Frases


"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Arroz à Parmegiana



Antes de mais nada, preciso falar como conheci essa receita. Ultimamente, peguei o hábito de assistir a programas de culinária, desde que comecei a me interessar pela área. Vejo-os com outros olhos, reparando detalhes e sequências que com certeza não notaria antes. Entre estes programas, destaco notoriamente o do Anonymus Gourmet (José Antônio Pinheiro Machado) – autor do livrinho que de certa forma foi responsável por me propagar no terreno gastronômico, ao me incentivar a fazer a pizza de liquidificador, como falei nesse outro post. Descobri a existência desse programa quase por acaso, enquanto rodava pelos canais à procura de algo bom, e o vi "perdido" entre a programação do Canal Rural (o programa é original da RBS TV). De lá para cá, sempre que posso assisto. É um programa de culinária bastante singular, por diversos fatores, mas primeiramente pela abordagem diferenciada; tem um ritmo e andamento próprios, e mescla culinária com música, cinema e até literatura, de uma maneira agradável e cativante. É gostoso de se assistir, não só pelo apetite que se abre com a receita do dia, mas por vermos o respeito que tem com o telespectador.

Em um desses dias, em meados de novembro, topei com o prato que dá título a esse post, o arroz à parmegiana, e confesso que fiquei fascinado por ele, pela composição dos ingredientes e – principalmente – ao ver que ele se valia de nada mais nada menos que arroz cru em seu preparo. Como isso é possível? foi a primeira coisa que me perguntei na hora, e continuei assistando às etapas de preparo, enquanto conhecia também o filme Secretariat, e me deleitava com a trilha sonora de Ella Fitzgerald e os talentosos Jorge e Pedro Serafim, que compunham a seleção musical do dia.

Impulsionado pela singularidade da receita, e também pela recém-descoberta do programa, resolvi me aventurar no preparo do arroz. Não seria tarefa fácil, para quem só tinha feito aquela pizza e uns poucos complementos em outros pratos mais simples, mas segui em frente; o máximo que poderia acontecer seria a receita não dar certo. Assim, fui direto em busca dos ingredientes. Aproveitando, vamos a eles:

- 500g de carne moída;
- 1 xícara (cafezinho) de molho de soja;
- 1 colher (sopa) de farinha de trigo;
- 1 cebola média;
- 2 tomates grandes, ou 4 pequeninos;
- 3 colheres (sopa) de massa de tomate;
- 1 copo de caldo de carne;
- 2 copos de água fervente;
- 1 copo de suco de laranja;
- 1 colher (sopa) de açúcar;
- 300g de queijo ralado ou picado;
- 2 copos de arroz cru.

Já de posse de todos os ingredientes, e tendo-os devidamente posicionados na cozinha, comecei, ainda com a supervisão de minha mãe, o preparo da receita, seguindo uma versão que consegui imprimir da internet. (OBS.: Recentemente, 19/02, fiz novamente esse prato, e aproveitei para fotografar as etapas de preparo. Irei listá-las a seguir, de acordo com o processo).

Inicialmente, coloquei a carne moída numa panela, que já estava aquecida e com um filete de azeite, em uma das bocas do fogão. Fui então trabalhando-a com uma colher, fazendo um refogado, parte primordial do arroz à parmegiana.



Depois, dosei a xicarazinha de molho de soja. Ela ajudaria no colorido do refogado e ao mesmo tempo também fortaleceria o tempero, dispensando ainda o uso do sal. A seguir, foi a vez da colher de farinha de trigo. O Anonymus recomenda polvilhá-la sobre o refogado, com uma peneira, assim afinando a farinha e eliminando eventuais grumos que possam vir a surgir, além de acelerar a incorporação à carne. Misturei bem, até obter um refogado bem sólido e consistente, já com tudo devidamente incorporado. A aparência dele aqui deve parecer um pouco seca; sinal que estamos no caminho certo. O refogado agora, porém, deve ser reservado, pois precisa-se preparar o molho, a segunda etapa da receita.

Carne moída após cozinhar e com molho de soja adicionado. Aproveitei para adicionar um pouquinho d`água e daqui tirei o caldo de carne que entra na próxima parte da receita


Aqui entra em cena o liquidificador, e nele vão a cebola, cortada grosseiramente ao meio; os tomates cortados; a massa de tomate, fundamental para o tom avermelhado do molho; o caldo de carne e o suco de laranja. Achei engraçado a receita levar suco de laranja, e me diverti ao despejar o copo liquidificador abaixo. Ficava imaginando que diferença ele faria, que sutileza e sabor acrescentaria. Antes de fechar o aparelho, ainda faltava uma última coisa: a colher de açúcar! Ele, embora não apareça, é fundamental para arredondar e reduzir o grau de acidez, elevado por causo dos tomates e suco de laranja. A visão do liquidificador cheio, com todos aqueles ingredientes era muito interessante; o que resultaria daquela mistura? É incrível como um cozinheiro iniciante pode se impressionar com esses detalhes, mas não pude deixar de pensar nisso.





Após tudo devidamente liquidificado, vi um molho bem espesso, levemente alaranjado, surgir no interior do aparelho. Tinha uma ótima consistência. Lembram do refogado lá do início? É hora de ele voltar ao palco, uma vez que estava à espera do molho. Despejei todo o molho na panela, incorporando-o à carne. É um momento mágico; o sabor, o aroma da carne vai para o molho e vice-versa. Desse processo, nasce um único molho, vermelho, característico, que é o clássico molho parmegiana. Que cheiro!



Na etapa seguinte finalmente entra em cena o arroz cru. Detalhe fundamental do prato: é um arroz de forno, mas vai ao forno cru, em vez de cozido. Coloquei água para ferver, e peguei um refratário retangular, untando-o com óleo ou azeite. O Anonymus recomenda para isso um pincel culinário, mas me virei muito bem com folhas de papel toalha, para espalhar o azeite em todo o refratário. Então chegou a hora do arroz. Despejei o primeiro copo, devagar, espalhando de maneira uniforme. Era engraçado usar aquele arroz cru ali, soava quase estranho, mas eu tinha que ver se daria mesmo certo. A ideia após o primeiro copo de arroz é já colocar o refogado por cima, criando uma camada sobre o arroz. É preciso espalhá-lo bem. Logo após, vem o segundo e último copo de arroz cru, espalhado por cima do refogado. Lancei as mãos sobre o queijo, ralado grosso, e fui salpicando todo o refratário, até quase cobrir todo o conteúdo. A cada camada, a aparência do prato ficava mais e mais iterressante, e eu não conseguia conter a surpresa ao ver aqueles ingredientes tão incomuns (arroz cru) se misturando.














