiente em si. Wilson, agora nitidamente embriagado, já se perdia em suas palavras, e misturava e confundia temas e assuntos, mas como citava o nome de Arrabal em cada frase era rapidamente engolido pelo vozerio do público, que só se calava quando o espanhol assumia a palavra.

Me esforcei para entender o máximo possível de suas palavras, e ainda transcrevê-las para o papel, mas bastava uma sentença mais enrolada para que eu me perdesse completamente no assunto, o que invariavelmente acabou desviando minha atenção para outras coisas, como a avidez com que Wilson bebericava o vinho.





O que está influenciando a vida das pessoas? Esta notória pergunta foi claramente ouvida, mas a resposta não. A língua de Arrabal articulou uma dezena de palavras que não consegui entender. Olhei para Diego, a meu lado, mas ele também não entendera. À nossa volta, todo o resto do público parecia ter entendido, e esse foi mais uma daqueles momentos no qual todos entendem, e até riem. Seria possível? Fico pensando quantos fingem entender e rir só para não se sentirem excluídos.

Pois bem, às 21:00, encerrava-se a sessão. Arrabal agradeceu e choveram aplausos sequenciais, inclusive com o público de pé, por minutos, em uma cena de nítido respeito e admiração. Wilson ainda tentou falar alguma coisa nessa hora mas sorveu em meio a salva de palmas. Ele logo desapareceu atrás do palco, achamos até que tinha caído ou algo assim, mas depois reapareceu, bastante trôpego, chegando até a derrubar o microfone, e se comunicando aos gritos com as organizadoras, para lembrá-las de falar da programação do dia seguinte.

As pessoas começaram a deixar a sala, enquanto Arrabal posava para fotos. As organizadoras do evento convidaram o público para se juntar a ele, e boa parte dos que ainda estavam no local subiram ao palco. Dezenas de pessoas se misturaram ao intelectual espanhol, gerando um clima muito descontraído e fraternal. Eu e Diego permanecemos sentados, de onde fiz mais algumas fotos.



Acompanhamos um pouco o clima de descontração presente após a formalidade, com Arrabal recebendo muito cumprimentos, e deixamos a sala. Como não poderia ser diferente, essa palestra ficou bastante tempo em minha cabeça. Independente de eu ter assimilado tudo o que foi debatido, me senti bastante realizado, simplesmente por ter podido assistir àquele momento. Posso dizer até que o que mais me chamou a atenção a princípio, ironicamente, foi o embaraço causado pelo aparente exagero na bebida de Wilson, por uma série de razões: a quebra do protocolo, da formalidade, que de repente se instalou no palco, as pessoas comentando, a organização idem. Nos momentos finais, foi quase como se Arrabal e Wilson estivessem contracenando no palco; o primeiro impassível, não movia um músculo, o segundo cambaleava, tentando manter o controle sobre si mesmo. A interferência do público, em forma de gritos e protestos, se tornou parte desse espetáculo inesperado, e agora vejo que ali acabou se formando algo bem à la Teatro Pânico. Para mim, sem dúvida, esse imprevisto, apesar de rapidamente superado no final, roubou literalmente a cena da palestra.

A interação do público por meio de gritos, e o comportamento de Wilson fizeram ecoar elementos do Teatro Pânico na palestra

Não sou um profundo conhecedor de teatro, como muitos ali pareciam ser (ou queriam aparentar ser), mas a ocasião desta palestra, sobretudo, me incitou a curiosidade de querer saber mais sobre Fernando Arrabal e o tão falado Teatro Pânico, algo que consegui realizar para escrever este texto. Uma das coisas mais bacanas que percebi no intelectual espanhol, é que ele está sempre revolucionando, sempre se perguntando e questionando o que é dito como verdade. Conversei bastante com meu irmão, nos dias seguintes, e percebemos que esta questão dos avatares, que é imposta hoje em dia no mundo de maneira quase cega, é duvidosa, principalmente quando se chega aos ditos mais influentes. As listas que buscam classificar a ordem de importância ou valor das pessoas, no fundo, são vazias, nada significam. Podemos não ter chegado ao cerne do pensamento exposto por Arrabal, mas vimos que devemos desmistificar conceitos, certezas, expor novas diretrizes de pensamento. Como Wilson disse, já ao final da palestra, é preciso "arrabalizar", ou seja, agir com ímpeto, foco, sem desvios, como uma pedrada. Com toda essa reflexão, não posso deixar de considerar o próprio Fernando Arrabal como um excelente avatar. E numa lista de pessoas mais bonitas, provavelmente ele se sairia bem, pelo menos por conta de seus múltiplos óculos.


A garrafa de vinho, que teve participação decisiva na palestra, não poderia faltar na foto