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"O coração que se ganha é o que se dá em troca" – Marcelino Freire



sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Zeróis: Ziraldo na tela grande


É uma grande satisfação fazer uma postagem sobre esta exposição, após tê-la visitado, durante nossa passada recente pelo Rio de Janeiro! Vou pontuar o texto com fotos de um dos folhetos de divulgação, e ao final algumas imagens das obras em si (essa últimas, achadas na internet).

Há pouco tempo atrás, fiquei sabendo, graças à minha tia, de uma entrevista que Ziraldo tinha dado no Programa do Jô. Acabei perdendo o programa, mas, graças às funcionalidades da internet, consegui encontrá-lo, assisti-lo e até o usei para fazer esta postagem (ver link). Na entrevista citada, Ziraldo falou em primeira mão da exposição que estava prestes a lançar, "Zérois", com várias telas de sua autoria. Telas enormes, um fato inédito na sua carreira. Tive muita vontade de ir conferir esta exposição, uma oportunidade para conhecer mais esta faceta do Ziraldo, mas parecia realmente algo inatingível.

Mas aí veio o Anima Mundi. Diego, meu irmão, moveu mundos e fundos para conseguir ir ao maior evento brasileiro dedicado à animação, e eu, que trabalho com ele em vários projetos, iria também. Nesse tempo, eu já sabia que o Anima Mundi aconteceria exatamente no mesmo prédio onde estaria a exposição "Zeróis", o CCBB, como já falei nas postagens da série Anima Mundi. Essa foi uma feliz coincidência (inclusive, a exposição começou exatamente no dia em que chegamos, 20 de julho)!



- Fila para a compra de ingressos para o Anima Mundi. Ao fundo, a exposição em cartaz. A entrada, felizmente, é gratuita!



- Folheto com a programação do mês no CCBB — destacando os "Zeróis".

Uma vez no Rio, nos primeiros dias não tivemos tempo para quase nada além das atividades voltados ao Anima, e o máximo que vi dos "Zeróis" foram as salas onde estavam expostas as telas; do andar de baixo, de onde fiz as fotos que ilustram a postagem II- CCBB. Continuei esperando, a hora oportuna, o momento de finalmente conhecer aquilo que julguei inacessível.


Certo dia, surge uma brecha nos horários das sessões dos curtas, e finalmente corro para o segundo andar do CCBB; diante das duas portas que davam acesso à exposição. Havia uma numeração no topo de cada uma: "1" e "2". Deduzi que as telas tinha sido divididas, para ocupar dois espaços (tinham mesmo que ser, pois são muito grandes), e então entrei na primeira. Vi logo de cara uma tela do Super Homem, essa que está no topo da postagem. Era bem maior do que eu imaginava. Aproximei-me para ver melhor, as cores, as pinceladas, e foi só o que consegui ver, pois poucos minutos depois, uma das moças que tomava conta da exposição veio dizer que era proibida a entrada com mochila. Sempre estávamos com nossas mochilas a tiracolo, pois não voltávamos ao hotel até o final do dia. Não sei qual seria o problema em se entrar com mochilas, afinal não havia nada que justificasse um roubo, e ainda assim o ambiente era fortemente vigiado por pelo menos três moças e várias câmeras estrategicamente anguladas. Assim, tivemos que colocá-las no porta volumes, voltando à sala em seguida.


Antes de entrar, vi ainda um símbolo de uma câmera fotográfica riscada, na parede. Era proibido fotografar. Lamentei, mas não me alarmei - já era esperado. E ainda assim, vi várias pessoas com câmeras, escondidas em mãos cerradas e discretas.

Dessa vez, corri logo os olhos por toda a extensão do espaço, ao invés de focar em apenas uma tela. Havia dezenas delas espalhadas por todo o comprimento das paredes, com uma considerável distância de uma para outra. Algumas verticais; outras horizontais, mas todas enormes, que nos convidavam a uma apreciação mais detalhada. No centro da sala, uma mesa expositora, protegida por um vidro, reunia alguns trabalhos históricos de Ziraldo, a maioria talvez desconhecida do público de hoje. À direita, um pequeno corredor levava a uma salinha contígua, onde estavam mais outras tantas telas.


Diante daquele mundo, comecei então a exploração. Passei alguns minutos em frente às primeiras telas, observando as cores, o movimento, o traço inconfundível de Ziraldo. Na exposição, ele faz interessantes homenagens a artistas renomados como Picasso, Goya e Lichtenstein, em releituras de algumas de suas obras, colocando personagens como Capitão América, Batman, Mulher-Maravilha, entre outros, em situações inusitadas, ao fazer uma paródia às obras clássicas. O resultado ficou muito bacana, e nos propõe algumas reflexões, como conceitos relacionados à invencibilidade dos super heróis, que parecem estar mais vulneráveis, ou até mesmo quase ridicularizados, descendo do pedestal da glória para assumir um lado mais frágil, mais humano.