Estando quase pronto para ir ao forno, ainda faltava coroar o refogado, dar o toque final na receita, adicionando dois copos de água fervente. Espalhei um por um, com cuidado, uniformemente pela extensão do refratário. É incrível, mas nessa hora temos a certeza de que estamos colocando tudo a perder, estragando a receita! Pela aparência que a mistura assume, parece mesmo que alguma coisa desandou, mas segui em frente, acreditando na receita.





Após a água fervente, o refratário vai direto ao forno, que já deve estar pré-aquecido. Esperei então cerca de 40, 50 minutos, com o forno fazendo seu trabalho a uma temperatura de 180º para menos.



Passado esse tempo, retirei o prato, e que bela visão! A água fervente havia secado completamente, o queijo, parcialmente derretido e misturado ao molho, parecia um lençol alaranjado, cobrindo o enorme "colchão" abaixo dele. Inclusive, ali podia-se notar as camadas do arroz, agora já cozido, que aumentaram um pouco a altura do prato. O aroma, maravilhoso e convidativo, começava a se alastrar pela casa. Arrumei a mesa, tirei o refratário do forno e então cheguei à hora do sacrifício, como diz o Anonymus Gourmet, referindo-se à hora de se deliciar com o resultado.




O arroz à parmegiana é, antes de tudo, um arroz de forno, e, olhando por esse prisma, pode parecer fácil no preparo, mas ele consegue ser bem mais complexo que isso. Não que a receita seja complicada, ela é até bem simples, com ingredientes acessíveis, de bom manuseio, mas requer atenção nas etapas de preparo.

Claro que na primeira vez que fiz esta receita não estava tão seguro quanto aparento estar nesse texto; em vários momentos, mesmo tendo assistido ao programa, me senti meio atrapalhado e receoso (principalmente na hora de colocar a água fervente) mas, como falei no texto da pizza, observar os ingredientes se misturando, tomando novas formas e cheiros, superou qualquer temor, e me levou a seguir em frente, animado, surpreendido a cada etapa, até finalmente levar à boca uma genorosa garfada, e me deliciar com a incrível junção de sabores que é esse prato.

Nesta segunda vez quis, antes de tudo, registrar o processo, algo que a inocência e ansiedade da primeira vez não me permitiram lembrar de fazer. Aliás, não foi fácil fazer algumas dessa fotos, manipulando a câmera com as mãos meio meladas dos ingredientes, entre um passo e outro da receita, sem descuidá-la. Ao fim, vejo que valeu a pena o esforço, não só para ajudar a compor esta postagem, como também para ficar o registro da receita, que é tão prazerosa de se fazer.

A primeira garfada foi sensacional. A suavidade do arroz, que estava no ponto, bem soltinho; a carne, macia e saborosa; a crosta de queijo semi-derretido, e tudo isso já incorporado e transformado pelo molho. Ainda consegui sentir, bem lá no fundo, o toque da cebola e principalmente do suco de laranja, que deu um ar refinado à receita. O único problema era ter que esperar esfriar um pouco para saborear!








O que mais eu posso dizer? O prato, literalmente, já diz tudo: bom apetite!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (II)


Fotos: Denis Akel

Dando continuidade ao primeiro post sobre a presença do escritor e autor Walcyr Carrasco, que fechou a programação da II Feira do Livro Infantil, em setembro passado aqui em Fortaleza, comentarei agora sobre um dos momentos mais esperados por todos: a sessão de autógrafos.

Ao final de sua palestra, que durou cerca de uma hora, Walcyr foi ovacionado fervorosamente. Chegara o momento dos autógrafos. O narrador do evento, de posse do microfone, começou então a orientar como seria o procedimento. A multidão de pessoas se levantou das cadeiras, ainda sem saber muito bem para onde deveria se dirigir. Lembro de que bem no início da aprensentação, foi dito que Walcyr, devido à grande demanda do público, não falaria com cada um individualmente. Informaram que quem tivesse algo para dar a ele, teria de dar à produção, e esta a encaminharia ao escritor. É engraçado que mesmo assim uma pessoa do público conseguiu lhe dar um livro, sem toda essa formalidade, como falei no primeiro post. Entendi então que talvez ele não desse uma sessão de autógrafos aberta, e lembrei-me de imediato de como Maurício de Sousa tinha feito, na Bienal do Livro de 2010 (dando autógrafos em uma salinha separada, veja mais aqui).

Contudo, desta vez não chegaria a esse ponto. A produção aparentemente voltou atrás. É certo que não havia mais de mil pessoas, como lá no dia do Maurício, logo não haveria necessidade de tanto. Assim, os autógrafos seriam mesmo dados ali na tenda. Walcyr se dirigiu para uma mesinha que foi arrumada em uma das extremidades desta. Todos o seguiram quase de imediato e uma fila começou logo a se formar. Sem hesitar, fui logo em direção a ela; o livro, O caçador de palavras, firme nas mãos. Quando consegui tomar a fila, já estava com umas cinquenta pessoas à frente. E mais e mais iam chegando, extendendo-a até quase fora da tenda. Mentalmente, enquanto não chegava a minha vez, ocupei-me em meio que ensaiar o que iria dizer ao Walcyr. Com o passar dos minutos, uma certa apreensão crescia em mim. Pensei em desistir, sair da fila. Por alguma razão me sentia subitamente quase incapacitado. É sempre uma situação de certo nervosismo quando temos a oportunidade de falar com alguém cujo trabalho exerce tanta influência em nós, ficamos sempre meio abobalhados, ainda mais quando vemos que não teremos mais do que alguns breves minutos, ou até segundos.

De onde estava, alternei olhares entre onde Walcyr deveria estar, no começo da fila, imerso em uma grande massa de pessoas, a fila atrás de mim e para as pessoas que iam saindo com seus autógrafos. Enquanto observava, refletia. Ora, todos estavam ali com um objetivo: ter um contato, por menor que fosse, com o autor. Embora eu ainda desconfiasse que talvez a maioria estava ali mesmo era pela badalação. Olhei então para meu livrinho, amarelado pelo tempo, não mais editado, quase esquecido, que não era um dos livros novos e recentes do autor, que enchiam o estande da Editora Moderna, e pensei que provavelmente seria único ali. Não que eu esteja menosprezando os outros, mas eu julgava estar naquela fila por bem mais que um simples e mero autógrafo. Aquele livrinho significava muito para mim. Praticamente me inclinou à literatura, juntamente com outros três (que mencionarei aqui em outro momento). Ter a oportunidade de estar diante do autor, que a princípio não faz ideia de nada disso, é um momento indescritível. Gostaria de poder conversar com ele mais livremente, saber de onde veio a ideia para aquela história, como foi escrevê-la, comentar que estou seguindo um caminho similar e por aí vai, mas eu bem imaginava que ali, naquele momento, talvez nada disso fosse possível.

O trechinho abaixo mostra um pouco da movimentação da fila:



A fila caminhava, e eu notava que todos passavam realmente pouquíssimos minutos, senão segundos na vez. Claro que seria impossível dedicar muita atenção a todos, imaginei. Walcyr recebia as pessoas com um sorriso e já esperava o livro, ou o que quer que fosse, para assinar (teve gente que quis que ele autografasse a camisa que vestiam!). Depois, elas saiam pela lateral, e a próxima avançava, mecanicamente, como um automóvel que espera o semáforo abrir. Olhando para aquela cena, pensei comigo: Walcyr está aqui quase como um semi-deus, adorado e idolatrado por todos, com pompa de héroi, mas não se pode esquecer que antes de tudo ele é uma pessoa comum, que soube aproveitar as oportunidades que lhe surgiram na vida, e que teve seu talento reconhecido. Como ele mesmo disse, chegou aonde chegou com muito trabalho. Todos temos esse potencial. Então, não havia a necessidade de se criar muros entre mim e ele, e certamente havia mais alguém naquela fila com ideais semelhantes aos meus. Mesmo tendo essa consciência, ainda não consegui me sentir inteiramente à vontade, embora já estivesse mais focado.

Faltando mais ou menos dez pessoas à minha frente, percebi que não poderia mais voltar atrás, não poderia (nem deveria) desistir. Iria em frente agora de qualquer jeito. Walcyr enfim se tornara visível a meus olhos, quando a aglomeração em volta dele começou a se dissipar. Podia vê-lo dando as assinaturas. Continuei organizando mentalmente o que queria dizer para ele: "Walcyr, é um prazer conhecê-lo...", "Esse livrinho é um dos meus favoritos...", "Eu também escrevo...", "Seu livro me influenciou muito...". Frases como essa pipocavam a todo instante em minha mente. Sabia que não seria possível dizer tudo o que gostaria, mas era preciso tentar. Não estava querendo falar nada referente às novelas, por já ser um assunto tão comum e de certa forma desgastado naquele momento. Com apenas duas pessoas à minha frente, eu já me sentia quase diante dele.Vi os dois seguranças, de expressões impassíveis, próximos à mesa. E então, enfim chegou a minha vez.

Cumprimentei Walcyr com um olhar, e disse que era um prazer conhecê-lo. Walcyr balançou a cabeça, em um gesto semi-automático. Em seguida, soltei o livrinho na mesa diante dele. Foi tudo muito rápido, e mesmo mais calmo senti as frases que tanto ensaiara antes me fugirem. Walcyr então esboçou uma exclamação de surpresa: "Ah, esse livro...", como que se ele próprio não o visse há muito tempo. Me pareceu que ainda diria mais algo, continuando sua colocação, mas acabei cortando-o, jogando as coisas que queria lhe dizer, começando a aproveitar o pouco tempo que teria. Se ele tinha ou não mais algo a dizer sobre o livro, jamais saberei. Depois que eu falei uma ou duas frases, para um Walcyr agora sorridente, ele perguntou meu nome, já com a caneta em riste no punho e o livro com a primeira página virada. Claro que o objetivo daquela fila era mesmo o autógrafo, e não ficar conversando com o autor, mas não pude evitar de sentir naquela pergunta uma maneira de me encerrar logo, como que para apressar a fila, e dar passagem ao próximo "automóvel" – ou talvez fosse só impressão minha. Dito meu nome, a mão de Walcyr começou a fazer seu trabalho, assinando friamente o livrinho. Aproveitei esse ínterim para dizer o quanto aquele livro era significativo para mim, sem antes dizer, é claro, que eu também escrevia. A trama do livro, que envolve etimologia, me fascinara de imediato na primeira vez que li, anos atrás, e desde então passara a gostar e me interessar pela área. Walcyr concordava com a cabeça, enquanto terminava de assinar. Depois virou o rosto para mim, entregando o livrinho. Eu disse ainda que admirava muito seu trabalho, que gostara da palestra e que sempre acompanhava seu blog. Agora vejo que talvez pudesse ter falado algo menos clichê, mas na hora foi apenas o que me ocorreu. Walcyr concordou novamente com a cabeça, dessa vez olhando para mim. Senti que de certa forma meu tempo se esgotara.

O livrinho, em minhas mãos, já estava autografado e eu teoricamente já deveria ter deixado os "holofotes", já devia abrir espaço à pessoa de trás. Walcyr olhava para mim como se esperasse que eu fosse dizer mais algo. Naquele momento, porém, temi não conseguir articular mais nada a dizer, sem cair em repetição. Após falar do blog, agradeci a ele, e acabei saindo pela lateral. Enquanto andava, notei que Walcyr ainda continuou me olhando, por breves segundos. Era como se ele ainda quisesse me dizer algo, ou como se sentisse que eu tinha mais a dizer, mas de certa maneira estava tão incapacitado quanto eu. A enorme fila que estava às minhas costas esperava, pacientemente, para ser atendida. Talvez Walcyr esperasse que eu quisesse fazer uma foto com ele, como muitos ali desejavam, mas esse não era bem meu objetivo. Sim, minha vez acabou sendo muito rápida, muito abrupta. Segundos depois que saí da tenda, Walcyr, após me acompanhar momentaneamente com o olhar, tornou a virar o rosto para o próximo, que já lhe estendia o livro a ser autografado.

Enquanto caminhava, saindo dos arredores da Praça do Ferreira, olhei novamente a assinatura que Walcyr me deixara. Tinha esperado cerca de trinta minutos para apenas trinta segundos. Mas era isso mesmo. Ao menos eu tinha conseguido lhe dizer algo. Fui numa lanchonete próxima, onde tomei um suco e fiquei repensando toda esta situação. Recordava o que havia dito, em um hábito típico de pensar se tinha agido bem. Comecei a crer que talvez tivesse falado tudo muito rápido. Talvez Walcyr não tenha entendido quase nada do que falei. Mas procurei não me preocupar, pois sabia que alguma coisa ele tinha entendido sim. Sua exclamação de surpresa ao ver o livrinho não deixava dúvida. Eu me senti bem, de certa forma realizado, apesar do momento ter sido tão breve e direto. Quando terminei o suco e retornei à praça, a fim de olhar alguns livros nos estandes, vi que ainda havia um enorme burburinho na tenda principal, e perguntei a mim mesmo se seria possível Walcyr ainda estar ali. Já se passara uns quarenta minutos desde que eu saíra da fila. Apurei a vista, à medida que me aproximava, até que o vi emergir do contigente de pessoas que lá estava. Sorridente, Walcyr começou a deixar a tenda, ladeado por seus seguranças. Algumas pessoas ainda tentavam segui-lo. Ele seguiu alguns metros, na direção de onde havia sido montado um palco para shows e desapareceu por entre uma portinha lateral que se camuflava a uma parede. Tudo foi muito rápido.