Dada essa primeira olhada nas telas, me debrucei sobre a mesa expositora. Ali estavam dezenas de trabalhos históricos de Ziraldo, até uma historinha em quadrinhos feita por ele aos 12 anos! Tinha também vários quadrinhos em outras revistas, dos anos 60 e 70, tirinhas diversas, e ainda muitos esboços e primeiras concepções das obras que agora preenchiam as paredes daquela sala; exatamente as mesmas composições dos "Zeróis", mas feitas em tamanho menor, em papel, com todo um estudo para como transpô-las às telas. Ali fiquei sabendo também da presença de um pintor assistente, pois havia várias anotações e indicações nos papéis. Paulo Viera é seu nome e, segundo Ziraldo, ele sozinho teria levado vários anos para concluir todas as telas. Com a ajuda de Paulo, um pintor de singular talento, pôde terminar as 44 telas em apenas 3 anos.

Não nego que fiquei um pouco decepcionado ao saber que Ziraldo tivera ajuda, pois é claro que imaginamos, ao ver uma exposição tão grandiosa como essa, que foram somente dele todas as pinceladas, em todas as telas. Mas, como bem sei, muitos dos grandes pintores sempre tiveram assistentes, ajudantes, a dar pequenos retoques, finalizações nas obras. E como falou Ziraldo, uma só pessoa com essa quantidade de material, levaria realmente muito tempo para terminar. Mas isso levanta uma outra pergunta: por que não fazer uma exposição menor? com menos telas? Por que lançar de uma vez mais de 40 obras, sendo o lado Ziraldo pintor ainda um pouco desconhecido do grande público? Não sei, mas foi justamente por essa razão que o processo teve de ser acelerado, afinal ele comentou na entrevista ao Jô que começara a pintar "mesmo" em 2007.


Voltando à exposição, após passar bons minutos vendo os desenhos e trabalhos antigos, rumei pelo pequeno corredor, em direção à salinha anexa. Lá estavam telas com outra temática: as onomatopeias. Trabalhos intensos, com cores fortes, traços firmes, que literalmente nos atingem em cheio. A iluminação também era muito importante, e havia refletores instalados acima de cada tela, para realçar ainda mais sua intensidade. Gastei mais uns bons minutos ali. O movimento, no geral, era bem bacana, sempre com muitas crianças, acompanhadas de seus pais, ou apenas pessoas que resolveram tirar alguns minutinhos de seu tempo para apreciar uma boa exposição :)

Depois, saimos da sala 1 e eu bem que gostaria de já ter emendado na 2, para ver as obras restantes, e o que mais houvesse por lá, mas já estávamos com pouco tempo, e ainda teríamos que fazer algum lanche até a próxima sessão de curtas do Anima. Tudo bem. O festival terminaria no domingo, e nos só viajaríamos na segunda à noite. Imaginei que passaria a tarde de segunda olhando a exposição com a calma devida. Infelizmente, ficou só na imaginação mesmo.

O problema foi que bem na noite do domingo, após o encerramento do Anima Mundi, fiquei sabendo que o CCBB não abriria na segunda. Foi um baque e tanto. Agora sei que é praxe os Centro Culturais não abrirem às segundas (por funcionarem nos domingos), mas na hora não sabia, e aquilo desmoronou meus planos para o fim da viagem ao Rio. Uma das razões da viagem, que era poder visitar a exposição de Ziraldo, não tinha sido realizada do jeito que eu gostaria. Mesmo tendo estado em um dos espaços, tendo visto metade das obras, eu estava insatisfeito. Um dos grandes defeitos da humanidade: querer-se sempre mais do que se tem.


Nós ainda tentamos adiar a passagem em 1 dia, prorrogando a viagem para a noite de terça, mas pagaríamos uma multa ridiculamente exagerada, além de mais uma diária de hotel e outras despesas. Eu estava inconformado, sim, mas seria demais arcar com tudo isso para passar só mais 1 dia, de fato. E tive afinal que me acostumar à ideia. Mas pensei ainda: "a exposição fica até 19 de setembro. Será que até lá não daria para voltarmos?" e voltamos a Fortaleza.

Essa possibilidade ainda vaga pelos meus pensamentos, agora há 1 mês que chegamos, e faltando 1 mês para encerrar-se a exposição. Mas agora vejo que não é assim tão simples, mesmo os preços dos voos e hospedagem estando mais baratos, uma viagem é sempre uma viagem. Sempre há gastos, e já gastamos significativamente para poder ir pela primeira vez ao Anima Mundi. Só posso esperar que, terminada a exposição no Rio, Ziraldo leve os "Zeróis" para outros cantos do Brasil. Quem sabe eles chegam por aqui, em Fortaleza? É um pouco improvável, sim, mas não impossível.