Ainda retornei à praça, onde desfrutei mais um pouco dos últimos momentos da feira, passeando pelos estandes. Nesse dia, no caminho de volta para casa fiquei olhando a assinatura. Ela inegavelmente exercia em mim um certo ar de conquista. Por várias razões, imagino, mas primeiramente por ser o primeiro autógrafo ao vivo que consigo, e por ele ter sido dado em um livro que tanto me estima. No dia seguinte, Walcyr deixaria Fortaleza e retornaria à sua rotina de trabalho no eixo Rio/SP. As pessoas que estiveram na Praça do Ferreira, durante sua palestra, àquele 17 de setembro, com certeza foram marcadas por suas palavras, umas mais, outras menos, é fato, mas o autor se fez ouvir de maneira geral, expondo um pouco de sua carreira, do início à fase atual. É sempre interessante saber como escritores e autores dão seus primeiros passos, principalmente aqui no Brasil, onde não há muito suporte ou incentivo nessa área. Gostei da palestra, das palavras de Walcyr, apesar de achar que talvez houvesse mais variedade de assuntos e perguntas se ele não estivesse com uma novela no ar na época. Não que eu esteja excluindo as telenovelas de sua obra, mas a maioria das perguntas acabou centrada nelas e como ele estava em uma feira literária, seria mais interessante se o foco principal estivesse mesmo nos livros e na literatura. Contudo, quem faz uma boa palestra, além do palestrante, é o público, e é evidente, porém, que se não fosse a novela em questão, provavelmente uma boa parte das pessoas não teria comparecido!





terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nos caminhos da música – memórias de um teclado quase esquecido



Bom, aproveitando que este é invariavelmente o primeiro post do ano, falarei um pouco sobre um tema de que gosto muito, mas que ainda tinha tido pouco ou quase nenhum espaço por aqui: a música.

Agora por esses dias, coisa de dois ou três meses, comecei a me aventurar por esta fantástica arte, de uma maneira um pouco inusitada, aproveitando um antigo instrumento de quase quinze anos, que estava parado há tempos – o teclado da foto acima.

Meu interesse inicial pela música veio quando ainda era pequeno, por volta de 1991 ou 1992. Costumava tocar um pouco de flauta, nada muito significativo, mas para mim tinha um sabor único, ao soprar e ouvir e ouvir aqueles sons se entrelaçando. Não era preciso entender nada, apenas sentir. Era meio que um momento de lazer, uma distração, mas um momento onde sobretudo me sentia bem, em harmonia.

O tempo passou. A magia da infância começava a desaparecer. Vinham outros interesses, e a velha flauta foi encostada (mas ainda a tenho). Os anos foram se seguindo. Ainda tentei retomar o gosto pela música, comprando um teclado básico, ideal para iniciantes, em meados de 1997. Por alguma razão, porém, não consegui manter o interesse. Cheguei a dedilhar algumas coisas, seguindo guias simples com números e cores (que usava na flauta ), mas realmente não me apronfundei. Após mais um certo tempo, acabei guardando o aparelho, que acabaria recluso por anos dentro de armários. Meu irmão bem que ainda tentou usá-lo algumas vezes, mas também de modo passageiro. É provável que durante todo esse tempo até tenha me passado pela cabeça doá-lo ou vendê-lo, por não saber direito o que fazer com ele.

Mas este teclado ainda viveria para ter seus dias de glória. Como sempre digo por aqui, tudo tem o seu devido tempo para acontecer. Foi assim que subitamente me vi tragado de volta ao mundo da música, de uma maneira tão abrupta que de certa forma me surpreendeu, e percebi que realmente podemos fazer qualquer coisa, se realmente quisermos. Eu estava seguindo dias de certa forma iguais, monótonos até, pode-se dizer, simplesmente com as atividades rotineiras, como acho que muitas vezes fazemos, sem nos darmos conta, ou por realmente não termos escolha. Recentemente, encontrei o velho teclado em uma faxina corriqueira, e o deixei por perto (ainda o guardo na caixa original), para uma hora abrir e ver se estava tudo bem. Sabia que talvez não fizesse isso tão cedo, mas a caixa permaneceu lá, inerte, ao alcance de minha mãos. Em um certo dia, decidi agir. Não sei o que me deu, mas resolvi não só pegar o teclado, como também me dedicar a aprender a tocá-lo. E não queria apenas seguir numerozinhos e coisas parecidas; queria aprender as notas, queria entender a teoria musical.

Pensei logo em usar a internet para esse fim, valendo-me de cursos (em PDF) e vídeo-aulas, pelo menos inicialmente. Resoluto, coloquei o teclado sobre minha mesa e me preparei para ligá-lo. Sabia que precisaria da fonte, que naquele momento não fazia a menor idéia de onde estava, se é que ainda a tinha, mas lembrava de que ele também funcionava a pilhas. Virei o aparelho, abri o compartimento e relembrei o número de pilhas de que precisaria: cinco. Corri pela casa, coletando-as de outros eletrônicos, até ter as cinco em mãos. Enfim colocadas no teclado, liguei-o. Não tinha muitas esperanças de que ainda fosse funcionar – estava guardado há anos, sem uso – mas ele ligou! O vislumbre da luzinha vermelha acendendo me trouxe um sorriso de satisfação. Dedilhei um pouco algumas teclas. Parecia mesmo tudo bem com o instrumento. O som das notas me remotava ao passado, à época que o comprei, até mesmo à época da flauta. Embalado por estas boas lembranças, repeti para mim mesmo que agora chegara o momento de aprender a tocá-lo.

Incontinente, recorri a talvez um dos melhores professores que podemos ter hoje em dia: o Google. Pesquisei com determinação, até baixar um bom material, para ser lido e estudado no computador mesmo. Era o básico do básico; noções introdutórias e afins. Seria um bom primeiro passo, imaginei, e me pus a lê-los. Um dos cursos que baixei era na verdade um curso preparatório voltado a tecladistas de igreja, contando com um vasto hinário a ser aprendido pelo mesmo. Contudo, lá pude ver que estava toda a teoria, bem explicada, bem do início, e acreditei ser um bom começo. Ainda, para entender efetivamente este curso, era preciso passar por uma parte inicial de regência, onde era explicado os primeiros elementos básicos da partitura, juntamente com as noções do gestuário. Por achar tudo aquilo interessante e novo para mim, debrucei-me sobre todo este conteúdo, antes de chegar propriamente à parte do teclado.

Passei os dias seguintes bastante mergulhado nessa área, foi mesmo uma grande descoberta. À medida que lia os conceitos e os praticava no teclado, ia me surpreendendo. Partituras musicais sempre me intrigaram, por parecerem complicadas, ilegíveis, como imagino que é tudo o que desconhecemos. Quando, porém, começamos a entender a lógica daquilo, seja o que for, percebemos que não é nada assim tão inacessível. Com a música, acredito não ser diferente. Aprendendo o porquê dos símbolos, seus significados, as notas e nomenclatura, comecei a ficar ainda mais curioso diante das partituras, por agora enfim poder lê-las, pelo menos ainda as mais simplificadas. Imprimi até alguns modelos de pentagramas para treinar alguns exercícios e os nomes e posições da notas.

Meu modesto teclado, como devem ter notado, traz várias etiquetinhas coladas nas teclas. Trata-se daquele material didático que acompanhava revistas que se propunham a ensinar as primeiras noções. Lembro que as afixei com empolgação nos primeiros dias que comprei o instrumento, mas elas nunca foram exatamente muito úteis, exceto por ajudarem a memorizar algumas musiquinhas, embora eu me baseasse pelo número e não pelo nome da nota. Hoje em dia, já percebo que essas etiquetinhas mais atrapalham do que ajudam, pelo menos para mim, e logo devo mesmo removê-las. Ainda, algumas pessoas já comentaram que eu talvez devesse comprar outro teclado, maior, mais moderno. Preferi dar de ombros; meu velho teclado ainda tem muito chão pela frente. Ele é ótimo para as noções básicas que venho estudando, e percebo que, finalmente, após quase quinze anos, o teclado disse a que veio!

Falando agora sobre gêneros musicais e referências, recentemente comecei a me interessar mais por música minimalista. Já conhecia o estilo, graças a filmes como o excepcional Koyaanisqatsi, cuja trilha sonora é assinada por Philip Glass, um dos maiores nomes do minimalismo. Foi também através de outro filme, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que conheci Yann Tiersen, outro grande compositor minimalista e comecei a me enveredar cada vez mais no assunto. Tecnicamente, a música minimalista tem como características a repetição de pequenos trechos, com leves variações em grandes períodos de tempo, compondo assim ritmos quase hipnóticos. Depois que comecei a me aprofundar na área musical, posso dizer que não escuto mais uma música como antes, é como se conseguisse perceber certas nuances antes imperceptíveis. Ultimamente tem sido comum, ainda, gastar horas no YouTube , procurando vídeo-aulas, exercícios ou mesmo apenas se deliciando com interpretações de músicas no piano, teclado, em especial de Glass, Tiersen, Reich, clássicos como Beethoven, Chopin e trilhas sonoras.

Todo este estudo e pesquisa autodidata que venho conduzindo (apesar de também já considerar fazer um curso com professor físico) me faz pensar mais uma vez que podemos mesmo fazer qualquer coisa que quisermos, desde que haja determinação para tal. Às vezes um pequeno passo fora de nossa rotina nos desvela um mundo desconhecido, fascinante – que estava ali o tempo todo – embora, de certa forma cegos, não pudéssemos enxergá-lo, mas que muitas vezes pode mudar toda a nossa vida. É sempre bom sair da rotina, fazer coisa diferentes, às quais não estamos acostumados ou simplesmente não sabemos ainda. Faz bem para a alma, nos reiventarmos. Posso afirmar isso por conta de meu récem-revigorado gosto pela música e também pelo súbito gosto por cozinhar, do qual já falei nesse outro post.

Ah, estou pensando em comprar um violão em breve. Só espero não demorar quinze anos para começar a tocá-lo!






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

II Feira do Livro de Fortaleza - Walcyr Carrasco (I)

Foto: Divulgação do evento

Recentemente, postei aqui alguns comentários sobre a passada do escritor e contador de histórias Ilan Brenman aqui em Fortaleza, em ocasião da II Feira do Livro Infantil (veja aqui). Agora, falarei um pouco sobre talvez o maior destaque desta edição do evento, a presença do escritor e autor Walcyr Carrasco. Nesse post, dividido em duas partes, procurei colocar uma visão geral de como foi a apresentação, sob meu ponto de vista.

Walcyr sem dúvida foi uma alavanca de formidável impulso para levar à Praça do Ferreira um excelente público, para um evento literário em ascensão; cerca de 150 pessoas somente em sua apresentação. Eu mesmo, inclusive, fui motivado a ir conhecê-lo. Admiro muito o seu trabalho, não somente na área de teledramaturgia, onde talvez seja mais conhecimento e amplamente divulgado, mas também na literária; Walcyr Carrasco tem uma sólida carreira como escritor, com diversos livros publicados, destacando-se os infantis, mas também com infanto-juvenis e romances, além de traduções, adaptações e peças de teatro.

Um de meus livros favoritos e, devo dizer, fundamentais para minha escolha por trilhar também o caminho das letras é da autoria de Walcyr. Trata-se de O Caçador de Palavras, um livrinho pequeno e pouco conhecido, que atualmente já não é editado. Mesmo assim, muitos devem lembrar dele por ter vindo junto com o dicionário LUFT, da editora Ática, em meados de 1993. É uma história curta, breve, mas que transmite um ideal tão vasto que até hoje me influencia. Enfim, falarei mais sobre este livrinho em uma postagem exclusiva, ainda por vir.

Voltando ao assunto central, Walcyr Carrasco fecharia a II Feira do Livro Infantil com chave de ouro. Sua participação estava marcada para o sábado, 17 de setembro. Na ocasião, Walcyr daria uma palestra sobre sua obra e carreira e ainda concederia uma sessão de autógrafos. Seria bem parecido como foi com Ilan Brenman, com a diferença massiva estando por conta da quantidade de público presente.

Marcada para as 15:00, me programei para evitar atrasos, saindo com certa antecedência, sem esquecer, é claro, de levar O Caçador de Palavras comigo; faria questão que Walcyr o autografasse. Sabia que a movimentação lá seria intensa e queria também um bom lugar para sentar, assim, cheguei à Praça do Ferreira por volta das 14:45. Quase não acreditei quando olhei para a tenda central: estava praticamente lotada. Dezenas e dezenas de crianças, fardadas, provavelmente de escolas, enchiam as muitas cadeiras que tinham sido dispostas, em meio ao mini palco onde ficavam os palestrantes. Além delas, havia também um enorme público geral, compondo os locais restantes e também curiosos nas imediações da tenda. Àquela hora, já era impossível pegar um lugar à frente; tive de me conformar em sentar bem atrás. Uma vez acomodado, comecei a olhar novamente em volta, observando o tipo de público que ali estava. Fazia um calor imensurável nesse momento, mesmo a tenda sendo ao ar livre (ou talvez justamente por isso).

Foto: Denis Akel

Pouco antes da hora marcada, o responsável pela locução do evento subiu ao mini palco e avisou, com voz entusiasmada, que Walcyr logo entraria. Somente essa declaração já foi suficiente para levar todos ao delírio, em sonoros gritos de euforia. E então, pontualmente às 15:00, avistei Walcyr Carrasco chegando à tenda. Trazia à cabeça uma espécie de chapéu-panamá (que depois revelaria ter ganhado já na cidade). Sua roupa, de algum modo leve e simples, transmitia segurança e tranquilidade. À aparição do autor, o público explodiu em fervorosos aplausos, juntamente com gritos e exaltação. Foi bom ver toda aquela comoção em torno de um escritor, embora soubesse que talvez a maior parte daquele estardalhaço se devesse não à sua obra literária, mas às suas novelas. Eu esperava até o final da palestra poder mudar de opinião.