Ah, agora algumas das telas que mais gostei, abaixo:









E algumas outras para ilustrar:
















É isso! foi mesmo muito legal ter podido estar nessa exposição e admirar essa nova empreitada deste grande artista que é o Ziraldo. Ah, para quem não sabe, esta não é a primeira vez que ele mostra seu lado pintor, pois já fez um belíssimo mural no Canecão, lá por volta dos anos 60. Vejam mais sobre isso nesta postagem no blog do próprio Ziraldo (que também vale a pena acompanhar). Voltando à exposição presente, meu irmão, que também é pintor, adorou as telas, também, e até teceu comentários bem técnicos a algumas.

Se você mora no Rio e ainda não foi dar uma olhada, não deixe passar essa oportunidade. Fica no CCBB até o dia 19 de setembro!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Anima Mundi 2010 (V - Galeria Animada)


As últimas duas postagens desta série sobre o Anima Mundi 2010 vão ser focadas nos curtas em si, e, para começar, falarei um pouco sobre a sessão Galeria Animada, onde estavam os filmes experimentais, inclusive o Linhas e Espirais, de meu irmão Diego.

Mais uma vez, vou repetir o texto abaixo, uma definição deste espaço do Anima Mundi, que já citei em outras postagens, caso alguém não tenha visto (as palavras são do guia de programação do festival):

Galeria Animada

Mostra de filmes que desafiam e/ou inovam os formatos tradicionais, com experimentações no campo da estética, do roteiro e da percepção da linguagem da animação.

A Galeria Anima Mundi permite ao público a apreciação destas obras em exibições contínuas, num espaço diferenciado com áudio e vídeo de qualidade.

Essa é a proposta da sessão Galeria, que carrega em si uma densidade bastante única, por abranger os trabalhos com visões mais livres, mais soltas. Técnicas variadas foram usadas, como stop-motion, recortes, 2D ou 3D, além de outras bem diferentes. Nenhum dos filmes mostrados participaria da mostra competitiva, é verdade, mas — como observei somente depois — eles foram os mais exibidos durante todo o festival, por estarem sempre em sessões contínuas.

- O Centro Cultural Correios, em uma das movimentadas tardes do festival.

As exibições aconteceram no CCC (Centro Cultural Correios), bem próximo aos outros locais já citados nas postagens anteriores desta série. Um prédio também em estilo clássico, bastante receptivo e agradável. Lá, além da Galeria, também aconteciam as mostras e exibições das sessões Futuro Animador, em um cinema, onde infelizmente, devido à pressa, só conhecemos através da porta de entrada =/

A passagem para a Galeria ficava bem ao lado. O áudio, como anunciado, era realmente muito bom, e o som saía livremente por fora da sala, que ficava aberta. Os ruídos, muitas vezes desconexos, acabavam chamando mais a atenção das pessoas que circulavam por ali, e elas entravam para ver do que se tratava.

Devo dizer, porém, que a Galeria Animada me decepcionou um pouco. Não pelo conteúdo, que foi belíssimo, como mostrarei ainda nessa postagem, mas pela estrutura da sala. Achávamos, eu e Diego, que cada filme teria uma projeção individual, que pudesse ser quase apreciada como quem aprecia um quadro em uma parede. Pelo que soubemos depois, era assim que os organizadores gostariam de ter feito, mas por alguns contratempos, não foi possível. Então, uma sala de tamanho médio abrigou a Galeria. Uma projeção foi posta no centro, ladeada de proteções contra a luz, e dois bancos largos foram colocados diante dela, encostados na parede. Luzes apagadas, e os filmes iam sendo exibidos, um após o outro, das 11:30 da manhã às 19:30 da noite, sem interrupção.

O problema, a meu ver, é a fraca estrutura da sala para se comportar muitas pessoas. O banco do fundo era rapidamente tomado, e o outro trazia além do assento um certo dilema: atrapalhar as pessoas sentadas atrás, pois não havia desnível no piso para essa compensação. Sei que as galerias são normalmente assim, mas nesse caso, onde se teria que passar várias horas sentado, não deu muito certo. Muita gente se aproximava, espiava a tela por alguns minutos, e saia logo em seguida. Isso também se devia, claro, ao tema dos filmes, que fugiam ao convencional. Mas os interessados tinham que esperar vários minutos em pé, até vagar um lugar no banco da parede. Algumas crianças ainda improvisavam lugares no chão, e assim os filmes iam sendo exibidos.