Um outro detalhe que não pude deixar de notar, enquanto corria os olhos em volta, observando as pessoas, foi a forte presença de seguranças. E não pareciam seguranças comuns. Cogitei até a possibilidade de ser uma equipe especial do próprio Walcyr, já acostumada a protegê-lo. Farda escura, boina vermelha, rosto impassível. Num detalhe na manga do braço, os dizeres "defesa pessoal" podiam ser lidos. Pareciam saídos de um desses filmes de assaltos milionários.

Após receber o microfone e tomar a frente do público, Walcyr, sorridente, saudou a todos, dizendo o quão feliz estava por estar ali. Inicialmente, ele quis ler um poema de que muito gostava, de autoria de Mario Quintana. Walcyr bem que tentou, mas a plateia não facilitou; vozerios e balburdia iam se manifestando, complicando o andamento da apresentação. Além disso, graças ao microfone, que parecia estar com algum problema (não demorou a ser substituído), sua leitura começou quase inaudível. Percebendo a dificuldade repentina do público, Walcyr alertou, sério, que se todos não fizessem silêncio, ele iria embora. Pronto, bastou isso. Como num passe de mágica, as professoras das crianças, que eram as principais responsáveis pelo caos sonoro, se fizeram ouvir e buscaram conter os pequenos. Walcyr prosseguiu lendo Quintana, mas continuei ouvindo apenas palavras perdidas. Longe do palco, só ouvia uma palavra ou outra dele, espaçada – agora pelos murmúrios – do mar de crianças que estavam à minha frente.

Foto: Denis Akel

Em seguida, falou um pouco de sua carreira, de suas referências. Contou que seu gosto pela leitura veio da infância (em uma época em que sequer havia TV), através das clássicas obras de Monteiro Lobato, e que sua aptidão à escrita veio naturalmente por conta disso, por volta dos 12 anos de idade, quando começou a se descobrir escritor. Walcyr se encantou pelo Saci, Pedrinho, Emília, a ponto de decidir também querer escrever suas histórias. Daí em diante, para realizar seu intento, passou a ler muito, como deve ser o hábito de todo escritor. Apontou os contos de fadas como um de seus gêneros favoritos, citando a obra de Hans Christian Andersen, célebre por O Patinho Feio, A Pequena Sereia, entre outros. Falou ainda de nomes como Shakespeare, que ele muito admira e até traduz, a Júlio Verne, e de como gosta de fazer referências sutis a eles em suas obras. Ressaltou ainda o quão visionário Verne foi, ao escrever 20.000 Léguas Submarinas em uma época onde não existiam submarinos. Ainda sobre o ato e gosto pela leitura, enfatizou que o conceito de gostar ou não gostar de algo é muito relativo, pois pode-se muito bem aprender a gostar ou aprender a não gostar, seja lá do que se tratar.

Foto: Denis Akel


Seguindo-se a esta breve introdução, duas pessoas, cujos nomes ou cargos não me recordo, mas que certamente haveriam de ser pessoas de peso no evento (talvez até alguém de importância na cidade), foram chamadas ao centro da tenda, onde leriam alguns trechos de livros do Walcyr. Durante a leitura de seus textos, Walcyr Carrasco manteve-se sentado, ao lado da pessoa que lia. Percebi que ele vagueava o olhar pela plateia, como se buscasse conhecer melhor seu público, mas sem se distrair do que era lido. Porém, notei que a fatia do público que prestava atenção era muito pequena. Eu mesmo não conseguia acompanhar direito alguns trechos. Achei que os textos escolhidos foram demasiados longos, o que pareceu enfadar rapidamente boa parte do público, que, disperso, fazia barulho e atrapalhava quem queria ouvir e estava mais longe do palco, como eu.

Não lembro exatamente se foi nesse momento, ou mais no início, mas Walcyr ainda ganhou um livro de presente de uma pessoa do público, que fez questão de deixar claro que o livro só seria colocado à venda ano que vem, e que aquele exemplar era exclusivamente para ele. Walcyr, surpreso e admirado, mostrou o livro ao público, repetindo o que ela disse.

Findadas as leituras, o público respondeu com aplausos. Walcyr Carrasco continuou, então, tornando a falar, agora mais detalhadamente, de sua carreira, projetos e trabalhos. Ele esbanjava simpatia, usando seu chapéu-panamá que – como revelou depois – ganhara na ocasião, mas que lhe caiu perfeitamente; parecia quase feito para ele.  Walcyr falou que inicialmente escrevia para jornais e revistas (Revista Recreio) e que aos poucos foram lhe aparecendo oportunidades de escrever para teatro e TV. Disse ainda que chegou à Globo com muito trabalho e dedicação, e que isso já fazia dez anos. Mesmo com uma vasta liberdade de produção na TV, adora escrever livros para o público infantil, pois vê nessas histórias muito mais do que elas aparentam representar.

Foto: Denis Akel


Passada a introdução de Walcyr, a leitura de seus textos e do poema de Quintana, teve-se início o bloco de perguntas. Um microfone foi sendo conduzido a uma das muitas mãos que sempre se arguiam; todos buscavam  poder dirigir algumas palavras ao escritor. Uma das primeiras perguntas a surgir foi quanto à sua rotina de trabalho, em que hora ele costumava escrever. A isso Walcyr Carrasco respondeu de imediato, com ar brincalhão, arrancando sonoros risos de todos: "Sou um vampiro!". Com isso, quis dizer, como explicou em seguida, que tinha hábitos notívagos. Disse que usualmente começava a escrever às 23:00, indo até as 3 ou 4 da manhã (quem o conhece do Twitter sabe que é mais ou menos nesse horário que ele vai fumar seu charuto e meditar!).

Como não poderia deixar de ser, Walcyr foi fustigado com várias perguntas referentes à sua novela Morde & Assopra, ainda em exibição na época. Foram realmente muitas perguntas, desde as mais inocentes, como crianças que realmente acreditavam que havia um rôbo vivendo o personagem da Naomi Rôbo, a outras mais extravagantes, como: "Como você fez a cena onde o rôbo remove parte de sua pele artificial e exibe seus componentes eletrônicos?" Walcyr, direto, respondeu à primeira dizendo que era a atriz que fazia as duas personagens, que era mérito dela a "versão rôbo"ficar tão autêntica. Quanto à segunda pergunta, disse categoricamente que não foi ele quem fez a cena mencionada, e completou sua resposta, dando a todos um breve panorama de como funciona o andamento de uma novela, da concepção da cena à sua filmagem. Walcyr disse que ele somente escrevia. Em seguida, o produtor irá negociar detalhes que envolvem a cena (locações, etc) e o diretor a dirige. Citou ainda um exemplo, usando uma praia daqui de Fortaleza como ambiente. Ele escreveria o que iria ocorrer, o produtor entrava em contato com a prefeitura da cidade, para negociar detalhes da locação, e o diretor executava a direção. Em termos, foi bem claro ao dizer que poderia escrever praticamente o que quisesse e o produtor teria que se virar para conseguir realizá-la, o que arrancou mais boas risadas do público. Ainda sobre o tema de produção, alguém perguntou quem escolhe o elenco de suas novelas, e se a opinião dele é unânime. Walcyr respondeu, sucinto, que é 50% ele, 50% a emissora/equipe.

Tivemos também algumas perguntas bem incomuns, que geraram respostas bem contundentes. Em dado momento, Walcyr foi indagado sobre quais alguns de seus momentos felizes e tristes. Respondeu dizendo que tenta não ter momentos tristes; tenta sempre enxergar o lado bom que há em tudo. Completou dizendo que embora muitas vezes não consigamos fazer essa distinção, é um bom caminho para sofrermos bem menos.

Outra pergunta, ainda sobre Morde, foi referente ao desfecho de alguns personagens. Walcyr riu-se, e de certa forma insinuou, mas acabou não revelando nada, deixando suspense e ansiedade no público que assistia à novela. E sem deixar o assunto novelas de lado, um menino quis saber se o macaco pintor de Caras & Bocas, trama que repercutiu bastante em 2009, realmente pintava. Walcyr contou uma história sobre um macaco nos EUA, que nos anos 30, 40, ficou muito famosos por pintar, tendo inclusive vendido muitas telas. O macaco de sua novela (na verdade uma macaca) gostava muito de desenhar, mas não pintava.

Encerradas as perguntas, o público prorrompeu em um forte e prolongado aplauso. Walcyr Carrasco sorria, no centro de todos. Mas aquele momento ainda não terminaria: teríamos ainda a sessão de autógrafos. O narrador do evento assumiu o microfone  e começou a organizá-la. E é a partir de lá que começa a segunda parte dessa postagem, em breve no ar!

E para finalizar, alguns trechos que consegui captar da palestra. A qualidade não é das melhores, mas todo registro é válido. :)

Veja a segunda parte aqui.








quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Bicicleta animada!



Em plena era digital, eis que ainda vemos ideias surpreendentes, com ferramentas simples, que esbanjam criatividade, determinação e muitas vezes se sobressaem a grandes instalações e parafernálias! É o caso deste curioso e peculiar trabalho. Através da interessante e quase inusitada combinação de papel com rodas de bicicleta, a estudante inglesa Katy Beveridge criou uma espécie de zootrópio (instrumento giratório que produz, a partir de imagens paradas, a ilusão do movimento. Mais sobre zootrópio neste post).

Essa técnica, no entanto, precisa ser filmada para ser percebida. A olho nu, só conseguimos vislumbrar borrões, devido à velocidade da roda. Um detalhe que achei um dos grandes destaques do trabalho de Katy são os belíssimos padrões e formas; composições criadas a partir do papel recortado (quanto esmero nesses recortes!). É um verdadeiro deleite visual, que inclusive lembra um pouco a obra do grande animador francês Michel Ocelot!

Vejam:





E abaixo alguns testes para se chegar a esse resultado:








Sensacional, não é? Imaginem as possibilidades dessa técnica! É como dizem, é possível se fazer animação com praticamente qualquer coisa!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

II Feira do Livro de Fortaleza - Ilan Brenman



Em setembro, aconteceu aqui em Fortaleza a segunda edição da Feira do Livro Infantil, evento que busca alimentar a fome pelo livro e leitura, com oficinas, shows, contação de histórias, palestras, além da presença de grandes nomes do cenário, como o compositor e escritor gaúcho Vitor Ramil e o escritor e autor Walcyr Carrasco, grande destaque da feira.

Quando soube do evento, apressei-me para ficar por dentro da programação, que era divulgada na TV em rápidas chamadas. Até então, meu maior interesse na feira era a palestra de Walcyr Carrasco. Não exatamente pelo seu trabalho nas telenovelas, onde é largamente conhecido, mas por ele ser autor de um dos livros que me despontou a gostar de escrever e querer ser escritor. Falarei mais desse assunto no post exclusivo sobre Walcyr, que colocarei aqui em breve.

Aconteceu que um dia antes de começar a feira, estava eu aqui no computador, baixando edições do programa Entrelinhas, para meu acervo, e à medida que baixava, assistia a um trechinho para ver se estava tudo bem. Foi aí que vi essa entrevista do Ilan Brenman, que de cara já me chamou a atenção pela simpatia e jeito de falar. Era um contador de histórias que resolvera se aventurar fazendo livros. Assistir a um trechinho? Cativado pelas palavras de Brenman, acabei assistindo à entrevista inteira, que fluiu incrivelmente rápida! Fiquei maravilhado, inspirado.



E imaginem a minha surpresa quando vi o nome de Ilan Brenman entre os convidados e palestrantes da Feira! Que incrível coincidência! Foi tudo tão repentino que o dia em que vi a entrevista, seria justamente o dia de sua apresentação, e também o primeiro dia da feira. Assim, apressei-me para a Praça do Ferreira, que seria palco de todas as atrações. Acabei chegando um pouco depois do horário previsto (15h) mas a palestra atrasaria. Aproveitei esse meio tempo para me familiarizar ao local.

Algumas tendas haviam sido montadas em pontos da praça. Em uma delas, de vasta extensão, vários expositores de editoras estavam espalhados. Ali seria possível comprar livros ou simplesmente conhecer as novidades das editoras presentes. Mais ao centro da praça, estava a tenda principal, uma enorme lona que lembrava quase um circo, sob a qual dezenas de cadeiras se encontravam agrupadas. Seria o palco dos principais eventos e palestras da feira.

Conforme circulei pelos ambientes, percebi que a maior parte do público presente era – como não poderia deixar de ser – formado por crianças, e muitas de escolas, em visitação à feira. Já os bancos da Praça do Ferreira, estavam cheios das pessoas do dia-a-dia, que não pareciam ligar nem um pouco para tudo aquilo, e apenas se contentavam em sentar ali e ver a vida passar.

Antes de tomar um lugar sob a tenda central, procurei uma pessoa da organização, para saber se Ilan Brenman estava mesmo confirmado. Após ter essa confirmação, vi que já passava das 15:30. Notei também que já havia algumas crianças à espera, espalhadas pelas muitas cadeiras. Ilan chegou poucos minutos depois e a disposição da plateia foi arranjada, para que todos ficassem mais perto do contador de histórias. Era engraçado, pois nesse momento percebi que estava sentando quase junto às inúmeras crianças das escolas. Havendo ainda muitos lugares vazios, desloquei-me a um deles.