Um aviso de silêncio ainda podia ser visto à entrada. Mas muitos, a começar pelos próprios seguranças do local, pareciam ignorar essa regra, e passavam para lá e para cá (a sala tinha uma ligação a outra área do prédio) falando alto, sem se importar com quem tentava assistir aos filmes. No geral, ficou bem evidente que o ambiente era meio improvisado, e mesmo assim conseguiu atrair um bom público durante todos os dias, principalmente nos últimos.

Nós bem que tentamos, mas não conseguimos assistir a todos os filmes! Somando-se todos os 21 curtas, resultava mais de 2 horas! Na correria com as outras atividades do Anima Mundi, era difícil achar esse tempo. Assim, íamos lá apenas em breves intervalos, uns 15 ou 30 minutos, para ter uma ideia do que era mostrado. Felizmente, em uma dessas ocasiões, já nos últimos dias, vimos o Linhas ser exibido! A qualidade, segundo Diego estava boa, mas não perfeita, com algumas falhas nas cores. Aproveitei para tirar algumas fotos, e até nos surpreendemos quando vimos outra pessoa, das que lá estavam na hora, também com uma máquina em punho, fotografando!

Seguem algumas das fotos que fiz na exibição que assistimos do Linhas:







E abaixo, uma lista com os 21 filmes exibidos na sessão:


Trois Quatre

Blanc
2010 / França


Shushuka no sampo

Akiko Omi
2010 / Japão


ReSemble

Aaron Thomas
2010 / Estados Unidos


Pipoca

Bruno Mazzilli
2010 / Brasil


Linhas e Espirais

Diego Akel
2010 / Brasil


Improvisação Sobre um Tema Secreto

Juliana Rabello Machado
2010 / Brasil


Unicycle Film

Thomas Hicks
2010 / Reino Unido


Eleven in Motion

Patrick Jenkins; Richard Reeves; Lisa Morse; Pasquale LaMonatgna; Elise Simard; Nick Fox-Gieg; Rick Raxlen; Ellen Besen; Craig Marshall; Steven Woloshen; Félix Dufour-Laperrière; Félix Dufour-Laperrière
2010 / Canadá


Airport Tunnel

Vítor Hugo
2010 / Portugal


Hexaemeron

Marcin Dabrowski
2010 / Polônia


Granica

Eni Brandner
2010 / Áustria


Optical Percussion

Gerd Gockell
2010 / Alemanha; Suiça


Fouding or not Fouding

Youlia Rainous
2010 / França


Je Criais Contre la Vie. Ou Pour Elle

Vergine Keaton
2010 / França


Voyage

Olga Komosko
2010 / Israel


Part Blue

YungSung Song
2010 / Japão


Loom

Salh Diab e Yoni Gueta
2010 / Israel


Deux Regards

Kangmin Kim
2010 / Estados Unidos; Coreia do Sul


o--- ---o

Adrian Garcia
2010 / Estados Unidos


LoopLoop

Patrick Bergeron
2010 / Canadá


Flesh Color

Masahiko Adachi
2010 / Japão



E para finalizar, alguns dos filmes! Vejam!


Trois, quatre - Blanc - França - 3m



Resemble - Aaron Thomas - EUA - 3m 55s



LoopLoop - Patrick Bergeron - Canadá - 5m



Loom - Salh Diab; Yoni Gueta - Israel - 23m


- Um trecho do espetacular Loom, um dos filmes mais longos da sessão, com 23 minutos de duração.


Improvisação sobre um tema secreto - Juliana Rabello Machado - Brasil - 1m 54s



Deux Regards - Kangmin Kim - EUA; Coreia do Sul - 3m




Airport Tunnel - Vítor Hugo - Portugal - 4m 37s



Linhas e Espirais - Diego Akel - Brasil - 2m 16s





Unicycle Film - Thomas Hicks, Reino Unido - 5m 50s

Flesh Color - Masahiko Adachi, Japão - 4m 10s


Apesar de não termos usufruído dessa sessão tanto quanto gostaríamos, foi muito bacana ver filmes como estes lá no Anima Mundi. Um material rico, inspirador, ora inquietante, ora fascinante. Mais legal ainda foi ver o Linhas e Espirais lado a lado com estas grandes produções internacionais. Mais uma experiência gratificante deste grande festival! A ideia desta postagem é fazer com que todos sintam um pouco da atmosfera que foi a Galeria Animada =)

Bom, na próxima postagem da série Anima Mundi 2010 — a última — vou falar um pouco sobre os demais curtas, das sessões competitivas, exibidos no evento (os que pudemos assistir, é claro), e também sobre os longas. Fiquem de olho!

Veja a parte VI (Exibições), a última dessa série, clicando aqui.