Ilan Brenman iniciou sua palestra com sua característica oratória, cheia de trejeitos e atrativos, própria dos contadores de história. Antes de mais nada, contou um pouco de sua própria história, que há muitos anos viajava pelo Brasil contando histórias, e que há não muito tempo resolveu também lançar livros. Ele aproveitou também para já contar uma história de seu repertório ao público, que garantiu a atenção, empolgou e divertiu a todos. Só um detalhe aqui me deixou boquiaberto: foi servido um lanche às crianças (suco em caixinha e biscoitos). Elas pareciam mesmo muito atentas à história, mas não muito à educação, pois só o que se viu depois foram as caixinhas e embalagens jogadas no chão. Acho que faltou pulso dos professores, num ato simples de trazer uma lixeira para junto das crianças.

A palestra continuou com Ilan mostrando alguns de seus livros: o inovador Telefone sem fio (somente de imagens), e o descontraído Até as Princesas soltam pum. Mostrou ainda o inédito Papai é meu, que seria lançado na ocasião. Ele explicou ainda a origem da ideia por trás de cada obra, de uma maneira bem característica, e "leu" brevemente cada uma, dando a todos uma prévia dos livros. Poucas pessoas no público se interessavam em tirar fotos da apresentação. Fui uma delas, munido com meu celular, mas como estava longe do palco, as fotos não ficaram lá essas coisas, embora não deixem de ser um bom registro.



Por falar em fotos, havia por lá ainda um fotógrafo oficial do evento, que volta e meia tomava uma posição estratégica da arena para fazer fotos. Pois uma dessas posições o levou momentaneamente ao meio do palco. Para evitar atrapalhar a plateia, o fotógrafo se abaixou. Até aqui nada de incomum, mas eis que bem quando ele se levantou, surgiu uma pessoa – do público, acho – e começou a perguntar algo a ele. Ambos, dessa vez, ficaram bem na frente de boa parte da plateia, inclusive na minha. É claro que incomodou, pois cortou por alguns instantes a sintonia que tínhamos ouvindo as palavras de Ilan. Ele, inclusive, percebendo aquela situação inoportuna, não perdeu a compostura e teceu logo uma pequena mas feroz indireta contra os dois. Não lembro exatamente o que foi falado, mas foi algo sobre falta de educação com aqueles que queriam ouvir a história. Comentou ainda com sua colega, Rosana Mont'Alverne, contadora de histórias que também participaria do evento, que também o assistia, que aquilo fazia parte do trabalho deles, ao que Rosana concordou com a cabeça. O fotógrafo e a pessoa trataram de se retirar logo depois, e Ilan pôde continuar sua apresentação.

Nos momentos finais, ele mostrou ainda alguns outros livros de sua autoria. Uma coleção de livrinhos de bolso, intitulada Contador de Histórias de Bolso. Aqueles livrinhos, nas mãos de Ilan, que os erguiam no ar, aos olhos de todos, chamaram minha atenção de imediato. Tratavam-se de coletâneas de histórias recolhidas e recontadas por ele, em volumes ricamente ilustrados pelo talentoso ilustrador Fernando Vilela. As capas, com cores fortes, contrastantes e chamativas; os temas (Grécia, Rússia, África, China e Brasil) pareciam uns mais curiosos que os outros. Ali eu já sabia que teria de comprar algum deles, sem dúvida.

 Público, já nos intantes finais da apresentação
                                           
Ilan Brenman foi bem aplaudido ao fim de sua palestra. Foi dito então que ele seguiria direto para o estande da Editora Moderna, onde daria autógrafos aos interessados. Achei que aquela seria uma ótima oportunidade para conhecê-lo e trocar algumas palavras. Falar como o tinha 'descoberto', algumas horas antes, no Entrelinhas. Sim, sem dúvida seria interessante esse contato. Esperei próximo ao estande da editora, mas não vi sinal de Ilan. Depois, ele apareceu. Imaginei que haveria uma mesinha ou algo parecido onde ele ficaria para dar os autógrafos, mas não teve nada disso. Não parecia também haver gente querendo autógrafos. Ilan estava de pé, e parecia apressado. Esperei. Ainda achava que ele ia sentar-se para receber quem porventura aparecesse. Dali um tempo, desviei momentaneamente a atenção a outro estande, por minutos e quando tornei, Ilan tinha desaparecido.

Meu primeiro pensamento foi: "Ele deve ter ido tomar uma água ou algo parecido". Percebendo que Ilan não voltava, fui falar com o pessoal do estande. Disseram, afinal, que ele já tinha ido embora. Quando mencionei os autógrafos, afirmaram que Ilan tinha ficado lá, autografando, mas não acreditei muito nisso, a menos que tivesse sido apenas um autógrafo e somente para uma pessoa. Quando voltei a andar pela feira, comprovei com um dos receptivos que ele de fato quase não demorara.

Lamentei muito não ter conseguido falar com ele. Até poderia tê-lo indagado na hora que o vi, mas achei que ele teria o mínimo de estrutura para dar seus autógrafos, que eu não precisaria lhe falar assim, de sopetão, uma vez que estava certo de que este momento duraria pelo menos alguns minutos. Não foi assim. Ilan devia estar com pressa. Após repensar essa situação algumas vezes, voltei ao estande da editora Moderna e pedi para ver a coleção de bolso que tanto me chamara a atenção. Estava decido a comprar, não todos, mas pelo menos dois. Mesmo sem autógrafo ou conversa com Ilan, seria um boa oportunidade de adquirir estas obras, que até então não tinha visto nas livrarias. Após rápida análise nos cinco volumes, optei por Rússia e Grécia, temas que ultimamente vêm me fascinado.




Comprados os livros, rodei mais um pouco pela feira, até voltar para casa, satisfeito por pelo menos ter assistido à apresentação de Ilan Brenman, a quem, há poucas horas atrás, eu sequer sabia quem era. Perdera a oportunidade do autógrafo, é verdade, mas isso era o que menos importava, e não se repetiria no dia da palestra de Walcyr Carrasco, que será tema de uma próxima postagem!


sexta-feira, 28 de outubro de 2011

III Semana da Animação – DIA 2011



E hoje é o DIA! O Dia Internacional da Animação, evento tradicional que reúne mostras de curtas nacionais e internacionais, acontecendo simultaneamente em muitas cidades, chega à sua oitava edição.

Aqui em Fortaleza, as mostras do DIA serão exibidas no encerramento da III Semana da Animação, evento que desde a última terça (25) tem "animado" a cidade! Já dei boas informações sobre a Semana aqui no blog, mas nunca é demais recomendar uma visita no blog oficial, onde há a programação e informações completas.

Quem puder vir (Casa Amarela Eusélio Oliveira, na Av. da Universidade) não deixe de aparecer para assistir a animações de qualidade e bater um papo descontraído com os coordenadores da III Semana! Teremos pipoca gratuita para as mostras!

E um ótimo DIA a todos!